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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Dizia o Belmiro, que tardando-lhe os moldes encomendados para Lisboa, cerca de ano, e estando os antigos já muito vistos, ele se propusera a fazer novos, e pedia indulgência para os seus humildes esboços, filhos só da boa-vontade. 


VII 

 

O CAIPORA QUE FOI A CAUSA DE TODA A 

EMBRULHADA DA EXCOMUNHÃO 

 

Certa manhã, andava o Ivo a pautear com o nariz ao vento pelas margens da Lagoa das Marrecas, espantando os irerês e colhendo flores para as copiar à têmpera, lá na tenda do Belmiro. 

Cobria a Lagoa das Marrecas a rechã, onde corre hoje a rua do mesmo nome, até as fraldas dos três Outeiros do Desterro, do Carmo e do Castelo, entre os quais se derramava como acolchoado de um divã, cujo recosto formassem as verdes encostas das colinas. 

O caminho da cidade cortava pela frente da Ermida, pequena capela da invocação de N. S. da Ajuda, construída no lugar onde faz esquina agora a Rua da Guarda Velha, que não passava então de um carreiro. Serpejando pela falda do Outeiro do Carmo, na direção que ainda hoje tem a Rua dos Barbonos, seguia pela frente do Hospício dos Barbadinhos, e pouco adiante bifurcava-se. 

Uma das voltas, cortando pelas abas do Monte do Desterro, era o caminho chamado de MataCavalos, por onde se saía da cidade para o interior. Contornando a quinta das Mangueiras, situada em um espigão do morro, a outra volta subia para a Carioca, encontrando à esquerda com uma vereda que descia para a banda do Outeiro da Glória. 

Estava o Ivo na encruzilhada, quando ouviu uns apitos como de sabiá que salta de ramo em ramo, e antes que pudesse imaginar donde saíam, apareceu-lhe em frente uma menina que vinha pelo caminho da Carioca asoquilipe, ora sobre um, ora sobre outro pé, com os cabelos ao vento, e a saia rocegada por causa do orvalho. 

Tinha a travessa menina um rostinho de alfenim, com sobrancelhas de til, e lábios de pincel, como não era capaz de tirá-los sobre o marfim, em laivos de nácar, o mais delicado pintor. Embutia-se aquela figura angélica numa como redoma que lhe formavam as ondas bastas dos cabelos cendrados a borbulharem em cachos dos bordos de uma pequena coifa de seda escarlate. 

Esbarrando com o Ivo, soltou a menina um grito de susto, e fazendo sem querer uma pirueta que meteria inveja a um dançarino famoso, desandou a correr pelo caminho em que vinha. — Que foi, Marta? perguntou uma voz de mulher. 

— Senhora mãe, um caipora! 

— Ave, Maria! Minha mãe de Deus!... 

— Ai, que susto! murmurava a menina estremecendo ainda como uma rola. 

— Como há de ser, Sr. Sebastião Freire? Eu aí não passo, nem que me arrastem. Então na encruzilhada!... 

— Que partes são estas agora, Sr.ª Miquelina dos Anjos; não parece mulher de quem é, acudiu a voz de meio bordão do nosso Freire. 

— Mas homem, se não está em mim. 

— São visagens da pequena. 

— Eu vi, senhor pai, acudiu Marta. 

— Havia de ser algum macaco, ainda que já eles não andam por estas paragens, tornou o tabelião. 

— Reparaste no pé, menina? Tinha unha de... daquele bicho? 

— Isso não tinha; mas olhava para a gente com uns modos. 

— Fez-te uma careta, não foi? É macaco, não tem que ver. 

— Sempre era bom esperar mais... 

— Faz-se tarde, e já devíamos estar chegados. Ande daí, mulher!  

Resolveu-se afinal a Sr.ª Miquelina dos Anjos a passar; mas por cautela ia rezando à meia voz o magnificat, e ainda era preciso que o Sebastião lhe desse uma demão, empurrando-a às guinadas com o cotovelo. 

A Marta, essa ia adiante, e embora se embiocasse toda, lidando por esconder-se dentro em si mesma a uns olhos que estava entrevendo por toda a parte e em cada folha, contudo não mostrava lá muito medo do caipora. 

Ivo, surpresa da encantadora aparição, ia persegui-la com o pensamento já todo cheio de ninfas e dríades, quando a voz grossa do tabelião espancou-lhe as doces ilusões, e arrojou-o da mitologia à realidade. 

Escondeu-se atrás do tronco de uma paneira, que ainda as havia nessa altura, e espiou a passagem do tabelião que voltava com a família de uma quinta da Carioca onde fora passar o domingo, e pousara para tornar com a fresca da manhã, pois estavam na força do verão. 

Fez-se a passagem do ponto arriscado, que era justamente a encruzilhada, sem o menor contratempo: a viração serenara; nem um ramo farfalhou, nem uma folha estalou no mato. Já a Miquelina respirava, quando ouviu-se ali perto, dois passos atrás, um estrídulo, que aos ouvidos da mulher soou como uma gargalhada de bruxo. 

(continua...)

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