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#Comédias#Literatura Brasileira

O caminho da porta

Por Machado de Assis (1862)

Não foi preciso. Quando larguei as mãos da fera, um cadáver pesado e tépido caiu no chão.

CARLOTA

Ora, mas isto é a história de um quadro da Academia!

VALENTIM

Só há um exemplar de cada feito heróico?

CARLOTA

Pois, deveras, matou uma onça?

VALENTIM

Conservo-lhe a pele como uma relíquia preciosa.

CARLOTA

É valente; mas pensando bem não sei de que vale ser valente.

VALENTIM

Oh!

CARLOTA

Palavra que não sei. Essa valentia fora do comum não é dos nossos dias. As proezas tiveram seu tempo; não me entusiasma essa luta do homem com a fera, que nos aproxima dos tempos bárbaros da humanidade. Compreendo agora a razão por que usa dos perfumes mais ativos; é para disfarçar o cheiro dos filhos do mato, que naturalmente há de ter encontrado mais de uma vez. Faz bem.

VALENTIM

Fera verdadeira é a que V. Exa. me atira com esse riso sarcástico. O que pensa então que possa excitar o entusiasmo?

CARLOTA

Ora, muita coisa! Não o entusiasmo dos heróis de Homero; um entusiasmo mais condigno

nos nossos tempos. Não precisa ultrapassar as portas da cidade para ganhar títulos à admiração dos homens.

VALENTIM

V. Exa. acredita que seja uma verdade o aperfeiçoamento moral dos homens na vida das cidades?

CARLOTA

Acredito.

VALENTIM

Pois acredita mal. A vida das cidades estraga os sentimentos. Aqueles que eu pude ganhar e entreter na assistência das florestas, perdi-os depois que entrei na vida tumultuária das cidades. V. Exa. ainda não conhece as mais verdadeiras opiniões.

CARLOTA

Dar-se-á caso que venha pregar contra o amor?...

VALENTIM

O amor! V. Exa. pronuncia essa palavra com uma veneração que parece estar falando de coisas sagradas! Ignora que o amor é uma invenção humana?

CARLOTA

Oh!

VALENTIM

Os homens, que inventaram tanta coisa, inventaram também este sentimento. Para dar justificação moral à união dos sexos inventou-se o amor, como se inventou o casamento para dar-lhe justificação legal. Esses pretextos, com o andar do tempo, tornaram-se motivos. Eis o que é o amor!

CARLOTA

É mesmo o senhor quem me fala assim?

VALENTIM

Eu mesmo.

CARLOTA

Não parece. Como pensa a respeito das mulheres?

VALENTIM

Aí é mais difícil. Penso muita coisa e não penso nada. Não sei como avaliar essa outra parte da humanidade extraída das costelas de Adão. Quem pode pôr leis ao mar? É o mesmo com as mulheres. O melhor é navegar descuidadamente, a pano largo.

CARLOTA

Isso é leviandade.

VALENTIM

Oh! minha senhora!

CARLOTA

Chamo leviandade para não chamar despeito.

VALENTIM

Então há muito tempo que sou leviano ou ando despeitado, porque esta é a minha opinião de longos anos. Pois ainda acredita na afeição íntima entre a descrença masculina e... dá licença? A leviandade feminina?

CARLOTA

É um homem perdido, Sr. Valentim. Ainda há santas afeições, crenças nos homens, e juízo nas mulheres. Não queira tirar a prova real pelas exceções. Some a regra geral e há de ver. Ah! mas agora percebo!

VALENTIM

O quê?

CARLOTA

(rindo)

Ah! ah! ah! Ouça muito baixinho, para que nem as paredes possam ouvir: este não é ainda o caminho do meu coração, nem a valentia, tampouco.

VALENTIM

Ah! tanto melhor! Volto ao ponto da partida e desisto da glória...

CARLOTA

Desanima? (entra o Doutor)

VALENTIM

Dou-me por satisfeito. Mas já se vê, como cavalheiro, sem rancor nem hostilidade. (entra Inocêncio)

CARLOTA

É arriscar-se a novas tentativas.

VALENTIM

Não.

CARLOTA

Não seja vaidoso. Está certo?

VALENTIM

Estou. E a razão é esta: quando não se pode atinar com o caminho do coração toma-se o caminho da porta. (cumprimenta e dirige-separa a porta)

CARLOTA

Ah - Pois que vá! - Estava aí Sr. Doutor. Tome cadeira.

DOUTOR

(baixo)

Com uma advertência: Há muito tempo que mo fui pelo caminho da porta.

CARLOTA

(séria)

Prepararam ambos esta comédia?

DOUTOR

Comédia, com efeito, cuja moralidade Valentim incumbiu-se de resumir: - Quando não se pode atinar com o caminho do coração, deve-se tomar sem demora o caminho da porta. (saem o Doutor e Valentim)

CARLOTA

(vendo Inocêncio)

Pode sentar-se. (indica-lhe uma cadeira. Risonha) Como passou?

INOCÊNCIO

(senta-se meio desconfiado, mas levanta-se logo)

Perdão: eu também vou pelo caminho da porta! (sai. Carlota atravessa arrebatadamente a cena. Cai o Pano)

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