Por Machado de Assis (1872)
— Venho para cobrar a letra que me deve, e que se vence amanhã.
— Bem, disse Coelho, venha amanhã.
— A que horas?
— Às dez horas.
— Cá estarei. Passe bem.
— Passe bem.
E saiu Alves.
Coelho correu à casa do sogro.
Explicou-lhe com franqueza que devia pagar uma letra.
Ypsilanti respondeu:
— Não lhe posso dar o dinheiro que me pede.
— Mas, senhor...
— Não lhe posso dar o dinheiro que me pede.
Coelho começou a irritar-se.
— Mas, senhor, esta dívida de honra, fi-la para salvar o decoro do seu nome. E explicou-lhe tudo.
— Céus! exclamou o velho; será verdade isso que me diz?
— Puríssima verdade.
Ypsilanti levantou os braços com desespero:
— Oh! meu Deus! meu Deus!
— Que é?
— Mas eu não tenho dinheiro; não sou rico como o senhor pensa; todos os meus haveres andam por oito contos.
— Ah! exclamou o rapaz petrificado.
Imagina-se o desespero do pobre rapaz quando soube do logro em que caíra. E o logro era talvez o menos; o risco em que se achava com a dívida que contraíra era o pior — sem falar na que fez para montar a casa.
Correu para a casa furioso; a mulher foi a primeira que pagou as favas. Tudo se arranjou entretanto. Alves, sabedor das desgraças de Coelho, pela confissão que este lhe fez, houve por bem perdoar-lhe a dívida.
— Pago com dez contos, disse ele, o risco de que o senhor me livrou. Coelho estava desesperado; julgou ter dado um grande golpe na má sorte financeira, e fora vencido por ela; estava mais pobre que dantes. Ficara-lhe só o amor. Um dia, seis meses depois de casado, e feliz, contou ele à mulher toda a cena da carteira, e perguntou-lhe por que razão o aceitara tão facilmente para marido, sabendo que não era ele o namorado.
Lúcia respondeu ingenuamente:
— Porque você era mais bonito.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quem não quer ser lobo.... 1872. Publicado originalmente em periódico.