Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Este Salustiano é um bom tipo! observou o menino, enchendo as algibeiras de frutas e doces.

- Ora, quando o diretor não pode com o senhor eu é que hei de poder...

E, querendo fazer-se sério de novo:

- Vamos! Vamos! Aviem-se, que está tocando a sineta pela segunda vez!

- Não vou à mesa, respondeu Teobaldo - daqui vou para o jardim; diga ao doutor que estamos indispostos. E, voltando-se para o Coruja.

– Oh! André! toma conta de tudo isso e vamos lá para baixo ouvir a flauta do Caixadóculos.

V

Desde então os dois meninos fizeram-se amigos.

Foi justamente a grande distância, o contraste, que os separava, que os uniu um ao outro.

As extremidades tocavam-se.

Teobaldo era detestado pelos colegas por ser muito desensofrido e petulante; o outro por ser muito casmurro e concentrado. O esquisitão e o travesso tinham, pois, esse ponto de contato - o isolamento. Achavam--se no mesmo ponto de abandono, viram-se companheiros de solidão, e é natural que se compreendessem e que se tornassem afinal amigos inseparáveis.

Uma vez reunidos, completavam-se perfeitamente. Cada um dispunha daquilo que faltava no outro; Teobaldo tinha a compreensão fácil, a inteligência pronta; Coruja o método, e a perseverança no estudo; um era rico; o outro econômico; um era bonito, débil e atrevido; o outro feio, prudente e forte. Ligados, possuiriam tudo.

E, com o correr do ano, por tal forma se foram estreitando entre os dois os laços da confiança e da amizade, que afinal nenhum deles nada fazia sem consultar o camarada.

Estudavam juntos e juntos se assentavam nas aulas e à mesa.

Por fim, era já o André quem se encarregava de estudar pelo Teobaldo; era quem resolvia os problemas algébricos que lhe passavam os professores; era quem lhe arranjava os temas de latim e o único que se dava à maçada de procurar significados no dicionário Em compensação o outro, a quem faltava paciência para tudo isso, punha os seus livros, a sua vivacidade intelectual à disposição do amigo, e dividia com este os presentes e até o dinheiro enviado pela família, sem contar as regalias que a sua amizade proporcionava ao Coruja, fazendo-o participar da ilimitada consideração que lhe rendia todo o pessoal do colégio, desde o diretor ao cozinheiro.

De todas as gentilezas de Teobaldo, a que então mais impressionara ao amigo foi o presente de uma flauta e de um tratado de música, que lhe fez aquele volta de um passeio com o diretor do colégio.

Coruja trabalhava à sua mesa de estudo quando o outro entrou da rua.

- Trago-te isto, disse-lhe Teobaldo apresentando-lhe os objetos que comprara.

- Uma flauta! balbuciou André no auge da comoção. - Uma flauta!

- Vê se está a teu gosto.

Coruja ergueu-se da cadeira, tomou nas mão instrumento, e experimentou-lhe o sopro, e ficou tão satisfeito com o presente do amigo que não encontrou uma só palavra para lho agradecer.

- Que fazias tu? perguntou-lhe Teobaldo.

Mas correu logo os olhos pelo trabalho que estava sobre a mesa e acrescentou: - Ah! É ainda o tal catálogo!

- É exato.

- Gabo-te a paciência! Não seria eu!

E, tomando a bocejar uma das folhas escritas o outro tinha defronte de si.

- Isto vem a ser?...

- Isto é a numeração das obras, respondeu André.

- Ah! Vai numerá-las...

- Vou. Para facilitar.

- E isto aqui? interrogou Teobaldo, tomando outra folha de papel. - Isto é uma lista dos títulos das obras.

- E isto?

- O nome dos autores.

- Depois reúnes tudo?

- Reuno.

- Melhor seria fazer tudo de uma mais prático. Assim, não é tão cedo que te verás livre dessa maçada!

- Há de ficar pronto.

Mas estava escrito que o célebre catálogo não teria de ficar acabado nas férias deste ano.

Urna circunstância extraordinária veio alterar completamente os planos do autor.

Logo ao entrar das férias, o pai de Teobaldo apresentou-se no colégio para ir em pessoa buscar o filho.

Entrou desembaraçadamente a gritar pelo rapaz desde a porta da rua.

- Ah! É V. Exa. exclamou o diretor com espalhafato, logo que o viu. E correu a tornar-lhe o chapéu e a bengala.

- Bela surpresa! Bela surpresa, Sr. Barão! Tenha a bondade de entrar para o escritório!

- Vim buscar o rapaz. Como vai ele?

- Muito bem, muito bem.! Vou chamá-lo no mesmo instante. Tenha a bondade V. Exa. de esperar alguns segundos.

E, como se a solicitude lhe dera sebo às canelas, o Dr. Mosquito desapareceu mais ligeiro que um rato.

O Sr. Barão do Palmar, Emílio Henrique de Albuquerque, era ainda nos seus cinqüenta e tantos anos uma bela figura de homem.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...89101112...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →