Por Machado de Assis (1886)
Machado de Assis (1839–1908), expoente do Realismo brasileiro, publicou “O pai” originalmente no periódico Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, em 1866. O conto retrata, com tom moral e sentimental, a queda e redenção de uma jovem seduzida, exaltando o amor paterno, o trabalho e a reparação como caminhos de honra.
O pai vivia de hortelão; a filha vivia da costura; ambos viviam de uma esperança no futuro e de uma reparação do passado.
Tinha cinqüenta anos o pai. Os cabelos brancos caíam-lhe em flocos da cabeça como uma cascata e davam realce ao rosto severo, enérgico, mas ao mesmo tempo cheio de uma dor profunda e resignada. Os anos o tinham curvado um pouco; mas era esse o único vestígio do tempo. Os cabelos brancos e algumas rugas da cara tinham-lhe aparecido em poucos dias, não gradualmente, por uma transformação rápida, como se ali passasse um vento maldito e destruidor.
Os olhos profundos, serenos, perscrutadores, pousavam em alguém como se foram os olhos da consciência; e ninguém os sofria por muito tempo, tal era a magia deles. Tinha a franqueza, sem ter a intimidade; não oferecia a casa a ninguém nem ia à casa alheia em ocasião alguma. Tinha fé nos homens, mas não a fé da credulidade cega; era uma fé que examinava, perscrutava, esmerilhava, não se fiava nas aparências, não se deixava fascinar pelos primeiros aspectos; quando acreditava em um homem tinha-lhe analisado o coração.
E, ainda assim, ninguém poderia contar a glória de lhe haver atravessado a soleira da porta. Dali para dentro não era já o mundo; era um lugar de penitência e de trabalho, onde nenhum olhar estranho podia penetrar; e, se nem o olhar, muito menos o pé. Duas criaturas únicas viviam ali, naquele ermo, contentes uma da outra, vivendo uma pela outra, aliadas ambas no serviço de um juramento de honra, de um dever de consciência: o pai e a filha.
A filha estava no verdor dos anos; vinte contava; vinte flores a julgar pela beleza e pela graça que a distinguiam; vinte lágrimas a julgar pela tristeza e pela resignação que de toda a sua figura ressumbrava.
Triste e resignada, como era, tinha no rosto impressa a consciência de uma missão que desempenhava; a coragem de um dever que cumpria. O trabalho ainda não pudera murchar a flor da beleza nem diminuir-lhe a exuberância da vida; mas via-se que o olhar dela reproduzia um cuidado exclusivo, e que, nesse cuidado, deixava correr os dias sem se lhe dar nem da vida nem da beleza.
Por quê?
Esta pergunta de natural curiosidade e legítima admiração era a que sempre fazia um poeta, não um poeta moço, mas um poeta velho, um poeta de cinqüenta anos, vizinho daquela família singular.
Não menos que aos outros, fizera impressão ao poeta aquela existência solitária, silenciosa, próxima talvez de Deus, mas com certeza arredada do mundo. O poeta não era menos solitário que os dois, e para isso era poeta velho; isto é, tinha o direito de conversar com o mundo de Deus como poeta, e tinha o dever de conversar o menos possível com o mundo dos homens, como velho. Na idade a que chegara pôde conservar o viço da impressão e o desgosto das coisas mundanas; fora um dos enteados da glória, não encontrando para os auspícios de sua musa mais do que um eco vão e negativo. Isolou-se, em vez de falar no mundo com a língua que Deus lhe dera, voltou-se para Deus, para dizer, como Davi: “.
Tinha dois livros: a Bíblia e Tasso; dois amigos: um criado e um cão. O criado chamava se Elói; Diógenes chamava-se o cão, que era a terceira pessoa daquela trindade solitária. Muito tempo, meses, anos, viveram estas duas famílias, metidas no seu isolamento, sem se conhecerem, sem se falarem, vizinhas uma de outra, ambas parecendo tão próprias para formar uma só.
O hortelão saia poucas vezes; trabalhava desde a alva até o ocaso, ao lado da filha, que igualmente trabalhava nas suas obras de costura. Quando acontecia sair o pai, a casa, se era silenciosa, tomava aspecto tumular, e então nem um som saía dali de dentro. Ora, um dia em que todos estavam em casa, aconteceu andar o poeta e mais o cão a passear no jardim que confinava com a chacarinha do hortelão.
O poeta ia cismando, mais ermo de si do que nunca, quando deu por falta do cão; Diógenes tinha passado para a horta do hortelão atraído não sei por quê; o poeta chamou por ele, aproximou-se da pequena cerca e viu o vizinho ocupado em amimar Diógenes.
— Ah!
O hortelão voltou-se e deu com o poeta.
— Tinha saltado para cá...
— É um travesso. Fez-lhe mal às plantações?
— Oh! não!
— Diógenes!
O cão saltou a cerca e foi fazer festas ao dono. O poeta e o hortelão cumprimentaram-se e nada mais se passou naquele dia entre ambos.
Tal foi o primeiro encontro entre os dois vizinhos.
Mas este encontro trouxe outros, e a conformidade da vida e dos sentimentos dos dois velhos completou uma intimidade que dentro de pouco tempo se tornou perfeita. Era o primeiro a quem o velho hortelão tinha aberto completamente a sua alma e a sua vida. Ainda assim, só o fez depois que uma longa observação trouxe-lhe em resultado o conhecimento da existência retirada do poeta.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.