Por Machado de Assis (1868)
- Escuta. Aceito D. Adelaide, mediante uma condição; é que ela queira esperar algum tempo, a fim de que eu comece a minha vida. Pretendo ir ao governo e pedir um lugar qualquer, se é que ainda me lembro do que aprendi na escola... Apenas tenha começado a vida, cá virei buscá-la. Queres?
- Se ela consentir, disse Vasconcelos abraçando esta tábua de salvação, é cousa decidida.
Gomes continuou:
- Bem, falarás nisso amanhã, e mandar-me-ás resposta. Ah! se eu tivesse ainda a minha fortuna! Era agora que eu queria provar-te a minha estima!
- Bem, ficamos nisto.
- Espero a tua resposta.
E despediram-se.
Vasconcelos ficou fazendo esta reflexão:
"De tudo quanto ele disse só acredito que já não tem nada. Mas é inútil esperar: duro com duro não faz bom muro."
Pela sua parte Gomes desceu a escada dizendo consigo:
"O que acho singular é que estando pobre viesse dizer-mo assim tão antecipadamente quando eu estava caído. Mas esperarás debalde: duas metades de cavalo não fazem um cavalo."
Vasconcelos desceu.
A sua intenção era comunicar a Augusta o resultado da conversa com o pretendente. Uma cousa, porém, o embaraçava: era a insistência de Augusta em não consentir no casamento de Adelaide, sem dar nenhuma razão da recusa.
Ia pensando nisto, quando, ao atravessar a sala de espera, ouviu vozes na sala de visitas.
Era Augusta que conversava com Carlota.
Ia entrar quando estas palavras lhe chegaram ao ouvido:
- Mas Adelaide é muito criança.
Era a voz de Augusta.
- Criança! disse Carlota.
- Sim; não está em idade de casar.
- Mas eu no teu caso não punha embargos ao casamento, ainda que fosse daqui a alguns meses, porque o Gomes não me parece mau rapaz...
- Não é; mas enfim eu não quero que Adelaide se case.
Vasconcelos colou o ouvido à fechadura, e temia perder uma só palavra do diálogo.
- O que eu não compreendo, disse Carlota, é a tua insistência. Mais tarde ou mais cedo Adelaide há de vir a casar-se.
- Oh! o mais tarde possível, disse Augusta.
Houve um silêncio.
Vasconcelos estava impaciente.
- Ah! continuou Augusta, se soubesses o terror que me dá a idéia do casamento de Adelaide...
- Por que, meu Deus?
- Por que, Carlota? Tu pensas em tudo, menos numa cousa. Eu tenho medo por causa dos filhos dela que serão meus netos! A idéia de ser avó é horrível, Carlota.
Vasconcelos respirou, e abriu a porta.
- Ah! disse Augusta.
Vasconcelos cumprimentou Carlota, e apenas esta saiu, voltou-se para a mulher, e disse:
- Ouvi a tua conversa com aquela mulher...
- Não era segredo; mas... que ouviste?
Vasconcelos respondeu sorrindo:
- Ouvi a causa dos teus terrores. Não cuidei nunca que o amor da própria beleza pudesse levar a tamanho egoísmo. O casamento com o Gomes não se realiza; mas se Adelaide amar alguém, não sei como lhe recusaremos o nosso consentimento...
- Até lá... esperemos, respondeu Augusta.
A conversa parou nisto; porque aqueles dous consortes distanciavam-se muito; um tinha a cabeça nos prazeres ruidosos da mocidade, ao passo que a outra meditava exclusivamente em si.
No dia seguinte Gomes recebeu uma carta de Vasconcelos concebida nestes termos:
Meu Gomes.
Ocorre uma circunstância inesperada; é que Adelaide não quer casar. Gastei a minha lógica, mas não alcancei convencê-la.
Teu Vasconcelos.
Gomes dobrou a carta e acendeu com ela um charuto, e começou a fumar fazendo esta reflexão profunda:
"Onde acharei eu uma herdeira que me queira por marido?" Se alguém souber avise-o em tempo.
Depois do que acabamos de contar, Vasconcelos e Gomes encontram-se às vezes na rua ou no Alcazar; conversam, fumam, dão o braço um ao outro, exatamente como dous amigos, que nunca foram, ou como dous velhacos que são.
FIM
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.