Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro apresenta um percurso descritivo pela capital do século XIX, conduzindo o leitor por ruas, edifícios, praças e paisagens marcantes da cidade. O texto combina observação, memória e comentários históricos, revelando costumes, transformações urbanas e aspectos da vida cotidiana. A obra funciona como um guia literário, oferecendo um retrato vivo do Rio de Janeiro de sua época.
Joaquim Manuel de Macedo
ASTROJILDO PEREIRA
NASCIDO a 24 de junho de 1820, na Vila de Itaboraí, perto da
Corte, aqui se estabeleceu Joaquim Manuel de Macedo, desde jovem, aqui
estudando, aqui se formando, aqui vivendo permanentemente e aqui falecendo, a
11 de abril de 1882. Médico, professor, jornalista, político militante, copiosa
e variada é a sua obra de romancista, comediógrafo, o poeta, folhetinista,
historiador, alcançando a sua bibliografia mais de quarenta volumes publicados,
além de numerável colaboração esparsa em jornais e revistas. Alguns dos seus
romances, como se sabe, desfrutaram e ainda desfrutam de larga popularidade.
Nem todos – por exemplo: O Rio do Quarto – tem como cenário o Rio de Janeiro; e
um deles, Mulheres de Mantilha, pertence ao gênero histórico, desenvolvendo-se
a sua ação no Rio colonial do século XVIII. Outros – é o caso das Memórias do
Sobrinho do meu Tio – são mais panfletos políticos... intencionais e
combativos, e Macedo não possuía força bastante para poder convertê-los em
verdadeiros romances. O que ele deixou de melhor, ou de menos mau, em matéria
de romance, é assim mesmo vazado em geral nos moldes do mais delambido
romantismo, e a sua leitura nos parece hoje quase sempre demasiado melosa e
enjoativa. Todavia, devemos reconhecer em alguns deles, aqui e ali, uma tal ou
qual vivacidade na maneira espontânea e corrente de conduzir a narrativa;
vivacidade, aliás, mais de folhetinista do que de romancista. Sejam, porém,
quais forem as restrições que possamos fazer ao romancista, não podemos negar a
sua importância como atilado cronista dos costumes cariocas – fluminenses, como
se dizia então – durante boa parte do Segundo Reinado.
* * *
Reli agora A Moreninha. Não me lembra senão muito vagamente a impressão que me deixou a sua primeira leitura, isto há mais de trinta anos; desta vez, porém, a coisa foi bem difícil. Tentei reler também O Moço Loiro, duas vezes e meia mais longo que A Moreninha: não pude ir além da metade do primeiro volume. Tudo aquilo é oleogravura de qualidade bastante ruim; e então os diálogos, e principalmente os diálogos de amor, emitidos em falsete, soam falso demais. Certamente, não podemos esquecer que se trata das primeiras tentativas não só do autor, como também do próprio romance brasileiro, e que tanto A Moreninha quanto o O Moço Loiro representam já um pequeno progresso em relação a tentativas anteriores – e até posteriores – de outros romancistas da fase romântica. Mas não podemos tampouco esquecer que Joaquim Manuel de Macedo pouco progrediu em relação a si mesmo. Os seus últimos romances e novelas foram escritos passados cinco lustros depois de publicada A Moreninha – e os seus méritos de romancista não ficaram muito acrescidos com eles. Por exemplo, duas dessas novelas – Os Quatro Pontos Cardeais e A Misteriosa – que eu não conhecia e li agora, começam menos mal, com certa desenvoltura e com o falsete dos diálogos apreciavelmente reduzido; mas do meio para o fim a coisa desanda que não tem mais medida: situações forçadas, arranjos de carpintaria, mistificações, etc., etc. Ora, estas duas novelas foram escritas depois de 1870, muito depois das Memórias de um Sargento de Milícias e de alguns dos principais romances de Alencar, e quando Machado de Assis já aparecia e se firmava como grande prosador, quer no folhetim, quer no conto. A propósito, recordo a opinião de Sílvio Romero, ao meu ver errônea, segundo a qual não seria difícil encontrar algum reflexo do Macedo de a A Moreninha e de O Moço Loiro no Machado de A Ressurreição e de A Mão e a Luva. Pelo contrário, creio eu, é no Macedo dos últimos anos que poderemos vislumbrar um ou outro reflexo do jeito e da intenção de Machado. Tal é, pelo menos, a impressão imediata que me ficou de certas passagens da novela Os Quatro Pontos Cardeais, conforme se pode ver na seguinte caracterização de Estanislau, o Alma-fechada: “Os mais severos dizem dele: – É egoísta, mas homem de bem.” Ao que o romancista acrescentou: “Esta apreciação tem o defeito de parecer um pouco contraditória; nós, porém, vivemos no mundo das contradições.”
O Sr. Pedro Dantas, no seu excelente ensaio sobre o romance
brasileiro, chamou Joaquim Manuel de Macedo de “romancista de donzelas e para
donzelas”; acho a definição muito boa, sobretudo se dermos à palavra donzela,
um duplo significado, meio pejorativo, de donzelas de corpo e de espírito. O
que não padece dúvida, porém, é que Macedo, com todos os seus defeitos, ainda é
um “intérprete autorizado dos nossos sentimentos, cronista meticuloso e
fidedigno da nossa vida social nos meados do século passado”, para utilizar-me
da justa qualificação formulada por aquele crítico. E é nesta qualidade, como
disse de início, que o devemos incluir entre os romancistas da cidade.
A Moreninha, estréia em livro, de Macedo, saiu dos prelos em
1844, e O Moço Loiro no ano seguinte, 1845, e em ambos a ação é sempre “atual”,
isto é, decorre no próprio tempo em que eles se publicaram. De modo idêntico, a
ação de Os Quatro Pontos Cardeais e de A Misteriosa se passa na mesma época da
sua publicação em 1871. O material que vamos examinar se refere, por
conseguinte, ao período compreendido mais ou menos entre 1840 e 1870. Esta
discriminação de datas tem importância, evidentemente, porque nos permite
acompanhar as transformações operadas em certos hábitos e aspectos da cidade, e
bem assim a repercussão de certos acontecimentos sobre a sociedade fluminense
de então. Naturalmente, o Rio de Janeiro de 1870 já não é o mesmo de 1840, como
este já não é também o Rio de antes da Independência, aquele pandemônio de
acampamento assinalado por Spix e Martius. A capital do Império é um centro
político, econômico e intelectual em pleno desenvolvimento, e a sua fisionomia
social vai se transformando paralelamente.
A rica D. Maria do Sargento de Milícias andava de “ca
deirinha”; já os personagens de O Moço Loiro andam de “ônibus”,
democraticamente; e logo no início d’A Misteriosa vemos a Sílfide saltar de um
“bonde” na rua Gonçalves Dias, ainda mais democraticamente. No tempo de A
Moreninha, os sinos davam ainda o sinal de recolher às 10 horas da noite, coisa
incompreensível no tempo de A Misteriosa, com a cidade iluminada a gás.
Comparem-se as modas femininas; Macedo é sempre muito minucioso neste
particular. Uma das moças que aparecem na A Moreninha quase nem podia
sentar-se, tão atrapalhada se achava com a “coleção de saias, saiotes, vestidos
de baixo, e enorme variedade de enchimentos”, que lhe cobriam o corpo. A jovem
Honorina, de O Moço Loiro, comparece a um baile, e os seus requintes de
elegância deslumbram o romancista, que a observa dos pés à cabeça: “dois largos
bandós de lindos cabelos negros desciam até dois dedos abaixo das orelhas e
para trás se voltavam, indo suas extremidades perder-se por entre longas tranças
de perfeitíssimo trabalho, que se enroscavam terminando em cesta; uma grinalda
de flores brancas salteadas de pequeninos botões de rosa se entretecia nesse
belo tecido de madeixas; duas rosetas de brilhantes pendiam de suas orelhas;
nenhum enfeite, nenhum adorno ousara cair sobre seu colo que, nu, alvejava,
arredondado, virginal e puro; um vestido de finíssimo blonde, que deixava
transparecer o branco cetim que cobria o corpinho todo talhado em estreitas
pregas, que desenhavam elegantes formas, era debruado por uma longa fila de
flores semelhantes às dos cabelos, as quais ainda se deixavam de novo ver
formando uma cercadura em que acabavam as mangas curtas, justas, e singelas;
esse vestido cruelmente comprido para esconder dois pequenos pés calçando
sapatinhos de cetim, se terminava por uma simples barra bordada de branco; no
braço esquerdo da moça fulgia um bracelete de riquíssimos brilhantes; e enfim
suas mãos calçavam luvas de pelica branca, guarnecidas de arminho e com borlas
de seda frouxa.” Legítima descrição de crônica... Agora, a desconhecida de A
Misteriosa, em passeio pela cidade: “A Sílfide trazia à cabeça, pela frente, a
quarta parte de um chapelinho azul claro do qual vinham quase beijar-lhe a
fronte meia dúzia de margaridas, tão pendentes que pareciam estar dizendo
‘colhe-nos ou caímos!’ – e por detrás, uma enchente de anéis de ouro, uma cauda
de fios de ouro encaraco lados, que lhe descia pelas espáduas brancas a fazer
lembrar pó de arroz.” O vestido da misteriosa dama era muito complicado, afirma
o romancista, e acrescenta: “tenho-o impresso na imaginação a perseguir-me como
fantasma sinistro; mas não me é possível explicar de modo claro aquele
labirinto ornamentoso, em que me perdi; sei que havia vestido de caxemira
duplo, e cada qual de sua cor, e túnica ainda de outra cor, primeira saia com
folhos e franzidos de canudos, segunda saia de apanhados com cordões e borlas,
e além disso, vieses aqui, franjas ali, cabeças de passamanes acolá, o azul, o
encarnado, o preto, a misturarem-se... e um maldito corpinho afogado e as
mangas compridas a me esconderem o que eu desejava ver...” Remate do vestido:
“cinto de fita grossa com fivela grande, de aço.” E é precisamente sobre a moda
feminina reinante em 1871 que o novelista borda umas considerações
moralizantes, em que aponta a “escola filosófica do sensualismo” como
responsável pelos vestidos de saia arregaçada mostrando o pé, e prevê coisas
muito piores, pois a exibição dos pés até o tornozelo é ainda uma incompleta
vitória da filosofia sensualista, “que firmará o seu triunfo absoluto, quando
as senhoras, obedecendo ao império de nova moda, se mostrarem com o rosto sem
véu, e as pernas à mostra ao menos até à altura dos joelhos”. Vemos hoje que a
negra revisão do romancista se realizou de maneira cabal, com o mais absoluto
triunfo daquela escola filosófica.
Os primeiros personagens de O Moço Loiro que o autor nos
apresenta, rapazes da melhor sociedade fluminense, acham-se no restaurante de
famoso hotel da Rua Direita, e participam da exaltada discussão que ali se
travava – ali e em toda a cidade – entre delmastristas e candianistas, isto é,
entre os partidários da Delmastro e os da Candiani, duas cantarinas do teatro
lírico italiano, cujos espetáculos pode-se dizer que empolgavam e apaixonavam a
opinião pública. Conforme já tem sido observado, a predileção do público
fluminense pelo teatro se tornou uma das características da vida social de todo
o Segundo Reinado. Temos prova disso nas freqüentes referências ao teatro e à
gente de teatro – desde os grandes nomes da ópera e do drama até às alegres
francesas do Alcazar – que encontramos nas obras de ficção dos melhores
escritores desse período, quase todos, de resto, igualmente homens de teatro,
como é justa mente o caso de Macedo, dramaturgo e comediógrafo dos mais
aplaudidos. Na releitura e leitura que fiz agora dos dois romances e das duas
novelas, que estamos aqui percorrendo, marquei mais de uma passagem dessa
natureza. O primeiro capítulo de O Moço Loiro se intitula mesmo “Teatro
Italiano” e, tendo começado por aquela discussão no hotel da Rua Direita, transcorre
quase que até ao fim dentro do teatro onde se representava a Ana Bolena de
Donizetti. Nas páginas iniciais d’A Moreninha, os estudantes reunidos numa
“república” falam em assistir ao “primeiro drama novo que representar o nosso
João Caetano”. Estávamos na época do teatro supersério, quando só a tragédia
ousava fazer concorrência a ópera. Já no tempo de Os Quatro Pontos Cardeais e
de A Misteriosa a nota dominante, pelo menos entre certa camada de
freqüentadores de teatro, era fornecida pelo Alcazar, que deixou fama bastante
escandalosa nos anais da cidade.
Fora do teatro, a sociedade só podia normalmente se divertir
dentro de casa, nos saraus e partidas familiares, então muito mais numerosos e
freqüentes do que hoje, ao que suponho, e com certeza muito diferentes, sob
vários aspectos, dos de hoje. Dançava-se a quadrilha, a valsa de corrupio, a
polca de sapateado. No intervalo das danças, a gente mais jovem se entregava
aos jogos de prendas; ao passo que a gente de mais idade, ou mais viciada, não
só nos intervalos, mas durante todo o baile, jogava o gamão, o voltarete, o
écarté – quase sempre a dinheiro. Costume outrora generalizado e penso que
inteiramente perdido, desde muito, era o do chá servido à noite, antes de
dormir. Jantava-se então muito cedo, de sorte que por volta das dez horas da
noite servia-se o chá na sala de jantar, ou a todos os convidados, quando se
tratava do final de um sarau, ou, diariamente, a toda a família e a alguns
convidados mais íntimos, parentes e amigos. Sobre o chá servido ao terminar um
sarau de casa rica, assim se exprime o romancista, no O Moço Loiro: “O chá
começou a servir-se às dez horas e meia da noite; a hora do chá é, nos saraus,
a hora das satisfações, dos longos cumprimentos, e de certos prazeres que lhe
são muito peculiares.” Muitas vezes, fosse nos saraus, fosse em família, a
modinha e o recitativo vinham completar tais prazeres. Ainda no Moço Loiro se
diz que numa dessas reuniões familiares – “depois do chá, D. Inácia cantou uma
modinha, D. Rita – um romance, e Brás-mi moso – um lundu”. O lundu e a modinha
andavam no próprio ar que as moças casadouras e sentimentais respiravam. O
lundu está esquecido e é hoje apenas objeto de pesquisas por parte de eruditos
e especialistas; e a modinha, na sua feição própria, tradicional, vai pelo
mesmo caminho, reformada ou deformada, na sua expressão mais íntima. Coisa,
afinal de contas, muito natural: estamos na era prodigiosa da eletricidade, e
ninguém pode pretender conservar imutavelmente o sentido e o sentimento de
ritmos antigos sob a forma industrial do disco e do rádio. E ainda bem –
atrevo-me eu a acrescentar.
O que não encontrei, neste Macedo que andei agora relendo ou
lendo, foi a menor descrição de festas ou cerimônias religiosas, nem de festas
populares de outra natureza. O senso do folclórico não era certamente o seu
forte, pois a não ser as referências e até a transcrição literal de modinhas e
lundus, nada mais nos mostra o romancista neste sentido.
A pitada de rapé – eis um hábito bem antigo, também hoje
completamente desaparecido. Não era vício só de homens idosos, mas também dos
moços, e a sua aplicação podia mesmo ser feita com elegância de gestos e até
com malícia de intenção. O estudante Fabrício, de A Moreninha, conta-nos para
que servia o rapé, em certas circunstâncias – por exemplo, para chamar a
atenção de alguma esquiva beldade: – “tossi, tomei tabaco, assoei-me, espirrei,
e a pequena.., nem caso.” O espirro provocado por uma pitada de rapé estava
sujeito a interpretações imprevisíveis. Uma das amigas d’A Moreninha conversava
numa roda de moças acerca dos ciúmes do seu namorado, dizendo que este último
lhe proibia uma porção de coisas, inclusive que saudasse com um “Dominus
tecum!” a qualquer moço que espirrasse perto dela. Mas o rapé ao que parece não
era encarado simplesmente como um vício mais ou menos elegante, pois havia quem
lhe atribuísse virtudes terapêuticas de tônico cerebral. Tal era a convicção do
estudante Augusto, namorado d’A Moreninha, o qual, em momento de certa
perturbação e entorpecimento, “entendeu que, para melhor decidir naquela
conjuntura, devia avivar o cérebro com uma boa pitada de rapé”.
Outra miudeza, que anotei em mais de uma página – e que além
de curiosa me parece bem expressiva da sisudez dos hábitos patriarcais de
então: o modo arquicerimonioso por que os personagens, mesmo amigos e íntimos,
mesmo os namorados, se tratavam entre si. Os rapazes só se dirigiam às moças
com um solene “senhora dona”; e as moças aos rapazes com um “vossa senhoria”
ainda mais solene. Os filhos só chamavam aos pais de “vossas mercês”. N’A
Moreninha dá-nos o romancista o modelo de um bilhetinho de amor escrito por mão
de moça e que assim começa: “Senhor, uma jovem que vos ama, e que de vós escuta
palavras de ternura, tem um segredo a confiar-vos...” Há nisto, evidentemente,
muito pieguismo ao gosto da pior maneira romântica; mas há também, creio que
não menos evidentemente, uma pequena ressonância de toda aquela sisudez
patriarcal...
Os escravos passam pelas quatro obras de Macedo que aqui nos
interessam como seres passivos, sem qualquer participação ativa e autônoma nos
acontecimentos. Tudo com a maior naturalidade, sem nenhuma intenção oculta do
autor; mas, por isso mesmo talvez, com uma significação mais pungente e mais
terrível... Macedo possuía a mentalidade da época e para a mentalidade da época
o escravo não era propriamente um ser humano, mas um ser intermediário entre o
homem e o animal doméstico, para uns mais próximo do homem e para outros mais
próximo do animal doméstico. Todavia, a mentalidade de 1870 já tinha avançado
alguma coisa em relação à mentalidade de 1840. Fiel cronista dos costumes e dos
sentimentos do seu tempo, Macedo havia por força de espelhar, nos seus romances
escritos em períodos diferentes, as diferenciações que se iam produzindo na
mentalidade coletiva acerca da situação dos escravos. No A Moreninha e no O
Moço Loiro, obras publicadas entre 1840 e 1850, os escravos aparecem
principalmente na qualidade de servidores domésticos, de moleques escudeiros (o
Rafael do A Moreninha), de mães-pretas (a Lúcia de O Moço Loiro), de moleques
de estimação, como o Tobias, – “cria de D. Joaninha, o alfenim da casa, o São
Benedito da família”, – do qual encontramos minuciosa e romântica descrição no
A Moreninha, em carta de Fábrício para Augusto: “Pinta na tua imaginação,
Augusto, um crioulinho de 19 anos, todo vestido de branco, com uma cara mais
negra e mais lustrosa do que um botim envernizado, tendo dois olhos belos, grandes,
vivíssimos, e cuja esclerótica era branca como o papel em que te escrevo, com
lábios grossos e de nacar, ocultando duas ordens de finos e claros dentes que
fariam inveja a uma baiana; dá-lhe a ligeireza, a inquietação e a rapidez de um
movimento de macaco, e terás feito a idéia desse diabo de azeviche, que se
chama Tobias.” Em 1871, ano em que foi escrita e publicada a novela Os Quatro
Pontos Cardeais, ao lado das referências a escravos transmissíveis por herança,
a escravos alugados, a escravas metidas nos enredos amorosos das amas
casadouras, já aparece a concepção do escravo-homem sob a forma de referências
à abolição em geral e ao projeto de lei do ventre livre em particular – coisas
que horrorizam o espírito rotineiro e mesquinho de Estanislau, o Alma-fechada.
Quando este antipático personagem exclama que “o ventre é, como os braços e a
alma dos escravos, propriedade do senhor” – semelhante argumento contra aquele
projeto de lei não só está em concordância com a sua psicologia, como serve
também para tornar mais nítida a oposição de mentalidades existente entre
escravistas e abolicionistas. Oposição de mentalidades que exprimia uma
correspondente oposição de interesses e que tendia a se agravar de mais em
mais, com a influência que todos sabem sobre a paisagem social do país.
Romancista de donzelas e para donzelas, Macedo põe o
casamento no princípio, no meio e no fim de todas as coisas. Tudo, nos seus
romances, gira em torno do casamento, visa ao casamento, acaba em casamento.
Tudo – inclusiver o amor. A novela Os Quatro Pontos Cardeais dá-nos uma idéia a
bem dizer simbólica da “vontade de casar” que domina as donzelas de Macedo:
Deolinda namorando ao mesmo tempo quatro pretendentes, certa de que um deles
não escaparia ao seu estratagema do mirante quádruplo. Tamanho era o seu pavor
de ficar solteira. Mas os romances de Macedo não faziam senão traduzir um
sentimento de ordem geral. As moças da sociedade não podiam sequer pensar
noutra coisa: “nesta vida não nos dão licença de pensar senão no casamento”,
dizia uma delas no O Moço Loiro. Para elas o casamento não era só um objetivo
natural – porque era o objetivo único e exclusivo. Nada havia a fazer fora do
casamento. Daí a aceitação passiva, por parte das moças, de qualquer casamento
que lhes fosse imposto pelos pais ou pelas circunstâncias. E daí que a idéia do
casamento se tornasse uma obsessão e a obsessão se convertesse em luta – em
luta nem sempre fácil e muitas vezes desesperada. A fuga de D. Brites com o
caça-dotes Lucindo da Luz, personagens da referida novela, esconde, por baixo
da aparência a um tempo romântica e grotesca da cena, uma situação na realidade
pejada de patético. D. Brites era uma senhora já quarentona bem puxada, feia,
surda e coxa, mas possuidora de alguns haveres. Muito religiosa, vivia
satisfeita com a sua condição de tia. Conformada humildemente com a sorte: o
celibato, dizia ela, era um modo “de ser agradável ao Senhor”. Pois bem: o
velhaco do Lucindo, explorando, com diabólica habilidade, o seu fanatismo
religioso, em poucos dias conseguiu seduzi-la e fugir com ela – para casar. O
casamento – objetivo já morto e enterrado dentro dela – renasceu de repente com
a força prodigiosa que só o sentido profundo da libertação pode dar. E aí temos
a explicação de tudo: o casamento era a libertação, a única forma admitida de
libertação para sair de um estado social e moral que ameaçava as donzelas com o
estigma humilhante do celibato. Aí temos também como e por que podemos
encontrar, nos romances de Joaquim Manuel de Macedo, uma interpretação
fidedigna dos sentimentos da época no concernente à situação da mulher; e como
podemos perceber, no fundo dessa interpretação, o eco sentimental de conceitos
e preconceitos estratificados durante centenas de anos sob o signo da formação
patriarcal da sociedade brasileira.
* * *
Da sua obra propriamente de cronista ou folhetinista,
deixou-nos Joaquim Manuel de Macedo dois livros publicados: Um Passeio pela
Cidade do Rio de Janeiro (1862-1863) e Memórias da Rua do Ouvidor (1878). São
dois livros de leitura agradável, creio mesmo que bem mais agradável e até mais
proveitosa, ainda hoje, do que a dos seus romances. Aí, no folhetim de meneio
fluente e espirituoso de cada semana, estava Macedo, o bom dr. Macedinho, no
seu elemento natural. A pequena história da cidade, com os episódios pitorescos,
curiosos, sentimentais e às vezes picarescos da sua vida no passado, com as
novidades e as sensações das coisas contemporâneas, e tudo isso, passado e
presente, a desenrolar-se sem maiores complicações no mesmo cenário de perene
deslumbramento – eis a mina fácil, à flor da terra, onde o cronista encontrava
o material mais adequado ao seu gênio, ao seu gosto – e as suas possibilidades.
Poder-se-ia talvez dizer que os seus romances são apenas a transposição
romanesca e piegas desse material de puro folhetim. Não por outra razão, quero
supor, admitimos e suportamos melhor certas páginas de toque mais tipicamente
folhetinesco que deparamos na sua obra de ficção.
De um modo ou de outro, no romance ou no folhetim, como
também no teatro, em que foi igualmente fértil, o que permanece em Macedo, ao
par da ingenuidade romântica tão do gosto de certas camadas de leitores, é a
sua qualidade de cronista da vida fluminense. Ele não é um grande romancista,
nem um grande escritor, nem mesmo um grande cronista, mas é com certeza um
cronista amável, honesto e útil.
Em Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, o folhetinista
nos pega pela mão e nos leva a ver o Paço Imperial, o Passeio Público, o morro
do Castelo, que já naquele tempo se falava em demolir, o Colégio Pedro II, os
conventos de Santa Teresa e de Santo Antônio, a igreja de S. Pedro, a igreja e
o recolhimento do Parto, a igreja da Sé, etc., contando-nos a história e a
tradição de cada um desses edifícios, instituições e sítios. De cada um e a
propósito de cada um, fornece-nos, com diligente e amena erudição, muitas e
curiosas informações de natureza histórica, artística ou literária, entremeadas
a cada passo por epigramas e alusões a certos costumes políticos da época, por
oportunas reminiscências pessoais, por anedotas divertidas e maliciosas, e
sobretudo por velhos casos romanescos, que o cronista recolheu da tradição
popular ou desfiou por conta e risco da própria fantasia. Tais digressões nos
distraem freqüentemente por atalhos imprevistos; mas também aqui por estes
atalhos vamos encontrar mais de um motivo de interesse e satisfação.
Logo no início do passeio, o amável guia nos advertiu com
simplicidade e honradez: “Procurei amenizar a História, escrevendo-a com esse
tom brincalhão e às vezes epigramático que, segundo dizem, não lhe assenta bem,
mas de que o povo gosta; juntei à história verdadeira [...] ligeiros romances,
tradições inaceitáveis e lendas inventadas para falar à imaginação e excitar a
curiosidade do povo que lê”... Devemos convir, em plena consciência, que não
poderíamos exigir mais, nem maior rigor, no plano de um simples passeio pelas
ruas da cidade, e devemos ainda confessar, ao cabo da jornada, que na realidade
gostamos muito de tudo.
Joaquim Manuel de Macedo amava com infinita ternura esta boa
cidade do Rio de Janeiro. Era com desvelos de enamorado que ele estudava e
esquadrinhava a sua história – a história da sua formação e do seu
desenvolvimento, a história das suas ruas e das suas casas, a história da sua
gente e dos seus costumes. Em Um Passeio pela Cidade, traçado e realizado em
plena maturidade, e mais tarde nas Memórias da Rua do Ouvidor, redigidas quando
a velhice já lhe chegava, deixou ele impresso com especial carinho o preito do
seu muito e comovido querer à terra carioca, que então se confundia com a do
seu berço no mesmo comum designativo de terra fluminense. E é nesta fidelidade
amorosa pela cidade, de que as suas melhores páginas se acham impregnadas, que
reside, ao meu ver, o mérito essencial do fecundo escritor.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Aos meus leitores
VOU ENTREGAR ao domínio e à apreciação do público reunidos em livro os artigos que sob o título “Um Passeio” tenho publicado e espero continuar a publicar nos folhetins do Jornal do Comércio, e embora não haja novidade na obra, julgo que sem inconveniente podem-se permitir ao autor algumas palavras a respeito do seu trabalho.
Quero dar aos meus leitores uma simples explicação com toda
a franqueza e verdade.
Determinei escrever o que sabia e conseguisse saber sobre a
história e tradições de alguns edifícios, estabelecimentos públicos e
instituições da cidade do Rio de Janeiro, abundando quanto pudesse em
informações relativas aos homens notáveis e aos usos e costumes do passado;
porque entendi que com este meu trabalho presto ao meu país um serviço e
pago-lhe um tributo de patriotismo, pois que concorro com o meu contingente,
fraco embora, para salvar do olvido muitas cousas e muitos fatos cuja lembrança
vai desaparecendo.
Procurando desempenhar a tarefa que tomei sobre os ombros,
tenho lido e vou lendo, tenho consultado e vou consultando as obras dos antigos
e modernos cronistas e historiadores da nossa terra, e, o que mais importa, sem
dó nem piedade, tenho maçado e atormentado a todos os bons velhos que me honram
com a sua amizade ou que têm a paciência de tolerar e atender às minhas
impertinentes perguntas.
Ainda assim, escapam-me erros e omissões que vou corrigindo
quanto posso e que outros mais bem informados corrigirão, se eu o não fizer.
Evidentemente o meu trabalho sairia mais limpo de senões, se
menos indiferença houvesse pela matéria dele, e se não se observasse tanta
avareza de conhecimentos da parte de alguns e tanta preguiça da parte de
muitos.
Eu declaro alto e bom som que estou pronto para reconhecer e
emendar os meus erros; o que me falta é quem os queira apontar, e me ensine a
corrigi-los.
Encetando este trabalho, tive a simplicidade de supor que
contaria repetidas ocasiões de agradecer a espontaneidade do favor de muitas
informações curiosas. Já perdi essa ilusão! Até hoje ainda não mereci um só
esclarecimento que não fosse pedido e procurado, e quando saio a esmolar
informações não poucas vezes recebo em resposta um Deus-lhe-favoreça que por
certo me desanimaria, se, em compensação, não fosse tão penhorador o obséquio
com que tenho sido tratado por diversas pessoas.
Entretanto, o assunto de que me ocupo nesta obra é, sem
questão, interessante e útil, e somente pode ter sido amesquinhado pela minha
inabilidade de escritor.
Essa inabilidade sou o primeiro a confessar; mas devo e
quero desculpar-me de dois defeitos principais que além de outros muitos se
encontram nos meus passeios.
Creio que alguém já censurou este trabalho, porque o tenho
escrito quase sempre em tom brincalhão e às vezes epigramático, e porque
misturo em um ou outro ponto a verdade histórica com tradições inaceitáveis, e
em alguns casos com ligeiros romances e lendas imaginadas.
Darei a razão do que fiz e porque assim continuarei a fazer.
Há dezenove anos que escrevo e ouço publicar os meus pobres
escritos, e até hoje, graças a Deus, ainda não tive a vaidade de tentar
escrever para aproveitar aos eruditos e aos sábios. Não me pesa esse pecado na
consciência.
Os eruditos e os sábios rir-se-iam de mim.
Até hoje só tenho escrito com a idéia de aproveitar ao povo
e àqueles que pouco sabem.
Ora, escrevendo eu também para o povo esta obra, cuja
matéria é árida e fatigante, não quis expô-la ao risco de não ser lida pelo
povo, que prefere os livros amenos e romanescos às obras graves e profundas.
Que fiz eu? Procurei amenizar a história, escrevendo-a com
esse tom brincalhão e às vezes epigramático que, segundo dizem, não lhe assenta
bem, mas de que o povo gosta; juntei à história verdadeira os tais ligeiros
romances, tradições inaceitáveis e lendas inventadas para falar à imaginação e
excitar a curiosidade do povo que lê, e que eu desejo que leia os meus
Passeios; mas nem uma só vez deixei de declarar muito positivamente qual o
ponto onde a intenção se mistura com a verdade.
Acertei ou errei, procedendo assim?
Decida o público, que é o meu juiz, e qualquer que seja a
sua decisão quer me absolva, quer me condene,
..........Fico contente,
Que a minha pátria amei, e a minha gente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro
INTRODUÇÃO
CREIO que não digo uma grande novidade, asseverando que nós
os brasileiros conhecemos muito pouco a nossa terra, e que não nos esforçamos
bastante por conhecê-la, como aliás é preciso.
Não pensem que me refiro a essas vastas províncias centrais,
e ainda mesmo a algumas das que são banhadas pelo Atlântico, e que estão apenas
um pouco menos conhecidas do que o Celeste Império.
Deus me livre de lamentar a falta em que nos achamos a
respeito delas. Deus me livre!
Tenho bem de memória que em 1859, quando pela primeira vez
apareceu a idéia de se mandar uma comissão científica brasileira explorar essas
províncias do Império, fez-se disso objeto de escárnio e de sarcasmo, e a pobre
comissão, que partiu no ano seguinte da nossa capital, levando consigo quantas
pragas e maus agouros puderam lançar sobre ela os homens práticos e sabichões
do Estado e do próprio governo, que já não pouco havia despendido para fazê-la
encetar os seus trabalhos, ficou em breve tão desestimada que até às vezes
achou-se sem recursos para prosseguir nas explorações; e por fim de contas, foi
obrigada a parar em meio da obra, porque era inevitável que se apagasse a
lâmpada, quando não lhe puseram mais azeite.
Dizem, e eu creio, que a nossa comissão científica, ao tempo
em que suspenderam a subvenção, já se achava quase a ponto de desorganizar-se
por si mesma, e sustentam que os seus trabalhos não corresponderam às despesas
feitas; parece-me, porém, que em tal caso o mais acertado seria procurar
remover os embaraços que a amesquinhavam, dar-lhe mais seguras condições de
harmonia e de vigor, e fazê-la continuar em zeloso labor, mesmo porque as mais
avultadas despesas estavam feitas, e a verdadeira economia aconselhava
aproveitar o dinheiro empregado e a experiência do noviciado dos exploradores.
Mas entendeu-se que isso de comissão científica era peta, e
acabou-se a história.
Devemos contentar-nos com as comissões dessa natureza que
têm sido e hão de ser mandadas ao Brasil por nações estrangeiras; nós não temos
a menor necessidade de conhecer a nossa própria casa: basta que os estranhos
nos ensinem o que ela é e o que temos dentro dela.
Afirmam que a tal comissão importou e devia importar um
enorme desperdício dos dinheiros públicos; porque o único resultado que
prometia era alguma coleção de bichinhos para o museu nacional, que
provavelmente também se entende que nos faz carregar com uma despesa de luxo.
Vê-se daí que os nossos homens práticos aborrecem a história natural, que é,
segundo eles, um gênero especial de poesia. Mas a comissão científica tinha
ainda a incumbência de muitos outros e importantíssimos trabalhos, e, portanto,
não procedia àquela observação, que, aliás, eu consideraria muito justa;
porquanto, era puerilidade indesculpável tomar-se tanto incômodo para se
arranjar lá por aqueles desertos uma coleção de bichinhos, quando aqui mesmo da
capital do império se poderiam organizar, até entre os próprios homens práticos
e os nossos grandes políticos, umas poucas de coleções de bichos de proporções
colossais que ainda não foram classificados pelos naturalistas.
Mas, repito, não é das províncias centrais e longínquas que
pretendo falar. Dessas temos notícia de que fosforizam as suas eleições
periodicamente, e é o que basta. Quanto ao mais, representam um mundo que ainda
está à espera do seu Colombo; e não admira que assim exista ignorado, quanto é
certo que nem conhecemos bem a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro.
Note-se que esta incúria seria escusável ao montanhês de
Minas, ao guasca do Sul, ao caipira do Paraná; o que, porém, muito mais
surpreende é que os próprios cariocas não estejam ao fato da história e das
crônicas da capital, de que tanto se ufanam.
Disse um escritor francês, cujo nome agora me não lembro,
que entre os franceses são os parisienses os que conhecem menos Paris. No
Brasil não se pode dizer coisa semelhante, porque os provincianos, como os
cariocas, desconhecem do mesmo modo a nossa boa Sebastianópolis.
Se no outro tempo era grande essa antipatriótica falta de
curiosidade, agora é muito pior: os paquetes a vapor e a facilidade das viagens
ao velho mundo tiram-nos à vontade de passear os nossos, e é mais comum
encontrar um fluminense que nos descreva as montanhas da Suíça e os jardins e
palácios de Paris e Londres do que um outro que tenha perfeito conhecimento da
história de algum dos nossos pobres edifícios, da crônica dos nossos conventos
e de algumas das nossas romanescas igrejas solitárias, e até mesmo que nos fale
com verdadeiro interesse dos sítios encantadores e das eminências majestosas
que enchem de sublime poesia a capital do Brasil.
Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que
um passeio ao Corcovado.
Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar
meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento
agradável para o espírito e o coração.
O passado é um livro imenso cheio de preciosos tesouros que
não se devem desprezar; e toda a terra tem sua história mais ou menos poética,
suas recordações mais ou menos interessantes, como todo o coração tem suas
saudades. A capital do Império do Brasil não pode ser uma exceção a esta regra.
Vamos dar princípio hoje a um passeio pela cidade do Rio de
Janeiro? É um convite que faço aos leitores do Jornal do Comércio. Se o passeio
parecer fastidioso ou monótono, não haverá o menor inconveniente em dá-lo por
acabado no fim da primeira hora; se agradar, continuaremos com ele até...
até... quem sabe até quando? Provavelmente conversaremos de preferência a
respeito dos tempos que já foram e, portanto, não é preciso que nos lembremos
já do futuro, marcando o fim da nossa viagem amena.
Vamos passear.
Não se incomodem com os preparativos de uma viagem, que
talvez seja longa: eu tomo isso à minha conta. Não tenham medo de se verem
metidos por mim dentro dos ônibus, gôndolas ou carros da praça; desejo muito
dar o maior prazer que for possível aos meus companheiros de passeio, para
condená-los a semelhante martírio.
Se algum dos meus leitores é, por infelicidade, paralítico,
se algum outro quebrou as pernas na luta, no litoral de dezembro último em
qualquer dos pontos do império onde a Vestal foi festejada com o emprego da
força material, se ainda outro está tão atarefado com os cinco ou seis cargos
em que se consagra ao serviço da pátria que não tem tempo de dar um passo na
rua, ainda esses mesmos não serão privados de passear comigo. Não há
incompatibilidade que afetem o nosso passeio. Não preciso pedir o braço, apenas
peço a atenção dos meus leitores. Eu passearei escrevendo, eles lendo, e ainda
assim – oh! fatal idéia! – pode bem ser que eles se fatiguem primeiro do que
eu.
Acendamos pois um Havana (da Bahia), ou um Manilha (doRio de Janeiro), e... passeemos.
Excluamos do nosso passeio toda a idéia de ordem ou sistema:
regular os nossos passos, impor-nos uma direção e um caminho
fora um erro lamentável que daria lugar a mil questões de precedência em que,
sem dúvida, os frades barbadinhos seriam os primeiros a fazer ouvir bem
fundados protestos em nome da igreja de S. Sebastião.
Independência completa da cronologia! Um passeio cronológico
obrigar-nos-ia a começar dando um salto do Pão de Açúcar ao morro do Castelo, e
um salto desses somente com ligeireza e com as pernas dos volantins políticos
se poderia dar.
Passeemos à vontade: a polícia o permite e as posturas da
ilustríssima câmara o não proíbem.
Estamos no nosso direito: passeemos.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Palácio Imperial
I
EIS-NOS em frente do palácio imperial, no largo do Paço.
Por onde viemos para chegar aqui, e como nos achamos de
improviso neste lugar, é o que não importa saber, nem eu poderia dizê-lo.
Consolemo-nos desta primeira irregularidade do nosso
passeio; alem de nós, há por esse mundo muita gente que se acha em excelentes
posições sem saber como. O nosso século é fértil em milagres desta ordem.
Tem-se visto no correr dele até quadrúpedes que voam.
Paremos agora um pouco, e conversemos por dez minutos.
É justo que estudemos com interesse a história do palácio
imperial; antes, porém, cumpre dizer duas palavras a respeito do lugar em que
ele está situado.
Esta praça tem mudado tanto de proporções como de nome, e
ainda mais vezes de nome do que de proporções.
A sua extensão primitiva não a posso determinar; no último
quartel, porém, do século passado, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa
deu-lhe regularidade e limites positivos, fazendo construir um belo cais de
cantaria granítica à imitação de outro feito em Lisboa pela marinha real, e
ficou então a praça formando um quadrilongo de setenta e cinco braças de
comprimento sobre quarenta e cinco de largura.
Esse cais tinha defronte do palácio uma rampa destinada a
facilitar os desembarques, e de espaço a espaço, assentos de pedra. Tudo isso
desapareceu desde 1841 ou 1842, por ordem da câmara municipal, que projetou
construir outro cais mais ao mar. Lá se foram, porém, dezenove anos, e ainda
estamos à espera dele!
Entretanto, as obras de aterro têm já estendido bastante a
praça, de modo que agora se acha não pouco afastado da praia o chafariz, que,
levantado primeiro no meio daquela, fizera o vice-rei Luís de Vasconcelos
substituir por outro à face do mar.
Não nos queixemos da nossa edilidade: ela já fez o que pôde,
e que infelizmente se reduziu, pouco mais ou menos, a cousa nenhuma. Lembra-me,
porém, que para começo de trabalhos do novo cais se construiu uma trincheira de
tábuas, seguras por pregos que tinham as pontas para o mar e as cabeças para
terra, e o mar, aproveitando-se daquela bem ordenada pregadura, em um dia em
que fez mareta, atirou com as tábuas à praia, de maneira que ensinou à câmara
municipal que até os mesmos pregos devem saber onde põem os pés e onde têm as
cabeças. Não tenho ainda certeza de que esta lição aproveitasse.
O governo tomou a seu cargo a obra do novo cais, e há
esperanças de que mais diligente se há de mostrar; no entanto, as dimensões da
praça excedem já muito às que tinha no fim do século passado e por não poucos
anos conservou.
Falei das proporções. Agora tratarei dos nomes.
A praia em que se termina esta praça teve primitivamente o
nome de – praia da Senhora do Ó – e hei de em breve dizê-lo porquê; mas o nome
mais antigo dos que tem tido esta praça é lugar do Ferreiro da Polé; a origem
de semelhante denominação perde-se na noite dos tempos. Quer me parecer que não
podia ser simpática.
No fim do século décimo-sexto, ou no princípio do seguinte,
chamou-se praça do Carmo, porque era dominada pelo convento levantado pelos
carmelitas.
De 1743 em diante, recebeu o nome de terreiro do Paço, em
razão de se haver construído nela a casa dos governadores, e os carmelitas não
brigaram com o conde de Bobadela por essa mudança de deno minação, porque,
enfim, palavras não adubam sopas, e frades não fazem questões de pouco mais ou
menos.
Por último, largo do Paço ficou sendo chamada. Não aposto,
porém, que conserve por muito tempo o mesmo nome, a menos que o Estado se
resolva a levantar outro palácio no mesmo lugar, pois o que existe, desde
alguns anos recebeu do cupim formal intimação para procurar um substituto.
E antes dessas instantes intimações do cupim, já ao dever e
ao patriotismo cumpria ter lembrada a necessidade urgente de uma tal
substituição.
Este palácio que estamos vendo nem tem no seu aspecto
exterior bastante majestade, nem em suas disposições e ornatos interiores
suficiente magnificência para mostrar-se digno do chefe do Estado e digno da
nação. Há na cidade casas de particulares que incontestavelmente ostentam mais
riqueza e oferecem mais cômodo do que ele.
Nas monarquias, o esplendor da majestade reflete sobre toda
a nação, e a casa do monarca, o palácio do chefe do Estado, que atrai todas as
vistas, que abre suas salas aos representantes das nações estrangeiras e a
todos os cidadãos, deve ser grandioso como a idéia que representa.
Não me digam que o Brasil não tem dinheiro para levantar um
palácio. Oh! se tem. O patronato acha sempre recursos financeiros para fazer
presentes à custa da pátria amada, e só o dever e o patriotismo terão sempre de
esbarrar diante do monstro chamado déficit.
O corpo legislativo não pode continuar a descuidar-se desta
evidente necessidade. Além de tudo, o palácio está arruinado e a nação deve
oferecer ao seu primeiro cidadão um edifício que, pelo menos, se adivinhe logo
o que é, quando se olhar para ele.
Comecei falando mal do palácio, antes de descrevê-lo e de
contar a sua história.
Vou emendar o meu erro.
Para um palácio, este envelheceu depressa, pois que apenas
conta cento e dezoito anos de idade, tendo sido, portanto, construído quase
dois séculos depois da fundação da cidade do Rio de Janeiro.
Não vos admireis de que o governo de Portugal deixasse cor
rer tanto tempo antes de fazer edificar uma casa para os governadores desta
capitania; porque também o Brasil é nação independente desde 1822, e ainda não
mandou construir um palácio para o imperador.
Até ao fim do século XVII, os governadores da capitania do
Rio de Janeiro não tiveram casa própria para sua residência, à exceção, sem
dúvida, do primeiro, que foi Salvador Correia de Sá, que seguramente havia de
levantar, como os seus companheiros colonizadores, o seu competente rancho no
morro do Castelo. Os que depois se foram seguindo moraram onde puderam ou
melhor lhes pareceu.
Em 1698, ordenou el-rei de Portugal que para residência dos
governadores do Rio de Janeiro se comprasse a casa da Rua Direita, que depois
ficou sendo chamada dos Contos, e que ainda hoje é assim por alguns dos nossos
velhos denominada, porque para ela se passou a provedoria, e debaixo do seu
teto se recolhiam os cabedais da coroa, importantes em avultados contos de
réis.
Atualmente está o Correio Nacional estabelecido nessa casa,
que bem merece conservar o nome dos Contos, pois que a respeito dela podem-se
referir contos largos, e por sinal que até foi incendiada, quando em 1710 os
franceses atacaram a cidade.
Oportunamente conversaremos sobre este caso.
Chegou, enfim, a época do palácio que estamos estudando.
Lê-se sobre o seu pórtico principal a inscrição que recorda o ano em que foi
construído, e o nome daquele a quem o devemos:
“Reinando El-Rei D. João V, nosso Senhor, sendo governador
destas capitanias e da de Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade, do seu
conselho, Sargento-Mor de Batalha dos seus Exércitos. Ano de 1743.”
Se não conheceis bastante que homem era esse Gomes Freire de
Andrade, depois conde de Bobadela, informai-vos das melhores obras antigas de
que se ufana a capital do Brasil, e avaliareis as proporções desse ilustre
varão pela altura dos monumentos e pela importância dos trabalhos que executou.
Se ainda não vos basta isso, ide ao paço da nossa
municipalidade, e aí encontrareis o seu retrato conservado pela mais justa
gratidão e permitido muito excepcionalmente por el-rei de Portugal, que reco
nheceu os direitos que ele tinha a essa patriótica manifestação, de que até
então somente os soberanos podiam ser objeto.
Quereis ainda conhecê-lo melhor? Apreciai-o na morte, depois
de havê-lo admirado na vida. O conde de Bobadela achava-se com a saúde
alterada, quando os espanhóis, em 1762, tomaram a colônia do Sacramento, e logo
depois desbarataram uma esquadrilha que em socorro dos portugueses ele mandara.
Estes desastres e a injusta murmuração com que o ofenderam os negociantes do
Rio de Janeiro, que muito sofreram em seus interesses com a perda da colônia, o
afrontaram de paixão tão grave que morreu em janeiro de 1763.
Realmente, já não há Bobadelas no nosso tempo! Nem com a
lanterna de Diógenes seríamos capazes de encontrar um ministro que morresse de
desgosto por causa de um desastre desses. A medicina pode descansar
completamente: a moléstia de que morreu o conde de Bobadela já não aparece hoje
em dia, nem mesmo com caráter esporádico.
Não esqueçamos, porém, a história do palácio.
Palácio? É preciso atender ao modo por que nos exprimimos.
Palácio não. Casa dos governadores sim. Uma carta régia proibiu chamar palácio
à casa da residência dos governadores. Palácio, pois, deveríamos chamá-la
somente mais tarde, se não estivéssemos há mais de um século de distância
daquela ordem de el-rei, e por isso livres de culpa e pena.
Um pouco de favor da virtude da paciência. Trata-se agora da
descrição.
O palácio (perdi o medo à carta régia) passou por algumas
modificações, que convém lembrar cronologicamente.
Constava ele, como ainda hoje, de quatro faces octogonais. A
principal, que olha para o mar, oferecia à vista três corpos separados por
pilastras e com três janelas em cada um deles. Tinha um só andar, e
inferiormente três pórticos de pedra mármore branca, sendo o do centro formado
por duas colunas rematadas superiormente por graciosas cambotas, e os dos
laterais mais estreitos e de forma vulgar. De um e outro lado destes, abriam-se
janelas de peitoril. Cada um dos pórticos descansava sobre uma escadaria própria,
de mármore branco.
A face do norte apresentava, ao ligar-se com a anterior
descri ta, um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada
para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles
duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril. No pavimento superior, havia
vinte e quatro janelas como as da fachada principal.
Na face do sul, que olha para o atual paço da Câmara dos
Deputados, havia, além do outro pórtico, vinte e três janelas de peitoril
e mais uma porta para serviço particular, e no pavimento superior vinte e três
janelas, das quais sete eram de peitoril e colocadas quase a meio da fachada.
A face do fundo apresentava nove janelas de sacada no andar
superior, e inferiormente um pórtico ladeado por quatro janelas de peitoril.
A entrada do palácio era nobre: duas filas de colunas
conduziam à escada, que agora é nobre, também constando de dois lances no mesmo
sentido e outros dois em sentido oposto. Como era, porém, no tempo do conde de
Bobadela, não sei: não nos ficou memória da escada primitiva, sem dúvida porque
no século passado ainda não se conhecia no Brasil a importância extraordinária
que tem uma boa escada.
Depois do conde de Bobadela, chegou a seu tempo a vez do
vice-rei conde de Resende aumentar as proporções do palácio. O primeiro, como
simples governador, tinha-se contentado com um só andar, além do pavimento
inferior. O conde de Resende, que era vice-rei, elevou-se a maior altura, e fez
construir um segundo andar de doze janelas de sacada que se vê ao meio do
primeiro da face do norte.
Abro um parêntesis nesta descrição, que não me custa nada,
porque apenas tenho o trabalho de copiá-la de um livro cujo título não declaro,
para ver se passo por autor da obra, e interrompendo por momentos o fio do
discurso, entro em certas explicações que não me parecem desnecessárias.
Visto que, com as obras dos dois condes, o palácio já tem
não menos de cento e vinte e cinco janelas, convém dizer o que se via nesse
tempo mais próximo a elas.
Da face principal via-se o mar, isso já ficou dito; da face
do norte via-se o chafariz ainda no meio da praça, e já então, ou mais tarde, a
casa dos Teles defronte. Os Teles foram homens notáveis no Rio de Janeiro
pela sua riqueza e pela sua posição. A sua fama ficou perpetuada por um arco,
que tomou o nome deles, e que não é mais do que um passadiço. A face do fundo
namorava o convento dos carmelitas, que um dia havia de acabar por conquistar.
A face do sul, enfim, tinha em sua frente a casa da câmara e cadeia, que é hoje
o paço da câmara dos deputados, e além dessa, a casa da ópera, que se tornou
uma dependência do palácio.
Ainda aqui não fecho o parêntesis.
Preciso dizer quem morava na casa dos governadores e dos
vice-reis; pois que, além deles, mais alguém se achava estabelecido debaixo do
mesmo teto.
Moravam com eles a justiça e a fazenda.
Os vice-reis ocupavam mais de meio da galeria superior, além
do segundo andar, para o lado da praça.
Para o mesmo lado, todo o resto da casa até ao canto
fronteiro ao convento do Carmo servia de assento ao tribunal da relação.
No pavimento inferior e sob esses domínios da relação ficava
a fábrica moedal, como a chama Pizarro, e o quarto do canto que olha por um
lado para a casa da câmara, e por outra para o convento dos carmelitas, era
habitado pelo provedor da moeda.
Estava, por assim dizer, todo o governo da terra reunido no
mesmo ponto, e a um grito do vice-rei levantar-se-iam a relação com a espada de
Astréia, a câmara municipal, que representa o povo, o provedor da moeda, que
forjava o encanto do mundo, e até podia acudir o carcereiro da cadeia com a
competente guarda.
E para tudo isso, bastava um grito. Hoje grita-se horas
inteiras, de noite, nas ruas da cidade, e é um milagre, quando aparece a
patrulha!
Era agora ocasião de fechar o parêntesis que abri ainda há
pouco. Acho-me, porém tão fatigado que suponho conveniente deixá-lo ainda
aberto, enquanto descanso.
II
Fiz muito bem não fechando o parêntesis que abri ao terminar
o meu artigo precedente.
Antes de prosseguir na descrição cronológica do palácio
imperial, preciso dar ainda algumas explicações que se referem aos costumes do
tempo dos vice-reis.
É verdade que a Justiça e a Fazenda moravam com o vice-rei
debaixo do mesmo teto; convém, porém, saber que o vice-rei e o tribunal da
relação tratavam-se tão cerimoniosamente que nem ao menos se falavam, passando
de umas a outras salas pelo interior da casa.
Nos dias da reunião do tribunal, que era presidido pelo
vice-rei, o carro deste vinha recebê-lo à entrada principal do paço e o levava
a apear-se à porta que se abria para o terreiro do Paço, e que era a que
pertencia aos domínios da relação.
Mandava a regra que o vice-rei não fosse exercer tão
importantes funções, fazendo a pé um passeio, embora tão curto, e que se
comunicasse com o tribunal da relação aos olhos de todos, e não pelas portas
travessas. Já naquela época tinha-se medo da influência dos corredores e das
ante-salas.
Com a fábrica da moeda, ou não havia tantas cerimônias, ou,
além dos seus domínios no pavimento inferior, tinha ela no primeiro andar ainda
uma sala para o lado da travessa do Paço; porque aí se via uma grande balança,
pendendo de uma mão de ferro, e destinada ao serviço daquela fábrica.
A balança desapareceu, quando se mudou a fábrica para o
edifício em que hoje se acha. Ficou, porém, a mão de ferro, que somente no
reinado do Sr. D. Pedro I foi arrancada como se se quisesse dizer que, depois
de fundado o governo constitucional, não devesse mostrar-se mão de ferro no
palácio do chefe do Estado.
Agora fechei definitivamente o parêntesis, e para que não
haja a menor dúvida a esse respeito, fechei-o com uma potente mão de ferro.
Vou continuar a descrição interrompida.
Era vice-rei do Brasil o conde dos Arcos, quando, a 14 de
janeiro de 1808, entrou no porto do Rio de Janeiro o brigue de guerra Voador,
trazendo a notícia da próxima chegada da família real portuguesa. O brigue
fizera honra ao nome que lhe tinham dado: voara para dar aquela nova ao
vice-rei, ainda a tempo de serem por ele tomadas algumas providências.
O conde dos Arcos não descansou mais um momento, e enquanto
mandava ordens para descerem de S. Paulo e Minas todos os víveres que se
pudessem logo conduzir, despejava ele próprio o palácio e preparava não só as
suas salas e as que tinham servido à relação, mas ainda as que eram ocupadas
pelo expediente da casa da moeda, para receber tão comodamente quanto fosse
possível os augustos hóspedes.
Em breve, porém, viu-se que eram indispensáveis proporções
mais vastas ao palácio real. Começou-se, pois, por unir a ele o convento do
Carmo e a antiga casa da câmara e cadeia. Ao convento foi ligado o palácio pelo
passadiço que ainda existe e que tem três janelas de sacada para o largo do
paço, três outras para a Rua da Misericórdia e se apóia sobre dois arcos que
facilitam a comunicação entre o largo e a rua que ficam designados. À casa da
câmara uniu-se o palácio por um outro passadiço de que apenas resta a memória.
Ainda novas obras foram executadas no tempo do reino do
Brasil pertencendo a essa época o pequeno corpo de janelas de peitoril que se
observam na face do sul.
Em que pese aos meus companheiros de passeio, abro aqui
outro parêntesis, e de novo interrompo a minha descrição.
Não sou tão alheio às leis da cortesia que me exponha a
deixar desalojados e na rua os frades do Carmo, os desembargadores da relação e
os presos da cadeia. Os carmelitas trocaram o seu convento do terreiro do Paço
pelo hospício dos barbadinhos italianos, na Rua da Ajuda, onde permaneceram até
que se extinguiu o seminário de Nossa Senhora da Lapa, para o qual passaram de
propriedade.
Os barbadinhos foram ocupar as casas dos romeiros de Nossa
Senhora da Glória.
A relação não se achava mais nas suas salas do palácio,
quando chegou a família real: tinha-se estabelecido, desde algum tempo, na casa
da câmara municipal. Mas dali mesmo teve de retirar-se, alugando-se primeiro, e
enfim comprando-se para ela a casa da rua do Lavradio em que até hoje continua
a funcionar, e que pertencia a João Marcos Vieira da Silva Pereira, fazendeiro
de Campo Grande. Convém lembrar que ainda então não existia, e só muito depois
se abriu a rua que tomou o nome da Relação, tribunal que, aliás, em 1808, foi
elevado ao grau de Casa da Suplicação do Brasil.
Provavelmente todas estas mudanças incomodaram não pouco aos
desalojados. Mas é seguro que aos presos nem sequer um só instante ocupou o
espírito e cuidado de um novo asilo. Para eles, porém, tomou-se casa destinada
a outros, que, sou capaz de jurar, não lamentaram a perda que sofreram.
Os presos foram removidos para o Aljube, que o bispo D.
Francisco Antônio de Guadalupe fizera preparar exclusivamente para reclusão dos
eclesiásticos que merecessem uma tal punição.
Quem não mudou de casa em conseqüência da chegada da família
real, apesar de pensarem alguns o contrário disso, foi a câmara municipal.
A câmara já tinha deixado a sua casa própria, cedendo-a para
a relação e se fora estabelecer naquela parte da casa do Teles que fica na
esquina da rua hoje denominada do Mercado. Em conseqüência de um incêndio que
chegou a devorar também boa porção do seu arquivo, passou a ocupar uma casa da
rua do Rosário, entre as da Quitanda e Ourives, e aí se achava em 1808. Da rua
do Rosário, mudou-se para o consistório da igreja do Rosário, onde, em 1824,
recebeu as assinaturas de todos os cidadãos que declararam aceitar e querer a
constituição oferecida pelo Sr. D. Pedro I. Do consistório da igreja do
Rosário, enfim, foi mostrar-se no seu paço no campo hoje da Aclamação.
Dizem que duas mudanças equivalem a um incêndio. E então,
quatro? A câmara municipal não esquentava lugar, estava sempre em movimento
constante. Desde alguns anos, porém, estabeleceu sua residência definitiva no
lugar mencionado, e enfim, está quieta, e tão quieta que parece dormir por uma
eternidade.
Mas não penseis, meus bons companheiros de passeio, que
somente as repartições, estabelecimentos públicos e religiosos tiveram de fazer
mudanças inesperadas e súbitas naquela época. Essas ao menos eram exigidas pela
necessidade de hospedar-se mais comodamente a família real, e portanto,
efetuavam-se com satisfação geral, sem relutância da parte dos proprietários,
sem violência da parte da autoridade, e a um simples convite deste ou com
entusiástica espontaneidade daqueles.
Com a família real, porém, chegaram em grande número
fidalgos, empregados e criados de todas as ordens, e tantos eram que faltavam
casas para receber a todos eles.
Os criados de menor graduação tiveram mesa e ninho na famosa
ucharia, que se transformou desde logo em um imenso formigueiro, no pavimento
inferior do convento do Carmo que se ligara ao palácio. A ucharia não somente
serviu para matar a fome a muitos pobres, mas ainda para encher os cofres de
muitos ricos.
Os fidalgos, empregados e criados de outras ordens acharam a
sua providência nas muito mais famosas aposentadorias.
Quero em poucas palavras dar-vos uma idéia do que foram as
aposentadorias, especialmente em 1808.
Adeus, direito de propriedade!
Não houve habitantes da cidade do Rio de Janeiro que
dormisse tranqüilo na sua casa própria, e que acordasse com a certeza de
anoitecer debaixo do mesmo teto. Quanto mais bela e vasta era uma casa, mais
exposta ficava ao quero absoluto dos privilegiados.
Havia um juiz aposentador.
A aposentadoria era um arranjo de uns à custa de outros, que
se executava em cinco tempos:
1º tempo. O privilegiado dirigia-se ao aposentador e
dizia-lhe que precisava da casa tal da rua tal;
2º tempo. O aposentador encarregava um meirinho de ir
satisfazer o desejo do privilegiado;
3º tempo. Saía o meirinho com um pedaço de giz na mão, e
chegando à casa designada escrevia na porta P. R. (Príncipe Regente).
4º tempo. O proprietário ou morador da casa mudava-se em
vinte e quatro horas;
5º tempo. O privilegiado aposentava-se e ficava muito à sua
vontade.
Esta sem-cerimônia era, na verdade, desesperadora.
Compreende-se que era indispensável tomar providências para
que não ficassem no meio da rua aqueles vassalos fiéis e bons servidores que
tinham acompanhado a família real ao Brasil. Mas entre essa necessidade e os
abusos inauditos que se praticaram sob o pretexto das aposentadorias, havia uma
distância enorme que cumpria ser prudentemente considerada.
Dir-me-eis que ao menos os aposentados pagavam o aluguel das
casas que tomavam. Pois estais enganados. Muitos deixaram de cumprir esse
dever, e houve alguns (e até um titular entre esses) que não só não pagaram o
aluguel de que se trata, como, tendo de acompanhar el-rei em sua volta para
Portugal, arrancaram as portas e as tábuas dos assoalhos das casas em que
estavam morando, a fim de fazer os caixões necessários para levar as suas
baixelas e o mais que lhes pertencia, e que com eles devia tornar ao velho mundo.
Ainda bem que este exemplo tristíssimo não foi seguido pela
maioria dos privilegiados.
Mas as desregradas aposentadorias tornaram-se logo em um
tormento insuportável. Houve senhor aposentado que se apaixonou três ou quatro
vezes consecutivas por diversas casas e, para contentá-lo, despediram-se também
consecutivamente quatro famílias dos tetos sob os quais se abrigavam.
Havia luxo de abuso, luxo de prepotência, luxo de escândalo.
No meio das festas brilhantes e repetidas com que se
solenizava a chegada da família real, que foi tão proveitosa para o Brasil, o
povo começava a murmurar e a queixar-se. O príncipe regente, como todos os
monarcas, ignorava a maior parte das violências que em seu nome se praticavam.
Então, como dantes e como depois, os verdadeiros opressores do povo levantavam
uma barreira que não deixava a verdade chegar aos ouvidos do soberano.
Dava-se em 1808 a história de todos os tempos.
Entretanto, a originalidade de um magistrado veio dar causa
a que o príncipe regente soubesse o que se estava praticando em seu nome e em
mal da população.
Era então juiz de fora e interinamente aposentador o célebre
desembargador Agostinho Petra de Bittencourt.
Era uma homem verdadeiramente original, mas um magistrado
justo e severo.
Andava ele já muito aborrecido com os arranjos de
aposentadorias e cansado dos abusos em que, por obediência, se via coagido a
tomar parte.
Um dia, estava o desembargador Petra a meditar nos
sofrimentos do povo, quando lhe entrou pela sala um fidalgo que o visitava pela
quarta vez.
Na primeira visita, esse fidalgo tinha pedido a
aposentadoria em uma boa casa que designara. Na segunda, pedira nova
aposentadoria em outra casa melhor. Na terceira, tinha vindo exigir mobília.
E não contente ainda com tudo isso, apresentava-se pela
quarta vez, declarando que lhe convinha muito um excelente criado, ou talvez
escravo, que servia a um homem que designou.
O desembargador Petra, sem dar a mais simples resposta, fez
chamar sua senhora à sala, e apenas a viu chegar, disse-lhe:
– Apronte-se, Sra D. Joaquina, estamos em vésperas de
separar-nos. Este nobre fidalgo já me pediu casa, depois mais casa, depois
mobília, agora criado; amanhã provavelmente há de querer que eu lhe dê mulher,
e como não tenho outra senão a senhora, e não há remédio senão servi-lo,
apronte-se, Sra D. Joaquina, apronte-se!
O fidalgo saiu furioso, protestando vingar-se, e foi direito
ao príncipe regente queixar-se da zombaria de que fora objeto. Mas o
desembargador Petra, interrogado pelo príncipe, tais cousas disse e tão
claramente manifestou a verdade, que as violências cessaram, e o sistema das
aposentadorias foi mais suavemente executado.
Por ocasião da sua elevação ao trono, o Sr. D. João VI
reformou ainda este sistema, concedendo aos habitantes da cidade do Rio de
Janeiro as aposentadorias passivas.
Faço aqui ponto final a respeito das aposentadorias.
Creio, porém, meus companheiros de passeio, que podemos
conversar ainda alguns momentos, visto que não temos pressa nem razão alguma
para andar correndo.
Falei-vos do desembargador Petra. Disse-vos que era ele um
homem original, e não devo contentar-me com a única anedota que a seu respeito
referi.
Aí vai outra.
Naqueles tempos de que nos estamos lembrando neste passeio,
somente de calções e meias de seda se apresentavam no paço os homens da corte.
O triunfo das calças teve lugar apenas em 1840, com satisfação indizível de
todas as pernas finas e de todas as pernas grossas demais.
Os calções e as calças podiam bem servir não só para
representar duas épocas distintas, mas ainda dois princípios que se contrariam.
Teríamos em tal caso os calções representando a aristocracia, e as calças a
democracia.
Se aceitarem a idéia, pode bem ficar determinado que o
último e fiel representante da aristocracia no Brasil foi um antigo inspetor de
quarteirão da freguesia de São José, homem constante, que até o último dia da
sua vida, anos depois de 1840, usou de calções de ganga amarela.
Vamos, porém, à anedota.
Somente de calções e meias de seda ia-se naquele tempo ao
paço fazer a corte ao rei, e os magistrados usavam, por mais requinte de
tafularia, levar aberta a beca para mostrar os calções e as meias de seda.
Preparava-se o desembargador Petra, um dia, para ir ao paço.
Achava-se já de calções, porém ainda em mangas de camisa, e eis que lhe
aparece, de súbito, um grande criminoso contra quem havia dado ordem de prisão
e que lhe trazia um requerimento a despachar.
O desembargador, em vez de receber o requerimento, abre a
boca e brada: “Está preso!”
O criminoso volta as costas, corre pela porta afora. Mas o
desembargador Petra, em mangas de camisa e sem chapéu, como estava, deita
igualmente a correr pela rua atrás do fugitivo, gritando: “Pega ladrão! Pega
ladrão!”
O povo acudiu à voz da justiça. O criminoso foi cercado,
preso e recolhido à cadeia. E o desembargador Petra, muito satisfeito do
resultado da diligência, voltou para casa, tomou a beca e foi para o paço.
Quero ainda contar-vos uma outra anedota relativa ao mesmo
magistrado. Será a última. Antes, porém, de o fazer, desejo, assim a modo de
prólogo ou introdução de uma história, oferecer-vos breves considerações.
O mal que se está experimentando sempre nos parece mais
grave ou doloroso do que o mal que já se experimentou. Esta nuança do nosso
egoísmo faz-nos geralmente muito injusto para com o nosso tempo.
Andamos agora incessantemente maldizendo do patronato e
queixando-nos dos repetidos e vergonhosos milagres que ele operava. Causa-nos
espanto a cara horrível do patronato de hoje. Ah! Façam idéia da face medonha
do patronato daqueles tempos em que o arbítrio era a lei, a vontade de um
ministro valia mais do que todos os interesses do país e todas as conveniências
públicas.
Ao menos, agora, cada um de nós tem nas “publicações a
pedido” dos jornais diários e em cada tipografia uma elevada tribuna em que
solta a voz e fala como um deputado. E dantes? Dantes, quem falava ou escrevia
fora do compasso marcado pela batuta do governo fazia uma viagem à África, ou,
pelo menos, deixava o seu nome escrito no livro do carcereiro.
Morto por um raio seja eu, se troco o meu tempo pelo tempo
do mando e quero, se troco o direito que tenho hoje de pensar em voz alta, de
discutir e de censurar, pelo antigo dever de uma cega obediência e de um
silêncio de catacumbas.
Patronato sempre houve, e patronato há ainda. Mas o patronato de outrora difere muito do patronato de hoje.
Eis algumas das diferenças que se podem notar entre o velho
e o novo.
O patronato do outro tempo usava de calções, e o da
atualidade de calças.
O patronato do outro tempo andava de dia e se mostrava ufano
no meio da praça: o da atualidade anda de noite, e, de ordinário, se esconde
pelos becos. No entanto, o novo sai de carruagem, como acontecia ao velho.
O patronato do outro tempo dizia sempre: ordeno isto! O
patronato da atualidade, diz: arranjemos isto!
Ao patronato do outro tempo tirava-se o chapéu com todo o
respeito e consideração; ao patronato da atualidade manda-se ao diabo sem a
menor cerimônia.
O patronato do outro tempo ostentava-se, apoiando-se na
coluna do arbítrio; o patronato da atualidade esconde-se atrás do sofisma.
O patronato do outro tempo aparecia aos olhos do povo nas
janelas do palácio, trajando brilhante fardão. O patronato da atualidade vive
embrulhado em um grande capote e agachado embaixo da mesa de cada um dos
ministros.
Em uma palavra, o patronato do outro tempo era franco e
patentemente ousado, e o patronato da atualidade é manhoso e só tenebrosamente
ousado.
Notai, porém, que a franqueza do patronato velho não era uma
virtude, era, pelo contrário, um defeito profundo do sistema. Essa franqueza
era a ostentação do arbítrio.
Dir-me-eis que o patronato novo, por isso mesmo que é
manhoso, sofístico e disfarçado, torna-se muito perigoso. Convenho. Ao menos,
porém, quando o percebemos e descobrimos, temos o direito de pôr-lhe a calva à
mostra e de maçá-lo sem dó nem piedade.
Concordo ainda em que, não poucas vezes, no nosso tempo ousa
o patronato erguer-se com a audácia antiga, porque a vaidade e a filáucia de
alguns figurões os faz crer que eles nasceram predestinados para serem tutores
e curadores obrigados do povo, e que, portanto, devem todos curvar-se ao
império de sua vontade e ainda em cima render graças a Deus pelo favor e
benefício imenso que da sua irresistível influência resulta para o país. Mas,
em que lhes pese, cada cidadão tem na constituição do Império um baluarte
inexpugnável contra as intoleráveis pretensões desses reizinhos improvisados, e
no direito de censurar uma arma sempre poderosa e temida para atacar os abusos
e os patronatos dos tais senhores.
Concluo: sempre houve, ainda há, e muito, e nunca deixará de
haver mais ou menos patronato. Dantes, porém, as vítimas sofriam as injustiças
dos potentados sem queixar-se nem murmurar, e agora quem sofre pode levantar a
voz, fazer-se ouvir, achar um eco na opinião pública, e muitas vezes consegue
ver triunfante o seu direito, e fugirem desapontados e pagãos os altivos
afilhados dos mais orgulhosos padrinhos.
Última conseqüência: viva a constituição do Império!
Está concluída a introdução ou terminado o prólogo da
anedota que agora passo a referir.
Na época em que viveu o desembargador Petra, a Câmara
Municipal marcava o maximum dos preços dos gêneros de primeira necessidade e
fiscalizava o mercado, impedindo que se vendessem ao povo gêneros alimentícios
deteriorados.
Aquele desembargador presidia a Câmara Municipal como juiz
de fora, que era, e portanto, a seu cargo principalmente estava o cuidado de
garantir ao povo gêneros alimentícios em bom estado e por um preço não
exagerado.
Nesse ponto, era o desembargador Petra muito severo, e um
certo mercador de farinha de mandioca, fornecedor das casas de alguns fidalgos
mais influentes, tinha sido por ele mais de uma vez condenado, em conseqüência
de vender farinha avariada ao povo, e ainda em cima, de ter urna balança
infiel.
O negociante, cansado de sofrer a retidão do juiz, apelou
para os milagres do patronato.
Um dia em que o desembargador Petra dava audiência,
aproximou-se dele o negociante de farinha e apresentou-lhe um aviso ou portaria
do ministro em que era ordenado ao juiz de fora que não incomodasse mais o
fornecedor dos fidalgos.
O desembargador leu primeiro para si e depois em alta voz a
ordem do governo, e em seguida beijou respeitosamente o aviso ou portaria e
disse:
– Pode ir descansado e furtar à sua vontade: o governo o
autoriza a roubar ao povo. Eu hei de cumprir as ordens do governo, e V. Mce.
fará muito bem si furtar dez vezes mais do que furtava até agora.
Realmente, em um país governado pelo sistema absoluto, não
se podia ferir de um modo mais positivo e forte do que o fez o desembargador
Petra um escandaloso patronato dos grandes.
Também é verdade que o severo magistrado contava na corte
uma numerosa falange de furiosos inimigos. Mas tinha por si a confiança do
príncipe real, e zombou sempre de todos eles.
Creio que por hoje basta de passeio. Mas, desta vez, fecho o
segundo parêntesis que abri, e prometo que dora avante divagarei muito menos.
III
O antigo convento dos carmelitas exige agora também um breve
estudo. Fazendo parte do palácio desde 1808, não pode ficar esquecido sem
ofensa à exatidão histórica.
Um simples passadiço converteu aquele edifício de casa de
frades em paço real; mudando-lhe, porém, a natureza, não lhe pode mudar o
parecer, e o antigo convento conservou e conserva ainda a primitiva feição
monástica que o apresenta sempre arquitetonicamente desarmonizado com o palácio
a que se ligou.
É um aditivo que não tem relação alguma com o corpo a que
foi adicionado: é um adjetivo que não concorda com o seu substantivo nem em
gênero, nem em caso, nem em número: discordância completa no que diz respeito à
arquitetura.
Mas pouco importa isso. Hoje em dia já estamos acostumados
com essas extravagâncias que das obras de pedra e cal passaram a fazer-se
sentir em obras de um outro gênero. É raro o ano em que não vemos
determinarem-se discordâncias tão notáveis como aquela. Não há lei de orçamento
de receita e despesa do Império que não arraste uma cauda de aditivos que se
harmonizam tanto com ela como o antigo convento do Carmo com o resto do
palácio.
Ao menos, porém, em 1808, uma necessidade indeclinável impôs
a anexação que deu lugar àquela desarmonia arquitetônica, e atualmente nada
pode desculpar a abusiva repetição dessas discordâncias administrativas.
Ora, eis aí. Insensível e involuntariamente começo a divagar
outra vez! Bom foi que a tempo o conhecesse para não me adiantar muito.
Aqui vai em poucas palavras o que era o antigo convento do
Carmo. Creio que não haverá quem possa notar nele mudanças sensíveis operadas
nestes cinqüenta e dois anos já passados: conservou-se quase absolutamente o
mesmo, o que entre nós não admira em uma casa, mas admiraria muito em um homem,
porque os homens...
Pior! O antigo convento do Carmo nada tem de comum com os
homens políticos.
O edifício que asilava os carmelitas começa na extrema da
rua da Misericórdia, um pouco adiante da esquina da rua da Assembléia, dantes
chamada da Cadeia, estende-se por toda a largura do largo do Paço até à entrada
da rua Direita, onde termina com a igreja que, acompanhando o destino do
convento, passou a ser capela real, como é ainda hoje capela imperial.
Pela frente da praça apresenta o edifício, além do pavimento
inferior, dois andares que tinham janelas com balcões de ferro e rótulas de
madeira, e que eram duas ordens de dormitórios.
Vinha logo em seguida a igreja de Nossa Senhora do Carmo,
que é a capela imperial. Em primeiro lugar, levanta-se a torre, cuja entrada,
que era a portaria do convento, é precedida por um alpendre sustentado por
colunas de pedra. A torre é quadrangular e terminada superiormente por uma
abóbada pontiaguda, em cujo cimo se observa um globo que serve de apoio ao
símbolo da redenção. Um galo metálico, que é atravessado pelo pé da cruz, gira
horizontalmente, obedecendo à ação dos ventos, e indica a direção destes.
Segue-se à torre uma capelinha consagrada ao Senhor dos
Passos.
Três portas dão entrada para o templo. Sobre o pavimento
dessa levanta-se um outro com pilastras, entre as quais abrem-se três janelas
de peitoril. Acima deste pavimento ainda um terceiro, sobre o qual está montada
a empena que remata em seu ápice pela cruz, e lateralmente por vasos de pedra
que coroam as pilastras extremas. Entre as pilastras que sustentam a empena
estavam as armas reais, como hoje estão as imperiais.
Antes de penetrar no interior da capela imperial, devo fazer
duas observações: A primeira refere-se a uma alteração por que passou o antigo
convento há cinco anos. A segunda não passará de uma pergunta filha da minha
ignorância, e de uma idéia inocente que despertou em meu espírito o galo
metálico da capela.
Há cinco anos reinava epidemicamente na capital do império a
febre das empresas. O pensamento era bom, o desejo do progresso material
justificadíssimo; o excesso, porém, a que se chegou fez da saúde moléstia.
Tratou-se também com ardor nessa época de abrir até ao largo do Paço a rua do
Cano, que devia ser toda de novo disposta, ladeada de casas magníficas,
alinhada, embelecida e transformada na mais elegante das ruas da cidade.
Sorria tanto a idéia deste melhoramento, foi ele reputado
tão facilmente realizável, que se atacou logo a única barreira que separava o
largo do Paço da rua do Cano, isto é, a extrema esquerda do antigo convento do
Carmo. S. M. o Imperador, desejando facilitar a realização da empresa, mandou
prontamente romper o edifício naquele ponto. Abriu-se, pois, a comunicação
entre a rua e a praça, e passado algum tempo uniu-se ainda o palácio com a
capela imperial por meio de um passadiço de madeira que tem tanto de simples
como de pouco elegante.
E a empresa não foi adiante, pelo menos até agora: tropeçou
no vácuo e ficou derreada. Não se incomodem com a frase tropeçou no vácuo. A
falta de dinheiro é um vácuo, e é na falta de dinheiro que os empreendedores
tropeçam mais desastradamente.
A rua que devia se chamar Sete de Setembro continua como
dantes a ser do Cano, e enquanto se conservar feia e torta como é, convém que
não lhe mudem o nome; porque Sete de Setembro quer dizer Independência do
Brasil, e a nossa independência é muito bonita, e nós a queremos direita e bem
direita.
Segunda observação.
O galo metálico que gira horizontalmente sobre a torre da
capela imperial, obedecendo à ação do vento que sopra, não pode deixar de
exprimir algum pensamento filosófico, alguma lição moral.
Que significa aquele galo inconstante, que assim se volta
para todos os lados, e que ora mostra o bico ao sul, ora ao norte, ora ao
ocidente, ora ao nascente? Que significa esse galo que lisonjeia e atraiçoa a
todos os ventos? Não sei; e somente quem o empoleirou na torre no-lo poderia
dizer.
Aproveitando-me, no entanto, da existência do famoso galo e
da sua incessante mobilidade, servir-me-ei dele doravante para um termo de
comparação que me parece apropriado.
A inconstância e volubilidade de muitos políticos excedem
tanto às proporções de possíveis modificações concienciosas de princípios, que
a todos antes se afiguram contradanças executadas ao som da orquestra mágica da
ambição e do egoísmo.
São mudanças determinadas por conveniências que não se
confessam, mas que excitam os contradançadores a voltar as caras ora para um,
ora para outro ponto, conforme o vento político que sopra.
Assim, pois, serve-me às mil maravilhas o galo da capela, e
quando aí por essas ruas eu encontrar alguns desses homens políticos que andam
aos saltos de um para outro partido, dizendo hoje que é branco o que ontem
diziam que era preto, e achando sempre razão em quem está de cima, direi a mim
mesmo, ou aos amigos que passearem comigo nessa ocasião: “Ali vai um galo da
capela.” Penetro agora no sagrado recinto.
Tem a capela imperial três altares de cada lado, e entre
estes e o altar-mor duas capelinhas fronteiras: na da esquerda é onde se expõe
o Santíssimo Sacramento, e onde a família real vinha ouvir missa, tendo para
isso duas tribunas.
No lado direito da capela-mor está a tribuna da família
imperial.
O teto da capela-mor da igreja dos carmelitas foi decorado
por José de Oliveira, o mais antigo dos pintores fluminenses. A Virgem do Monte
Carmelo que nele está representada era uma obra de mestre. Diz o Sr. Porto
Alegre, em uma memória apresentada ao nosso Instituto Histórico, o
seguinte: “Na reforma do convento os mais hábeis artistas da capital se
escusaram de retocar aquela obra, mas os carmelitas descobriram um caiador que
a destruiu completamente; seu estado atual é uma restauração feita pelo Raimundo,
que antes se escusara, mas que no tempo de el-rei fora obrigado a fazê-la.”
O teto da capela do Senhor dos Passos, que representa o
descimento da cruz, é obra do célebre Manuel da Cunha, outro pintor fluminense,
que, nascido escravo, se enobreceu pela arte em que primou e de que legou à
pátria belos tesouros, como são o retrato do conde de Bobadela, que está no
paço da câmara municipal, o Santo André Avelino, da igreja do Castelo, a capela
contígua à sacrista de S. Francisco de Paula e muitos outros.
Em 1817, o Sr. D. João VI mandou pintar de novo e dourar a
capela real, obra que se executou com tanta presteza como feliz desempenho, e
para a qual concorreram os melhores artistas que então possuía a capital, e
notavelmente o nosso habilíssimo José Leandro de Carvalho, pintor histórico e o
mais fiel retratista da época, tendo neste gênero, diz também o Sr. Porto
Alegre, um dom particular, pois bastava ver o indivíduo uma única vez para
conservar perfeitamente de memória suas feições e pintá-lo ao vivo.
José Leandro fez todos os quadros da capela real, e no
concurso que houve entre diversos pintores levou a palma na execução do quadro
do altar-mor da mesma capela, no qual retratou de uma maneira admirável toda a
família real.
Em 1831, foi esse quadro delirante e violentamente condenado
pelo ódio ao passado. A gratidão nacional e a arte ressentiram-se por certo
desse descomedimento repreensível, que seria uma indignidade, se não fosse a
loucura de um dia de vertigem. Mas a gratidão nacional não se apagou com o
quadro destruído, a arte pôde regenerar a obra do mestre. O mestre, porém, que
foi testemunha do insulto, sentiu-o tanto que perdeu a saúde com o abalo e veio
a morrer não muito depois.
Faz-me conta supor que me perguntam agora como, em um país
tão novo e ainda abatido pelo jugo colonial, pôde, em 1808, o príncipe regente
vir encontrar artistas de tanto merecimento como esses que executaram a reforma
da capela real em 1817.
Pois sabei que desde a última metade do século XVII já as
artes contavam fiéis e esclarecidos intérpretes no Rio de Janeiro. Os artistas
acudiram como por encanto à voz de Bobadela e de Luís de Vasconcelos, e ensejo
terei de demonstrar esse fato na continuação deste passeio.
E sabei mais que não foram somente pintores amestrados que a
família real portuguesa teve de admirar, chegando ao Brasil.
Nos púlpitos e no coro da então capela real, fizeram-se
desde logo sentir grandes e brilhantes inteligências que a corte portuguesa mal
podia esperar que estivessem florescendo no Brasil e que devessem por ela ser
admirados.
Nos púlpitos apareceram, entre outros, muito notavelmente,
São Carlos, Sampaio, e Mont’Alverne, três franciscanos, três frades da ordem
que professa a pobreza e que eram a imensa riqueza da nossa tribuna sagrada. No
coro avultava não menos o padre José Maurício Nunes Garcia, indisputavelmente
um desses homens privilegiados em cujo espírito Deus acende a flama do gênio.
Dir-se-ia que a natureza virgem e portentosa do Brasil
supria com suas inspirações patrióticas e arrebatadoras as academias e os
mestres abalizados que faltavam na América portuguesa a esses e a todos os
belos talentos. Certo é que eles excederam a expectativa da família real e dos
fidalgos portugueses, que reconheceram não ter deixado na culta Lisboa quem os
levasse a palma na eloqüência e na música sagrada.
São Carlos foi, além de brilhante orador, um literato
profundo e grande poeta. A sua oração fúnebre pelas exéquias da Rainha D. Maria
I é um verdadeiro e magnífico triunfo de inteligência. O seu
poema a Assunção, uma glória da pátria. São Carlos era ainda notável pela
facilidade com que improvisava sermões, quando era inesperadamente arrancado da
sua cela para subir à sagrada tribuna.
Sampaio arrebatava o seu auditório por uma graça natural,
que falava a todos os corações. Às vezes, interrompia o fio do discurso para
aproveitar um incidente que ocorria, e de que tirava sempre surpreendente
partido.
Um dia em que rebentara uma forte trovoada na ocasião em que
ele se achava pregando, Sampaio, ao escutar o ribombo de um horrível trovão,
cortou de súbito a ligação das idéias em que ia, e em uma apóstrofe ardente e
bem cabida, inspirada pelo estampido que ouvira, encheu de assombro e deixou em
êxtase a todo o concurso que se reunira na igreja.
A um desses dois pregadores refere-se um belo repente que
não deixarei de lembrar aqui.
Solenizava-se na capela real a Santíssima Senhora das Dores.
Um incômodo não tinha permitido vir assistir à festa a Rainha D. Maria I. Não
se contava com ela. O orador subira ao púlpito e ia já em meio do sermão,
quando, aparecendo a rainha, teve de tornar a começá-lo. Então, voltando-se
para a tribuna real, exclamou, repetindo o verso de Virgílio:
“Infandum, regina, jubes renovare dolore...”
Mont’Alverne foi dos três ilustres franciscanos o que
fulgurou ainda nos nossos dias, floresceu em todo o reinado do primeiro
imperador. Algum tempo depois, porém, achou-se em vida sepultado no horror da
cegueira, e não tornou ao púlpito. O Sr. D. Pedro II conseguiu fazê-lo pregar
de novo, e no dia 19 de outubro de 1854 Mont’Alverne entoou o seu canto do
cisne em um eloqüentíssimo panegírico de D. Pedro de Alcântara na capela
imperial. Esse sermão foi um acontecimento que abalou a população da capital, e
o que se passou então na capela não se pode explicar nem descrever. Sentiu-se.
Não se diz.
O padre José Maurício Nunes Garcia conquistou naquela época
a reputação de um fertilíssimo, severo e notável compositor de músicas sacras,
e era, além disso, recomendável pelo seu nobre caráter, como por sua instrução.
As composições do padre José Maurício eram clássicas,
magistrais, e ainda hoje se admiram. O príncipe regente estimava muito o grande
músico brasileiro. Em uma dessas festas grandiosas que então se celebravam na
capela real, o Sr. D. João VI sentiu-se tão arrebatado, ouvindo executar a
música de uma nova missa do padre José Maurício, que uma hora depois o mandou
chamar ao paço, e aí, em plena corte, o encheu de louvores, e tirando da farda
do conde de Vila Nova da Rainha o hábito de Cristo, com a sua própria mão
colocou-a no peito do seu estimado e eminente mestre de capela.
A boa vontade e os sentimentos generosos do rei nem sempre
eram imitados pela sua corte: o padre José Maurício teve nela desafeiçoados,
especialmente depois que chegou de Lisboa o mestre Marcos Portugal, que se
tornou bem depressa seu decidido rival. Os profissionais estão no caso de
julgar qual dos dois tinha mais merecimento, e as boas e conscienciosas
autoridades na matéria sempre ouvi darem preferência ao compositor brasileiro.
Em certa ocasião, o padre José Maurício e Marcos Portugal
tiveram de medir artisticamente as suas forças.
Devia-se solenizar na fazenda de Santa Cruz a degolação de
São João Batista. O rei quis música nova, e os seus dois mestres de capela
foram chamados a satisfazê-lo.
Era uma luta artística que ia ter lugar, e em resultado
Marcos Portugal empregou um mês para compor as matinas, ao tempo que e padre
José Maurício compôs em quinze dias uma grande missa e credo que ainda hoje se
executam com aplausos dos mais profundos entendedores.
Neukomm, o discípulo predileto de Haydn, o compositor
daquele famoso concerto que foi executado por três mil artistas na inauguração
da estátua de Gutenberg, Neukomm, que viera para o Rio de Janeiro com a colônia
artística dirigida por Lebreton, dizia a quem o queria ouvir que o padre José
Maurício era o primeiro improvisador de música que ele tinha conhecido, e a
propósito, contava o seguinte fato.
Em uma das muitas reuniões que tinham lugar na casa do
marquês de Santo Amaro, faziam-se provas de diversas músicas que Neukomm
acabava de receber da Europa. O célebre Fascioti cantou uma barcarola que foi
ardentemente aplaudida, e o padre José Maurício, que estava ao piano, começou
em seguida a variar sobre o motivo, e de arte tal o fez que todos e ele próprio
esqueceram-se do tempo que passava, e no meio de geral admiração deram por si
ao toque da alvorada.
Esse mesmo Neukomm, ao receber a notícia da morte do padre
José Maurício, exclamou chorando: “Ah! os brasileiros nunca souberam o valor do
homem que possuíam!”
Prometi não divagar, e talvez pensem que tenho divagado:
protesto e juro que não. Tratando de descrever, devo dizer o
que vejo, e ao estudar a capela imperial, não me é possível deixar de ver nos
púlpitos e no coro os vultos venerandos desses homens ilustres que são glórias
nacionais.
São Carlos, Sampaio, Mont’Alverne e José Maurício são
monumentos.
Acabei de referir-me, ainda há pouco, às festas pomposas que
se faziam na capela real no tempo da regência e do reinado do Sr. D. João. Com
efeito, eram elas notáveis pelo brilhantismo e magnificência com que as mandava
celebrar aquele príncipe eminentemente religioso.
Não tive, porém, ocasião de falar de uma solenidade piedosa
que tinha em parte lugar na capelinha do Senhor dos Passos, que é, como disse,
uma dependência da capela imperial.
Na segunda sexta-feira da quaresma costuma, como ainda hoje
se observa, sair à rua, partindo da igreja da Misericórdia, a procissão do
Senhor dos Passos; mas a sagrada imagem que principalmente se venera nessa
procissão não é do templo donde sai naquele dia.
Na noite da véspera dessa sexta-feira, o Senhor dos Passos
da capelinha de sua invocação era solenemente conduzido pelo rei e pela corte
para a igreja da Misericórdia, e este ato de devoção continuou a ser praticado
pelos augustos filho e neto do Sr. D. João VI.
Entretanto, cumpre não atribuir o começo deste devoto
costume à época da chegada da família real portuguesa ao Brasil. Muito antes de
1808, primeiro os governadores e depois os vice-reis, eram os que com os
oficiais de maior patente levavam sobre seus ombros a imagem do Senhor dos
Passos, na quinta-feira à noite, da capelinha do convento do Carmo para a
igreja da Misericórdia.
Outrora, a procissão saída na sexta-feira, parava e fazia as
orações dos sete passos diante de oratórios que havia nas esquinas de certas
ruas, e de alguns dos quais ainda hoje restam vestígios. No fim da pro cissão,
a imagem do Senhor recolhia-se, como atualmente se recolhe, à capela imperial.
Achareis que vos estou contando cousas que todos sabem. Ah!
lembrai-vos que os tempos que vão passando levam consigo, pouco a pouco, as
usanças, os costumes, as idéias e também algumas cerimônias religiosas dos
nossos antigos, e que, portanto, convém ir conservando a memória de todos esses
traços que caracterizam e nos mostram as feições do nosso passado.
E por falar no passado, veio agora mesmo doer-me na
consciência a idéia de uma omissão que me podem lançar em rosto. Descrevendo o
palácio e falando do convento do Carmo, que passou a fazer parte dele, não
disse uma única palavra sobre a história antiga desse convento.
Ainda bem que foi uma falta que pode ser facilmente
corrigida. Vou tratar disso imediatamente.
VI
Sou agora obrigado a dar um salto enorme, um salto do ano de
1808 e da época do reino do Brasil, da que me ocupava estudando o palácio
imperial, para dois séculos e mais alguns lustros antes. Assim é preciso fazer,
visto que me comprometi a dar a história antiga da casa que foi convento dos
carmelitas.
Irei referir de envolta com alguns fatos registrados nas
crônicas do tempo uma ou duas tradições populares. Colhi os primeiros nos
livros e memórias que consultei, e as segundas contou-mas um padre velho que
morreu há dez anos. Daqueles não é lícito duvidar; a estas pode negar-se
crédito sem receio de molestar o padre, que já não tem que ver com as cousas
deste mundo.
Sem mais preâmbulos.
O famoso Mem de Sá acabava apenas de lançar os fundamentos
da esperançosa Sebastianópolis: seu sobrinho Salvador Correia de Sá tecia ainda
no alto do morro do Castelo os primeiros fios daquele ninho de águia que foi o
berço da atual capital do Império. A cidade nascente, modesto grupo de palhoças
e casinhas humildes, não tinha ainda desci do a banhar seus pés de princesa nas
mansas ondas do formoso golfo que do seu trono da colina dominava; a povoação
começava apenas, e já aqui e ali surgiam e se mostravam no vale algumas
piedosas ermidas que a devoção erguera de improviso.
Cada uma delas era tão simples como a oração que sai da alma
de um menino e sobe ao céu nas asas do anjo da inocência; e eram todas flores
divinas abertas no seio daquele novo paraíso que se mostrara aos olhos dos
portugueses.
Havia a ermida de Nossa Senhora da Conceição, a ermida de
Nossa Senhora da Ajuda, a ermida de Nossa Senhora do Ó, três turíbulos em que
se queimava o puro incenso da devoção aos pés da Mãe de Deus.
Creio que a mais antiga dessas ermidas, ou antes, a primeira
que se levantou fora do morro do Castelo foi a de Nossa Senhora do Ó, e é
exatamente dessa que me cumpre falar.
A ermida de Nossa Senhora do Ó estava situada na vargem, diz
assim uma memória do tempo, ou mais positivamente à borda do mar, e no mesmo
lugar em que depois se levantou o convento do Carmo.
A praia que ficava fronteira à ermida chamava-se praia da
Senhora do Ó, nome que, como já ficou dito, perdeu logo que se foram ali
edificando algumas casas.
A ermida estava em terras pertencentes a uma mulher cujo
nome não chegou até nós. O piedoso devoto que ergueu naquela solidão essa
igrejinha modesta e graciosa fora um ermitão que também não pode ser lembrado
pelo seu nome.
Nos primeiros quatro lustros que correram depois da fundação
da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, era a ordem religiosa dos jesuítas
a única que tomara um posto e começara a lançar raízes na nova colônia. Essa
primazia de direito competia aos irmãos de Nóbrega e de Anchieta, que também
muito haviam contribuído para a expulsão dos franceses em 1567.
Mas o ermitão de Nossa Senhora do Ó contava que não tarde
viriam igualmente os carmelitas estabelecer-se no Rio de Janeiro; por qualquer
motivo ele os amava, e por eles esperando, pedira e obtivera a favor da ermida
de Nossa Senhora do Ó a doação do monte que foi depois chamado de Santo
Antônio, e que então se chamou o monte do Carmo, porque para os carmelitas o
destinava o ermitão.
Até aqui a história. Falaram as crônicas do tempo. Agora
começa a tradição e fala o padre velho.
Quem era aquele ermitão? Envolvia-se algum segredo na
fundação da ermida? Por que, de preferência, e tanto se lembrava o ermitão dos
carmelitas?
A tradição popular adivinhou ou improvisou o seguinte.
Um jovem português, cedendo aos votos de seus pais e aos
impulsos do próprio coração, determinara trocar o mundo pelo claustro e
acolhera-se ao convento do Carmo de Beja, em Portugal.
Passados alguns meses, em uma pomposa solenidade que teve
lugar na igreja do convento, o jovem viu uma donzela de maravilhosa beleza e
abrasou-se de amor por ela. Nem a oração, nem os jejuns, nem os cilícios
puderam vencer e destruir essa paixão que subitamente lhe rebentara na alma.
O jovem reconheceu que uma mulher se levantava diante da sua
vocação de outrora, e que a força o arrastava do claustro para o mundo.
Ainda era tempo: fugiu ao claustro.
O mais velho dos carmelitas do convento, ao vê-lo sair,
disse-lhe em tom profético: “Trocas a mãe de Deus pela filha do homem:
não serás feliz! Um dia lembrar-te-ás do Monte Carmelo!”
Apesar disso, o mancebo saiu, mas seus pais o repeliram.
Um ano depois, a família inteira da formosa donzela teve de
passar ao Brasil para estabelecer-se na cidade de Salvador! O mancebo
apaixonado acompanhou na mesma caravela a dona do seu coração.
Os dois jovens amaram-se e souberam que eram amados.
Sorria-lhes o futuro, quando, na cidade do Salvador, um cavalheiro de nobre
estirpe, colono português considerado, pediu a donzela em casamento. O pai
mandou, a filha chorou, mas teve de obedecer. O amante pensou morrer. Viveu,
porém, ainda para amar com o mesmo ardor a mulher que pertencia já a outro.
O marido teve conhecimento daquele amor que era já um
desvario; mas conteve-se, porque não podia duvidar da virtude da esposa.
No fim do ano de 1566, Mem de Sá chamou os bravos a pelejar
contra os franceses do Rio de Janeiro.
O marido da bela moça alistou-se entre os guerreiros e
fez-se acompanhar de sua mulher. Tinha a idéia de ficar na nova colônia que se
ia fundar e de assim ver-se livre do importuno apaixonado de sua esposa.
Quando, porém, o navio em que ia levantou a âncora, o mancebo apareceu a seus
olhos.
O marido turvou-se. Guardou, porém, silêncio.
A expedição chegou ao seu destino, e no dia 20 de janeiro de
1567 travou-se a peleja entre os portugueses e os franceses.
No momento de avançarem os portugueses para atacar a praça
do Uruçumirim, o marido voltou-se de repente para trás e viu que sua esposa
olhava antes para o antigo amante do que para ele. Corou e tremeu: corara de
vergonha e tremera de raiva.
Ao travar-se o combate o marido chegou-se ao amante de sua
mulher, bateu-lhe no ombro e disse-lhe:
– Quero ver se sabes ser valente como queres parecer
apaixonado.
O amante olhou para o feliz rival com surpresa e furor, e
imediatamente atirou-se na peleja como um leão.
O marido tivera um mau pensamento, excitando o amante a
procurar a morte dos bravos; ao vê-lo, porém, batendo-se com arrojo sublime,
arrependeu-se, teve pejo, imitou-o, foi um segundo leão.
E marido e amante caíram cobertos de feridas.
A vitória coroou o esforço dos portugueses.
Dias depois, na rude povoação que havia perto do Pão de
Açúcar, e que ficou sendo chamada Vila Velha, estavam em duas cabanas diversas
dois moribundos prestes a exalar o derradeiro suspiro.
À cabeceira de um deles velava uma mulher, uma mulher que
durante um mês inteiro, sem descansar, sem dormir, cuidou do marido e rezou por
ele. Não lhe valeram cuidados nem orações: ficou viúva, e aborrecida do mundo e
da vida que até então vivera, resolveu-se a ficar na solidão do Rio de Janeiro,
pedindo e obtendo uma sesmaria no vale junto ao morro do Castelo, onde se
fundara a nova cidade.
Na outra cabana, a luta entre a vida e a morte mais longa
tinha sido ainda: um pobre mancebo sem mãe, sem esposa, sem irmã que olhasse
por ele, esteve suspenso entre a eternidade e o mundo, sem consciência do que
sofria, delirante ou sem voz, e enfim abandonado pelo próprio prático que
alguns remédios lhe aplicava. A seu lado ficou somente um padre que rezava de
joelhos diante de uma imagem sagrada.
Ao amanhecer o dia em que se contava que expirasse o
mancebo, abriu ele os olhos e falou.
Não delirava. Tinha passado a febre. Estava salvo.
–
Obrigado, meu padre! – disse com voz sumida.
–
Agradecei a quem vos salvou – respondeu o padre, mos-trando a imagem.
O mancebo olhou e viu: era uma imagem de Nossa Senhora do Ó.
Seguiu-se uma convalescença de alguns meses. No fim deles o
mancebo agradeceu ao padre os cuidados que lhe devia, e pediu-lhe que lhe desse
a imagem de Nossa Senhora do Ó.
O padre hesitava.
– Ouvi-me em confissão, meu padre – disse o mancebo.
E então de joelhos aos pés do ministro do Senhor, abriu-lhe
o seu coração e patenteou-lhe todos os seus segredos, todos os seus erros e um
profundo arrependimento.
O padre absolveu-o, abençoou-o, e fazendo-o levantar-se,
perguntou-lhe:
–
E que pretendeis fazer agora, meu filho?
–
Tocando a beira da sepultura, devorado pela febre, exaltadopelo delírio, eu
escutava incessantemente uma voz terrível repetir a meus ouvidos as palavras do
frade carmelita: “Trocas a mãe de Deus pela filha do homem: não serás feliz! Um
dia lembrar-te-ás do Monte Carmelo.” Eu me sentia condenado e desejava a morte,
quando uma noite, no meio de violenta agitação, voltando os olhos, eu vos vi,
meu padre, ajoelhado a rezar diante daquela imagem sagrada. Contemplei-a também
em êxtase, pareceu-me ver em seus olhos o anúncio da minha salvação: tive fé,
esperei e fui salvo.
–
E então, agora?
–
Meu padre, fiz votos de erguer nesta terra inculta uma ermida a Nossa Senhora
do Ó, que me arrancou das garras da morte, e de provar o arrependimento que me
acompanha da ingratidão com que fugi do tranqüilo e sagrado asilo do Carmo,
procurando alcançar na nova cidade que se está fundando um terreno espaçoso que
guardarei para os carmelitas, que não deixarão de vir estabelecer-se no Brasil.
O padre tomou a imagem da Senhora do Ó nos braços, beijou-a
fervorosamente nos pés, e depois entregou-a ao mancebo.
Passados apenas dois dias o mancebo tinha já escolhido o
sítio onde queria levantar a ermida. Soube, porém, que o lugar estava
compreendido na sesmaria concedida à viúva de um nobre português que morrera
das feridas que recebera no combate do dia 20 de janeiro.
O mancebo não desanimou: o seu desejo era santo, e para
realizá-lo foi pedir algumas braças de terra à sesmeira.
Bateu à porta da cabana da triste viúva, e mandaram-no
entrar.
Estremeceu, ouvindo a voz que lhe falara. Mas entrou na
cabana.
Uma mulher, formosa sempre, mas pálida, aflita e abatida,
mostrou-se a seus olhos. Era ela: era a sua antiga amante, que, ao vê-lo,
soltou um grito de espanto.
O mancebo parecia um velho sexagenário. Sua barba era longa,
e assim como os seus cabelos, tinha embranquecido toda.
Reconheceram-se ambos. Nenhum dos dois, porém, falou de
amor, nem sonhou com os gozos do mundo. Uma sepultura e um arrependimento, dois
abismos onde as lembranças do passado aparecem sempre negras, separavam os
amantes de outrora.
O mancebo de cabelos brancos disse ao que vinha.
A viúva, pálida e aflita, deu-lhe sem hesitar a licença
pedida para a construção da ermida nas suas terras.
– Adeus! – disseram ambos a um tempo. E levantaram para o
céu os olhos.
Com os lábios, diziam-se o último adeus na Terra, com os
olhos emprazavam-se para se encontrarem no Céu.
Em pouco tempo, a ermida de Nossa Senhora do Ó foi erguida a
poucas braças do mar e defronte da praia que por alguns anos conservou o nome
de Praia da Senhora do Ó.
O mancebo de cabelos brancos fez-se ermitão. Viveu ainda
alguns anos. Nunca mais, porém, tornou a ver a bela viúva que com tanta paixão
idolatrara.
Aquele – adeus – que a um só tempo um e outro se tinham dito
fora, com efeito, a sua despedida no mundo. Ambos, porém, aproximaram-se
enlaçados pela morte, pois que morreram no mesmo dia e à mesma hora, e foram
enterrados na mesma ermida de Nossa Senhora do Ó.
E assim foi que teve princípio a ermida de Nossa Senhora do
Ó.
A tradição popular, conservada e transmitida pelo padre
velho de que falei, termina aqui.
Filha somente e toda ela da imaginação ou pela imaginação
exagerada e desnaturada, esta tradição assenta ao menos sobre dois fatos
incontestáveis.
A ermida de Nossa Senhora do Ó data daquela época, a mais
antiga da cidade do Rio de Janeiro.
A existência do ermitão que a fundara está marcada em
memórias desse tempo.
Em 1589, chegaram ao Rio de Janeiro os primeiros monges
beneditinos, e por ordem de Salvador Correia de Sá (o velho), foram acolhidos
na ermida de Nossa Senhora do Ó. Mas logo no ano seguinte transferiram a sua
residência para o monte, onde levantaram depois o seu mosteiro, e que ficou
sendo chamado o morro de São Bento.
Bom foi que tão depressa tivessem mudado de residência;
porque no mesmo ano de 1590 entraram a barra do Rio de Janeiro alguns
carmelitas, e desembarcando na praia da Senhora do Ó, foram acolher-se à ermida
que os beneditinos acabavam de deixar.
Pelo que se vê, na cidade do Rio de Janeiro e em outras, os
frades têm muita predileção pelos sítios elevados ou pelas montanhas. Dir-se-ia
que muito aborrecidos das coisas da terra, procuram assim colocar-se mais
afastados dos homens, entre o mundo e o céu. Se esta explicação não serve, não
posso acertar outra melhor.
Os carmelitas, porém, fizeram uma exceção àquela regra e
preferiram o vale às alturas.
O ermitão que para eles tinha pedido e alcançado o monte, a
que por isso chamara do Carmo, perdeu o seu tempo e os seus cuidados.
Os carmelitas acharam tão bonita e tão cômoda a situação da
ermida de Nossa Senhora do Ó, que por ela desprezaram o monte do Carmo, e para
logo trataram de construir ali mesmo uma casa mais espaçosa.
Ganharam com essa resolução principalmente os frades menores
da ordem de São Francisco, que em 1607 tomaram para si o monte, que, mudando de
donos, mudou também de nome e começou a chamar-se morro de S. Antônio.
Mas a ermida de Nossa Senhora do Ó, apesar das obras com que
fora aumentada, estava ainda longe de oferecer as proporções de um convento. Em
regra geral, os frades gostam muito do seu cômodo, e os carmelitas parecem-se
nesse ponto com todos os outros das diversas ordens.
Assim, pois, determinaram os frades do Carmo construir um
edifício digno deles, e em pouco tempo, e com insignificante dispêndio, viu-se
olhando para o mar uma espaçosa casa com dois andares de dormitórios, tendo
cada um deles treze janelas rasgadas.
Os bons frades tiveram, ou de graça ou por módico preço,
quanto lhes era preciso para tão grande obra. A madeira sobrava, a pedra nada
custou, porque os carmelitas a mandaram tirar das Enxadas, cuja pedreira lhes
fora doada. A mão-de-obra era para alguns sobejamente paga com uma bênção
daqueles religiosos, e para os outros um serviço que por um fraco estipêndio se
prestava então; e além de todas estas facilidades, vinha ainda o recurso das
esmolas e dos donativos dos fiéis, que não importava menos.
A obra concluiu-se. Mas, ou porque na execução dela se
abalassem as paredes da ermida contígua, ou porque construída esta em terreno
pouco sólido, não pudesse ter longa duração, certo é que não muito depois
sobreveio uma horrível catástrofe, que teve conseqüências funestas.
Um dia, celebravam os carmelitas uma solenidade religiosa, a
ermida estava cheia de devotos, e eis que de repente estala o teto que as
paredes abandonam, e estas e aquele caem, abatem e esmagam um crescido número
de indivíduos.
Este fatal acontecimento explicava-se fácil e
satisfatoriamente por alguma das duas hipóteses que há pouco estabeleci. O povo
porém, que é poeta, embora não escreva linhas medidas, prefere quase sempre o
sobrenatural ao real, e em matéria de explicações costuma pedi-las antes à
imaginação do que à razão.
Um do povo inventou ou sonhou, alguns aperfeiçoaram o
invento ou o sonho, e muitos acreditaram e foram transmitindo de pais a filhos
e de filhos a netos uma segunda tradição a respeito da ermida de Nossa Senhora
do Ó.
Eis aqui, pouco mais ou menos, o que diz a tradição popular.
O ermitão que levantara aquela igrejinha e a triste viúva
que doara o terreno descansavam desde seis anos em suas sepulturas, no seio
dela. Mas suas almas, penando ainda no mundo, velavam a horas mortas da noite à
porta da ermida.
O ermitão e a viúva, como se ajustados estivessem para
deixar iguais disposições, tinham recomendado em seus testamentos que durante
sete anos, no aniversário de sua morte, se acendesse uma vela em suas
sepulturas e se dissessem três missas por suas almas.
Seis anos haviam já passado.
Os carmelitas faziam construir com ardor e esmero o seu
convento, que estava a ponto de terminar-se, e no entanto, pretendiam alguns
homens das vizinhanças que à meia-noite ouviam-se ali gemidos pungentes, e
diziam que eram as almas do ermitão e da viúva que lamentavam, sem dúvida, que
os frades que cuidavam tanto em preparar excelente casa para sua vivenda
esquecessem o teto sagrado, a ermida que ameaçava ruína.
Aqueles gemidos eram lúgubres presságios.
Sinistras previsões eram murmuradas a medo por alguns, e uma
boa velha que passava por viver vida santa afirmava, tremendo, que não tinha
ainda acontecido uma grande desgraça na ermida, porque a Senhora do Ó esperava
primeiro ver passar o sétimo aniversário da morte do ermitão e da viúva.
E o dia daquele sétimo aniversário chegou, e aconteceu que
também nesse dia teve de celebrar-se uma solenidade pomposa na ermida.
A festa não impediu que se acendesse uma vela sobre a
sepultura do ermitão e outra sobre a sepultura da viúva, que eram na nave da
ermida.
As missas, porém, que deviam ser não menos de seis, tiveram
de ser ditas em um altar que havia no consistório da pequena igreja.
A festa começara. As missas continuavam e as velas ardiam.
Enfim, a sexta, a derradeira missa chegou ao seu termo, e
quando no altar do consistório o celebrante pronunciou a última palavra, na
nave da capela apagaram-se, de súbito e por si mesmas, as velas das sepulturas,
e imediatamente a ermida abateu e desabaram todas as suas paredes.
Aqui termina a tradição, que julguei não dever desprezar,
embora seja eu o primeiro a negar-lhe crédito.
Livre da tradição popular, que perturba um pouco ou mesmo
muito a verdade da história, prossigo desafrontado na fiel narração dos fatos.
Sobre as ruínas da ermida de Nossa Senhora do Ó, construíram
os carmelitas um templo que se mostrou em harmonia com as proporções do seu
convento. Essa igreja, porém, foi ainda reedificada, começando as obras da
reedificação no ano de 1761, no tempo do ilustre conde de Bobadela.
O nosso afamado mestre Valentim, o artista que era grande
naquela época, e que grande seria também na atualidade, concorreu com o seu
imenso talento para a renovação e embelezamento da igreja dos carmelitas.
É justo não esquecer que nenhuma destas mudanças e
construções fez pôr de lado a antiga devoção de Nossa Senhora do Ó, que, aliás,
continuou sempre a ser profundamente venerada na igreja que substituíra a sua
ermida.
Nada mais me ocorre agora para dizer acerca da história
antiga do convento do Carmo, que desde 1808 faz parte do palácio imperial.
Farei, porém, um protesto, antes de concluir.
Talvez alguém há que me lance em rosto o haver misturado com
a narração de fatos autenticados nas nossas memórias históricas duas tradições
populares, que, aliás, se reduzem a uma única, e que evidentemente pecam por
inverossímeis e por falta de fundamento.
Mas, tradições como essas abundam nas arquivos da imaginação
e da credulidade de todos os povos, e encontram-se em todas as nações.
Que mal faz perpetuá-las? São as poesias do povo, os velhos
amam-nas, os meninos as aprendem de cor, os poetas as escutam cobiçosos, a
terra da pátria se enfeita com elas.
Terei ainda de referir mais algumas, e destas, a maior parte
colherei muito conscienciosamente nas páginas dos anais mais sérios e áridos
que possuímos.
Quem não gostar de um passeio assim dado, não passeie
comigo.
E não zombem do povo, não. Não se riam da inocente
credulidade do povo.
Há credulidades de sábios doutores que não ficam aquém da
credulidade do povo.
Eu podia apresentar um milhão de exemplos. Contentar-me-ei,
porém, com um só que vem a propósito, pois que se refere à igreja dos
carmelitas.
Pergunto: havia doutores e homens notavelmente ilustrados na
ordem carmelitana?
Respondo: havia incontestavelmente.
Pois agora, escutem.
Segundo informa nos seus Anais do Rio de Janeiro,
Baltasar da Silva Lisboa, depois de concluída a igreja dos carmelitas, foi
enriquecido o seu altar-mor com algumas relíquias que constaram, além do Santo
Lenho, de três cabelos de Nossa Senhora e da touca de Santana.
A religião católica, única verdadeira e santa, a religião
puríssima de Jesus Cristo, devia, porventura, receber a imposição de
semelhantes puerilidades, o nome sagrado da Virgem Imaculada, desse divino
símbolo do mais angélico amor, devia ser assim profanado?
Donde nasceram tais profanações, senão da credulidade?
E se não foi a credulidade que as determinou, ai meu Deus! –
a conseqüência seria mil vezes pior.
Basta.
A minha excursão pelos domínios do passado chegou ao seu
termo.
Voltarei em breve a continuar o estudo do palácio imperial,
considerando-o em uma época muito mais recente.
V
Na manhã do dia 26 de abril de 1821, quando o príncipe
regente do Brasil acabava de receber as últimas despedidas de seu augusto pai,
e a nau D. João VI, abrindo suas brancas asas, começava a cortar as águas
do plácido janeiro para levar a Lisboa a família real, dois velhos criados do
rei conversavam, olhando para a cidade que também deixavam.
–
Pobre cidade: – dizia um deles. – Como vai ficar agora,achando-se privada do
rei e da corte?
–
E o palácio! – acrescentava o outro. – Que salas desertas.Que tristezas e que
saudades!
–
E o futuro ainda pior há de ser para ele, porque, por ora,ainda lhe resta o
príncipe D. Pedro com um arremedo da corte do rei; mas, em breve, também o
príncipe tornará à mãe pátria que não pode querer que o herdeiro do trono ande
aqui exaltando as cabeças dos brasileiros. E em tal caso, a que ficará reduzido
o tal palácio?
–
A casa dos vice-reis como dantes – tornou o outro.
–
O que já não é pouco – observou o primeiro criado quefalara.
–
Não pensa o rei assim – disse, sorrindo, um terceiro criadoque se aproximara.
Os dois voltaram-se e tomaram diante daquele que viera
intrometer-se em sua conversação uma atitude respeitosa, pois que tinham
reconhecido um dos cortesãos mais queridos e da maior privança do Sr. D. João
VI.
–
Como pensa então Sua Majestade? – perguntou um dosdois criados, já de antemão
resolvido a aplaudir o juízo do soberano.
–
Ainda há pouco o rei, abraçando ternamente o príncipe,despediu-se dele,
dizendo-lhe algumas palavras em que lhe deixou uma profecia e um conselho; e
nem uma nem outro podem alentar muito as esperanças dos portugueses.
–
Mas o rei é o melhor dos portugueses.
E nem por isso o seu patriotismo o torna cego ao futuro, em
cujo livro sabe ler como um profundo político.
Os dois cortesãos curvaram-se em sinal de aprovação.
O outro continuou.
–
O rei disse ao príncipe estas palavras, que eu recolhi e decorei: “Pedro, o
Brasil brevemente se separará de Portugal. Se assim for, põe a coroa sobre a
tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela.”
Os corações dos dois velhos criados do rei revoltaram-se
contra o conselho, e ainda mais contra a profecia; mas seus lábios de cortesãos
tiveram sempre um sorriso para acolher as palavras do soberano. O contágio do
liberalismo português ainda não tinha podido romper o cordão sanitário da
corte.
Enfim, era preciso dizer alguma coisa que servisse para
melhor esconder o descontentamento íntimo.
–
E... visto isso... o palácio...
–
O palácio continuará a ser palácio real, e não será impossível que se torne
imperial.
A conversação parou aí; estava tomando um caráter tão triste
para aqueles fiéis cortesãos e leais portugueses, que em verdade não podia
continuar.
Em 1822, um ano e cinco meses depois, a profecia do rei
achava-se realizada e o seu conselho nobremente seguido.
O Brasil era um império independente e livre.
A nova organização política do país deu imediatamente lugar
a uma modificação no palácio, que passara a ser imperial; porque, havendo
necessidade de se preparar um edifício em que celebrasse as suas sessões a
Constituinte brasileira, escolheu-se para esse fim a antiga casa da câmara
municipal e cadeia, e conseqüentemente destruiu-se o passadiço que desde 1808 a
ligara ao palácio.
Coisas deste mundo! Uns trinta anos antes dessa época
brilhante e gloriosa, tinham estado presos na cadeia, que era naquele mesmo
edifício, alguns dos comprometidos na famosa conjuração de Tiradentes, os
criminosos de lesa-majestade que haviam tramado em Minas Gerais o primeiro
movimento revolucionário, que devia realizar a independência pelo menos de uma
parte do Brasil; e passados trinta anos, em 1822, duas das vítimas, dois dos
condenados, o padre Manuel Rodrigues da Costa e José de Resende Costa Filho, vinham
entrar nesse mesmo edifício para tomar parte nos trabalhos da assembléia
constituinte do Brasil independente, como deputados pela província de Minas
Gerais!
A cadeia velha transformara-se em templo das leis; as
vítimas e os condenados de 1792 eram triunfadores e heróis em 1823.
Eu faço idéia da impressão que sentiriam e das recordações
que teriam o padre Rodrigues da Costa e José de Resende ao verem-se pela
primeira vez, em 1823, debaixo daquele mesmo teto que tão lúgubre lhes parecera
em 1792.
Não quero, porém, perder de vista o assunto que ainda neste
passeio me deve ocupar.
Pelo andar do tempo, continuou o palácio imperial a receber
outras modificações.
No reinado do primeiro imperador, levantou-se o segundo
andar da face principal com três janelas guarnecidas por uma varanda de ferro.
No atual reinado do Sr. D. Pedro II, e por ordem de Sua
Majestade, foram reformados os dois corpos laterais da fachada principal, sendo
cada um deles coroado com um ático, parecendo por isso haver dois terraços em
lugar de telhados.
No interior do palácio, limitar-me-ei apenas a lembrar as
alterações que o pensamento que dominou em épocas diversas imprimiu
plasticamente na sala das audiências do governador e dos vice-reis, e do trono
do rei e do imperador.
O conde de Bobadela mandou representar no teto daquela sala
o gênio da América, e José de Oliveira, pintor fluminense, mostrou o gênio
aspirando lume ao entrar no templo da humanidade, na grande aliança que
caminhava com o sol, do oriente para o ocidente.
Por ordem do rei, simbolizou Manuel da Costa o reino unido,
sustentando o escudo glorioso de Portugal.
O primeiro imperador encarregou a Francisco Pedro de
substituir aquele símbolo, que ali se tornara anacrônico, pelas armas do novo
império diamantino.
Logo depois da declaração da sua maioridade, o Sr. D. Pedro
II mandou pelo Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre executar no paço as obras que
ainda há pouco referi, e então aquela sala cresceu de pavimento e altura, e no
seu teto fulgurou o Anjo Custódio, protetor do império, rodeado das províncias
e do Brasil genuflexo, que recebe da sua mão celeste o influxo da proteção
divina.
A descrição do palácio imperial deve parar aqui. Convenho em
que, ao ler-se a epígrafe deste e dos precedentes capítulos, esperariam muitos
que eu tivesse de falar de salas suntuosas, de brilhantes e admiráveis
trabalhos de arte, e de todas essas riquezas que deslumbram os olhos daqueles
que visitam os palácios reais e imperiais do velho mundo. Mas, que hei de
fazer? O nosso palácio imperial é uma casa pobre que faz honra à modéstia do
imperador, e que, entretanto, assinala também ou a pobreza, ou a incúria
inexplicável do Estado.
Mas por que dei por finda a descrição, não se segue que eu
deva recolher-me tão cedo deste passeio, que apenas acabo de começar.
Aproveitaremos o tempo que nos sobra, conversando um pouco sobre coisas que
dizem respeito ao mesmo palácio.
Conversemos.
À primeira vista, surpreende a qualquer o fato de haver o
rei deixado passar treze anos sem cuidar de fazer construir para si um
verdadeiro palácio em lugar dessa casa dos governadores em que se hospedara a
família real portuguesa; e ainda mais admira que a nação se tenha descuidado de
oferecer ao seu imperador um palácio digno dela e dele, achando-se constituída
há perto de meio século.
Ora, ao que parece, o rei não tinha muita vontade de voltar
para Portugal e, portanto, não se explica, por uma idéia de residência
passageira o fato de ter-se ele contentado com esse palácio provisório.
Quanto aos imperadores, a explicação seria ainda mais
difícil para o Estado, que deve dar um palácio ao seu chefe.
Mas o motivo de ambos esses descuidos é, no entanto,
porventura, bem simples.
O príncipe regente, depois rei do Reino-Unido, por muito
pouco tempo residiu ordinariamente no palácio de que tenho tratado.
No mesmo ano da chegada da família real portuguesa ao
Brasil, Elias Antônio Lopes, notável negociante da praça do Rio de Janeiro,
ofereceu ao príncipe regente uma casa e chácara que possuía em S. Cristóvão. A
oferta foi aceita, as armas reais foram colocadas sobre a porta principal da
casa e a família real passou a residir quase sempre nessa chácara, que ficou
sendo chamada, como ainda hoje se chama, Quinta da Boavista.
Como o Sr. D. João, também os nossos dois imperadores
preferiram, com razão, S. Cristóvão ao largo do Paço, e a necessidade de um
palácio na cidade pareceu assim menos urgente.
Eis aí por que a casa, que a princípio se chamou dos
governadores, tem podido atravessar mais de um século, merecido três promoções,
pois que passou a ser casa dos vice-reis, depois palácio real e, enfim, palácio
imperial, e se mantêm ainda com o mesmo título, apesar da sua insuficiência, da
sua mesquinhez, do seu estado de ruína e, em uma palavra, apesar do cupim que a
conquistou toda.
Entretanto, deve-se dizer, tal qual é, o palácio da cidade
encerra já importantes recordações históricas.
Em relação ao passado, a lousa pesada do tempo esconde na
sepultura do esquecimento, sem dúvida, muitas lembranças interessantes. Metade,
porém, da nossa história contemporânea lê-se nas janelas e nas salas desse
palácio.
Pelas salas daquela casa, a nossa imaginação, ruminando os
anos do último século, vê passar vultos dos governadores e dos vice-reis, cuja
bengala era o símbolo do despotismo do governo e da escravidão do povo. Há
ainda quem suspire pelas delícias daquele tempo. Eu, porém, apesar dos Freires
de Andrade, Lavradio e Luís de Vasconcelos, dou graças a Deus por ter nascido
em uma época em que tenho direito de pensar, falar, escrever e proceder com
toda a liberdade que me garante a Constituição do Império. São gostos...
De uma das janelas da face principal daquele palácio, o
governador conde de Bobadela e o bispo frei Antônio do Desterro, em um dia do
ano de 1759, estiveram olhando atentamente para o trapiche que havia no lugar
onde depois se estabeleceu o arsenal de guerra, enquanto se embarcavam os
padres jesuítas expulsos do Brasil por ordem de D. José I.
Em que pensava então o bispo, Deus o sabe. Rezava, talvez,
pedindo o perdão daqueles que, depois de terem prestado tão grandiosos serviços
ao Brasil, tinham esquecido pelos bens da terra a piedosa e simples missão dos
missionários dedicados e civilizadores. O conde, porém, meditava, sem dúvida,
no que pode conseguir a força de vontade e a energia política de um homem como
foi o Richelieu português, o famoso marquês de Pombal.
A edificação da casa dos governadores coincidiu com o começo
de uma época que se recomenda à memória agradecida dos fluminenses. Porque é
exatamente desse tempo que data o empenho de alguns administradores pelo
embelezamento e progresso da cidade do Rio de Janeiro: as nossas melhores obras
públicas foram realizadas do meado do século décimo oitavo em diante, e as
ordens para a execução delas assinaram-se naquela casa.
Em 1808, a monarquia lusitana asilou-se no palácio da
Sebastianópolis, fugindo à pressão e ao ímpeto vitorioso das falanges do
conquistador moderno; e então a antiga casa dos governadores foi o ponto onde
se concentraram as vistas de todos os portugueses, e especialmente as mais
ardentes esperanças dos brasileiros, que, entusiasmados ao ver a terra de Santa
Cruz elevada de colônia a metrópole, não podiam mais admitir a idéia da perda
dessa supremacia.
E dentro do palácio, em uma de cujas salas a realeza fizera
levantar um trono onde até bem pouco se mostrava a cadeira pesada dos
vice-reis, perdeu-se no mistério de secretas confidências e nos disfarces de
intrigas cuidadosamente manejadas, a história de uma longa e porfiada luta
entre a corte e o príncipe regente, depois rei. Entre a corte desmoralizada,
interesseira e prepotente que oprimia o povo, procurava fazer do país uma
fazenda sua, e via com olhar vesgo o rápido desenvolvimento da antiga colônia; e
o rei, que amava o Brasil, que desejava o bem do povo, mas que, sem energia
para atuar, sem vigor, tolerava a luta, aplaudia e sustentava uma ou outra
autoridade que sabia corajosa resistir à influência dos grandes da corte e, no
entanto, continuava a deixar-se cercado daqueles mesmos que abusavam,
prevaricavam, zombavam das leis e riam-se dos clamores do povo.
Contai agora as janelas da face lateral do paço, que olham
para o largo. Contai-as, começando da extrema que faz ângulo com a fachada
principal. Contastes até sete? Parai aí.
Essa sétima janela recomenda-se por uma suave e patriótica
recordação a todos os brasileiros e muito especialmente aos fluminenses.
Foi nessa sétima janela que apareceu, no dia 9 de janeiro de
1822, José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, à frente dos
outros membros, seus colegas, aos olhos de uma multidão de patriotas, que
esperavam ansiosos a resposta do príncipe regente à representação que a
municipalidade lhe fora dirigir em nome do povo, pedindo-lhe que resistisse aos
decretos do governo de Lisboa e que ficasse no Brasil.
Foi do alto dessa janela que José Clemente Pereira, como
presidente do Senado da Câmara, falando ao povo, exclamou:
“O príncipe regente, atendendo à representação que em nome
do povo o Senado da Câmara acaba de ter a honra de dirigir-lhe, respondeu pelo
modo seguinte: – Como é para bem de todos, e felicidade geral da nação, diga ao
povo que fico.”
O Fico era a revolução gloriosa da independência do Brasil,
revolução que estava já acesa nos corações dos brasileiros; que se dirigia,
encaminhava e desenvolvia nas lojas maçônicas, nos clubes dos patriotas e até
no convento de S. Antônio, na cela de frei Sampaio, que se fazia já sentir nas
ruas e nas praças, onde o povo se reunia exaltado, e que, enfim, rebentava
dentro do próprio palácio adotada pelo príncipe, que tinha de soltar o brado
independência ou morte nas margens do Ipiranga.
Do dia 9 de janeiro em diante, a causa da revolução nacional
contou os dias por acontecimentos e por triunfos, e no palácio imperial não se
trabalhava menos por ela do que nos clubes. Quando o príncipe chegou à margem
do Ipiranga, a 7 de setembro, em São Paulo, já tinha passado o Rubicon no Rio
de Janeiro.
A 12 de outubro de 1822, o príncipe regente foi aclamado
imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil na capital do novo
império; mas a essa grande e brilhante solenidade quase que ficou estranho o
palácio imperial.
A aclamação teve lugar no campo que então se chamava de
Santana, e que estava coberto de povo e tropa. O imperador mostrava-se
radiante, na varanda do palacete que havia nesse campo. A chuva caía com
violência, mas apesar dela veio o imperador a pé e embaixo de pálio, seguido
por toda a corte vestida de gala e pela multidão entusiasmada, para a capela
imperial, onde foi entoado o Te-Deum em ação de graças pela regeneração
política do Brasil e aclamação do seu imperador.
Com água às vezes pelos joelhos, esse préstito magnífico
seguiu pela rua dos Ciganos, praça da Constituição, rua hoje do
Teatro, largo de S. Francisco de Paula, rua do Ouvidor e rua Direita até à
capela. Com a chuva do céu, caíam ao mesmo tempo enchentes de flores sobre o
pálio, e as aclamações estrepitosas não deixavam ouvir o ruído da tormenta.
Entre os entusiastas, que eram todos, tornou-se notável uma
turma de mancebos, alguns dos quais ainda vivem hoje. O imperador os vira à
porta do palacete, sorrira-se encontrando-os à entrada da rua dos Ciganos,
saudara-os, vendo-os cada vez mais entusiasmados, junto ao teatro de São João,
que logo depois se chamou de S. Pedro, e enfim, esbarrando de novo com
eles à porta da capela, parou um instante e disse-lhes:
“Os senhores tiveram hoje o dom da ubiqüidade. Foi milagre
do patriotismo.”
No dia 1º de dezembro de 1822, efetuou-se o ato solene da
sagração do primeiro imperador do Brasil; e então ficaram gravadas no palácio
imperial lembranças faustosas desse notável acontecimento. Foi no palácio
publicada a lista dos primeiros agraciados com a ordem imperial do Cruzeiro do
Sul, primeira ordem americana, instituída nesse dia, e com a qual o imperador
agraciou muitos dos mais notáveis propugnadores da independência. Antônio
Carlos, Cipriano Barata, o Sr. Montezuma, hoje Visconde de Jequitinhonha, e
alguns outros mereceram essa bela distinção, não ficando também esquecido o
benemérito Capitão-mor José Joaquim da Rocha, cujos serviços à causa da
independência foram tão relevantes, como grande a sua modéstia. O Sr. D. Pedro
I, ao entrar no saguão do palácio imperial na manhã daquele dia, viu, entre os
cidadãos que em número extraordinário se achavam ali, um filho do Capitão-mor
José Joaquim da Rocha, e parando diante dele, perguntou-lhe alegremente:
–
Seu pai já chegou ao paço?
–
Já aí está, senhor – respondeu o mancebo.
–
Pois se o encontrar primeiro do que eu, diga-lhe que foihoje agraciado com a
dignitária da imperial ordem do Cruzeiro do Sul, como prêmio justo e devido a
um dos patriarcas da independência da nossa pátria.
O povo respondeu com um viva estrepitoso às palavras do
imperador, que assim honrava o cidadão patriota.
Do fim de 1833 a 1834, o palácio imperial foi durante algum
tempo habitado por S. M. o Imperador, ainda menor e por suas augustas irmãs. A
mudança de sua residência, da Quinta da Boavista para o palácio da cidade,
traz-nos à memória dias tormentosos e uma página triste de nossa história.
Os excessos do partido restaurador, que perturbava a ordem e
conspirava contra o governo, provocaram excessos ainda mais lamentáveis do
partido dominante e do próprio governo. Às maquinações e violências dos
restauradores respondeu o governo, deixando, em dezembro de 1833, as turbas
mais ardentes e menos escrupulosas do seu partido atacarem impunemente a
Sociedade Militar, que era a representante dos restauradores, quebrarem e
destruírem toda a mobília e, em seguida, levarem igual destruição às tipografias,
de cujos prelos saíam jornais infensos à política que então dirigia os negócios
públicos.
Dias depois, espalhou-se que o partido restaurador
premeditava romper em uma nova revolta, apoderando-se primeiramente dos
augustos pupilos da nação. Fosse apenas um pretexto, ou tivesse realmente algum
fundamento, certo é que essa notícia deu motivo a que o governo suspendesse o
venerando José Bonifácio de Andrada do exercício da tutoria do imperador e das
princesas e a que todos os juízes de paz da capital, escoltados de uma força de
cem homens da polícia e de duas peças de artilharia, partissem para S. Cristóvão,
varejassem o paço da Quinta, prendessem o tutor e, enfim, acompanhassem a
família imperial, que foi trazida em triste triunfo para o palácio da cidade.
Passado algum tempo, arrefecido o fogo dos partidos, tornou
o imperador a ir habitar a Quinta da Boavista, e o palácio, em que por meses
residira, voltou àquela grande e melancólica solidão em cujo seio passou
durante quase toda a época da minoridade.
Em 1840, o imperador foi proclamado maior, e o palácio
imperial abriu suas salas à corte, que se apressou, mais do que nos nove anos
que haviam decorrido desde 1831, a vir cercar o trono da majestade.
Em 1844 celebrou-se o casamento da princesa imperial a Sra
D. Januária com o Sr. Conde de Aquila, Príncipe das Duas Sicílias, que
ficaram residindo, em todo o tempo que estiveram no Rio de Janeiro, na quela
parte do palácio imperial que fora outrora convento dos carmelitas.
No reinado do Sr. D. Pedro II, o Brasil tem visto com ufania
o palácio imperial hospedando dignamente as ciências, as letras e as artes.
Em uma das salas principais do palácio celebrava a Imperial
Sociedade de Medicina, celebrava o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil
as suas sessões aniversárias.
Desde o dia 15 de dezembro de 1848, o mesmo Instituto
Histórico recebeu no segundo andar do antigo convento do Carmo as acomodações
necessárias para a celebração de suas sessões ordinárias e para a sua
biblioteca e arquivo, e além desta graça muito especial, que tanto o
distinguiu, o imperador, seu primeiro sócio, começou, dessa data em diante, a
presidir constantemente os seus trabalhos e a tomar neles parte com um
interesse tão glorioso como patriótico.
No pavimento inferior do palácio imperial, têm sido, em
algumas salas, hospedados artistas de merecimento. Em uma delas via-se, ainda
não há muitos anos, o habilíssimo Petrich, manejando o cinzel e o martelo, dar
vida ao mármore e transformar a pedra informe em belas estátuas.
E apesar de todas estas recordações, apesar dos grandes
vultos do passado, dos nomes ilustres e dos acontecimentos importantes que nos
faz lembrar, o palácio imperial não pode e não deve ser conservado. Não há
conserto nem reparações que lhe aproveitem.
Não é, repito pela última vez, não é digno nem da majestade,
nem da nação.
Todas as artes devem dar-se as mãos para erigirem um palácio
novo. O patriotismo o exige. A necessidade instantemente o recomenda.
O que estamos vendo no meio do largo do Paço não é um
palácio, é uma casa antiga e na mais completa ruína.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Passeio Público
I
FAZEI de conta que vos achais agora comigo no aprazível
terraço do Passeio Público do Rio de Janeiro.
O dia foi calmoso. Em compensação, porém, a tarde é bela e
fresca. O sol derrama sobre a terra seus últimos raios. Anuncia-se a hora do
crepúsculo. A viração festeja docemente as verdes folhas das árvores que
sussurram com um leve ruído.
Imaginai tudo isto. Embalar-vos-eis com uma ficção que já
tem sido e será mil vezes uma verdade.
Sentemo-nos nestes bancos de mármore e de azulejos. Voltemos
as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime,
absorve-nos-ia em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os
olhos à majestade das obras de Deus. A hora do crepúsculo é suave, melancólica
e propícia aos sonhos do futuro e às recordações do passado.
Deixemos o futuro a Deus no Céu e aos poetas na Terra.
Lembremos antes o passado, e, ligados pelo mesmo pensa
mento, vamos buscar no último quartel do século décimo oitavo o princípio da
história deste jardim público.
Suponhamos ainda e finalmente que por unanimidade de votos
me escolhestes para vosso orador: foi uma eleição inteiramente livre, sem
cabala, sem fósforos, sem intervenção da polícia, sem duplicatas, sem anulações
de votos fatais, um verdadeiro milagre constitucional. Tenho consciência da
pureza do meu mandato.
Falo em nome de todos vós.
O célebre Luís de Vasconcelos e Sousa, que no dia 5 de abril
de 1779 substituíra o marquês de Lavradio no governo do Brasil, via com a mais
profunda mágoa começar o seu vice-reinado debaixo de maus auspícios.
Moço ainda e, portanto, sem aquele prestígio de uma longa
experiência que se assinala nas rugas da fronte e nos cabelos grisalhos, que
aliás nem sempre são companheiros da sabedoria e da prudência, viera suceder a
um administrador provecto, hábil e feliz, que deixava o seu nome recomendado à
memória do povo pelos serviços que prestara à agricultura, pela proteção que
dera às letras nascentes no Rio de Janeiro, e pelos cuidados com que se
empenhara em prover às despesas, à polícia e ao desenvolvimento e asseio da
cidade capital da grande colônia portuguesa da América.
A lembrança do marquês de Lavradio fazia já não pouco
difícil a posição do novo vice-rei, e ainda como para torná-la mais embaraçada,
sobrevieram logo dois lamentáveis sucessos, uma calamidade e um flagelo
inesperados, que encheram de desgosto a população.
Alguns meses apenas tinham passado depois da chegada de Luís
de Vasconcelos ao Rio de Janeiro, quando, em conseqüência de chuvas aturadas e
violentas, romperam-se os aquedutos das fontes públicas, deixando os habitantes
da cidade em luta com a carestia d’água, que somente de longe se podia trazer.
Então o pretinho que passava pela rua gritando – Ii! – fazia
pagar por um preço relativamente fabuloso o pote d’água que levava à cabeça, e
isso era um tormento para os pobres e um motivo de lamentações para os ricos.
Se não compreendeis bem a significação desse grito dos vendedores d’água, que
ainda se ouvia no Rio de Janeiro em uma época muito recente, eu vo-lo explico.
Logo depois da fundação da cidade de S. Sebastião, eram os índios ou gentios
que vendiam água aos colonos e a anunciavam na sua língua, bradando: – Ig! Ig!
– palavra que foi corrompida mais tarde pelos africanos escravos.
Mas, ainda pior do que a ruína dos aquedutos, aconteceu
imediatamente que se desenvolvesse uma terrível epidemia que espalhou o terror
e o luto no seio da bela Sebastianópolis. Era uma febre de caráter maligno,
acompanhada de afecções cerebrais e da medula, e que, quando não terminava com
a morte dos doentes, deixava a estes um legado cruel de paralisias e de
deformidade.
Chamou-se então a essa epidemia – zamperini ou zamparina,
como dizia o povo, que foi quem assim a denominou.
Permiti que eu interrompa por alguns momentos a minha
narração, para dizer duas palavras a respeito de certas denominações populares
dadas a algumas epidemias.
Como as moléstias epidêmicas atacam a muitos indivíduos ao
mesmo tempo, o povo, que não entende a tecnologia médica e vê naquele fato
alguma coisa que se parece com a moda, dá ao mal reinante o nome que está mais
em moda.
Assim, em 1779, chamou à epidemia que ceifava a população,
zemperini, porque então se penteavam os cabelos e se usavam diversos objetos e
vestidos à Zamperini, que foi aquela célebre cantora veneziana que chegou a
Lisboa em 1770, levada pelo notário apostólico da nunciatura, e a quem no
teatro da rua dos Condes iam todos aplaudir, notavelmente o padre Macedo, que
lhe dirigiu sonetos e odes como qualquer outro pecador inspirado o faria.
Assim, também chamou-se em 1847, polka, e em 1851,
shottisch, nomes de duas danças muito em voga nesse tempo, a duas epidemias que
apareceram.
No princípio do nosso século, se não estou em erro,
desenvolveu-se na cidade do Rio de Janeiro uma catarral tão violenta que os
afetados à força de tossir acabavam por corcovar-se; a essa moléstia, po rém,
não deu o povo um nome da moda, e chamou-a muito apropriadamente carcunda.
Talvez me acusem de prolixo e divagador por entrar em
explicações que não têm relação alguma com a história do Passeio Público. É uma
injustiça: convém guardar as lembranças que vou registrando, e que podem para o
futuro prevenir confusões possíveis. Por exemplo, não se poderia dar o caso de
se confundirem as carcundas catarrais com os carcundas políticos, denominações
que foram ambas empregadas neste século? Pelo menos, os absolutistas devem me
agradecer o empenho com que esclareci um fato que livra a qualquer deles de ser
confundido com uma catarral, e que era muito possível que acontecesse.
Fique, pois, bem determinado e sabido: a nossa população
nunca até hoje se lembrou de fazer uma alusão política, quando trata de
alcunhar alguma epidemia e, entretanto, se o fizesse, não era novidade no
mundo, porque em França já o povo deu o nome de um ministro antipático a uma
moléstia epidêmica que reinou em Paris. Não digo que andasse bem procedendo
assim, não; mas é impossível deixar de reconhecer que às vezes aparecem
ministros e ministérios que são tão funestos ao país como a peste mais
flageladora e mortífera.
Prossigo sem mais demora a narração que interrompi.
A cidade do Rio de Janeiro estava, pois, em uma situação
duplamente dolorosa. Mas, se alguém então desanimou não foi por certo Luís de
Vasconcelos, que deu prontas e enérgicas providências para o abastecimento
d’água, assim como tomou medidas higiênicas para combater a zamperini, mandou
socorrer os enfermos pobres, e ainda teve tempo e força para ordenar o começo
dessa série de obras importantes que perpetuaram o seu nome.
Luís de Vasconcelos reunia a grandes qualidades de
administrador maneiras tão afáveis, tanta cortesia e bondade, que soube
depressa conquistar as simpatias do povo. Em breve estas simpatias se
transformaram na mais bem fundada estima e consideração; porque o ativo e
infatigável vice-rei empreendeu grandes trabalhos em proveito da cidade, e para
levá-los ao cabo soube cercar-se de todos os homens esclarecidos e capazes de
coadjuvá-lo que encontrou no Rio de Janeiro.
Um dos seus prediletos era o mestre Valentim.
Observar-me-eis que eu não disse ainda quem era o mestre
Valentim. Tendes razão.
Valentim da Fonseca e Silva era filho de um fidalgo
português e de uma rapariga do Brasil, e teve o seu berço ou no Rio de Janeiro
ou mais provavelmente na província de Minas Gerais, onde seu pai era
contratador de diamantes. Foi levado por ele para Portugal, donde voltou órfão
e ainda jovem, repelido pelos parentes, e trazendo por herança única o vício
minhoto que sempre conservou na fala. Aprendeu no Rio de Janeiro a arte
torêutica, e foi um arquiteto e um entalhador de primeira ordem. As igrejas do
Carmo e da Cruz, a capela-mor da de S. Francisco de Paula e o chafariz do largo
do Paço documentam o seu merecimento ainda hoje.
Devemos agradecer aos parentes do pai de Valentim o ímpeto
de vaidade com que empurraram para o Brasil aquele pobre menino, que entre nós
se fez um grande homem e que honrou a pátria com seu imenso talento.
O mestre Valentim queixava-se de que Luís de Vasconcelos,
que se dizia tão seu amigo e que tantos tributos pedia à sua capacidade
artística, desse-lhe sempre mais elogios do que dinheiro; parece, porém, que
não havia muito fundamento nas queixas do artista, a quem jamais sobrava o
ouro, porque, amando muito o belo sexo e tendo especial predileção por
estrangeiras, pagava uma fingida e interesseira gratidão por preço tanto mais
elevado quanto era maior a impressão que causava o seu rosto feio e exterior pouco
simpático.
Mas Luís de Vasconcelos tinha em grande estima o mestre
Valentim; aprazia-se com as suas originalidades e com a sua franqueza de
artista e confiava muito na sua probidade e inteligência, fazendo-se até às
vezes acompanhar por ele, quando saía a examinar o andamento das obras que
estava mandando executar.
Corria ainda o ano de 1779, e em um dia, ao cair da tarde, o
vice-rei, que da janela do palácio vira o mestre Valentim dirigindo os últimos
trabalhos do chafariz que do meio da praça fora removido nesse ano para junto
do mar, ordenou que o fossem chamar, e, apenas o viu aparecer, convidou-o a
segui-lo em um passeio pela cidade.
Montaram ambos a cavalo, e Luís de Vasconcelos, tomando a
dianteira, depois de demorar-se um pouco observando a obra do cais que se
principiara a construir em frente do palácio, partiu para o morro de Santa
Teresa, onde se renovavam os aquedutos. Encaminhou-se pelas ruas de S. José e
da Ajuda, ladeou o convento das freiras, preferindo à rua dos
Barbonos o seguir pelo largo da Ajuda, e pela margem de uma feia
lagoa que dali se estendia até ao fim da atual rua do Passeio.
O mestre Valentim sorrira-se maliciosamente vendo o vice-rei
tomar aquela direção. É verdade que o boqueirão da Ajuda, cujo seio se
compreendia no espaço que vai desde a ponta do Calabouço20 até ao monte de
Nossa Senhora da Glória, oferecia uma vista magnífica; mas a lagoa que ali se
encontrava era repugnante: formada pelas águas da chuva que ficavam estagnadas,
mostrava-se de feio aspecto, às vezes exalava um cheiro desagradável e, na
opinião de muitos, passava por ser um foco de peste. Chamavam-na lagoa do
Boqueirão.
Por que fizera caminho por aquele sítio o vice-rei? Por que
se sorrira maliciosamente mestre Valentim? Eles lá o sabiam.
O lugar era desestimado; a povoação da cidade interrompia-se
naquele ponto, onde apenas se viam três ou quatro humildes casinhas, e entre
essas uma quase à beira da lagoa, e que, diante da porta e a dez passos, tinha
uma bela palmeira e junto desta uma cerrada moita de arbustos. Mas nem a
palmeira, nem a moita de arbustos teriam feito notar a pobre casinha, se à sua
janela não aparecesse muitas vezes o mais lindo rosto de moça morena que
porventura havia na cidade.
Quando o vice-rei passou, a moça correu à rótula para vê-lo,
e o mestre Valentim sorriu-lhe pela segunda vez.
Chegaram enfim os cavaleiros e subiram o morro de Santa
Teresa. Examinaram as obras e conversaram tão longamente a respeito dos
aquedutos que começava a escurecer, quando desceram. Mas Luís de Vasconcelos,
não querendo ainda voltar a palácio, rodeou o outeiro das Mangueiras, que então
existia, ocupando o lugar da rua que teve depois o mesmo nome, e partiu a
galope em direitura ao Botafogo, prolongando tanto o seu passeio que eram nove
horas da noite, quando de volta passava diante da romanesca ermida de Nossa
Senhora da Glória.
A lua estava brilhante, a viração soprava docemente, a
cidade parecia ir tranqüilamente adormecendo.
– Mestre – disse o vice-rei – acabaremos a pé o nosso
passeio.
Valentim sorriu-lhe pela terceira vez e apeou-se.
Os criados tomaram conta dos cavalos e partiram adiante.
O vice-rei e o artista ficaram sós e foram seguindo. Ao
chegarem de novo junto do monte das Mangueiras, que era um espigão do morro de
Santa Teresa, Luís de Vasconcelos parou e disse:
–
Temos montes demais na cidade, mestre. Eis aqui um outei-ro que podia bem
desaparecer, sendo substituído por uma rua que facilitaria a comunicação do
bairro que deixamos com a rua dos Barbonos e com aquela a que o marquês, meu
feliz antecessor, legou o seu nome.
–
Sr. vice-rei – observou o artista – a cidade tem montes de-mais, como V. Exa
diz; creio, porém, que ela ainda precisa mais de aterros do que de
arrasamentos.
–
E por que não faremos aterros à custa do outeiro que arra-sarmos?
O artista não respondeu, porque sorria pela quarta vez ao
ver que Luís de Vasconcelos tomava pelo mesmo caminho por onde viera.
–
Má direção vamos seguindo, Sr. vice-rei – disse ele; terá V.Exa de passar pela
margem da lagoa do Boqueirão, que a esta hora, dizem, derrama em torno miasmas
pestíferos, e a zamperini ainda não cessou de todo. Talvez fosse melhor ir
buscar a rua do Lavradio.
–
Onde mora o espanhol D. Pascoal, que toca guitarra excelentemente, acompanhando
as suaves cantigas de sua filha Pepita, cujos brilhantes olhos pretos e formosa
cabeça fazem o encanto de certo artista meu amigo. Não é assim, mestre?
–
É por certo assim, visto que V. Exa o diz. Mas quer me parecer que a menina
Susana, que mora na casinha da lagoa do Boqueirão, é ainda mais bonita e tem
voz mais suave do que a Pepita.
O vice-rei voltou-se para trás, encarou Valentim e
perguntou:
–
Então...
–
Então é que eu juro por minha alma que os vice-reis também têm coração, e que
V. Exa gosta muito da menina Susana.
Luís de Vasconcelos bateu no ombro de Valentim e disse-lhe:
–
Os vice-reis também têm coração. Mas às vezes não se perdoa a eles o que se
desculpa em um artista. Vamos. Acabemos a noite como a começamos: seja uma
noite de imprudência, e ao mesmo tempo de segredo.
Estavam perto da lagoa, quando pararam, ouvindo a voz doce e
melancólica de Susana, que cantava uma balada, da qual repetirei uma estrofe,
porque tem a cor e a simplicidade daquela época.
Em S. Bento deu um’hora,
No Colégio deram duas; Vede que horas são estas
Que eu por ti ando nas ruas!
–
Ah! meu bem! não venhas cá,
Não venhas, prenda querida,
Vede que eu sou impedida, Tenho impedimento forte.
–
Quem ama não teme a morte,
Quem teme, não sabe amar;
A cada passo que dá Pisa logo no perigo.
Vive sempre a suspirar Anda sem sossego ter: Assim mesmo,
desta sorte, A noite te venho ver!
Não modifiquei em uma única palavra a poesia deste canto;
reproduzo-a com todo o seu merecimento especial e com todos os seus defeitos,
até mesmo de gramática; sinto não poder também dar uma idéia da música, que,
aliás, ouvi por vezes em minha infância, e que então me pareceu cheia de doçura
e de melancolia.
E o pior é que o gosto e a originalidade desses cantos, cuja
música tinha um caráter que a fazia distinguir da música característica de
todas as outras nações, têm-se ido perdendo pouco a pouco, sacrificada ao canto
italiano, cuja imitação é, desde alguns anos, o pensamento dominante dos nossos
compositores. As modinhas e os lundus brasileiros quase que já não existem
senão na memória dos antigos; foram banidos dos salões elegantes e com todos os
costumes primitivos, à semelhança das aves que, espantadas dos bosques vizinhos
do litoral pelo ruído da conquista dos homens, fogem para as sombrias florestas
do interior. Lá se acham proscritas, e felizmente ainda conservadas com a sua
patriótica pureza no seio dos vales e no trono das montanhas, onde a população
agrícola as asila em seus lares, vive com eles, alimentando a flama das
recordações passadas que o estrangeirismo apagou nas cidades.
Para a música característica brasileira isso é uma
verdadeira calamidade, e a Ópera Nacional, recentemente criada, se quiser ser
nacional, deve opor-se à continuação de tão grave erro, excitando os nossos
novos e talentosos compositores a escreverem naquele gosto que, bem aproveitado
pela arte, pode produzir obras originais e de incontestável merecimento.
Mas... é conveniente não deixar o vice-rei tanto tempo
esquecido na rua.
Luís de Vasconcelos, que tinha parado por alguns instantes a
ouvir as primeiras notas do canto de Susana, disse logo depois a Valentim:
–
Mestre, é verdade: amo aquela mulher. Agora, porém, nãohá aqui nem vice-rei nem
artista; devemos supor que há somente dois curiosos um pouco apaixonados, um
pouco imprudentes, mas em todo o caso honestos. Vamos ouvir de mais perto o
canto de Susana; há ali uma moita de arbustos que nos será propícia. Veremos e
ouviremos sem ser vistos.
–
Já falou alguma vez àquela menina, Sr. vice-rei?
–
Nunca.
Mestre Valentim seguiu Luís de Vasconcelos, que, cauteloso,
penetrou na moita de arbustos e foi colocar-se tão perto da palmeira que se
achou quase ao lado de Susana.
Porque Susana estava lá, sentada na relva junto ao tronco do
coqueiro e inundada pelo clarão da lua que fazia realçar a sua formosura. Era
uma moça que não tinha ainda vinte anos. Cabelos negros, ondeados e tão longos
que lhe cairiam aos pés. Olhos grandes, pretos e cheios de fogo celeste. Tez
morena e fina, lindíssimo e voluptuoso colo. Braços magníficos. Mimosa e
delicada na cintura. Pequenas mãos, e quase tão pequenas como os pés.
Era verdadeiramente encantadora e perigosa.
Acabara de cantar, e descansava a guitarra a um lado, vendo
chegar um mancebo que para ela corria.
–
Susana!
–
Vicente!
–
Quem chegou aí? – perguntou uma velha que estava senta-da à porta da humilde
casinha.
–
É o primo Vicente, minha avó.
–
Vejam lá! – disse a avó.
O mancebo correu a beijar a mão da velha, e voltou logo a
sentar-se aos pés da moça.
–
Estava cuidadosa – disse a moça. Hoje te demoraste muito.
–
Tardei muito, Susana. Mas a culpa teve o bom padre-mestrefrei Veloso, que levou
mais tempo do que costuma a dar-me a sua lição de botânica. Que excelente homem
é aquele sábio franciscano! Professa a pobreza de sua ordem; mas a ninguém
conheço mais rico de sabedoria e de virtudes. Como sabe animar os moços! Chegou
hoje a dizer-me que espera ver-me em breve sentado entre os membros da Academia
Científica do Rio de Janeiro, que foi, há sete anos, fundada sob os auspícios
do vice-rei marquês de Lavradio.
–
Também, não sei para que servem tantas instruções em gentepobre! – disse a
velha da porta onde estava sentada. Eu nunca soube ler nem escrever e, contudo,
tive sempre muito juízo, e tu, Susana, tu, a quem teu tio, o meu infeliz filho,
o defunto padre João Peres, ensinou tanta coisa, nem por isso deixas de ter a
cabeça cheia de lantejoulas.
–
Ah! minha avó – respondeu a moça sorrindo – é porque otio padre nunca pôde
conseguir fazer-me aprender o seu latim, como desejava: foi só o que me faltou
para ficar ajuizada.
–
E o teu emprego, Vicente? – perguntou a velha.
–
Minha avó, canso de esperar e nada consigo. Procurei obterum que vagara na
alfândega e o deram ao filho de um desembargador. Outros dois que requeri, um
no hospital militar e o segundo nas obras que se estão executando na cidade,
foram dados a quem deles menos precisava.
–
Isso é mau, Vicente. É mau, porque eu tenho já noventaanos e não posso ir muito
adiante; e, morta eu, quem protegerá Susana, moça e solteira, como está?
Vicente, é preciso cuidar em ter um emprego e em casar com tua prima.
Vicente beijou a mão de Susana que entre as suas apertava, e
Valentim sentiu que o vice-rei estremecera e sufocara um gemido.
–
Minha avó – disse Vicente – eu irei amanhã pedir a frei Ve-loso para tomar-me
debaixo da sua proteção.
–
Em teu lugar, primo – acudiu Susana – em vez de ir ter comfrei Veloso, eu me
dirigiria pessoalmente ao vice-rei.
–
Ao vice-rei! – balbuciou o mancebo.
–
Sim. Então, que mal havia nisso?
Vicente começava a turvar-se. Susana ou não deu por isso, ou
quis provocar o namorado.
–
O vice-rei Luís de Vasconcelos é bom e compassivo.
–
Achas?
–
Todos o dizem.
–
E tu, Susana?
–
Também me parece.
–
Por quê?...
–
Porque no seu rosto lê-se a generosidade e a grandeza d’alma.
Mestre Valentim sorria. O vice-rei escutava comovido.
Vicente, agitado, começava a esquecer a presença de sua avó.
–
Tens continuado a ver o vice-rei, Susana?
–
Ainda hoje.
–
E ele a ti?
–
Como eu a ele.
–
E o vice-rei olhou para ti?
–
Por que não?
–
Susana! Susana! É horrível! Mas devo dizê-lo... eu vou perder-te. O vice-rei
ama-te!
Luís de Vasconcelos fez um movimento de cólera e despeito,
ao mesmo tempo que a velha e a moça exclamaram:
–
Vicente!
–
Juro que disse a verdade – continuou o mancebo, tremendo.Não é de hoje que o
sei, e hoje, como em outros muitos dias, impelido pelo meu ciúme, acompanhei de
longe o vice-rei e vi a atenção e o enlevo com que ele te devorava com os
olhos: Susana! Susana! Não há luta possível entre Luís de Vasconcelos e Vicente
Peres. O vice-rei te ama. Tudo está perdido para nós ambos, porque eu terei de
ser esmagado, e tu...
Susana cortou-lhe a frase, cerrando-lhe os lábios com a sua
mão delicada e leve.
–
Não sejas mau, Vicente. Tu calunias o vice-rei, supondo-oum sedutor, e me
injurias também, julgando-me capaz de sacrificar-te a ele. É verdade: o Sr.
Luís de Vasconcelos passa muitas vezes por este sítio, olha-me com atenção e
acha-me talvez bonita; mas, graças a Deus, não pensa, nem pensará em fazer-me
infeliz.
–
Tu o defendes?
–
Certamente. Não sei por que, mas eu o estimo. Seu rostome inspira confiança. Há
nele uma expressão de honestidade e nobreza que não engana.
–
Oh! isto é demais!
–
Tu te exasperas, primo! Quanto mais quando souberes queeu sonhei esta noite com
o vice-rei...
–
Susana!
–
Sonhei. Por que hei de mentir ou esconder um sonho inocente? Foi um sonho
deleitoso, um sonho de moça. Sonhei que um gênio benigno me aparecia risonho e
afetuoso. Era um gênio, mas tinha o rosto do vice-rei. Não tinha voz, falava-me
porém com os olhos. Era apenas uma sombra, mas não me assustava, nem eu lhe
fugia. A um movimento de sua mão branca e transparente tu apareceste, e ele nos
ligou com um laço de flores. Minha avó, que ali estava, chorando, abençoava ao
gênio e a nós. Não sentíamos mais nem pobreza nem receios do futuro. O gênio
levou-nos para fora, e tirando dos ombros uma túnica cor de angélica que
trazia, estendeu-a sobre a lagoa do Boqueirão, que, de súbito, se transformou
em um lindíssimo jardim. Depois, o gênio... a sombra foi-se esvaindo...
esvaindo, até desaparecer de todo; e felizes, contentes, nós corremos como duas
crianças travessas pelo jardim. Depois, ah! Vicente! Depois, eu desatei a
chorar, porque nesse imenso jardim procurei debalde e não encontrei este
coqueiro, a cuja sombra, um dia, pela primeira vez, de joelhos aos pés de minha
avó, tu lhe disseste o que eu já sabia... que me amavas. O sonho parou aí,
porque... eu acordei, chorando.
O que sentiu Luís de Vasconcelos, ouvindo a narração daquele
sonho, ninguém pôde saber. Apenas mestre Valentim supôs que o vice-rei por mais
de uma vez enxugara as lágrimas.
–
Estás ouvindo, Vicente? – disse a velha comovida e soluçando.
–
Estou – respondeu o mancebo. E juro que acredito tanto nainocência e na pureza
de Susana como na salvação da minha alma. Mas um sonho é uma ilusão que nada
pode na vida, e a realidade que receio me espanta e me atormenta.
–
Confia em mim, meu primo.
–
E se amanhã, ou em breves dias, o vice-rei, abusando doseu poder e da sua
influência, ousasse perturbar a paz, a serenidade do teu coração e tentasse...
A moça não o deixou acabar. Ergueu-se e falou. E à medida
que falava, a velha, que também se erguera, veio se chegando para o coqueiro.
Susana respondia a Vicente:
–
Eu diria ao vice-rei sem hesitar nem tremer: senhor, soupura e feliz; tenho um
noivo a quem amo, um noivo que minha avó abençoa, tenho um amor que um padre
que era meu tio e tio do meu amado abençoou no momento de morrer. É um amor
sagrado diante de Deus, como a minha pureza é uma flor do céu. Esta pureza e
este amor não hão de ceder ao capricho de um vice-rei. Contava com a vossa
generosidade, faltou-me ela; agora conto com a minha virtude, conto com Deus,
contarei, enfim, com a morte.
–
E eu lhe diria – exclamou a velha, cujos cabelos soltos alvejavam ao clarão da
lua: Sr. vice-rei, tive uma filha bela como Susana; há vinte anos um fidalgo
rico e poderoso apaixonou-se por ela, e não podendo desposar a filha de uma
pobre mulher sem nome, seduziu-a: ao capricho do sedutor seguiu o seu desprezo
pela vítima, e a miséria e o opróbrio desta..., desse crime proveio uma filha,
é Suzana, que custou a vida a sua mãe. Eis uma velha história que se parece com
a que quereis principiar. Não entreis, pois, em minha casa, porque nela já há
de sobra vergonha, desonra, desgraça e morte. Não entreis, porque tereis de
tremer diante da maldição de uma velha que tem chorado vinte anos!
–
Minha avó, sossegue! – exclamou Vicente.
–
Mau! – disse Susana. Tu fizeste hoje chorar nossa boa avó, efoste injusto com o
vice-rei, que é nobre e generoso.
–
Perdoai-me ambas! – balbuciou o mancebo.
–
Sim... sim – disse a velha. Mas por hoje basta. Amanhã, Vi-cente, falarás a
frei Veloso, e, empregado ou não, casar-te-ás com Susana antes do fim do ano.
Vicente beijou a mão de sua avó com ardor e comoção. Susana
correu adiante e entrou para casa sem despedir-se do noivo, que, momentos
depois, partiu apressado em direitura à rua da Ajuda, onde morava.
Luís de Vasconcelos e mestre Valentim saíram da moita de
arbustos e caminharam em silêncio. O artista não ousava dirigir uma única
palavra ao vice-rei.
Ao chegarem à entrada do palácio, Luís de Vasconcelos
voltou-se e disse:
–
Amanhã ao meio-dia temos que conversar, mestre Valentim.
O resto da noite foi de meditação e talvez de luta para o
vice-rei, que não dormiu e levantou-se cedo no dia seguinte. Os olhos um pouco
injetados e grandes olheiras roxas anunciavam em Luís de Vasconcelos longas
horas de vigília e de sofrimento; seu rosto, porém, mostrava-se animado e
sereno.
Às 10 horas da manhã sentou-se o vice-rei na sua cadeira da
sala das audiências, onde recebeu logo depois um engenheiro e diversos
empregados.
Às onze horas entrou na sala Vicente Peres, que o vice-rei
mandara chamar! O mancebo vinha pálido e trêmulo.
–
Sr. Vicente Peres – disse o vice-rei. – Frei José Mariano daConceição Veloso
precisa de uma pessoa inteligente e instruída que coadjuve o seu secretário
frei Solano para facilitar-lhe os trabalhos da Flora Fluminense, de que
se está ocupando. O senhor é entendido em botânica e discípulo do ilustre
franciscano. Vá dizer-lhe que eu o nomeei seu subsecretário e que lhe mandarei
pagar o seu ordenado.
Vicente Peres ficou surpreendido. O vice-rei continuou:
–
E porque este serviço dentro de alguns anos achar-se-á terminado, e não é justo
que o senhor fique desempregado, pode dentro de três dias vir receber a sua
nomeação para o emprego que lhe destino na Alfândega do Rio de Janeiro.
–
Senhor! – exclamou o mancebo, curvando-se.
–
Nada de agradecimentos – tornou Luís de Vasconcelos. –Eu sei que o senhor é um
moço morigerado e que com ardor se dá ao estudo. Estimo-o por isso. Se quiser,
porém, dar-me um sinal de gratidão, escolha-me para uma das testemunhas do seu
casamento, que em breve deve ter lugar.
Vicente Peres saiu confundido e ao mesmo tempo louco de
prazer.
Ao meio-dia chegou mestre Valentim.
–
Mestre – disse-lhe o vice-rei, sorrindo. Já temos onde apro-veitar a terra do
desmoronamento do monte das Mangueiras. É na lagoa do Boqueirão, que vamos
transformar em um jardim público. Dei a um engenheiro as ordens para tratar
imediatamente de fazer esgotar essa lagoa. O jardim fica por sua conta, mestre.
Note, porém, que eu me empenho em que nos ornamentos do nosso jardim seja
reproduzido um certo coqueiro que indispensavelmente teremos de derribar.
–
É um sonho que se realiza, sr. vice-rei.
–
Silêncio, mestre Valentim! Não há sonho, nem gênio, nemloucura da noite
passada. Haverá somente um Passeio Público, que a cidade do Rio de Janeiro vai
ganhar.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . .
Esta historieta, tradição ou coisa que o valha, que aliás
daria origem um pouco romanesca ao nosso Passeio Público, só poderia ter
transpirado por uma indiscrição de mestre Valentim, ou porque Susana houvesse
adivinhado o segredo do gênio do seu sonho de moça. Em qualquer dos casos,
acaba, porém, de um modo que não desmente, antes faz honra ao caráter generoso
de Luís de Vasconcelos. Se ainda assim não quiserem aceitar a tradição por lhe
faltar seguro fundamento, roguem-me pragas ou critiquem-me à vontade, que nem
por isso deixarei de passear.
II
No meu último passeio abundei muito em louvores ao vice-rei
Luís de Vasconcelos e Sousa, e não me dói a consciência por ter assim
procedido. Tenho, para abonar o meu juízo, não somente o testemunho valioso de
antigos escritores, como o das grandes obras que ele fez construir na cidade do
Rio de Janeiro, e que duram ainda, perpetuando a memória daquele ativo
administrador.
A Câmara Municipal da capital do Brasil pensou também como
eu penso, e a prova disso aprecia-se perfeitamente na sala das suas sessões,
onde se acha o retrato de Luís de Vasconcelos, fazendo companhia aos de Estácio
de Sá e do conde de Bobadela, únicos dos administradores que governaram o Rio
de Janeiro no tempo colonial e mereceram essa honra.
Entretanto, preciso é dizê-lo, aquele vice-rei não fazia
sentir menos ao povo que o poder de que se achava armado era absoluto e
violento. Ressentia-se talvez o seu caráter do sistema de governo que então
pesava duramente sobre a população, e às vezes esquecia Luís de Vasconcelos a
sua bondade natural, as suas disposições generosas, esquecia-se do seu próprio
coração, enfim, para mostrar que empunhava a bengala de vice-rei, e em momentos
de capricho ou de mau humor, punha o arbítrio e a violência no lugar da
justiça.
Ora, se Luís de Vasconcelos, o vice-rei querido, louvado e
abençoado, fazia dessas, podemos bem imaginar o que fariam os outros!
E chorem lá por aquele santo sistema do mando e quero.
Aqui vai um exemplo do que podia o capricho e a violência de
um vice-rei.
Um dos montes da cidade do Rio de Janeiro tem uma ladeira
que ainda hoje conserva o nome de um homem que viveu no tempo de
Luís de Vasconcelos. Por que não apontarei claramente o
lugar, uma vez
que o fato nque o fato não importou uma desonra para a
vítima? O monte é o daão importou uma desonra para a vítima? O monte é o da
Conceição; a ladeira é a de João Homem.
Um dia, nas horas de mais ardente calma descia o vice-rei do
monte da Conceição por aquela ladeira, quando encontrou a João Homem, que era
levado em uma cadeirinha para o alto do monte. Os dois escravos condutores da
cadeirinha suavam em bicas, porque João Homem era gordo e pesado, e o calor era
intenso.
Luís de Vasconcelos, que vinha de mau humor, irritou-se,
vendo os escravos arquejando de fadiga: mandou-os parar, fez sair da cadeirinha
a João Homem, ordenou-lhe que tomasse o lugar de um dos negros, obrigou a este
a ir sentar-se dentro da cadeirinha, e lá foi o senhor, ajudando a carregar o
escravo pela ladeira acima.
– É para ensiná-lo a ser mais humano – disse o vice-rei. E
depois prosseguiu em seu caminho muito contente de si.
Talvez que hoje alguns possam rir-se do tormento por que
passou João Homem; afirmo, porém, que naquele tempo, nem o povo riu-se e nem
João Homem queixou-se.
Mas a que vem isto para a história do Passeio Público?
Tendes razão. Foi um incidente que não tem aplicação ao caso. Eu, porém, me
empenhava em impedir que se confundisse o juízo que fiz das qualidades pessoais
e dos serviços do vice-rei Luís de Vasconcelos, com o juízo que faço daquele
bárbaro sistema de governo, que abria espaço a tantos vexames, tantas
violências e tanta opressão que envileciam o povo.
Vereis, porém, em breve, que ainda mesmo na história das
obras do Passeio Público, não faltou uma amostra do poder arbitrário do
vice-rei.
O mestre Valentim da Fonseca e Silva mal acabou de receber
as ordens de Luís de Vasconcelos, correu a trancar-se em casa, e pôs-se a
meditar no plano das novas obras de que se achava encarregado; e com tanta
felicidade e inspiração, que poucos dias depois apresentou ao
vice-rei o risco e os modelos de toda a parte arquitetônica
do projetado jardim, que foram imediatamente aprovados.
–
Agora mãos à obra, mestre! – disse o vice-rei.
–
Mas, senhor – observou Valentim – perdoe-me o que voudizer, que não tenho em
mente a menor hesitação no cumprimento das ordens que recebo. Vejo, porém, que
vossa excelência tem empreendido tantos e tão grandes trabalhos que não sei
onde haverá recursos para executá-los todos. Vossa excelência faz milagres. Mas
o dinheiro não abunda, e faltam-nos absolutamente os trabalhadores necessários.
–
Farei aparecer dinheiro e gente. Fica isso a meu cuidado.Vá, mestre,
multiplique-se e saiba que é minha vontade ver pronto esse jardim antes que eu
seja substituído no governo do Brasil.
Não havia que replicar: o mestre Valentim saiu do palácio e
foi logo procurar o seu amigo Xavier dos Pássaros ou Xavier das Conchas.23
Perguntais-me quem era esse homem que tinha não menos de
duas alcunhas e que por ambas era conhecido?
Infelizmente não me é possível dar-vos a respeito dele
informações completas e minuciosas. Sei apenas que, depois de Valentim, era
Xavier o artista mais engenhoso e delicado do Rio de Janeiro. Nem me é
Sendo sargento, comandou, por espaço de nove anos, a
fortaleza de N. S. da Conceição da Barra do Sul, em Santa Catarina, e fez à sua
custa nessa fortaleza um armazém e dois quartéis. Foi promovido em 27 de junho
de 1776 a ajudante do terço de infanteria e cavalaria de Santa Catarina e teve
de andar pelas freguesias, disciplinando os soldados.
Tendo obtido três meses de licença, veio Xavier muito a
propósito ao Rio de Janeiro, porque o vice-rei Luís de Vasconcelos, conhecendo
o seu grande préstimo, o encarregou, por portaria de 18 de outubro de 1787, de
notáveis trabalhos na obra do Passeio Público que então fazia executar, e
mandou que se lhe pagassem os seus soldos, enquanto ele se demorasse na cidade
do Rio de Janeiro ocupado naquele serviço.
Sabe-se como foram e como são hábeis em delicados trabalhos
de conchas, penas e escamas os catarinenses. Sem dúvida, Francisco dos Santos
Xavier aprendeu essa arte mimosa durante os longos anos em que esteve em Santa
Catarina; e tão famoso se tornou em tais trabalhos, que mereceu ser conhecido
por Xavier das Conchas. Como se houve o artista nas obras de que foi
encarregado no Passeio Público já ficou dito na descrição que deixei no lugar
competente.
Xavier, por portaria do mesmo vice-rei Luís de Vasconcelos,
datada de 17 de outubro de 1787, confirmada por patente dada pela Rainha D.
Maria I, a 13 de fevereiro de 1789, foi promovido a capitão de infanteria,
governador da fortaleza da Conceição do Rio de Janeiro e encarregado da
inspeção da real fábrica de armas da mesma fortaleza; e sendo, a 15 de julho de
1790, por portaria do vice-rei conde de Resende reformado no posto de capitão
com meio soldo dessa patente, continuou todavia no comando da fortaleza, onde
foi encarregado de algumas importantes comissões, como, por exemplo, do
fornecimento dos petrechos bélicos para as naus e fragatas da esquadra real, e
coube-lhe também a guarda dos presos da Inconfidência e de outros.
Por portaria do vice-rei datada de 16 de outubro de 1801,
foi promovido a tenente-coronel com o soldo de sargento-mor, continuando a
comandar a fortaleza da Conceição, e sendo-lhe contado aquele soldo desde 18 de
março de 1801, por carta régia de 18 de maio de 1802.
Francisco dos Santos Xavier casara e enviuvara em Santa
Catarina, e daí trouxera para o Rio de Janeiro dois filhos, frutos da sua
legítima união. Nesta cidade passou a segundas núpcias a 15 de janeiro de 1790,
e foi sua mulher D. Rosa Francisca de Vasconcelos Vahia, filha do
mestre-de-campo Bartolomeu José Vahia, e irmã daquele que foi depois, no
império do Brasil, conde de Sarapuí.
Sendo tenente-coronel, e ainda governador da fortaleza da
Conceição, faleceu Xavier a 5 de julho de 1804.
Xavier dos Pássaros chamava-se Francisco Xavier Cardoso
Caldeira. Faleceu pouco depois da chegada da família real. Ganhava no seu
ofício, um conto de réis por ano.” – Nota do Autor.
dado dizer-vos qual das províncias do Brasil pode ufanar-se
de ter sido seu berço pátrio. Certo é, porém, que Xavier das Conchas era
brasileiro.
O motivo das suas duas alcunhas é que não ficou nem podia
ficar esquecido, porque nunca houve alcunhas que assentassem mais e que
melhores testemunhos de sua significação deixassem.
Xavier tornara-se famoso pelos trabalhos delicadíssimos de
penas de pássaros, e ainda pelos de conchas que executava. Em uma ou outra das
casas mais antigas do Rio de Janeiro conservam ainda pessoas de bom gosto
algumas das obras primorosas desse homem notável.
Foi a esse artista que o mestre Valentim se dirigiu.
–
Xavier – disse-lhe Valentim – não te venho dizer que nosvai chover dinheiro.
Obra, porém, vamos ter de sobra. O vice-rei quer transformar a lagoa do
Boqueirão em um jardim público; eis aqui o plano e o risco dos trabalhos de que
estou encarregado. Estás vendo nas extremidades desta varanda dois pavilhões?
Faço-te presente deles.
–
Para quê?
–
Para orná-los, está visto, para que havia de ser?
–
Entendo: queres em um o Xavier das Conchas, e no outro eXavier dos Pássaros,
não é?
–
Adivinhaste. Faremos tudo muito brasileiro... muito brasileiro...
–
Oh lá! tu o apaixonado das estrangeiras...
–
Em amor não há patriotismo, Xavier. Vênus nasceu no marpara não nascer em terra
alguma. Mas vamos ao que importa. Posso contar contigo?
–
Que dúvida?
–
Era o que eu queria. Vai ao mato caçar passarinhos, vai àpraia apanhar conchas,
e adeus.
Os engenheiros tratavam de dessecar e de aterrar a lagoa do
Boqueirão. O outeiro das Mangueiras ia pouco a pouco sendo arrasado. Os
artistas estavam justos, e já trabalhavam.
Pela sua parte, Luís de Vasconcelos cumpria a sua palavra,
fazendo aparecer dinheiro e trabalhadores.
Eis aqui como ele operou esse milagre:
As rendas da câmara municipal eram pequenas, e, como o disse
o próprio vice-rei, poucas são as rendas da fazenda real. Mas a cidade abundava
de vadios. Que fez Luís de Vasconcelos? Lembrando-se que, pela carta régia de 8
de julho de 1769, se mandara construir no Rio de
Janeiro uma casa de correção, que sendo utilíssima ficou em
esquecimento, ao mesmo tempo que não deixava de ser bem projetada para se
reprimir o vício, promover o trabalho e tirar da ociosidade uma espécie de
lucro e de ganho em utilidade daqueles mesmos que os desprezaram, por isso
sendo impossível fazer-se esta regulação sem haver um edifício próprio que
admitisse as seguranças que lhe são precisas, seguiu o meio-termo de mandar
para a ilha das Cobras todos esses vadios que se encontravam em algum comisso,
fazendo-os trabalhar nos seus ofícios, e passando o rendimento e produtos das
obras que se vendiam para um cofre.
Além desse dinheiro recolhiam-se também no mesmo cofre as
quantias que pelos açoites dos escravos pagavam os senhores no calabouço. E
assim ia o vice-rei ajuntando boas somas, que aplicava às diversas obras
públicas, e especialmente às do Passeio Público.
O povo, portanto, era quem fazia à sua custa o jardim que
devia mostrar-se no lugar dantes ocupado pela lagoa do Boqueirão.
O dinheiro estava por esse modo arranjado. Os trabalhadores
foram recrutados em grande parte pelo mesmo sistema.
Luís de Vasconcelos era de opinião, e ele o escreveu, que a
cidade do Rio de Janeiro estava cheia de vadios, o que fazia dos vadios que
tinham ofício e que não trabalhavam, já ficou dito: dava-lhes um asilo forçado
na ilha das Cobras e os obrigava a exercer suas profissões em proveito das
obras públicas.
Aos vadios que não tinham ofício mandou ele servir de
trabalhadores no Passeio Público. Eram trabalhadores baratíssimos, pois que não
recebiam por salário senão o pão que os devia alimentar. O seu serviço era
prestado como uma punição imposta à ociosidade.
Dizem as tradições do tempo que a prepotência pusera então
de mistura com os verdadeiros vadios muitos homens laboriosos, artesãos,
caixeiros e empregados no comércio. Pode ser que haja exageração nessas
notícias tradicionais. Se elas, porém, não são exatas, atestam em todo o caso a
opressão do povo e o despotismo do governo.
O certo é que o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa operou
o milagre que tomara a peito realizar. Fez aparecer dinheiro e trabalhadores, e
tanto ativou as obras que no fim de quatro anos viu abrir-se o Passeio Público
ao bom povo da cidade do Rio de Janeiro.
Admira realmente que em tão pouco tempo se executassem
tantos trabalhos cuja dificuldade e importância ainda hoje podemos apreciar.
Atualmente, quatro anos seriam apenas suficientes para a resolução da obra, a
encomenda, apresentação e aprovação dos planos e dos orçamentos. Porque o
primeiro ano empregaria o governo a considerar e reconsiderar a matéria. O
segundo ano seria dedicado à escolha dos engenheiros e ao exame e estudo dos
riscos e dos relatórios que eles apresentassem. Durante o terceiro ano, o ministro
respectivo dormiria sobre o caso e, no quarto, enfim, depois de três meses de
consultas, de cinco de hesitações, de mais três de dúvidas inesperadas,
chegaria o último mês, no qual o ministro mandaria dar começo aos trabalhos,
ficando um dia inteiro a admirar o esforço inaudito de sua patriótica
atividade!
Dizem que todas essas delongas administrativas que
entorpecem o desenvolvimento material do país, no império do Brasil, provêm das
condições do sistema representativo. Não admito semelhante explicação. Penso
também que no governo absoluto é mais fácil a pronta execução de qualquer
projeto, porque o impulso parte de uma só vontade, e de uma vontade que não
receia oposição, e que pode cortar arbitrária e imediatamente todos os
obstáculos; e que pelo contrário, no governo representativo estudam-se as conveniências
públicas, pesam-se os recursos do Estado, consulta-se finalmente a nação,
ouvindo-se os seus representantes, para levar-se a efeito depois a idéia que se
deseja realizar. Se não é assim, é pelo menos assim que deve ser. Mas, entre a
demora imposta pela necessidade de se refletir e de se consultar os poderes
competentes e a procrastinação soporizada que a preguiça e o desmazelo
determinam há uma distância imensa, que se escapa aos olhos daqueles que
nasceram com a proveitosa sina de passar a vida inteira dando apoiados a tudo
quanto dizem os bons e os maus, e os péssimos ministros de Estado.
Os administradores preguiçosos e desmazelados desculpam-se
com o sistema, como se desculpam em outros casos com o que nunca se deveriam
desculpar, porque, mimosos como a sensitiva, preferem o descrédito do sistema
representativo e dos mais nobres princípios a levarem um beliscão, que, aliás,
é indispensável para arrancá-los do sono que dormem, sono de arganazes no
inverno.
Mas onde vou eu a discorrer sobre espinhos, quando me está
chamando a aprazível mansão das flores? Nada mais de incidentes nem de
divagações. Começo já a descrição do Passeio Público do Rio de Janeiro, tal
qual ele se mostrou no ano de 1783.
O Passeio Público, no espaço que compreendia, representava
um hexágono de lados irregulares. Tinha, porém, de frente, na rua do seu mesmo
nome, cerca de oitenta e seis braças, e de fundo, do portão da entrada até o
gradil do terraço, dando sobre o mar setenta e quatro braças e sete palmos.
Ficava-lhe a um lado, que era o da mão direita de quem entrava pelo portão, o
largo da Lapa, e ao outro o largo da Ajuda, e, como apenas ficou indicado,
corria-lhe pela frente a rua do Passeio, que ligava aqueles dois largos, e no
fundo terminava acima do mar por um elegante terraço cuja base recebia às vezes
os beijos, às vezes os embates violentos das ondas, ou namoradas ou
embravecidas.
Pelos três lados que olhavam para a terra, o Passeio Público
era fechado por um alto muro, interrompido em intervalos regulares por janelas
com grades de ferro, e mais notável pela sua robustez do que pela graça, que,
aliás, devia ter.
No meio da face que concorreu para formar a rua do Passeio,
rasgava-se o muro, dando lugar ao portão da entrada que era todo de ferro e
firmado em dois pilares de pedra lavrada. Sobre o portão ostentavam-se as armas
reais portuguesas, olhando para a rua, e no reverso delas via-se um medalhão de
bronze dourado com as efígies da Rainha D. Maria I e de seu esposo o Rei D.
Pedro III, e ainda a epígrafe seguinte: “Maria I et Pedro III, Brasili regibus,
1783.
Do que fica exposto conclui-se que, embora tenham já passado
perto de oitenta anos depois da abertura ou inauguração do nosso Passeio
Público, nenhuma modificação tem este sofrido nem em suas dimensões, nem em
suas disposições exteriores.
Penetrarei agora no seio do jardim.
Uma rua principal nascia à entrada do Passeio e ia morrer
entre duas pirâmides e diante de uma pequena cascata, de que logo falarei,
deixando bem no centro do jardim e no meio do seu correr um limitado terreiro
quase circular com quatro bancos de pedra, separados por ela e por mais duas
ruas laterais que vinham abrir-se no mesmo terreiro.
Diversas outras ruas largas e bem construídas concorriam com
aquelas para dividir-se o passeio em maciços de forma regular, cercados por
gradaria de taboca e ostentando o tesouro de mimosos e floridos arbustos e a
vegetação tropical, representada por árvores que haviam de ser corpulentas e
frondosas, e que teriam de oferecer sombra e frescor ainda nas horas canhosas
do dia.
Ao tocar a rua principal o ponto que a terminava, um largo
espaçoso se fazia ver, e aí duas mesas de pedra abrigavam-se debaixo de um teto
de jasmins, e adiante delas, e um pouco mais para o centro, mostravam-se dois
pequenos lagos artificiais, do meio de cada um dos quais erguia-se uma pirâmide
de cantaria, que de cada face da sua base deixava correr uma pena d’água com
doce murmúrio. Paralelos às margens dos lados havia bancos de pedras.
Uma das pirâmides tinha a inscrição: “À Saudade do Rio”. A
outra: “Ao amor do Público”. Quem sentiu a saudade e quem se lembrou do amor do
público, a que foram consagradas as duas pirâmides, não me é dado dizer.
Alguns passos além das pirâmides e fronteiro à rua
principal, levanta-se um outeiro artificial, vulgarmente chamado cascata, e que
era ali o mais belo triunfo de mestre Valentim.
O outeiro fora todo formado de pedras sobrepostas como ao
acaso, mas com admirável efeito, rebentando dentre elas ervas e arbustos
apropriados. Algumas aves graciosas feitas de bronze pousavam sobre as pedras e
soltavam dos bicos água cristalina, que se precipitava mais murmurante que
ruidosa. Quase na base do outeiro, dois jacarés também de bronze, parecendo
recrear-se entrelaçados fora do seu ninho, mostravam-se soberbos, lançando
pelas bocas abertas cópia d’água claríssima, que ia com a que deitavam as aves
ajuntar-se em um tanque semicircular que rodeava a cascata, e onde se
reproduziam as imagens dos jacarés. Sobre o cume do outeiro, enfim, elevava-se
um magnífico coqueiro de ferro, pintado ao natural, e tendo mais de vinte
palmos de altura.
Antes de passar adiante, permitam-me que me vingue da aridez
da minha descrição, conversando um pouco.
As duas pirâmides dos pequenos lagos artificiais bem
poderiam ter-se queixado ao vice-rei Luís de Vasconcelos, por não lhes haverem
dado mais alguns palmos de altura. As árvores que junto delas hoje se mostram
orgulhosas as abafam e amesquinham, e acabarão talvez um dia por cobri-las com
a sua copa.
Em compensação, o outeiro é uma grande obra de arte que não
deixará jamais esquecer o nome de mestre Valentim.
Também o artista tomou a peito executar essa obra com
verdadeiro primor. Foi Valentim que, depois de modelar aquele grupo de jacarés,
vendo que falhara a primeira fundição, quis em pessoa dirigir a segunda, que
deu o resultado feliz, louvado por quantos entendedores e mestre o estudam.
O coqueiro de ferro também foi obra do mesmo mestre, que
muito nela se esmerou para agradar ao vice-rei. Se a tradição não mente, aquele
coqueiro teve uma origem misteriosa, e serviu para abrandar o pranto da bela
Susana, que em sonhos chorara a perda da palmeira querida, a cuja sombra
trocara juramentos de amor com Vicente Peres. Mas o grande coqueiro pouco tempo
resistiu ao furor das tempestades. O vento impetuoso quebrou-lhe os ramos, e
tão estragado deixou-o que, no princípio do século atual, o vice-rei Conde dos
Arcos o mandou arrancar e substituir por um busto de Diana em mármore.
Apesar de ser de ferro, a árvore de amor cedeu ao vento!
A moralidade da história não pode ser muito lisonjeira para
os namorados.
E infelizmente não foi somente a palmeira que teve de
desaparecer do formoso outeiro: as aves de bronze que pousavam sobre as pedras
da cascata sofreram o mesmo destino. Como acabaram elas? Não me é possível
dizê-lo ao certo. Mas, se em todo o caso, exigis uma explicação, inventarei a
que me parece mais verossímil, e que mais serve para absolver de uma
indesculpável incúria algum dos governos passados.
É ao conde dos Arcos que devemos lançar a culpa da perda
daquelas aves graciosas. Para que mandou esse, que foi o último dos vice-reis
do Brasil, colocar sobre o outeiro a intrépida Diana? Diana, como todos sabem,
é caçadora, e, portanto, caçou as aves.
Se não vos serve esta explicação, também não vos darei
outra.
Já conversamos: vou continuar, a descrição.
Do jardim podia-se subir para o terraço por quatro escadas
de pedra, duas centrais e contíguas à cascata, e as outras duas nos pontos
extremos.
O terraço era espaçoso e cheio de elegância. Mas as obras de
arte que o enriqueciam quase que se sentiam abater ante a magnificência da
natureza, que daquele lugar se admira.
Entretanto, aquelas obras não careciam de merecimento.
Logo, ao chegar-se ao alto das escadas centrais,
encontrava-se por detrás do outeiro um menino que parecia querer voar e que
segurava um cágado que vomitava água em um barril de granito lendo-se o
dístico: Sou útil inda brincando, em uma faixa trazida pelo menino.
O terraço era avarandado e lajeado de mármore. Uma grossa
parede o defendia dos ímpetos arrojados do mar. Um parapeito o cercava todo,
tendo vários alegretes com flores que entremeavam diferentes bancos de pedra
comum, e ornados com vasos de mármore.
Nas extremidades do terraço levantavam-se dois pavilhões
quadrangulares, ambos iguais e semelhantes nas proporções e forma exterior, e
distinguindo-se apenas pelas estátuas que os coroavam; pois que o pavilhão do
lado direito era dominado pela estátua de Apolo, que vibrava a lira, e o do
lado esquerdo pela de Mercúrio com o caduceu. As arestas de um e outro eram
guarnecidas por simples pilastras ornadas superiormente por vasos de mármore,
dos quais nasciam ananases de ferro. As cobertas eram piramidais e de uma
simplicidade agradável.
Iguais e semelhantes no exterior, como disse, os dois
pavilhões diferiam completamente nos seus ornamentos do interior.
O teto do pavilhão da direita dividia-se em cinco grandes
quadros, dos quais o culminante era quadrado e os quatro laterais trapezóides,
e todos eles enfeitados de arabescos, palmas e flores, sobre fundo branco, tudo
tão perfeitamente acabado que produzia uma suave ilusão, avultando o seu
merecimento por serem as palmas, flores e arabescos formados de penas de
diversas cores.
As sobreportas, do mesmo modo, se mostravam ornadas de
baixos-relevos de pássaros do Brasil, formados das próprias penas deles. A meia
altura das paredes, enfim, apreciavam-se lindos quadros elíticos feitos a
pincel, representando diferentes fábricas e oficinas do país.
No pavilhão da esquerda notava-se idêntica disposição nos
ornamentos. Estes, porém, eram de outra natureza. Nos cinco grandes quadros de
teto as conchas substituíram as penas, e o fundo em vez de ser branco, tomava a
cor azul. Nas sobreportas viam-se baixos-relevos de peixes dos nossos mares,
feitos com as suas próprias peles e escamas. Os quadros elíticos representavam
as maiores armadas que tinham até então entrado na baía do Rio de Janeiro, o
incêndio de embarcações, e finalmente formosas vistas de sítios romanescos do
litoral e do interior.
Todos estes encantos de arte gozavam-se também de noite, ao
clarão de oito lampiões trabalhados com esmero e colocados na extensão do
terraço.
Em duas pequenas casas construídas dentro do jardim
guardavam-se muitos outros lampiões, que serviam nas iluminações das grandes
festas públicas; mas, depois da chegada da família real ao Brasil, todos eles
foram dali tirados para se aplicarem à iluminação do palácio e do largo do
Paço.
Eis o que foi o Passeio Público do Rio de Janeiro na sua
época primitiva no tempo do seu fundador, o vice-rei Luís Vasconcelos e Sousa.
O que em seguida ele passou a ser tratarei de referir no próximo passeio.
Enquanto, porém, nos vamos recolhendo para casa, ouvi-me
ainda duas palavras pronunciadas em tributo de gratidão à memória dos dois
artistas que mais concorreram para o nosso até hoje único jardim público da
cidade do Rio de Janeiro.
Convém ligar os nomes de Valentim e de Xavier às produções
que ao talento de cada um deles devemos, e depois de o ter feito, atirarei no
meio de vós uma consideração um pouco séria e filosófica, que aceitareis ou
rejeitareis conforme for de vossa vontade.
O menino alado que segurava o quadro e as estátutas dos
pavilhões eram de mestre Valentim, a quem se atribuem também os quadros
elíticos, especialmente do pavilhão esquerdo, que passavam por
primorosos. Todo o trabalho de penas, conchas e escamas pertencia ao
Xavier dos Pássaros ou das Conchas e encantavam pela sua delicadeza e
perfeição, chegando os baixos-relevos a parecerem antes obras da natureza do
que da arte.
Valentim e Xavier tinham-se compreendido e ligado pelo mesmo
pensamento, e haviam executado as suas dificílimas tarefas em tudo e por tudo
muito brasileiramente, como propusera aquele mestre. Este fato, que hoje não
teria uma grande importância, era naquela época a manifestação de um sentimento
nobre e generoso, que, por assim dizer, pressagiava a independência do Brasil.
A poesia e as artes começavam a quebrar o jugo colonial, e
inspiradas pelo patriotismo, lançavam no espírito público os germes da nossa
futura regeneração política. José Basílio da Gama, no Uruguai, tinha já
enriquecido a poesia com a originalidade, as imagens, as descrições e a cor da
pátria; José de Santa Rita Durão ostentava-se mais brasileiro ainda no seu
Caramuru, que ele escrevia pouco mais ou menos nos mesmos anos em que se
executava a obra do Passeio Público do Rio de Janeiro; dirigidos pelo mesmo sentir,
inflamados pelo mesmo amor, mestre Valentim e o Xavier das Conchas escreviam
também os seus poemas especiais e cheios de patrióticas idéias, na cascata e
nos pavilhões do Passeio Público.
Os idealistas, ainda sem o pensar talvez, preparavam a
revolução que, prematura e imprudentemente, quiseram realizar os poetas e
patriotas de Minas Gerais em 1789, e depois foi consumada pelos heróis do Rio
de Janeiro e do Ipiranga.
Quem não enxergar nos poemas do Uruguai, do Caramuru e
depois, no da Assunção de Frei S. Carlos e nas obras de Valentim, de Xavier das
Conchas e de outros artistas a independência do Brasil, que no fim de alguns
lustros passou dos cantos dos poetas e dos quadros e trabalhos da arte para os
clubs dos políticos, não enxerga a luz da verdade e a origem real dos fatos
III
O primeiro dia em que se abriu o Passeio Público aos
habitantes da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro foi, como era natural,
de júbilo e de festa para a população, e de justa ufania para o vice-rei e para
os artistas a quem era devida aquela abençoada obra. Contraria-me não pouco a
falta de informações fidedignas a respeito das festas que tiveram lugar então;
porque não hesitaria em descrevê-las, se para o fazer me achasse habilitado.
Nem sei mesmo em que dia e em que mês do ano de 1783 foi
passado esse aprazível fato. Mas bem podia ter sido o mês de agosto, e no dia
de S. Bartolomeu, porque, pelo correr da noite, rebentou uma tremenda ventania,
que pôs o mar em fúria e a terra em susto.
Mestre Valentim, depois de receber os cumprimentos do
vice-rei e de fartar-se com o seu amigo Xavier das Conchas de ouvir, no Passeio
Público, elogios às suas obras, recolhera-se à casa, levando consigo o
irmão-artista, o bom Xavier, para regalar-se com ele, fazendo honra a uma
excelente ceia que mandara preparar.
Os dois amigos tinham-se apenas sentado à mesa e, depois do
primeiro prato, enchido os copos de rubro e odorífero vinho, quando as janelas
da casa bateram com estrondo ao impulso do vento desenfreado, que começou a
rugir como um tigre embravecido.
Mestre Valentim estremeceu e tornou-se pálido.
–
Que é lá isso? – perguntou Xavier.
–
É a tempestade – murmurou Valentim.
–
Que nos importa agora a tempestade! Tens medo de vercair sobre nós esta casa,
derribada pela violência dos tufões? Ah! Reparo agora que ela não é de pedra e
cal; mas está, sem dúvida, feita com boas madeiras do Brasil e as nossas boas
madeiras valem pedra e ferro.
–
E que tenho eu com a fortaleza desta casa? Que mal me vaiem que ela seja ou não
derribada pelo vento?
–
Essa é boa! Então não havia mal em ficarmos ambos esmagados? Que diabo é, pois,
que te preocupa?
–
O meu coqueiro, Xavier! O meu coqueiro! Esta ventania vaiatirá-lo da cascata
abaixo. É uma tempestade como nunca vi.
Xavier desatou a rir.
–
Sim. Ri, ri e bebe vinho. Os pavilhões estão fechados, e ovento nem depenará os
teus pássaros, nem escamará os teus peixes. Não é assim, egoísta?
Xavier ria-se cada vez mais, e comia e bebia sem lhe
importar a tempestade.
–
Mas quem disto tem culpa é o Sr. Luís de Vasconcelos! –exclamou Valentim. Quis
por força um coqueiro enorme sobre a cascata, um coqueiro artificial que lhe
lembrasse uma palmeira que ele bem podia maldizer, e eis aí o resultado.
–
Mestre – disse Xavier – come e bebe, e deixa o vento. Pormais que te exasperes
e grites, não o farás cessar. Ceiemos, e amanhã iremos ver como passou à noite
o coqueiro.
Valentim deixou-se finalmente convencer, e acabou por zombar
dos seus próprios temores. Ceou, pois, conversou, riu-se e gracejou até depois
da meia-noite, que foi quando Xavier lhe disse adeus e retirou-se.
A tempestade tinha completamente serenado. A noite
mostrava-se clara e fresca. A lua brilhava no céu.
Mestre Valentim não se pôde conter. Saiu de casa, penetrou
no Passeio Público por uma portinha que havia ao lado esquerdo, perto do
terraço, e cuja chave ainda tinha em seu poder. Correu para a cascata e soltou
um grito de prazer, vendo de pé, firme e sem a menor quebra e dano, o seu
delicado coqueiro.
Foi tão grande o seu prazer que partiu logo em direitura à
casa de Xavier, e bateu-lhe à porta com quanta força pôde.
Xavier dormia, já a sono solto. Acordou, porém,
sobressaltado, levantou-se, e abrindo uma janela, perguntou de mau humor o que
dele queriam a tais 10 horas.
–
Sou eu, Xavier – disse-lhe Valentim.
–
Oh! Mestre. Que aconteceu?
–
Uma felicidade: venho dizer-te que o meu coqueiro está salvo.
–
Maldito seja o teu coqueiro, que te fez cortar-me o maisbelo sono que tenho
dormido em minha vida! – exclamou Xavier, trancando a janela.
Valentim voltou para casa, rindo-se às gargalhadas da peça
que acabava de pregar a Xavier.
Do que se passou no dia da abertura do Passeio Público do
Rio de Janeiro nada mais posso adiantar. Contentem-se, pois, os curiosos com a
notícia da tempestade e do susto de mestre Valentim, que são fatos positivos,
embora de pouca importância.
O Passeio Público teve indubitavelmente a sua época de
brilhantismo e de encanto no vice-reinado de Luís de Vasconcelos e Sousa. Mas,
logo depois, sobreveio-lhe um longo período de lamentável desprezo, durante o
governo do vice-rei conde de Resende, e em seguida experimentou, ora
insuficientes cuidados, ora um tristíssimo abandono, até que finalmente agora
vai reaparecer mais belo que nunca, segundo o apregoa a fama, graças a uma
reforma inteligente, artística e digna da capital do império.
Luís de Vasconcelos amava tanto a sua obra como um pai ama a
sua filha, e soube despender sempre com ela extremosos cuidados. Não se limitou
a enriquecer o jardim com ornamentos interiores. Engraçou-o ainda pelo
exterior, fazendo abrir e alinhar bonitas ruas por onde se pudesse ir ter a
ele. Foi assim que dispôs a rua que, correndo pela frente do Passeio, tomou do
Passeio o nome, sendo apenas de lamentar que em suas proporções tão estreita
ficasse. E além da rua do Passeio, a outra que cai perpendicularmente sobre
esta no ponto em que se mostra o portão, e que então se chamou rua das Belas
Noites em vez de rua das Marrecas, que é como hoje se chama. Abertas as ruas, o
vice-rei promoveu nelas a construção de casas, determinou e adiantou algumas
edificações, que aliás não pôde concluir, como tinha em mente e, enfim, não
perdeu ocasião de excitar alegria e festas no seio do seu pequeno paraíso.
O povo procedia neste caso muito de acordo com o vice-rei.
Bem entendido, neste caso, de acordo espontâneo e muito de coração. Porque em
todos os outros casos não tinha remédio senão mostrar-se também de acordo com
ele, quer quisesse quer não, visto que não era admissível que um vice-rei
alguma vez deixasse de ter toda a razão em tudo e por tudo. E pouco admira que
naqueles tempos todos aplaudissem o juízo infalível do poderoso delegado do rei
absoluto, quando ainda hoje são muitos os que piamente acreditam que a
infalibilidade não está nos homens, está no poleiro, na influência do poder e,
até, às vezes, simplesmente no feitiço do tesouro público.
O povo tomou amor ao seu belo jardim desde o primeiro dia.
Ainda há velhos a quem lembram as festas brilhantes que ali
se fizeram em 1786, em aplauso do casamento do príncipe que 22 anos depois veio
assentar o trono da monarquia portuguesa na cidade do Rio de Janeiro.
Iluminações, músicas e danças aparatosas foram então executadas, durante
algumas noites, no Passeio Público, e não faltaram poetas que nessa ocasião se
fizessem ouvir inspirados no meio de enchentes de flores... flores vegetais e
humanas.
Além dessa, algumas outras festas públicas tiveram lugar no
Passeio, do ano de 1786 em diante, e a prova ficou no grande número de lampiões
que para aquele fim se guardavam nas duas casas que se levantaram dentro do
jardim, como já ficou dito.
Mas essas noites oficiais, embora deslumbrassem a população
e lhe dessem fervorosa alegria, eram naturalmente de curta duração, davam ao
Passeio Público apenas uma vida artificial e um encanto que não podia ser
perene.
Ora, o que mais nos importa conhecer é a vida normal, a
animação de todos os dias e de todas as noites que tinha aquele jardim, no
tempo a que me refiro.
Quereis, pois, fazer idéia do que era para o povo do Rio de
Janeiro o Passeio Público naquela época, e ainda em outras posteriores, a
despeito do desmazelo dos governos? Perguntai qual foi a origem da denominação
de Belas Noites, dada à rua que depois muito prosaicamente chamaram das
Marrecas.
Aquele nome Rua das Belas Noites queria dizer que o Passeio
Público fizera o povo do Rio de Janeiro gostar pouco da lua nova e aborrecer a
minguante.
Por quê? Eis aqui todo o segredo desse desamor e desse
aborrecimento por aquelas duas fases da lua.
Nas noites de brilhante luar, dirigiam-se alegremente para o
Passeio Público numerosas famílias, galantes ranchos de moças, e por
conseqüência, cobiçosos ranchos de mancebos; e todos, depois de passear pelas
frescas ruas e pelo ameno e elegante terraço, iam, divididos em círculos de
amigos, sentar-se às mesas de pedra, e debaixo dos tetos de jasmins odoríferos
ouviam modinhas apaixonadas, e lundus travessos, cantados ao som da viola e da
guitarra, rematando sempre esses divertimentos com excelentes ceias dadas ali
mesmo.
Toda essa multidão contente e festiva tomava de preferência,
para chegar ao Passeio Público, a rua que ficava e fica fronteira ao portão do
jardim. A lua crescente ou plena brilhava no céu. Os grupos docemente ruidosos
de moças sucediam-se uns aos outros ao longo daquela tão curta como afortunada
rua. Os cantos soavam. Sentia-se o prazer geral no concurso de todos para os
mesmos inocentes gozos. Oh! que nome quereis que fosse dado a essa rua? Que
outro nome mais bem cabido do que o “das Belas Noites”?
E como essas famílias, aquelas moças e aqueles mancebos
deixariam de desamar a lua nova, e aborrecer a minguante, que eram as fases da
lua menos propícias às suas suspiradas reuniões no jardim?
Conversai com os nossos velhos, e ouvi-los-eis falar das
suas agradáveis noites e das afamadas ceias do Passeio Público com mais
entusiasmo do que vós outros falais do vosso Cassino, do vosso Clube
Fluminense, dos vossos jantares do Jardim Botânico, das vossas festas de hoje,
enfim, tão descoradas e tão fatigantes à força de serem tão cerimoniais e tão
calculadas.
E, notai bem, quinze dias, ou antes, quinze noites pelo
menos em cada mês, havia no Passeio Público festa do povo, alegria do povo,
reunião de famílias, cantigas de moças e de mancebos, conversações animadas de
velhos e velhas, versos lidos ou improvisados por poetas ou simples
cultivadores do Parnaso, amores puros nascidos ao som de suaves cantos,
confiança e contentamento de todos, ruído, aplausos, risadas, movimento e nunca
uma desordem, e jamais um desaguisado, e ainda menos um arrependimento e remorsos.
O véu da noite ali não favorecia o vício, somente facilitava os santos gozos da
virtude.
E, entretanto, não apareciam lá para manter a ordem nem
subdelegados, nem inspetores de quarteirão, nem permanentes, nem pedestres. Até
aí não tinha ainda florescido na cidade do Rio de Janeiro o célebre Vidigal,
que foi o tutu do seu tempo. Passava-se perfeitamente sem as providências
da polícia. Não havia desordeiros, porque subsistiam os antigos costumes do
povo, e, apesar do governo absoluto, o povo tinha moralidade.
A satisfação naquelas noites era geral, e as noites faziam
talvez esquecer os dias. Os gozos puros eram de todos e para todos; creio mesmo
que as freiras da Ajuda passariam horas inteiras às grades das janelas do seu
convento, estendendo os olhos ávidos para apreciar com eles, e de longe embora,
os inocentes prazeres da terra que eram negados a elas, pobrezinhas, a pretexto
de que poderiam arredar os seus pensamentos do Céu.
Ainda bem que nesse tempo os frades do Carmo não moravam
ainda a poucos passos do Passeio Público, como depois tiveram de ir morar.
Aliás, duvido que resistissem com paciência àquele martírio de Tântalo de que
puderam triunfar as freiras da Ajuda. Porque, enfim, os frades não são freiras,
e às vezes têm suas fraquezas e cedem à tentação do Diabo, que em regra geral é
mais feliz, tentando os homens do que as mulheres.
Foi uma verdadeira pena que esse contentamento do povo da
cidade do Rio de Janeiro não se fizesse sentir sempre o mesmo, inalterável, até
o fim do Governo Luís de Vasconcelos. Infelizmente, porém, a conjuração de
Tiradentes em Minas Gerais, denunciada em março de 1789 ao visconde de
Barbacena, veio dar motivo a toldarem-se e enegrecerem-se os últimos tempos do
vice-reinado daquele notável administrador do Brasil.
Luís de Vasconcelos mostrou na perseguição dos conjurados a
mesma energia e fervoroso empenho de que dera provas em todos os outros atos de
sua administração. Multiplicou os segredos, não abriu um só instante o coração
à piedade, turvou o seu espírito com a suspeita, e procurando todos os
vestígios e todas as possíveis ramificações da conspiração de Minas, encheu a
cidade do Rio de Janeiro de receios aterradores.
A mão pesada do absolutismo ergueu-se terrível e vingativa.
Tremeram a um tempo inocentes e culpados. O povo não se lembrou mais de folgar
e de rir, e as flores do Passeio Público logo começaram a murchar.
E ainda mais que o sucessor de Luís de Vasconcelos e Sousa
mostrou sempre ser mais um vice-rei de espinhos do que um vice-rei de flores.
D. José Luís de Castro, conde de Resende, era um homem
desconfiado, melancólico, violento e caprichoso, e, portanto muito
naturalmente, deu pancadas de cego com a sua bengala de vice-rei.
Estreou no seu vice-reinado recebendo o sinistro festejo de
uma iluminação de mau agouro; porque, apenas alguns dias depois de ter tomado
posse do Governo do Brasil, ardeu toda a casa em que a câmara municipal
celebrava as suas sessões, e que era na mesma praça do palácio em frente a
este, no correr das casas dos Teles, ficando exatamente na esquina da atual rua
do Mercado. O fogo que consumiu a casa devorou também o arquivo municipal,
escapando somente os livros e papéis que por casualidade se achavam em poder do
Escrivão da Câmara e do Juiz de Fora.
O povo, que já andava triste, viu naquele incêndio um
presságio funesto, e o conde de Resende pareceu tomar a peito verificar o
presságio.
O novo vice-rei foi uma verdadeira praga que caiu sobre a
cidade do Rio de Janeiro. Além dos males que fez, destruiu ou amesquinhou os
benefícios que achou feitos. Dissolveu a academia científica criada sob os
auspícios do marquês de Lavradio e perseguiu duramente os seus membros.
Desprezou completamente o Passeio Público, fundado por D. Luís de Vasconcelos,
condenou-o a um abandono que o foi arruinando pouco a pouco, e julgou-se,
talvez por estes e muitos outros fatos semelhantes, um administrador modelo.
E o pior é que têm aparecido bastantes cópias desse modelo
fatal!
O Passeio Público do Rio de Janeiro entrara, portanto,
definitivamente, em uma época de decadência.
D. Fernando José de Portugal, depois marquês de Aguiar,
sucessor do conde de Resende, nenhuma providência tomou a favor do infeliz
jardim público, e nem ao menos socorreu o coqueiro de mestre Valentim, que se
ia desgalhando e quebrando, e fazendo convencer a todos que os governos
desmazelados são mais funestos do que os mais desabridos furacões e as mais
furiosas tempestades.
A D. Fernando José de Portugal sucedeu no vice-reinado do
Brasil, D. Marcos de Noronha de Brito, conde dos Arcos, a quem também o Passeio
Público não ficou devendo grande coisa. Este vice-rei limitou-se a substituir
por um busto de Diana em mármore o famoso coqueiro, que assim perdeu o domínio
da cascata.
A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em
1808, não mudou a fortuna adversa do Passeio Público. Antes, deu lugar a que se
concebesse a idéia de se lhe opor um rival, e de feito, mandaram-se encetar os
trabalhos necessários para ser transformada em um jardim público uma parte do
campo então chamado de Santana. O pensamento era louvável e utilíssimo, sem
dúvida; mas os cuidados que por algum tempo mereceu o novo passeio em projeto
não deviam fazer olvidar o passeio antigo já pronto e estimado do povo.
Não quero, porém, deixar de fazer completa justiça ao
governo dessa época: se ele não cuidou suficientemente, se não fez renovarem-se
as tardes amenas e as belas noites do Passeio Público, ao menos não desprezou
este estabelecimento, como os últimos vice-reis o tinham desprezado.
Dois fatos servem para demonstrar a minha proposição.
Encontrava-se naquele tempo o ilustre carmelita Frei Leandro
do Sacramento, que era um fluminense notável por sua ilustração e um
naturalista muito distinto, dando lições de botânica no Passeio Público, em um
edifício oitavado muito elegante (diz o Padre Luís Gonçalves dos Santos), que
para esse fim ali se construiu do lado do largo da Lapa.
Se o edifício oitavado é um dos que ainda se acham no
Passeio, protesto contra a idéia da elegância. Fosse, porém, qual fosse,
aplaudo a criação daquela aula de botânica, onde o nosso Frei Leandro contava a
história do reino vegetal à sombra das árvores e no meio das flores.
Foi uma aula de botânica que deu alguns excelentes
discípulos, que depois vieram a ser mestres. O Brasil perdeu, ainda há poucos
anos, um deles no Dr. Joaquim José da Silva.
Em 1817, reconheceu-se que o terraço do Passeio Público se
achava tão arruinado pela violência dos embates das ondas, que não era mais
possível adiar a sua reconstrução. Tornara-se indispensável pagar a incúria dos
últimos governos com uma despesa avultada.
Meteram-se mãos à obra.
O terraço teve de passar por uma reforma geral e completa, e
conseqüentemente foram sacrificados os pavilhões quadrangulares, e com eles as
Estátuas de Apolo e de Mercúrio de Mestre Valentim e os delicados trabalhos de
conchas, penas e escamas do Mestre Xavier.
É verdade que, segundo escreveu o Padre Luís Gonçalves dos
Santos nas suas Memórias do Brasil, “espera-se que os novos mirantes que se
haviam de levantar tivessem os mesmos ornatos que os antigos”. Mas, também, é
verdade que essa lisonjeira esperança não se realizou, e até perderam-se os
vestígios das Estátuas de Valentim e dos pássaros e dos peixes do Xavier das
Conchas.
A reforma tinha sido, por certo, determinada com a melhor
intenção. Como se vê, porém, acabou do modo o mais triste, com a profanação da
arte.
No terraço ficou somente intato o menino que segurava o
cágado. Talvez merecesse então piedade por ser criança. Mas, coitadinho!
Coube-lhe mais tarde uma sorte igualmente lamentável.
Tais foram os dois fatos que marcaram no Passeio Público do
Rio de Janeiro aquela época, que, aliás foi de tanto progresso para o Brasil:
uma aula de botânica que pouco tempo durou, e que ainda assim produziu
excelentes frutos, e uma reforma que se pareceu muito com aquelas emendas que
saem piores do que sonetos.
Decididamente, desandava a roda da fortuna para o Passeio
Público; porque nem lhe valeram a declaração da independência do Brasil e o
grau de capital do novo império assumido pela cidade do Rio de Janeiro.
As belas noites estavam de todo esquecidas. A rua que aquele
nome tivera já desde alguns anos se chamava das Marrecas, em honra da fonte
onde a água corria dos bicos de cinco marrecas de bronze. Essa fonte, porém,
nem mesmo era uma novidade, porque a data da sua construção coincide com a do
Passeio Público. A mudança do nome da rua teve, pois, outro motivo, que não foi
senão o arrefecimento do amor pelo Passeio Público, em conseqüência do abandono
em que este caiu desde o tempo do conde de Resende.
Os três últimos vice-reis do Brasil tinham conseguido vingar
a lua nova e a lua minguante do desamor e do aborrecimento com que o povo as
ultrajava. Seus nomes devem ser, portanto, lembrados com justa gratidão, no
mundo da lua.
Entretanto, os anos foram correndo, e o Passeio Público não
se regenerava.
O reinado do primeiro imperador não foi de sensível proveito
para esse estabelecimento de recreio público.
A menoridade do Sr. D. Pedro II ainda menos. Creio que a
única obra que então se fez no Passeio foi a substituição do gradil de taquaras
que cercava os maciços por grades de ferro mandadas colocar pelo ministro
Bernardo Pereira de Vasconcelos, se não me engana a memória. Se outras obras se
executaram, foram tais que não valem a pena lembrar-se.
Ah! Não. Ainda há uma grande obra e um grande anúncio
oficial que não devem ficar esquecidos.
A obra consistiu em mandarem-se arrancar as armas de D. Luís
de Vasconcelos e Sousa, que no Passeio Público recordavam e perpetuavam a
lembrança do seu fundador.
Que idéia sublime! Mas, para tornar esquecido esse relevante
serviço prestado por aquele vice-rei, era melhor mandar destruir o Passeio
todo. E nem assim! Porque a história da pátria subsistirá, e não há poder
humano que a destrua.
O anúncio oficial foi talvez ainda mais curioso.
Tinha soado a hora fatal para o menino útil inda brincando.
Um dia deu-se por falta do menino, e debalde o procuraram.
O pequeno não se escondera para fazer travessura à vontade,
como criança que era: não batera as asas nem fugira, apesar de o ter feito
alado Mestre Valentim.
Nada disso: o pobre menino, com o seu cágado e a sua faixa,
tinha sido vítima de um roubo.
E que fez em tal caso o governo? Anunciou que “quem quisesse
fazer outro igual e mais barato se apresentasse na administração das obras
públicas”.
O anúncio era inspirado pelo mais santo amor da economia.
Mas, nem o próprio governo sabia o preço por que pagara Luís de Vasconcelos
aquele menino que acabavam de roubar. Entretanto, a questão era da maior
transcendência financeira, e cumpre que aquele anúncio fique registrado nos
anais da história.
E lá se foi o pobre menino!
Além do ladrão, ainda alguém mais ganhou com esse fato
escandaloso: foi Andrew Grant, que, na sua História do Brasil, confundiu com um
passarinho o cágado que o menino segurava. Depois do roubo de que falo, podia
muito bem Andrew Grant sustentar que o cágado, que vira e estudara, tinha asas
como um pato e voava como uma andorinha.
A declaração da maioridade do Sr. D. Pedro II veio abrir uma
época nova para o Brasil. Então o Passeio Público mereceu durante algum tempo
mais desvelada atenção.
Em 1841, o Coronel Antônio João Rangel de Vasconcelos, sendo
inspetor das obras públicas do município da corte, não pode tolerar com a
paciência, de que outros deram exemplo, o quadro lastimável do Passeio Público,
e determinou melhorá-lo.
Faltavam os recursos para grandes trabalhos. Mas Rangel de
Vasconcelos tinha um coração patriota e o patriotismo tem o dom de vencer todos
os embaraços, quando se trata de servir ao país.
Entendendo-se com o ministro do Império, o dedicado inspetor
das obras públicas empreendeu obras na verdade dispendiosas, e com sobras de
outras verbas do serviço público, pôde realizar notáveis melhoramentos.
O terraço foi convenientemente melhorado e mostrou-se
guarnecido por uma bela cortina entremeada de assentos paramentados de mármore
e azulejos, e interrompida simetricamente por excelentes grades de ferro.
Diversos ornatos aumentaram-lhe ainda a elegância.
Os antigos pavilhões quadrangulares, já destruídos em 1817,
foram substituídos por dois torreões octogonais. Mas, neste ponto, foi enorme a
diferença que se notou entre a obra do século passado e a que se efetuou em
1841. Em seu interior, os torreões são pintados a óleo, fingindo mármore, e nos
tetos de ambos aparecem as armas nacionais, e... eis tudo.
Ah! Mestre Valentim! Ah! Xavier das Conchas!
Rangel de Vasconcelos, tendo de renovar a varanda do Passeio
Público, quis render uma simples homenagem aos antigos pavilhões, levantando os
dois torreões, porque lhe faltaram os meios pecuniários para dar aos pavilhões
do Xavier das Conchas sucessores dignos deles.
Creio que, se nisto andou errado o patriotismo, ainda pior
se houve no governo em 1817, e que melhor fora que este tivesse conservado
intactas, e ainda mesmo com todas as suas rugas de velhice, aquelas obras do
Xavier das Conchas.
Rangel de Vasconcelos restaurou no Passeio Público as armas
de D. Luís de Vasconcelos que tinham sido arrancadas, fez aparecer igualmente a
efígie de D. Pedro III e D. Maria II, conseguiu fazer voltarem a seus
competentes lugares a Diana, o Júpiter, o Mercúrio e o Apolo, que dantes
figuravam no Passeio e, enfim, apresentou no antigo posto um novo menino útil
com o inseparável cágado, e com sua faixa e a sua divisa.
Se este menino é igual ao antigo e saiu mais barato, não
sei.
Ao engenheiro Rangel de Vasconcelos deve, pois, a cidade do
Rio de Janeiro, além de outros, esse importante serviço. Como, no entanto, ele
não teria melhorado o Passeio Público, se o governo não lhe permitisse fazê-lo
e não lhe desse ordens para isso, pertence também ao governo de então boa parte
da glória que por esses trabalhos e por esse nobre empenho coube a Rangel de
Vasconcelos.
Mas, quando um governo realiza uma obra dessas, descansou no
sétimo dia, depois de ter nos seis anteriores criado o universo: o governo pode
bem descansar no fim de longos meses de trabalho.
E o governo não só descansou como também dormiu a sono solto
a respeito do Passeio Público. Dormiu... dormiu... e dormiu. Até que acordou,
em 1860.
IV
A administração pública do Brasil tem desde muito provado
com a lógica irresistível dos fatos um erro gravíssimo em que se acham incursos
todos os gramáticos e lexicógrafos. Porque estes senhores pretendem que amanhã
quer dizer no dia seguinte, no dia imediato, e ela em oposição foi e vai
constantemente demonstrando que amanhã significa um período indeterminado, que
se pode estender por muitos anos, e mesmo algumas vezes até às calendas gregas.
Querem alguns que as honras de tão importante descoberta não
pertencem à administração pública, e somente à sonolenta preguiça, que foi quem
fez o belo achado em uma hora deleitosa em que dormia nos braços do desmazelo.
Mas, ainda protestam outros, dizendo que foram os devedores insolúveis que
ensinaram essa lição sublime, que tanto desespera os credores.
Como quer que seja, a significação administrativa que acabei
de fazer notar tem infelizmente o defeito de arruinar muitas coisas já feitas,
de deixar em meio outras que se deviam acabar, e de esquecer ainda outras que
era necessário que se fizessem.
O Passeio Público do Rio de Janeiro é um exemplo tristíssimo
desse defeito da significação administrativa dada à palavra amanhã.
Tendo caído em completa deslembrança, o Passeio Público
pedia compaixão com a voz suave das brisas que murmuravam com as folhas de suas
árvores, bradava socorro com a voz irritada das ondas que rebentavam nas pedras
defensivas do seu terraço, e a administração pública respondia sempre amanhã!
amanhã! – o que significa um período indeterminado que se pode estender por
muitos anos, e mesmo algumas vezes até às calendas gregas.
Está visto que sendo assim, não havia razão de queixa. Não
era a administração pública que se descuidava, era o amanhã que não chegava.
Mas em resultado, o descaimento e a ruína do Passeio Público
do Rio de Janeiro chegaram a tais proporções nos últimos anos, que a todos
surpreendia ver o abandono em que se deixava o único lugar de refrigério
público da capital do império.
Esse lamentável e repreensível abandono foi perfeitamente
pintado em um ligeiro epigrama que ouvi a um amigo meu que, tendo partido para
a Europa em 1852, chegara de volta ao Brasil em 1860.
Passeávamos juntos, eu e o meu amigo, naquele jardim
público, alguns dias depois da sua chegada ao Rio de Janeiro.
– Que me dizes do nosso Passeio? – perguntei-lhe.
O meu amigo sorriu e respondeu-me:
– Na véspera da minha viagem para a Europa vim aqui, e vi à
entrada do Passeio um gato morto. Estive no velho mundo oito anos, voltei, e
hoje encontrei ainda o mesmo gato morto no portão do Passeio.
Com efeito, não podia ser maior o desleixo.
Um dia de chuva era de sobra para ficarem encharcadas muitas
ruas do Passeio.
Os maciços estavam cobertos de capim e de ervas ruins, e as
árvores de parasitas.
As grades dos jardins achavam-se despedaçadas.
Árvores preciosas e delicadas amesquinhavam-se e iam
morrendo abafadas por outras que pouco ou nenhum merecimento tinham.
Dois pequenos tanques octogonais com pilastrinhas de mármore
servindo de repuxos, que havia nos primeiros maciços da rua principal, e que
não sei em que época foram feitos, estavam, um quase de todo, e o outro
completamente aterrados, destruídos e ambos tão escondidos por debaixo de uma
vegetação daninha que ninguém deles dava fé.
Os dois outros também pequenos tanques, de cujo seio nascem
as pirâmides, mostravam-se cobertos de verde limo e ofereciam um aspecto
repugnante.
As belas grades de ferro do terraço, carcomidas pela
ferrugem, davam testemunho da incúria da administração pública, que para não
gastar com elas alguns mil-réis por ano, deixava assim perder muitas centenas
de mil-réis.
A moralidade pública gemia ressentida no interior do jardim.
Perto da pirâmide – Ao Amor do Público – arranjara-se uma
casinha de tábuas e coberta de zinco, onde se vendiam café e sorvetes; tudo,
porém, com uma tal negligência, com exterioridades tão repulsivas, que o café e
os sorvetes, em vez de excitar o desejo, provocavam o enjôo.
E fora do jardim, aos pés e aos lados do terraço, de dia e
de noite, o ar se empestava com exalações pútridas provenientes dos despejos
que se faziam.
É triste dizê-lo: tudo isso, porém, é absolutamente a
verdade.
E o único desses sinistros sinais de abandono que se podia
apontar como antigo era o abuso inqualificável dos despejos feitos na praia
vizinha do Passeio Público.
Um notável viajante já tinha, em época muito anterior,
tomado nota dessa triste prova de desmazelo municipal.
M. Abel du Petit Thouars, que saíra de França em dezembro de
1837 na fragata Vênus, para fazer uma viagem à roda do mundo, chegara ao Rio de
Janeiro, e visitando o nosso Passeio Público, escrevera em sua carteira pouco
mais ou menos o seguinte:
“O lugar seria delicioso, se na praia contígua não se
fizessem despejos imundos, o que aliás se observa em todas as praias da
cidade.”
A Vênus do viajante francês fugiu, de certo, espantada das
vizinhanças do nosso Passeio Público. Mas, a nossa câmara municipal, nem com o
espanto da deusa dos amores procurou destruir o abuso repugnante que afeava a
mansão das flores.
Em 1859, a imprensa da capital clamou contra o desprezo em
que se achava o Passeio Público, e repetidas vezes procurou despertar a
administração, fazendo-se destarte eco das queixas do povo, como lhe ordenava o
dever do seu ministério.
Em janeiro de 1860, enfim, uma boa e simpática visita
arquiducal veio talvez dar motivo a que o governo voltasse os olhos para aquele
estabelecimento público.
S. M. o Imperador honrava, ainda naquela época, com a sua
presença algumas das províncias ao norte do Rio de Janeiro, quando aportou a
esta cidade o arquiduque Maximiliano d’Áustria.
Os fluminenses receberam com alegria o príncipe ilustrado
que já uma outra vez saudara a bela Niterói, visitara curioso o interior do
nosso país, estudara sem prevenções os nossos costumes, e escrevendo em uma
obra recomendável as suas observações, de nós se ocupara sempre sem azedume,
quase sempre com justeza, e algumas vezes com sinais de estima.
Sem teatros, sem galerias de belas-artes, sem parques, sem
monumentos, sem riquezas artísticas que ocupem por momentos a atenção dos
estrangeiros ilustres que chegam à nossa capital, nós os fluminenses apelamos
para os tesouros da nossa grandiosa natureza, e envergonhados da miséria das
obras dos homens, voltamo-nos para o recurso que nos oferece a majestade das
obras de Deus, e procuramos dirigir os passos dos nossos hóspedes para os
arrabaldes da cidade, onde se encontram ainda objetos dignos de admiração no
pouco que nos resta do muito com que a Providência Divina nos dotou.
E assim, nós os fluminenses batíamos palmas de
contentamento, quando víamos o príncipe Maximiliano dirigir-se ao alto do
Corcovado, à Gávea e à Tijuca, e subir ainda o pitoresco morro de Santa Teresa.
Chegou, porém, um dia em que o príncipe deixou o caminho das
alturas, penetrou no seio da cidade, dirigiu-se pela rua das Marrecas, e
entrando no Passeio Público, foi subir ao terraço, donde poderia apreciar ainda
uma vez a magnificência da nossa baía. Mas, ah! Mal tinha o arquiduque avançado
quatro passes no recinto da elegante varanda, e já com ambas as mãos levava o
lenço ao nariz!...
O nosso vexame foi tão grande que um brado geral soou, e o
governo não teve remédio senão acordar e olhar para o Passeio Público.
O lenço levado ao nariz pelo príncipe Maximiliano d’Áustria
serviu de motivo a novos clamores da imprensa, e concorreu no seu tanto para
que se determinasse a regeneração do nosso jardim público.
O Sr. Conselheiro Ângelo Muniz da Silva Ferraz, que
ficara na corte encarregado da pasta do Ministério do Império, compreendeu que
não se podia adiar por mais tempo a satisfação dos desejos do povo, e
convidando para uma entrevista o Sr. Francisco José Fialho, conseguiu que este
cidadão se encarregasse da obra da reforma do nosso Passeio.
A escolha do Sr. Fialho foi certamente bem aconselhada. Além
de todos os outros dotes que recomendam este nosso patrício, tem ele dado
provas de um gosto apurado e de muito amor pelas belas-artes. Em relação ao
mister de que se tratava, era já de todos ou pelo menos de muitos, conhecida a
importância e merecimento artístico das obras do parque ou grande jardim
paisagístico, que ele está fazendo executar em sua propriedade da rua de Monte
Alegre, sob o risco e a direção do hábil jardineiro francês o Sr. A. Glaziou,
parque ou jardim destinado ao recreio público, como são os Mabille, Chateau des
fleurs de Paris e outros das grandes cidades da Europa.
Não tenho conhecimento do contrato feito pelo governo com o
Sr. Fialho; anima-me, porém, a confiança de que este nosso compatriota
desempenhará cabalmente a tarefa de que se encarregou, e de que nos dará, com o
valioso concurso do excelente jardineiro o Sr. Glaziou, um belo Passeio
Público.
Quero dar algumas idéias do que se projeta fazer, e se está
com atividade realizando.
A planta apresentada ao governo, e por este aprovada,
representa um jardim no gênero inglês, hoje admitido em todo o mundo como o
mais natural, o mais livre, e que produz mais agradáveis e completas ilusões.
O antigo sistema de alamedas em linha reta e de maciços
regulares e uniformes é completamente abandonado.
O cordel e o compasso não são consultados. O olhar do
artista e a ciência da botânica são os grandes instrumentos deste trabalho.
Esse olhar que nivela o terreno, destruindo-lhe as ondulações, que cria nele
claros-escuros, divaga muitas vezes por muito longe dos limites fixados ao
lugar da sua obra; anda procurando perspectivas louçãs e encantadoras; cobiça
os panoramas longínquos, apodera-se deles, liga-os pela arte ao jardim que
deste modo parece muito maior, ilimitado mesmo.
O jardineiro-paisagista é rival do paisagista-pintor. Este
faz representar em sua tela de algumas polegadas o aspecto de um terreno
imenso, vastas planícies entrecortadas de rios, alcantilados montes, vales
sombrios, e tudo enfim quanto a natureza criou. Aquele corta, levanta, cava o
terreno entregue à sua perícia, planta e semeia onde convém cobrir o solo, ou
onde é conveniente esconder o triste aspecto dos sítios; copia em sua obra e
obra as obras da criação, aproveita ou improvisa rios e lagos, montes, outeiros,
grutas e bosques; mas em sua cópia tudo é palpável, tudo tem a sua vida
especial, tudo brilha com as próprias fintas da natureza.
Não pensem que estou poetizando: repetida a lição de um
mestre na matéria, e em breve teremos um exemplo deleitoso dessas idéias na
reforma no Passeio Público.
Os três pensamentos que devem apresentar-se dominando esta
obra são a escolha de árvores e plantas formosas e raras; o cuidado de reunir
no limitado recinto do jardim diversos encantos da natureza reproduzidos embora
em ponto pequeno; e enfim, a observância esmerada das leis da perspectiva na
disposição das árvores, de modo que entre elas os olhos do observador vão
espraiar-se ao longo e gozar ainda muito além dos limites do Passeio os
panoramas admiráveis de sítios pitorescos que aformoseiam a cidade do Rio de
Janeiro.
Logo à entrada do jardim, em frente ao portão, se estenderá
um grande tabuleiro de relva semeado de árvores e ornado de um pequeno tanque
com um repuxo.
Ruas em linhas curvas e de extensões variadas se
desenvolverão por todos os lados, e maciços multiplicados, diversos no tamanho
e na forma, darão o encanto da variedade, ostentando ainda grande riqueza de
árvores ora em grupos, ora isoladas.
Ao lado esquerdo ver-se-á sobre um outeiro um quiosque ou
pavilhão rústico, destinado às bandas de música.
Ainda do mesmo lado se mostrará um rochedo artificial, do
alto do qual se precipitará uma torrente d’água que alimentará um rio tortuoso,
que irá formar ao lado direito do jardim um lago com suas ilhotas habitadas por
cisnes.
Não muito longe do rochedo da queda d’água, se lançará sobre
o rio uma ponte rústica, e em frente do outeirinho dos jacarés de mestre
Valentim, uma outra ponte; essa, porém, de mais custoso trabalho e no estilo
Renascença, ou de ferro, e em todo o caso, imponente.
Ao lado direito erguer-se-á um pavilhão imperial.
Algumas estátuas, um lugar de repouso ornado de um rico vaso
de Medicis e de plantas estimadas; uma abóbada vegetal, uma gôndola veneziana
no lago, bancas de repouso, tabuleiros de relva, e muitas outras obras virão
recomendar a reforma do nosso Passeio Público.
Muito me alegra ter ainda de acrescentar que o tanque e o
outeirinho dos jacarés será conservado tal qual existe. Apenas se arrancaram
dentre as pedras algumas plantas ruins que ali vegetam inconvenientemente. Não
sei se foi o governo ou o Sr. Fialho que teve essa boa idéia e que nos livrou
de testemunhar um crime de lesa-arte; sei, porém, que M. Glaziou, o inteligente
e hábil jardineiro, tece os maiores louvores àquele bem acabado trabalho do
nosso Valentim, e especialmente admira o primoroso grupo dos jacarés.
Os tanques das duas pirâmides terão de ser melhorados;
estas, porém, ficarão intactas e continuarão a mostrar-se como dantes,
consagradas Ao amor do público e À saudade do Rio.
As obras da reforma do Passeio Público vão sendo executadas:
com diligência e boa vontade, e nas escavações feitas para
se reparar o leito do rio notou-se que, depois de algumas camadas de areia e de
barro, se encontra uma terra cujo aspecto e natureza indicam bem claramente que
é o fundo da antiga lagoa do Boqueirão.
Em seu começo os trabalhos de que se incumbiu o Sr. Fialho
provocaram reparos da parte de algumas pessoas que viram com um pesar bem
explicável serem derribadas não poucas das antigas árvores do Passeio Público.
Concebe-se por certo que devia causar uma impressão
desagradável o sacrifício de árvores a cuja sombra se descansou tantas vezes em
horas de ardente calma. Compreende-se ainda mais aquela impressão dolorosa,
quando nos lembramos do nosso clima e de que vivemos em uma cidade nua de
árvores e de jardins públicos.
Mas um exame refletido e a observação do que se está fazendo
no Passeio Público, devem dissipar os reparos e essa impressão desfavorável.
Primeiramente, desde que foi aprovada a planta do novo
jardim e que se entrou na execução deste, tornou-se inevitável sacrificar
alguma coisa do que existia, ao sistema que se ia empregar, e parecera a todos,
sem dúvida, preferível antes a perda de um certo número de árvores, aliás de
pouco valor, à mutilação do plano do jardim e o abandono dos preceitos da
perspectiva, que de tão essencial importância se mostram em obras dessa ordem.
Além disso, cumpre notar que as melhores árvores que se
mostravam no Passeio Público foram respeitadas. De muitas apenas se cortaram os
ramos que amesquinhavam outras mais delicadas e preciosas, que à sua sombra não
podiam medrar. Algumas ainda nem mereciam a posição que ocupavam no nosso
jardim.
As árvores do Passeio Público cresciam e desenvolviam-se
livres de todos os cuidados da arte. Era uma reunião de vegetais-criados sem
educação, sem amor e sem direção e escolha regular. Alguns ou muitos dos mais
possantes atropelavam e asfixiavam outros quase sempre mais estimáveis.
Encontram-se plantas e árvores raras, enfermas e quase mortas, e que hoje se
mostram já animadas e cheias de vida.
Observe-se especialmente uma palmeira muito preciosa que,
achando-se de um lado abafada por algumas árvores corpulentas e por uma
folhagem densa e cerrada, se revoltou contra essa prepotência vegetal e,
procurando a luz, que era para ela a vida, dobrou-se toda para o outro lado,
perdeu a posição perpendicular em que naturalmente devia mostrar-se e, por amor
do sol, apresenta-se hoje inclinada como a torre de Pisa.
Não tenho em mente nem poderia fazer uma descrição completa
do novo jardim que se nos prepara. Quis apenas dar uma idéia da obra em que se
está trabalhando, e contento-me com o que acabo de dizer sobre este ponto.
Mas, além dessa grande reforma no interior do jardim,
consta-me ainda que o Governo vai mandar substituir o triste e pesado muro do
Passeio por grades de ferro, que lhe darão muito mais graça, e que então a rua
do Passeio, que tem atualmente 45 palmos de largura, roubará ao jardim mais 27
palmos e ficará pelo lado deste flanqueada de árvores que estão em muito bom
estado.
Não se deve lastimar essa porção de terreno de que tem de
ficar privado o Passeio, pois que com ela se aformoseará a rua que pela frente
lhe corre. Mas por que não há de o Governo pagar ao jardim o espaço que vai
dele tirar, quando isso tão fácil e tão conveniente parece?
Do canto mais saliente do muro do Passeio até à igreja dos
carmelitas há 25 braças e dois palmos, cujo fundo até ao cais orçará talvez por
50 braças. A reunião desse terreno ao nosso jardim público pouco dinheiro
deveria custar ao Governo e ao Passeio, que, de tão pequeno e acanhado, daria
mais algumas proporções.
É indisputável que seria um grande erro deixar incompleta a
reforma do Passeio Público por uma consideração de falsa economia de alguns
contos de réis.
Não é somente esse aumento de terreno que deve ser
determinado pelo Governo. Há ainda outras despesas que não se podem dispensar.
Por que, por exemplo, hão de ficar no seio do jardim aqueles
dois pavilhões octogonais que não têm nem a elegância nem as condições
artísticas necessárias para que se possam achar de harmonia com os trabalhos
que vão ser executados? Não é justo substituí-los por outros que melhor se
recomendem?
Assevera-se que não se tocará no terraço do Passeio. Mas,
neste caso, substituirá aquela grade de ferro enferrujada e arruinada. Era uma
grade excelente e a deixaram perder-se por incúria. Agora, porém, está tão
estragada que necessariamente deve ser substituída.
E aqueles torreões octogonais das extremidades da varanda
ficarão sempre representando um contraste com os dois antigos e quadrangulares
em que se extremou o Xavier das Conchas? Pois não há aí algum artista que nos
venha provar que se pode fazer alguma coisa naquele gênero arquitetônico, e
coisa que feche a boca aos velhos e não os deixe tirar da comparação do seu com
o nosso tempo uma conseqüência que nos obrigue a abaixar os olhos?
As reformas que se fazem por metade, as reformas incompletas
foram sempre mancas e defeituosas. É o caso daqueles janotas caricatos que se
apresentam de casaca nova, calça em estréia e botins rotos e chapéu velho e
amolgado.
Não perca o Governo o ensejo que se oferece para regenerar
completamente o nosso Passeio Público. Desaproveitada, desprezada esta ocasião,
quando se apresentará outra?
E o tempo urge. O Sr. F. J. Fialho declarou que a sua tarefa
se cumprirá a tempo de ser de novo aberto o Passeio Público no dia 2 de
dezembro do corrente ano. A administração pública tem obras a executar ali por
sua conta, e se, como deve, tomar a peito ainda outros trabalhos, quais os que
acabei de propor, ou há de quanto antes meter mãos à obra ou deixará trancado o
portão do Passeio no dia 2 de dezembro, e o Sr. Fialho sem poder cumprir a sua
palavra por culpa alheia.
Se o Governo se esquecesse, nesse caso, da significação
administrativa dada a amanhã, a população da capital ficar-lhe-ia agradecida.
Mas...
Observo agora, e infelizmente bem tarde, que tendo começado
este passeio em recordações de anos passados, embora próximos, acabei-o além
dos horizontes que nos separam do futuro, fazendo uma ligeiríssima história do
jardim público que ainda havemos de ter.
Passeei por um jardim que ainda não existe!
Transpus os limites que marquei aos meus passeios: abusei da
paciência dos bons amigos que me acompanharam neles.
Foi um erro, confesso. Estou arrependido, e imponho-me o
castigo de perder o trabalho que tive.
Façam de conta que hoje não houve passeio.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Convento de Santa Teresa
I
NOS meus anteriores passeios já vos ocupei bastante com a
longa história de um palácio e de um jardim. No palácio vimos os grandes da
terra, um governador, alguns vice-reis, uma rainha, um rei, dois imperadores,
princesas e príncipes; vimos a falange lisonjeira e inconstante dos cortesãos,
falange que, à semelhança do mar, tem o seu fluxo e refluxo, porém irregulares
e só determinados pelos anúncios da próspera ou adversa fortuna da realeza;
ouvimos o ruído das festas e, enfim, também os ecos das entrepitosas lutas
políticas que vinham retumbar em suas salas.
No jardim vimos o povo, a multidão, artistas ávidos de
glória, os folguedos, gozos inocentes, as flores e quadros prazenteiros;
ouvimos cantos, testemunhamos os risos suaves da prosperidade, as contrações
dolorosas da decadência e a alegria esperançosa da regeneração.
Basta por ora de cenas animadas pelo movimento, pelas
solenidades e pelo encanto ardente da vida ruidosa do mundo. Vamos procurar
painéis diferentes e sensações de outra natureza em algum daqueles piedosos
asilos onde o silêncio é apenas quebrado pelo brando sussurro das orações ou
pelas harmonias de um coro religioso.
Quero levar-vos hoje ao mosteiro das freiras carmelitas
reformadas, ao retiro melancólico das filhas de Santa Teresa.
Vamos, pois, subir tanto quando for preciso aquele pitoresco
monte; não vos guiarei, porém, por nenhuma dessas novas ruas que o trabalho
inteligente do homem civilizado tem aberto pelas encostas do morro com um
declive suave e insensível, e bordado de casas de campo e de jardins galantes.
Terei de contar-vos daqui a pouco uma história do passado, que iria mal se
fosse referida por entre as flores e as galas da atualidade.
O monte em que está situado o convento que vamos estudar não
é mais o que era dantes, nem no nome, nem nas condições, nem no aspecto.
Chamou-se morro de Nossa Senhora do Desterro desde o princípio do século décimo
sétimo; no fim do décimo oitavo, porém, trocou esse nome pelo de Santa Teresa,
que lhe deu o convento.
No outro tempo – e o outro tempo ainda era apenas há cem
anos passados – os grandes da cidade e os negociantes ricos tinham as suas
chácaras na então estrada, mais tarde rua de Mata-cavalos, e em outros
sítios vizinhos, e o monte de Nossa Senhora do Desterro era uma solidão imensa,
e mostrava-se coberto de florestas onde somente penetravam caçadores animosos a
quem não faziam recuar os casos sinistros de ataques de quilombolas.
Hoje o morro de Santa Teresa está encravado no seio da
cidade, como uma esmeralda em um enorme diadema. É ainda um saudável e desejado
retiro, por que o rumor incessante da multidão que remoinha no vale não pode
chegar até aos asilos tranqüilos de suas alturas, e porque a sua atmosfera
deleitosa e pura contrasta com ondas quentes e pesadas do ar que no vale se
respira. Não é mais uma solidão como outrora: é ainda um subúrbio da cidade.
Mas a cidade quase por todos os lados o cerca, e vai pouco a pouco subindo por
ele como uma insaciável conquistadora.
É daquele tempo de outrora que principalmente vos ocuparei.
Deixemos, pois, as novas e belas ruas abertas ainda ontem e subamos de
preferência pelo antigo Caminho do Desterro, que depois se transformou em
Ladeira de Santa Teresa, ladeira íngreme, demasiado fatigante e que muito mais
penosa seria se, a cada passo que vai subindo, o homem não tivesse ao lado
direito um encanto que lhe ocupa o ouvido no murmúrio da corrente da Carioca,
que desce pelo encanamento, e ao lado esquerdo mil encantos que lhe disputam os
olhos, no quadro formoso e variadíssimo da baía do Rio de Janeiro.
Não temos necessidade de subir muito: o convento de Santa
Teresa ali está. Voltai-vos à direita, levantai a cabeça, aí o tendes. Foi um
piedoso retiro, e ao mesmo tempo uma prisão tristíssima. É um anacronismo de
pedra e cal; mas, também, em todo o caso, foi santa a sua origem, e o mosteiro
pode-se dizer a flor mística nascida de uma vocação sublime.
Esperai um pouco: não nos aproximemos ainda do convento.
Sentemo-nos em frente dele nestas pedras, e, antes de encetar a sua história,
comecemos pela recordação de uma ermida que o precedeu.
Naquele mesmo lugar em que se levantou e ainda hoje se vê o
mosteiro das religiosas carmelitas reformadas, existia dantes uma simples e
pequena ermida, consagrada a Nossa Senhora do Desterro.
A antiguidade dessa ermida excede a era de 1629. Não se sabe
ao certo o ano da sua fundação; ao menos, porém, conservaram as memórias
daquela época o nome do bom católico a quem se deveu esse templozinho que se
mostrava, no seio do deserto, como um santelmo da fé no meio da solidão
tenebrosa. Foi Antônio Gomes do Desterro o fundador da ermida que mais tarde
teve de transformar-se em um mosteiro de freiras.
Mas as circunstâncias e motivos que deram lugar à mudança do
nome do monte e aos novos destinos da ermida não podem arrancar da história do
Rio de Janeiro a sua nobre recordação.
O ano de 1710 gravou naquele sítio pitoresco a lembrança
honrosa de um belo feito.
Foi ali, na subida do monte do Desterro, que se postou uma
coluna de bravos para disputar o passo aos soldados franceses, comandados por
Duclerc, que vinham investindo contra a cidade, e foi ali que esse punhado de
valentes fez provar aos audaciosos inimigos invasores uma das primeiras
refregas precursoras da sua completa derrota. O sangue dos guerreiros, que
então correu, deixou marcado o teatro de uma ação gloriosa e lavrou a carta de
nobreza do monte.
Quatro anos depois, em 1714, alguns religiosos de Santa
Teresa, mais conhecidos por frades marianos, vieram da cidade da Bahia à do Rio
de Janeiro, com a intenção de estabelecer nesta um convento, e foram
hospedar-se na ermida de Nossa Senhora do Desterro.
Em semelhante andar a ainda muito limitada Sebastianópolis
ficaria bem cedo mais enriquecida de conventos do que certas cidades da
Espanha. Já havia realmente riqueza demais nesse gênero dentro dos muros da
cidade de Mem de Sá.
Os habitantes de Sebastianópolis poderiam então sentir falta
de tudo, menos, porém, de frades, pois que contavam já quatro casas bem
povoadas de religiosos, a saber: o Colégio dos Jesuítas e os conventos de S.
Bento, do Carmo e de Santo Antônio ou dos franciscanos. Tão satisfeitos estavam
com o que tinham, que não desejavam mais. Receberam, portanto, sem entusiasmo,
antes, com desanimadora frieza, os padres marianos, que, sem dúvida,
ressentidos de tão grande ingratidão, se fizeram de volta para a Bahia no fim
de dois anos, deixando outra vez solitária a ermida de Nossa Senhora do
Desterro.
Evidentemente, Santa Teresa não se tinha mostrado muito
propícia aos religiosos que com o seu nome se honravam, talvez, porém, que
assim procedesse por uma justificável parcialidade pelo seu sexo. Porque já a
esse tempo a santa reformadora da ordem carmelitana bem podia do alto do céu
estar vendo no berço de uma menina de pouco nascida o cálice mimoso da flor
mais pura e fragrante dos seus jardins neste mundo, e nessa menina a
predestinada para ser a fundadora de um mosteiro que a ele seria consagrado.
Adivinhais que teve enfim a origem do convento que temos
diante de nós, e que vou vos fazer ouvir a história da mulher notável que o fez
levantar.
Essa história se apresenta com as proporções de uma lenda, e
fala, portanto, mais ao coração do que à razão, e mais à fé do que ao
raciocínio. Não é uma tradição popular, que se escuta sorrindo e com disposição
prévia para descrê-la; é, nada menos, que uma história autêntica com o
testemunho do padre José Gonçalves, que a escreveu e que a devia saber
perfeitamente, porque era irmão da piedosa senhora de quem vou falar, e ainda
com o testemunho jurado de frei Manuel de Jesus, religioso carmelita descalço,
que foi o confessor dessa mesma senhora.
Baltasar da Silva Lisboa perpetuou nos seus Anais do Rio de
Janeiro a relação minuciosa da vida, sofrimentos e feitos da fundadora do
convento de Santa Teresa, e as freiras desse mosteiro conservam ainda por certo
e religiosamente um manuscrito em que com muito detalhe tudo isso se refere.
Deus me perdoe, se estou em erro não acompanhando nem o
padre José Gonçalves, nem frei Manuel de Jesus, nem Silva Lisboa, no juízo que
fizeram sobre aquela exaltadíssima donzela e na credulidade, a meu ver pueril,
que os levou a encher de absurdos e de ridículos episódios a história que
escreveram.
A verdade não pode estar nem no sarcasmo do incrédulo que
zomba da viva flama de um santo entusiasmo, nem na cegueira de certas crenças
que por absurdas se desfazem, ou por grosseiras se rejeitam ao primeiro
intuito.
Não posso, não devo tratar deste assunto com ligeireza e tom
brincalhão. Terei de falar-vos de um entusiasmo, de uma fé e de uma vocação que
se acenderam na alma de uma mulher desde os seus anos de primeira infância. A
criança é neste caso veneranda como um velho, e talvez que brilhe nela ainda
mais puro um raio da luz divina, porque as crianças são anjos.
Na história da fundadora do convento de Santa Teresa do Rio
de Janeiro não me farei eco dos absurdos que li. Mas que razão terei para
rejeitar ou caiar o que encontrei nela de extraordinário?
A mulher não raciocina fria e vigorosamente como o homem.
Sente, porém, melhor, e imagina com mais ardor que o homem. Excedendo-o no
sentimento, excede-o por isso mesmo sempre no amor; sobrepujando-o na
imaginação, sobrepuja-o por isso mesmo sempre no entusiasmo. O segredo desta
superioridade está provavelmente na enervação delicadíssima da mulher.
Dai a uma mulher uma sensibilidade excessiva, o que é fácil
pela sua própria organização; levai o seu amor e o seu entusiasmo ao extremo, e
vê-la-eis heroína ou inspirada. Heroína, afrontando os perigos e a morte com o
sorriso nos lábios; inspirada, cercando-se de uma auréola sobre-humana, vendo e
ouvindo o que não vos é dado ouvir nem ver. Passa-se realmente o que ela vê e
ouve? Não podeis, como os filósofos, dizer que sim; mas quem vos autoriza a
dizer que não? Apelais para a razão? Mas a razão humana é limitada, e tudo
quanto Deus pode fazer por uma criatura nem vós podeis compreender, nem vos é
lícito negar.
Há sem dúvida ilusões filhas do exaltamento da imaginação e
do sentimento; mas no meio delas há também a grande verdade que acende o
entusiasmo e o amor. Há o arrebatamento da alma em um santo fogo que é a
inspiração. Há prodígios que o espírito humano observa e não explica. Há,
enfim, mistérios cuja decifração pertence somente a Deus.
A impostura, o charlatanismo e a hipocrisia procuram às
vezes arremedar a inspiração. A prudência convida-nos, portanto, a desconfiar
do que nos parece extraordinário, e a crítica examina os fatos antes de
aceitá-los. Mas, como observa Lamartine, a crítica lança-se por terra diante da
sinceridade de uma criança.
Escutai, pois, a história um pouco extraordinária da piedosa
fundadora do convento de Santa Teresa.
No ano de 1715, e aos 15 de outubro, exatamente no dia em
que a Igreja celebra a festa daquela santa reformadora da ordem dos carmelitas,
nasceu na cidade do Rio de Janeiro uma menina que na pia batismal recebeu o
nome de Jacinta. Foram seus pais José Rodrigues Aires, natural do Porto, e
Maria de Lemos Pereira, natural desta cidade de S. Sebastião.
Desde os mais tenros anos a menina se fez notável por um
precoce desenvolvimento de inteligência, por uma fácil e grande percepção, por
uma imaginação vivíssima, e naturalmente também por uma esquisita e excessiva
sensibilidade. Diz-se que era pálida e bela, e tão nervosa que ainda muito cedo
começou a experimentar cruéis sofrimentos que a medicina poderia bem atribuir à
exagerada predominância daquele temperamento.
Jacinta, apenas tinha deixado o berço e principiado a
compreender o que ouvia, foi logo sujeita a uma educação toda religiosa. Ainda
falava mal e já repetia de cor as suaves orações da Igreja, adormecia à noite
escutando lendas e histórias de santos, e de manhã acordava alegre para
acompanhar seus pais a ouvir missa. Trazia ao pescoço uns bentinhos com a
imagem de Nossa Senhora, que sua mãe lhe dera, dizendo-lhe que por eles
ver-se-ia sempre livre de perigos e desgraças.
Entre as lendas que com interesse e prazer ouvia, é
provável, ou pelo menos muito possível, que Jacinta tivesse também ouvido a
história de Santa Teresa, a santa do dia do seu nascimento, sua advogada de
predileção, e por quem chamava sempre que um temor a assaltava ou que uma dor
vinha atormentá-la.
Assim, pois, a educação ligava-se com a organização dessa
menina para acender-lhe o entusiasmo na alma e o amor no coração.
E o entusiasmo e o amor bem depressa se inflamaram.
Aos oito anos de idade, ou ainda muito mais cedo se se deve
acreditar nos padres cujo testemunho lembrei, já era mais contemplativa e
meditabunda do que se podia esperar em uma criança. Em suaves visões que a
deixavam em prolongados êxtases, via às vezes Nossa Senhora, às vezes Santa
Teresa, que lhe apareciam e me falavam.
Quem tem idéia dos costumes e do sentimento dos últimos
séculos conceberá facilmente que fora impossível que com as histórias de santos
que se contavam à menina não se misturassem também contos sinistros de
aparições e perseguições do Diabo, animado pelo desejo de levar à perdição os
pecadores a quem tentava.
Naturalmente Jacinta, com imaginação tão exaltada, e ao
mesmo tempo com a sua infantil credulidade, teve de tremer mil vezes em face do
demônio perseguidor.
Um dia em que voltava da escola, Jacinta sentiu-se
arrebatada junto da igreja do Rosário, e imediatamente arrojada e submergida em
uma lagoa que perto havia. A pobre inocente nesse dia não trazia ao pescoço os
seus bentinhos; fez, porém, o sinal-da-cruz e achou-se logo sobre a água.
Bradou por Santa Teresa, que lhe apareceu de súbito na figura de uma menina
formosa, e estendendo-lhe as mãos, tirou-a da lagoa.
Mais tarde, era pelo inimigo tentador atirada do alto da
barreira do morro de S. Antônio e cruelmente apedrejada. Mas logo salva pela
santa da sua devoção.
Em outro dia, cena igual se passava com ela na barreira
chamada de Santa Rita, e uma porção de barro que se despegara como que a
encerrava em uma sepultura. Ao seu primeiro grito acode Santa Teresa, ainda na
figura de formosa menina, que a arranca do abismo e senta-se com ela, fala-lhe,
e ouvindo-a lastimar-se da perda de algumas pedras de um broche, corre sobre
ele os dedos e de novo lho entrega perfeito e com as pedras que faltavam.
Como esta, muitas outras visões teve Jacinta, e por outros
duros casos de perseguição do demônio disse ter passado. Mentia ao dizê-lo? Com
que fim e movida por quem? Não havia mentira nem realidade: havia a exaltação
das idéias, a imaginação, o entusiasmo criando todo esse mundo em que faziam
viver essa menina extraordinária.
À medida que os anos iam passando, aumentava a devoção,
multiplicavam-se as visões e os êxtases, demonstravam-se mais fortes os
sofrimentos nervosos e começava a mais austera penitência.
Jacinta ainda não era moça, e já com repetidos jejuns e com
o tormento dos cilícios se martirizava. Passava de noite longas horas em
orações e dava o exemplo de uma angélica paciência, chorando a morte de seu pai
sem levar a dor ao desespero. Moça, enfim, e bela, como fora galante criança,
nenhum mancebo tocou-lhe o coração, que era somente de Deus. A donzela tinha
desde muito escolhido o seu esposo e abrasava-se de amor por ele. Era uma noiva
de Cristo, e desejosa de consagrar-se toda ao esposo amado, pensou no retiro
religioso em que o amor e os gozos fruem-se em orações e penitências.
Desejou entrar para um convento. A mãe da piedosa donzela
opôs-se aos desejos da filha. Criou-lhe obstáculos e dificuldades, negou-lhe a
sua permissão e exigiu obediência. Jacinta obedeceu sem queixar-se; mas guardou
inalterável e firme a sua resolução e não continuou menos no exercício da
penitência a mais austera e constante.
As visões e os êxtases reproduziam-se freqüentemente. Entre
outras, uma vez Jacinta viu aparecer-lhe Jesus, curvado sob o peso da cruz,
olhando-a com amor, e logo depois, tirando o lenho sagrado para descansá-lo por
momentos sobre os ombros dela.
Na razão direta da exaltação do espírito aumentavam também
as enfermidades do corpo de Jacinta. Os fenômenos nervosos tomavam proporções
assustadoras que, aliás, se explicavam então, ora pela influência maléfica do
Demônio, ora por divinos milagres.
Aos 15 anos de idade a donzela sofreu um acesso nervoso que
a deixou em completa insensibilidade e como se estivesse morta durante 48
horas, de modo que as disposições para o seu enterro já estavam tomadas, quando
tornou a si.
As notícias de todos esses casos corriam de boca em boca
pela cidade, e naturalmente eram exageradas pela imaginação do povo, que
começava a considerar Jacinta uma santa, uma escolhida do Senhor.
Não faltou o prestígio do milagre para autenticar a
santidade da donzela. Disse-se então, por exemplo, que tendo uma escrava dado à
luz uma criança aleijada dos pés, Jacinta a curara e tornara perfeita com o
simples e instantâneo contato das suas mãos.
Havia em tudo isso alguns fenômenos sem dúvida admiráveis,
de mistura com falsas apreciações, devidas à ignorância e à rude credulidade
daqueles tempos. As próprias relações de alguns dos êxtases da donzela indicam
bem que ela sofria essa terrível enfermidade a que os médicos dão o nome de
catalepsia.
O espírito dos poucos ilustrados observadores, prevenido e
dominado pelo encanto do sobrenatural, via menos do que era indispensável para
compreender e explicar a verdade dos fatos, e muito mais talvez do que
realmente se passava, para encher de absurdos a relação que deixaram.
Jacinta, porém, não era uma hipócrita. Os seus sentidos
podiam iludi-la, o seu entusiasmo cercá-la de ficções que lhe pareciam
realidades. Mas, do mesmo modo que Joana d’Arc e outras personagens célebres,
era sincera, quando referia suas visões e seus êxtases. A sua inspiração
produzia maravilhas.
Sobretudo, é digna de atenção e de curioso estudo uma certa
semelhança que se encontra nas visões, nos êxtases e nas perseguições do
Demônio, que se referem a Jacinta, com o que neste mesmo sentido se encontra na
história de Santa Teresa. Fazendo notar esta semelhança, não é minha intenção
aplicar à história de Santa Teresa as observações que acabo de escrever a
respeito da exaltada ou inspirada donzela fluminense; quis apenas indicar que
Jacinta, tendo pleno conhecimento da vida daquela santa podia talvez em suas
visões e em seus êxtases reproduzir com a imaginação o que já tinha gravado em
seu espírito. Como quer que fosse, a virtude imensa da donzela inspirada, a sua
reputação e a constância com que guardava o propósito de retirar-se para um
convento, não só acabaram por triunfar da oposição materna, mas levaram uma
outra jovem a imitar e seguir aquele exemplo. Francisca, irmã de Jacinta,
uniu-se a esta por novos laços e marchou pelo mesmo caminho.
As duas irmãs preparavam-se para embarcar em um navio com
destino a Lisboa, onde, conforme uma licença obtida, tinham de escolher o
convento a que se deviam recolher, quando se tornou impossível a viagem em
conseqüência dos graves resultados de uma queda que deixara Jacinta
perigosamente enferma.
Melhorando um pouco, depois de muitas semanas de dolorosos
sofrimentos, Jacinta, que não podia ainda vencer a distância que a separava da
matriz de sua freguesia, apoiava-se no braço de sua irmã e ia com ela ouvir
missa e entregar-se aos exercícios da devoção na ermida de Nossa Senhora do
Desterro, onde estavam habitando os religiosos capuchinhos italianos, que ali
ficaram até o ano de 1742.
Um dia, voltando da ermida as duas irmãs, adiantaram-se pela
estrada de Matacavalos, e por acaso notaram uma antiga chácara que nesse lugar
havia, e que se denominava da Bica. A chácara estava abandonada e sem cultura,
a casa em completa ruma; o sítio, porém, era então solitário e recomendou-se
muito às religiosas donzelas por ser contíguo ao monte de Nossa Senhora do
Desterro e vizinha à ermida.
Jacinta mostrou grande empenho por aquela chácara, e
vencidas algumas dificuldades, obteve-a mediante a intervenção de seu tio
materno Manuel Pereira Ramos, que a comprou ao tenente-coronel Domingos
Rodrigues Távora, seu proprietário.
Que pretendia fazer Jacinta? Qual era o seu pensamento?
Ninguém o adivinhou talvez.
Corria o ano de 1742, quando isso se passava; e no dia 25 de
março, Jacinta, chamando para junto de si o padre José Gonçalves, seu irmão,
confiou-lhe um projeto que devia ser por ela em breves horas realizado e que
até então cumpria ficasse abafado em profundo segredo. O padre habituado a
considerar a irmã uma serva querida de Deus, respeitou esse segredo
religiosamente. Na madrugada do seguinte dia, Jacinta saiu, acompanhada do
padre José, dirigiu-se à ermida de Nossa Senhora do Desterro, onde ouviu missa,
confessou-se e comungou, e de volta seguiu para Matacavalos, e entrando na casa
arruinada da chácara, disse para sempre adeus aos lares paternos e ao resto do
mundo. O único tesouro que trouxera consigo fora uma imagem do Menino-Deus. Mas
na casa não encontrou nenhum nicho, nenhum oratório. Não se desconsolou por
isso. Com a auxílio do padre José, improvisou junto de uma parede um altar
provisório, feito de varas convenientemente dispostas e ornado de flores e de
ervas odoríferas que ela foi colher perto de uma fonte que no quintal havia.
Foi aos pés desse altar singelo e rude, mas certamente agradável ao Senhor, que
Jacinta rezou as suas primeiras orações naquele retiro. Levantando-se no fim de
uma hora, abraçou seu irmão repetiu-lhe as últimas despedidas que o encarregava
de levar a seus parentes e amigos, e pediu-lhe que dissesse a sua irmã que da
sua vontade dependia vir, se quisesse, encontrá-la e acompanhá-la naquele
abrigo ameno e puro que do mundo a separava.
Jacinta não tinha esquecido sua irmã, quando tomara a
resolução de retirar-se perpetuamente para o asilo que preparara. Muito
escrupulosa, porém, não queria que por sua influência direta Francisca desse um
passo que só a mais decidida vocação devia determinar. Queria esperar pela
irmã, e não conduzi-la.
Francisca não tardou em mostrar-se ao lado de sua irmã. Logo
no dia seguinte o padre José Gonçalves a veio trazer ao retiro do Menino-Deus.
As duas irmãs, arrancando-se aos tumultos da cidade, aos
gozos do lar doméstico e ao amor dos parentes para viver na solidão e no
silêncio, para entregar-se mais livremente à penitência e para consagrar suas
almas só ao amor de Deus, quiseram até esquecer seus nomes de família, tomando
outros que já eram do Céu.
Assim, do ano de 1742 em diante, chamaram-se essas piedosas
donzelas Jacinta de S. José e Francisca de Jesus Maria.
II
Por mais que se esconda no seio profundo do bosque, a
baunilha se anuncia ao longe pelo ativo perfume que em torno derrama, e de que
as auras que passam voando levam as asas embalsamadas. O retiro a que se acolhe
às vezes a virtude, a modéstia com que esta se furta à admiração do mundo, não
a ocultam jamais tão completamente que além dos muros de um e dos véus da outra
não se faça sentir a sua fragrância celeste.
A casa arruinada da chácara da Bica tinha-se tornado objeto
do mais vivo interesse e de veneração para os habitantes da cidade de S.
Sebastião do Rio de Janeiro: nela se asilavam as duas flores precursoras do
Carmelo brasileiro.
A fama das virtudes das duas exemplares donzelas, e
especialmente a reputação de santidade que sem o pensar havia adquirido Jacinta
de S. José, transformaram aquele velho e humilde teto em um recolhimento
prestigioso, santificado pelas orações e aplaudido pelos anjos.
Ninguém via as duas religiosas, à exceção do padre José
Gonçalves e do confessor que as dirigia; ouviam-se, porém, as suas vozes,
entoando cantos e rezando o ofício de Nossa Senhora.
Depois de terminadas algumas obras indispensáveis para
tornar verdadeiramente habitável a casa arruinada, Jacinta determinou fazer
levantar ali mesmo uma capela consagrada ao Menino Deus. Sentia que lhe
faltavam recursos para realizar um tal empenho. Contando, porém, com o auxílio
da Providência, vendeu algumas jóias que possuía e com o produto delas ousou
encetar a construção da capela.
Era então governador do Rio de Janeiro Gomes Freire de
Andrade, depois conde de Bobadela; e sabendo ele do que se passava, e vindo no
conhecimento de que o bispo d. frei João da Cruz tinha dado autorização para
aquela pia e modesta obra, quis também ter nela a sua parte e concedeu uma
subvenção mensal, que junta às esmolas dos fiéis, facilitaram a Jacinta de S.
José e a Francisca de Jesus Maria os meios de executarem o seu pensamento.
Os trabalhos progrediam com uma atividade infatigável. Os
operários aproveitavam todas as horas do dia, e à noite, ao clarão do luar, os
curiosos viam os vultos brancos de duas mulheres silenciosas que sobre seus
ombros carregavam pesadas pedras para junto das paredes que se levantavam. Eram
elas as duas irmãs que esqueciam o descanso, e o sono, e a delicadeza do seu
sexo, levadas pelo desejo ardente de verem mais depressa acabada a sua capela.
Em 1743, no dia de S. Silvestre, o cônego doutoral Henrique
Moreira de Carvalho, com autorização do bispo, benzeu a nova
capela, e no dia da Circuncisão do Senhor, do ano de 1744, as duas irmãs
vestidas de capas e saias pardas, e com um véu preto na cabeça, receberam ali o
pão dos fortes.
Do lado do Evangelho, sobre o presbitério da capela, Jacinta
fizera colocar um postiguinho com o seu raio de folha, e ainda um pano que
impedia a vista, para servir de confessionário.
Esta capela subsiste ainda hoje, e encontrá-la-eis na rua de
Matacavalos, entre as do Lavradio e dos Inválidos. Se quiserdes visitá-la,
entrareis por um simples portão em um pátio de triste aspecto. No fim do portão
achareis uma varanda que não menos triste vos parecerá. Da varanda passareis à
capela de limitadíssimas proporções. Vereis sobre o presbitério dois velhos
postigos; sobre o altar a imagem santa do Menino Deus; para trás do altar, e do
lado do Evangelho uma portinha baixa e estreita que se abre para a sacristia
pequenina e acanhada, como o corredor de uma casa humilde.
Não gastareis na vossa visita mais de dez minutos, e
voltareis desagradavelmente impressionados pela pobreza ou quase miséria em que
se deixa a capela do Menino Deus, e pela ruína que a ameaça e que nos ameaça de
perder nela, além de um puro e sagrado seio de orações, um teto histórico e
recomendável por suavíssimas recordações, e por um passado cheio de mística
poesia.
No Brasil ainda não começou a demonstrar-se verdadeiro
empenho em conservar igrejas, capelas, simples casas ou simples objetos que se
recomendem por algumas recordações históricas. Destruímos esses tesouros do
passado sem dó nem piedade, e quando os não destruímos, deixamos que o tempo os
destrua sem nos lembrarmos de que há uma espécie de indiferença que um pouco se
aproxima do vandalismo.
A capela do Menino Deus parece condenada por essa fatal
indiferença, e nem lhe vale o sentimento religioso, que a devia defender.
Praza ao céu que estas minhas palavras consigam despertar o
zelo que dorme, e fazer com que apareçam alguns católicos dedicados que
auxiliam os últimos devotos que ainda não abandonaram aquele humilde, mas
sagrado teto.
A capela do Menino Deus nunca chegou a ser o jardim do
Carmelo brasileiro. Ali, porém, nasceu e foi acariciada, cultivada e
fortalecida a idéia da fundação do primeiro convento de carmelitas descalças no
Brasil. Ali passaram oito anos as duas irmãs em solidão completa, sós e sem
saudades do mundo. Ali sofreu Jacinta duros martírios, multiplicando-se
extraordinariamente os seus padecimentos nervosos e as lutas com o Demônio, e
ali também ela fruiu gozos celestes do amor divino nas suas visões admiráveis e
no embevecimento de uma devoção profunda. Ali enfim, novas irmãs e novas
esposas de Cristo foram encontrá-la mais tarde, atraídas pelo encanto da
virtude e da religião.
A primeira que bateu à porta do recolhimento do Menino Deus
foi Rosa de Jesus Maria, que se acolheu àquele retiro aos 15 de março de 1748.
Mas, a 14 de julho do mesmo ano, Francisca de Jesus Maria saía pela mesma porta
para entrar pela do Céu.
A irmã de Jacinta morreu com a mais perfeita contrição:
morreu sorrindo, como se saudasse a hora do seu triunfo. No meio de aflições
dolorosas que precederam ao seu pensamento, adivinhou-se-lhe o padecer, mas não
se lhe ouviu uma queixa; e dizendo-lhe o confessor que podia gemer para
desafogo da dor, ela entreabriu os lábios e murmurou somente: “Ai, meu Deus!”
Refere a crônica fenômenos surpreendentes que se observaram
nessa piedosa donzela ainda depois de morta; e eu não hesitarei em lembrá-los,
embora reconheça que não me cumpre discuti-los.
Disse-se que o rosto da finada se mostrara risonho, que seus
olhos tornaram a abrir-se e brilharam com o fulgor da vida; que seu corpo
perdera a rigidez cadavérica, e que durante dois dias se conservara incorrupto.
Acrescenta-se que o povo correra em multidão a testemunhar o milagre; que os
terceiros de S. Francisco, excitados por tais boatos, acudiram a exigir a
defunta, protestando ter Francisca pertencido à sua ordem; e que então Jacinta,
adivinhando o motivo de um zelo tão inesperado, e desejando que ficassem na
capela os restos mortais de sua irmã, com fé viva em Deus se voltara para o
cadáver e lhe falara, dizendo: “Francisca, veste-te de corrupção!” E que a
estas palavras o corpo, de súbito, se corrompera e se tornara hediondo e
fétido, retirando-se logo os terceiros de S. Francisco sem mais repetir suas
instâncias.
Em troco da irmã que perdera, viu Jacinta, nos últimos meses
daquele mesmo ano e nos dois anos seguintes, chegarem mais dez irmãs
espirituais ao recolhimento; e contando as novas flores que recendiam naquele
jardim, compreendeu que era tempo de transformá-lo em berço do Carmelo
brasileiro, e começou a fazer praticar as regras de Santa Teresa, por isso
mesmo que pareciam mais severas e difíceis.
O governador e o bispo foram visitar o santo retiro, e tão
completa pobreza encontraram, que tiveram de descansar, sentando-se no degrau
da porta por não haver cadeiras. O Governador Gomes Freire de Andrade resolveu
auxiliar eficazmente a construção de um convento, que se determinou levantar ao
lado da capela de Nossa Senhora do Desterro, no monte do mesmo nome, e
recomendou ao bispo que tratasse de obter as licenças do rei e de Sua
Santidade; e o Bispo d. frei Antônio do Desterro concedeu que as religiosas
trocassem a saia e a capa de droguete castor pardo e véu de fumo, que até então
haviam usado, pelo hábito de estamenha parda e capa de baeta branca e touca
desta mesma cor, modificando assim o hábito das carmelitas descalças em atenção
ao clima ardente do Brasil.
No dia 21 de junho de 1750, foi lançada a primeira pedra do
mosteiro de Santa Teresa; e um ano depois, Jacinta e suas companheiras ouviram
missa e receberam o pão sacramental, pela última vez, na capela do Menino Deus,
e foram habitar a casa do Desterro onde em algumas acomodações provisórias
deveriam ter o seu noviciado.
O breve de Sua Santidade, chegado então, dispunha que as
religiosas professassem a regra de Stª Clara. Jacinta de Jesus, porém, insistiu
em querer para si e suas irmãs as instituições de Santa Teresa. Freire de
Andrade, protetor destas religiosas, empenhava-se em realizar os seus desejos.
O bispo, pelo contrário, sustentava a conveniência da disposição do breve, e
não se queria prestar a intervir em favor da pretensão das reclusas.
O Bispo d. frei Antônio do Desterro obedecia a um conselho
da consciência, procedendo assim, porque entendia que a regra de Santa Teresa
tinha graves inconvenientes para ser observada escrupulosamente no Brasil, à
vista de certas condições naturais do país. Parece, porém, que a discordância
de opinião entre ele e o governador acabou por tornar-se em uma luta
caprichosa, pela qual não pouco sofreram as reclusas.
É notável a carta que, a 22 de abril de 1753, dirigiu o
bispo ao governador. Ei-la aqui: “Esteja V. Exª certo de que o mosteiro do
Desterro há de ser mosteiro de religiosas carmelitas reformadas, e que se há de
servir a Deus nele, e que Deus lho há de pagar a V. Exª: nisto tenho eu fé; mas
se Jacinta de S. José há de ser freira nele ou não, para isto nem tenho fé, nem
tenho luz; mas é grande e infinita a misericórdia de Deus, e sua divina
onipotência.”
E esta profecia realizou-se, porque o mosteiro do Desterro
tornou-se convento de carmelitas descalças. Mas, nem o conde de Bobadela pôde
vê-lo, nem Jacinta de S. José conseguiu ser freira professa, nem o Bispo d.
frei Antônio do Desterro testemunhou aquele fato, pois que todos morreram antes
que isso tivesse lugar.
Entretanto, a diretora das reclusas, Jacinta de S. José não
se dobrava à manifestação da vontade do bispo. Parecia-lhe que em suas visões
recebia do Céu uma ordem para prosseguir no seu empenho. Quando o silêncio
reinava para todas as suas companheiras, a voz de um anjo, a voz de Stª Teresa,
a voz de Deus soavam aos seus ouvidos e lhe diziam: “Avante!” A flama da
inspiração cada vez mais brilhante se acendia em sua alma.
Em novembro de 1753, Jacinta deixou inopinadamente o
mosteiro, e embarcando-se para Lisboa, dali voltou em 1756, chegando ao Rio de
Janeiro a 17 de abril e trazendo consigo um breve apostólico que satisfazia as
suas aspirações, e que obtivera por pedido feito por el-rei a Sua Santidade.
Mas, nem assim, pôde vingar a suave esperança de Jacinta.
Os anos correram em lutas estéreis e em objeções
mutiplicadas.
No dia 1º de janeiro de 1763, o conde de Bobadela, estrênuo
protetor das reclusas, exalava o último suspiro e antes de morrer manifestava a
pena que sentia por não ter podido consumar os seus desejos em prol da
instituição das carmelitas reformadas, dizendo: “A casa de Bobadela fica feita;
mas as minhas filhas ficam ainda sem casa.”
A casa de Gomes Freire de Andrade estava, com efeito, pronta
na Igreja de Nossa Senhora do Desterro. O seu cadáver foi encerrado em um
jazigo do presbitério dessa capela, e sobre a campa não se lhe gravou epitáfio
algum.
Quase seis anos depois, a 2 de outubro de 1768, Jacinta de
S. José morria placidamente no meio de suas irmãs, que a cercavam banhadas em
pranto.
A história desta piedosa donzela é um longo canto de amor
celeste e de puro misticismo; um longo gemido de dores e sofrimentos na Terra.
Não é a história de uma mulher, é a lenda de uma santa. A imaginação e as
prevenções de alguns dos seus contemporâneos encheram de absurdos e ridículos
episódios a relação da sua vida. Mas, indubitavelmente, passaram-se nela
fenômenos extraordinários, e é pelo menos impossível duvidar do entusiasmo que
exaltava a donzela, da inspiração que enlevou o seu espírito e das virtudes que
lhe deram reputação de santidade.
Jacinta não foi carmelita descalça: foi, porém, a verdadeira
fundadora do Carmelo brasileiro.
Como era de prever, os restos mortais daquela religiosa
inspirada descansaram na igreja de Nossa Senhora do Desterro. A flor murchou,
desfolhou-se e caiu no seio do próprio jardim.
A Rainha d. Maria I, por decreto de 11 de outubro de 1777,
confirmou licença e graça concedidas por el-rei seu pai às religiosas reclusas;
e enfim, o Bispo do Rio de Janeiro D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas
Castelo Branco, com pomposa solenidade, lhes deu clausura canônica em 16 de
junho de 1780, e pontificando no seguinte dia na igreja do novo convento,
vestiu aquelas dedicadas filhas de Santa Teresa canonicamente de seus hábitos e
lhes abriu o noviciado.
A 23 de janeiro de 1781, tomaram o véu as primeiras freiras
professas de Santa Teresa do Rio de Janeiro.
Três dias antes dessa solenidade, os habitantes de
Sebastianópolis acudiram a testemunhar um espetáculo novo para eles, e que
talvez mais nunca se repita.
Para se proceder ao ingresso do convento e a outros atos
relativos à profissão das novas esposas de Cristo, tiveram as noviças de
recolher-se ao mosteiro das religiosas de Nossa Senhora da Ajuda, e desceram,
pois, procissionalmente do monte do Desterro, seguindo até aquele convento
acompanhadas por imensa multidão que as olhava misturando uma explicável
curiosidade com o respeito o mais profundo. As noviças, confusas e tímidas,
atravessavam as ruas de um mundo que já não era delas, e por baixo de seus véus
ardiam-lhes as faces com o fogo de um santo pejo, quando ouviam as aclamações
de um povo essencialmente religioso.
Na véspera do dia solene, voltaram elas seguidas do bispo e
entraram para o convento que começava a ser de Santa Teresa.
Viram-se então, naquela comovedora cerimônia da tomada do
véu, religiosas que tinham entrado moças e envelhecido no recolhimento, e
jovens que ali haviam achado um berço, pois que apenas com alguns dias de
nascidas, ou com dois anos de idade, tinham sido trazidas por seus pais ao
piedoso retiro.
Era uma vitória, depois de longos anos de constância e luta.
Era a flor mimosa da mais ardente esperança de Jacinta de S. José que
desabrochava enfim sobre o jazigo da donzela inspirada, triunfo de além-túmulo,
como o triunfo dos poetas.
Trinta e nove anos tinham corrido depois que Jacinta de S.
José e Francisca de Jesus Maria se haviam retirado para o asilo da chácara da
Bica, e vinte depois que o mosteiro de Nossa Senhora do Desterro abrigara as
primeiras religiosas dirigidas por Jacinta.
Eis aqui a história que me propus a contar-vos. Agora
levantemo-nos e vamos de mais perto ver o convento que temos diante de nós.
Uma ladeira calçada de pedra nos conduz ao mosteiro.
Deixamos à mão direita uma casa de sobrado, que é destinada ao capelão das
freiras, e subindo por uma escada de pedra, entramos em um pátio cercado de
grades de ferro e que se estende aos pés da igreja e do convento.
O mosteiro é pequeno, e no exterior não se recomenda por
condições arquitetônicas; antes se ressente da necessidade que houve de se
aproveitar a igreja primitiva de Nossa Senhora do Desterro.
A face principal do convento, que, aliás, consta de dois
únicos pavimentos, apresenta dez janelas, olhando para a barra, e defendidas
por grossas e rudes grades de ferro. Na extremidade do lado esquerdo liga-se à
torre, e esta à igreja.
A igreja tem uma porta lateral à esquerda. Do mesmo lado, e
um pouco para trás, fica a sacristia, a que se prende um muro.
Junto da torre está a portaria, e sobre esta uma única
janela com a sua grade de ferro.
O edifício é solidamente construído, e na altura em que se
mostra, dominando o mar e a cidade, parece, tranqüilo e impávido, desprezar a
violência das tempestades que às vezes revolta a face de um, e enfurece o
coração da outra.
Por detrás do mosteiro, alarga-se a cerca ou quintal, todo
murado, e tendo em seu seio tetos de abrigo para as religiosas que ali vão em
horas de recreio ou nos três suaves dias que a regra anualmente lhes impõe para
higiênico descanso e passeio.
Penetremos na igreja.
Ela é pequena, triste e pobre.
Tem três altares. O altar-mor é consagrado à Sacra Família.
O do lado do Evangelho à Nossa Senhora do Carmo. O do lado da Epístola à Santa
Teresa.
No fundo da igreja, vêem-se dois coros, um inferior e outro
superior, defendidos por grades e por véu denso e preto.
No coro superior, o curioso descobre, através do véu,
sombras imóveis à hora da missa. São as freiras, que logo depois se fazem
sentir entoando o tantum ergo no momento solene de levantar-se a Deus.
O coro que fica por baixo desse é reservado para os dois
ofícios extremos da freira. Para a profissão e para o enterro, para o véu e
para a mortalha; para a perpétua despedida do mundo e para a eterna despedida
do mosteiro. É ali que a freira recebe a solene consagração dos votos que um
dia antes fizera no capítulo, e que mais tarde o seu cadáver terá de receber as
orações dos finados.
Além da porta lateral que dá entrada aos fiéis para a
igreja, há outra do mesmo lado, na capela-mor, comunicando com a sacristia, que
é de uma extrema simplicidade, e apenas se faz notar por um quartinho escuro
que tem no fundo e no ângulo mais próximo do arcaz.
Esse quartinho é um dos dois locutórios das freiras, que vêm
às vezes falar a seus parentes, fazendo ouvir a sua voz ou recebendo a voz do
visitante através de um ralo coberto com um véu.
Como disse, o convento consta de dois únicos pavimentos,
para os quais se entra pela portaria.
A portaria tem dois altares, um que pertence a Nossa Senhora
do Carmo e outro a S. Elias. A mãe de Deus e o profeta do monte Carmelo fazem a
guarda do mosteiro.
No pavimento inferior, vê-se o claustro com arcaria, que
forma no seu centro um pátio, onde as freiras cultivam algumas flores com que
ornam os altares do interior. Além do claustro, acham-se aí as catacumbas e a
cozinha. Uma porta comunica o pátio com a cerca.
Neste pavimento, além de diversos altares, está a capela do
capítulo.
No pavimento superior, há um segundo locutório, que fica
exatamente por cima do que existe no fundo da sacristia. Há dez altares, e
destes, sete dos passos do Senhor; e há as celas das freiras e das noviças
separadas em duas filas por um longo corredor, que dantes se chamava o corredor
escuro, e que ainda hoje é assim designado, embora as últimas obras executadas
no mosteiro lhe tenham dado luz bastante para fazê-lo perder aquela triste
denominação.
Cada cela tem a sua janela abrindo para o pátio, ou para
receber o ar e a luz. Três rudes tábuas, e sobre elas um enxergão e uma
esteira, um duro travesseiro e uma simples cobertura, formam completamente o
leito onde descansa a freira; e esse leito e um banquinho muito baixo, onde ela
escreve ou coloca objetos de trabalho, resumem toda a mobília e todos os
ornatos da cela.
As celas são em número de vinte e uma, e nem devem ser mais,
porque também só vinte e uma podem ser no máximo as freiras do mosteiro de
Santa Teresa. Além dessas, há apenas três reservadas para as noviças.
Não há enfermaria no mosteiro. A religiosa que adoece é
tratada na sua cela e tem o direito de escolher o médico de sua confiança.
No seu aspecto interior, o convento apresenta o quadro da
maior pobreza e humildade. Não se vêem ali nem ornamentos de arte, nem objetos
próprios para o cômodo da vida. As freiras não têm ao menos bancos e cadeiras
em que se sentem e repousem. Sentam-se e descansam no chão.
Reina a mais perfeita igualdade entre as filhas de Santa
Teresa. A superioridade da priora sente-se somente na direção e governo do
mosteiro. Em tudo mais são irmãs, e vestem as mesmas roupas, um escapulário
pardo, hábito também pardo e manto branco, todos de sarja, uma touca branca e
um véu preto ou branco, conforme elas são ou coristas, ou conversas e noviças.
Calçam todas simples sandálias e não trazem meias.
As freiras não têm escravos nem criadas para seu serviço:
são as servas de si mesmas. Outrora, aproveitavam o tempo que não consagravam à
oração para entregar-se a delicados trabalhos de arte, e eram notáveis no Rio
de Janeiro em obras de flores artificiais.
O Bispo d. frei Antônio do Desterro, quando se opunha a que
essas religiosas fossem sujeitas à regra de Santa Teresa, porque a reputava
perigosa em um clima como o do Brasil, dizia muitas vezes que o convento das
carmelitas reformadas poucos anos se poderia conservar como tal, porque teria
de tornar-se em um hospital de inválidas.
Entretanto, a regra severa de Santa Teresa é
escrupulosamente observada no mosteiro, com a única modificação do tecido do
hábito; os preceitos, os jejuns, o silêncio e a devoção austera se cumprem com
o maior zelo, e aquelas esposas de Cristo não desanimaram ainda.
A morte inevitável tem visitado repetidas vezes o convento e
feito secar com o seu enregelado sopro muitas flores daquele jardim do Senhor.
Novas religiosas, porém, vão logo pedir o véu das carmelitas; donzelas na
primavera dos anos correm a entrar no mosteiro, e vêem sem pesar a tesoura da
austeridade cortar seus negros e longos cabelos, que lhes caem aos pés em
enchentes de belos anéis. E ainda atualmente, enfim completo se acha o número
das freiras de Santa Teresa, tendo apenas, há quatro meses, começado o seu
noviciado a última candidata que se apresentou.
O exame do obituário do convento mostra igualmente que a
regra de Santa Teresa não encurta a carreira da vida às suas filhas; das
primeiras religiosas que tomaram o véu, a maior parte chegou a uma idade muito
avançada. É, porém, notável que ultimamente se comece a observar o contrário, e
que as novas freiras vão prematuramente descendo a povoar os jazigos do
mosteiro.
Esta observação pode talvez despertar considerações que se
referem às condições higiênicas, cuja falta a cidade do Rio de Janeiro
experimenta, e ainda aos novos costumes e à educação amolecida e defei tuosa
que recebe a mocidade.
Basta. Não perturbemos por mais tempo a solidão e o silêncio
desse asilo religioso e respeitável. Desçamos o monte de Santa Teresa para
subi-lo mais tarde uma outra vez, quando em passeio mais festivo e brincalhão
eu tiver de levar-vos a outros sítios onde o riso e as alegrias do mundo podem
cabidamente fazer-se sentir.
Qualquer que seja a minha opinião individual sobre os
conventos de freiras, onde votos perpétuos se pronunciam, onde não há recursos
para um arrependimento possível, e então se paga a Deus à força o que Deus só
aceita quando se lhe dá com o coração cheio de vontade; qualquer que seja a
minha opinião sobre esses mosteiros de freiras, que são para muitas, sem
dúvida, asilos tranqüilos e enlevadores, e que podem também ser para outras
muitas sepulturas em que se enterram vivas, prisões onde se abafam os gemidos e
se escondem as lágrimas que pareceriam sacrilégios; qualquer que seja a tal
respeito a minha opinião, repito, eu rendo tributos de verdadeira admiração a
essas criaturas que se tornaram proscritas do mundo para aproximarem-se do Céu,
a essas venerandas religiosas que, no recolhimento de sua devoção, de suas
orações, de sua penitência, pedem a Deus ainda mais por nós do que por si
mesmas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Convento de Santo Antônio
I
A FALANGE monástica, organizada e disciplinada por S.
Francisco de Assis, falange que no século XVIII chegou a contar 115 mil frades
e 28 mil freiras, e que no século anterior não podia ser muito menos numerosa,
devia naturalmente lembrar-se de mandar uma expedição à cidade do Rio de
Janeiro, onde tinha conquistas a fazer e vitórias a alcançar no serviço de
Deus.
Os jesuítas, os beneditinos e os carmelitas já haviam
levantado as suas casas e hasteado as suas bandeiras na cidade fundada em 1567.
Os franciscanos tinham-lhes cedido a dianteira como pobres e humildes que eram;
chegara, porém, o tempo em que, por sua vez, deviam estes também aparecer na
terra que escapara de ser francesa e calvinista.
A falange capucha, aliás, já estabelecida em diversos pontos
do Brasil, enviou de Pernambuco para o Rio de Janeiro, em vez de uma expedição
imponente, uma simples patrulha composta de dois frades, Antônio das Chagas e
Antônio dos Mártires, que chegaram a 22 de outubro de 1606, e aproveitando-se
da doação feita da ermida de Santa Luzia para aí se fundar a residência dos
franciscanos, tomaram conta dessa capela e, no ano seguinte, receberam nela o
custódio da casa prin cipal da Bahia e alguns outros de seus irmãos.
Não há quem mais vezes mude de residência do que a gente
pobre. A pobreza arranja-se perfeitamente em qualquer cantinho. Mas não é
qualquer cantinho que se arranja com a pobreza. Esta desconsoladora regra foi
experimentada no Rio de Janeiro pelos franciscanos, que andaram durante um ano
de um para outro lado, a procurar uma casa em que permanentemente se
estabelecessem.
A ermida de Santa Luzia foi desde logo abandonada. Por quê?
O custódio pretextou que não achava nem suficientes os cômodos do hospício, nem
favorável a sua situação. Mas onde quer que fosse, teria da mandar construir um
convento, como também ali o poderia fazer, e situação mais aprazível do que a
da ermida de Santa Luzia dificilmente chegaria a encontrar.
Parece que o prelado dos franciscanos já naquele tempo
conhecia a gíria política dos nossos estadistas de hoje, que quase sempre
explicam as suas retiradas dos ministérios por cansaço ou moléstia, ainda que
se achem de perfeita saúde e capazes de trabalhar vinte e cinco horas por dia
na vinha da pátria. O cansaço e a moléstia são em tal caso os densos véus com
que se encobrem verdades e fatos inconvenientes que a prudência ou o pejo
mandam calar. Fr. Leonardo de Jesus, o prelado dos franciscanos, fez em 1607 o
que fazem hoje os nossos estadistas, e inventou dois pretextos para esconder
uma triste realidade.
Asseveram alguns que os jesuítas, cujo colégio estava
situado no monte do Castelo, não viram com bons olhos a vizinhança dos
capuchos. E como entre os frades das diversas ordens os ciúmes são mil vezes
piores do que entre as moças, sobrevieram desgostos e desinteligências tão
fortes, que os recém-chegados preferiram deixar a ermida de Santa Luzia a
ficarem ali tão perto, expostos à má vontade daqueles reis da montanha.
Não vos devem admirar essas lutas e oposições a separarem
religiosos que deviam pregar e seguir a mesma doutrina. Também a quase
totalidade dos nossos homens políticos combate, briga e desatina, bem que um
único pensamento esteja no espírito de quase todos, e uma única ambição os
devore. Tanto nos frades como nos políticos, a questão é de exclusivismo; uns
contendem pelo privilégio no serviço de
Deus, os outros pelo privilégio no serviço da pátria,
excesso de virtude em ambos os casos.
Desculpem-me, se abundo demais nestas comparações dos frades
com os nossos políticos. Acho tantos pontos de analogia entre uns e outros, que
não posso resistir à tentação de fazê-los notar.
Abandonando a ermida de Santa Luzia, os franciscanos foram
dar consigo na casa da Misericórdia. Mas, logo depois, passaram-se para a
ermida de N. S. da Ajuda, que então existia no princípio da rua que depois se
chamou dos Barbonos, e exatamente no ângulo que ali forma a cerca do convento
das freiras.
Mais tarde, em passeios que ainda teremos de dar,
contar-vos-ei a história dessa ermida, bem como da de Santa Luzia e da
Misericórdia. Agora convém não esquecer os franciscanos, que já se acham em
terceira residência.
O governador e a câmara do Rio de Janeiro correram em
auxílio dos pobres capuchos; e visto que os carmelitas não se haviam
aproveitado do monte que se reservara para eles, e que por isso se chamava do
Carmo, por escritura de 9 de abril de 1607, fizeram aos franciscanos doação
desse morro, que em breve tomou o nome de Santo Antônio, e que ficou sendo
desses frades, e ao mesmo tempo deles não sendo.
Não protesteis contra este esse et non esse. Aqui tendes a
sua explicação nas seguintes palavras da escritura da sua doação:
“Que os religiosos de S. Francisco haviam elegido o sítio e
lugar que se acha no outeiro do Carmo defronte da vargem abaixo de N. S. e
sobre a lagoa de S. Antônio; e porque os mesmos religiosos não eram pelo seu
instituto capazes de propriedade e domínio, se fazia esta doação ao papa e à
igreja romana, etc.”
Os franciscanos deram-se por satisfeitos: levantaram uma
capela e um hospício provisório junto do monte, e para aí efetuaram a sua
quarta mudança. Dispuseram a obra do seu convento e igreja anexa, lançaram a
primeira pedra desses edifícios no dia 4 de junho de 1608, e concluídas as
principais acomodações, mudaram-se pela quinta, e enfim, pela última vez, para
a sua nova casa em 7 de fevereiro de 1615, e no dia seguinte celebraram a
primeira missa solene na sua igreja, aliás, ainda incompleta, e cuja Capela-Mor
só ficou pronta em dezembro do ano se guinte.
Contei-vos em poucas palavras uma longa história de dez
anos. Pode ser que ela não vos inspirasse interesse por culpa e defeito do
narrador; mas, na qualidade de vosso cicerone obrigado, precisava preparar-vos
com estas idéias preliminares para levar-vos a visitar o convento de S.
Antônio.
Já vedes que temos, como nos dois precedentes passeios, uma
encosta que subir. Esta, porém, é mais breve e mais suave, e lá em cima, na
casa da pobreza, espera-nos um lauto banquete para matar a fome de nossa
curiosidade, uma opulenta mina de belas recordações e de tradições mais ou
menos admissíveis. Todas, porém, interessantes, que nos cumpre explorar com
cuidado e zelo.
Aquele convento de S. Antônio deve-nos ser simpático. À
parte as considerações religiosas, a casa onde floresceram Rodovalho, S.
Carlos, Sampaio e Mont’Alverne não pode deixar de ser muito presada ao Brasil.
Em uma das celas desse mosteiro foi concebido e escrito um
grande poema, em outra ajudou-se a preparar a obra monumental da independência
do Brasil. A poesia e o patriotismo não devem merecer menos por se apresentarem
vestidos com o burel do franciscano.
A ordem de S. Francisco de Assis está entre nós em completa
decadência. Os conventos despovoados de frades vão-se transformando em tristes
solidões. Os últimos esforços da dedicação, do empenho desvelado e da
constância admirável de alguns religiosos capuchos que, chamados ao Governo
desta província da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, conseguiram banir
repugnantes abusos e uma deplorável situação moral que, em época ainda não
muito afastada, se observaram, podem apenas adiar a ruína inevitável e preparar
com a regeneração da moralidade de seus conventos um nobre sudário e a mortalha
gloriosa para o cadáver da congregação dos capuchos no Brasil.
O quadro da adversidade desperta antes interesse do que
indiferença por aqueles que a experimentam. Pelo esplendor do passado,
portanto, e ainda pela sua má fortuna da atualidade, o convento de S. Antônio
da cidade do Rio de Janeiro deve chamar a nossa atenção e tornar-se objeto de
estudo desvelado em alguns dos nossos passeios.
Subamos, pois, a ladeira de S. Antônio. Aí nos fica à mão
direi ta essa pesada mole de granito que se chama o chafariz da Carioca, e que
há de ainda convidar-nos a um passeio especial. Vamos subindo e deixemos agora
à mão esquerda o que o padre Luís Gonçalves dos Santos designou com o
nome de “caixa com forma de torre”, que recebe a água que vai ter ao chafariz.
Subamos sempre, depois de ver outra vez ao lado direito o
elegante portão de ferro em que vem terminar a excelente escada de pedra que
substituiu a ladeira da ordem terceira dos franciscanos, demos alguns passos
mais, e volvendo para esse mesmo lado, subamos a escada também de pedra que nos
conduz ao adro do convento e das igrejas dos frades e dos terceiros de S.
Francisco.
A posição é magnífica. O convento domina uma parte da baía e
grande parte da cidade. Em frente, apenas o monte do Castelo se levanta como
uma barreira; mas, em vez de amesquinhar-lhe o panorama aumenta ainda talvez a
beleza deste.
O aspecto interior da igreja do convento não é imponente.
Tendo, porém, ao lado esquerdo a dos terceiros e ao direito a face principal do
mosteiro, representa este conjunto um edifício de vastas proporções, e notável
ao menos pela sua grandeza.
Hoje nada temos que ver com o domínio dos terceiros
franciscanos. Entremos, pois, e já, na igreja dos frades capuchos.
O templo é um pouco sombrio. Mas, quanto a mim, não perde
por isso a majestade da casa do Senhor. Todas as portadas são de mármore, e as
portas e o teto de jacarandá. Não sei quem teve o mau gosto de mandar pintar
com tinta vermelha aquelas portas, roubando-lhes assim a beleza natural e
severa da preciosa madeira; mas o atual provincial fez restituí-las ao seu
antigo estado, e o jacarandá ostenta outra vez a sua grave formosura.
A igreja é simples e seus altares ornados de trabalhos de
talha de um estilo pesado. A Capela-Mor mostra-se enriquecida com dezenove
painéis da vida de S. Antônio, representando seus belos feitos e mila gres por
sua intervenção operados. O coro é espaçoso; em frente, aparece o órgão, que é
um dos melhores que existem no Rio de Janeiro. Olhando para o fundo do coro, o
órgão apresenta um espaldar com um crucifixo que tem aos lados as imagens de
Nossa Senhora e de S. João. Por detrás do órgão, levanta-se uma estante coral
de jacarandá, que é de uma execução severa. Aos lados seguem-se as estantes e
cadeiras ou assentos também de jacarandá, e preparados de modo que oferecem
todos os cômodos possíveis e imagináveis, como era de esperar em uma obra
meditada e realizada por frades, que são os homens comodistas por excelência.
A igreja tem três altares: o do lado do Evangelho consagrado
a Nossa Senhora da Conceição, o do lado da Epístola ao patriarca dos
franciscanos, e o Altar-Mor a S. Antônio.
Não posso ir adiante sem recordar uma tradição que se refere
àquela imagem de S. Antônio, e sem lembrar-vos as honras e os despachos que
esse milagroso santo mereceu outrora do governo.
Começo pela tradição.
Aquela imagem de S. Antônio é obra de um dos frades da
ordem. Trabalhava nela esse religioso com fervor e devoção, e tinha-se saído
bem na disposição e execução de todo o corpo da imagem. Chegando, porém, à
cabeça, não pôde ajustar ao corpo uma só das muitas que teve de ir fazendo,
porque, apesar de todo o seu cuidado e empenho, umas cabeças excediam e as
outras não chegavam à medida.
Se a imagem continuava sem cabeça, o frade perdia a própria,
porque não podia explicar o motivo da sua súbita e desastrada imperícia.
Os frades estavam em movimento: não havia cela em que não se
discorresse sobre a inexplicável infelicidade do artista religioso.
Mas, uma noite, e já bem tarde, soa inesperadamente a
campainha da portaria. Todos os frades achavam-se no mosteiro. Podia, porém,
aquele sinal ser um chamado de socorro para algum triste moribundo.
Corre-se à portaria, abre-se a porta e ninguém se apresenta.
Olha-se em torno e não se vê pessoa alguma. Mas, quem o pensaria?
Encontra-se depositada no chão uma cabeça de S. Antônio!
Indaga-se, procura-se pelas circunvizinhanças o portador do
singular e precioso presente, e não se acham nem vestígios de alguém que
tivesse vindo ao convento.
A notícia do extraordinário caso espalha-se logo pelo
mosteiro. Acodem todos os frades à portaria. A cabeça do santo é levada ao
corpo da imagem, que já estava pronto, serve perfeitamente, e como se de
propósito, tivesse sido feita para ele.
Mas de quem e donde viera a cabeça do santo? Nunca se pôde
resolver este problema, e as antigas tradições fazem supor que os franciscanos
a consideraram obra sobrenatural, executada por mãos sobrenaturais.
Tal é a tradição que existe a respeito da cabeça da imagem
de S. Antônio, que se venera no Altar-Mor da igreja do convento dos capuchos do
Rio de Janeiro.
Agora as honras e despachos do governo.
O S. Antônio do convento dos franciscanos do Rio de Janeiro
tinha praça e soldo de simples soldado de infanteria. Nem ao menos era cadete,
o que indica que a sua estirpe não brilhava pela nobreza, e por conseguinte,
valia menos aquele bom santo português do que qualquer fidalgote emproado.
Era um santo sans culotte, como diriam em França os
revolucionários depois de 1789. Era um santo jurujuba, como se diria no Rio de
Janeiro em 1831. Era um santo popular, enfim, e está visto que, por ser
popular, não mereceu menos aos olhos de Deus.
Esta consideração deve ser um pouco desagradável aos
fidalgos. Mas tenham eles paciência. Contentem-se com o domínio da terra,
domínio que às vezes partilham com o Diabo, que também é fidalgo. O véu
pertence exclusivamente à virtude, quer tenha sangue azul, quer não.
E S. Antônio ficou soldado raso até o ano de 1710, em que um
perigo iminente que ameaçou a colônia portuguesa no Rio de Janeiro, e a
necessidade do seu potente auxílio o fizeram dar um salto de soldado a capitão
de infanteria do primeiro regimento da cidade, regimento chamado – velho. O
santo querido das moças ficou assim – capitão velho.
Era o caso do ataque dos franceses comandados por Du Clerc
contra a cidade do Rio de Janeiro. O Governador Francisco de Castro e Morais,
que tinha as melhores razões para não confiar em si mesmo, agarrou-se com S.
Antônio e deu-lhe a patente de capitão.
O santo não entrou no combate; mas, como prudente general,
presidiu à ação de cima do seu monte, pois que a sua imagem foi colocada sobre
a muralha do convento. Os franceses foram batidos e ficaram prisioneiros, e S.
Antônio, recolhido à sua igreja, caiu outra vez no esquecimento, viu-se
preterido pelos oficiais e soldados de duas gerações, e somente um século e
quatro anos depois, aos 26 de julho de 1814, subiu ao posto de tenente-coronel,
sendo aos 13 de agosto do mesmo ano condecorado com a grã-cruz da Ordem Militar
de Cristo.
S. Antônio gastou, portanto, dois séculos, pouco mais ou
menos, para chegar a tenente-coronel e grão-mestre da Ordem de Cristo no
Brasil. Há pecadores obstinados muito mais felizes, que da noite para o dia se
vêem elevados a grandezas muito mais subidas na Terra, e sem poderem dizer como
nem por quê.
E de 1814 a 1861, lá vão 47 anos em que o santo permanece no
seu posto de tenente-coronel. Não sei bem quantas dúzias de ministros da Guerra
temos tido durante estes nove e meio lustros. Sei, porém, que nenhum deles se
lembrou de contemplar nas promoções o tenente-coronel de 1814.
Quer isto dizer que passou felizmente o tempo em que os
homens, levando a sua devoção até o ridículo, amesquinhavam, sem o pensar, os
escolhidos de Deus, conferindo-lhes postos e condecorações cá da Terra, e
supondo talvez que dessarte os honravam muito.
Os homens sempre foram e sempre hão de ser crianças. Se os
tempos passados tinham dessas puerilidades, o nosso faz-se não menos notável
por outras que não ficam atrás.
Passemos da igreja à sacristia, onde teremos também alguma
coisa que ver e alguma coisa que contar.
No mesmo estilo da igreja, a sacristia é, contudo, mais
importante e curiosa debaixo do ponto de vista da arte. Creio que não há na
cidade do Rio de Janeiro um templo cuja sacristia seja igual a esta.
O teto é coberto de painéis com molduras douradas, e
reproduzindo na pintura alguns dos principais fatos da vida do santo. O chão é
de mármore de diversas cores e embutido. Como as da igreja, as portadas são de
mármore e as portas de jacarandá com trabalho de talha. Além do mais, e
sobretudo o mais, ostenta-se o arcaz vasto e magnífico, todo de jacarandá, onde
um entalhador danoso esmerou-se em fazer brilhar a sua perícia, como de igual
modo se houve em um espaldar que se vê acima do arcaz, e que é daquela mesma
madeira.
Cumpre notar que todas estas obras foram executadas pelos
religiosos capuchos no tempo em que a sua ordem, como algumas outras
monásticas, davam o exemplo do cultivo esmerado das artes liberais e contavam
entre os frades não poucos arquitetos, pintores, entalhadores, músicos e
artistas de todas as espécies, o que prova muito bem que estava reconhecido que
o nível, o compasso, a paleta, o buril e a batuta não desonravam nem humilhavam
os antigos monges, ante quem mil vezes curvavam a cabeça os príncipes da Terra.
Em um armário que existe perto daquela sacristia acham-se
cuidadosamente guardadas e conservadas quatro jarras de pau com uma delicada
pintura de flores, e tão bem acabado trabalho que, apesar de velhas, iludem a
vista, observadas mesmo a curta distância, parecendo de fina porcelana da
Índia.
Estas jarras foram devidas a uma inocente travessura de
frade.
Eis aqui o caso.
Como é natural, os religiosos esmeravam-se em ornar muito a
sua igreja no dia da festa de S. Antônio, e tinham já por costume mandar pedir
emprestadas para esse fim umas lindíssimas jarras de porcelana da Índia que
possuía um devoto freqüentador do convento.
O bom devoto emprestava as suas belas jarras com o maior
prazer, e talvez até que estimasse bastante vê-las uma vez no ano figurar no
altar de S. Antônio.
Durante não poucos anos, o pedido era tão certo da parte dos
frades como o empréstimo da parte do devoto.
Em um ano, enfim, no dia que se seguiu ao da festa de
S. Antônio, estavam na igreja o sacristão, desarmando o altar e um religioso,
frei Francisco Solano, conversando com ele.
–
Agora, cuidado com as jarras do devoto – disse o sacristão,tirando-as do altar
com toda a delicadeza que pode.
–
Com efeito – observou frei Solano. Seria uma infelicidade,se uma dessas jarras
se quebrasse.
–
Certamente. Porque não há outras tão lindas e tão ricas nacidade, e não
poderíamos haver por preço algum uma ou duas, iguais ou semelhantes, para
restituir ao dono.
–
Pois é preciso não pedi-las emprestadas outra vez.
–
Sim... mas...
–
Quando têm de ser entregues estas jarras? – perguntou freiSolano,
considerando-as atentamente.
–
Hoje mesmo.
–
Mas eu preciso que elas me sejam confiadas por quatro oucinco dias.
–
Para quê?
–
É um segredo meu.
O sacristão conveio no pedido de frei Solano; e este,
levando para a sua cela as quatro jarras, tirou-lhes escrupulosamente o molde,
e com o mesmo escrúpulo, copiou a pintura que as ornava.
No dia da festa de S. Antônio, do ano seguinte, o constante
devoto vinha subindo a ladeira do convento um pouco admirado de não lhe terem
sido pedidas as suas jarras, como nos anos anteriores.
–
Desconfiariam os frades da minha boa vontade? – perguntava ele a si mesmo. Já
teriam comprado jarras tão bonitas como as minhas?
Assim refletindo, chegou o devoto ao adro e entrou na
igreja, e depois de fazer a sua oração, adiantou-se para a Capela-Mor, pôs os
olhos no altar e recuou dois passos, exclamando:
–
As minhas jarras!
Tornou a olhar, aproximou-se mais do altar, observou com
todo o cuidado e repetiu:
–
São as minhas jarras!
Mas o devoto tinha a certeza de não as haver emprestado, e
confundido, portanto, com o que via, saiu da igreja, correu a casa, foi direito
a um armário onde guardava as suas jarras e viu-as, com espanto, no seu lugar.
Voltou ao convento imediatamente, tornou a entrar na igreja
e a olhar para o altar-mor.
–
Mas, por fim de contas, são as minhas jarras – disse ele.
Acabada a festa, dirigiu-se o devoto ao sacristão e
pediu-lhe encarecidamente que lhe explicasse aquele mistério.
O sacristão, sorrindo, foi tirar as jarras do altar e veio
apresentá-las ao devoto.
–
Bem vê que não são as mesmas – disse.
–
Como? São as minhas – exclamou o devoto.
–
Nesse caso, aí as tem. Tome conta delas.
O devoto, a esforços do sacristão, recebeu as jarras, e
ficou ainda mais admirado.
–
Então?
–
Não são as minhas – disse, entregando outra vez as jarras.Não são. Mas a única
diferença é que as minhas são de porcelana, e estas são de pau.
–
Há ainda outra diferença – observou o sacristão.
–
Qual?
–
É que as suas vieram da Índia, e estas foram feitas aqui noconvento por frei
Francisco Solano.
Este ligeiro episódio das jarras de pau, aliás,
absolutamente verdadeiro, impõe-me a obrigação de dizer duas palavras sobre o
frade artista que as fez.
Frei Francisco Solano era um homem de grande habilidade, e
no convento se tornou notável por diversos espaldares e quadros de santos que
executou e que ainda existem.
Não era, nem podia ser um grande mestre. Nunca saiu do
Brasil, não teve a educação artística das academias, nem a freqüência de
pintores abalizados. Nos seus quadros adivinha-se e saúda-se o gênio.
Notam-se, porém, ao mesmo tempo, os senões devidos à falta
de escola, aprecia-se a beleza do colorido; às vezes, porém, repara-se em
alguma desproporção das formas das suas figuras. Entretanto, é impossível
deixar de reconhecer talento e inspiração nas obras da sua paleta.
Há ainda outra razão para não se deixar no esquecimento o
nome de frei Francisco Solano.
Quando, no fim do século passado, outro franciscano, o
célebre frei José Mariano da Conceição Veloso, se ocupava da sua
importantíssima Flora Brasileira, trabalho imenso que perpetuará o nome desse
nosso compatriota, foi reconhecida a necessidade de dar um ajudante ao notável
botânico.
O padre-mestre frei Veloso não sabia desenhar, e não podia
prescindir do desenho na sua obra. Pediu, pois, que lhe fosse dado um ajudante
desenhador, e por proposta sua, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa escolheu
frei Francisco Solano para desempenhar esse mister.
Frei Solano tornou-se então o companheiro inseparável de
frei Veloso. Seguiu-o em suas excursões pelo interior e pelas florestas, tomou
parte em suas laboriosas vigílias de gabinete, e são, enfim, dele, todos os
desenhos de plantas que se encontram na Flora Brasileira.
Frei Francisco Solano ocupou os maiores cargos da sua ordem,
chegando a ser ministro provincial em 1814, e tendo então por secretário,
durante o triênio, o ilustre frei Sampaio.
É bom que as nossas vilas e povoações do interior vão
brilhando com o reflexo do esplendor de seus filhos, e portanto, marcarei o
berço desse franciscano.
Frei Francisco Solano foi natural da vila de S. Antônio de
Sá, e filho legítimo de Jorge Antônio da Costa Mendonça, natural da freguesia
de S. João de Itaboraí.
Acabamos de estudar a igreja e sacristia dos frades
franciscanos. Cumpre que passemos agora ao convento.
Não será, porém, acertado deixarmos o convento para outro
passeio?
Descansemos um pouco. Vamos respirar as suaves brisas da
tarde neste aprazível e excelente adro, e depois iremos bater à porta do
mosteiro.
II
Com toda a sua pobreza franciscana, os frades capuchinhos
conseguiram levantar o mais espaçoso e o melhor dos mosteiros que existem na
cidade do Rio de Janeiro, e tiveram a habilidade de levar ao cabo em poucos
anos essa grande obra, sem que ficassem as caudas dos seus hábitos presas aos
livros do há de haver dos credores, como acontece a tantos pobres que,
ambicionando vaidosos as glórias dos proprietários, fazem construir elegantes
casas que chamam suas, mas de que pagam um aluguel pavoroso nos tanto por cento
de juros que de quatro em quatro meses vão levar aos escritórios dos
verdadeiros donos das suas propriedades.
Desculpem-me estas liçãozinhas de moral e economia. Não é de
reparar que eu pregue de vez em quando o meu sermão, quando estou passeando em
um mosteiro e conversando a respeito de frades.
O convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro é um
grande edifício que apresenta dois andares, além do pavimento inferior.
A portaria do convento está ao lado esquerdo da igreja, e
nela se acha um nicho com uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, de um
trabalho delicado.
Temos, passando da portaria ao claustro, uma escada de pedra
à mão esquerda, para subirmos ao primeiro andar, e em frente toda a extensão do
claustro. Prefiro começar a minha descrição pelo pavimento inferior. Deixemos,
pois, a escada de pedra para subi-la mais tarde.
O claustro é vasto e todo cercado de arcaria que forma uma
varanda imensa, aberta em torno de um pátio quadrangular.
No fundo dessa extensa varanda abrem-se diversas capelas com
as suas competentes sacristias, representando igrejas em miniatura.
Seguiremos a ordem em que se acham as capelas do claustro,
começando pelo lado direito à entrada da portaria.
A primeira capela é consagrada a Nossa Senhora dos Prazeres
e de um trabalho muito bem acabado. Junto ao supedâneo desta linda capela está
sepultado em uma cova com campa de mármore o benfeitor do convento, João
Gonçalves Vale, o qual, a pedido do padre-mestre frei Joaquim de Santa
Leocádia, concorrera com a despesa necessária para o ornato interior da capela
e para a compra de paramentos.
A segunda é a capela da Porciúncula.
A terceira é a das Dores de Nossa Senhora, cuja imagem se
acha cercada de sete quadros que recordam os sete passos da paixão de Cristo.
A quarta é a do Senhor da Cana Verde, e no seio dela acha-se
o túmulo do príncipe D. João Carlos, que morreu a 4 de fevereiro de 1822,
quando a princesa real, que devia ser logo depois a nossa primeira imperatriz,
se retirou com ele, que tinha apenas onze meses de idade, para a fazenda de
Santa Cruz, a fim de achar-se mais longe da cidade, onde a cada momento se
esperava o choque dos partidos e o começo da luta entre os propugnadores da
independência do Brasil e os inimigos desta.
A quinta é a da Sacra Família. Dentro desta capela estão
guardados os túmulos que encerram os restos mortais dos príncipes D. Afonso e
D. Pedro, esperanças do Brasil, que murcharam tão cedo.
A sexta é a do Senhor do Bonfim, aberta em frente da quadra
em que se sepultam os religiosos. É no altar dessa capela que tem lugar o
ofício de sepultura por eles.
A sétima é a do Nascimento de S. Francisco. Vêem-se sobre o
altar diferentes imagens e figuras. O menino recém-nascido está deitado em um
presépio, tendo ao lado seus pais de joelhos. No retábulo lêem-se, em um
pequeno quadro, os seguintes versos, composição de frei S. Carlos:
Em Assis Belém se mostra Com assombrosos sinais: Qual Jesus,
Francisco nasce Entre brutos animais.
A oitava capela é a de Morte de S. Francisco. Sobre o altar
está a imagem do santo, deitado, com as mãos cruzadas no peito e cercado de
religiosos, entre os quais se vê a madre Jacoba. Todas as figuras são de barro
e coloridas. No retábulo há outro pequeno quadro com estes versos, compostos
ainda por aquele mesmo poeta:
Adverte, não é Jesus,
É Francisco que aqui jaz,
A quem semelhante faz
Nascimento, vida e cruz.
A nona capela é consagrada a S. Joaquim.
A décima e última é a de Santana. Esta capela denomina-se o
capítulo e é de todas a maior, estendendo-se em frente do altar um espaçoso
salão. As paredes são ornadas com grandes quadros de diferentes santos em tela
e com molduras douradas. No fundo do salão levanta-se a cadeira magistral. Aos
lados mostram-se os bancos e assentos para os religiosos. A capela de Santana
foi outrora a casa dos estudos, quando havia frades colegiais.
As dez graciosas capelas de que acabei de fazer uma simples
menção já tiveram sua época de florescimento e de esplendor, em seguida a de um
triste abandono, e agora, enfim, a de uma regeneração sem grande esperança de
futuro, mas em todo o caso louvável.
Outrora o convento de S. Antônio, regurgitando de frades,
não tinha altares de sobra na igreja para tão grande número de sacerdotes e,
então, cada uma daquelas capelas era ou por devoção especial ou de preferência
tomada por um ou alguns religiosos, e todos à porfia se esmeravam em ornar e
aformosear suas capelas.
Veio depois o tempo sinistro da decadência. As celas
começaram a mostrar-se desertas, a flama do zelo a apagar-se. As portas das
capelas foram se trancando. As chaves enferrujaram-se. Os altares não brilharam
mais à luz de festas solenes. A ruína apareceu, nascendo do abandono e do
desânimo.
A solicitude e a devoção que despertam outra vez vão
restaurando os altares estragados, substituindo os velhos por novos paramentos,
e, deixem-me dizer, assim galvanizando aquele cadáver que resta das glórias do
brilhantismo do passado. A tarefa é árdua, difícil e imensa. Não pode, porém,
ser mais generosa nem mais nobre, por isso que toda a esperança de futuro para
os frades capuchos do Brasil não vai além de vidas, das quais as mais novas já
estão em meio, e deve apagar-se à beira da sepultura do último dos atuais
frades.
Mas não nos deixemos levar pelas reflexões, nem nos
retiremos ainda desta importante e histórica varanda onde se encerra o livro
grandioso do mosteiro, livro em que as páginas são lousas, tesouro precioso de
recordações despertadas por humildes covas.
Passamos ainda há pouco muito rapidamente pela quadra das
sepulturas dos religiosos. Voltemos a ela. Cuidado, porém... Encostemo-nos às
paredes para não pisar sobre as campas venerandas que cobrirão para sempre os
despojos de vidas ilustres que fizeram a honra do convento e a ufania da
pátria.
Aí está, perto da capela do Senhor do Bonfim, a sepultura de
frei Fabiano.
Não nos demoremos diante dela.
Terei de falar-vos desse religioso, tipo de caridade e de
paciência, quando subirmos ao teatro de suas admiráveis ações, quando entrarmos
na sala dos sofrimentos e dos gemidos: na enfermaria.
Em frente à capela da Sacra Família, como dormindo o sono
eterno defronte do seu seio sagrado, onde também dormem sono igual os dois
augustos filhos daquele que tanto o honrou e exaltou em seus últimos anos,
descansa Mont’Alverne, o célebre professor de filosofia e o derradeiro daquela
esplêndida plêiade de oradores da igreja brasileira, plêiade que formou, além
de outros, o grande padre Caldas, que foi o primeiro a morrer, e depois dele,
S. Carlos, Sampaio, o padre Januário e ele, Mont’Alverne.
S. Carlos e Sampaio! Ei-los ali. Descansam sepultados entre
as capelas das Dores de Nossa Senhora e do Senhor da Cana Verde. Tiveram os
dois frades por berço pátrio a cidade do Rio de Janeiro, abrasou-os a ambos a
mesma vocação, vestiram o mesmo hábito, floresceram no mesmo convento, foram
irmãos pela ordem e irmãos pelo gênio. Contemporâneos, ambos engrandeceram o
púlpito do Brasil. Ninguém profere o nome de um que não se lembre logo do nome
do outro. Os mesmos sentimentos religiosos e patrióticos os uniram
estreitamente na vida. A morte não ousou separá-los de todo.
S. Carlos faleceu em 1829 e foi encerrado na sepultura que
ali vedes. Um ano depois, exalava Sampaio o último suspiro, e o seu cadáver ia
descansar junto da cova de seu irmão, na sepultura contígua. Uma única parede
separou os seus leitos eternos, as suas celas da morte.
Esta coincidência de serem tão perto um do outro enterrados
os dois inspirados pregadores da ordem seráfica do Rio de Janeiro, deu lugar a
uma lembrança feliz, despertada pela dor e pelo reconhecimento do mérito
indisputável daqueles eloqüentíssimos franciscanos.
No triste dia do enterro de frei Sampaio foi o cônego
Januário da Cunha Barbosa prestar ao seu defunto amigo os últimos ofícios de
religião e caridade, e notando que davam ao ilustre finado uma sepultura
imediata à de S. Carlos, desfez-se em pranto, e quando pôde falar, aplicando
muito cabidamente as palavras consagradas pela Igreja em uma antífona dos
apóstolos S. Pedro e S. Paulo, exclamou:
– Gloriosi Príncipes terrae, quomodo in vita sua dilexerunt
se, ita et in
morte sunt separati.
Não perturbemos por mais tempo a morada silenciosa da morte.
Vamos continuar o nosso passeio por onde menos aflitivas ou dolorosas sejam as
impressões que tenhamos de receber.
Aí está o refeitório. Entremos.
É uma grande sala oblonga, simples e pobre. Uma fila de
mesas pequenas bem toscas se estende de cada lado, por todo o correr da sala.
No meio desta, e à mão direita de quem entra, levanta-se a tribuna ou o púlpito
donde se fazem as leituras da regra durante a refeição. No fundo, como único
ornato, vê-se um painel da ceia do Senhor, painel que, aliás, não é de notável
merecimento artístico. Adivinha-se que não foi Leonardo da Vinci nem Nicolau
Poussin o autor desse quadro.
A sala do refeitório deve parecer bem triste atualmente aos
frades religiosos do convento de S. Antônio; porque, se dantes, cada uma de
suas mesas era convenientemente ocupada, e nenhuma chegava a mostrar-se de
sobra, hoje vazias ficam muitas, e à sala, como aos frades que a ela acodem na
hora da refeição, bem se poderia aplicar o mil vezes repetido verso de
Virgílio:
Apparent rarinantes in gurgite vasto.
Ao lado direito do refeitório há uma porta que abre caminho
para a menos simpática das divisões e acomodações da casa: para o cárcere.
Não acrediteis, porém, que o cárcere dos frades capuchos do
Rio de Janeiro seja uma terrível masmorra, uma sepultura dos vivos, um medonho
inferno cheio de aparelhos de tormento. Lá se foi, graças a Deus, o tempo
desgraçado desses horrores, em que primaram os dominicanos com as suas
inocentíssimas proezas da inquisição, que tinham a sacrílega sem-cerimônia de
chamar santo ofício. O cárcere do convento de S. Antônio é uma sala onde o ar e
a luz penetram livremente, onde o asseio se observa com prazer, e onde o frade
que delinqüiu fica trancado e rezando, se reza, ou maldizendo da sua vida, se
maldiz.
É verdade que um cárcere sempre é um cárcere. Mas ah! se em
vez de passeardes comigo pela capital do império, empreendesses uma viagem
instrutiva pelas vilas do interior das nossas províncias, entrando na conta a
do Rio de Janeiro, que é a mais civilizada de todas, e visitásseis suas
cadeias; cair-vos-ia, eu o juro, a alma aos pés, observando a
inconstitucionalidade, o estado miserável desses focos de peste, onde se
amontoam detidos de envolta com sentenciados, simples suspeitos de mistura com
celerados, respirando todos ondas pesadas de um ar corrupto e repugnante; e
então reconheceríeis que o cárcere do convento de S. Antônio é um céu aberto em
comparação das nossas cadeias, e que os presidentes das províncias não valem os
provinciais nem os guardiões dos capuchos.
Demos por terminada a nossa visita ao cárcere do convento, e
voltemos sobre os nossos passos. Protesto-vos, porém, que não haveis de
atravessar outra vez a sala do refeitório sem que eu vos conte coisas novas a
respeito dela.
Tenho de referir-vos pelo menos duas anedotas que esta sala
me está lembrando, e ainda a notícia de um breve pontifício que não pode ficar
esquecido.
Disse-vos ainda há pouco que o salão que se estende em
frente do altar de Santana se denominava o capítulo. Devia, porém, acrescentar
então que essa denominação era apenas um título honorífico; porque, de fato,
não era ali, e sim nessa sala do refeitório que se reunia, como ainda se reúne,
o capítulo dos frades capuchos da província de N. S. da Conceição do Rio de
Janeiro.
Ora, sabendo todos nós que o capítulo se celebra
periodicamente no convento para se proceder à eleição dos prelados, podemos
fazer idéia do que se terá passado a portas fechadas nesta sala do refeitório.
Asseguro-vos que do alto do púlpito que ali vedes, qualquer
dos frades capuchos poderia dar lições de arte da cabala eleitoral a todos os
forjadores de fósforos e de duplicatas, a todos os inspetores de quarteirão, a
todos os empalmadores de listas e até a todos os chefes de partido e ministros
de Estado do império do Brasil.
Os frades de todas as ordens foram sempre mestres cabalistas
por excelência. Mas os capuchos tomaram nesse ponto a dianteira a todos os
outros.
Vou dar-vos conta de uma esperteza eleitoral de frade
capucho; e para que não duvideis da história, não só publicarei o nome do
protagonista, como vos afirmo que se conserva no convento a memória do fato.
O padre-mestre frei Cosme de S. Antônio via chegar a seu
termo o triênio em que fora provincial e desejava muito que no capítulo que
tinha de celebrar-se no dia 3 de fevereiro de 1776 saísse eleito para seu
sucessor o padre-mestre frei José de Jesus Maria Reis. Mas, apesar de todos os
pedidos, promessas, lamúrias, ameaças, intrigas e maneios, a grande maioria dos
vogais sustentava o outro candidato. E se os votos valessem, como deviam valer,
certo era o naufrágio da candidatura de frei José.
O velho frade provincial nem assim desanimava. Sabia já
nesse tempo o que hoje todos estão vendo, isto é, que se abafam e nulificam os
votos da maioria com a violência ou com um ardil, embora desregrado e feio.
Um mês antes da eleição, frei José de Jesus Maria foi ter
com o seu protetor e disse-lhe:
–
Padre-mestre, estamos perdendo tempo e trabalho. Minhaderrota é inevitável.
Abandonemos o campo.
–
Abandonar o campo! Só se eu não me chamasse frei Cosmede S. Antônio. Hei de
ensinar a esses fradinhos de ontem o que pode conseguir a habilidade de um
frade velho.
–
Mas que espera?
–
Eu não espero. Conto fazê-lo provincial.
–
Como, se a grande maioria dos vogais é contra nós?
–
Que lhe importa o meio? Cale-se. Não fale mais em eleição.
Não peça mais votos e deixe o resultado por minha conta.
Frei José retirou-se e cumpriu à risca a ordem de frei
Cosme.
No dia seguinte, entrou pela barra do Rio de Janeiro um
navio proveniente de Lisboa.
Frei Cosme saiu do convento e voltou horas depois, trazendo
um maço de cartas e de ofícios, e dando demonstrações de uma alegria e de uma
animação que não deixaram mais o seu semblante.
Frei Cosme não cabalava mais como até então. Mas por que
risonho?
–
É impossível – diziam os frades uns aos outros. – É impossível que o nosso
velho e astuto provincial não tenha preparado algum recurso terrível para
arrancar-nos a palma da vitória. Sorri com malícia, olha para nós com ar de
escárnio... Ali há coisa.
O que frei Cosme queria era exatamente preocupar os seus
adversários com prevenções que os incomodassem. Continuou, pois, a conservar-se
misterioso, e nem a frei José disse a mais simples palavra a respeito dos seus
planos. Cabalista de fama o velho frade compreendia o valor do segredo.
Chegou o dia 3 de fevereiro, que estava marcado para a
eleição. Ao aproximar-se a hora do capítulo, os vogais foram entrando para a
sala do refeitório. Só faltava frei Cosme, que apareceu muito risonho no último
momento, e foi tomar o seu lugar.
Reunido o conclave com todas as formalidades da lei, e tendo
o presidente declarado aberta a sessão, imediatamente frei Cosme pediu e obteve
a palavra; e tirando da manga uma folha de papel dobrada em quatro partes,
disse com voz segura, fazendo entrega do papel:
– Em virtude desta ordem de Sua Majestade, declaro suspensa
a ação capitular e devolvida a eleição ao delegado da Santa Sé.
Disse e sentou-se.
Os vogais sentiram-se como feridos por um raio. Logo depois,
levantaram-se indignados, abriram a porta da sala e quase todos saíram,
abandonando o conclave.
Era com isso que frei Cosme contava. Aberta a porta,
abandonado o conclave, este não podia mais reunir-se nem proceder à eleição
canônica, segundo o disposto nas constituições.
Quatro ou cinco vogais tinham ainda ficado na sala, e o mais
velho, dele exigiu que fosse lida a ordem do rei.
O presbítero abriu o papel que frei Cosme entregara e ficou
pasmo. Não havia ordem alguma. Era uma folha de papel em branco!
–
Isto é incrível! – bradaram.
–
Já é tarde, meus irmãos – disse frei Cosme. – Se vossas cari-dades tivessem,
como deviam, exigido a tempo a leitura da ordem, tinha eu perdido o jogo e
ficado com cara de tolo. Agora, porém, a porta foi aberta, o conclave suspenso,
e portanto, manda a lei que a eleição seja devolvida ao delegado da Santa Sé.
E assim foi. E o que mais admira é que frei Cosme escreveu
ao núncio apostólico, residente em Lisboa, participando-lhe o ocorrido, e
apresentou-lhe, por intermédio de personagens influentes na corte, os nomes dos
religiosos cuja eleição desejava. E tendo continuado interinamente no governo
da província, recebeu no fim de dois anos o breve de núncio com o competente
exequatur régio, nomeando provincial ao padre-mestre frei José de Jesus Maria
Reis, e provendo aos demais cargos no sentido dos desejos de frei Cosme.
Direis a isto que o triunfo de frei Cosme foi um escândalo e
um abuso inqualificável. Boa consolação!
Mas o pior é que o exemplo do frade tem tido imitadores às
dezenas. Olhai para o nosso mundo político e vereis dúzias de freis Cosmes
triunfando como ele triunfou.
A segunda anedota que devo referir não se passou na sala do
refeitório, mas proveio de uma eleição que ali teve lugar.
Acabava, não sei em que ano do século passado, de ser eleito
guardião do convento de S. Antônio do Rio de Janeiro um frade rabugento e
severo. Os frades moços, que tinham ficado não pouco aflitos com o resultado
dessa eleição, passaram bem depressa a murmurar e agitar-se em conseqüência da
austeridade e do zelo ativíssimo que na manutenção da disciplina mostrava o
novo guardião.
Um dia, estavam os desgostosos reunidos em número de mais de
trinta, e lastimavam-se com acrimônia.
–
As queixas e os lamentos são estéreis – exclamou o maisexaltado dentre eles. –
Devemos proceder com decisão e vigor.
–
Que podemos fazer? – perguntaram os outros.
–
Vamos depor o guardião.
–
É uma revolta!
–
Embora. Vamos todos. O rabugento velho tremerá vendo anossa atitude e o nosso
ousado pronunciamento, e acabará por ceder à força. Vamos!
–
Quando?
–
Já. Imediatamente!
–
Falta-nos um chefe. Quem falará por nós?
- Eu.
–
Vamos! – bradaram os jovens frades.
–
Esperem. Eu vou capitaneá-los. Prometam-me, porém, antes de tudo, apoiar a
minha voz e sustentar-me a todo o transe na contenda.
–
Nós o prometemos – disseram todos.
–
Pois bem. Sigam-me.
Os trinta frades avançaram entusiasmados até à porta da cela
do guardião. O chefe dos revoltosos lançou um último olhar cheio de orgulho e
de confiança à sua tropa, e voltando-se logo, bateu com força à porta da cela.
–
Quem está aí? – perguntou o guardião.
–
Sou eu, ou somos nós, padre-mestre – respondeu com vozameaçadora o chefe da
revolta.
Ouviu-se o ruído dos passos do velho frade.
–
Venha! Venha! – gritou o chefe.
O guardião abriu a porta, e mostrando-se com ar severo e
digno, perguntou ainda de dentro:
–
Que querem?
–
Viemos declarar que vossa caridade não é mais guardião,pois que está deposto.
–
Deposto? E por quem? – perguntou o velho religioso, avan-çando um passo.
–
Deposto em meu nome e em nome de toda esta comunida-de – tornou o impávido
chefe, voltando o rosto e estendendo o braço para mostrar os companheiros que o
seguiam, e... Quem o diria? O chefe dos revoltosos achou-se absolutamente só.
Um por um, todos os seus bravos camaradas tinham se esgueirado!
Mas o jovem religioso, sem confundir-se e sem perder a
cabeça com tal desapontamento, encarou de novo o guardião e disse-lhe,
sorrindo:
–
Ah! padre-mestre. Confesse que lhe preguei um grandesusto!
O guardião sorriu também e respondeu:
– Sim, sim... Mas não caia noutra. Pode retirar-se sem
receio. E doravante, não se fie em frades para dirigi-los em empresas desta
ordem.
Aí tendes duas anedotas cuja veracidade asseguro.
O assunto que mereceu as honras de um breve do Santo Padre é
muito mais sério, É, sem mais nem menos, a história da alternativa.
Preparai-vos para ouvi-la, enquanto descanso um pouco.
III
Aqueles que não têm estudado a História do Brasil, e que mal
apenas conhecem dela os fatos contemporâneos ou recentemente passados, atribuem
às lutas que tiveram lugar na época da proclamação da nossa independência e às
manifestações que de alguns anos a precederem as novas e as ardentes aspirações
dos brasileiros acendidas depois da chegada da família real à terra de Santa
Cruz, e a essa mudança provisória da sede da monarquia portuguesa; atribuem,
enfim, ao primeiro quartel do século XIX o princípio do ciúme e da rivalidade
entre os portugueses e os brasileiros.
É um erro que convém que desapareça, erro que se deve
corrigir, por que, além do mais, calunia a nossa independência, que foi um
acontecimento admirável pela sua importância e majestade, e ainda mais, pelos
seus resultados civilizadores, nobres e generosos.
A origem daquela rivalidade é igual e semelhante à de outras
da mesma natureza que se observam no mundo. Onde houve colonização dominadora e
subseqüente regeneração política do país colonizado, onde houve conquista
estrangeira e posterior triunfo da nacionalidade ofendida, rompeu e existe o
ciúme entre o povo conquistador e o povo regenerado.
É por isso que existe rivalidade entre franceses e ingleses,
entre espanhóis e portugueses, entre italianos e austríacos, entre espanhóis e
americanos das antigas colônias de Espanha, entre ingleses e americanos do
norte, entre muitos povos ainda.
A independência do Brasil, porém, em vez de dar nascimento
ao ciúme a que me refiro, preparou, ao contrário, o seu arrefecimento. Nos anos
de maior fervor das idéias de separação do Brasil, nos dias de esforço e luta,
naturalmente o ciúme tomou proporções que lhe deram até o caráter de ódio. Mas,
conseguida a vitória, reconhecida a independência, começou a civilização do
país a dar os seus frutos, e a rivalidade foi e vai, pouco a pouco, se
extinguindo, e os dois povos vão apertando os seus laços de fraternal amizade,
porque, de fato, eles são irmãos pelos costumes, pela religião, pela educação,
pela língua, pelo sangue, pelas virtudes e até pelos defeitos.
Hoje podemos falar sem receio dessa rivalidade, que não
existe mais no espírito dos homens esclarecidos, e que apenas amesquinha ainda
os corações dos homens menos civilizados das duas nações.
Quando começou a rivalidade entre brasileiros e portugueses?
Ninguém poderia marcar-lhe a data. Não erraria, porém, aquele que dissesse que
começou no dia em que os portugueses naturais do Brasil começaram a sentir a
supremacia que sobre eles exerciam os portugueses naturais de Portugal; isto é,
que começou, mais tarde, logo no século XVII, dois séculos antes da
independência do Brasil.
Nos anais e nas crônicas das nossas províncias achareis
antigas provas dessa rivalidade, provas deixadas em lutas de todo o gênero, e
até em vestígios de sangue.
Para não amontoar citações e lembranças históricas limito-me
às seguintes, que são irrecusáveis e positivas.
Em 1645, os pernambucanos, pondo-se em campo contra os
holandeses, doeram-se por ver à sua frente João Fernandes Vieira, que era
europeu, e que só conservou o comando dos independentes pelo prestígio que lhe
deu a vitória das Tabocas.
No princípio do século XVIII, a guerra civil dos emboabas,
em Minas Gerais, escreveu com letras de sangue a história da inimizade dos
paulistas e dos portugueses. Ainda no começo desse mesmo século, a guerra civil
chamada dos mascates, em Pernambuco, deu testemunho daquela rivalidade com uma
violência terrível.
Em 1707, os naturais de Portugal residentes na cidade do Rio
de Janeiro dirigiram ao rei uma representação em que se queixavam dos filhos da
terra, que os excluíam nas eleições dos oficiais da Câmara “em tal forma (diz o
documento) que, tanto nos pelouros do Senado da Câmara não supõem introduzidas
aquelas pessoas do seu empenho, logo se congregam, unem e ajuntam, fazendo
ranchos, a fim de embaraçar e perturbar com público escândalo as eleições,
etc.” E mais abaixo diz ainda o mesmo documento:
“Não dando outra causa isso mais que serem os suplicantes
filhos deste reino de Portugal, como se Portugal fora a Barbaria e de Portugal
lhes não tivera ido aos suplicados aquilo de que se podem jactar, etc.”
Estes quatro fatos, além de muitos outros, demonstram que é
de antiga data essa triste rivalidade. Não se a sentia, porém, somente no seio
agitado da população e do século, e ia não menos fortemente refletir no
interior dos próprios conventos dos religiosos!
Nas contendas eleitorais dos frades capuchos do Rio de
Janeiro, o ciúme entre os brasileiros e portugueses era sempre motivo de
desgostos e de recriminações e ressentimentos. Os frades portugueses, que eram
em número muito mais avultado, monopolizavam as prelazias e cargos superiores
da ordem, e chegou a tal extremo esse espírito de exclusivismo que os
religiosos brasileiros pediram à Santa Sé uma providência qualquer a bem dos
seus direitos.
O padre-mestre ex-provincial e procurador geral da província
de N. S. da Conceição do Rio de Janeiro, frei Fernando de S. Antônio, achava-se
em Roma em 1719, e aí gozava de grande crédito pelas suas virtudes e sabedoria;
e, comissionado pelos capuchos brasileiros, pediu e obteve do Papa Inocêncio
XIII, para a corporação franciscana do Rio de Janeiro, um breve que, mandado
observar pelo beneplácito régio, foi aceito por todos os religiosos e pela mesa
definitória em sessão de 23 de outubro de 1719.
É esse o breve chamado muito propriamente da alternativa, e
que vigorou até à declaração da independência do Brasil.
Segundo as disposições do breve da alternativa, quando havia
um noviço para professar e era português, esperava este que outro noviço
brasileiro concluísse o tempo do tirocínio para professarem ambos no mesmo dia.
E do mesmo modo, em caso contrário, esperava o brasileiro pelo português, de
maneira que o número dos religiosos europeus não excedesse o dos brasileiros, e
vice-versa.
Quando em um capítulo saía eleito provincial um capucho
nascido na Europa, no seguinte o sucessor tinha necessariamente de ser natural
do Brasil, sob pena de nulidade de eleição, seguindo-se depois ao brasileiro
outro que devia ser português, sine qua non.
A respeito dos guardiões, estabelecia-se a mesma regra.
Se, por qualquer circunstância, vagava algum dos cargos
antes de terminado o tempo marcado nos estatutos, o cargo era preenchido por um
substituto brasileiro ou português, conforme era português ou brasileiro o
frade a quem se dava o substituto.
Para os colégios de estudos, enfim, os colegiais que se
designavam eram em número igual, brasileiros e portugueses.
Tal foi o breve da alternativa.
As disposições singulares e curiosas desse breve, indicam
bem claramente a que ponto havia chegado o ciúme entre brasileiros e
portugueses nos conventos dos franciscanos da província de N. S. da Conceição
do Rio de Janeiro.
A história da alternativa, que acabo de contar, é um novo e
seguro fundamento para a proposição que emito e que vou repetir.
A rivalidade que tanto separava os brasileiros dos
portugueses não teve a sua origem nas lutas da independência do Brasil, e,
muito pelo contrário, a independência que nos engrandeceu e exaltou, a
independência que nos deu um governo livre e nacional, o sol do Ipiranga, que
foi para nós o sol da civilização, tem conseguido banir, pouco a pouco, essa
rivalidade e esse ciúme que hoje se tornaram tão fúteis, tão mesquinhos, tão
inconvenientes, que chegaram a ser inconfessáveis.
Não há mais nem pode mais haver metrópole nem colônia para
Portugal e o Brasil. O Brasil e Portugal são duas nações irmãs, e embora
separadas pelo Atlântico estendem seus braços e apertam as mãos amigas e
nobres, não só sem ressentimento mas ainda com amor.
É tempo agora de irmos subindo pela escada de pedra que
vimos ao lado esquerdo da portaria, e logo ao vencê-la, temos de parar um
instante para contemplar um quadro que orna a parede principal e que representa
a fé e a caridade.
A escada leva-nos ao primeiro andar, e termina dando entrada
para uma sala que se chama o salão da portaria.
Nesta sala três quadros grandes em tela e com molduras
douradas desafiam a nossa atenção; e não me sendo possível dizer-vos os nomes
dos pintores que os executaram, limitar-me-ei a expor-vos o assunto de cada um
deles, a dar-vos a leitura de algumas oitavas que os esclarecem e que devem ser
conservadas em lembrança do poeta que as compôs e, enfim, contar-vos a história
de um desses quadros, que não deixa de ser curiosa.
O quadro que está ao lado direito representa S. Francisco de
Assis humilhado aos pés do bispo de Assis, no ato em que este queria beijar as
mãos do santo patriarca.
O do centro, que é o maior e o mais importante, figura a
morte de S. Francisco, que está estendido no chão com os braços cruzados sobre
o peito, cercado de religiosos e da madre Jacoba, a qual, segundo refere a
tradição, assistiu ao passamento do santo.
Deixemos, por ora, de parte o terceiro quadro, que é o do
lado esquerdo.
Aqueles dois primeiros painéis, que merecem por certo alguma
apreciação, impressionaram um frade capucho ainda muito moço e que já
patenteava no convento de S. Antônio um talento brilhante. O jovem religioso
foi ter com o provincial e pediu-lhe licença para compor alguns versos que
fossem depois escritos por baixo das pinturas. A licença foi obtida, e as telas
em que o pincel do pintor reproduzira aquelas cenas receberam novo encanto da
musa de um poeta.
Asseverando eu agora que esse poeta foi São Carlos, e que as
oitavas por ele escritas foram algumas das primícias do seu belo gênio, está
visto que todos me estais pedindo esses versos do cantor da Assunção.
Não me farei rogar.
O quadro de S. Francisco humilhado aos pés do bispo de
Assis tem as seguintes oitavas:
I
Este quadro que admiras, bem traçado,
Destreza do pincel mais primoroso,
Prazer causa ao espírito humilhado,
Terror e confusão ao orgulhoso.
O varão que aqui vês representado
Vence agora de humilde o ser vaidoso,
Que em lutas de vaidade, só caído
Se consegue o laurel de ter vencido.
II
Lançado está por terra e satisfeito,
Porque o pastor que atento o assistira
Formou do seu fervor um tal conceito
Que tudo à mão de Deus atribuíra.
Por ver acreditado este direito,
Em ondas de prazer, glória respira
O justo, que de gosto transportado
Vê que em tudo é Deus glorificado.
III
Assim este exemplar de santidade
Guardava à risca as leis do abatimento,
Reconhecendo a Deus suma bondade
Em tudo, com profundo acatamento.
Não descobre a cegueira da humildade
Nas honestas ações o luzimento;
E por mais que bem obre (ó coisa rara!),
Sempre tem para si que nada obrara.
IV
Tu, pois, que estás a ver atentamente
Primores de humildade tão subida,
Não pares só na vista; se és prudente,
Regula pelo exemplo a tua vida.
O retrato é motivo bem urgente
Pra excitar-te a vontade adormecida;
Que a virtude, inda mesmo assim pintada,
Repreende a conduta relaxada.
As oitavas que se lêem no quadro ao centro, que figura a
cena do passamento do patriarca, são estas outras:
I
Este que vês, cadáver animado,
Que sobre a dura terra jaz despido,
É da Itália o assombro venerado,
É o crédito de Assis esclarecido:
O Serafim Francisco, que o costado,
As mãos e pés o fazem conhecido,
Servindo de inscrição (de amor efeito)
Chagas nas mãos e pés, chagas no peito.
II
Nos paroxismos últimos da vida,
Já vacilante o edifício humano,
No leito jaz; porém a alma assistida
Do celestial alento soberano,
Na infalível do corpo despedida.
Não receia da morte o golpe insano,
Pois na desunião do corpo e alma,
Espera conseguir da glória a palma.
III
Mas o corpo modal na dura ânsia
(Pensão de toda a humana criatura),
Da vida à morte vê curta distância:
Antes que o cubra a térrea sepultura,
Aos seráficos filhos, com instância,
Roga o lancem despido à terra dura.
Pra que se veja em ato tão profundo
Que o mundo deixa como veio ao mundo.
IV
Alcança o que deseja, e já do leito
O concurso seráfico o levanta,
E da humildade o exemplar perfeito
No chão depõe a obediência santa.
Amante cruza os braços sobre o peito
E os olhos põe no céu, onde se encanta.
Seguindo o corpo e os olhos desta sorte
Da Terra o porto e dos Céus o norte.
V
Ó seráfico espírito que amante
De Cristo intentas imitar os passos!
Pois vendo a Cristo padecer constante
Na cruz em que rompeu da vida os laços,
Para seres a Cristo semelhante,
A cruz para morrer formas os braços!
De amor invento foi, pra seres visto
Na vida e morte imitador de Cristo.
VI
Quem não dirá, de assombro suspendido,
Ao ver-vos, Serafim crucificado,
Que ou em vós está Cristo convertido,
Ou estás vós em Cristo transformado!
Se Cristo em cruz por nós morreu ferido,
Por Cristo em cruz morreis também chagado.
Se em Cristo chagas fez o amor mais fino,
Em vós, chagas abriu o amor divino.
VII
Jacoba, que Francisco e aos seus em vida
Sempre favoreceu com mão piedosa,
Festa de amor, tragédia esclarecida,
Por aviso do Céu, se acha amorosa.
Mortalha e cera traz, bem advertida,
Prevendo em Roma a morte gloriosa.
E de Francisco aos pés com tanta pena
Assiste, qual amante Madalena.
VIII
A vista do espetáculo estupendo,
Do Serafim os filhos amorosos,
O rigor da saudade já prevendo,
O trânsito do pai sentem chorosos.
Quando dos olhos lágrimas correndo,
Do peito saem suspiros lastimosos,
Tributando-lhe juntos nesta mágoa
Os peitos fogo amante, e os olhos água.
IX
Inspira o céu ao guardião Aiguerio,
Que amortalha a Francisco com decência
No hábito que trouxe, por mistério,
Da matrona Jacoba a diligência.
Assim lhe diz com reverente império
Que o aceite em virtude da obediência:
E Francisco, com ânimo sujeito,
Prontamente obedece ao seu preceito.
X
Ó singular modelo de humildade!
Ó raro paradigma da pobreza!
Ó pasmo superior da sanidade!
Ó tocha da mais bela luz acesa!
Ó esfera em que arde a caridade!
Ó relevante cifra da pureza!
Quem soube, como vós, sempre constante,
Ser pobre, santo, puro, humilde e amante?
XI
Na morte, depois dela, e mesmo em vida,
Sempre por santo foste venerado,
E por santo, três vezes quem duvida?
Sois Serafim no empíreo laureado.
Da vossa consonância às mais unida, é Deus louvado;
No céu três vezes santo,
Pois sois santo três vezes, não me espanto
Canteis qual Serafim três vezes santo.
XII
A número os prodígios superiores
Intentar reduzir deste portento
É querer numerar do campo as flores
E as estrelas contar do firmamento.
Só poderão contar vossos louvores
Voz seráfica, angélico talento;
Que pra assunto tão alto e soberano
É limitado o entendimento humano.
Não foi o poeta quem trasladou para os quadros as oitavas
que compusera; e explicam-se por isso não poucos erros de ortografia que nessa
cópia se notam, assim como é certo que São Carlos se queixava de erros ainda
mais graves que o copista cometera e que ofenderam a substância da composição.
Guardemos, no entanto, com amor estes versos do jovem
inspirado. Tudo quanto respeita e se refere ao nosso São Carlos deve
necessariamente ser-nos grato.
Chegou a vez do terceiro quadro, que nos apresenta o milagre
que fizera S. Francisco, ressuscitando um bispo na ocasião em que o cadáver
deste, colocado sobre a peça, ia ser encomendado pelo cabido.
Este painel não tem no salão da portaria a mesma data dos
dois anteriores, e veio muito depois deles substituir outro, que caíra no
desagrado do bispo D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco.
Sabe-se que o patriarca São Francisco de Assis apareceu como
um enviado do Céu, no meio das vicissitudes e duras provas por que passou a
igreja nos últimos anos do século décimo-segundo e nos primeiros do seguinte,
em que as heresias, o desprezo da moral evangélica e a corrupção dos costumes
faziam a vergonha do próprio clero e de muitos bispos. São Francisco entendeu
que a verdadeira caridade deve principiar por casa, e atacou os abusos, as
irregularidades do clero e dos bispos, e conseguiu os triunfos que o tornaram
admirável aos olhos do mundo.
Um antigo pintor, querendo, ao que parece, aludir a esses
fatos, e usando daquela liberdade que o mestre Horácio reconhece como um
direito dos poetas e dos pintores, pintou um grande quadro alegórico, no qual
era representado o santo patriarca empunhando, como o profeta de Terbes, uma
espada, e na ação de degolar com ela um bispo que ele sustinha pelos cabelos.
Não sei se a alegoria era de bom
gosto. Certo é, porém, que esse painel foi por muitos anos conservado no salão
da portaria do convento de S. Antônio.
Mas veio um dia em que o bispo D. José Joaquim Justiniano
deu aos capuchos do Rio de Janeiro a honra de uma visita, e entrando no salão
da portaria, estacou diante do quadro tremendo e ofensivo da dignidade dos
bispos.
–
Que quadro é este? – exclamou. – São Francisco de Assisnunca praticou ação
semelhante!
–
É uma simples alegoria – disse o provincial.
–
Simples? É uma alegoria insultuosa e indigna. É uma pintu-ra indecente, que não
deve existir em um convento!
O bispo estava irritadíssimo, e ordenou logo depois que o
painel fosse arrancado e inutilizado.
A ordem foi cumprida, e o quadro do bispo ressuscitado
substituiu o do bispo em ação de ser degolado.
Era a substituição da imagem terrível da morte pela imagem
risonha da vida.
Tempos depois, o bispo D. José Joaquim Justiniano tornou ao
convento de S. Antônio; e, vendo o novo quadro que tomara o lugar do antigo,
disse, com uma alegria beatificadora:
– Este sim! Este sim!
IV
O primeiro andar do convento de S. Antônio do Rio de Janeiro
ainda nos deve dar precioso entretenimento para um longo passeio.
Tínhamos parado no salão da portaria, que estudamos já
suficientemente.
Sigamos agora por este extenso corredor, e no fim dele
entremos no salão chamado dos guardiões.
É, como o primeiro, uma pequena sala a que impropriamente se
empresta o nome de salão. Tem duas portas que abrem para um terraço que domina
a entrada da barra e grande parte da cidade. É simples, sem ornamentos,
conforme o preceito da ordem seráfica. Pode, porém, ufanar-se de possuir em
suas paredes quatro verdadeiras preciosidades, que são os retratos de
Rodovalho, São Carlos, Sampaio e Mont’Alverne, devidos à paleta do Sr. Tironi.
Daqueles quatro admiráveis oradores do púlpito brasileiro só
Mont’Alverne nos deixou uma coleção de uma parte dos seus sermões. Os tesouros
da inteligência dos outros perderam-se, ou completamente, ou em sua máxima
parte.
Frei Antônio de Santa Úrsula Rodovalho era natural de
Taubaté, província de S. Paulo, e, dizia Mont’Alverne, que era Rodovalho o
frade mais sábio da província de N. S. da Conceição do Rio de Janeiro. Foi um
orador profundo e muito conceituado. Morreu a 2 de dezembro de 1817, e não me
consta que se saiba o fim que levaram os seus sermões.
Ainda há quem se lembre de ter ouvido Frei Rodovalho pregar;
e sei de um ancião que ocupa uma alta posição oficial, e que é muito notável
por seus conhecimentos e ilustração, que conserva de cor quase toda a oração
fúnebre que aquele célebre franciscano pregou na igreja da Misericórdia nas
exéquias do Marquês de Lavradio.
S. Carlos fez presente de cerca de setenta sermões que tinha
conservado a um clérigo secular da sua amizade, que o freqüentou muito nos seus
últimos dias de vida. E o padre cujo nome não quero declinar sumiu um legado
tão precioso que era mais da pátria que dele próprio.
Sampaio morreu de um ataque apoplético e deixou em sua cela
um caixão contendo mais de trezentos sermões. O provincial que então servia, e
que era Frei Joaquim de São Daniel, arrecadou o caixão em que ninguém mais pôs
os olhos; e quando, em 1852, faleceu, algumas horas antes de morrer, ou na
véspera do dia do seu passamento, ofereceu esse rico tesouro a um jovem
religioso seu discípulo.
Mas a última vontade de São Daniel não foi cumprida. O
caixão de sermões foi arrecadado pelo provincial que nessa época servia, e cujo
nome não declino porque ainda existe, e sem dúvida ainda guarda zeloso aquela
riqueza, de que não houve mais notícia, e que, eu o penso, pretende por sua
morte legar à corporação a que pertence.
Muito melhor e louvável fora que o respeitável religioso
entregasse ainda em sua vida, e quanto antes, esses desejadíssimos trabalhos do
ilustre Frei Sampaio. A isso o convida o dever do patriotismo e da religião.
Entretanto, penso que para glória e crédito da sua ordem, e
também para a glória da pátria, devem os frades capuchos empenhar-se em obter
aquele precioso caixão ou, pelo menos, em reunir e publicar em uma coleção
esses poucos sermões que existem impressos em folhetos e alguns manuscritos que
restem dos numerosos trabalhos desses grandes pregadores, para que os vindouros
possam ao menos fazer idéia da robusta, esclarecida inteligência de tão
distintos brasileiros.
Foi pena que se esbanjassem tantos e tão preciosos tesouros.
Frei Sampaio especialmente era de uma fertilidade pasmosa.
Sentava-se à mesa, dobrava duas, três ou quatro folhas de papel, cosia-as,
tomava a pena e escrevia sem parar, com uma letra sempre igual, miúda e de
caráter antigo. Não emendava nem riscava, e acabava o discurso exatamente no
fim da última página do folheto que preparava.
Sampaio gostava de ter dinheiro; e como não lhe sobrassem os
meios, escrevia sermões para os padres, que lhes iam encomendar ao preço de
quatro mil-réis. Faça-se idéia dos triunfos que se alcançaram aí pelos púlpitos
da cidade e das freguesias do interior, à custa de Frei Sampaio.
Era de uso naquele tempo que os pregadores franciscanos
pagassem ao convento, de cada sermão de Evangelho, uma dobra , e de cada
prática, quatro mil réis. O ônus era pesadíssimo, porque então não se
gratificavam tão bem como hoje os oradores sagrados.
Os frades capuchos pregadores revoltavam-se todos contra
semelhante tributo, e era já objeto de divertido e tolerável empenho no
convento o ver qual deles podia escapar, por inocente astúcia, ao pagamento da
dobra ou dos quatro mil-réis.
Contava muitas vezes Mont’Alverne que um dos maiores
desapontamentos por que passara fora devido àquele empenho.
Tinham-lhe ido encomendar um sermão para uma festa que no
dia 15 de agosto se devia celebrar na igreja dos Terceiros do Hospício.
Mont’Alverne declarou que pregaria, se se guardasse
inviolável segredo a respeito do nome do pregador. Aceita a condição, preparou
o seu sermão; e no dia da festa, saiu do convento, pregou e voltou para a sua
cela sem que um só dos frades, e menos o guardião, concebesse a menor suspeita
sobre o caso.
À noite, havia no convento uma solenidade a N. S. da
Assunção, no altar da enfermaria; e Mont’Alverne, chegando para tomar parte
nela, ainda um pouco cedo, começou a passear e a conversar num salão com o
guardião, que era Frei Joaquim de São Jerônimo.
Passados apenas alguns minutos, entra no salão um devoto
freqüentador do convento de S. Antônio, homem estimável, que tinha em grande
apreço os bons pregadores, e que, por sinal, felizmente ainda hoje vive, e
lembrar-se-á deste caso.
O bom devoto, logo que põe os olhos em Mont’Alverne corre
para ele entusiasmado e exclama:
– Ah! padre-mestre. Que magnífico sermão pregou hoje vossa
caridade! A admiração foi geral, e eu ainda me acho comovido e arrebatado.
Mont’Alverne estava, dentro de si, maldizendo do entusiasmo
do seu admirador; e este, cada vez mais ardente e enlevado, relatou tudo quanto
testemunhara.
O guardião, desatando a rir, voltou-se para Mont’Alverne e disse-lhe:
– Venha a dobra, padre-mestre. Venha a dobra.
E Mont’Alverne teve de pagá-la.
Frei Sampaio foi mais feliz do que Mont’Alverne.
Estava ele para pregar um sermão de angústia na igreja da
Misericórdia, e dias antes, saindo da sua cela, viu o guardião, que era então
um outro célebre pregador, Santa Leocádia, passeando triste como se estivesse
contrariado.
–
Que tem, padre-mestre? – perguntou Frei Sampaio.
–
Ah! – disse Santa Leocádia. Não se pode mais ser preladonestas casas. Os frades
não dão aos prelados se não desgostos e angústias.
–
Deveras? – tornou Frei Sampaio, sorrindo.
–
Ria-se, ria-se. Mas se fosse guardião, havia de entristecer-secomo eu e de
viver sempre angustiado.
–
Pois, padre-mestre, eu lhe juro que não se queixará de mimpor lhe dar o meu
quinhão de angústias.
–
Estou certo disso, padre-mestre. Estou certo e nunca penseio contrário –
respondeu Santa Leocádia.
Três dias depois, foi Sampaio pregar o seu sermão e, de
volta, recolheu-se à sua cela. Tinha, porém, apenas acabado de entrar quando
lhe apareceu Santa Leocádia.
–
A dobra, padre-mestre – disse o guardião.
– Que dobra? – perguntou Frei Sampaio, mostrando-se admiado.
–
Ora! A dobra do sermão que pregou.
–
Ah! padre-mestre guardião – disse Frei Sampaio. – De pagaressa dobra estou eu
livre, porque preguei um sermão de angústias e há três dias lhe jurei, e vossa
caridade recebeu meu juramento, que eu não lhe daria o meu quinhão de
angústias.
O guardião pôs-se a rir, e Frei Sampaio não pagou a dobra.
Relevai-me estas ligeiras anedotas, que se referem a esses
nossos grandes pregadores. E retirando-nos do salão dos guardiões rendamos
justos louvores ao atual provincial dos franciscanos do Rio de Janeiro, porque
foi ele que mandou fazer aqueles quatro retratos que perpetuam as imagens de
tão eloqüentes e sábios oradores brasileiros.
A capela dos Três Corações, que em seguida passamos a
visitar, tem o altar copiosamente enriquecido de relíquias e ossos de santos,
que os provinciais, quando iam a Roma votar, em capítulo geral, traziam obtidos
do papa. As paredes mostram-se ornadas com diversos bustos de santos, cada um
dos quais apresenta um relicário ao peito. O teto é pintado a óleo e é aí
notável um quadro do mistério da Trindade.
Além das salas e da capela que temos estudado, constava
ainda o primeiro andar do convento de S. Antônio de numerosas celas que outrora
não eram de sobra, porque então abundavam os religiosos, e que, nestes últimos
tempos, tão desabitadas ficaram que uma parte delas foi cedida para o Arquivo
Público, que desde 1854 se acha ali estabelecido, tendo-se rasgado muitas
celas, que se transformaram em salas, dispostas convenientemente para o serviço
desta utilíssima instituição.
O Arquivo Público absorveu as antigas acomodações da
secretaria e consistório do convento, que eram no primeiro andar e que, em
conseqüência dessa patriótica hospedagem, o atual provincial fez mudar para o
segundo, como teremos de ver.
A necessidade de prover com os arranjos precisos o Arquivo
Público, ia sendo causa de desaparecer, como desapareceram muitas outras, a
cela que fora habitada pelo Padre-Mestre Frei Francisco de Santa Teresa
Sampaio.
A situação em que se achava esta cela a condenava ao
doloroso sacrifício. O digno provincial, porém, Frei Antônio do Coração de
Maria Almeida, que por algum tempo a tinha também ocupado, desde 1844, salvou-a
desse grande perigo e dela conserva a chave bem como das que pertenceram a São
Carlos e Mont’Alverne.
A cela que foi habitada por Frei Sampaio está situada junto
de um salão que corre por cima da sacristia para o jardim, da qual olham as
suas janelas de grades de ferro.
A cela de Frei Sampaio é histórica e cheia de importantes e
curiosas recordações.
Em 1821 e 1822, reuniu por vezes em seu acanhado recinto um
clube de patriotas, e depois da proclamação da independência foi muito
freqüentada pelo Sr. D. Pedro I, imperador do novo Império.
Quando, no Rio de Janeiro, se tratou de impedir a retirada
do Sr. D. Pedro, então príncipe regente, para Portugal, o Capitão-Mor José
Joaquim da Rocha, o Coronel Nóbrega e outros, reuniram-se repetidamente na cela
de Frei Sampaio, e foi aí que prepararam alguns dos grandes acontecimentos que
em seguida chegaram a ter lugar e que foram os precursores do grito do
Ipiranga.
Frei Sampaio foi o redator de um jornal político que
naqueles anos se publicou sob o título O Regulador, e em que sustentou
princípios liberais moderados. Era da sua cela que mandava para a imprensa os
autógrafos, e ainda hoje se conserva no convento de S. Antônio um livro em
cujas páginas ele, pela sua própria mão, deixou copiados os principais artigos
que fez imprimir no seu periódico e em outros.
Algum tempo depois da independência, Frei Sampaio começou a
desagradar aos liberais, que principiavam a manifestar aquela oposição, que só
acabou triunfando em 7 de abril de 1831.
Diziam os liberais que o ilustre franciscano escrevia
obedecendo às inspirações e à vontade do Sr. D. Pedro I, que o conquistara com
obséquios e provas de afeição, e assentavam o seu dizer em um fundamento que a
muitos parecia seguro, porque era na verdade que o Sr. D. Pedro I ia freqüentes
vezes ao convento de S. Antônio, e não poucas ficava desde o anoitecer até às
19 horas da noite na ceia de Frei Sampaio, ouvindo-o ler os seus artigos, e com
ele discorrendo sobre política.
Mas tudo isso já lá vai, e tudo desapareceu. Perderam-se os
sermões do eloqüente pregador, por pouco que não desapareceu também a sua cela,
e perderam-se até os ossos desse homem ilustre.
Direi como se extraviaram os ossos de Frei Sampaio, e
tratando deste ponto, escreverei a última página em que neste passeio me
ocuparei do célebre franciscano.
Quando Frei Sampaio faleceu, alguns de seus compatriotas e
admiradores determinaram mandar preparar uma urna digna de receber-lhe os
restos. Abriram para isto uma subscrição e encomendaram a urna a um artista de
nome Adriano, que teve uma oficina de entalhador na Rua Senhor dos Passos.
Chegado a tempo competente, dirigiu-se um antigo amigo do
finado ao convento de S. Antônio, onde era muito conhecido e considerado, e
depois de instâncias reiteradas, obteve os ossos de Frei Sampaio.
Mas o entusiasmo tinha já esfriado. Os subscritores não
concorreram com as quantias competentes. O descuido fez esquecer a gratidão.
Faltou o dinheiro, quando a urna se achava pronta, e os ossos do grande
pregador foram abandonados e esquecidos na oficina de Adriano.
Dói a um brasileiro escrever estas tristes verdades. Sirvam
elas, porém, ao menos, para castigo da nossa repreensível incúria.
Entretanto, Adriano incomodava-se com a urna que lhe custara
trabalho e despesa, e que continuava na oficina a lembrar-lhe o prejuízo
sofrido. Sabendo, porém, que o Sr. Dr. José Maurício Nunes Garcia procurava uma
urna para recolher os ossos de seu pai, o ilustre padre José Maurício Nunes
Garcia, correu a oferecer-lhe a que tinha.
O Sr. Dr. José Maurício foi à oficina de Adriano, comprou a
urna, e vendo a ossada de frei Sampaio, e reconhecendo-lhe a cabeça pelo único
alvéolo incisivo que apresentava e que fazia lembrar um defeito que pelo correr
dos anos experimentara em sua dentadura o célebre pregador, levou consigo essa
cabeça que tão grande se mostrara, e que Adriano cedeu sem a mais leve
oposição.
Os anos correram, Adriano morreu. Os ossos de Frei Sampaio
extraviaram-se para sempre, e apenas a cabeça óssea nos resta, conservada pelo
ilustrado médico e habilíssimo mestre de anatomia que nas suas lições de
antropotomia deu uma curiosa descrição, ou antes, fez um estudo conciencioso e
interessante daquela preciosa relíquia.
O Sr. Dr. José Maurício considera “o crânio de Frei Sampaio
como um tipo dos melhores – das belas formações cranianas”, e declara “que ele
se presta a todos os sistemas craniométricos, melhor do que nenhum dos que há
podido ver”.
Debaixo do ponto de vista frenológico, o Sr. Dr. José
Maurício faz ainda notar o extraordinário desenvolvimento da bossa da
idealidade, que Gall e Spurzheim se extasiariam, encontrando na cabeça daquele
pregador tão famoso pelos seus improvisos felizes e pela sua eloqüência
arrebatadora.
O estudo feito sobre o crânio de Frei Sampaio é cheio de
importância e de interesse, e para as lições de antropotomia do nosso muito
distinto lente jubilado de anatomia remeto os meus companheiros de passeio que
desejarem devidamente apreciar.
O Sr. Dr. José Maurício Nunes Garcia é merecedor de elogios
e de gratidão pela boa obra que fez, salvando e conservando o crânio de Frei
Sampaio e dando dele um estudo minucioso e profundo que aproveita à ciência e
também um pouco mitiga a mágoa que nos deixou o extravio dos outros ossos.
Além da cela de Frei Sampaio, que o respeito devido à sua
ilustre memória fez conservar com um cuidado tão louvável, ainda os religiosos
apontam e mostram com uma bem fundada e justa ufania aos visitantes do seu
convento da cidade do Rio de Janeiro, outras celas não menos recomendáveis por
nobres recordações da mesma natureza.
Entre essas, distinguem-se as que pertenceram a Mont’Alverne
e São Carlos.
Direi alguma coisa a respeito da cela que foi habitada pelo
último, o frade notabilíssimo que primou como pregador e como poeta.
A cela que pertenceu a Frei São Carlos está situada na
extrema esquerda da face principal do convento e dela são as últimas duas
janelas de peitoril que ali se vêem. Por cima, no segundo andar, tem ela o
painel e altar de N. S. da Assunção, que havemos de contemplar mais tarde.
É notável a feliz coincidência desse altar e desse painel da
Assunção, levantados exatamente sobre a cela em que habitou aquele que foi o
grande e inspirado cantor da Assunção, e onde ele escreveu esse estimado poema,
que perpetuará seu nome.
Entretanto, esta cela também correu o risco de ser
destruída, não pela mão dos homens, mas pela flama do raio.
Em uma tarde escura e tempestuosa, achava-se Frei São Carlos
na sua cela, e conversando com ele, os padres-mestres Frei Henrique de Santana,
Frei Joaquim de São Daniel e alguns outros religiosos.
A tormenta ia cada vez mais redobrando de intensidade, e ao
ribombar de terrível trovão, levantaram-se os frades assustados.
Frei Henrique tremia ainda mais que todos os outros.
–
Que é isso, padre-mestre? – perguntou-lhe São Carlos.
–
Tenho medo – respondeu Frei Henrique. – Tenho medo, elembra-me que não estamos
bem aqui em uma extremidade do convento. Acho prudente que nos retiremos.
São Carlos riu-se do conselho de Frei Henrique. Este, porém,
despediu-se. Saiu, e foi logo seguido por todos os outros frades.
Frei Joaquim de São Daniel, que se deixara ficar por último,
despediu-se também, e São Carlos, ou para continuar a conversação em que
estavam, ou porque não lhe agradasse o ficar só, acompanhou a S.
Daniel.
E tinham apenas dado alguns passos fora da cela, quando um
novo e mais terrível trovão rebentou, e a cela pareceu abismada em dilúvio de
fogo.
Era o fogo do raio.
São Carlos, São Daniel, Frei Henrique e outros religiosos
acabavam de escapar de serem fulminados.
O raio estragou o altar da Assunção, que veremos no segundo
andar do convento. Fez rachar-se de alto a baixo uma das paredes da cela e cair
uma grande pedra no mesmo lugar onde poucos momentos antes se achava sentado o
Padre-Mestre São Carlos.
O suavíssimo cantor da Assunção tratou logo depois de
promover os reparos do altar estragado, conseguiu em breve restaurá-lo e, em
observância de um voto que por essa ocasião fez, daí em diante e até morrer,
pregou em todos os anos o sermão da festa de N. S. da Assunção no convento,
solenidade que se celebrava no mesmo altar que também fora tocado pelo raio,
atribuindo sempre aquele padre-mestre a um milagre da Santíssima Virgem o ter
escapado a tão tremendo perigo.
E justo foi que a Rainha das Virgens, a Mãe Imaculada
cobrisse com o escudo da sua proteção o poeta por ela mesma inspirado, o poeta
que a cantava com tanto brilhantismo e com tanta doçura, e que a ela dizia:
Eu só procuro com meus versas rudes Teus triunfos cantar,
tuas virtudes.
V
Finalmente, depois de quatro longos passeios, chegamos ao
segundo andar do convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro.
Talvez cansados e aborrecidos de acompanhar-me, penseis que
cinco passeios prolongados e consecutivos pelo interior de um convento devam
parecer demais. Sabei, pois, que eu nutro sérios receios de que não paremos
ainda no quinto, e que tenhamos de completar a meia dúzia.
E mesmo assim, não pouco me ficará por dizer, visto que
sendo tão amplos os hábitos dos frades franciscanos, não podem deixar de dar
muito pano para mangas. E nem é de admirar que seis passeios não bastem para se
fazer o estudo completo de um espaçoso e notável convento, quando tantas e tão
dilatadas viagens se têm feito dentro de limites muito mais apertados.
Só Xavier de Maistre, para não lembrar alguns outros,
escreveu dois livros dando conta de uma viagem ao redor de seu quarto e de uma
expedição noturna ainda ao redor do seu quarto. Façam idéia de quantos livros
escreveria Xavier de Maistre, se viajasse por um convento de frades.
Direis a isso que também não fatigaria nem mesmo ao maior
preguiçoso o ser companheiro de viagem de um escritor como o foi o espirituoso
irmão do célebre Conde José Maistre.
Reconheço o fundamento e justeza dessa observação. E como
não tenho resposta a opor-lhe, nem argumento que lhe tire ou diminua a força,
faço o que está em moda: apelo para a rolha e proponho o encerramento da
discussão.
Encerrou-se a discussão, e votou-se, e fico declarado, por
grande maioria de votos, tão bom escritor como Xavier de Maistre, ou ainda
melhor do que ele.
Não vos admireis. As maiorias são às vezes tão despóticas
como Luís XIV, e tão injustas como o Sinhedrim que condenou a Jesus Cristo.
Estamos, pois, no segundo andar do convento de S. Antônio da
cidade do Rio de Janeiro.
Vejo, porém, uma escada que deve levar-nos ainda a um andar
superior, e deu-me vontade de sacrificar a ordem regular destes passeios,
subindo ao terceiro andar antes de estudar o segundo.
Quer vos agrade, quer não, haveis de sujeitar-vos à minha
vontade. Subamos, pois, a escada.
Esse terceiro andar tem uma única face, se bem que fique no
fundo do convento, olha para a frente e está fronteiro à Rua da Guarda Velha.
Examinemos o que se encontra nesse último pavimento.
Temos diante de nós uma pequena capela em cujo único altar
se venera a imagem sagrada do Senhor dos Passos.
No seio dessa capela, que está quase junto da enfermaria e
apenas dela separado por um muito curto corredor, estão depositados os corpos
dos religiosos que chegam ao termo da sua peregrinação pelo mundo. Enquanto as
almas sobem aos pés de Deus, os cadáveres são recolhidos à capela.
Entretanto, ela não foi sempre destinada para receber e
guardar por algum tempo os restos mortais dos capuchos. Outrora, até o ano de
1747, ali se ofereceu habitação e descanso a um venerando religioso leigo do
convento, que nesse lugar teve a sua cela durante toda a sua vida passada no
Rio de Janeiro.
Perguntais-me quem foi esse homem?
Já lestes o seu nome sobre a campa de uma distinta sepultura
do claustro. Tereis, porém, agora de lê-lo ainda uma vez. Deixai a capela,
avançai comigo pelo corredor. Vinde.
Nesse corredor, que comunica a enfermaria com a capela do
Senhor dos Passos, vê-se, à mão esquerda de quem vai para a enfermaria, uma
pequena chapa de cobre pregada na parede, indicando o lugar onde se acham os
despojos mortais de frei Fabiano de Cristo, e tendo a seguinte inscrição:
Ut quondam oegris quoerebas, Fabiane, salutem, Nunc etian
votis auxiliare tuis.
Mas por que na casa humilde assim tão manifestamente se
exalta a memória desse finado? Por que nas sepulturas dos religiosos todas as
lousas são mudas, e apenas duas, e dessas duas aquela que caiu sobre a cova
desse pobre leigo, falam com a voz da inscrição, anunciando o nome do religioso
cujo cadáver escondeu no jazigo?
A estas perguntas, que certamente nos estais fazendo, vou
responder, contando a história de frei Fabiano, como aliás já vos tinha
prometido algures.
É a lenda de um santo que me cumpre repetir, e fá-lo-ei
reproduzindo fielmente o que se encontra em livros e manuscritos do arquivo do
convento.
Achar-se-ão nesta história belos exemplos da sublime virtude
da caridade, e além deles, prodígios que a fé pôde receber, e sobre os quais
não se deve emitir opinião alguma.
Eu não discuto. Limito-me a relatar com verdade o que li em
papéis que me foram obsequiosamente confiados.
Frei Fabiano de Cristo, religioso leigo do convento de S.
Antônio da cidade do Rio de Janeiro, era natural do arcebispado de Braga, no
reino de Portugal. Veio ainda muito moço para o Brasil, e aqui no Rio de
Janeiro tomou o hábito de franciscano capucho, com o qual viveu piedosamente
durante quarenta e um anos, empregando desses não menos de trinta e sete em
servir de enfermeiro com uma admirável caridade, e dando sempre exemplo de
singulares virtudes. Aos 71 anos de idade, pouco mais ou menos, e aos 17 de outubro
de 1747, faleceu, enfim, no mesmo convento de S. Antônio, sucumbindo a uma
hidropisia e com o corpo martirizado por algumas chagas.
Era um homem tão venerando e de costumes tão irrepreensíveis
que todos os religiosos capuchos e ainda as principais autoridades da casa o
tratavam com o mais profundo respeito.
Apesar da sua modéstia e do seu recolhimento, frei Fabiano
era conhecido e amado em toda a cidade; e diz-se que, freqüentes vezes, vinham
ao convento enfermos ricos e pobres pedir ao simples leigo a sua intervenção
perante Deus para conseguirem o seu restabelecimento, acrescentando-se que as
orações e as preces de frei Fabiano eram de ordinário atendidas, e que muitos
doentes lhe deviam assim a terminação dos seus sofrimentos ou a vida.
Efeitos naturais ou favores do Céu, essas curas davam ao
pobre leigo uma grande reputação de santidade.
Um fato tradicional no convento de S. Antônio exibe o mais
seguro e incontestável testemunho das sublimes virtudes da paciência e da
caridade do ilustre religioso e devotado enfermeiro, que tanto se elevava pela
humildade.
Achava-se num dos leitos da enfermaria um velho frade
impertinente por gênio, pela idade e pela moléstia, e de caráter irascível e
violento. Em uma noite, e já muito tarde, desejou tomar um caldo, e chamou o
enfermeiro pelo toque da campainha.
Frei Fabiano acudiu imediatamente, e atendendo ao pedido do
velho doente, não querendo incomodar o ajudante e os serventes da enfermaria,
que sossegadamente dormiam, correu ele próprio à cozinha, a fim de preparar o
caldo.
Alguns minutos depois, o frade recebia a sua xícara de
caldo. Provando-o, porém, e não o achando do seu gosto, atirou com a xícara
cheia de caldo quente ao rosto do bom e zeloso enfermeiro.
Frei Fabiano ficou com a face ferida e queimada. Insensível,
porém, à dor e cheio de angélica paciência, disse:
– Perdoe-me, meu padre. Eu vou preparar-lhe outro caldo.
O frade, confundido por um procedimento tão edificante,
desfez-se em lágrimas e, esquecendo a moléstia, lançou-se fora do jeito, caiu
de joelhos e exclamou:
– Perdão! Perdoe-me pelo amor de Deus a ofensa que acaba de
receber!
Frei Fabiano levantou o velho religioso em seus braços e
chorou com ele.
No dia seguinte, o prelado, vendo o enfermeiro com o rosto
ferido, e não podendo conseguir que ele lhe revelasse a causa daquele dano,
impôs-lhe o preceito da obediência e mandou-o falar. Mas frei Fabiano, cedendo
ao dever que o obrigava a acusar o velho frade, pôs-se de joelhos aos pés do
prelado, e com um crucifixo na mão, pediu e obteve o perdão do ofensor.
Realmente, só uma grande alma é capaz de tanta virtude!
Conta-se ainda que frei Fabiano, vendo-se perigosamente
enfermo, alguns dias antes do seu falecimento, despediu, com suaves
consolações, os religiosos que o cercavam e anunciou-lhes o dia e a hora do seu
passamento, que exatamente veio a verificar-se, como ele o predissera, no dia
17 de outubro de 1747, pelas duas horas da tarde.
A notícia da morte de frei Fabiano, espalhada rapidamente
pela cidade, chamou ao convento imenso povo que invadiu a capela do capítulo,
onde estava depositado o corpo, e começou a lançar-se sobre o féretro para
cortar pedaços do hábito de que estava vestido o cadáver, como se no pano que
arrancavam levassem preciosas relíquias.
Tornou-se bem depressa necessário revestir o cadáver com um
novo hábito e reclamar força pública para conter a multidão.
No dia seguinte, o enterro teve lugar com a assistência do
Governador Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadela, do bispo d. frei
Antônio do Desterro e das pessoas consideradas da cidade.
Contam-se coisas extraordinárias observadas no cadáver do
caridoso e humilde enfermeiro. Deixarei, porém, a cargo daqueles que depuseram
sobre os fatos que em seu dizer se passaram, o cuidado de contar a história
desses prodígios.
Frei Fabiano foi sepultado na quadra dos religiosos, no
claustro, na segunda sepultura, começando a contar da capela do Senhor do
Bonfim. Na parede que fica em frente da sepultura colocou-se uma tarja de
mármore com a seguinte inscrição em letras pretas, e que ainda se conserva:
Sepultura do servo de Deus, frei Fabiano de Cristo, falecido
em 17 de outubro de 1747.
Passados alguns anos, procedeu-se à exumação, e por ordem do
bispo e do provincial foi selada a sepultura para ficar perpetuamente impedida,
e os ossos do homem justo e caridoso, daquele que já gozava em vida grande
reputação de santidade, passaram para uma caixa, sendo esta colocada na parede
do corredor, defronte da capela do Senhor dos Passos, de quem tinha sido frei
Fabiano o mais constante devoto.
O bispo e o provincial mandaram proceder a uma inquisição
jurídica a respeito dos “numerosos milagres que fez o Senhor em testemunho da
santidade daquele seu servo”, e vinte e nove pessoas deram depoimentos que se
acham lançados no livro II do tombo da província, de folhas 84 a 100.
Não deixou de aparecer a idéia de pedir-se a canonização do
frei Fabiano. Não se levou, porém, a efeito esse projeto por ser muito pobre a
ordem dos capuchos e faltarem-lhe os recursos para as enormes despesas que
seria indispensável fazer.
Eis aí a história, ou, se quiserem, a lenda de frei Fabiano
de Cristo, tal como a achei e li.
Se o caridoso, paciente e humilde enfermeiro foi e é santo,
não sei. Se por sua intervenção operou Deus milagres e prodígios, ignoro.
Basta-me, porém, saber que foi um homem rico de virtudes, para louvar a sua
memória.
No entanto, e ao menos por curiosidade, ajuntarei, a este
passeio, a cópia de dois documentos que se referem a frei Fabiano e que foram
escritos e assinados pelas duas principais personagens da terra naquele tempo –
pelo governador e pelo bispo.
Suponho que são dois atestados pouco ou nada conhecidos. A
sua publicação, portanto, não é desnecessária.
Copio-os sem comentá-los, e cada um ajuíze deles como
quiser. Ei-los aí:
“D. Frei Fabiano do Desterro, por mercê de Deus e da Santa
Sé Apostólica, bispo do Rio de Janeiro, do conselho de Sua Majestade, etc.,
etc.: Atestamos que aos 18 dias do mês de outubro do ano passado, de 1747 às 4
para as 5 horas da tarde, assistindo nós a rogo dos Revms. Franciscanos do
convento de S. Antônio desta cidade ao enterro do servo de Deus, frei Fabiano
de Cristo, religioso leigo do mesmo convento, o qual havia falecido no dia
antecedente pelas duas horas da tarde, vimos e presenciamos o seguinte: Que,
havendo falecido o dito servo de Deus, de uma hidropisia e de umas chagas
antigas e asquerosas que lançavam de si matérias pútridas, depois de morto
nenhum mau cheiro lançava o cadáver. Que as ditas chagas estavam rosadas,
vertendo sangue líquido. Que, esfregando nós as ditas chagas com um retalho do
hábito do mesmo servo de Deus, e molhando-o no seu sangue, lançava este um
cheiro suavíssimo que recreava o olfato. Que o cadáver tinha flexíveis as mãos,
braços, pernas e juntas do corpo, em que se fez exame. Que tinha as cores do
rosto tão naturais e agradáveis e os olhos tão cristalinos como se estivesse
vivo, havendo mais de vinte e seis horas que tinha morrido. O que tudo nos
pareceu e aos médicos que estavam presentes serem efeitos sobrenaturais e
prodigiosos. E informando-nos nós da pátria, vida e costumes do dito servo de
Deus, soubemos dos religiosos do dito convento que era natural do arcebispado
de Braga, no reino de Portugal, que tinha 71 anos de idade, pouco mais ou
menos, e 41 de professo na religião de S. Francisco desta cidade, dos quais
gastara 37 em servir com fervorosa caridade na enfermaria do convento, e que
finalmente fora sempre um religioso de vida inculpável e exemplar. Todo o
referido é verdade, em fé do que mandamos passar a presente atestação, por nós
assinada e selada com o selo das nossas armas neste nosso palácio episcopal da
cidade do Rio de Janeiro, aos 2 de agosto de 1748. E eu, padre Agostinho Pinto
Cardoso, escrivão da câmara eclesiástica, a subscrevi. (Assinado + D. Fr. Antônio,
bispo do Rio de Janeiro. – Lugar + do selo. – Cardoso). Registrada a fl. 77 v.
Do livro I do registro das letras apostólicas. Rio, 2 de agosto de 1748. –
Sena.”
“Gomes Freire de Andrade, do conselho de Sua Majestade,
sargento-mor de batalha dos seus exércitos, governador e capitão-general das
capitanias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Cuiabá, etc., etc.:
Certifico e atesto que, indo eu ao convento de S. Antônio desta cidade, assisti
ao funeral do servo de Deus, frei Fabiano de Cristo, religioso leigo do mesmo
convento, vi e examinei haver falecido de hidropisia geral, e que algumas
chagas que tinha, antigas e asquerosas, lançavam de si sangue puro e odorífero.
Que tinha as mãos, pés e mais partes do corpo em que pôde fazer-se exame,
inteiramente flexíveis. Que sendo o dito religioso em vida de cor muito
macilenta, ao tempo que se fazia o ofício de corpo presente reparei que se lhe
tornaram as cores do rosto tão rosadas e naturais, e os olhos tão cristalinos,
melhor do que se estivera vivo, havendo mais de 26 horas que estava morto; o
que tudo me pareceu e às mais pessoas presentes serem efeitos sobrenaturais e
prodigiosos. Ultimamente sempre o conheci, de 14 anos que estou nestas
capitanias, e geralmente de todos foi tido como um religioso de vida virtuosa e
exemplar. Era natural do arcebispado de Braga, no reino de Portugal. Viveu 71
anos de idade, pouco mais ou menos, e morreu a 17 de outubro do ano passado,
pela uma para as duas horas da tarde. Tinha 43 anos de corporação, havendo 36
ou 37 que servia de enfermeiro no referido convento, com ardente caridade
evangélica.
“Todo o referido passou na verdade, segundo o que presenciei
e as informações que tomei; em fé do que mandei passar a presente atestação,
por mim assinada e selada com o sinete das minhas armas. S. Sebastião do Rio de
Janeiro, 5 de setembro de 1748. – Gomes Freire de Andrade.”
É tempo de sair deste corredor, onde tanto nos havíamos
demorado.
Entremos na enfermaria.
É uma sala espaçosa, sala que apresenta todas as disposições necessárias para o bom desempenho do mister a que era destinada.
Digo a que era destinada, porque atualmente, estando os
frades capuchos do convento de S. Antônio reduzidos a muito pequeno número, é
cada um deles, quando adoece, tratado na sua própria cela.
Quem entra na enfermaria vê à sua mão direita uma fileira de
humildes e pobres leitos, e à mão esquerda, em frente desses, contempla três
altares de espaldar.
Os leitos são separados por delgadas paredes de estuque, de
modo que cada um deles representa a forma de um beliche, sendo todos abertos
pela frente e tendo no fundo uma porta que comunica com um gabinete pequeno e
especial, e este para uma outra porta que se abre para um corredor comum a
todos, por onde se executava o serviço.
Uma campainha única, a que se prendiam tantos cordéis
quantos são os beliches, servia outrora para os doentes chamarem os enfermeiros
e os serventes, quando eles tinham necessidade.
Em cada beliche há ainda um armário e um cabide.
Aprecia-se, por certo, em todas estas disposições, o gênio
preventivo dos frades, que não esqueciam nunca as mais simples exigências do
seu cômodo e bem-estar.
Os franciscanos deram sempre lições de habilidade consumada
na arte de viver muito a gosto e com todas as comodidades possíveis, no meio da
pobreza que professam.
Em frente dos beliches, como disse há pouco, e junto da
parede, levantam-se três altares com espaldar, dois nas extremidades e um no
centro.
No primeiro altar aprecia-se um eloqüente painel do Senhor
da Penitência. O painel, o espaldar e os ornatos do altar foram devidos ao
pincel e ao curioso trabalho do célebre frei Solano.
O altar do centro é consagrado a S. Diogo. Nem sempre o foi,
porém. A imagem de S. Diogo substituiu aí a de S. Pascal Bailão, que em breve
teremos de encontrar desterrado, e então contaremos a interessante história de
um golpe de estado que em certa época deu o governo superior do convento de S.
Antônio, pondo fora da enfermaria a S. Pascal Bailão, amado santo da ordem
franciscana e enfermeiro tão nobremente famoso como frei Fabiano de Cristo.
O terceiro altar, enfim, é o de N. S. da Glória ou da
Assunção. É o altar que foi tocado pelo raio e depois renovado a esforços de
frei S.
Carlos. É o altar em que anualmente era celebrada, e ainda
é, a festa da Assunção, tendo, enquanto viveu, pregado sempre por essa ocasião,
e ali mesmo, aquele brilhante orador.
Concluindo aqui este passeio, lembrarei uma coincidência
consoladora e suave, que vem muito a propósito neste lugar.
Quando frei S. Carlos adoeceu da moléstia que tinha de o
levar à sepultura, ou por pedido seu, ou por feliz casualidade, foi trazido
para o beliche que fica em frente do altar de N. S. da Assunção, beliche que
não pode ser confundido, porque é o último.
Ali passou os seus derradeiros dias o eloqüentíssimo
pregador, ali sentiu ele aproximar-se a hora da sua agonia, e ali, enfim,
morreu.
O inspirado cantor da Assunção da Virgem exalou o último
suspiro com os olhos embebidos na sagrada imagem de Nossa Senhora da Assunção.
VI
No precedente passeio tínhamos chegado ao último altar e ao
último leito da enfermaria do convento de S. Antônio. Deixemos, pois, essa
vasta e melancólica sala, antigo teatro de gemidos e de agonias, de belos atos
de caridade e de brilhantes solenidades religiosas, e hoje tão solitária e
muda.
Em seguimento, passemos rapidamente diante da cela chamada
do enfermeiro, que é um posto vago e já naquele lugar inteiramente
desnecessário, espécie de sinecura, que seria um luxo ridículo em uma
enfermaria sem doentes.
É verdade que há um certo gênero de sinecura que é uma
verdadeira mina de caroço. Mas essa da enfermaria do convento de S. Antônio faz
exceção à regra, porque com ela não se vai a caminho do tesouro público.
Não nos demos também ao trabalho de visitar a botica do
convento, que dantes era muito bem provida e inteligentemente administrada, e
que depois caiu em abandono por falta dos seus naturais fregueses, que eram os
frades.
Chegamos depois à enfermaria dos escravos do convento, e
nela nos demoramos apenas breves momentos para contemplar uma capela de N. S.
do Rosário com a sua sacristia ao lado.
Os nossos passos levam-nos agora a uma porta que abre para
um pátio que se alarga na encosta do monte.
Antes de ir além dessa porta, quero contar-vos a história de
uma preocupação que ainda atualmente influi não pouco sobre o espírito dos
frades capuchos do convento de S. Antônio.
Tenho-vos falado tanto, neste e no precedente passeio, em
enfermarias, doentes e finados, que não vem inteiramente fora de propósito uma
história do esquife funéreo.
O convento tem um esquife em que os religiosos que falecem
são levados à sepultura.
O esquife é antigo, está velho, e seus simples e tristes
ornatos ressentem-se do uso e do tempo. É um esquife de cabelos brancos.
Por que não se renova ou substitui o velho esquife? Ah! não
vos lembreis de falar em tal aos religiosos de S. Antônio.
É tradicional entre aqueles frades que o esquife, existente
ainda hoje, serviu pela primeira vez para levar à sepultura o prelado que o
mandara fazer.
Esse fato não passou desapercebido e causou impressão.
Alguns anos depois, outro prelado determinou que se fizesse
não sei que conserto no esquife, e apenas consertado este, foi logo empregado
em levar para o último jazigo o zeloso frade que se lembrara de melhorá-lo.
Esta segunda coincidência pôs os religiosos em sobressalto,
e não houve mais um só deles que concebesse a idéia da necessidade de se tocar
de leve no fatal esquife.
Correu o tempo, e no fim de longos anos, um guardião menos
fraco ordenou que se pregassem umas sanefas no esquife.
Os frades, logo que tiveram notícia de ordem de tal natureza
foram temerosos repetir as tristes coincidências ao seu guardião. Este, porém,
sorriu ouvindo contar o que já sabia, e não insistiu menos no que determinara.
As sanefas tiveram de ser pregadas no esquife, que assim
ornado prestou o seu primeiro serviço, recebendo o cadáver ao pobre guardião.
A terceira coincidência impressionou tão fortemente os
religiosos capuchos, que nunca mais se consertou e se renovou o esquife, que
conserva ainda agora, e já lá vão dezenas de anos, as mesmas sanefas que nele
mandara pregar o infeliz guardião.
Creio que vós estais rindo deste prejuízo dos frades
capuchos do Rio de Janeiro. Mas, se qualquer de vós fosse frade capucho do
convento de S. Antônio hesitaria certamente antes de ordenar que se consertasse
o famoso esquife.
Contei-vos uma ligeira história à porta do pátio e vou
contar-vos outra um pouco menos curta, e talvez do mesmo gênero, aqui mesmo no
pátio.
E por que no pátio?
Porque ali naquele paredão estamos vendo um nicho de pedra e
cal, e dentro dele uma imagenzinha de S. Pascal Bailão, que dantes ocupava o
altar central da enfermaria e que foi desterrada para fora do convento por
motivos muito graves.
A imagem não desperta atenção debaixo do ponto de vista
artístico. Tornou-se, porém, famosa no convento, como ides ver.
Pascal Bailão foi um espanhol notável por suas virtudes.
Tomou o hábito da ordem seráfica, fez-se enfermeiro do seu convento e
enfermeiro quis ser durante toda a sua vida, tornando-se um exemplar de
caridade.
Diz a crônica de S. Pascal Bailão que ele foi um escolhido
de Deus e que, por Deus iluminado, predizia aos seus irmãos a hora fatal em que
deviam morrer, a fim de que eles se preparassem para a jornada dalém-túmulo.
Morreu Pascal Bailão, foi canonizado e a sua imagem teve
altares nos conventos dos franciscanos.
Em seu caráter de santo enfermeiro, recebeu S. Pascal Bailão
muito bem cabidamente um altar na enfermaria dos frades capuchos do Rio de
Janeiro.
Mas, que havia de acontecer? S. Pascal Bailão procedeu no
convento de S. Antônio como procedera no seu convento da Espanha.
É tradicional entre os religiosos capuchos de S. Antônio que
sempre que tinha de falecer algum frade da comunidade na véspera, por volta da
meia-noite, ouviam-se três pancadas rijas, cujo estrondo, partindo do meio da
enfermaria, retumbava em todo o convento e enchia de pavor os religiosos.
Ora, no meio da enfermaria estava o altar de S. Pascal
Bailão.
Aquele sinal era um presságio infalível e fatal. Vinte e
quatro horas depois, havia um frade de menos na comunidade.
Uma vez, soaram as três pancadas à meia-noite, mas nenhum
dos religiosos que se achavam no convento estava doente. Impressionados, porém,
pelo tremendo anúncio, todos se confessaram, e especialmente os velhos se
encomendaram a Deus.
O dia seguinte correu sem novidade. A noite chegou, e nem um
só dos religiosos se sentia doente. Ainda até as 11 horas nada ocorreu. Alguns
minutos, porém, antes da meia-noite, ouviu-se bater à portaria, e daí a pouco,
viu-se entrar no claustro o cadáver de um frade que estava com licença em uma
vila próxima e que falecera de repente, naquele dia.
Era o presságio terrível que se verificava.
Naturalmente os frades andavam temerosos, e de cada vez que
as três pancadas se ouviam, derramava-se terror geral no convento.
S. Pascal Bailão trazia em susto constante os religiosos
capuchos do Rio de Janeiro.
Sendo em outubro de 1796 eleito provincial frei Joaquim de
Jesus Maria Brados, intentou este, de acordo com o seu secretário, o
padre-mestre frei João Capistrano de S. Bento, mudar a imagem de S. Pascal
Bailão para outro lugar, na esperança de ver cessar a continuação de um sinal
que punha sempre o convento em alarma, e para esse fim mandou construir o nicho
de pedra que estamos vendo e que fica em frente do jardim da enfermaria.
Na tarde de um dos primeiros dias do mês de maio de 1799,
teve lugar a trasladação da imagem, ato que foi celebrado com toda a pompa e
presidido pelo provincial e pelo secretário, que conduziram em seus braços a
imagem do santo.
E acabava apenas a solenidade, quando o provincial sentiu-se
acometido de violenta febre, e imediatamente depois, o mesmo aconteceu ao
secretário.
Não houve remédio que triunfasse da moléstia que a ambos atacara.
O provincial faleceu no dia seis de maio daquele mesmo ano.
O secretário morreu no dia seguinte.
E nunca mais se ouviram as três pancadas que soavam,
partindo do meio da enfermaria.
Foi assim que S. Diogo tomou o altar de S. Pascal Bailão, e
que S. Pascal Bailão foi desterrado para o pátio e encerrado em um nicho de
pedra e cal defronte do jardim da enfermaria.
Não sei que fundamentos seguros têm a parte miraculosa da
história que acabo de contar. Não sei avaliar o quinhão com que concorreu para
ela a imaginação exaltada dos religiosos. Sei, porém, e afirmo que tudo quanto
disse é tradicional no convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro.
Deixemos o pátio e continuemos o nosso passeio, entrando de
novo no segundo andar do convento.
Eis aí o salão da biblioteca, salão vasto e bem disposto,
que pode ser constantemente banhado de ar, e que, pela sua situação, está tão
exposto ao vento como livre da poeira que se levanta das ruas da cidade.
Apesar destas felizes condições, os livros da biblioteca,
que cobrem as quatro paredes do grande salão, foram em grande parte atacados
pela traça, que soube pressurosa aproveitar-se de não poucos anos de abandono.
Enquanto se lia pouco, a traça trabalhava muito.
Pois, foi pena, porque a biblioteca é muito rica de obras
antigas, especialmente sobre assuntos teológicos, Filosofia, História e
Geografia.
Atualmente trabalha-se com atividade no convento em limpar e
reencadernar os livros e em organizar com a precisa regularidade o seu
catálogo.
É o único meio de não se perder toda essa riqueza.
Saindo da biblioteca, vamos um pouco além encontrar um
corredor que nos levará ao salão dos provinciais. Antes, porém, de chegar a
esse salão, devemos entrar na secretaria e no consistório do convento, que
ficam no corredor e que foram preparados por ordem do atual e zeloso
provincial, o padre-mestre frei Antônio do Coração de Maria e Almeida, quando
uma parte do primeiro andar da casa teve de ser cedida para o Arquivo Público.
A secretaria da província está em uma sala pequena, mas
decente e bem ordenada, graças aos inteligentes trabalhos que ali foram
ultimamente executados, assim como no consistório que lhe fica contíguo.
O arquivo do convento estava no mais triste desprezo. O
bolor, o bicho e o tempo foram muito tranqüilamente destruindo verdadeiras
preciosidades, de modo que há poucos anos, quando o atual provincial mandou
encadernar os livros dos diversos conventos da província e as coleções
regulares dos antigos manuscritos, achou-se falta de muitos, estrago de outros,
e perda da antiga crônica do convento.
No consistório torna-se digno de atenção o altar, onde se
vê:
uma relíquia do santo lenho em um nicho de primorosa
execução, que ao convento de S. Antônio legou o cardeal Callepi.
Creio que não há o menor inconveniente em dizer algumas
breves palavras a respeito deste cardeal.
D. Lourenço Callepi, arcebispo de Nisibi, era o núncio
apostólico junto à corte de Portugal, quando teve lugar, em 1807, a invasão
desse reino pelo exército francês.
A família real portuguesa preferiu retirar-se para o Brasil
a entregar-se à mercê da política e do despotismo do célebre conquistador
moderno.
D. Lourenço Callepi obedeceu ao dever do importante cargo
que exercia, e logo que lhe foi possível, deixou a Europa e atravessou o
Atlântico para continuar no Brasil a sua nunciatura. Chegou à cidade do Rio de
Janeiro no dia 8 de setembro de 1808, e foi por ordem do príncipe regente
hospedado dignamente no mosteiro de S. Bento.
D. Lourenço Callepi foi, portanto, o primeiro núncio
apostólico que se apresentou no Brasil.
Em 1816, o Papa Pio VII declarou Callepi cardeal presbítero
da santa igreja romana, e a 23 de junho do mesmo ano, o Rei D. João VI pôs o
barrete cardinalício na cabeça do venerando ancião, tendo lugar a solene
celebração desse ato, que era pela primeira vez observado na América, na sala
do trono do palácio real do largo do Paço.
D. Lourenço Callepi bem pouco tempo usou do barrete
cardinalício, porque, no dia 10 de janeiro do ano seguinte, 1818, caiu
fulminado por um ataque de apoplexia, e foi sepultado com grandes honras no
convento de S. Antônio, conforme o desejo que ele próprio manifestara, no caso
de falecer na cidade do Rio de Janeiro.
Frei Francisco de Santa Teresa S. Paio foi o orador sagrado
que se encarregou da oração fúnebre do primeiro purpurado que se sepultou no
Brasil.
Chegamos finalmente ao salão dos provinciais, que não excede
em proporções ao salão dos guardiães.
E ainda aqui temos por único, mas precioso, ornamento do
salão quatro grandes quadros, que são também, como no dos guardiães, quatro
retratos.
Mostram-se nas faces das quatro paredes as imagens de uma
santa, de um rei e de dois imperadores.
A escolhida do Senhor que se acha retratada, se fielmente ou
não, ignoro, é Santa Isméria. Retrato fiei de outro qualquer copiado, ou
simples quadro de imaginação, a obra é de frei Solano, a cuja paleta deve tanto
o convento de S. Antônio.
Os outros retratos são o do rei o Sr. D. João VI e dos dois
imperadores do Brasil, o filho e o neto do mesmo rei.
O retrato do Sr. D. João VI é obra do célebre José Leandro,
e tanto basta para o seu completo elogio.
Já vos disse o essencial do que sei a respeito desse nosso
muito notável artista e, portanto, não me demoro em discorrer de novo sobre
ele.
Em outro tempo, e por um antigo voto dos príncipes da casa
de Bragança, costumavam os soberanos portugueses daquela casa assistir em todos
os anos à festividade do patriarca S. Francisco e jantar no convento com os
religiosos, concorrendo também com uma esmola para a solenidade.
Diz-se que esse voto se fizera no empenho de vencer a triste
fatalidade que persegue a casa de Bragança, fatalidade pela qual se vêem morrer
quase todos os primogênitos varões herdeiros da coroa.
O Sr. D. João VI, desde a sua chegada ao Rio de Janeiro até
ao seu regresso para Lisboa, cumpriu pontualmente esse voto dos seus maiores.
No dia 4 de outubro de todos os anos, ia com a família real assistir à festa do
patriarca, para a qual dava uma esmola de seiscentos mil-réis. Jantava depois
com os religiosos no refeitório, e o pregador do dia era quem o servia à mesa.
Mas, além do cumprimento desse voto, o Sr. D. João VI mostrava ter em grande estima os frades capuchos, e, ou fosse efeito de especial devoção que tivesse com S. Francisco, ou de simpatia pelo convento a que pertenciam os grandes pregadores da época, certo é que não poupava manifestações de interesse, o que muito aproveitava aos capuchos, porque, conforme a regra, todos os cortesãos do príncipe regente e depois rei, ostentavam um verdadeiro entusiasmo pelo santo patriarca, por S. Antônio. Pelo convento, pelos frades, e creio que mesmo até pelo monte.
Sobre
este assunto escreve Vieira Fazenda nas Antigualhas e memórias do Rio de
Janeiro, tomo 95, vol. 149:
“Esta romaria régia ao convento situado outrora a cavaleiro
da lagoa de S. Antônio era devida, ao que dizem, a um voto feito por D. João
IV, quando simplesmente duque de Bragança.
“Caçava este em Vila Viçosa. Apareceu-lhe um mendigo a
pedir-lhe esmola. O duque, que apesar de sangue real, tinha, como todos nós, os
seus azeites, deu um pontapé no pobre pedinte. Este toma ares de nigromante e
roga a seguinte praga: ‘Os primogênitos de sua casa terão vida breve e morrerão
antes de atingir a juventude.’ Aclamado em 1640 rei de Portugal, viu-lhe logo
após morrer seu primogênito, o esperançoso D. Teodósio. Ficou com a pulga na
orelha e fez promessa de alistar-se com os seus entre os irmãos de S.
Francisco, bem como de assistir anualmente à festa do dia quatro de outubro.
Seus descendentes continuaram tão piedosa prática.
“Ao chegar ao Brasil, em 1808, o filho de D. Maria I não se
esqueceu de cumprir também o voto. Excessivamente amigo de frades e muito
carola, D. João tinha razões para logo fazer comércio de amizade com os
capuchos do Rio de Janeiro.
“Nunca pensou em ser herdeiro da coroa. Devia esse fato à
morte do primogênito D. José, o príncipe querido do marquês de Pombal e
falecido na flor dos anos. Lembrava-se sempre o futuro D. João VI que lhe podia
cair o raio em casa e, por isso, nunca faltou à festividade da qual me ocupo.
“De S. Cristóvão vinha em carro de gala, seguido por
esquadrão de cavalaria e acompanhado pela sua corte, composta de fidalgos ou
cabeçudos, como lhes chamava o zé-povinho.
“No largo era saudado pelos vivas do povo embasbacado por
tanto luxo. Subia vagarosamente a ladeira. Parava para ouvir o murmúrio das
águas da Carioca que pelo aqueduto iam cair no reservatório em forma de torre
ainda existente, e daí seguiam, para o antigo chafariz construído por Aires de
Saldanha e Albuquerque. Recebido ao som dos sinos pela comunidade, debaixo do
pálio, assistia à festa e ao Te Deum. Passava todo o dia no convento. Lá
jantava.
“Para dar provas de humildade, sentava-se a uma das pequenas
mesas do refeitório. Servia-se do modesto cardápio dos frades e utilizava-se
dos seus pobres garfos, facas e colheres.
“Da chácara vinham, contudo, em baixelas de prata, as mais
supimpas iguarias, para não dizer menu.
“Pois bem. Dizem cronistas que D. João mandava distribuir
pelos pobres a saborosa pitança.
“Nesse dia, é excusado dizer, os pobres passavam à tripa
forra, e bendiziam o príncipe, que, por amor a S. Francisco, se privava dos
prediletos frangos assados.”
O Sr. D. Pedro I, nos dois primeiros anos do seu reinado,
não foi tão exato como seu pai no cumprimento do voto de que falei. Depois
daquele período, porém, observou constantemente a mesma prática e devoção.
O retrato do primeiro imperador do Brasil tem a data de
1824, e foi obra do hábil pintor Simplício Rodrigues de Sá, um dos primeiros
filhos da nossa academia das belas-artes e discípulo do ilustre Debret, aquele
artista de tão elevado merecimento e sempre tão amigo dos brasileiros.
O retrato de S. M. o Sr. D. Pedro II não tem o nome do autor
e nem me foi possível saber quem executou essa obra, que, aliás, quer me
parecer que em valor artístico não pode competir com os dois retratos
anteriores, e especialmente longe está de disputar primazia ao do Sr. D. João
VI, do nosso habilíssimo José Leandro.
Vou dar por concluídos os nossos passeios ao convento de S.
Antônio da cidade do Rio de Janeiro. Permitir-me-eis, porém, que acrescente
algumas breves informações que não quero deixar esquecidas, e depois direi
enfim duas palavras em despedida.
O convento que acabamos de visitar fez-se outrora muito
notável pelos religiosos mais ou menos eminentes em ciências e belas-artes que
floresceram nele, e diz-se mesmo que os jesuítas o olhavam com os olhos vesgos
por esse motivo.
Deixei lembrados oportunamente alguns dos capuchos de mais
nomeada pertencentes a este convento, e quero agora mencionar os nomes de
alguns outros.
Frei Bernardo do Quintaval foi um desses homens que ainda se
conservam na memória de seus irmãos, apesar de terem morrido há bastantes anos.
Era formado em medicina e químico de grande merecimento. Aborrecido no mundo, e
querendo consagrar-se ao serviço de Deus, vendeu quanto possuía, deu aos pobres
o dinheiro que realizou, veio para o Brasil, e entrando para o convento de S.
Antônio do Rio de Janeiro, professou para o humilde estado de leigo, e
encarregado logo da enfermaria na qualidade de primeiro enfermeiro, ilustrou-se
pela sua caridade e pela sua perícia, sendo sempre ouvido e consultado pelos
médicos, que muito o consideravam.
Além de muitos fatos que abonam o seu saber e a sua
experiência em medicina, conta-se de frei Bernardo do Quintaval que achando-se
um dia almoçando no refeitório da enfermaria com os convalescentes, entre os
quais estava frei Francisco de Mont’Alverne, apareceu-lhe um jovem religioso,
de manto e chapéu, que vinha despedir-se dele e dos outros, porque havia obtido
do provincial uma licença de quinze dias para ir passar fora da cidade. Frei
Bernardo encara-o, levanta-se apressado, pede-lhe que espere e corre à botica.
Mas, voltando logo depois, apenas entra na sala, vê cair o jovem religioso,
sucumbindo a um ataque de apoplexia fulminante.
– Cheguei tarde! – disse frei Bernardo, mostrando uma
lanceta que trazia da botica.
Frei Bernardo do Quintaval morreu no dia 20 de agosto de 1822.
Era dantes costume celebrar-se no convento de S. Antônio,
como em outros estabelecimentos e nos colégios de instrução secundária, uma
festa literária e anual que se chamava defesa de conclusões.
Em uma dessas solenidades, que se efetuou em um dos anos da
primeira metade do século passado, os frades capuchos, tendo previamente
mandado exemplares de algumas teses filosóficas aos homens mais ilustrados da
cidade, reuniram no seu convento o governador, o bispo, os religiosos mais
instruídos das outras ordens, e algumas notabilidades literárias.
O lente de filosofia ocupou a sua cadeira, e quatro jovens
religiosos estudantes tomaram os lugares dos defensores das teses; e depois de
um longo e belo debate, acudiu a atacá-los um notável padre jesuíta que tomou a
peito confundi-los. O lente veio em breve em auxílio dos seus alunos. Sendo,
porém, muito velho e doente do peito, no fervor da luta começou a lançar sangue
pela boca e teve de retirar-se.
A vitória estava, pois, do lado do jesuíta, ou pelo menos
indecisa, quando outro jovem religioso, que contava apenas dezenove anos de
idade e dois de colégio, levantou-se e pediu licença para sustentar a tese.
Travou-se então, e de novo, a luta. Ao jesuíta argüente reuniram-se mais dois
padres da mesma Ordem, e a discussão prolongou-se até ao último momento sem que
o estudante perdesse um palmo de terreno.
O auditório aplaudiu com entusiasmo o talentoso e admirável
mancebo. O bispo convidou o provincial a que desse por concluído o curso para
aquele religioso, e mandou-lhe passar a patente de leitor de filosofia.
Infelizmente, pouco tempo depois, morreu esse esperançoso
jovem, que se chamava frei Antônio de Mont’Alverne.
Uma vez que falei nas defesas de conclusões, quero lembrar,
por curiosidade ao menos, que em outra dessas solenidades e no mesmo convento,
um frade, já padre-mestre, frei Fernando de S. José de Meneses, sustentou
vigorosamente uma tese contra a infalibilidade do papa. Concluído o ato, o
vice-rei Luís de Vasconcelos, que estava presente, mandou trancar no cárcere o
padre-mestre. A ordem foi imediatamente cumprida; mas frei Fernando, auxiliado
pelos religiosos, conseguiu evadir-se. Fugiu para Lisboa, onde alcançou o seu
perdão, e voltou algum tempo depois, firme, porém, na sua opinião, apesar de
ser frade.
O convento de S. Antônio recorda-se ainda com saudade de
frei Antônio de São Elias, que era um grande músico e, sobretudo, um organista
do mais elevado merecimento. Alguns dos nossos velhos falam com entusiasmo de
São Elias. Quando, em 1808, a família real portuguesa chegou ao Brasil, e
começaram as festas suntuosas da capela real, foi esse frade muitas vezes
chamado para tocar ali, e os maiores entendedores da matéria não pouparam
elogios ao rei dos organistas, como o chamava o padre José Maurício.
Uma vez, foi frei Antônio de São Elias encarregado pelo
guardião do convento de compor umas matinas para a festa da ressurreição, que
devia ter lugar no convento, no dia de Páscoa, às duas horas da noite. São
Elias obedeceu, e às cinco horas da tarde do sábado da Aleluia, reuniu no coro
os religiosos músicos para ensaiar as suas matinas. Mas, ou fosse erro do
compositor ou dos executores, notou-se tal desacordo em uma fuga, que alguns
rivais de São Elias começaram a sorrir. Este, irritado, fecha o orgão, arrebata
as músicas, foge com elas e rasga-as.
E às duas horas da madrugada do dia seguinte, cantavam-se
outras matinas, compostas de improviso por frei Francisco de Santa Eulália, que
teve a satisfação de as ver acompanhar no orgão pelo próprio São Elias.
A partitura dessas matinas ainda se conserva no convento.
Entre os muitos cantochonistas que teve o convento,
distinguiu-se sobre todos frei João de Santa Clara Pinto. Suas composições, que
os capuchos guardam com amor, são, ao que dizem, modelos de gosto e de
harmonia. E as últimas que saíram da sua pena bem inspirada, três hinos para a
festa de S. Antônio, passam entre os mestres por admiráveis.
Frei João de Santa Clara Pinto e frei Francisco de Santa
Eulália eram naturais do Rio de Janeiro.
A comunidade dos capuchos, pobre, como requer o seu
instituto, era outrora tão auxiliada pelas esmolas que espontaneamente lhe
vinham trazer os fiéis e pelas que colhiam os religiosos espalhados pelo
interior do Rio de Janeiro, que lhe sobravam os meios para acudir aos
desfavorecidos da fortuna.
Além da refeição quotidiana que muitos pobres recebiam na
portaria, à hora do refeitório, havia uma mesa particular onde outros pobres,
por assim dizer, adotados pelo convento, vinham jantar à mesma hora, sem que
alguém o soubesse, alem do guardião e do leigo empregado nesse serviço.
Muitas famílias necessitadas recebiam também auxílios do
convento, que no princípio de cada mês mandava levar-lhes boa provisão de
diversos gêneros alimentícios. Segundo notas particulares existentes no
convento, ainda em 1827, sendo guardião o padre-mestre frei Joaquim de S.
Jerônimo Sá, cinqüenta famílias indigentes recebiam esse grande benefício.
Hoje não se pode observar o mesmo fato, pelo menos com o
desenvolvimento e a extensão do tempo passado. As circunstâncias são outras,
são diversas. Ao esplendor do passado seguiu-se uma triste decadência.
Agora as minhas duas palavras em despedida.
Ninguém se lembrará de acusar-me de má vontade para o
convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro.
Sou amigo de não poucos religiosos, tanto franciscanos como
de outras Ordens, mas faltaria à verdade, se fizesse protestos de amor pelas
instituições monásticas.
Não negarei jamais os serviços relevantes que em outros
tempos prestaram à humanidade muitos conventos e diversas Ordens.
Mas todas as instituições têm seu tempo, todas florescem
mais ou menos, depois envelhecem e tornam-se anacrônicas, quando não se
reformam ou não se transformam, conforme as exigências da civilização e do
progresso.
Se erro pensando assim, peço a Deus que me perdoe e que me
ilumine.
Não sou, portanto, favorável às ordens monásticas. Tenho,
porém, não direi que é pela ordem dos franciscanos, mas pelo convento de S.
Antônio da cidade do Rio de Janeiro, uma espécie de veneração que provém talvez
das recordações do passado.
Não posso olhar para esse convento que não me venha logo
encantar a lembrança daquelas gloriosas recordações, daqueles pregadores
inspirados de que se ufanam o Rio de Janeiro e todo o Brasil, daqueles
eloqüentes frades que souberam pregar o Evangelho e a liberdade – a lei de
Cristo, enfim.
Doeu-me, por isso, extremamente, observar em uma época não
muito antiga, pois que não fica aquém de vinte anos a indisciplina e um
lamentável desregramento laborando funestamente no convento, onde vivia ainda,
embora cego, o representante das glórias do passado dos capuchos fluminenses, o
célebre Mont’Alverne.
Doía-me ver a miséria ao pé do túmulo.
Felizmente, o convento moribundo ergueu a fronte e lavou o
pó da desmoralização que o estava conspurcando, restabeleceu a disciplina, e
desde alguns anos, se faz notável pela ordem, regularidade e observância dos
preceitos do seu patriarca.
Esta regeneração não é a vida certamente, não é uma
brilhante esperança de futuro, é somente o esplendor da consciência ao pé da
sepultura, é a agonia da resignação, e o cumprimento do dever em face da morte
e, portanto, é porventura mais nobre ainda do que se fosse a expressão da
confiança no futuro.
Os últimos frades capuchos que habitam o convento de S.
Antônio do Rio de Janeiro fazem como os antigos romanos dos derradeiros tempos
da República. Antes de receber o golpe da morte, compõem com todo o esmero os
seus vestidos para caírem decentemente.
E fazem bem, procedendo assim.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Igreja de S. Pedro
I
SE OS NOSSOS clérigos seculares e os frades beneditinos e
carmelitas, porventura, de algum modo se ressentiram de que, antes de ocupar-me
com o templo especial dos primeiros e com o mosteiro e convento dos segundos,
eu dirigisse em primeiro lugar não poucos passeios ao convento de S. Antônio ou
dos nossos religiosos franciscanos, positivamente não têm razão para isso.
Creio que nenhum se queixou, nem se podia queixar, não só
porque não há aqui matéria de preferência, pois que vou passeando e hei de
continuar a passear sem regra nem sistema, como porque, se acaso se desse uma
questão de precedência, eu me decidiria ainda a favor dos franciscanos.
Perguntam-me por quê? É muito simples a resposta.
Foi frei Henrique, um religioso franciscano, o primeiro que
fez ouvir a palavra de Deus e que celebrou o santo sacrifício da missa em uma
praia do Brasil, quando Pedro Álvares Cabral, desembarcando em Porto Seguro,
rendia graças ao Altíssimo pelo descobrimento da nova terra que ele chamou
então ilha de Vera Cruz.
Assim pois, antes dos clérigos seculares que acompanharam os
primeiros donatários de capitanias hereditárias do Brasil, já tinha aparecido e
deixado a lembrança de seu nome nesta bela parte da América meridional um frade
da ordem seráfica. E o gentio que foi encontrado pelos portugueses, quarenta e
nove anos antes de ter visto a roupeta do jesuíta, havia já contemplado o vasto
e negro hábito do franciscano.
Mas realmente não foi esta consideração histórica que me
determinou a visitar em primeiro lugar o convento de S. Antônio. Visitei-o
então pela mesma razão por que hoje vou visitar a igreja de S. Pedro, isto é,
porque devo, quero e hei de passear por onde me parecer, e nos meus passeios
demorar-me um pouco onde houver coisas que referir e recordações que avivar.
Vamos, pois, à igreja de S. Pedro.
Quando estudastes geometria, meus bons amigos, aprendestes
certamente em uma definição muito cediça que “linha reta é o caminho mais curto
de um ponto a outro”.
Declaro que desconfio da verdade desta definição, porque,
sem dúvida alguma, a experiência já tem demonstrado que o caminho mais curto de
um ponto a outro nem sempre é pela linha reta, ou então teremos de reconhecer
que se chega muitas vezes mais depressa a um ponto dado, desprezando as retas e
preferindo as curvas.
Os políticos são, neste caso, decididos inimigos dos
geômetras, e apreciam os caminhos mais curtos de um modo diverso. Julgam que as
retas ou são cheias de perigos que podem demorar as viagens, ou terrivelmente
maçantes pelas conveniências e considerações que se devem respeitar no caminho,
e de ordinário preferem seguir as curvas que os livram de muitos embaraços, e
enganam assim os tolos, que os supõem viajando para o norte, quando eles têm os
olhos fitos no sul.
A linha reta dos geômetras é, portanto, uma famosa peta, ou,
como já disse um espirituoso escritor francês, linha reta é coisa que não
existe.
Estudemos o caso também conosco.
Ficamos ultimamente no convento de S. Antônio, e tendo agora
de dirigir-nos à igreja de S. Pedro, que devemos fazer para chegar mais
depressa àquele ponto?
Observando a definição dos geômetras, procuraríamos seguir a
linha mais reta possível e, portanto, desceríamos pela escadaria da ordem
terceira de S. Francisco e, atravessando o largo da Carioca, iríamos pela rua
da Vala até à de S. Pedro, por onde chegaríamos enfim à igreja.
Pois bem. Afirmo-vos que não é esse o caminho mais curto que
se nos oferece, e declaro-vos que, para chegarmos mais depressa, deixando o
morro de S. Antônio, havemos de ir à igreja de S. José, da igreja de S. José
voltaremos à de Nossa Senhora do Parto, e daí então subiremos pela rua dos
Ourives até à igreja de S. Pedro.
Protestais contra o meu plano itinerário? Perdeis o vosso
tempo. Os abusos do sistema eleitoral desacreditaram completamente no Brasil o
recurso dos protestos. Já não há protestos que prestem. O que hoje em dia opera
recursos inacreditáveis é a sublime descoberta das duplicatas. Arranjai,
portanto, uma duplicata de passeio, se não quereis sujeitar-vos ao meu gosto, à
minha direção e até mesmo ao meu capricho.
Partamos para a igreja de S. José, e aproveitemos o caminho
conversando um pouco.
Cumprindo-nos hoje visitar o templo que na cidade do Rio de
Janeiro foi pelos padres erigido a S. Pedro, o príncipe dos apóstolos, não é
por certo fora de propósito dizer duas palavras sobre a história dos padres no
Brasil.
Não tenho conhecimento do nome de clérigo secular algum que
viesse ter ao Brasil e no Brasil ficasse, antes do ano de 1532. Neste ano,
porém, fundou Martim Afonso de Sousa as duas colônias de S. Vicente e de
Piratininga, e, visto que Pero Lopes de Sousa, irmão daquele, nos diz que nas
duas vilas se pôs tudo em boa ordem de justiça, do que a gente toda tomou
grande consolação, com verem povoar vilas e ter leis e sacrifícios, celebrar
matrimônios, etc., não me resta dúvida alguma da assistência de padres nessas
colônias nascentes, porque, do contrário, não se celebrariam matrimônios.
Três anos depois, começaram a chegar ao Brasil alguns e talvez não poucos padres, acompanhando os primeiros donatários ou os delegados destes, que vinham lançar os fundamentos das suas capitanias hereditárias.
Mas, preciso é confessá-lo, os padres entraram com o pé
esquerdo na terra de Santa Cruz e não era muito de presumir que entrassem com o
direito.
Os padres que naquela época foram chegando não deviam ser
dos mais recomendáveis, nem pela sua ilustração, nem por uma grande moralidade,
porque os donatários, que no reino recrutavam nas últimas camadas da sociedade
a gente de que precisavam para criar os seus estabelecimentos coloniais, por
certo que não teriam mui zeloso cuidado na escolha dos clérigos que fizeram
vir.
E aqui chegados, esses padres, livres completamente de todo
o freio da disciplina, separados do reino pelo Atlântico, misturados
constantemente com a gente que tinha vindo com eles e com a gente que
encontravam na nova terra, isto é, em relações contínuas quase sempre com a
desmoralização e sempre com a selvatiqueza, tornaram-se em breve tempo os que
eram bons em maus e os que eram maus em péssimos; em uma palavra,
perverteram-se os que ainda não se achavam pervertidos, e pouco a pouco
asselvajaram-se todos.
Entretanto, esta repreensível e vergonhosa situação era, não
direi desculpável, mas, pelo menos, muito explicável. O batalhão clerical
estava espalhado por diversos pontos, e em nenhum deles reconhecia chefe a quem
obedecesse e respeitasse. Vivia em abandono e lutando com privações, não via
quadros de virtude, esbarrava a cada passo diante do espetáculo dos
desregramentos e dos vícios dos colonos, ou da natureza bruta e também da
natureza nua do gentio.
A torrente era, pois, violenta e arrebatadora, e os padres,
que são pecadores como todos os outros filhos de Adão e Eva, deixaram-se, levar
uns por gosto e por fraqueza outros; de modo que em 1549, quando se organizou o
governo-geral da América portuguesa, encontraram-se nas colônias existentes
todos ou quase todos os padres estragados pela corrupção e divorciados da
Igreja, tendo cada um deles a sua caboclinha ao lado.
Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, e os jesuítas
que com ele chegaram em 1549 confessaram muito francamente que, no empenho da
regeneração moral das colônias, foi o clero que lhes custou mais a fazer tomar
o bom caminho.
O padre Nóbrega, chefe dos jesuítas, escrevia, falando da
relaxação dos costumes: “Os seculares, com toda razão, tomam o exemplo dos
sacerdotes, e o gentio o de todos.”
O infeliz Pedro Fernandes Sardinha, primeiro bispo do
Brasil, dizia em 1552, em uma carta ao rei, tratando dos abusos dos
eclesiásticos: “Nos princípios, muito mais coisas se hão de dissimular que
castigar, maiormente em terra tão nova.”
Eis aqui por que eu comecei dizendo que os padres tinham
entrado com o pé esquerdo na terra da Santa Cruz.
E também já nessa época a terra tinha perdido o seu nome
sagrado, e recebido outro de inspiração toda mercantil. O santo madeiro
levantado por Cabral em Porto Seguro estendia debalde os seus dois braços sobre
a imensa colônia portuguesa. O tráfego do pau-brasil fizera esquecer a
invocação da cruz. Não se adorava o Cristo, rendiam-se cultos a Pluto.
Mas tornemos aos padres.
Dizem que o oficial é quem faz o soldado. Asseguram os
entendidos nas coisas militares que não há soldados maus nem covardes, quando
são comandados por bons e intrépidos oficiais.
Eu creio que se pode dizer do clero o mesmo que se diz do exército.
São os bispos que fazem o clero. Desde que os bispos, além
de sábios e moralizados, são zelosos, dedicados e severos, os padres vão
seguindo as suas pisadas, e brilham também por sua vez pelo zelo e pela
dedicação.
A criação do bispado da Bahia começou a melhorar pouco a
pouco, mas sensivelmente a situação do clero; e por certo que se devia, contar
com a sua desejada regeneração, se algumas lamentáveis ocorrências e um
subseqüente e fatal acontecimento não viessem perturbar a obra santa de Pedro
Fernandes Sardinha.
O nosso primeiro bispo intrigou-se com o governador-geral
que sucedera a Tomé de Sousa, e a tal ponto se perturbaram as relações entre
ambos que o bispo foi chamado a Lisboa, e como é sabido, naufragou e caiu nas
mãos do gentio feroz, que o devorou sem piedade.
Facilmente se compreende a falta que deveria ter feito o
bispo logo no princípio do seu empenho regenerador do clero, falta que só se
preencheu três anos e meio depois da morte do venerando mártir.
Os fundamentos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
foram lançados no tempo do segundo bispo D. Pedro Leitão. Continuou, porém, o
sistema de mandar para o Brasil degradados e gente sem escolha, ou antes,
colonos escolhidos desajeitadamente. E ainda mais, sobreveio poucos anos depois
o domínio espanhol, e como uma das suas lamentáveis conseqüências, o
enfraquecimento do prestígio e da força da autoridade em muitos pontos do
Brasil, e o natural desgosto da população colonizadora.
Não é, pois, de admirar que também entrassem os padres com o
pé esquerdo no Rio de Janeiro.
Os bispos habitavam na cidade do Salvador; as outras cidades
e vilas nascentes distavam muito daquela capital, as comunicações eram
dificílimas, e por conseqüência, ressentia-se de tudo isso a disciplina.
Onde estava o bispo mostravam-se mais zelosos e dignos os
padres. Onde ele não estava, onde se sentia fracamente a sua influência, a
desordem e os abusos continuavam.
Os primeiros sacerdotes que tomaram a seu cargo o curativo
das almas dos habitantes da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, fundada
em 1567, foram jesuítas, e desses não posso lembrar-me sem gratidão pelo que
fizeram naquela época, e ainda durante muitos anos além dela, o que, aliás, não
implica com a profunda convicção que tenho das suas perniciosas tendências e
dos males que fizeram em tempos posteriores.
O primeiro pároco da então única freguesia de que constava a
cidade de S. Sebastião foi o padre Mateus Nunes, presbítero do hábito de S.
Pedro, que entrou no exercício do seu cargo em princípios de 1569.
No entanto, vieram chegando à nova colônia diversos clérigos seculares.
Em 1577, recebeu a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro
um prelado independente da jurisdição do bispo da Bahia. Desde essa época,
porém, até a criação do bispado do Rio de Janeiro, as desordens, as lutas e as
desinteligências com os diversos prelados que se sucederam foram de tal
natureza e importância, que eu não posso senão reconhecer e lamentar a profunda
desmoralização dos colonos e dos padres da nascente povoação.
O primeiro prelado foi o padre Dr. Bartolomeu Simões
Pereira, que, depois de resistir a uma oposição odienta e desregrada, teve de
retirar-se, provavelmente em 1592, para a capitania do Espírito Santo, onde
acabou, dizem as memórias do tempo, com suspeitas de envenenado.
O segundo prelado foi o padre dr. João da Costa, que,
perseguido como o seu antecessor, no Rio de Janeiro, pensou ir achar sossego na
vila de S. Paulo: mas aí mesmo viu-se injuriado e até apupado na rua, e morreu
sob o peso de desgostos e de afrontas, depois de deposto do seu cargo por
sentença da relação da Bahia.
O terceiro prelado foi o padre dr. Mateus da Costa Aborim,
que, do ano do 1607 ao de 1629, experimentou a mesma oposição, que, aliás,
tornou ainda mais forte pelos seus próprios excessos e violências, atacando a
autoridade civil e até excomungando a câmara municipal. Lutou, pois, com
energia e às vezes com descomedimento e morreu, dizem alguns, envenenado, como
o padre Bartolomeu Simões Pereira.
Seguiram-se ao padre Dr. Aborim, interinamente, porém, o d.
abade de S. Bento, frei Máximo Pereira, por nomeação do bispo da Bahia,
protestando o clero da cidade do Rio de Janeiro não demitir de si a eleição do
prelado interino em qualquer outra vacância. E no fim de quatro meses o padre
Pedro Homem Albernaz, por nomeação do clero. Frei Máximo Pereira retirou-se
para Lisboa e o padre Albernaz serviu até 1632, escapando ambos às intrigas e
às hostilidades já acostumadas pelo cuidado que tiveram de deixar apenas sentir
a sua influência no exercício do cargo que ocuparam.
O novo prelado que o rei nomeou foi o padre dr. Lourenço de
Mendonça, que, a 9 de setembro de 1632, começou a exercer as suas funções e,
daí a quatro dias, experimentou logo os efeitos de um ódio inexplicável que se
demonstrou em libelos infamatórios, em uma tentativa de assassinato por meio de
um barril de pólvora que fez arder parte da casa do prelado num ousado plano de
o prenderem e abandonarem fora da barra em um navio desaparelhado, ardil
criminoso de que conseguiu escapar a vítima, e na acusação enfim de um fato
escandaloso, pelo qual teve o padre Mendonça de responder ao Santo Ofício,
merecendo ser por este absolvido.
Ao padre Lourenço de Mendonça foram-se sucedendo: O padre
Pedro Homem Albernaz, outra vez interinamente, a quem se imputou grande parte
na desordem dos jesuítas com a câmara e que, em verdade, tomou com decisão o
partido deles, excomungando a todos os que tivessem concorrido para a expulsão
desses religiosos.
O padre dr. Antônio Marim Loureiro, que escapou a uma
tentativa de assassinato em São Paulo, e vendo-se exposto a horríveis
perseguições no Rio de Janeiro, partiu para a capitania do Espírito Santo, onde
(escrevem Pizarro e outros, não sei com que fundamento) lhe foi propinado um
veneno que o privou da razão.
E além de dois que serviram interinamente: O padre Dr.
Manuel de Sousa e Almada, nomeado a 12 de dezembro de 1658. Foi por mais de dez
anos hostilizado e atacado como os seus antecessores, chegando a ousadia dos
inimigos a assestarem uma peça de artilharia carregada com bala, na noite de 5
ou 6 de março de 1668, contra a casa de sua residência, e a lançarem-lhe fogo,
conseguindo felizmente o prelado escapar a tão indigno atentado e
inacreditavelmente os perpetradores deste à devassa que então se tirou e de que
teve de pagar as custas a própria vítima que, cansada de tanto sofrer,
determinou retirar-se para Portugal.
O padre Dr. Francisco da Silveira Dias, natural do Rio de
Janeiro, provou a fortuna adversa dos outros prelados e provocou o
ressentimento e a inimizade do povo, deixando-se dominar e iludir pelos
jesuítas a ponto de, a instâncias e persuasões do reitor dos padres da
companhia, fazer publicar uma tremenda excomunhão contra os que cortavam mangue
nas marinhas fronteiras às terras desses padres.
E com o nome do padre Silveira Dias fecha-se a lista dos
simples prelados do Rio de Janeiro, que subiu à categoria de bispado, recebendo
no mês de dezembro de 1681 a jurisdição prelatícia o padre Sebastião Barreto de
Brito, vigário da paróquia da Candelária, a quem o bispo d. José de Barros de
Alarcão nomeara governador do bispado.
Essas desordens vergonhosas, essas tentativas de crimes
horrorosos, esses crimes inauditos que se realizaram, esses fatos escandalosos,
enfim, que se repetiram impunemente durante cem anos, patenteiam bem claramente
a desmoralização da cidade do Rio de Janeiro.
Eu disse que ia conversar sobre a história dos padres no
Brasil, e Deus me livre de atribuir exclusivamente aos padres do Rio de
Janeiro, que naqueles cem anos viveram, as culpas de tantos e tão abomináveis
atentados.
A culpa deve recair mais ou menos sobre todos. Deve recair
sobre as autoridades civis, que eram ou deviam ser quase sempre coniventes com
os criminosos, pois que estes logravam sempre escapar ao castigo e se exaltavam
com a impunidade. Também deve recair sobre os prelados, que quase todos
ultrapassavam os limites de suas atribuições, invadindo com abuso e arrogância
a esfera da autoridade civil. Deve-se atribuir aos jesuítas, que lavravam
sempre a mina em benefício próprio, e não hesitavam em comprometer os prelados
e expô-los à animadversão pública, desde que isso podia aproveitar aos seus
interesses. Deve-se atribuir também, e muito, aos clérigos seculares, que, uns
por ambição de cargos mais ou menos importantes e outros por indisciplina e
desenfreamento, fomentavam a desordem e atiçavam a anarquia.
Em uma palavra, a desmoralização era geral. Clero, nobreza e
povo estavam todos pervertidos.
Como, porém, e por que bastou a presença dos bispos para
fazer serenar toda essa tempestade que incessante se desfechava sobre as
cabeças dos simples prelados?
Esta pergunta é muito grave e exige uma resposta tão longa
como bem fundamentada, resposta que agora não posso ou não quero dar, mas que
provavelmente darei, quando chegar nos meus passeios ao palácio da Conceição.
Todavia, apesar dessa depravação dos costumes, os padres,
que também se achavam profundamente afetados da moléstia geral no Rio de
Janeiro do século XVII, começavam pelo menos a mostrar-se devotos; e se por um
lado se aviltavam com a mais repreensível indisciplina, por outro se abraçavam
com os santos do Céu, e especialmente com o príncipe dos apóstolos.
E neste momento chegamos muito a propósito à igreja de S.
José, que no tempo de que vos falo era apenas uma simples
ermida.
Dizia eu, pois, que os padres do Rio de Janeiro não se
descuidavam do culto e da devoção, e tanto foi assim que no princípio do século
XVII reuniram-se eles de acordo comum e resolveram fundar uma irmandade dos
clérigos de S. Pedro.
Que bom padre teve essa idéia não sei. Em que ano foi ela
realizada também ignoro. Mas é verdade que a irmandade dos clérigos de S. Pedro
é uma das mais antigas na cidade do Rio de Janeiro e devia ter tido princípio
antes de 1539, porque nesse ano um tal Gonçalo de Távora, por verba
testamentária, mandou dizer algumas missas a S. Pedro na ermida de S. José.
Ora, na ermida de S. José foi que os padres estabeleceram a sua irmandade, que,
sem dúvida, começou com o caráter de simples devoção.
O desamor aos papéis velhos, o descuido e o abandono a que
entregam livros, apontamentos e memórias ao bolor e à traça tornaram os
primeiros tempos da nossa história em uma noite mais ou menos profunda, em que
se anda às apalpadelas à procura de tudo, e até mesmo à procura do berço da
irmandade do santo príncipe dos apóstolos, do santo que tem as chaves das
portas do Céu.
Não pude dizer o ano em que começou a devoção de São Pedro,
e não posso marcar o ano em que teve princípio regular e legal a irmandade que
do prelado do Rio de Janeiro, Manuel de Sousa e Almada, recebeu o seu
compromisso.
E – coisa singular! – monsenhor Pizarro, que nas suas
Memórias do Rio de Janeiro lança sobre todas estas coisas a maior luz possível,
desesperado de não poder determinar as suas datas com o testemunho dos vivos,
apela para o testemunho dos mortos, e com os mortos se arranja. Assim, no
primeiro caso, foi o defunto Gonçalo Lopes de Távora que lhe disse com a sua
verba testamentária – a devoção de São Pedro começou antes de 1639. E na
questão do compromisso da irmandade, é ainda o defunto Francisco Dutra de Leão,
falecido a 25 de agosto de 1661, quem, determinando no seu testamento que o
acompanhasse no seu enterro a irmandade de S. Pedro dos clérigos, e não sendo
obedecido “por isso não estar em uso”, ensina a monsenhor Pizarro que para isso
não estar em uso era necessário que muito antes do ano de 1661 já estivesse
organizada a irmandade.
Realmente é bem triste que se ande a pedir aos mortos
explicações das coisas deste mundo.
Organizada a irmandade dos clérigos de São Pedro, continuou
o príncipe dos apóstolos a ser por ela festejado na ermida de São José durante
todo o resto do século XVII. Está, porém, decidido que ninguém pode, nem mesmo
as imagens dos santos, morar em casa alheia.
A irmandade de S. José achou-se, de súbito, fatigada da
hospitalidade que prestava a irmandade de S. Pedro, e desde que assim se
sentiu, começou a manifestar cada vez mais franca e bem claramente a sua má
vontade.
Por fim de contas, brigaram em nome de São Pedro e de São
José as competentes irmandades.
Não vos admire essa briga de devotos e de filhos da mesma
Igreja. Muito pior do que a irmandade de S. Pedro sucedeu ao cabido da Sé, que
andou da igreja de S. Sebastião para a da Santa Cruz e desta para a do Rosário,
sempre aos empurrões, e maltratado e humilhado, até que descansou de tantos
trabalhos, acolhido na capela real e hoje imperial.
E nem vos pode surpreender essa briga de católicos em nome
de santos, porque não há abuso que se não tenha cometido à sombra dos mais
sagrados objetos. Para não amontoar desagradáveis recordações, basta lembrar as
torturas e as abominações praticadas e as horrorosas fogueiras da Inquisição,
acesas pelos dominicanos em nome do Deus de piedade, de misericórdia e de
perdão.
As questões e desinteligências entre as irmandades de São
Pedro e de São José acabaram como naturalmente deviam acabar. Os donos da casa
venceram. São José ficou na sua ermida e São Pedro foi despedido e posto na
rua.
Já nesse tempo, estava criado o bispado do Rio de Janeiro, e
o nosso segundo bispo, D. Francisco de S. Jerônimo, foi presente, no dia 23 de
setembro de 1705, à mudança da irmandade de São Pedro da ermida de São José
para a igreja de N. Sra do Parto, onde permaneceu tranqüila durante perto de
trinta anos.
Ainda então não havia sido fundado o recolhimento de N. Sra
do Parto, e longe estava a noite pavorosa de 24 de agosto de 1789, em que o
incêndio por pouco não devorou de todo e a um tempo a casa do recolhimento e a
igreja contígua.
Mais de cinqüenta anos antes dessa catástrofe, a imagem de
S. Pedro ocupava já o altar-mor da sua pequena, porém, interessante igreja.
É coisa enfadonha passar sempre a vida em casa alheia.
A irmandade dos clérigos de São Pedro acabava de ganhar um
poderoso protetor no bispo D. frei Antônio de Guadalupe, e animada por ele,
determinou fundar um templo consagrado a São Pedro.
O padre Francisco Barreto de Meneses doou, por escritura de
9 de outubro de 1732, celebrada na nota do tabelião Manuel Salgado Cruz, um
terreno com dez e meia braças de testada e treze de fundo, na rua então chamada
do Carneiro, à igreja de S. Pedro, para a obra da qual o bispo Guadalupe
concorreu logo com alguns mil cruzados.
A construção do novo templo foi deliberada por termo de 2 de
agosto de 1733, e a primeira pedra foi lançada pelo bispo protetor.
Servia nesse ano de provedor da irmandade o Padre João
Álvares de Barros, vigário colado na freguesia de N. Sra do Pilar de Iguaçu,
que, aliás, não teve o prazer de testemunhar a conclusão da obra, pois faleceu
a 9 de setembro daquele mesmo ano, e por expressa recomendação testamentária,
foi enterrado no lugar que deveria ser o recinto da igreja de S. Pedro.
Dir-se-ia que, ainda depois de morto, o ativo e dedicado
provedor queria velar pela pronta execução daquele templo que fora objeto dos
últimos e desvelados empenhos da sua vida.
Compreendeis, meus caros e bons companheiros de passeio, que
uma igreja, ainda mesmo pequena como é a de S. Pedro, não se pode levantar em
um dia. Enquanto, pois, o arquiteto dirige a obra que planejou, os pedreiros
levantam as paredes, os entalhadores preparam os ornamentos com que a sua arte
deve enriquecer e embelezar os altares, procuremos nós tomarmos conhecimento
com essa nova e muito veneranda personagem que acabei de apresentar-vos como
fervente protetor da irmandade dos clérigos de S. Pedro.
É um bispo, é frei Antônio de Guadalupe.
Deveras que seria imperdoável não saudarmos com respeito e
gratidão este bispo venerando e prestimoso.
Fá-lo-emos, pois, recordando alguns dos seus grandes
serviços. Deixai-me, porém, descansar alguns momentos.
II
A 27 de setembro de 1672, nasceu na vila de Amarante, no
reino de Portugal, aquele que devia ser, cinqüenta e três anos depois, o quinto
bispo do Rio de Janeiro.
D. frei Antônio de Guadalupe, filho do desembargador
Jerônimo de Sá da Cunha e de D. Maria Cerqueira, ambos de nobre estirpe, foi
destinado a seguir a brilhante carreira de seu pai; e depois de tomar o grau de
bacharel em ciências canônicas na Universidade de Coimbra, e de passar em
seguida pelas necessárias provas no desembargo do paço em Lisboa, foi escolhido
para exercer o cargo de juiz de fora do cível na vila Trancoso.
O jovem magistrado reconheceu em breve ou que não entendia
bem as leis dos homens, ou que certos homens as não queriam entender como ele.
Acreditou que a justiça devia ser igual para todos e que os privilégios da
nobreza não deviam ter tanta força que entortassem as leis em seu benefício; e
teve, em conseqüência, de sofrer viva oposição dos privilegiados de Trancoso,
até que, aborrecido de pesar direitos na balança de Astréia, convenceu-se
de que somente podia ter fé na balança de S. Miguel.
O direito torto dos grandes da terra espantou o jovem
magistrado, que se resolveu a ir caridoso rezar por esses opressores e por
todos os descendentes de Adão e Eva, e transformou-se de juiz em frade,
recolhendo-se à clausura da observância de S. Francisco, em Lisboa.
E foi um frade exemplar, como tinha sido um magistrado
imparcial e reto.
Frei Antônio de Guadalupe era já muito vantajosamente
conhecido como orador sagrado eloqüente e consciencioso, quando el-rei D. João
V o nomeou para a mitra fluminense aos 25 de novembro de 1723, sendo esta
nomeação confirmada pelo papa Benedito XIII, em 20 de fevereiro de 1725, e a 13
de maio seguinte sagrado o novo bispo, que tomou posse, por seu procurador, em
2 de agosto do mesmo ano.
De novembro de 1723 ao ano de 1725 não perdeu D. frei
Antônio de Guadalupe o seu tempo. Procurou antes aproveitá-lo esmeradamente. E
quereis saber como?
Admirai a pobreza de espírito deste ilustrado religioso.
D. frei Antônio de Guadalupe, formado em ciências canônicas,
considerado como um clérigo sábio, célebre pelos seus triunfos no púlpito,
notável pelos profundos conhecimentos que tinha bebido nos livros em vinte e
dois anos de estudo e de meditação no plácido retiro do claustro, D. frei
Antônio de Guadalupe, que era velho e mestre, apenas teve conhecimento da sua
nomeação para chefe da igreja fluminense, partiu para Braga, onde foi ouvir e
aprender os ditames do pastoral ofício com o arcebispo primaz das Espanhas, D.
Rodrigo de Moura Teles, exemplar dos prelados.
Ou esse ato de D. frei Antônio de Guadalupe foi uma pasmosa
puerilidade, ou os tempos estão muito mudados.
Por que não se improvisavam então, como hoje se improvisam,
sábios e beneméritos? Que se observa hoje? Vejamos.
Sai um mocetão da academia de S. Paulo ou de Pernambuco,
formado em Direito, e, se é nhonhô, isto é, se é filho, sobrinho ou parente
chegado de algum senhor velho, de algum membro daquela classe de privilegiados
que atiraram D. frei Antônio de Guadalupe da magistratura para o convento – se
é nhonhô, disse, encarta-se logo na presidência de alguma província. Da
presidência da província, salta para a câmara temporária, da câmara temporária
pula para o ministério. Uma questão de três pulos dados em alguns meses; e em
duas palhetadas e meia, o nhonhô, que não foi ouvir as lições de nenhum mestre,
que não teve noviciado, nem tempo para ler mais do que os prólogos de alguns
livros, é declarado estadista de fama e salvador da pátria!
Como diabo se arranja esta magicatura?
Eu só lhe acho uma explicação.
Vivemos no século do vapor, e atualmente tudo se faz a
vapor, até mesmo os estadistas e os salvadores da pátria.
E é também por isso que o Brasil vai a vapor. Para onde? Não
sei. Só Deus o sabe.
Em D. frei Antônio de Guadalupe teve o bispado do Rio de
Janeiro um dos seus mais zelosos e beneméritos pastores.
Um dos grandes empenhos deste ilustre bispo foi moralizar e
instruir o clero fluminense, e conseguiu-o em máxima parte, não admitindo ao
estado clerical senão candidatos recomendáveis por seus costumes sãos e por sua
vida honesta, não distribuindo empregos e honras senão aos que de uns e de
outras se tornavam mais dignos pelo seu merecimento próprio. Não dando ouvidos
nem aos segredinhos da intriga, nem às solicitações do patronato, e não
alimentando um só instante os ciúmes entre os padres nascidos em Portugal e os
nascidos no Brasil, que, aliás, mutuamente se hostilizavam de um modo
inconvenientíssimo.
Bastaria este procedimento para a glória e recomendação do
nome de D. frei Antônio de Guadalupe. Ele, porém, fez mais, e deixou-nos em
livros de pedra e cal a história dos seus eminentes serviços.
Para evitar que os eclesiásticos que fossem por seus delitos
condenados à reclusão se misturassem com os seculares criminosos, para dar-lhes
enfim uma casa de prisão especial, fundou o Aljube, para onde se transferiu a
cadeia geral em 1808, e onde atualmente se reúne o tribunal do júri do
município da corte.
Como prisão destinada exclusivamente aos padres, o Aljube
tinha proporções tão vastas, que eu não sei mesmo o que pensava o bispo, quando
o mandou construir.
D. frei Antônio de Guadalupe foi ainda o fundador do
seminário episcopal de S. José, a que deu princípio em provisão de 3 de
fevereiro de 1739, a benefício da mocidade e do Estado, e isentando-o da
jurisdição paroquial.
Também ao mesmo bispo se deve a fundação do seminário dos
órfãos de S. Pedro, que depois tomou o nome de seminário de S. Joaquim e, há
alguns anos, passou a ser Imperial Colégio de Pedro II.
Enriqueceu com diversos presentes e dádivas algumas igrejas
da cidade, e especialmente concorreu para a obra da igreja de S. Pedro com a
avultada esmola de alguns mil cruzados, como já ficou dito, e depois doou, para
o serviço e ornato do mesmo templo, diversas peças de prata.
De como pôde fazer tanta coisa em tão pouco tempo D. frei
Antônio de Guadalupe, explica-se pelos milagres da solicitude, da energia e da
dedicação.
Infelizmente para o Rio de Janeiro, D. frei Antônio de
Guadalupe foi chamado para a mitra de Viseu. Embarcou-se, e saiu no dia 25 de
maio de 1740, a bordo da nau Nossa Senhora da Glória, capitânea da frota.
Chegando, porém, a Lisboa, morreu poucos dias depois de haver desembarcado,
pois que exalou o último suspiro no dia 31 de agosto de 1740, nos braços dos
seus irmãos, os religiosos do convento de S. Francisco.
Eis aqui o dístico com que o magistral cronista perpetuou a
memória desse venerando bispo:
Templa Deo, purisque scholae me Praoesule, justis; Proemia
dona malis proemia, carcer adeste.
Temos tomado conhecimento com o ilustre D. frei Antônio de
Guadalupe, de quem, aliás, terei ainda de falar algumas vezes. Agora cumpre
continuar a história da igreja de S. Pedro.
No presente passeio deixei lançada a primeira pedra da
igreja de S. Pedro. E como ignoro o nome do arquiteto que deu o plano desse
templo, e não tenho a referir circunstância alguma que ocorresse durante a
execução do trabalho, julgo melhor dar desde já a obra por acabada, e conduzir
os meus companheiros de passeio ao lugar em que essa igreja se levantou, e
ainda hoje se mostra, como é de esperar que por muitos séculos se conserve.
Vamos, pois, subindo pela rua dos Ourives, que parece
condenada a perder dentro em pouco o seu nome, ou pelo menos a razão do nome
que recebeu. Porque é um fato que ela se vai despovoando de ourives. Chegamos,
enfim. É aqui. A igreja de S. Pedro está situada na rua dos Ourives, canto da
rua de... Como a chamarei eu?
É uma rua que tem tido pelo menos quatro nomes.
Em 1619, ou antes desse ano, chamava-se Rua do Carneiro, por
morar nela (entre as dos Ourives e da Quitanda) uma senhora muito respeitável e
estimável de nome Ana Carneiro.
Diz o monsenhor Pizarro que, com a fundação da igreja de S.
Pedro, perdeu a rua aquele nome. Creio, porém, que há mais tempo já o havia
perdido, porque, segundo se lê em um dos livros do tombo da Ilma. Câmara
Municipal, essa mesma rua denominava-se, em 1705, rua de Antônio Vaz Viçoso, e
em 1717, rua do desembargador Antônio Cardoso, passando finalmente a chamar-se
rua de S. Pedro.
Segue-se destas diversas denominações que a rua mudava de
nome conforme as celebridades que iam nela residindo, o que me faz esperar que
não perderá mais nunca o nome de S. Pedro, que há 128 anos lhe foi dado.
Porque, apesar de todos os dotes e merecimento que possam ter, as celebridades
deste mundo não ousaram disputar primazia ao porteiro do Céu.
Daí, quem sabe?
Estamos, pois, em frente da igreja de São Pedro. Como,
porém, eu protestei e protesto que não respeitarei nenhuma espécie de sistema
nem de regularidade nos meus passeios, em vez de dar-vos agora a descrição
desse pequeno, mas elegante templo, vou continuar a ocupar-me da irmandade dos
clérigos de São Pedro e de duas instituições que a ela se prendem.
A irmandade dos clérigos de São Pedro começou sendo composta
exclusivamente de padres. Pelo correr dos anos, porém, quebrou-se algumas vezes
esse exclusivismo, sendo por especial favor admitidos nela alguns indivíduos
seculares que contribuíam com a esmola de quatrocentos mil-réis, naquele tempo,
sem dúvida, muito avultada.
O primeiro secular que invadiu a irmandade dos padres foi
Pedro de Sousa Pereira, provedor da fazenda real, e depois deste, Martim
Correia Vasqueanes, governador da praça em 1666, e Martim Correia Vasques,
mestre-de-campo de um dos terços de infanteria, e que em 1679 ocupou o Governo
do Rio de Janeiro.
Já se vê que não bastavam quatrocentos mil-réis para que
qualquer abrisse as portas da irmandade dos clérigos de S. Pedro. A honra era
subida, e somente a alcançavam aqueles que gozavam de grande poder e influência
na terra.
Vieram, porém, as obras da igreja de São Pedro desfidalgar a
irmandade pela precisão que houve de dinheiro, e não só se facilitou a muitos a
entrada para ela, como se reduziu a jóia ou esmola a duzentos mil-réis.
Acabando-se enfim por admitir no seu grêmio seculares de ambos os sexos.
Apesar de se achar de posse de uma igreja sua, a irmandade
dos clérigos de S. Pedro não passou logo a gozar uma vida tão plácida como
provavelmente calculava. Não teve mais de sofrer as impertinências da irmandade
de S. José. Mas viu-se em luta com o vigário da freguesia, depois com o cura do
Sacramento, e até se achou não pouco embaraçada, tendo de cumprir certas honras
fúnebres que eram e são pelos estatutos concedidas aos irmãos seculares.
Determinava um artigo dos estatutos da irmandade que os
irmãos sacerdotes carregassem para a sepultura os irmãos seculares finados. Fez
disso questão o padre José da Fonseca Lopes, mestre de cerimônia do bispado,
apelando para o ritual de Paulo V e para Bauldry, de modo que ficou suspensa
aquela disposição até que, ouvida no assunto a Sagrada Congregação dos Ritos,
foi decidida a gravíssima questão em favor da irmandade, que pôde assim ver os
irmãos sacerdotes carregando os irmãos seculares finados.
Hoje em dia, e creio que em todo o sempre, tanto na
irmandade de S. Pedro como fora dela, faz-se e fez-se menos cerimônia e
dificuldade em carregar aos ombros os vivos, ou fazer dos ombros escada para os
vivos, principalmente quando estes, além de vivos, são vivatões.
A irmandade dos clérigos de S. Pedro reputava-se isenta de
todo e qualquer direito paroquial, fazendo todas as suas funções dentro e fora
da igreja sem a concorrência do pároco territorial, porque assim o estabelecia
um artigo dos seus estatutos, reformados em 1732 pelo bispo D. frei Antônio de
Guadalupe. Mas chegou o dia em que o vigário da freguesia, Inácio Manuel da
Costa Mascarenhas, veio perturbar esse privilégio da irmandade, querendo que,
de mistura com o corpo da irmandade, fossem sacerdotes não irmãos acompanhar o
cadáver de um irmão secular.
Travou-se questão veemente, e para evitar novas e iguais
disputas, acudiu o bispo D. frei Antônio do Desterro com uma provisão que
decidiu todas as dúvidas em favor da irmandade.
E, levado do empenho de prevenir outras desagradáveis
contestações para o futuro, o mesmo bispo isentou, por provisão de 15 de
setembro de 1762, a irmandade da jurisdição paroquial, concedendo-lhe os
privilégios em direito permitidos para que ela, por seus provedores e legítimos
substitutos, pudesse celebrar todos os atos festivos e fúnebres
independentemente do pároco.
Esta provisão foi confirmada pelo Papa Pio VI, no breve
apostólico de 8 de março de 1776, que mereceu o beneplácito régio por aviso da
secretaria de Estado dos negócios do reino de Portugal, de 18 de agosto de
1780, tendo sido executado nesta cidade e julgado por sentença definitiva do
ordinário, publicada a 7 de junho de 1781.
Não obstante a isenção concedida, rebentou inesperadamente
outra contestação entre o cura da freguesia da Sé e a irmandade, por ocasião de
encomendar-se um irmão dentro da própria igreja de S. Pedro.
Ao ato da encomendação achou-se presente o cura da Sé, que
era então o Padre bacharel Antônio Rodrigues de Miranda, pretendendo ter a
primazia no ofício que se ia celebrar, direito que lhe foi negado pelo padre
provedor da irmandade, que era o Cônego João de Figueiredo Chaves Coimbra.
O cura bacharel e o provedor cônego travaram-se de razões, e
a disputa assumiu um caráter tão sério, ou antes, desceu a uma briga tão baixa,
que o cônego provedor teve a feliz inspiração de mandar fechar as portas da
igreja, a fim de evitar que, com o testemunho do público, o escândalo se
tornasse muito maior.
A questão foi levada ao conhecimento do Bispo D. José
Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, que, depois de ouvir a irmandade
e reconhecer os seus direitos, sentenciou contra o cura bacharel.
O que mais me admira, recordando estes fatos, é que todas
estas disputas rompessem entre os vigários e a irmandade de S. Pedro, sempre
por causa de defuntos!
Apesar dos leves embaraços criados por estas contestações
sem fundamento nem importância, exceção feita de questão da independência
paroquial, que devia naturalmente ser de muita significação para os vigários da
freguesia da Candelária, foi a irmandade de S. Pedro se desenvolvendo e
robustecendo pouco a pouco.
De uma simples instituição que era, a princípio, passou a
irmandade a compreender três instituições. De um único patrimônio que possuía,
passou a ter e a administrar três patrimônios.
As três instituições são: a irmandade propriamente dita, o
coro e os socorros aos sacerdotes e irmãos pobres.
Os três patrimônios correspondem às três instituições.
Continuo a história da irmandade em particular, e em seguida
falarei de cada uma das outras duas instituições.
A irmandade de S. Pedro teve a sua época de florescimento no
século passado, a começar do bispado de D. frei Antônio de Guadalupe, e chegou
animada e esperançosa até alguns anos depois de 1830.
Durante esse século de prosperidade, preencheu sempre os
seus fins, prestando à religião, ao Estado e aos membros que a compunham todos
os serviços que eram possíveis esperar dela.
Não posso deixar de trazer à memória dos meus companheiros
de passeio um fato que seria uma ingratidão condenar ao esquecimento.
Quando, em 1823, o governo imperial, escutando um brado
patriótico de muitos brasileiros, aceitou uma contribuição mensal para compra
de navios de guerra que deviam servir na luta gloriosa da independência, a
irmandade de S. Pedro não se esquivou, como, aliás, podia fazer, ao cumprimento
de um santo dever de patriotismo; e por deliberação da sua mesa administrativa,
de 26 de fevereiro daquele ano, sendo então provedor o ilustrado Cônego Luís
Gonçalves dos Santos, assinou uma contribuição de oito mil-réis por mês, no
espaço de três anos.
A quantia pode parecer pequena aos ricos. Não o era, porém,
para a irmandade; e além de tudo, a manifestação dos sentimentos patrióticos
que ela apresentou com esse ato é de sobra para fazer-lhe honra.
Em 1828, querendo o Sr. D. Pedro I estabelecer ou reunir em
uma sala da Academia das Belas-Artes uma coleção de quadros recomendáveis pelo
seu merecimento, a irmandade de S. Pedro, que tinha então por seu provedor o
Monsenhor Duarte Mendes de Sampaio Fidalgo, ofereceu um quadro de S. Pedro e S.
Paulo, que passava por primoroso, e cujo autor sinto que não tivesse ficado em
lembrança. Sendo, porém, certo que o ministro do Império mostrou em um ofício
de agradecimento dar muito apreço àquela oferta.
Sujeita às condições humanas, a irmandade de S. Pedro chegou
ao termo dos seus tempos felizes com a administração do falecido vigário de
Santa Rita, José Francisco da Silva Cardoso, e desde então foi pouco e pouco
decaindo, e por tal modo, que ao sistema desvelado dos administradores que
tivera sucederam o abandono e anarquia, tornando-se a própria igreja famosa
pelo desleixo e incúria com que a deixavam em um estado realmente vergonhoso.
É quase incrível o que se passou e se observou na igreja de
S. Pedro até ao ano de 1853, em que foi eleito provedor o Monsenhor Antônio
Pedro dos Reis, que, enérgico e decidido, encetou uma verdadeira obra de
regeneração, cortando por todos os abusos.
Para se fazer uma simples idéia do extremo lamentável a que
se viu reduzida a irmandade de São Pedro, copiarei algumas linhas de um ou
outro artigo do relatório que o Monsenhor Antônio Pedro dos Reis entregou ao
seu sucessor e a nova mesa administrativa, em 1856. Tratando das obras da
igreja, diz esse documento:
“Todos vós vos recordareis ainda do estado de vergonhosa e
mesmo de criminosa indecência a que tinha chegado o belo templo da vossa
venerável irmandade! Templo que, pertencendo a uma corporação de sacerdotes,
devia primar entre outros administrados por seculares, principalmente quando a
fervorosa piedade dos antigos irmãos fundadores o tinha dotado com um
patrimônio suficiente para sua conservação e decência. Pois, bem: esse templo
imundo e quase em ruínas, com o qual tinham acabado de gastar quase oito contos
de réis, como se vê das contas do ano de 1852, nós vô-lo entregamos agora digno
do culto etc.”
Falando da prata da igreja, diz o ex-provedor:
“É doloroso, senhores, o que sou obrigado a informar-vos a
respeito do artigo prata. Quando tomamos posse desta administração, não
encontramos nos armários da nossa igreja alguns objetos de prata, e entre esses
duas lâmpadas que possuíamos. Achamos, sim, os inventários de 1851 para traz
falsificados nesses artigos, e o que primitivamente parecia ter sido escrito –
duas lâmpadas de prata – estava borrada ou escrito (emendado para) – duas
almofadas de damasco: o roubo de pedaços e de peças de prata e outros objetos
estragou-os de tal forma que, para poderem servir, foi preciso fazer-se uma
despesa de novecentos e tantos mil-réis em consertos e algumas substituições de
peças roubadas e indispensáveis. Fazendo esta exposição, senhores, mui longe
estou de querer fazer pesar sobre meus irmãos que fizeram parte das mesas
transatas qualquer desar na sua probidade e honradez. Não. Estou convencido que
todo este deplorável acontecimento só proveio das facilidades com que tudo
abandonavam para não se incomodarem muito.”
O arquivo da irmandade mostrava-se em espantosa confusão. A
administração econômica, ruinosa e tristíssima. Tudo enfim indicava desmazelo,
desprezo e incapacidade administrativa.
O Monsenhor Antônio Pedro dos Reis mostrou no triênio em que
foi provedor o quanto podem uma dedicação vigilante, uma vontade firme, uma
constância inabalável e a disposição decidida de bem-servir, sem atender a
comprometimentos e desafeições.
O Monsenhor Antônio Pedro dos Reis foi como um novo
fundador; ou pelo menos foi o restaurador da irmandade de S. Pedro.
A administração seguinte (de 1856 a 1859) sustentou todas as
reformas da sua antecessora e prosseguiu no mesmo caminho, encetando novos
trabalhos cujo resultado foi o brilhantismo com que hoje se mostra a irmandade,
e a harmonia e decência que se observam nas cerimônias que se praticam.
Esta administração dotou a irmandade com um órgão novo, que mandou vir da Alemanha. Desterrou da igreja de S. Pedro a música profana, fazendo louvar o Senhor em sua casa com música religiosa. Como sinal de reconhecimento aos seus irmãos benfeitores, mandou colocar na sacristia e salões da igreja os seus retratos para perpetuar-lhes a memória. Determinou celebrar na igreja de S. Pedro, pela primeira vez, e em seguida em todos os anos, os mistérios da paixão e morte de N. S.
Tipo de ônibus, de fabricação francesa, usado no Rio de
Janeiro em 1850
Lutando com uma dívida de 9:000$, tomada por três anos a
juros de 10%, e com outra e enorme dívida de cera, que tinha necessariamente
passado de administração em administração, conseguiu pagar a primeira e mais os
juros, que subiam a 1:800$. Pagou ainda a segunda, que se tornara célebre.
Comprou o novo órgão na importância de 6:000$. Fez grandes melhoramentos com a
aquisição de paramentos novos, cortinas ricas para as portas e roupa branca
para a sacristia. E entregou enfim a administração, deixando a irmandade sem
dívidas.
Sem dúvida alguma, as administrações que têm de seguir-se a
essa ilustrar-se-ão, prestando serviços de igual magnitude, como a atual o está
fazendo.
O patrimônio especial da irmandade de S. Pedro consta
atualmente do seguinte: cinqüenta e seis apólices de um conto de réis e duas de
quatrocentos mil-réis, e oito moradas de casas, oue rendem
7:160$329.
Além deste patrimônio, a irmandade tem uma fonte de renda
nas anuidades dos irmãos não remidos, e nas jóias dos novos irmãos e de certos
mesários.
Adivinho que vos achais fatigados, e que me íeis pedir para
terminar aqui este passeio.
Vou fazer-vos a vontade, anunciando-vos outro um pouco menos
árido e um pouco mais divertido, na próxima ocasião.
III
A instituição do coro da irmandade de S. Pedro tem a data de
1764, e foi devido à piedade de Manuel Vieira dos Santos, um bom católico, que
habitava em Minas Gerais, por detrás do morro do Rio do Peixe, termo da vila de
Sabará.
Manuel Vieira meditava desde alguns anos criar na capitania
das Minas uma colegiada para o serviço e louvor de Deus. Que série de
dificuldades veio embaraçar a realização do seu piedoso intento nessa parte do
Brasil, não estou no caso de apreciar. Certo é, porém, que, inabalável na sua
idéia, conseguiu esse homem fazer efetuar na cidade de S.
Sebastião do Rio de Janeiro o que não lhe fora possível
executar em Minas.
Aos 13 de junho de 1764, passou Manuel Vieira dos Santos, no
arraial de N. Sra da Penha, termo de Vila Nova da Rainha, uma procuração ao seu
irmão Domingos Tomé da Costa, e à venerável ordem terceira de S. Francisco, no
Rio de Janeiro, autorizando-os especialmente para em seu nome instituírem nesta
cidade “meio coro de música em a irmandade do Senhor S. Pedro, para os que lhes
aplicava de esmola a quantia de quarenta e dois mil cruzados, para a dita
irmandade por juros etc.”.
A 2 de agosto de 1764, lavrou-se a competente escritura no
consistório da igreja de S. Pedro; e como nesse documento se acham
especificadas todas as circunstâncias e condições da doação, julgo conveniente
reproduzi-lo aqui na sua quase totalidade, ficando todos os meus companheiros
de passeio com a mais completa liberdade de darem um salto por cima da
escritura se não julgarem conveniente lê-la e apreciá-la:
“Fazia doação de hoje para sempre de 42 mil cruzados à dita
irmandade, para na igreja dela se estabelecer perpetuamente um coro, que se
comporia de cinco capelães, um presidente e quatro meninos de coro, com as
cláusulas abaixo declaradas que valeriam como postas no limen da presente
instituição; que, para fundo e patrimônio do dito coro, aplicava ele
instituidor 42 mil cruzados, os quais logo a dita irmandade poria a juros, com
as seguranças necessárias, ou empregaria em bens estáveis e rendosos, para os seus
réditos se distribuírem pelos reverendos capelães e mais pessoas destinadas
para o presente coro, e que os dois mil cruzados, de que mais faria doação à
dita irmandade, esta os despenderia no que fosse preciso para os preparos do
mesmo coro, e para pagar as porções dos reverendos capelães e mais pessoas
destinadas, enquanto o fundo ou patrimônio não produzisse réditos suficientes;
que ele instituidor nomeava a dita irmandade imperpetuum et solidum
administradora do dito coro, a qual cedia e traspassava de hoje para todo o
sempre o direito de padroado do dito coro, para o efeito de a ela pertencerem
as nominatas e apresentações de todos os reverendos capelães. Porém, que no
presente limen reservava e queria que na capela-mor da dita igreja se lhe
designasse uma sepultura para jazigo do seu corpo, para nele ser sepultado,
quando suceda morrer nesta cidade. E falecendo nas Minas, onde se acha, queria
fossem trasladados para a dita sepultura a sua custa; que para primeiros
capelães no limen da presente instituição poderia a dita irmandade nomear e
apresentar quaisquer reverendos sacerdotes que bem lhes parecessem idôneos,
depois de cujas primeiras nominatas, sucedendo vagar qualquer das referidas
capelanias por morte, renunciação, delito, ou por outro qualquer modo dos
expressos em direito, seria a dita irmandade obrigada a nomear e apresentar
para a capelania vacante o parente ou consangüíneo dele instituidor,
concorrendo nele os requisitos necessários, com preferência aos mais, para o
que vagando alguma capelania por algum dos referidos modos, fixará a dita
irmandade editais nos lugares públicos, por trinta dias, dentro dos quais,
aparecendo algum parente ou consangüíneo dele instituidor, concorrendo nele os
requisitos necessários, preferirá ao que estiver em grau mais próximo, sem
preferência entre os provenientes por linha masculina ou feminina. E estando em
igual grau, poderá a dita irmandade gratificar a qual delas lhe parecer. E
quando dentro do dito mês dos editos não comparecer parente ou consangüíneo algum
dele instituidor, poderá a dita irmandade nomear para a capelania vacante a
pessoa que lhe parecer ser idônea, sobre cuja eleição onera ele instituidor as
consciências dos mesários que a esse tempo servirem, a quer que esta ordem
inviolavelmente se observe in perpetum que reconhecendo os inconvenientes
contingíveis em serem manuais e amovíveis as capelanias, principalmente nas
expulsões dos providos que pela maior parte se fazem por ódios, vinganças e sem
justificadas causas, de que se poderão originar multiplicados pleitos, é
vontade dele instituidor que as presentes capelanias sejam perpétuas, não
havendo causa suficiente por onde a dita irmandade os deva expulsar; que
havendo-a, o poderá fazer. E que, como para o referido é preciso autoridade
ordinária in limine, quer outrossim, ele instituidor, que os reverendos
provedores e mais mesários desta irmandade apresentem a instituição ao Exmo e
Revmo bispo deste bispado, do qual implorem a sua autoridade para a ereção das
ditas capelanias antes de formarem os estatutos para o seu regime, e que,
feitos estes, lhos apresentem juntos com esta, que no princípio deles se
incorporará para o dito senhor haver por bem de os confirmar: que, querendo ele
instituidor favorecer aos estudantes e mais pessoas pobres, a fim de se poderem
ordenar a título das presentes capelanias, é sua vontade que para elas possam
ser nomeadas e apresentadas quaisquer pessoas de limpo sangue, tendo 2l anos de
idade, e daí para cima, contanto que se ordenem dentro de dois anos inclusive;
que todos e quaisquer capelães que forem providos nas ditas capelanias terão
obrigação de rezar as Horas Canônicas de manhã e à tarde, congruentes às festas
de cada dia, com mais ou menos pausa, conforme a celebridade, e que outrossim
terão obrigação de dizer missa quotidiana, que será celebrada no fim do coro,
de manhã, a que vulgarmente chamam missa conventual, assim como se pratica nos
mais coros desta cidade, com a declaração que, por ora, enquanto não houver
maior número de capelães do que o estipulado, será a dita missa rezada. Porém,
correndo o tempo e havendo maior número de capelães do que o estipulado, se
praticará com a dita missa o mesmo que se pratica no coro da freguesia de N.
Sra da Candelária, e os ditos reverendos capelães não poderão receber esmola
alguma anual pela dita missa, e menos lhes será livre a aplicação dela, por ser
vontade indispensável do instituidor que pela sua alma seja aplicada, e também
sua vontade que todos os dias se lhe cantem dois Memento, um de manhã, outro à
tarde, e aos sábados, no fim de Completas, uma ladainha cantada a N. Senhora,
com verso e oração. E no oitavário de defuntos será o mesmo coro obrigado a
fazer-lhe um ofício de nove lições com missa cantada, tudo pela alma do
instituidor e de seus parentes; que todos os reverendos capelães serão
obrigados à residência pessoal do coro às Horas Canônicas, sendo-lhes só
permitidas em cada ano as faltas que por direito são permitidas aos reverendos
capelães ou cônegos das catedrais ou colegiadas, e fazendo mais faltas em cada
um ano, além das referidas, se procederá contra eles na forma que se procede
contra os reverendos cônegos, até sentença de privação inclusive; que a dita
irmandade terá obrigação de dar contas todos os anos do rendimento, receita e
despesa, e sobras, havendo-as, e, como a administração das presentes
capelanias, as une ele instituidor insolidum et in perpetuum à dita irmandade,
que é da jurisdição eclesiástica, não só por ser ereta por autoridade
ordinária, mas também por ser administrada por clérigos: quer o instituidor que
a dita irmandade dê as referidas contas todos os anos ao Exmo e Revmo Sr. Bispo
desta diocese, ou aos seus reverendíssimos ministros, aos quais pede queiram
tomar todos os anos e exatamente as ditas contas, e achando sobras em cada um
ano, as incorporarem ao fundo e patrimônio, em ordem a se ir aumentando o
rendimento, e por conseqüência o número das capelanias; que a dita irmandade
fará, como já se disse, os estatutos que achar são convenientes para o bom
regime do presente coro com declaração que serão em conformidade das cláusulas
acima apontadas, sem que neles possam estabelecer coisa alguma que direta ou
indiretamente se encontre a elas; que a dita irmandade passará carta de
nominata ou apresentação aos providos, com as quais os ditos recorrerão ao Exmo
e Revmo Bispo deste bispado para as mandar confirmar, sem o que não poderão
tomar posse das ditas capelanias; e que, como por ora a dita irmandade tem esta
administração do dito coro sem prêmio, quer, e é sua vontade que, havendo rendimentos
suficientes, tenha a mesma irmandade por prêmio o mesmo que se pratica no coro
da igreja da Candelária; e para a celebração desta escritura impetraram eles,
reverendo provedor e mais mesários, licença do dito Exmo e Revmo Sr. bispo
desta diocese, que lhe foi concedida por despacho dado em a sua petição, como
dela melhor se verá, que ao diante se copiará. E por esta mesma escritura,
disseram eles ditos reverendos provedor e mais mesários, se obrigam quanto é
necessário e em direito se requer de fazer a diligência de pôr a juro em poder
de pessoas que sejam reputadas e conhecidas por abonadas, ou empregarem em bens
estáveis os referidos quarenta mil cruzados, com a brevidade que lhes for
possível, e com a mesma cuidar-se se louve o Senhor no referido coro. E logo no
ato desta mesma escritura, pelo dito Domingos Tomé da Costa foi entregue a dita
quantia de quarenta e dois mil cruzados em boas moedas de ouro corrente neste
reino e estado, que eles, ditos reverendo provedor e mais mesários contaram, receberam
e acharam certos, sem falta alguma.”
Tal foi a origem do coro da igreja de S. Pedro. O ouro das
minas, o ouro arrancado ao seio da terra foi sujeito ao sagrado fogo da
piedade, e perdendo a sua natureza metálica, transformou-se em cantos e orações
que se erguem ao Senhor.
Na forma da provisão de 11 de novembro de 1764, passada pelo
bispo, D. Frei Antônio do Desterro, instituiu-se o coro com seis capelães.
Mas o exemplo de Manuel Vieira dos Santos achou imitadores.
Em 1770, o Cônego Manuel Freire fez para o mesmo fim doação
à irmandade de S. Pedro de duas casas de sobrado situadas no fim da rua do
Ouvidor, para o lado da praça da Sé Nova, que é a que hoje e desde muito se
chama largo de S. Francisco de Paula, e que então se chamava da Sé Nova, pelas
obras da nova Sé, que acabaram servindo para o edifício em que está
estabelecida a escola militar,44 e que nos deixaram um provérbio que sempre se
faz lembrar, quando se trata de obras públicas.
Com a doação devida ao Cônego Manuel Freire, aumentou-se
mais um capelão aos seis que compunham o coro da irmandade, e esta ficou com o
encargo de uma missa rezada pela alma do instituidor, no dia do aniversário da
sua morte, e de um memento cantado no coro.
Em 1790, Belchior Soares deixou por seu falecimento um
legado à irmandade para subsistência ou aumento de outro capelão do coro, uma
casa na rua do Sacussarará, que depois se denominou rua da Quitanda, e que
outrora assim se chamara por um motivo que eu não ignoro, mas não quero dizer,
porque estou tratando de um assunto muito sério e não devo provocar o riso aos
meus companheiros de passeio.45
Finalmente, o Bispo D. José Caetano, em consideração do
aumento das rendas do patrimônio do coro, elevou a dez o número dos
beneficiados ou capelães, e aumentou as côngruas destes.
O Bispo D. Frei Antônio do Desterro, em provisão de 29 de novembro de 1764, deu estatutos para o regime do coro, estatutos que foram reformados com aprovação do nosso atual e venerando bispo em 1854, como se vê da provisão de S. Exa Revma de 27 de outubro desse ano.
“O trecho entre a Rua do Carmo (7 de Setembro) e a do
Ouvidor (então de Gadelha) recebeu diversos nomes, tais como travessa de Lucas
do Couto, de Tomé da Silva, do Malheiros e do Sacussará. Davam este último nome
ao canto onde tem sede o estabelecimento Borlido. Houve quem pensasse que
Sacussará é de origem tupi! “Conta-se a seguinte anedota:
“Certo morador da rua passou mal a noite por força de
incômodos para os quais a medicina moderna emprega os preparados de hamamelis
virginica (hemorróidas). Ao chegar de manhã à janela, dá de cara com um
vizinho, cirurgião (sic) inglês. Este inquire do doente a causa dos seus males.
‘Oh! Isto não é nada. Faz isto (aconselha ao doente um remédio) e
seu...sarará.’
“O inglês dera o nome aos bois. Serviu-se de um termo que as
conveniências mandam calar.”
O patrimônio da instituição do coro da irmandade de S. Pedro se compõe de cento e treze apólices de 1:000$, de duas de 800$, de cinco de 600$, de uma de 400$ e de quinze moradas de casas que rendem 14:550$000.
Cumpre notar que o número de apólices relativamente avultado
que aparece, tanto no patrimônio do coro, como no da irmandade, é em sua máxima
parte o fruto da conversão de prédios que a irmandade e o coro possuíam. A
venda desses prédios e a compra de apólices foram uma medida financeira da
administração do monsenhor Antônio Pedro dos Reis, medida que deu em resultado
um aumento de renda, o que é uma útil e excelente lição que deve ser
aproveitada por todas as corporações de mão-morta, quando o país, mostrando-se
em mais animadoras condições econômicas, puder oferecer-lhes as vantagens que
em 1854 e 1855 ofereceu à irmandade de S. Pedro.
Tenho dito quanto sei a respeito da instituição do coro os
irmandade de S. Pedro. Passo, portanto, a contar a história da terceira e
última instituição, que é a dos socorros aos sacerdotes e irmãos pobres, que me
parece, em verdade, a mais interessante de todas, por alguns episódios e
algumas circunstâncias que a ela se prendem, e de que não dão conta as memórias
e os manuscritos que se podem consultar; mas que eu consegui ler em alguns bons
e conscienciosos arquivos de oitenta e noventa anos, arquivos que pouco a pouco
vão desaparecendo, como desapareceremos todos.
Em 25 de julho de 1756, o irmão secular Antônio Fernandes
Maciel fez à irmandade de S. Pedro doação da quantia de 800$, para que com os
juros desse dinheiro se dessem anualmente, no dia de Todos os Santos, dezesseis
esmolas de 1$ cada uma a dezesseis pobres de mais necessidades, à eleição da
mesa, preferindo-se na distribuição os próprios irmãos. Ficando, além disso, a
irmandade obrigada à pensão de quatro missas anuais e dois responsórios por
alma do instituidor.
Esta doação era em verdade tão insuficiente para produzir socorros aproveitáveis aos irmãos necessitados, e além disso, as condições com que ela se fizera tão facilmente permitiam que as fraquíssimas esmolas fossem dadas a pobres que não pertencessem ao grêmio da irmandade de S. Pedro, que não é admissível referir àquele ano de 1756 o princípio da instituição de que vou tratar.
A instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da ir
mandade de S. Pedro começou em 1812, e foi devida à caridade do sargento-mor
Alexandre Dias de Resende.
Quero dizer-vos alguma coisa a respeito deste homem piedoso,
cuja história deixaram esquecida os nossos escritores, e apenas hoje se pode
colher da memória dos bons velhos, últimos representantes que nos restam do
século passado.
Alexandre Dias de Resende era homem pardo. Seu pai tinha
sido um carpinteiro laborioso e econômico, que lhe deixara uma pequena fortuna,
que ele soube aumentar pouco a pouco, entregando-se ao comércio, de modo que,
além da sua casa mercantil, adquiriu também a propriedade de uma grande chácara
no caminho de Mataporcos para
S. Cristóvão.
Entre parêntesis: o sítio que atualmente e desde muitos anos
é chamado Mataporcos começou provavelmente a ser denominado Mata dos Porcos,
porque ali havia um arvoredo silvestre terminando no mangue, e nessa mata se
criavam numerosas varas de porcos, que se matavam para alimentação dos
habitantes da cidade. É de crer que depois se corrompesse a denominação
primitiva. E fecho aqui o parêntesis.
A fortuna ou tal qual riqueza de Alexandre Dias de Resende
era explicada pelos invejosos e murmuradores de um modo menos honroso para ele.
Diziam que, descobrindo um tesouro enterrado junto de uma árvore no lugar do
Jogo da Bola, no morro da Conceição...
E abro de novo outro parêntesis: o Jogo da Bola de que se
trata neste caso ficava perto da antiga fortaleza da Conceição, e não se deve
confundir com outros dois Jogos da Bola que então existiam, um perto do lugar
em que hoje se vê a igreja de Sacramento, e outro nas imediações da atual Rua
de Bragança. Os Jogos da Bola eram lugares de numerosa e alegre reunião.
Conclui-se disto que no século passado jogava-se muito a bola na cidade do Rio
de Janeiro. Hoje, porém, não havendo tantos jogos da bola, dá-se mais
freqüentemente no vinte.
E torno a fechar o parêntesis.
Diziam, pois, que Resende, descobrindo um tesouro enterra do
junto de uma árvore no lugar do Jogo da Bola, no morro da Conceição, de todo o
dinheiro se apoderara, sem respeito aos direitos de quem se devia considerar
seu verdadeiro dono. Entretanto, a vida inteira de Resende faz crer que essa
história de tesouro enterrado não passou de um aleive levantado contra aquele a
quem não perdoaram o acidente da cor, apesar do merecimento que tinha, e que
lhe deu força para conquistar uma certa consideração.
Depois do conhecimento dessa calúnia, forjada para nodoar a reputação de Resende, não admira saber-se que este era objeto de sátiras e de zombarias. E como nas pequenas povoações – e a cidade do Rio de Janeiro não era grande naquele tempo – é costume darem-se alcunhas a muita gente, não pôde Resende escapar à regra terrível, e era chamado o Focas Tirano.
Nada disso, porém, pôde amesquinhar ou obscurecer as boas
qualidades de Resende.
Quando o terceiro vice-rei do Brasil, homem que tinha nove
nomes, D. Luís de Almeida Portugal Soares Eça de Alarcão Melo Silva e
Mascarenhas, e de quem, apesar disso, não se pode dizer que maior foi o nome do
que a pessoa, quando o marquês de Lavradio, terceiro vice-rei do Brasil,
organizou completamente os quatro terços ou regimentos auxiliares da cidade do
Rio de Janeiro, dispôs que o quarto regimento fosse o regimento dos
pardos, e foi Alexandre Dias de Resende nomeado capitão ele uma das companhias
do quarto terço, o que indica bem que Resende era digno de estima e de
confiança.
Mas o quarto terço ou o terço dos pardos teve por comandante
o Major Melo, oficial português, austero na disciplina. Às vezes, porém, tão
violento e desatencioso, que sacrificava, sem o pensar, a própria disciplina.
Os pardos do quarto regimento, repetidamente vítimas do
gênio desabrido e frenético do seu comandante quiseram ver na escolha de um tal
chefe uma prova da má vontade que lhes tinha o marquês de Lavradio, e
procurando a origem da suposta má vontade do vice-rei, foram descobri-la em um
fato que eles interpretaram como lhes convinha.
Este episódio não tem relação alguma com a história de Resen
de. Como, porém, ele dá idéia de um dos principais defeitos ou de grande
fraqueza do marquês de Lavradio, que, aliás, foi um vice-rei que prestou
imensos serviços ao Brasil, vou ocupar-me dele para deixar o marquês bem
marcado com a sua notável fraqueza, como oportunamente o apresentarei com as
suas muito belas qualidades de homem e de administrador.
O marquês de Lavradio era famoso pelo amor que tributava ao
belo sexo e pelas travessuras, às vezes bem repreensíveis, que fazia para
satisfazer a sua paixão. A sua fama a este respeito era tal que em um tempo em
que muito se ocupava da polícia da cidade e do asseio das ruas e praças dela,
encontrou o marquês em certo dia um doido tão célebre na cidade pelos seus
repentes e ditos espirituosos, que o seu nome ainda hoje não está esquecido. O
doido chamava-se Romualdo.
O marquês de Lavradio, ao encontrá-lo, fez parar o cavalo em
que ia e, sorrindo para o doido, perguntou-lhe:
– Romualdo, que dizem de mim aí pela cidade?
O doido encarou o vice-rei, riu-se também para ele, e
respondeu sem hesitar:
– Dizem que V. Exa limpa as ruas e suja as casas.
É escusado dizer que o vice-rei fez o cavalo partir a
galope.
Agora o caso de que murmuravam os pardos do quarto
regimento.
Havia naquele tempo na cidade do Rio de Janeiro uma senhora
muito formosa e de uma das mais nobres famílias, mas tão fácil e pouco
recatada, que com vergonha das próprias loucuras trocara por outro e esquecera
o seu nome de família, como eu o quero deixar esquecido ainda hoje. Maria era o
seu nome batismal, e com esse ficará somente.
Maria tinha tido já não poucos amantes, e o último, o Coronel Antônio Carlos Furtado de Mendonça, irmão do visconde de Barbacena, deixou-a, para ir tomar conta do Governo de Minas Gerais, por nomeação do marquês de Lavradio. O coração da bela moça pareceu a alguém ter então ficado em uma espécie de viuvez. Ninguém lhe conhecia amante nem preferido. Mas o marquês, apesar disso, e a despeito do seu brilhantismo e da sua influência de vice-rei, não conseguiu fazer-se amar.
O marquês, depois de perseguir debalde a cruel moça veio,
enfim, a descobrir que ela amava perdidamente a um mancebo pardo que era um dos
cômicos da casa da ópera.
Que delito cometeu esse moço, não sei. Contam, porém, que
ele fora preso, e que da cadeia ia representar ao teatro, e findo o espetáculo,
voltava do teatro para a cadeia.
Quem sabe se esta prisão não era uma exigência da família
ofendida, e se o marquês de Lavradio, em vez de ser acusado de uma
condescendência que se tornara em injusta opressão, carregou com a culpa de uma
ignóbil vingança que não caía em seu coração?
Mistérios do passado!
Mas em todo o caso, o preso ainda gozava mais do que o
vice-rei. Porque em todas as noites, uma mulher engraçada e elegante, trazendo
a cabeça envolvida em longo manto, passava repetidas vezes em frente da janela
da cadeia, donde o amado preso lhe pagava com suspiros aqueles ternos passeios
noturnos.
O vice-rei esperou, desesperou, teve de consolar-se com
outras belas menos cruéis da ingratidão da formosa Maria.
Entretanto, os pardos do quarto regimento pretenderam que o
marquês de Lavradio estendera a todos os pardos o ódio que tivera do cômico,
seu rival preferido, e por isso escolhera o Major Melo para comandá-los.
Falta por certo fundamento para tal suposição. Mas, ainda
mesmo infundada, ela subsistiu.
Enfim, o marquês de Lavradio foi substituído no vice-reinado
do Brasil por Luís de Vasconcelos e Sousa.
O Major Melo continuou a comandar o quarto regimento.
Entra de novo em cena Alexandre Dias de Resende.
O Capitão Resende foi um dia indignamente desatendido por um
dos soldados da sua companhia. O caso era grave e exigia uma forte punição.
Ressentido da ofensa, o Capitão Resende foi à casa do major,
e, expondo a triste ocorrência, declarou que julgava não dever prescindir de
uma satisfação.
O Major Melo olhou para o capitão com desprezo, e disse-lhe
com um tom de inconvenientíssima zombaria:
– Homem, vocês são mulatos, lá se entendem.
E voltou-lhes as costas.
O capitão Resende, ainda mais ultrajado pelo seu comandante
do que pelo soldado, correu ao palácio e fez-se anunciar, pedindo uma audiência
do vice-rei.
Luís de Vasconcelos recebeu-o imediatamente, e, ouvindo as
queixas que o ofendido lhe vinha apresentar, prometeu-lhe justiça pronta,
despediu-o e mandou logo chamar o comandante do quarto regimento.
O Major Melo, acudindo ao chamado do vice-rei, e sendo por
ele interrogado a respeito do motivo da queixa do capitão, confessou tudo sem
hesitar, e até sem defender-se.
Então Luís de Vasconcelos repreendeu-o severamente,
lançando-lhe em rosto o seu descomedimento e o insulto com que ultrajara o
Capitão Resende, e acabou por ordenar-lhe que se recolhesse preso a uma das
fortalezas.
Ouvindo a ordem de prisão que acabava de receber, o Major
Melo não se pôde conter e exclamou:
– Preso! Pois deveras V. Exa me manda prender?
O vice-rei respondeu sossegadamente:
– Homem, nós somos brancos, cá nos entendemos.
O Major Melo foi preso, perdendo o comando do regimento dos
pardos. E, mandado servir no Sul, lá ficou por muitos anos, voltando somente ao
Rio de Janeiro depois da chegada da família real.
E cheguei apenas ao meio da história do Capitão Alexandre
Dias de Resende, e já o nosso passeio de hoje se acha com proporções tais que,
se eu quisesse estendê-lo até à conclusão da história, seria obrigado a
transformá-lo, de simples passeio que deve ser, em viagens de longo curso, que
não convém que seja.
Devo, portanto, parar aqui.
Façam de conta que deu a hora no relógio da casa e que o Sr.
Presidente me convida a interromper o meu discurso, reservando-me a palavra
para a próxima sessão.
IV
No meu antecedente passeio tive de interromper, obrigado por
força maior, a história que vos contava de Alexandre Dias de Resende. Mas, se
não tendes memória infeliz, deveis lembrar-vos que deixamos esse bom homem
elevado a capitão, e à frente da sua companhia do regimento dos pardos.
De uma só ligeira penada termino as minhas informações a
respeito da carreira militar de Resende, dizendo-vos que ele chegou a
sargento-mor, e com essa patente morreu em 1812.
Mas não penseis que somente na vida da militância foi que
Resende teve de provar amarguras e decepções.
Ides ver que ele foi tão infeliz com os padres da irmandade
de S. Pedro, como tinha sido com o Major Melo.
Resende era devoto de S. Pedro, e tinha pelos padres
verdadeira veneração. Desejava sempre se aproximar deles, e tanto o desejou,
que um dia sorriu-lhe docemente a idéia de entrar para a irmandade do príncipe
dos apóstolos.
A princípio hesitou, depois foi pouco a pouco tomando ânimo,
e por fim de contas não se pôde conter e manifestou a sua ardente ambição ao
Padre Luís Gonçalves dos Santos, que achou muito razoável a pretensão, e
comprometeu-se a propor o candidato à irmandade.
Convocou-se a mesa. Correu a notícia de que Resende ia ser
proposto para irmão de S. Pedro, e no dia aprazado achou-se plena a mesa da
irmandade no consistório da igreja.
Resende, cheio de esperanças e de alegria, esperava o
resultado da sua pretensão, passeando na sacristia. Começou, porém, em breve, a
incomodar-se com a demora prolongada do despacho.
Era que havia discussão renhida no consistório.
Irmãos padres e irmãos seculares estavam quase todos em
movimento e excitação.
Não podiam tolerar a idéia de ver o pardo Resende irmão de
São Pedro.
Entretanto, alguns seculares mais hábeis diziam, sorrindo:
– A irmandade é dos senhores padres; eles, pois, que
decidam.
E lavavam as mãos, como Pilatos.
Enfim, o Padre Francisco dos Santos Pinto, que depois foi
senador do império, e o Padre Francisco Antônio pronunciaram-se de tal modo,
que a mesa repulsou a pretensão de Alexandre Dias de Resende.
O Padre Luís Gonçalves dos Santos desceu à sacristia e
comunicou a decisão da mesa ao triste Resende. Este desatou a chorar e
retirou-se, dizendo:
– Paciência! Os senhores padres não me querem. Paciência!
Esta humildade não foi um fingimento. O futuro mostrou que
Resende nem ao menos modificou as suas disposições generosas a respeito dos
padres.
Alguns anos depois, um vizinho da chácara que Resende
possuía no caminho de S. Cristóvão principiou a inquietá-lo, e acabou por
tornar-se tão incômodo, que Resende vendeu a chácara, e com o produto da venda
fez construir duas casas de sobrado na Rua de S. Pedro, ficando uma delas no
canto da Rua Direita.
Causava alguma surpresa o ver-se que Resende, que já a esse
tempo se achava bastante velho, se metesse em obras tão dispendiosas e que
indicavam projetos de futuro.
O Padre Luís Gonçalves fez-lhe sentir isso um dia, mas
Resende respondeu, sorrindo:
– É um segredo que só deve ser conhecido depois da minha
morte.
E passados alguns momentos, como tratando de outro assunto,
acrescentou tristemente:
– Tenho muita pena dos senhores padres, que, sendo pobres e
estando doentes, não podem celebrar.
O dia da revelação do segredo chegou finalmente.
A 9 de agosto de 1812 faleceu o sargento-mor do regimento
dos homens pardos, Alexandre Dias de Resende, e aberto o seu testamento,
encontrou-se a seguinte disposição:
“Declaro que entre os bens que possuo, são duas moradas de
casas que fazem dois sobrados no canto da Rua de S. Pedro, uma com frente para
a Rua Direita, e outra com frente para a dita Rua de S. Pedro, as quais deixo à
irmandade de S. Pedro, para esta tomar logo conta delas, e fazer assistência
aos Revmos sacerdotes que se acharem enfermos sem poderem celebrar,
fazendo-se-lhes uma mesada ao arbítrio da mesma irmandade obrigada a pagar a
décima. E no caso de que a dita irmandade as queira vender, então passarão para
a Misericórdia, opondo-se esta a tal determinação, e tomando logo conta delas,
para do seu rendimento se sustentarem os pobres clérigos.”
E Alexandre Dias de Resende morreu sem fazer parte da
irmandade de S. Pedro. E enriquecendo-a com este legado, não lhe impôs ônus
algum nem em benefício da sua alma.
É completamente inútil dizer que a irmandade de S. Pedro não
discutiu um só instante se o legatário das duas casas tinha sido branco, pardo,
preto, amarelo ou azul, e aceitou logo o caridoso legado.
A mesa da irmandade de S. Pedro, em 1812, não pode ser de
modo algum responsável pelo que anos antes fizera outra mesa, repelindo
Alexandre Dias de Resende. Mas, em todo caso, é curioso o que então se
observou.
Coisas deste mundo! – sempre é bom dizê-las.
Alexandre Dias de Resende, como benfeitor da irmandade de S.
Pedro, teve um ofício de corpo presente na igreja de S. Pedro, e os padres
levaram sobre seus ombros o caixão do pardo Resende para a igreja da ordem
terceira de S. Francisco da Penitência, de que ele era irmão!
E, ainda melhor, ao chegar o acompanhamento ao cruzeiro do
convento de S. Antônio, apresentaram-se os terceiros para receberem o caixão,
os padres declararam que o não entregavam senão a presbíteros como eles.
Trocaram-se palavras duras e azedas, pondo termo à desagradável cena os frades
de S. Antônio, que tomaram o caixão às costas.
Vejam, pois: iam brigando pelo Resende morto os mesmos que o
tinham desprezado vivo!
A irmandade de São Pedro celebra anualmente, no mês de
novembro, um ofício solene por alma de Alexandre Dias de Resende, presentes os
seus ossos que se acham encerrados em uma urna.
A administração da irmandade, em 1852, mandou tirar e
colocar na sacristia o retrato de Resende, como, em 1857, por proposta do
tesoureiro do patrimônio dos padres e irmãos pobres, o Sr. Padre Manuel
Agostinho José da Silva, e com aprovação da mesa, se deliberou que fossem
também tirados e conservados os retratos dos outros benfeitores.
Aqui está, pois, toda a história de Resende, e nela a da
origem da instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da irmandade de
São Pedro.
A instituição começou, portanto, com o patrimônio a 9 de
agosto de 1812.
Mas o caridoso instituidor desse patrimônio não só legou
duas casas, como ainda um belo exemplo que achou alguns piedosos imitadores.
Assim, contam-se ainda os seguintes benfeitores da mesma
instituição:
Manuel Rodrigues dos Santos, que legou, em 1827, 2:000$000.
Antônio Rodrigues dos Santos (irmão do precedente), que
deixou 4:000$ em 1829.
O Cônego Alberto da Cunha Barbosa, que, em 1845, legou 2:000$000.
E finalmente, o Padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo,
que deixou 2:000$ em 1857.
O patrimônio dos padres pobres rende atualmente l6:238$072. É uma verdadeira instituição de caridade, que tem já
prestado muitos serviços, conforme a natureza e fins da sua criação, e
afiançam-me que se pode asseverar, sem receio de cair em erro, que os padres,
para quem ela se destina, estão a coberto de privações nos casos de
enfermidade.
O nome do Sargento-mor Alexandre Dias de Resende está, com
razão, perpetuado nos arquivos da irmandade de S. Pedro e nos corações dos
padres que o abençoam como um benfeitor.
Ora, pois! Cheguei finalmente ao desejado termo da história
das três instituições da irmandade de S. Pedro.
Podemos agora desembaraçadamente lançar uma rápida vista
d’olhos sobre a igreja, para dizer o que é ela e o que contém.
Vinde. Não tenhais medo de encher de pó as calças, nem de
teias de aranhas as casacas. Há nove anos que a igreja de S. Pedro está limpa,
e se pode entrar nela como nos seus belos tempos.
Pelo seu exterior, a igreja de S. Pedro distingue-se de
todas as outras da cidade do Rio de Janeiro.
É uma igreja de forma circular como algumas de Roma, tendo o
seu zimbório pequeno mas proporcionado e elegante. As portadas são de mármore e
executadas com talento e gosto. Sobre a porta principal vêem-se as armas do
príncipe dos apóstolos.
Domina em toda a igreja o estilo barroco da arquitetura do
décimo oitavo século.
A igreja tem duas torres e abre o seu pórtico de mármore
para um pátio defendido por grades de ferro. Esse pátio, outrora regular,
apresenta hoje dimensões mesquinhas e irregulares, porque foi necessário
sacrificar parte dele às justas e retas dimensões na Rua de S. Pedro.
No interior do templo predomina ainda e sempre o estilo
barroco em todos os ornatos, aliás, habilmente executados. Toda a obra é de
sólida construção de pedra e em abóbada. A igreja tem três altares.
No altar-mor, além da imagem do venerável príncipe dos
apostólicos, que ocupa o seu devido lugar de honra, vêem-se, ao lado direito S.
Paulo, ao lado esquerdo Santo André, e no mais alto degrau do trono, a imagem
do Senhor dos Aflitos.
O altar do lado do Evangelho é consagrado a N. Sra da Boa
Hora, a cujos pés está a imagem de S. Antônio, e em dois nichos laterais
vêem-se as imagens de N. Sra da Conceição e de S. José.
O altar do lado da Epístola é dedicado a S. Gonçalo de
Amarante, que tem, em um degrau inferior do seu trono, a
imagem de Santana, e aos lados S. João Nepomuceno e S. Pedro mártir.
Não são notáveis estas imagens pela sua execução artística.
Ao menos, porém, vai sê-lo a nova de S. Pedro, que está sendo executada em
mármore branco pelo hábil Sr. Despré, e cujo desenho me pareceu muito bonito.
Foi o bispo D. Frei Antônio de Guadalupe quem colocou no
altar do lado da Epístola a imagem de S. Gonçalo de Amarante, por louvável
devoção ao santo padroeiro da terra de seu berço.
Esta demonstração do bispo deu logo a S. Gonçalo de Amarante
um grande número de ardentes devotos, e por súplicas do padre João de Araújo e
Macedo e de outros, foi criada a respectiva irmandade com permissão dos irmãos
de S. Pedro, que para esse fim lavraram o termo de 7 de outubro de 1741.
Diz um antigo anexim que se beijam as pedras por causa dos
santos. Neste caso, porém, o anexim falhou, observou-se o contrário, e o tempo
veio demonstrar que se venerava o santo por causa do bispo.
Desde que D. Frei Antônio de Guadalupe deixou o Brasil e foi
substituído no bispado do Rio de Janeiro, caiu pouco a pouco, ou antes, logo e
logo S. Gonçalo de Amarante em um triste esquecimento e abandono, e por modo
tão sensível, que o seu culto acabou por ficar a cargo da irmandade dos
clérigos.
Dir-se-ia que os antigos devotos de S. Gonçalo de Amarante,
cansados da sua devoção, e desconfiando que outros santos eram mais milagrosos
e de mais potente influência do que ele, se puseram a entoar em coro aquela
cantiga com que as moças de Santarém atordoam o padre Froilão Dias, no drama
Alfageme de Santarém.
S. Gonçalo de Amarante, Bem lhe reza minha tia. Casamenteiro
é de velhas, Vá pra outra freguesia.
Mas eu penso que não o tiveram na conta, nem de casamenteiro
de velhas. Porque, se o reputassem tal, duvido que houvesse santo que mais
culto recebesse.
O infortúnio do S. Gonçalo de Amarante, da igreja de S.
Pedro, oferece uma lição proveitosíssima, mostrando-nos a conveniência de não
acreditar facilmente em certas devoções que se observam no mundo, e de procurar
distinguir bem os devotos sinceros e leais dos devotos que beijam os santos por
causa dos bispos.
Tomem, portanto, nota desta história de S. Gonçalo de
Amarante, que é boa, e que se parece bastante com outras histórias que se estão
sempre passando fora das igrejas, nos palácios, nas casas dos grandes, e às
vezes, até mesmo nas cabanas dos pobres.
Agora, chamam a nossa atenção o presbitério e o coro da
igreja que estamos visitando.
O presbitério é de mármore, tendo a frente ornada de
lavores, e sempre em relação com o estilo barroco dominante.
O coro é proporcionado ao tamanho da igreja, e nele se faz
notar o órgão que passa, creio que com razão, por ser o melhor que existe na
cidade do Rio de Janeiro.
A irmandade possuía um órgão antigo, mas vendeu-o por
quatrocentos mil-réis, substituindo-o pelo novo, que lhe custou seis contos de
réis, livre dos direitos da alfândega.
O novo órgão consta de duas, ou antes, de três peças
distintas, e como que separadas: os teclados, o órgão propriamente dito e o
fole.
São três os teclados, dois para as mãos e um para os pés,
sendo os primeiros de marfim e ébano e o último de carvalho; bem como é de
carvalho envernizado a caixa.
O órgão propriamente dito tem a caixa de carvalho
envernizado e ornada com pilastras da ordem coríntia, e de cada lado um anjo de
madeira, obra do Sr. Despré, e consta de doze jogos de canudos.
Estas duas peças se comunicam por baixo do banco do
organista, que assim toca com o rosto voltado para o altar.
O fole está colocado fora do coro, e um pequeno registro
ligado a uma campainha adverte ao tocador do fole, quando há falta de vento.
Este órgão foi fabricado em Hamburgo por Schulz, sendo o
plano e a colocação do instrumento devidos ao Sr. Napoleão Lebreton.
Desculpem-me o tempo que gastei com a descrição do órgão.
Tenho a maior consideração por todas as entidades que se fazem admirar, quando
se enchem de vento e, portanto, era uma injustiça que não tratasse com a mesma
atenção o órgão de S. Pedro.
Passemos do corpo da igreja à sacristia por esta porta
lateral que temos à mão direita.
A sacristia, que também abre uma porta para o exterior,
comunicando-se com a Rua dos Ourives, é uma sala em cujas proporções se guardou
a necessária harmonia com a igreja.
Na sacristia excitam a nossa curiosidade os retratos que a
ornam e de que vou dar-vos conta imediatamente.
O primeiro retrato é do Bispo D. Frei Antônio de Guadalupe,
o grande protetor da irmandade de S. Pedro, e infeliz instituidor da devoção de
S. Gonçalo de Amarante.
O segundo retrato é do sargento-mor Alexandre Dias de
Resende, o caridoso instituidor do patrimônio dos padres e irmãos pobres da
irmandade de S. Pedro.
O terceiro é o de Manuel Vieira dos Santos, que acabou cego
na terra, mas que do mundo feliz da eternidade vê perfeitamente o
desenvolvimento da instituição do coro de S. Pedro, que à sua caridade é
devida.
O quarto retrato é o do padre Francisco Barreto de Meneses,
que doara o terreno em que se levantou a igreja de S. Pedro.
O quinto é o do padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo, um
dos benfeitores da instituição e do patrimônio dos padres e irmãos pobres.
O padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo foi um sacerdote
muito respeitável e um cidadão que prestou ao país não poucos serviços. Foi,
por bastantes anos, membro da assembléia provincial do Rio de Janeiro, a qual
presidiu por vezes. Na primeira eleição que se efetuou logo depois da
declaração da maioridade de S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro II, mereceu ser
eleito deputado à Assembléia Geral pela mesma província do Rio de Janeiro. Não
pôde, porém, assinalar-se na câmara temporária, em conseqüência da dissolução
da câmara, que se efetuou estando ainda esta em sessões preparatórias, o que
deu lugar a que o ilustre Martim Francisco Ribeiro de Andrada, que presidia a
assembléia, denominasse esse fato uma dissolução prévia.
O padre Santos Lobo ocupou também durante algum tempo a
presidência da província do Rio de Janeiro.
Foi sempre contado entre os membros distintos do Partido
Liberal, e era por todos estimado e respeitado, porque não houve jamais quem
pusesse em dúvida a sua inteligência esclarecida, o seu patriotismo, a sua
honradez e o seu coração cheio de bondade.
Morreu este digno cidadão no ano de 1857, e os seus restos
descansam na cidade de Magé.
Continuo com a resenha dos retratos.
O sexto retrato é o do venerando bispo atual do Rio de
Janeiro, o Sr. Conde de Irajá.
O sétimo, enfim, é o do Monsenhor Antônio Vieira Borges,
outro benfeitor da instituição e do patrimônio dos padres e irmãos pobres.
Destes retratos, alguns dos quais talvez seja de simples
fantasia, suave engano desculpável pela gratidão que o inspirou, sei que o do
sargento-mor Resende é obra do Sr. Mafra, o estimável artista, digno
secretário e professor da nossa Academia das Belas-Artes. O do Monsenhor
Antônio Vieira Borges, trabalho do Sr. Istaloni. Os do Bispo D. Frei Antônio de
Guadalupe e de Manuel Vieira dos Santos, obras do Sr. Manuel Pereira
Reis, e os do padre Francisco Barreto de Meneses e do padre Luís Antônio
Muniz dos Santos Lobo devidos à paleta do Sr. Pedro Américo de Figueiredo e
Melo.
O Sr. Mafra e o Sr. Istaloni são artistas desde muito tempo
conhecidos e apreciados, e não precisam que eu me ocupe em dar informações a
seu respeito.
Os Srs. Reis e Américo são jovens, e ainda novos em suas
carreiras, e a ambos dedicarei algumas linhas.
Não creio que os retratos de que falei, e que a irmandade de
S. Pedro deve a estes dois jovens, possam considerar-se obras de um grande
valor artístico. Premissas animadoras, porém, de belos talentos, servem para
dar-nos uma idéia da natureza feliz, da inspiração e da habilidade desses
nossos patrícios.
O Sr. Manuel Pereira Reis, atualmente professor de desenho
na Escola de Marinha, é natural da província da Bahia. Filho de um livreiro
estabelecido na cidade de S. Salvador da Bahia, o Sr. Pereira Reis, impelido
pelo coração, divertia-se horas inteiras a desenhar, copiando as estampas que
encontrava nos livros e que mais o impressionavam. As suas disposições foram
logo conhecidas e o seu talento aplaudido. Em 1855, o flagelo do cólera-morbo
roubou-lhe seu pai. Em março de 1856 veio para o Rio de Janeiro, e matriculando-se
na Academia das Belas-Artes, foi nela um dos melhores alunos e obteve diversos
prêmios, sendo no primeiro ano aprovado com louvor no exame de matemáticas, que
ele fez em presença de S. M. o Imperador.
O Sr. Manuel Pereira Reis conta hoje vinte e três anos de
idade, e é, como disse, professor de desenho da Escola de Marinha, o que é uma
prova do seu merecimento.
O Sr. Pedro Américo de Figueiredo e Melo é natural da
província da Paraíba do Norte, donde veio para o Rio de Janeiro em 1855, em
conseqüência das proezas que fazia, pintando quanto lhe vinha à cabeça, sem ter
mestre que o dirigisse. Realmente, era um menino que parecia ter nascido
artista. Tinha tanta imaginação como espírito, e já manejava a caricatura com
habilidade.
Em 1855, matriculou-se na nossa Academia das Belas-Artes, e
a freqüentou com notável aproveitamento e assiduidade até meados do ano de
1858, tempo em que começou a não comparecer por ter sido atacado de teimosos
incômodos do fígado.
Entretanto, fora sempre o primeiro estudante da sua turma, e
em todas as aulas que tinha cursado constantemente obtivera prêmios. No
primeiro ano fizera, como fez depois o Sr. Pereira Reis, exame de matemáticas
em presença de Sua Majestade o Imperador e também merecera aprovação com
louvor. E, enfim, estudando as belas-artes, não se descuidara nunca de
aprofundar os seus conhecimentos nas matemáticas e na ótica.
Um jovem de tantas esperanças não devia parar no caminho por
onde tão brilhantemente avançava.
Sua Majestade o Imperador, à custa do seu bolsinho, mandou o
Sr. Américo completar os seus estudos na Europa; e em março de 1859, partiu o
nosso talentoso patrício para o velho mundo, e ainda agora lá está em Paris,
onde tem feito muitos progressos, especialmente na pintura histórica.
Atualmente tem o Sr. Pedro Américo de Figueiredo e Melo
vinte anos de idade.
À vista do que acabo de dizer, não será por certo de admirar
que daqui a dez ou vinte anos vá muita gente, por uma curiosidade muito
explicável, à Igreja de S. Pedro apreciar alguns dos primeiros frutos do
talento ainda não muito cultivado desses dois mancebos de quem o Brasil espera
ter justos motivos para ufanar-se.
Tenho fé em que eles não hão de desmentir uma tão bela e tão
fagueira esperança.
Nada me falta para acrescentar a respeito da sacristia da
igreja de S. Pedro; e achava-me muito disposto a sair da sacristia e a subir ao
consistório, mas um dos meus companheiros de passeio puxou-me neste momento
pelas abas da sobrecasaca e bradou-me aos ouvidos:
– Basta! Por hoje basta!
Não se pode resistir a tão solene manifestação de fadiga, e por conseqüência... basta, por hoje basta.
V
Subamos ao consistório da igreja de S. Pedro pela competente
escada que se levanta ao lado esquerdo da sacristia.
Não há quem ignore a importância que têm as escadas, quando
se precisa delas para subir às alturas a que se deseja chegar. Cobrem-se de
flores e de ornamentos os degraus, animam-se e forram-se de seda os corrimões,
fazem-se protestações de perpétuo reconhecimento a esses meios indispensáveis
para a elevação de quem ainda está de baixo, e que, de ordinário, quebra os
corrimões e dá um pontapé nos degraus depois que se acha de cima e com a
certeza de não cair. A decepção por que em tal caso passam as escadas é cruel.
Mas não há nem desengano nem experiência que aproveite completamente ao mundo.
Por isso que, ao tempo que uns tomam juízo ensinados pelo desengano e
ilustrados pela experiência, aparecem outros muitos dispostos e prontos a serem
enganados, e a servirem de novos fundamentos à lição que transpira daqueles
suavíssimos versos de Virgílio:
Sic vos non vobis mellificatis apes, Sic vos non vobis
fertis aratra boves, Et coetera.
Não sei se compreendestes bem as observações que acabo de
fazer sobre as escadas. Se, porém, apesar da sua simplicidade, ainda precisais
de explicações, ide pedi-las a respeito das flores e ornamentos dos degraus,
das sedas dos corrimões e dos protestos de perpétuo reconhecimento a todos os
políticos e estadistas que ainda não são senadores. E a respeito dos pontapés
nas escadas, a muitos daqueles que já têm cadeira no salão da vitalícia.
Por conseqüência, a importância das escadas não admite
contestação. Infelizmente, porém, não se entende essa regra com as escadas de
pedra e cal, nem com as de pau, e somente com as de carne e osso; e a escada do
consistório da igreja de S. Pedro não desafia, pois, interesse algum. Porque é
uma simples, estreita e curta escada de pau, e nem ao menos excita a
curiosidade pelo esmero da obra.
O consistório da igreja de S. Pedro é, nada mais e nada menos, que uma sala de limitadas proporções, confinando-se com outra sala ou com um largo e espaçoso corredor, que vai terminar dando entrada para o púlpito. Qualquer destas salas, ou antes, o consistório e o vasto corredor que se segue, ressentem-se ainda do estado de abandono em que ficou por muitos anos a igreja de São Pedro, e estão reclamando um conserto pronto, e cuidados e desvelos da administração da irman dade.
O consistório tem em sua face principal um altar que não
brilha pelo merecimento artístico. Nesse altar venera-se, como é natural, o
príncipe dos apóstolos, representado por uma imagem, aliás imperfeita, e que
terá, sem dúvida, de ser substituída, quando se tratar do necessário conserto
daquela parte do templo.
À direita do altar, vê-se um quadro da ressurreição da viúva
do Levita, e à esquerda, outro, representando a morte de N. Senhora. O
primeiro, cópia de uma gravura em miniatura, é do Sr. Pedro Américo de
Figueiredo e Melo.
O segundo, que é por certo também uma cópia, é do Sr. Manuel
Pereira Reis, que a executou ainda antes de entrar para a Academia das
Belas-Artes.
No corredor que faz seguimento ao consistório, acham-se um
retrato do Sr. D. João VI e um quadro da Ceia do Senhor.
O retrato não traz, não conserva o nome do artista que o
executou. Bem pode ser, porém, devido à paleta feliz do nosso José Leandro.
O quadro, cópia de uma gravura de Rafael Morghen, que,
aliás, também a copiara de um painel de Leonardo da Vinci, é ainda do Sr.
Manuel Pereira Reis.
Tudo quanto disse no nosso último passeio acerca dos
trabalhos destes dois jovens artistas e das premissas do gênio de ambos,
premissas que serão conservadas na igreja de São Pedro, tem inteiro cabimento
em relação aos três últimos quadros de que acabo de falar.
É na sala do consistório, isto é, no mesmo consistório que
se reúne a irmandade de S. Pedro, para celebrar as suas sessões e, portanto,
não poucas interessantes histórias poderíamos aqui encontrar, se tão facilmente
não as esquecesse a memória dos homens.
Uma, no entanto, ainda até hoje se conservou na lembrança de
alguns irmãos de S. Pedro, e que se não é igual àquela travessura eleitoral do
velho padre provincial de S. Antônio que vos referi no compe tente passeio, é
pelo menos digna de um bom cabalista.
Vou contar a história.
Um padre, ainda em anos deste século, pretendia ser admitido
no coro de S. Pedro. Deu-se o caso de uma vaga, apresentou-se candidato e foi
reprovado pela mesa da irmandade.
Um cabalista não desanima com as derrotas. Ao contrário,
sente-se excitado por elas, e nutre desejos ardentes de novos combates em que,
além de colher a palma da vitória, tire desforra das zombarias dos adversários.
O padre calou-se e esperou; e logo que outra vaga apareceu
no coro de S. Pedro, apresentou-se candidato e começou a trabalhar. Com a
experiência que colhera na primeira campanha em que fora vencido, tomou todas
as precauções, e estudando o campo inimigo, pois que outro candidato também
pretendia o lugar suspirado, reconheceu que ainda essa vez teria de ser vencido
por dois votos!
Pois bem, o homem não desanimou. Reforçando os seus pedidos
e empenhos, tranqüilizou-se a respeito da segurança dos votos que lhe tinham
sido prometidos e ficou sem mais se esforçar por conquistar outros, à espera do
dia da mesa da irmandade.
Enfim, o dia estava a chegar, e o padre moveu-se na véspera
de tarde.
Que faz ele? Marca para o ataque que já havia planejado três
padres de sua escolha, três padres membros da mesa e que deviam votar no seu
adversário. Vai à casa de um amigo, porque não quer despertar desconfianças,
executando ele próprio o seu movimento estratégico; procura, pois, um amigo,
entrega-lhe três bilhetes de l0$000 e recomenda-lhe que, sem falar no seu nome,
vá à casa dos três padres e a cada um deles encomende uma missa para o dia
seguinte, às dez horas da manhã, devendo elas serem celebradas uma na ermida de
Nossa Senhora da Glória, outra na matriz de Nossa Senhora da Glória e a
terceira, enfim, na igreja da Lapa.
O amigo saiu. As missas foram encomendadas, e a esmola de
l0$000 a cada um dos padres fê-los sorrir com razão, porque, principalmente
naquele tempo, l0$000 eram uma espórtula avultada e um pouco rara.
No dia seguinte, reuniram-se os irmãos de S. Pedro às 10 ho
ras do dia, esperaram até às 10 e meia pelos três padres que faltavam, cansaram
de esperar, instalou-se a mesa e às 11 horas da manhã, o padre cabalista ganhou
por um voto o lugar vago do coro de S. Pedro.
De volta para casa, o padre encontrou o amigo que o
esperava.
–
Então? – perguntou este.
–
Ganhei por um voto – respondeu o padre.
–
Ah! É porque soube empregar os meios.
–
Sim. Mas está vendo que empreguei somente meios justos esantos... Mandei dizer
três missas por minha intenção.
Nada mais temos que ver no consistório da igreja de S.
Pedro.
Desçamos. É mais fácil descer do que subir. Perguntem aos
ministros de Estado.
Temos agora, do lado do Evangelho da igreja e contíguo ao
corpo desta, um longo corredor destinado, creio eu, a guardar objetos que
servem nas cerimônias do culto. Nada teríamos que apreciar aqui a não serem os
dois retratos que ornam uma das paredes do corredor.
São os retratos do cônego Manuel Freire, um dos benfeitores
da instituição do coro, e do cônego Alberto da Cunha Barbosa, um dos
benfeitores da instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da irmandade
de S. Pedro. Ignoro qual o artista que tirou estes retratos.
Um pequeno corredor comunica a sacristia da igreja de S.
Pedro com um limitado pátio, em torno do qual existem, convenientemente
abrigados, diversos armários, contendo alfaias e ornamentos da igreja. Em um
desses armários conservam-se com zeloso cuidado seis grandes ramos de flores
artificiais. trabalho delicado e digno de atenção e de elogios, feito pelas
freiras de Santa Teresa. Nessas flores a natureza foi perfeitamente imitada, e
devem-se apreciar ainda mais as finas tintas empregadas, tintas que resistem à
ação do tempo, conservando as flores o seu viço primitivo.
No fundo do pátio há uma saleta onde se acham também
armários. Estes, porém, destinados aos capelães que neles guardam as suas
vestes próprias do culto e os seus livros.
Esse pátio é histórico. Recorda-nos o ruído alegre da vida e o triste silêncio da morte.
Ides ver que não estou fazendo poesia.
Houve tempo em que junto desse pátio tinha lugar o
refeitório dos órfãos de S. Pedro, que depois se chamaram seminaristas de S.
Joaquim e, portanto, aqui se sentia o rir dos meninos, a vivacidade dessas
felizes criaturas que quase nunca se lembram do passado, que sonham com um
futuro somente cheio de folguedos e festas, e que, a despeito de toda a
disciplina, são sempre mais ou menos ruidosas e travessas, como é sempre
ruidosa e travessa a vida naquela idade.
Depois o silêncio sucedeu ao ruído.
O refeitório transformou-se em jazigo. O pátio foi cercado
de catacumbas, e onde soavam as risadas alegres dos meninos, correram lágrimas
dos olhos daqueles que vinham chorar os seus finados.
Mas as catacumbas são também páginas importantes daquele
grande livro da história que sempre se pode ler em um campo fúnebre.
É verdade que essas catacumbas desapareceram, como
felizmente todas as outras que havia no centro da cidade. Ficou, porém, a
lembrança delas, ficou o arquivo que nos recorda os mortos.
Lembremos, pois, um ou outro dos homens notáveis, cujos
restos mortais foram enterrados nas catacumbas que em torno desse pátio
existiam.
Aqui foi sepultado o monsenhor José de Sousa Azevedo Pizarro
e Araújo. Era natural da cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu a 12 de outubro
de 1753. Fez os seus primeiros estudos nesta mesma cidade e foi concluí-los em
Portugal, onde se formou em cânones na universidade de Coimbra. De volta à sua
pátria, mereceu logo depois a glória de ser contemplado na brutal perseguição
que o enfezado opressor vice-rei Conde de Resende desencadeou contra os homens
de letras. Para escapar à tempestade, aproveitou-se da autorização que obtivera
do bispo para visitar o bispado do Rio de Janeiro e, então, em longas e
demoradas viagens, foi recolhendo os difíceis e preciosos elementos que lhe
serviram para escrever a obra que perpetua o seu nome, as Memórias históricas
do Rio de Janeiro e das províncias anexas à jurisdição do vice-rei do Estado do
Brasil, obra de um valor imenso, filha de investigações repetidas e
perseverantes, e que, apesar de ressentir-se de falta de método, é uma fonte
riquíssima de esclarecimentos e de informações, fonte onde eu, por exemplo,
tenho bebido a fartar, e ainda não me sinto saciado.
Monsenhor Pizarro publicou esta obra de 1820 a 1822. Consta
ela de nove volumes, sendo o oitavo dividido em duas partes, o que em realidade
eleva a dez o número dos volumes.
Esse ilustre brasileiro foi eleito deputado à Assembléia
Geral em 1825. Serviu, pois, na nossa primeira câmara temporária, que o honrou,
elegendo-o seu presidente.
No dia 14 de maio de 1830, passeava Monsenhor Pizarro pelo
Jardim Botânico da lagoa Rodrigo de Freitas, quando, de súbito, caiu morto
fulminado por um ataque de apoplexia.
Também aqui foi sepultado o grande mestre e compositor de
música brasileira, o ilustre padre José Maurício Nunes Garcia, natural da
cidade do Rio de Janeiro, onde também fez todos os seus estudos de humanidades,
de matérias eclesiásticas e da arte divina em que tão eminente se mostrou.
Tornou-se esse homem desde logo notável em todas as aulas
que cursou, foi mesmo designado para substituto do seu mestre de filosofia
racional, o Dr. Goulão, e lecionou durante algum tempo, contando entre os seus
discípulos o depois célebre padre Luís Gonçalves dos Santos. Conquistou, porém,
as mais belas palmas dos seus triunfos no cultivo e exercício da música.
Em um dos meus passeios já dei algumas informações a
respeito desse ilustre fluminense, e não devo nem quero repetir o que já
escrevi.
Acrescentarei apenas a relação de um fato que pouco terá de
importante, mas que não deixará de servir a quem quiser escrever a biografia
completa do padre José Maurício.
Em 1817, morava o padre José Maurício Nunes Garcia em uma
pequena casa de sobrado e sótão, que ainda hoje existe na Rua da
Lampadosa, quase ao canto da Rua de S. Jorge, -A e defronte do lugar que
era ocupado pela pequena igreja de S. Jorge, e que hoje o é por algumas casas
novas e assobradadas, recentemente construídas.
Tinha naquele ano chegado ao Rio de Janeiro a sempre
lembrada Princesa D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, esposa do Príncipe
Real o Sr. D. Pedro e depois primeira imperatriz do Brasil. Em um dos navios da
esquadra que acompanhara S. A. Real viera uma banda de música que se fazia
notar pela grande habilidade dos instrumentistas que a compunham.
Essa banda de músicos alemães tivera licença para ir estudar
e ensaiar as suas peças de música em uma espécie de pátio que havia ao lado da
igreja de S. Jorge, e portanto, defronte da casa do padre José Maurício.
Na primeira tarde, ao começarem os músicos o seu estudo, o
padre José Maurício veio debruçar-se à sua janela, e aí ficou até que os
músicos se retiraram. O mestre acabava de apreciar a perfeição com que eram
executadas as obras de hábeis compositores.
Na tarde seguinte, os músicos reuniram-se outra vez. Antes,
porém, de começarem a tocar, inesperadamente receberam um maço de papéis de
música que de presente lhes mandava o padre José Maurício. Examinando os
papéis, encontraram uma coleção de sonatas ou de divertimentos, como os chamou
o seu autor. No primeiro momento, apenas por civilidade começaram os músicos a
ensaiar os divertimentos. Em breve, porém, a curiosidade os excitava, logo
depois uma espécie de encanto se apoderava deles e, enfim, o mais vivo
entusiasmo os arrebatava a todos.
Esses divertimentos não se conhecem no Brasil. Os músicos
alemães os levaram consigo, e o original que ficou em poder do padre José
Maurício perdeu-se muitos anos depois. Informam-me, porém, que uma cópia deles
existe no repertório ou arquivo musical do conde de Farrobo, em Portugal.
O padre José Maurício morreu a 18 de abril de 1830, pelas 6
horas da tarde, na casa nº 18 da Rua do Núncio, onde então morava. O grande
compositor de músicas sacras expirou cantando o hino de Nossa Senhora.
O padre Luís Gonçalves dos Santos apenas soube do
falecimento do seu antigo mestre, correu a oferecer-se para amortalhá-lo por
suas mãos. Já achou, porém este piedoso dever cumprido pelo Sr. Dr.
José Maurício Nunes Garcia, digno filho daquele homem
ilustre.
Existe um retrato muito fiel do padre José Maurício Nunes
Garcia, devido ao amor filial e à habilidade daquele mesmo
Sr. Dr. José Maurício, a chamado do qual o Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre,
no dia do falecimento do abalizado mestre, fez também tirar uma máscara em
gesso das suas feições, máscara que se acha no Museu Nacional, fazendo boa
companhia às de Dante, Tasso, José Bonifácio, Antônio Carlos e Januário
Arvelos.
No dia 1º de dezembro de 1844, faleceu, e no seguinte foi
sepultado na igreja de S. Pedro o cônego Luís Gonçalves dos Santos, que
quarenta e cinco anos antes havia entrado para a irmandade do príncipe dos
apóstolos.
Era ele natural da cidade do Rio de Janeiro, onde também
fora educado, e desde os seus primeiros anos mostrou a mais decidida aptidão
para a carreira das letras, em que, aliás, teve de vencer não pequenos
embaraços em conseqüência de desarranjos de fortuna experimentados por sua
família.
De estatura muito menos que ordinária, extremamente magro,
sofrendo quase constantemente ataques de asma, e apesar disso escrevendo e
estudando sem cessar, o padre Luís Gonçalves dos Santos era um argumentador
infatigável e ardente, falava com facilidade e exaltação, e talvez por tudo
isso, lhe deram a desagradável alcunha de padre Perereca, pelo qual era de
todos conhecido.
A ele se deve uma obra importante, as Memórias para servir à
História do Brasil, trabalho minucioso que dá conta de todos os fatos passados
desde a chegada da família real portuguesa ao Brasil até o ano de 1821.
Além desta obra, foi o cônego Luís Gonçalves um dos
primeiros a escrever defendendo os direitos do Brasil na época que precedeu
imediatamente a independência, abundando muito em outros escritos e
notavelmente em um opúsculo combatendo a maçonaria, e esses outros em que, com
ardor e talvez violência, arcou com o benemérito padre Diogo Antônio Feijó,
quando este atacava o celibato clerical.
Não quero estender mais a lista dos mortos cujas recordações
encontro no obituário da irmandade de S. Pedro. Não posso, porém, esquecer, e
lembrarei por último o cônego Manuel de Freitas Magalhães, a quem devo, além de
um tributo ao seu merecimento real, uma dívida que não importa coisa alguma
para os meus companheiros de passeio, mas que para mim importa muito, porque o
cônego Manuel de Freitas Magalhães foi o meu primeiro mestre, e mestre somente
por amizade e dedicação a meu pai. Dir-me-ão que o público nada tem que ver com
isso. Convenho. Creio, porém, que um homem, depois de escrever doze páginas
para o respeitável público, pode muito razoavelmente ter o direito de escrever
duas ainda para o mesmo público, e principalmente para o seu coração.
Em uma palavra: ufano-me de saber pagar minhas dívidas.
O padre Manuel de Freitas Magalhães era natural da vila do
Espírito Santo, na província do mesmo nome, e filho legítimo de João de Freitas
Magalhães e de Ana da Encarnação. Foi batizado no dia 17 de fevereiro de 1787,
tendo nascido no mesmo ano.
Veio para o Rio de Janeiro em abril de 1822, na época
ardente e entusiástica da independência, e fez-se notável, pronunciando-se
manifesta e vivamente pela causa da pátria e ligando-se desde logo ao Partido
Liberal, a que prestou serviços durante o reinado do Sr. D. Pedro I.
Deixando a capital do império, estabeleceu-se, em 1825, na
vila de Itaboraí, onde permaneceu até o ano de 1835, em que, depois de um
brilhante concurso, foi escolhido para vigário da freguesia de S. Gonçalo.
Desde a primeira legislatura provincial até à sua morte, foi
sempre eleito membro da assembléia provincial do Rio de Janeiro, e por alguns
anos presidiu a esta câmara.
Em 1839, achando-se vaga a vigararia de Itaboraí, tornou o
padre Manuel de Freitas Magalhães a apresentar-se em concurso, e conseguiu o
que ele dizia mais desejar no mundo: ser vigário dessa paróquia, à qual tinha
sempre conservado o mais decidido amor.
Lembra-me que no dia de sua posse da igreja dessa freguesia,
em 1839, o conselheiro José Clemente Pereira, ouvindo-o, no meio de um
banquete, manifestar esses sentimentos, exclamara, sorrindo:
– Meu vigário, acuso-o de adultério. Porque, estando casado
com a freguesia de S. Gonçalo, entreteve amores ocultos com a de S.
João de Itaboraí.
Durante os poucos e saudosos anos que o cônego Manuel de
Freitas Magalhães foi vigário de Itaboraí, o seu pensamento e empenho
dominantes foram a harmonia e união de todos os habitantes de sua freguesia.
Guardando consigo os seus princípios políticos, nas épocas de lutas eleitorais
ninguém trabalhava mais do que ele. O seu único trabalho, porém, era com o fim
de manter a ordem, de destruir intrigas e de impedir inimizades, e às vezes
conseguiu restabelecer amigáveis relações perturbadas pelo antagonismo político.
A sua casa e a sua mesa estavam francas a todos. Não há
neste ponto a menor exageração. Tornou-se por vezes curiosa e objeto de gracejo
de amigos o fato de chegar-se o vigário Freitas a alguns desses para procurar
saber quem eram algumas pessoas que acabavam de jantar à sua mesa, e uma vez,
quem era um homem que dormira em sua casa!
Também os habitantes da freguesia de Itaboraí pagavam com o
mais decidido amor a dedicação do seu vigário. E quando chegavam as grandes
festas do ano, e mesmo durante o correr dos meses, os presentes obsequiosos
eram em tão grande número, que ele dizia que já não tinha onde guardá-los; e
nos jantares que sempre costumava dar nos dias de festas, o bom vigário
exclamava, falando à numerosíssima companhia que cercava a mesa:
– Aqui o convidado sou eu. Porque este lauto banquete foram
os senhores que me ofereceram.
Estou narrando fatos de que ainda há testemunhas presenciais
que se podem contar por dezenas, e das quais não haverá uma única que não abone
a minha verdade.
Em 1842, o cônego Manuel de Freitas Magalhães, instado por
alguns comprovincianos, parentes e amigos seus, partiu para sua província
natal, e pretendendo a honra de representá-la na assembléia geral, teve de
sustentar uma luta porfiada e calorosíssima com o presidente da província, que
também se apresentara candidato. A câmara dos deputados anulou essa eleição. O
cônego Freitas já se achava no Rio de Janeiro. O presidente da província do
Espírito Santo já era também outro, e na nova eleição a que se procedeu, em
1843, o cônego Manuel de Freitas Magalhães obteve todos os votos do eleitorado,
à exceção de um só! – eloqüente e brilhante manifestação do voto livre dos seus
comprovincianos.
O combate eleitoral de 1842 tinha, no entanto, afetado
profundamente o cônego Freitas, que voltou da sua província triste e doente. Os
habitantes da freguesia de Itaboraí foram em grande número recebê-lo no porto
da Vila Nova de S. José d’El-Rei, e ele, desfazendo-se em lágrimas, atirou-se
nos braços destes seus amigos.
Desde esse tempo, começou o cônego Freitas a prever e
anunciar a sua morte próxima, e deu-se então um fato que não me animaria a
referir, se não pudesse prová-lo com o testemunho de pessoas muito
respeitáveis.
Em 1843, pouco antes de partir para a corte, onde devia
tomar assento na Câmara dos Deputados, o cônego Freitas acordou uma manhã
pensativo e melancólico. Alguns amigos instaram com ele para que dissesse o
motivo da sua tristeza e, enfim, o obrigaram a falar.
–
Esta noite – disse ele – no meio de um sonho, ouvi perfeita-mente uma voz que
me bradou: “O mês de outubro te há de ser fatal.”
Como bem se pode pensar, zombou-se da causa da melancolia do
vigário cônego Freitas, e procurou-se por todos os modos distraí-lo. Ele,
porem, não se esqueceu mais do sinistro anúncio da voz misteriosa do seu sonho.
Indo para a corte, hospedou-se na casa de seu íntimo amigo o
Exmo Sr. Conselheiro Dr. Tomás Gomes dos Santos, a quem por vezes referiu o seu
triste sonho.
Chegou, enfim, o mês de outubro, e no dia 15 desse mesmo
mês, um ataque repentino pôs termo aos dias do cônego Manuel de Freitas
Magalhães, cujas últimas palavras, dirigidas ao seu muito prezado amigo, foram
as seguintes:
–
Então, Tomás, morro ou não?
E em poucos minutos morreu, com efeito, nos braços do Sr.
Conselheiro Dr. Tomás Gomes dos Santos.
Termina aqui o nosso último passeio à igreja de S. Pedro.
SEGUNDO VOLUME
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O Imperial Colégio de Pedro II
I
AINDA temos conventos e muitas igrejas que visitar. É, porem,
indispensável que a variedade dos assuntos venha em meu socorro, para que eu
tenha ainda companheiros e não me ache só nos meus passeios.
Levar-vos-ei hoje ao Imperial Colégio de Pedro II. Mas em
vez de seguirmos já para a Rua Larga de S. Joaquim, onde existe o externato, ou
para o Engenho Velho, onde se acha o internato deste importante
estabelecimento, voltaremos ainda à Rua de S. Pedro e pararemos defronte
do sobradinho antigo e humilde que é contíguo à igreja de S. Pedro, e dela uma
dependência.
Assim como há grandes e caudalosos rios que em sua nascente
são apenas tênues arroios, assim também se vêem belas e consideráveis
instituições, cujo berço modesto e pobre mal deixara adivinhar o seu futuro
brilhantismo.
O Imperial Colégio de Pedro II está neste caso.
Diz-se e pode ler-se, pois está escrito, que este colégio
foi fundado no dia 2 de dezembro de 1837. Certo é, porém, que a sua verdadeira
origem data de um ano que não me é possível bem determinar e que, no entanto,
foi positivamente anterior ao de 1739 e posterior ao de 1733.
E mais ainda, a sua origem primitiva seria tudo quanto
quiserem, menos fidalga.
Essa bela instituição, de que hoje tanto nos ufanamos, é
filha de humildes pais. Porque há um século e vinte e alguns anos deram-lhe o
ser a caridade, que nunca foi altiva, e um simples sacristão-mor, que
provavelmente não era de nobre estirpe.
E o brilhante colégio que não se lembre de protestar contra
estas verdades, negando esta sua procedência e sustentando que nunca teve
parentesco com o seminário de S. Joaquim. Porque é público e está provado que
ele lhe herdou os bens sem que os recebesse por legado expresso em testamento,
e por conseqüência, herdou-os por ser parente legítimo, e é incontestavelmente
da família.
Vou resumir em duas palavras o capítulo da nossa história do
outro tempo, capítulo que trata deste assunto, e que infelizmente não se
encontra nem nos livros nem nos arquivos, mas cuja veracidade julgo poder
assegurar, porque pude lê-lo escrito na lembrança de três velhos muito
respeitáveis, sendo um deles sacerdote, e todos absolutamente concordes na
relação do que tinham ouvido de seus pais e de seus maiores.
Logo que se inaugurou a igreja de S. Pedro, foi escolhido
para sacristão-mor desse templo um homem cujo nome ficou esquecido, talvez um
padre e, em todo o caso, homem de costumes sãos e de reconhecida virtude.
O sacristão-mor não tinha fortuna, e o pouco que podia
ganhar dividia com os pobres. Era um pobre a dar esmolas, partindo pelo meio o
pão que apenas para ele chegava.
Doía-lhe, sobretudo, a sorte dos meninos órfãos, que, perdendo seus pais, ficavam na miséria, em dúplice miséria, sem pais e sem pão.
O sacristão-mor conhecia e socorria um homem pobre, viúvo,
doente e com dois filhos ainda muito pequenos. E meninos de doze e treze anos
de idade. Um dia, foi ver o seu protegido e encontrou-o morto. Os dois órfãos
choravam e mal pensavam quanto deviam chorar!
O caridoso sacristão levou consigo os dois meninos e durante
a noite gastou horas inteiras a refletir sobre a vida que os esperava. Ele não
tinha meios para educá-los. Que faria dos dois órfãos? Pensando nestes, pensou
também que muitos outros estariam nas mesmas circunstâncias.
Tanto pensou, que o anjo da caridade veio inspirar-lhe uma
idéia feliz, embora um pouco difícil, e cujo resultado se mostrava muito
problemático.
Mas, apesar de todas as dúvidas que a enublavam, a idéia, a
inspiração fez sorrir ao homem caridoso, que dormiu tranqüilamente, resolvido a
executar o projeto que concebera.
Dias depois, viu-se o sacristão-mor sair de casa, em pleno
dia, conduzindo os dois meninos órfãos, a quem vestira de hábito e murça de
baeta branca, pondo-lhes ainda no lado esquerdo do peito uma cruz de baeta
encarnada.
Ninguém se riu, ninguém se lembrou de deixar ouvir o mais
leve epigrama, vendo passar aquele grupo singular. Apenas levados por um
explicável impulso de curiosidade, alguns curiosos foram seguindo de perto, e
em respeitoso silêncio, o ancião e os dois meninos.
O sacristão-mor, comovido e um pouco receoso do bom êxito do
seu projeto, dirigiu-se em primeiro lugar à casa do governador, e
apresentando-lhe os seus dois filhos adotivos, disse-lhe com uma simplicidade
que as lágrimas que derramava enchiam de eloquência:
– Senhor, estes dois meninos são pobres órfãos a quem a morte privou dos pais. Precisam do pão que alimenta o corpo e do pão que alimenta o espírito. Acolhi-os eu, que sou quase tão pobre como eles. Posso, graças a Deus, repartir com eles o prato da minha mesa. Faltam-me, porém, os recursos necessários para educá-los. Muitos outros infelizes estarão em circunstâncias idênticas. E veio-me a idéia de sair com estes a pedir esmolas para fundar um pequeno hospício, onde recebam alguma instrução e educação religiosa os órfãos, que bem podem vir a chamar-se de S. Pedro. Porque foi rezando ao senhor S. Pedro que este pensamento nasceu na minha alma.
O sacristão-mor entregou então uma folha de papel ao
governador, que, depois de examiná-la, e vendo que era uma subscrição em que
ele era convidado a assinar em primeiro lugar, tomou logo a pena, escreveu o
seu nome, e adiante a quantia de 400$000.
Da casa do governador, partiu o sacristão-mor com os dois
órfãos a falar ao bispo D. Frei Antônio de Guadalupe, que prontamente assinou
na subscrição uma quantia igual à que assinara o governador.
Depois do bispo, seguiram-se os negociantes e homens e
senhoras ricas, que foram contribuindo com esmolas mais ou menos avultadas, de
modo que, no fim de poucos dias, já se mostrava animadora a colheita para os
órfãos de S. Pedro; e assim achou-se o sacristão-mor em circunstâncias de
realizar a bela obra que tinha concebido, rezando ao senhor S. Pedro.
Mas onde, quando e como principiou esta instituição é o que
não me é possível dizer, porque tanto não pude conseguir saber, apesar de todas
as minhas investigações e de todos os tributos em que pus a paciência e a
memória dos meus bons informantes.
É positivo que o bispo D. Frei Antônio de Guadalupe não só
patrocinou a idéia do sacristão-mor da igreja de S. Pedro, mas ainda veio a
merecer as honras de fundador do colégio dos órfãos de S. Pedro, porque, com a
influência que lhe davam o seu merecimento, a sua posição e a sua autoridade,
tomou a peito dar, e deu à obra da caridade um desenvolvimento que o
sacristão-mor não podia realizar.
O zeloso e benemérito bispo comprou ao padre Manuel Marques
Esteves o terreno contíguo à igreja de S. Pedro, e nele fundou o seminário que
se dizia dos órfãos de S. Pedro (assim escreve Pizarro), por provisão de 8 de
junho de 1739.
As palavras de que se serve Pizarro, que se dizia dos órfãos
de S. Pedro, prestam-se a duas interpretações. Ou indicam que havia já um
colégio com esse título, e eis aí o colégio fundado pelo sacristão-mor, ou
Pizarro assim se exprimiu, porque quando escreveu, já o colégio tinha outro
nome e se chamava de S. Joaquim.
Mas não resta dúvida a respeito da existência da
instituição, um pelo menos, ou alguns anos antes de 1739, porquanto o mesmo
Pizarro, dando conta da fundação do seminário de S. José, e dizendo que ela foi
efetuada por provisão de 3 de fevereiro de 1739, acrescenta logo depois que:
“ao mesmo tempo que se trabalhava naquela casa colegial, continuou a ultimar o
zeloso bispo a primeira por ele fundada para educação e instrução da desgraçada
e desvalida mocidade de meninos órfãos e pobres do bispado, a quem a falta de
mestres, de protetores e de outros meios mais prontos negava a esperança de
serem úteis a si mesmos, à pátria e às sociedades, tanto eclesiástica como
civil. Com esse fim, comprou ao padre Manuel Marques Esteves, etc.”.
Portanto, quando se fundou o seminário de S. José, estava já
fundado o colégio que se dizia dos órfãos de S. Pedro; e Pizarro atribui a
fundação desta primeira casa colegial ao bispo e não ao sacristão-mor da igreja
de S. Pedro, ou porque ninguém mais viu a sobrepeliz do sacristão, desde que
aparecera a mitra do bispo, ou porque o modesto e humilde sacristão, em
proveito da obra caridosa que concebera, imediatamente deixou o bispo tornar-se
o fundador do colégio.
Nem seria esta a primeira vez em que um general recebesse
exclusivamente os louvores e as honras de uma vitória, para alcançar a qual um
simples soldado tivesse vencido alguma dificuldade antes dele.
Em todo o caso, bom foi que o Dispo D. Frei Antônio de Guadalupe abraçasse e desenvolvesse a idéia do sacristão-mor.
Como já notei, Pizarro nos diz que para fundar o colégio, o
bispo comprou ao padre Esteves o terreno contíguo à igreja de S. Pedro. Creio,
porém, que não foi somente comprado o terreno, mas também um sobradinho nele
existente, que é o mesmo que ainda hoje ali se vê.
Esta minha persuasão nasce das próprias condições da casa. É inadmissível que o bispo Guadalupe fizesse construir para um colégio um sobradinho tão acanhado, tão mesquinho e tão impróprio para o fim que se tinha à vista. Se, porém, estou em erro, e aquela construção foi devida ao bispo, ruim gosto, nesse caso, teve S. Exa Reverendíssima.
Quem quiser pode ir ver e examinar a humilíssima casa de que
se trata, e quem não se animar a fazê-lo conceba um sobradinho para o qual se
sobe por uma escadinha, e que todo se resume em uma salinha e em alguns
quartinhos, e com todos os seus cômodos acabados em inhos e em inhas, e terá
feito uma idéia completa do colégio dos órfãos de S. Pedro, fundado pela
provisão de 8 de junho de 1739.
Nesse colégio, que ficou desde logo isento da jurisdição
paroquial, foram criadas uma aula de gramática latina, uma de música e uma de
cantochão, sendo o seu primeiro reitor o padre Sebastião da Mota Leite.
Apesar da insuficiência da casa, aí ficaram os órfãos de S.
Pedro durante 27 anos, e por conseqüência, é claro que muito limitado devia ser
o número dos meninos que então se aproveitavam da instituição.
Também é claro que a instrução que nesse colégio se oferecia
aos pobres órfãos era demasiadamente limitada, e parecia tendente a dispô-los e
prepará-los para a vida eclesiástica.
Fracos eram os recursos do estabelecimento, e quase que
provinham todos de uma única fonte, a caridade pública, que provavelmente
começou desde o princípio a ser despertada pelos próprios colegiais, que saíam
a pedir esmolas.
Diz-se que não tendo o colégio nessa época patrimônio algum,
e não chegando para sua sustentação a colheita de esmolas, concorriam os
estudantes às festividades religiosas e aos enterros para que eram convidados,
percebendo por isso espórtulas que revertiam em benefício do estabelecimento.
Este uso iremos encontrá-lo durante algum tempo ainda no seminário de S.
Joaquim.
Diz-se também que já nessa mesma época recebia o colégio
alunos contribuintes; e se assim era, não sei como se acomodavam os colegiais
naquele sobradinho contíguo à igreja de S. Pedro.
A 12 de maio de 1742 o Bispo D. Frei João da Cruz reformou os estatutos que tinham sido dados ao colégio pelo seu antecessor D. Frei Antônio de Guadalupe e procurou abrandar um pouco algumas disposições mais rigorosas desse regulamento, que era quase todo copiado de outro observado em um colégio semelhante que havia na cidade do Porto.
A infância da importante instituição dos órfãos de S. Pedro
durou vinte e sete anos, cuja história é hoje quase toda tradicional e em
muitos pontos obscura. Não há nem documentos, nem livros em que ela possa ser
estudada, e somente é lícito afirmar que o colégio marchava embaraçadamente e
lutando com todas as dificuldades do noviciado e da pobreza.
Entretanto, a instituição estava fundada. A árvore muito
nova ainda não estendia em torno grandes e vigorosos ramos, a cuja sombra
pudesse vir acolher-se um elevado número de órfãos. O solo, porém, era fértil,
e o que mais faltava devia pouco a pouco ser conseguido.
Um velho de nome Manuel de Campos Dias, tinha
levantado no ano de 1758 uma capela consagrada a S. Joaquim, no sítio em que
principiava a Rua do Valongo, e notando as proporções acanhadas da casa do
colégio dos órfãos de S. Pedro, ofereceu para estes a capela que fizera erigir.
Secundando esta ação piedosa, um homem cujo nome não chegou
até nós, mas que se sabe ter sido morador de Minas Gerais, fez também, pelo
mesmo tempo e para o mesmo fim, doação de algumas braças de terra que possuía
junto daquela ermida, e que deviam servir para se edificar ali um seminário.
Era então reitor do colégio o padre Jacinto Pereira da
Costa, que recebeu as doações feitas e deu princípio às obras do seminário, que
ativou tanto, que as entregou muito adiantadas ao seu sucessor o cônego Antônio
Lopes Xavier
Este novo reitor concluiu a parte principal do seminário e
teve a satisfação de ver no seu reitorado, em princípio de dezembro de 1766,
mudarem-se os órfãos de S. Pedro para a sua nova casa
Entretanto, perderam os meninos nesse dia a denominação por
que eram conhecidos, e os órfãos de S. Pedro ficaram desde então sendo chamados
a princípio órfãos de S. Joaquim, e enfim, seminaristas de S. Joaquim.
O sobradinho contíguo à igreja de S. Pedro foi depois de
algum tempo destinado a hospedar o sacristão-mor da competente igreja, e ainda
hoje, creio eu, continua a ter este destino.
Debaixo das vistas e da proteção dos bispos, foram os
diversos reitores do seminário de S. Joaquim ampliando este estabelecimento, e
pouco a pouco fazendo construir a igreja de S. Joaquim, conforme eram mais ou
menos animadores os recursos que oferecia aos órfãos a caridade pública.
Pouco a pouco também conseguiram eles ir preparando o
pequeno patrimônio que teve depois o seminário e que constou de nove prédios,
que se deveram a alguns legados pios, e às sobras das despesas do
estabelecimento, sobras que a economia dos reitores pode muitas vezes fazer
aparecer.
Mas o patrimônio dos órfãos de S. Pedro ou de S. Joaquim
começou logo sob maus auspícios, porque o primeiro ou um dos primeiros
benfeitores, que foi o padre Sebastião da Mota Leite, legou em proveito do
colégio e dos colegiais uma chácara que nunca pudesse ser vendida nem obrigada
a coisa alguma. Fez-se, porém, o contrário disso, ficando o seminário sem a
chácara, como depois ficaram os pobres órfãos privados de tudo quanto era
propriedade sua.
A 20 de julho de 1777, o Bispo D. José Joaquim Justiniano
Castelo Branco determinou que o seminário de S. Joaquim recebesse gratuitamente
meninos órfãos pobres até o número de vinte e seis. Esse número, porém, foi
elevado a vinte e nove no ano de 1795, em conseqüência de três legados de
1:200$000 cada um, feitos por Domingos de Sousa Guimarães, sob a condição de se
criarem no seminário mais três lugares perpétuos para meninos pobres.
Mas o seminário contava três classes de alunos. A primeira
era a dos meninos ricos chamados pensionistas, que pagavam oitenta mil-réis
anuais. A segunda a dos menos ricos chamados meio-pensionistas, que contribuíam
com quarenta mil-réis anuais. E a terceira dos pobres, que eram gratuitos, ou
antes, que pagavam tanto ou mais que os outros. Graças ao concurso da caridade
pública, e graças também ao seu trabalho, como daqui a pouco terei de mostrar.
Nos primeiros tempos, as duas classes de ricos e menos ricos
contribuíam com sessenta mil-réis anuais a primeira, e com trinta mil-réis a
segunda.
Até aqui nada há que notar. Chamavam-se alunos gratuitos no
seminário de S. Joaquim os seminaristas que não tinham pais ou protetores que
pagassem imediatamente a sua anuidade. Embora com o seu patrimônio e com as
esmolas que eles próprios obtinham, fizessem igual ou maior pagamento, isso
pouco importa.
Daqui por diante, porém, encontraremos diferenças e
distinções que estão em completa desarmonia com os sentimentos de uma
verdadeira caridade.
Vou principiar pelo princípio. Façam de conta que batia à
porta do seminário de S. Joaquim um menino que queria entrar para ali. Havia
lugares vagos em qualquer das três classes de seminaristas. Abria-se a porta.
O menino devia ser admitido com certas formalidades e eis
aqui o que se praticava.
Se o menino era rico, o reitor o conduzia à igreja, cujas
portas se abriam ao público, e depois de benzer os hábitos de seminarista, que
o novo aluno trocava pelos seus vestidos seculares, fazia-o escolher e tomar o
nome de algum santo, como se praticava nas casas professas, e enfim entoava um
Te-Deum com toda a solenidade.
Mas se o menino era pobre, arranjavam-se todas essas
cerimônias à capucha, no coro da igreja, e dispensava-se o Te-Deum.
Por conseqüência, os louvores a Deus eram rendidos pelo
dinheiro que o menino rico vinha pagar e não pelo novo aluno que o seminário
recebia, e que ia educar de modo conveniente ao Estado.
Passo a dizer-vos como se vestiam os seminaristas de S.
Joaquim.
No interior do seminário traziam uma túnica de linho branco
apertada com um cinto preto e calçavam meias brancas e sapatos pretos. Os
pobres, porém, usavam a princípio sapatos de couro branco e traziam cinto de
couro preto, em vez de cadarço dessa cor, com que se cingiam os ricos.
Nas solenidades dentro e fora do seminário os hábitos eram
os seguintes: túnica, murça e barrete de baetilha branca, cinta de cadarço
preto, uma cruz vermelha ao lado esquerdo da murça.
Dessas vestes brancas proveio aos seminaristas a alcunha de
carneiros, por que eram conhecidos na cidade, e que provavelmente lhe foi posta
pelos estudantes dos outros seminários, que, aliás, também foram alcunhados,
como oportunamente direi.
O Padre Plácido Mendes Carneiro, sendo reitor do seminário
de S. Joaquim, fez desaparecer completamente as diferenças que se notavam nos
hábitos dos seminaristas ricos e pobres, bem como veremos que pôs termo a
outras distinções e usos inconvenientes.
Este mesmo reitor obteve do Bispo D. José Caetano da Silva
Coutinho, por despacho de 17 de agosto de 1811, a mudança dos hábitos dos
seminaristas, que ficaram usando de túnica preta, barrete e meias da mesma cor,
cinto roxo com uma pequena faixa, murça também roxa com uma cruz vermelha ao
lado esquerdo e sapato com fivela.
Quando os seminaristas saíam em comunidade para alguma
função ou cerimônia religiosa, iam assim trajados e levavam cruz alçada, cruz
que se chamava pontifical, por isso que sustentava a tiara pontifícia e as
chaves de São Pedro. Aos lados da cruz mostravam-se os competentes ciriais, e
os seminaristas que levavam estas insígnias trajavam sobrepelizes que o
seminário lhes fornecia.
Passados alguns anos, e tendo sucedido no reitorado ao Padre
Plácido Mendes Carneiro, que fora nomeado cônego da capela real, o abade de
Alverca, José dos Santos Salgueiro, o Bispo S. José Caetano permitiu, a pedido
deste, que os seminaristas usassem de sobrepeliz, trazendo sobre esta a murça
roxa e cabeção encarnado, com o que exultaram os jovens alunos por se acharem
mais bonitos e vistosos que dantes.
O mesmo reitor conseguiu também do Sr. D. João VI para os
seminaristas a concessão de uma medalha de honra, que eles traziam pendente de
uma fita de seda preta, quando usavam hábito, e presa ao lado esquerdo do
peito, quando se apresentavam de casaca.
A medalha era dourada e de figura oval. Em uma de suas faces
via-se em relevo um livro atravessado por um cajado, lendo-se na circunferência
pouco mais ou menos a seguinte inscrição: Pulitamum orphanotrophium divo
Joachinodicatum. E na outra face estava a efígie do rei com esta outra
inscrição:
Joannes Portugalioe, Brasilioe et Algarbiorum Rex et
orphanorum Pater.
Asseveram-me que estas inscrições foram ditadas pelo célebre
e venerando Silvestre Pinheiro.
Já se vê que os órfãos de S. Pedro, depois de terem mudado
de nome uma vez pelo menos, mudaram ainda mais vezes de vestidos. Parece,
porém, que gozaram de alguma consideração no reinado do Sr. D. João VI, pois
que mereceram a concessão de uma medalha de honra. Mas isso não os livrou de
perderem, nessa mesma época, o seu seminário, como teremos de ver em breve.
Cabia em tal caso lembrar o ditado que diz: “Pobre, quando
vê muita esmola, desconfia.”
É, porém, conveniente não atropelar os fatos, nem confundir
a história.
Ainda tenho bastante que dizer antes de chegar a essa
primeira violência feita aos órfãos de S. Joaquim. Ficarei aqui, por hoje.
II
A administração do antigo seminário dos órfãos de S. Joaquim
foi a princípio, e durante muitos anos, da maior simplicidade, e pouco mais ou
menos como fora primitivamente a do colégio dos órfãos de S. Pedro.
O chefe supremo do estabelecimento era o bispo diocesano do
Rio de Janeiro, sendo por provisão dele nomeados o reitor, o vice-reitor e os
professores.
Os superiores do seminário eram quatro, a dois dos quais
estava especialmente incumbida a administração.
O reitor governava o seminário, nomeava algum empregado
subalterno de que havia necessidade e respondia pelo comportamento moral e
religioso dos seminaristas.
O vice-reitor era o ecônomo da casa, dava todas as
providências a fim de que nada faltasse daquilo que se garantia aos meninos,
velava pela pontualidade dos atos da comunidade, fazia as compras necessárias,
cobrava as rendas do patrimônio do seminário, bem como de uma terça parte do
rendimento de um trapiche que se chamava da Ordem, e a que o estabelecimento
tinha direito. Assistia ao refeitório e celebrava missa todos os dias às sete
horas da manhã.
Os outros dois superiores eram um professor de latim que
dava lições diárias das oito às dez horas da manhã e das três às cinco da
tarde, à exceção das quintas-feiras, que eram dias feriados; e um professor de
cantochão, que lecionava duas vezes por semana somente, nas tardes das
quartas-feiras e sábados.
Criou-se também no seminário uma aula de música, que em
pouco tempo desapareceu, deixando os seminaristas reduzidos ao monótono
cantochão.
Já se vê que, em matéria de administração, nada podia haver
mais simples, e em matéria de instrução nada podia haver mais pobre e limitado.
Não poderia merecer uma queixa razoável este simplicíssimo
sistema administrativo. Não se sentia necessidade de uma administração
complicada, nem de um grande pessoal dela incumbido.
Não me refiro ao que se passa no imperial colégio de Pedro
II, que em seu governo interno está felizmente livre de notáveis complicações.
Se, porém, quisesse falar de outras instituições e de diversos ramos da
administração pública, provaria sem a menor dificuldade que, quanto maior é a
nau, maior é a tormenta, que, quanto menos simples é o mecanismo do serviço e a
teia administrativa, e mais numeroso o pessoal envolvido neles, tanto mais
sensivel é a atrapalhação e tanto mais larga a sangria que recebe o tesouro
público, sem que o Estado colha um proveito que realmente corresponda à
elevação da despesa.
É verdade que as atrapalhações administrativas devidas ao
pessoal numeroso empregado no serviço, que se subdivide e se sujeita a trinta
mil seções, distinções, e mais isto e mais aquilo, são às vezes indispensáveis
para se arranjarem afilhados de excelentíssimos padrinhos, e por conseqüência,
não há que dizer, nem que notar. Pague o tesouro as custas e faça-se em quinze
dias o que se podia acabar em dois ou três.
Direi oportunamente quais as modificações por que teve de
passar a administração do seminário dos orfãos de S. Joaquim.
Quanto à instrução, que era impossível que mais resumida
fosse, ainda assim era um apreciável benefício naquele tempo.
Os meninos que concluíam os seus estudos de latim e
cantochão no seminário dos órfãos de S. Joaquim achavam nos seminários de S.
José e da Lapa, e em uma ou outra aula, recursos para completar o seu curso de
humanidades.
A maior parte dos seminaristas de S. Joaquim destinavam-se
ao sacerdócio, e neste seminário gastavam quatro, cinco e às vezes mais anos em
aprender o latim, embora somente de latim e de cantochão se ocupassem.
Ficais, sem dúvida, tomados de espanto, depois de receber
esta informação.
Comparais os estudantes de outrora com os estudantes de hoje
e vos sentis abismados, considerando a fácil compreensão da mocidade do nosso
tempo.
Façamos justiça aos nossos maiores.
Houve então, como hoje há, belas inteligências e estudantes
igualmente aplicados e talentosos. Hoje, porém, os sistemas de instrução se
acham aperfeiçoados, os livros sobram, os mestres não faltam e pode-se aprender
muito mais, e mais depressa.
Entretanto, é preciso não confundir a verdade com o sofisma.
Podeis relatar-me trinta ou quarenta fatos de meninos prodígios que em dois ou
três anos, e até mesmo em alguns meses, aprenderam latim, francês, inglês,
história, geografia, aritmética e geometria, filosofia, retórica e outras
coisas mais, e foram aprovados com louvor em seus exames de preparatórios em
certas academias do império.
Não ponho em dúvida os fatos. Mas não creio no prodígio.
Todos sabem como esses milagres se arranjam, e apesar do patronato, o menino
prodígio não passará de um nihil in omnibus.
Aprendia-se antigamente o latim durante cinco anos e mais
nos seminários. Mas os estudantes saíam das aulas sabendo alguma coisa, e os
padres liam o seu breviário com consciência e entendendo o que liam, o que era
por certo muito melhor do que ver-se um analfabeto que, aborrecido da taverna
em que é caixeiro, determina ser padre, e no fim de alguns meses toma ordens de
presbitério sem saber como concorda o sujeito com o verbo, sem poder cantar uma
epístola, se não entre um chuveiro de silabadas e fazendo ouvir a palavra de
Deus sem compreendê-la, como um papagaio que repete: “Quem passa? É o rei que
vai à caça.”
Salvas honrosas exceções, o nosso clero nunca foi grande
coisa quanto à ilustração. Mas também, nunca se mostrou tão ignorante, nem tão
abaixo da sua muito nobre e veneranda missão, como hoje, salvas ainda honrosas
exceções.
Por conseqüência, era mil vezes melhor aprender latim
durante quatro ou seis anos do que engrolar um dominus vobiscum em dois ou três
meses.
Mas onde vou eu com as minhas costumadas divagações?
Deixemos em paz os improvisos de padres e de acadêmicos, e vamos continuar a
história do seminário dos órfãos de S. Joaquim.
Já falei da administração do estabelecimento. Vou outra vez
ocupar-me com os seminaristas.
O refeitório do seminário era como podia ser o de uma casa
de pobres, e ressentia-se por certo de uma ruim disposição, logo na primeira
comida, porque, durante muitos anos, não houve almoço prestado pelo
estabelecimento. Os alunos almoçavam à sua custa e, por conseqüência, os pobres
ficavam à mercê dos ricos ou de alguns recursos devidos à caridade, ou enfim
não almoçavam, o que, aliás, raramente acontecia.
Nos domingos, porém, e nos dias de festa, fazia-se uma
exceção a esta regra duramente econômica, e dava-se a cada seminarista um
opíparo almoço, que constava exclusivamente de um pão com manteiga.
Ao jantar e à ceia, a mesa era simples, mas farta.
Ao jantar, que tocava ao meio-dia, havia carne de vaca
cozida com couves e toucinho, carne guisada, a que os seminaristas chamavam
serrabode; a esse prato se ajuntava arroz, e por sobremesa fruta do tempo.
Nos dias de preceito, a carne de vaca era sempre substituída
por bacalhau ou peixe grosso salgado.
Um vice-reitor do seminário deixou a esse constante e
invariável prato de carne cozida ou guisada o nome de purgante da casa, porque
era de regra, que raramente falhava, que os meninos que entravam para o
seminário, ainda mesmo amarelos e magros, mostravam-se no fim de dois meses
corados e brilhantes de saúde, depois de haverem passado por um pro fluvio
ventris que durava algumas semanas.
À noite, constava a ceia de um único prato e fruta do tempo,
e nos dias de preceito, esse prato era simplesmente de ervas ou de arroz com
camarões, que os seminaristas tinham alcunhado com uma certa propriedade
chamando-o o ponto e vírgula.
Mas nem a falta do almoço nem a parcimônia da mesa do
refeitório do seminário dos órfãos de S. Joaquim me causam verdadeira
estranheza. A casa era pobre, não podia dar mais, e portanto, deviam todos ter
paciência. O que, porém, se tornava muito censurável era o costume vil e
indigno que fazia excluir no mesmo seminário da mesa dos alunos contribuintes
os alunos gratuitos! Não se permitia que os pobres comessem serrabode nem ponto
e vírgula com os ricos! Em uma instituição filha legítima da caridade, ofendia-se
mortalmente a caridade para se render cultos ao ouro! Em uma casa de Jesus
Cristo, dobravam-se os joelhos a Pluto e ao Diabo!
Felizmente, sendo reitor o Padre Plácido Mendes Carneiro,
foram por suas repetidas reclamações abolidas essas exceções odiosas, e que
deviam envergonhar aqueles que as tinham estatuído.
Além dos seus estudos de latim e cantochão, os seminaristas
de S. Joaquim ocupavam-se em exercícios de piedade cristã.
Todos os dias rezavam no coro da igreja o ofício de nove
lições, como os sacerdotes, isto é, desde matinas até noa, de manhã, e de
vésperas até completas, à tarde. Este trabalho foi dispensado pelo Bispo
S. José Caetano da Silva Coutinho, ficando, porém, os seminaristas sempre
obrigados a recitar o ofício em todos domingos e dias-santos. Nos dias feriados
cantavam a Stella Coeli, dava a oração um diácono e eles ouviam missa. À noite,
iam para a capela do seminário às sete horas e meia, lá rezavam o terço de N.
Senhora, e voltavam em comunidade para o refeitório, onde ceavam sob a
presidência do vice-reitor; e enfim, depois de darem graças a Deus e de
recitarem o salmo Miserere, retiravam-se, indo cada um para o seu cubículo.
Além destes exercícios de piedade, tinham os seminaristas
durante o ano algumas grandes solenidades religiosas, que se celebravam na
igreja do seminário, e em que eles tomavam uma parte muito notável.
A festa do patriarca S. Joaquim era feita com toda a pompa e
precedida de novenas, nas quais pregavam os seminaristas que o reitor escolhia
dentre aqueles que lhe pareciam mais capazes de desempenhar esse serviço; e é
escusado dizer que acudia um numeroso concurso para ouvir e apreciar os
pregadores imberbes, alguns dos quais criaram uma fama que não desmentiram
depois. Na véspera da festa, havia matinas cantadas pelos seminaristas.
Notava-se com interesse que apareciam nesta solenidade
alguns sacerdotes que vinham espontaneamente pagar ainda um tributo de amor e
de saudade ao seminário, de que eram filhos.
A festa do patriarca S. Joaquim era, sem dúvida, a
principal.
Celebravam-se, porém, ainda mais duas, a de N. S. das Dores
e a de S. José, cujos festeiros eram sempre seminaristas admitindo-se, no
entanto, o concurso de devotos de fora do seminário, fazendo-se para esse fim
eleição anual de juízes, procuradores, etc.
Vou agora mostrar, com a simples exposição de outros
costumes e usos observados no seminário de S. Joaquim, como os pobres órfãos,
os alunos chamados não contribuintes ou gratuitos, eram, de fato, contribuintes
pouco mais ou menos como os outros.
Os seminaristas tinham por obrigação varrer a igreja do
seminário e cuidar da sacristia, trazendo-as sempre no mais completo asseio, e
dividiam entre si este serviço, fazendo semanas, de modo que cumprissem todos o
mesmo dever.
Até aqui a regra era geral. Aparece, porém, em seguida, uma
exceção que vai tornar, como disse, os seminaristas, gratuitos em nome,
contribuintes de fato.
Os alunos pobres do seminário de S. Joaquim faziam semanas
de coros, indo dois para o coro de S. Pedro, dois para o da Candelária e dois
para o da Misericórdia, recebendo por esse serviço o seminário uma quantia
anual.
Costumavam também sair em comunidade para acompanhar
enterros, porque nos testamentos deixados por alguns finados achava-se a
cláusula de uma esmola de quatrocentos, duzentos e cem mil-réis, no mínimo,
legada aos pobres órfãos de S. Joaquim, com a obrigação de irem estes
acompanhar ao último jazigo os restos mortais dos legatários, entoando na rua o
salmo Miserere, e na igreja, depois da encomendação, um bem garganteado
Liberame, dando o reitor do seminário a oração.
Ainda alguns devotos, mandando cantar missas por qualquer
intenção, entendiam-se às vezes com o reitor do seminário de S. Joaquim, e lá
iam os seminaristas entoar o seu cantochão mediante uma esmola mais ou menos
elevada, que pertencia sempre ao estabelecimento.
Segue-se, portanto, que não podia haver gratuitos menos
onerosos do que os pobres órfãos de S. Joaquim, que durante muito tempo andaram
com sapatos e cintos diferentes dos que traziam seus colegas ricos, e nem ao
menos comiam com eles toucinho à mesma mesa, e tinham ou recebiam à parte o seu
purgante da casa e o seu ponto e vírgula, como se até nos pontos e vírgulas e
nos purgantes se devesse estabelecer diferença entre pobres e ricos!
Outro costume foi por muitos anos observado, pelo qual os
órfãos pobres de S. Joaquim recolhiam auxílios certos e às vezes avultados, que
aproveitavam, aliás, a todos os seminaristas, porque vinham a pertencer ao
seminário.
Saíam os pobres meninos com as suas vestes, que os faziam
chamar carneiros e levando nas mãos uma bolsa, corriam os diversos bairros da
cidade, entoando em alta voz estas palavras despertadoras da caridade pública.
“Dai esmola aos meninos órfãos de S. Joaquim, pelo amor de Deus!”
E não é preciso dizer que as bolsas voltavam recheadas dos
óbulos da caridade, mas também é verdade que os meninos viam-se expostos aos
motejos e às zombarias dos garotos e dos rapazes sem juízo ou sem generosidade.
Semelhante prática tinha em verdade graves inconvenientes.
Não era certamente a mais própria para o complemento da educação moral dos
meninos, e podia mesmo facilitar a sua desmoralização.
Outros meios havia para chamar a caridade pública em socorro
do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim, e foi assim que entendeu o reitor
Padre Plácido Mendes Carneiro, que acabou com esse triste costume.
Faz a maior honra à memória do Padre Plácido o fato de se
encontrar o seu nome ligado a todas essas pequenas, mas importantes reformas
tendentes a melhorar a posição dos alunos pobres do seminário, e a porém um
termo a todas as distinções mesquinhas e repugnantes que faziam correr uma
linha divisória entre os seminaristas contribuintes e os chamados gratuitos,
com ofensa evidente da caridade e aviltamento dos pobres.
Tais eram os sistemas de administração e de estudos, e os
costumes do seminário dos órfãos de S. Joaquim.
No princípio do século atual, tinham os seminaristas por
mestres de latim o padre João Batista de Meireles, que depois foi vigário da
freguesia, hoje cidade de Vassouras, e por mestres de música, piano e cantochão
o Padre José de Oliveira e José Joaquim, que era ainda mais conhecido pela
alcunha Os cinco sentidos; e tantos progressos mostravam os estudantes, e tanto
crédito merecia o seminário, que logo depois da chegada da família real, um e
outro receberam uma prova de consideração da parte do príncipe regente o Sr. D.
João.
Tratando-se de celebrar a semana santa na capela real,
mandou o príncipe regente que o cura da capela, o Padre Antônio Pedro,
escolhesse em todos os coros existentes na cidade do Rio de Janeiro cantores
com boas vozes e capacidade reconhecida para ajudar às cerimônias daquela
suntuosa solenidade, e só do seminário de S. Joaquim foram tirados sete meninos
que depois receberam do Sr. D. João, em nome da rainha, a nomeação de capelães
cantores, e desses vive ainda hoje um, que é o Sr. Padre-mestre Joaquim Severino
Gomes de Abreu.
No tesouro do imperial colégio de Pedro II conserva-se ainda
atualmente uma âmbula de ouro de grande merecimento artístico, que pertencera
desde longa data ao seminário de S. Joaquim. O Sr. D. João, príncipe regente,
notando que ela precisava de conserto, mandou efetuar este à sua custa,
mostrando neste fato, aliás muito simples, que se interessava pelo
estabelecimento, e depois distinguiu os seminaristas de S. Joaquim
concedendo-lhes a medalha de que já falei.
Mas esta proteção da majestade arrefeceu no fim de breves
anos, e em 1818, recebeu o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim o primeiro
golpe e a primeira injustiça.
Acabava de chegar, em outubro de 1817, ao Rio de Janeiro uma
divisão de tropas portuguesas, e sendo necessário acomodar os soldados, e não
bastando para isso os quartéis existentes e alguns que se improvisaram,
transformou-se também em quartel o seminário de S. Joaquim.
Por decreto de 5 de janeiro de 1818, e sob informações e
parecer do Bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, foi extinto o seminário de
S. Joaquim, sendo o edifício e suas dependências incorporados aos próprios da
coroa, percebendo os rendimentos do patrimônio do extinto seminário o episcopal
de S. José, para o qual deviam passar os alunos que tivessem vocação e
habilitação para o estado eclesiástico, ficando os outros adidos ao corpo de
artífices engenheiros da divisão portuguesa, que para quartel de um dos seus
corpos recebera aquela casa, propriedade dos órfãos pobres.
Este arranjo violento foi uma espécie das célebres
aposentadorias que logo depois da chegada da família real portuguesa fizeram o
tormento dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro.
Admira a sem cerimônia com que se arrancou uma propriedade a
seus legítimos donos! Mas, ao menos naquele bom e suavíssimo tempo, o Governo
não dava contas de seus atos e fazia violências sem receio de responsabilidade.
Deve-se supor, para de algum modo desculpar esse ato cruel,
que o seminário de S. Joaquim se apresentava em lamentável decadência em 1818,
e que, parecendo árvore incapaz de dar bons frutos, o Governo julgou acertado
cortá-la pela raiz.
Admitindo-se, porém, essa hipótese, o que cumpria ao Governo
fazer era regenerar a instituição, dar-lhe elementos de vida e de prosperidade,
chegar terra à árvore e cultivá-la, e tratá-la com esmero e zelo para que ela
frutificasse.
Se a instituição fosse filha do Governo, se o patrimônio do
seminário pertencesse por alguma condição ao Governo, o decreto de 5 de janeiro
de 1818 seria apenas um erro, uma medida mal aconselhada e inconveniente.
Sendo, porém, a instituição inteiramente alheia do Governo, e o seminário e o
seu patrimônio propriedade dos órfãos pobres de S. Joaquim, e propriedade
havida por doações explícitas e claras, aquele decreto foi uma vidência que não
tem explicação, e ainda menos escusa.
E, no entanto, o decreto de 5 de janeiro de 1818 teve a seu
favor a informação e o parecer do Bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, um
príncipe da Igreja, venerando e sábio! Quandoque dormitat Homerus.
Aquele que deveria ser o natural defensor do seminário dos
pobres órfãos de S. Joaquim abandonou-o no momento supremo, e concorreu de sua
parte para que se desmantelasse a obra concedida e começada a realizar pelo
sacristão-mor da igreja de São Pedro, e desenvolvida pelo Bispo D. frei Antônio
de Guadalupe e por seus sucessores, com o auxílio e o concurso de alguns homens
benéficos e piedosos.
E sobre um mal veio logo outro.
Em 1818, desapareceram, com o arquivo do seminário de S.
Joaquim, os títulos e documentos do respectivo patrimônio.
O ministro conde dos Arcos acudiu em socorro do patrimônio.
Está visto que devia mostrar-se algum cuidado com o espólio do seminário morto.
O Dr. José da Silva Lisboa, depois visconde de Cairu, e uma
das maiores ilustrações do Brasil, foi encarregado de colher as possíveis
informações sobre a origem e história da instituição sacrificada. Recebeu a
missão de escrever o necrológio da defunta e fez tudo quanto pôde para
desempenhá-lo. Dos dois últimos reitores que ainda viviam, o abade José dos
Santos Salgueiros e o cônego Plácido Mendes Carneiro, e dos benfeitores Joaquim
Antônio Insua e José Severino Gesteira, obteve algumas notícias e esclarecimentos
que lhe serviram para descobrir e recolher os poucos documentos que hoje se
possui a respeito do seminário de S. Joaquim.
Há, porém, coincidências e acasos singulares que o povo não
deixa passar despercebidos.
Era notável e quase proverbial o constante e feliz estado
sanitário do seminário de S. Joaquim. Os reitores, os seminaristas e toda a
gente da casa gozavam sempre de excelente saúde, e tornara-se raro o caso de
alguma enfermidade.
Observa-se mesmo que durante a terrível zamperini ninguém
adoecera no seminário de S. Joaquim, e ainda mais notável observação se fizera,
quando reinou a não menos fatal epidemia que recebera a alcunha de carcunda, e
que tantas vidas ceifara no Rio de Janeiro. Porque, habitando então dentro do
seminário cerca de oitenta pessoas, foram quase todas atacadas do mal e não
houve uma só que sucumbisse a ele.
Passou o seminário a ser quartel de soldados, e começou logo
entre estes a colheita da morte.
As moléstias se multiplicaram e as vítimas foram numerosas,
entrando na conta delas um oficial e o capelão do corpo aquartelado.
E além das enfermidades, ocorreu também um desastre.
Diz uma tradição que um grande muro que havia, como hoje há,
para o lado da Rua da Imperatriz, rua que então se chamava do Valongo,
veio a cair um dia inesperadamente, e esmagou embaixo de suas pedras um menino
que ia passando.
Tudo isso podia muito naturalmente acontecer. O povo, porém,
que é crédulo, e que se deixa dominar por idéias que a razão nem sempre aceita
e explica, acreditou que o decreto de 5 de janeiro de 1818 não tinha sido nem
podia ser abençoado por Deus, que é pai dos órfãos e de todos os pobres, e que,
portanto, condenava a injustiça e a violência feita aos órfãos pobres de S.
Joaquim.
III
A extinção do seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim era
um fato consumado desde janeiro de 1818. O poder absoluto havia arrancado aos
pobres órfãos uma doação feita pela caridade de não poucos benfeitores, e não
se admitia nesse tempo a menor oposição ao – quero e mando – do Governo, que
assim mostrava desprezar o direito de propriedade.
Entretanto, dois anos e quatro meses tinham apenas corrido e
já o Governo corrigia arrependido o erro que cometera, revogando todas as
disposições do decreto de 5 de janeiro de 1818.
Ignoro completamente as razões que levaram o Governo a dar
semelhante passo; e como é de crer que em dois anos e quatro meses tivessem
arrefecido as queixas dos benfeitores da instituição, se é que estes por
ventura ousaram alguma vez murmurar, devo supor que a medida fosse aconselhada
pelo reconhecimento do direito que assistia aos órfãos pobres de S. Joaquim, ou
também pelo natural desejo que tinha o novo Governo do Brasil de recomendar-se
à estima da população.
Porque é preciso não esquecer que as datas do primeiro e do segundo decreto nos estão indicando que o de 5 de janeiro de 1818 pertence ao Sr. D. João VI, Rei de Portugal, Brasil e Algarve, e o outro, que foi de 19 de maio de 1821, pertence ao Sr. D. Pedro, então príncipe regente e lugar-tenente do rei seu pai no Brasil.
Pode ser que não tenha importância ou significação alguma
polí tica o fato de ter o Sr. D. Pedro, príncipe regente, revogado aquela
medida tomada pelo Governo do rei seu pai. Sempre é bom, porém, conservar de
memória essas datas, que recordam duas épocas bem distintas e bem diversas em
idéias, em aspirações e em esperanças, dúvidas e sonhos de futuro.
O certo é, em todo o caso que, logo depois da retirada do
Sr. D. João VI para Portugal, o Sr. D. Pedro, por decreto da data já marcada,
mandou restabelecer o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim no mesmo pé em
que dantes se achava, ordenando igualmente que o patrimônio, de que estava de
posse o seminário de S. José, revertesse para aquele, como era de direito.
E como para deixar bem patente o seu interesse pela
instituição que regenerava, o príncipe procurou chamar para ela o patrocínio e
dedicação de alguns indivíduos cujos nomes já se achassem ligados à história do
caridoso estabelecimento.
Assim lembrou-se de que um negociante de fazendas da Rua de
S. Pedro, negociante chamado José Severino Gesteira, era sobrinho de outro
Gesteira que gastara com o antigo seminário cerca de quarenta mil cruzados, e
que Joaquim Antônio Insua, morador na Rua do Valongo, fora também benfeitor dos
pobres órfãos de S. Joaquim. Mandou-os, pois, chamar a palácio, e declarou-lhes
que os nomeava síndicos do seminário de S. Joaquim, e que a eles e outros
benfeitores da instituição, que formariam uma junta administrativa e econômica,
entregava o patrimônio do seminário, acabando, enfim, por dizer-lhes que queria
que se preparasse tudo para que dignamente se fizesse a festa do patriarca,
cujo dia se aproximava.
Os homens não tiveram que dizer. Aceitaram sem hesitar, e
antes alegremente, a comissão, retirando-se do palácio muito penhorados das
maneiras obsequiosas do príncipe regente.
A administração econômica do seminário estava, pois,
arranjada e entregue a homens zelosos.
Faltava a direção superior dos estudos e da casa.
O príncipe regente apelou ainda para as recordações do
passado do seminário e logo lhe veio à lembrança o nome do cônego Plácido
Mendes Carneiro, que tinha já sido reitor e que com tanta solicitude, caridade
e inteligência servira, e procedendo com o cônego Plácido como havia procedido
com Gesteira e Insua, não encontrou a menor di ficuldade em dar um excelente
reitor ao seminário, que imediatamente começou a funcionar.
Foi assim que o príncipe regente deu em muito poucos dias
nova vida ao seminário de S. Joaquim. É impossível desconhecer a boa vontade do
Sr. D. Pedro. Supôs ele, porém, que bastavam essas medidas para fazer prosperar
a instituição, e nisso se enganou. Ou lutava com graves embaraços financeiros,
que realmente se fizeram sentir naquela época, e não pôde por isso dar o
necessário desenvolvimento nem acudir com recursos pecuniários indispensáveis
ao estabelecimento. E em tal caso não há que observar.
Outra vez restabelecido, mas de certo não melhorado na sua
organização e condições, o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim continuou
como dantes a oferecer aos seus alunos instrução limitadíssima e a arrastar uma
vida difícil.
A mão da caridade não lhe trazia meios suficientes para que
lhe fosse possível desenvolver-se convenientemente, e a mão do Governo não se
estendia para ele a fim de elevá-lo a um grau mais nobre e que mais utilidade
oferecesse à juventude, e, portanto ao país.
Um fraco batel não pode resistir a grandes e violentas
tempestades, e dez anos depois da reorganização do seminário dos pobres órfãos
de S. Joaquim rebentou no seio do país uma borrasca política que pôs tudo em
movimento, e determinou em quase tudo mudanças mais ou menos importantes.
Em 1831, na madrugada do dia 7 de abril, o Imperador Sr. D.
Pedro I abdicou a coroa em seu Augusto Filho o Sr. D. Pedro II.
A abdicação do primeiro Imperador importou um triunfo
completo do Partido Liberal, que lhe fizera decidida e constante oposição desde
o dia da dissolução da Constituinte em 1823.
Digo decidida e constante oposição ao Imperador e não ao
Governo, porque o Partido Liberal, representado pelos seus deputados nas
câmaras, nunca pretendeu governar no primeiro reinado, e até olhava com
desconfiança para um ou outro dos seus membros que, acudindo ao convite do
monarca, aceitava uma pasta ministerial.
Aponto o fato sem entrar em considerações sobre ele. A ver
dade histórica é essa.
O triunfo do Partido Liberal deu incremento a novas idéias.
Os pensamentos tomavam outra direção, mas os tumultos e as rusgas que se foram
logo sucedendo faziam estremecer os estabelecimentos organizados e as
instituições de diversas naturezas.
Os três primeiros anos depois da abdicação foram de grandes
lutas, de grandes receios e de grandes dedicações.
Não haverá jamais um historiador imparcial e justo que não
reconheça e proclame os serviços relevantíssimos e o patriotismo do Partido
Liberal moderado, que salvou a monarquia constitucional e a integridade do
império nessa época difícil.
Entre as instituições que mais vacilaram no meio da crise,
notava-se o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim que ia em uma decadência
completa.
Em dezembro de 1831, o Governo olhou para esse seminário.
Era então ministro do Império o Dr. José Lino Coutinho,
deputado pela província da Bahia.
O Dr. Lino Coutinho era um médico de alguma e variada
instrução, e muito cedo foi ainda mais político do que médico.
A província da Bahia o mandou, em 1821, como um dos seus
deputados à Constituinte de Lisboa e aí Lino Coutinho foi um corajoso defensor
da causa da sua pátria.
De volta ao Brasil, teve assento na Câmara temporária, logo
na primeira legislatura, e foi um dos mais vigorosos e ardentes oradores da
oposição liberal.
Lino Coutinho sentava-se na câmara ao lado de Vasconcelos, o
célebre lidador do nosso parlamento, e, se não era como este um discutidor
profundo, mostrava-se em compensação muito mais ameno. Primava pela graça, pelo
espírito, e às vezes, por um sarcasmo pungente. E o povo, que muito se aprazia
de ouvi-lo, chamava-o o deputado das galerias, isto é, o deputado querido das
galerias.
Em 1830, a Câmara temporária, achando-se em desacordo com o
Senado a respeito do orçamento, nomeou para uma comissão que devia ir propôr ao
Senado a fusão das câmaras os três Deputados Liberais Vas concelos, Lino
Coutinho e o Sr. Limpo de Abreu, atual visconde de Abae té. E, quando a
comissão partia, o povo entusiasmado arrancou as bestas do carro e levou em
triunfo os três deputados de sua confiança.
Não aplaudo o fato, não gosto de ver o povo rebaixando-se a
fazer papel de cavalo ou de besta de tiro. Mas vou dizendo as coisas como elas
se passaram.
José Lino Coutinho, muito estimado da população, influente
na Câmara temporária, justamente apreciado por seu talento, instrução e por uma
grande e bem merecida reputação de probidade, foi logo chamado pela regência
permanente para o primeiro Ministério que ela organizou em 1831, e aceitando a
pasta do Império, teve por companheiros no gabinete, entre outros, o Padre
Feijó e Vasconcelos.
Lino Coutinho foi um ministro do Império ativo e dedicado.
Apesar das dificuldades da situação, achou tempo e meios de reformar a Academia
de Medicina, a Imperial Academia das Belas-Artes, e, além de muito mais, de
atender à situação em que se achava o seminário dos pobres órfãos de S.
Joaquim.
Vou dizer o que ele fez deste estabelecimento.
Ou porque achasse que bastava o seminário de S. José para
habilitar os jovens que se destinassem à carreira eclesiástica, ou porque
julgasse que o de S. Joaquim, com as suas aulas de latim e de cantochão, não
era o mais útil aos órfãos pobres, o certo é que mudou completamente a natureza
da instituição, como se vai ver.
Por decreto de 12 de dezembro de 1831, foi reformado o
seminário de S. Joaquim, dando-se a inspeção dele à Câmara Municipal, e
adotando-se por fim do estabelecimento educar convenientemente e habilitar os
órfãos desvalidos nos exercícios de misteres honestos e proveitosos.
Admitiam-se também pensionistas que deviam pagar cinqüenta mil-réis por
trimestre, e determinava-se que, em identidade de circunstâncias, fossem
preferidos para os lugares de alunos gratuitos os filhos de militares e
empregados públicos.
Criaram-se no estabelecimento as seguintes cadeiras: de primeiras letras, pelo método de Lancaster, de matemáticas e de desenho, e ensinavam-se os misteres de torneiro, entalhador, litógrafo e abridor.
E ensinava-se mais o jogo das armas e o exercício e manejo
da guarda nacional.
Evidentemente, pois, o seminário dos pobres órfãos de S.
Joaquim perdeu com o decreto de 12 de dezembro de 1831 a sua natureza
primitiva. O sistema de administração e inspeção da casa estava mudado e era
outro o fim da instituição.
Em consciência me parece que a reforma do seminário de S.
Joaquim, executada pelo Ministro Lino Coutinho, devia e podia ser ainda mais
útil aos pobres órfãos do que a antiga instituição tal qual fora por muitos
anos, porque nesta a instrução secundária limitava-se apenas ao latim, e a
educação era só tendente a preparar os jovens a seguir a carreira eclesiástica,
que, aliás, exige, mais do que outra qualquer, uma decidida vocação, ao mesmo
tempo que no estabelecimento organizado pelo Governo da regência oferecia-se
instrução menos resumida e muito bem calculada para aproveitar aos jovens em
qualquer dos misteres que ali também se aprendiam, e que podiam dar aos alunos
meios de vida diversos, seguros e honestos.
Pode-se notar que ainda se limitava bastante o ensino de
ofícios e artes, mas convém não esquecer que a 12 de dezembro de 1831 o Governo
da regência começava apenas a ensaiar uma instituição que podia depois receber
um grande desenvolvimento.
A reforma de que trato apresenta ainda dois pontos que eram
próprios da época, duas idéias que eram frutos do tempo.
Uma delas era a inspeção do estabelecimento confiada à
Câmara Municipal. Naquele tempo dava-se uma consideração muito elevada às
câmaras municipais e aos juízes de paz, chegando-se até às vezes a exagerar as
suas atribuições e a atarefá-los exageradamente, e daí resultavam não poucos
inconvenientes. Veio depois a reação, que, em vez de parar em um meio-termo que
seria muito útil, atirou-se desenfreada no extremo oposto, reduziu os juízes de
paz a juízes de conciliação e fazedores de eleições, e foi pouco a pouco
despojando as câmaras municipais de todas as suas atribuições até colocá-las em
tão apertada dependência do Governo, que elas hoje quase que não passam de
simples comissões do Poder Executivo.
E o que é verdade na matéria de que estou tratando é que oGoverno não se arrependeu de ter confiado à Câmara Municipal da cida de a inspeção do estabelecimento que fundara, reformando o seminário de S. Joaquim, porque essa inspeção foi sempre zelosa e digna, e produziu sensíveis vantagens.
O outro fruto do tempo era o ensino do manejo da guardanacional.
O ministro do Império de 1831 não se contentou em mandar que
os alunos do estabelecimento que substituiu o seminário de S. Joaquim se
preparassem para ganhar a vida com um trabalho honesto. Quis também que se
habilitassem para, com as armas na mão, e como soldados da pátria, defender o
país e a ordem pública em caso de necessidade.
Coisas daquela época! A guarda nacional estava então muito
na moda.
Mas é preciso lembrar que não era uma guarda nacional que se
limitava a fazer grandes paradas e rondas, ou montar guarda no tesouro nacional
e em outros lugares.
Em 1831, pode-se dizer que todos eram soldados, ou antes,
guardas do país, e em exercício ativo.
Rondavam senadores e deputados, e até o bispo do Rio de
Janeiro fez rondas.
E a guarda nacional não brincava. E se duvidam, lembrem-se
do ano de 1832, em que ela acudiu por vezes ao toque de rebate, e marchou
impávida a combater as falanges políticas desvairadas que se arrojavam ao campo
armado.
E, quem o diria hoje? Foi isso no tempo em que os oficiais
da guarda nacional eram eleitos pelos guardas! Com essa utopia política
salvou-se a capital do Império e o Brasil, e tivemos uma guarda nacional como
não se conseguiu mais ver entre nós mesmo depois que se substituiu a utopia
popular pela verdade prática dos oficiais nomeados pelo Governo.
O que era essa guarda nacional, filha da utopia, que
confiança chegou a merecer, pode-se bem deduzir das respostas que deu um
ministro de Estado a um deputado.
Era ministro da Justiça desde 1831 o enérgico e honradíssimo
Padre Diogo Feijó, que em 1832 apresentou às Câmaras um
relatório notável pela fortaleza e valentia de proposições que atacavam de
frente o espírito exaltado e violento dos partidos em oposição.
Mal tinha o ministro acabado a leitura do seu relatório na
Câmara temporária, quando um deputado chegou-se a ele e perguntou-lhe,
sorrindo:
–
V. Exª tem na corte quarenta mil homens para sustentar as idéias que apresenta
no seu relatório?
–
Não – respondeu prontamente o Padre Feijó. – Não tenhoquarenta mil homens, mas
tenho quatro mil guardas nacionais.
À vista do que acabo de expor podem-se bem compreender as
razões que levaram o Ministro Lino Coutinho a mandar ensinar o manejo da guarda
nacional aos alunos do seminário de S. Joaquim, que ele reformara.
Não estou habilitado para informar precisamente se a
princípio prosperou ou não o estabelecimento organizado pela regência, no
seminário de que falo. É muito de presumir que não houvesse produzido os
resultados que se esperavam, porque, se assim não fosse, não teria aparecido a
reforma de 2 de dezembro de 1837, de que vou em breve falar, ou pelo menos não
se acabaria com a instituição criada pelo Ministro Lino Coutinho, embora se
fundasse, como era preciso e justíssimo, o Imperial Colégio de Pedro II.
Se, porém, não prosperava o ensino no seminário, a
administração deste, correndo debaixo das vistas desveladas da Câmara
Municipal, se apresentava em uma situação realmente animadora, graças em grande
parte ou particularmente à atividade e à caridade exemplar do vereador Filipe
Ribeiro da Cunha, que das obras do seminário com um cuidado especial se
ocupava, sendo para isso comissionado pela Câmara.
O ensino, como disse, ia tão mal que, segundo as informações
de diversas pessoas, o seminário chegou por fim a fechar-se. Mas a
administração econômica corria tão regular e animada, que a casa se aumentava
com obras novas e começava-se a executar o plano da conclusão da igreja.
No fim do ano de 1837, porém, entendeu o Governo do regente
o Sr. Pedro de Araújo Lima, depois marquês de Olinda, sendo ministro da Justiça
e interinamente do Império Bernardo Pereira de Vas concelos – entendeu o
Governo, digo, e entendeu bem, que era tempo de criar um grande colégio público
de instrução secundária, e resolveu, por decreto de 2 de dezembro desse ano,
converter o antigo seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim em uma bela
instituição daquele gênero, que digna e acertadamente denominou Imperial
Colégio de Pedro II.
A realização desta idéia exigia prontos trabalhos na casa; e
assim era preciso que a administração econômica do novo estabelecimento
entrasse em exercício logo e antes de funcionar o colégio, que devia abrir as
suas portas à mocidade estudiosa no ano seguinte, que era o de 1838.
O Governo nomeou, pois, um tesoureiro, entendendo que
cumpria libertar a Câmara Municipal daquela administração alheia das
atribuições dela.
Então, o vereador Filipe Ribeiro da Cunha exibiu na Câmara
Municipal, nesse tempo presidida pelo atual conselheiro Francisco Gomes de
Campos, as suas contas escrituradas com clareza, precisão e minuciosidade em um
in-folio que deve se achar no respectivo arquivo e do qual se deprendia que
haviam custado as obras feitas no seminário, inclusive a Casa nº 66 da Rua
Estreita de S. Joaquim, casa em que depois habitaram os reitores do Imperial
Colégio de Pedro II, para cima de cem contos de réis, e que ficavam no corpo da
igreja cerca de dez contos de réis em materiais que se destinavam à conclusão
do templo.
Filipe Ribeiro da Cunha tinha tomado amor ao seminário e
interessava-se tanto pelo adiantamento das obras que fiscalizava, que por vezes
não poupara a sua própria bolsa, ocupava-se dessa comissão como si de seus
próprios negócios tratasse, e, segundo consta, causou-lhe um pesar profundo o
ver passar a outrem o cuidado daquela administração.
Entendo que o Governo procedeu acertadamente tirando à
Câmara Municipal uma tarefa que não lhe era própria. Pena foi, porém, que não
se lembrasse de aproveitar uma vontade tão decidida e uma dedicação tão provada
como a do vereador Filipe Ribeiro da Cunha, que pronto se mostraria a continuar
a prestar bons serviços.
Termina aqui a história do seminário dos pobres órfãos de S.
Joaquim, e vai começar agora a do Imperial Colégio de Pedro II.
Mas por certo que incompleta eu deixaria aquela, se me
esquecesse de dar conta do patrimônio dos pobres órfãos, patrimônio formado à
custa de doações e de esmolas feitas determinadamente aos pobres órfãos, e não
devidas ao Governo.
Esta informação é indispensável por duas razões.
Primeira, porque ela há de servir-me para base de uma
argumentação que terei de apresentar.
Segunda, porque com a propriedade alheia e com o dinheiro
dos outros não se brinca, e é preciso muita clareza a tal respeito.
Termino, pois, este passeio transcrevendo a nota seguinte,
que oferece perfeito esclarecimento sobre o patrimônio de que falo.
Próprios do Imperial Colégio de Pedro II inventariados em 24
de outubro do ano de 1838, com seus valores e rendimentos.
Rua das Violas – Uma morada de casas de sobrado de duas
janelas, nº 102. Está alugada a Gabriel José Gonçalves Pereira Bastos:
Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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96$000
Valor do prédio na razão de 5% (sobrado) . . . . . . . . . . . . .
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3:360$000
Loja do sobrado acima, alugada a Manuel Antônio da Silva:
Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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168$000
Seu valor na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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1:920$000
Rua das Violas – Uma morada de casas de sobrado de duas
janelas n° 104. Está alugada a Antônio Vieira de Sousa Meireles:
Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
.
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168$000
Valor do prédio na razão de 5% (sobrado). . . . . . . . . .
. . . 3:360$000 Loja do sobrado acima, alugada a José Paim:
Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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84$000
Seu valor na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
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1:600$000
Rua da Alfândega – Uma morada de casas térreas com o nº 309.
Está alugada a Ventura Simões, preto forro:
Rende por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
.
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144$000
Valor do prédio na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
.
2:880$000
Rua Estreita de S. Joaquim – Uma morada de casas de sobrado
com cinco janelas de peitoril, e as lojas com três janelas e corredor separado,
n° 66. Estão alugadas à condessa Sustrouvil:
Rende altos e baixos por ano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
.
482$000
Valor do prédio na razão de 5% . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . 8:640$000 Apólices entregues na recebedoria do município:
163 do valor de . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. 1:000$000 cada uma 2 do valor de . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . 400$000 cada uma
Já se vê que os pobres órfãos de S. Joaquim não eram ou não
estavam tão pobres, como se podia supor.
IV
O antigo seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim tinha
chegado a uma situação tal em 1837 que, ou existia apenas em nome, ou se estava
debatendo na extrema fatal da mais triste agonia.
O príncipe o Sr. D. Pedro, regente e depois primeiro
Imperador do Brasil, o havia regenerado em 1821, sem poder, contudo,
engrandecê-lo. O ministro do Império Lino Coutinho, em 1831, viera mudar-lhe a
natureza e os fins, sem conseguir por esse meio resultados animadores. E o
tempo acabava por demonstrar que a instituição não podia ir adiante.
Abandonar o seminário nessa agonia longa e cruel seria, além
de uma impiedade inexplicável, um erro grave, que deixaria perder o rendimento
dos patrimônios, que felizmente se conservava sempre. Reanimá-lo com as suas
mesquinhas condições fora um cuidado que pouco proveito oferecia.
O ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos, na regência do
Sr. Pedro de Araújo Lima, atual marquês de Olinda, fazendo converter o
seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim em um grande colégio de instrução
secundária, a que deu o nome de Imperial Colégio de Pedro II, realizou uma
reforma digna dos maiores elogios e capaz de satisfazer todas as exigências do
país.
Fez mais do que pudera fazer o Governo do príncipe regente o
Sr. D. Pedro. Porque, salvando e mantendo a instituição, lhe deu um imenso
desenvolvimento, criando um bacharelado em letras onde somente se conseguia
aprender latim e cantochão. E emendou ou corrigiu o erro do ministro Lino
Coutinho. Porque restabeleceu a instituição com a sua primitiva natureza e com
fins, embora muito mais elevados, legítimos e próprios, correspondentes ao
pensamento, que devia sempre ter dirigido aquele estabelecimento.
A data do decreto que criou o Imperial Colégio de Pedro II
é, como já ficou dito, de 2 de dezembro de 1837, dia aniversário natalício de
S. M. o Imperador. A inauguração, porém, do colégio somente foi efetuada a 25
de março do ano seguinte.
O tempo que correu entre 2 de dezembro de 1837 e 25 de março
de 1838 foi empregado ativamente em melhorar e aumentar os cômodos da casa do
antigo seminário de S. Joaquim, continuando as obras ainda depois por muitos
meses, e tanto empenho mostrava o ministro Vasconcelos em vê-las acabadas, que,
apesar de atarefado com as pastas ministeriais do Império e da Justiça, e com a
direção da marcha política do gabinete de que era indubitavelmente o chefe, e
apesar, enfim, da sua cruel paralisia dos membros superiores e inferiores,
apresentava-se repetidas vezes no colégio, ativando os trabalhos com a sua
presença e fazendo prontamente desaparecer as dificuldades que se opunham ao
rápido desenvolvimento deles.
A 5 de fevereiro de 1858, foi nomeado o 1º prior do Imperial Colégio de Pedro II, e essa nomeação recaiu em D. frei Antônio de Arrábida, bispo de Anemúria. Os novos professores foram nomeados em abril do mesmo ano, tendo sido a 31 de janeiro publicado o regulamento contendo os estatutos do colégio, que compreenderam não menos de 239 artigos, marcando as funções do reitor, vice-reitor, professores e todos os empregados, estabelecendo o plano de estudos, dividindo o ensino em oito aulas ou anos letivos, em que se devia ensinar gramáti ca portuguesa, latim, grego, francês, inglês, geografia, história, retórica e poética, e filosofia. Matemáticas, compreendendo aritmética, álgebra, geometria, trigonometria e mecânica. Astronomia, História natural, compreendendo zoologia, botânica e mineralogia. Ciências físicas, compreendendo física e química. Desenho e música vocal. Especificando o enxoval dos alunos, as condições para o bacharelado, o regime econômico e tudo, enfim, quanto era de mister que fosse regulado.
Admira em verdade que neste plano de estudos fosse tão
completamente esquecida a doutrina da nossa religião e a história sagrada. Mas
julgou-se então suficiente incumbir nos estatutos ao capelão do colégio o
cuidado de dar instrução religiosa aos alunos nos dias e horas que fossem
marcados pelo Regimento Interno, e por fim de contas, se a organização do
colégio ressentia-se de pouco religiosa, em compensação foram os eclesiásticos
que tomaram logo o supremo Governo do estabelecimento.
Os primeiros professores nomeados foram: de história natural
e ciências físicas, o Sr. Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia; de história e
geografia, o Sr. Dr. Justiniano José da Rocha; de grego e de retórica, o Sr.
Dr. Joaquim Caetano da Silva; de inglês, Diogo Maze; de francês, Francisco
Maria Piquet; de filosofia, o Sr. Dr. Domingos José Gonçalves Magalhães; de
latim, o Sr. Jorge Furtado de Mendonça; de desenho, o Sr. Manuel de Araújo
Porto Alegre; de música, o Sr. Januário da Silva Arvelos.
A simples menção dos nomes do reitor e dos professores com
os quais se ia inaugurar o Imperial Colégio de Pedro II devia bastar para os
primeiros fundamentos do crédito do estabelecimento. Porque, em geral eram os
nomeados ou recomendáveis por sua capacidade já provada nas matérias que tinham
de ensinar, ou por sua reconhecida ilustração, e alguns eram até com razão
considerados notabilidades.
É triste a idéia de que no Imperial Colégio de Pedro II se
encontre hoje apenas um único desses dez escolhidos para a direção do
estabelecimento e para o ensino das matérias de que constava o plano dos
estudos. Alguns vivem ainda, felizmente, seguindo, porém, diversas carreiras.
Os outros a morte já os fez desaparecer da Terra.
O distinto professor de latim o Sr. Jorge Furtado de Mendon
ça é o último representante dessa bela família literária que teve a glória de
inaugurar o Imperial Colégio de Pedro II.
Ainda mais do que o desejo de abundar em esclarecimentos e
explicações, um verdadeiro amor fraternal me convida com ardor a marcar
com minuciosidade todas as mudanças que têm havido no pessoal da reitoria,
vice-reitoria e professorado do Imperial Colégio de Pedro II, e muito mais me
impõe o dever de visitar os jazigos dos reitores e professores que pagaram o
tributo à morte; mas esse empenho me levaria agora muito longe, e eu prefiro
dedicar a esse assunto um passeio especial.
No dia 12 de março de 1838 tiveram princípio os exames
preparatórios dos alunos que se apresentavam para matricular-se no novo
colégio, e esses exames estenderam-se até ao dia 30 do mês seguinte.
O decreto da criação deste importante colégio trouxe a data
do dia aniversário natalício de Sua Majestade o Imperador o Sr. D. Pedro II. O
dia da inauguração do patriótico estabelecimento foi o do aniversário do
juramento da Constituição do Império, e portanto, sob gloriosos auspícios
nasceu e começou ele.
Na manhã do dia 25 de março de 1838, o atual Sr. marquês de
Olinda, então regente do Império, e todo o Ministério, que se compunha de
Bernardo Pereira de Vasconcelos e dos Srs. Miguel Calmon Du Pin e Almeida,
depois marquês de Abrantes, Joaquim José Rodrigues Torres, depois visconde de
Itaboraí, Antônio Peregrino, Maciel Monteiro e Sebastião do Rego Barros,
dirigiram-se ao antigo seminário de S. Joaquim, e no meio de um numeroso
concurso de cidadãos assistiram e presidiram às cerimônias da inauguração do Imperial
Colégio de Pedro II.
A inauguração do colégio precedeu mais de um mês ao começo
dos trabalhos do ensino.
No dia 27 de abril principiaram a entrar para o colégio os
alunos internos, cujo número chegou apenas a trinta no fim de maio, faltando
ainda cinco dos que tinham sido aceitos. No número desses trinta contavam-se
sete pobres e gratuitos. No maior dos dormitórios, que en tão já se achavam
preparados, podiam caber mais cinco leitos do que os que eram necessários para
acomodar os alunos internos apresentados.
O colégio oferecia já proporções para receber sessenta e
cinco pensionistas.
As aulas abriram-se no dia 2 de maio, notando-se algumas
irregularidades, que foram pela maior parte devidas à falta de compêndios e
livros apropriados para os estudos das diversas matérias.
O estado sanitário dos colegiais foi se mostrando
satisfatório e o médico Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia, professor de ciências
naturais, prestou-se a tratar gratuitamente alguns alunos, que foram acometidos
de erupções de pele, aliás pouco importantes.
É completamente inútil dizer que durante os primeiros meses
o serviço interno do colégio ressentia-se de muitas faltas, que foram pouco a
pouco desaparecendo.
Já lá vão vinte e três anos depois do dia 25 de março de
1838, dia de festivo triunfo das letras e de faustosa conquista civilizadora, e
no correr desses vinte e três anos a experiência e a sabedoria têm introduzido
tantas reformas e modificações nos estatutos e planos de estudos do Imperial
Colégio de Pedro II, que a história de todas essas mudanças, inovações e
aperfeiçoamentos exigiria longos artigos para ser completamente desenvolvida e
bem acabada.
Tenho medo de fatigar a paciência dos meus companheiros de
passeio, e por isso, prefiro resumir toda a história a que me refiro, apontando
simplesmente as datas e as matérias dos decretos e atos mais importantes do
Governo em relação ao Imperial Colégio de Pedro II.
Submeto-me, portanto, à cruel necessidade de escrever um mal
arranjado índice da legislação do colégio. Quem não tiver coragem para
acompanhar-me neste trabalho pode dar por terminado o passeio de hoje, e
deixar-me só, navegando por este mare magnum.
Eu principio.
Decreto de 2 de dezembro de 1837, convertendo o seminário de
São Joaquim em Imperial Colégio de Pedro II.
Decreto de 31 de janeiro de 1838, dando regulamento ao Imperial Colégio de Pedro II.
Decreto de 5 de fevereiro de 1838, nomeando D. frei Antônio
de Arrábida, bispo de Anemúria, reitor do Imperial Colégio de Pedro II.
29 de abril de 1838, data das nomeações dos primeiros
professores do colégio.
Decreto de 14 de fevereiro de 1839, tomando novas
disposições a respeito do enxoval dos alunos.
Decreto de 24 de março de 1839, revogando a disposição que
determinava ser necessária a licença do Governo para a matrícula dos alunos que
tivessem mais de 12 anos de idade.
Decreto de 4 de outubro do mesmo ano, nomeando uma comissão
composta do bispo de Anemúria, bispo eleito do Rio de Janeiro e do Senador José
Saturnino da Costa Pereira, para propor as alterações convenientes aos
estatutos do colégio.
Decreto de 1º de fevereiro de 1841, estabelecendo novo plano
de estudos, dividindo o curso em sete anos, devendo ensinar-se, no primeiro
ano, gramática portuguesa, latim, francês, desenho e música. No segundo, latim,
francês, inglês, geografia, desenho e música. No terceiro, latim, francês,
inglês, alemão, geografia e história antiga, desenho e música. No quarto,
latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia e história romana, desenho e
música. No quinto, latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia e história
média, aritmética e álgebra, zoologia e botânica, desenho e música. No sexto,
latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia e história moderna, retórica e
poética, filosofia, geometria e trigonometria, física e química, desenho e
música. No sétimo, latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia antiga e
história do Brasil, retórica e poética, filosofia, cosmografia e cronologia,
mineralogia e geologia, zoologia filosófica, desenho e música. Convém saber que
este plano de estudos foi proposto pelo Sr. Dr. Joaquim Caetano da Silva, então
reitor do colégio.
Decreto de 21 de janeiro de 1842, mandando dispensar do
enxoval de entrada os alunos cujos pais preferissem tomar a seu cargo dar-lhes
a roupa.
Decreto de 7 de novembro do mesmo ano, suprimindo o banquete
que, segundo o art. 135 do regulamento de 31 de janeiro de 1838, era dado aos
professores e aos alunos que acabavam de tomar o grau de bacharéis, no dia da
distribuição dos prêmios. Entretanto, ainda alguns anos depois do de 1842,
houve o banquete de que se trata.
Carta da lei de 30 de agosto de 1843, determinando que os
bacharéis em letras do Imperial Colégio de Pedro II, ficavam isentos dos exames
preparatórios nas academias do império.
Decreto de 20 de dezembro de 1843, estabelecendo a maneira
de se conferir o grau e de se passarem as cartas de bacharéis, pouco mais ou
menos nos seguintes termos:
“Apresentado o bacharelando pelo reitor ao ministro do
Império em ato solene a que assistirá o conselho colegial, etc., prestará de
joelhos o juramento seguinte sobre os santos Evangelhos – Juro respeitar e
defender constantemente as instituições pátrias, concorrer quanto me for
possível para a prosperidade do Império, e satisfazer com lealdade as
obrigações que me foram incumbidas.
“Em seguida, o ministro do Império pôr-lhe-á na cabeça o
barrete (de cetim branco e franja da mesma cor) da faculdade de letras,
dizendo-lhe: – Dou-vos o grau de bacharel em letras, que espero honreis tanto
quanto o soubestes merecer.
“O diploma consistirá em uma folha de pergaminho, contendo
impressos: 1º, o título de aptidão, em que se declarará que foi aprovado em
todas as matérias do curso de estudos, depois o da filiação, naturalidade e
idade, certificando-se os prêmios que obteve, passado e assinado pelo reitor,
vice-reitor e mais membros do conselho colegial, selado com o selo do colégio
pendente de uma fita branca; 2º, o diploma propriamente dito, assinado pelo
ministro do Império, conferindo ao bacharelando as prerrogativas da lei de 30
de agosto de 1843, e as que lhe forem garantidas por outras, com o selo das
armas imperiais pendente de uma fita branca.”
Decreto de 25 de abril de 1844, declarando sem efeito o de
20 de dezembro de 1843 (é o precedente), e dando novas providências sobre o
modo da colação do grau e de se passarem as cartas de bacharéis. Devendo o
diploma consistir em uma folha de pergaminho, contendo impressa na primeira
página interior a certidão passada pelo reitor, vice-reitor e mais membros do
conselho colegial, em que se declarará que o bacharelando foi aprovado em todas
as matérias do curso de estudos, os prêmios que obteve, sua idade, filiação,
naturalidade e, na página seguinte, a carta mandada passar pelo ministro do
Império, e por ele as sinada, na qual se declarará a idade, filiação e
naturalidade do bacharelando, e que em consequência da apresentação feita pelo
reitor e do título de aptidão obtido pelo bacharelando, lhe conferira o grau e
lhe mandara passar o diploma para com ele gozar das prerrogativas da lei de 30
de setembro de 1843 e de outras que lhe forem garantidas pelas leis, levando o
diploma o selo das armas imperiais, que será imposto sobre duas fitas, uma das
cores nacionais, que ficará por cima de outra, e na qual se imprimirá a parte
do selo que tiver as ditas armas, e a outra fita branca, que levará a parte do
selo que tiver as armas do colégio.
Quanto à cerimônia da colação do grau, dispõe o decreto o
seguinte: “Logo depois da distribuição dos prêmios aos alunos, o reitor,
levantando-se e dizendo: ‘Principia o ato da colação do grau de bacharel em
letras’ – apresentará os bacharelandos ao ministro do Império, que recebe deles
o juramento que se segue, prestado sobre os Santos Evangelhos e de joelhos.
‘Juro manter a religião do Estado, obedecer e defender a S. M. o Imperador, o
Sr. D. Pedro II e as instituições pátrias, concorrer quanto me for possível
para a prosperidade do império e satisfazer com lealdade as obrigações que me
forem incumbidas.’ Em seguida, o ministro do Império proclamará bacharel em
letras o candidato que ainda se conservara de joelhos, e pondo-lhe o barrete na
cabeça lhe dirá: ‘A lei vos declara bacharel em letras, cujo grau espero
honreis tanto quanto o haveis sabido merecer.’”
Eu quisera achar-me habilitado para informar os meus
companheiros de passeio a respeito do tempo que empregou o ministro do Império,
em 1844, para preparar e meditar esta reforma do decreto de 20 de dezembro de
1843. Como, porém, não estou suficientemente informado sobre este
importantíssimo ponto, fique o mundo na ignorância e privado da resolução de
tão grave problema.
Em relação aos diplomas dos bacharéis, fizeram-se ainda, por aviso de 12 de janeiro de 1858, algumas alterações que não passaram de mudanças de palavras e uma indispensável alteração nas assinaturas, sendo o inspetor geral de instrução pública primária e secundária do município da corte quem somente com o reitor passou a assinar o título de aptidão.
Decreto de 25 de março de 1849, dividindo as cadeiras de la
tim e de história em duas.
Carta de lei de 17 de setembro de 1851, autorizando a venda
em hasta pública dos prédios pertencentes ao patrimônio do colégio,
convertendo-se o seu produto em apólices.
Aviso de 12 de fevereiro de 1852, dando providências sobre o
regime interno do colégio.
Decreto de 6 de março de 1852, mandando pôr em execução as
instruções de 4 do mesmo mês para o regime econômico e administrativo do
colégio.
Artigo 20 da carta de lei de 28 de agosto de 1853,
exonerando o colégio do pagamento de décima dos seus prédios.
Aviso de 13 de fevereiro de 1854, determinando as
formalidades com que devem ser feitos os exames.
Decreto de 17 de fevereiro de 1854, reformando a instrução
primária e secundária no município da corte.
Decreto de 17 de fevereiro de 1855, aprovando novos
estatutos para o colégio, e neles estabelecendo novo plano de estudos. Este,
porém, foi tão depressa modificado, que não julgo necessaário apresentá-lo
aqui.
Decreto de 24 de outubro de 1857, dividindo o Imperial
Colégio de Pedro II em externato e internato, marcando novo plano de estudos,
criando uma cadeira especial de história e corografia do Brasil, e tomando
muitas outras e importantes providências.
O novo plano de estudo, que é o que ainda hoje se observa, é
o seguinte. Primeiro ano: doutrina cristã, história sagrada, leitura e
recitação de português, exercícios ortográficos, gramática nacional, gramática
latina, francês, compreendendo-se simplesmente gramática, leitura e versão
fácil; aritmética, abrangendo tão-somente os princípios elementares, definições
e as quatro operações sobre números inteiros; geografia, compreendendo
unicamente a explicação dos principais termos técnicos e das divisões gerais do
globo.
Segundo ano: latim, versão fácil e construção de períodos
curtos com o fim de aplicar e recordar as regras gramaticais; francês, versão,
temas e conversa; inglês, compreendendo simplesmente gramática, leitura e
versão fácil; aritmética, continuação até proporções; geogra fia, continuação
(Ásia e África).
Terceiro ano: latim versão gradualmente mais difícil,
exercícios gramaticais e temas; francês, composição, aperfeiçoamento do estudo
da língua, inglês, versão mais difícil, temas; aritmética, continuação até ao
fim; álgebra, até equações do 2º grau; geografia, continuação (Europa, América
e Oceania); história da Idade Média.
Quarto ano: latim, versão, temas; inglês, versão, temas;
geometria elementar, história moderna e contemporânea, corografia e história do
Brasil, botânica e zoologia.
Quinto ano: latim, versão de autores mais difíceis, temas;
inglês, composição, conversa, aperfeiçoamento do estudo da língua;
trigonometria retilínea; continuação e repetição da corografia e história do
Brasil; física e repetição da botânica e zoologia; grego, alemão, compreendendo
apenas gramática, versão fácil.
Sexto ano: latim, continuação das matérias do ano anterior;
grego, versão, temas fáceis: alemão, temas fáceis, conversa; italiano;
filosofia, compreendendo a lógica e a metafísica; retórica, regras de
eloqüência e de composição; história antiga; química e repetição de física.
Sétimo ano: latim, composição, aperfeiçoamento do estudo da
língua; grego, versão mais difícil, temas; alemão, versão, temas, conversa;
filosofia moral e história resumida dos sistemas comparados de filosofia;
retórica e poética; análise e crítica dos clássicos portugueses, composição de
discursos, narrações, declamação; história da literatura portuguesa e nacional,
repetição de química, mineralogia e geologia.
Decreto de 22 de julho de 1859, criando a cadeira de
doutrina cristã e história sagrada.
Aviso de 10 de agosto de 1860, mandando recolher ao tesouro
nacional as apólices do colégio, ficando a cargo do mesmo tesouro a arrecadação
do rendimento do patrimônio e das pensões e matrículas dos alunos do colégio, e
determinando que o pagamento dos professores, empregados e fornecedores do
colégio se efetuasse naquela repartição, ficando em poder do tesoureiro o
dinheiro necessário para as despesas miúdas.
Decreto de 17 de novembro de 1860, suprimindo a tesouraria
do colégio.
Portaria de 19 de junho de 1861, marcando as atribuições do
escrivão do colégio.
E pára aqui o meu índice.
Pára, sim. E em vez de bocejardes de impaciência e de
fadiga, olhai-me com gratidão, e abri a boca somente para agradecer-me o favor
que vos fiz, deixando de ajuntar a meu índice não poucos avisos e portarias do
governo que se referem ao Imperial Colégio de Pedro II, e que não mencionei
porque entendi que não tinham importância para entrar na história desse
estabelecimento.
Agradecei-me, pois, que eu vos prometo ser um pouco menos
árido no próximo passeio.
V
Rematei o nosso último passeio apresentando, em rápido
quadro, o transunto de toda a legislação e das mais importantes deliberações do
governo relativas ao Imperial Colégio de Pedro II. Não fiz, porém, observação
alguma a respeito de matérias tão interessantes, porque receei morrer afogado,
metendo-me nesse mare magnum.
Entretanto, há no meio de toda essa longa série de medidas,
há no sistema, aliás muito complexo do colégio algumas idéias que ainda estou
em tempo de considerar e cujo elevado alcance exige menção menos ligeira e mais
séria.
Como ficou claramente exposto na simples determinação do plano de estudos do colégio, está adotado neste estabelecimento o sistema do ensino simultâneo, e são, portanto, os alunos obrigados a estudar diversas matérias cujo número vai sempre avultando e crescendo à medida que eles vão subindo aos anos superiores. Este sistema, aliás tão conhecido como justamente preconizado na Europa culta, ainda não pôde no Brasil triunfar das prevenções de muitos críticos que, aferrados à velha usança que não abria aos estudantes as portas da lógica sem trancar sobre eles o portão do latim, nem lhes permitia resolver os problemas de Euclides sem que tivessem primeiro tirado todas as conseqüências do Genuense, esses críticos, repito, não compreendem que um menino possa estudar tanta coisa ao mesmo tempo, e sem mais tir-te nem guar-te, condenam por absurdo o ensino simultâneo.
É tempo perdido atacar com argumentos esta opinião
prevenida. A lição da experiência há de destruí-la pouco a pouco, e em verdade
sobram já os fatos que depõem contra ela.
É justo, porém, fazer uma concessão à trilha, que é ainda
uma senhora de grande poder no Brasil, onde conta numerosos apaixonados, apesar
das suas rugas e cabelos brancos.
O antigo sistema servia a todos e para todos. As
inteligências, ainda as mais mesquinhas, conseguiam no fim de longos anos
entender o seu Horácio, e adivinhar no sermão do padre-mestre professor de
retórica as figuras de Quintiliano. E, pelo contrário, no ensino simultâneo
seguido no Imperial Colégio de Pedro II, não podem aproveitar bastante as
inteligências menos que medíocres.
Mas que se deve concluir daqui? Concluam outros como
entenderem. Eu, porém, tenho para mim que isso abona ainda mais o sistema de
ensino simultâneo em um curso de bacharelado em letras.
O jovem que quer ter o curso do bacharelado em letras
pretende naturalmente seguir uma carreira literária e nessa carreira não
aproveitam ao país senão aqueles que têm uma inteligência pelo menos medíocre
e, por conseqüência, o Imperial Colégio de Pedro II, com o seu sistema de
ensino simultâneo, tem um fim duplamente útil. Porque, ao mesmo tempo que
facilita o progresso das inteligências felizes, faz com que desanimem no
princípio da carreira literária os desfavorecidos da natureza, os pobres de
espírito, os moços sem capacidade intelectual, que, por fim de contas, ainda
conseguindo uma borla e um capelo, nunca passam de doutores de letras gordas, e
trelêem, porque pensam que sabem o que ignoram e porque supõem que uma borla e
um capelo enchem de idéias uma cabeça que nunca as teve.
Não vão concluir que eu entenda que se deva criar o
impossível diante daqueles que, não tendo bastante capacidade para aprender,
procuram com um estudo assíduo e com a mais louvável constância triunfar da sua
natureza mesquinha. A esses convirá seguir o antigo sistema de ensino, e
ninguém se lembrará de ir dizer-lhes que não o sigam.
Ouvi. Mas não creio que havia quem pensasse, ou que há
homens importantes que acreditam na conveniência de se dificultar a carreira
das letras aos pobres de fortuna. É uma teoria que bem merecia o título de
infernal. Não é aos pobres de fortuna: é aos pobres de espírito que convém não
facilitar a carreira literária.
O templo das letras não se abre com chaves de ouro. Abre-se
com as chaves da inteligência e da capacidade.
Estou convencido de que, não o sistema de ensino, mas o
plano de estudos do Imperial Colégio de Pedro II, precisa ainda de revisão e de
aperfeiçoamento. Não é, porém, aqui o lugar próprio para discutir esta matéria,
que exige um exame muito desenvolvido.
A reforma que dividiu o Imperial Colégio de Pedro II em dois
estabelecimentos, internato e externato, foi de suma vantagem para a
disciplina, que apesar da mais constante vigilância, não podia ser sempre
perfeita e isenta de inconvenientes em conseqüência da comunicação entre os
alunos internos e externos. E a resolução que mandou os mesmos professores
lecionar em um e outro estabelecimento atendeu à necessidade de se
uniformizarem os estudos das duas casas de uma única instituição.
Do que deixo enunciado transpira sem dúvidas nem sombras a
minha opinião sobre o Imperial Colégio de Pedro II, opinião conscienciosa e sem
o menor vislumbre de parcialidade embora me quisessem achar motivos de
suspeição.
Há, porém, ainda um ponto da questão que tem evidente interesse.
Pensam alguns, e quiçá foi escrito em algum periódico, que a
fundação do Imperial Colégio de Pedro II importou em violento esbulho da
propriedade dos pobres órfãos de S. Joaquim. Porque, de fato, o colégio tomou
conta do seminário de S. Joaquim e de quanto a ele pertencia.
Não me parece justo este pensar.
A instituição do seminário dos órfãos de S. Pedro teve por
fim proporcionar àqueles desvalidos da fortuna alguma educação literária, e se
quiserem, tendente com especialidade e facilitar-lhes a carreira eclesiástica.
Mas o seminário de S. Joaquim tinha caído em completa
decadência, e nem os bons desejos do príncipe regente, depois primeiro
imperador do Brasil, puderam fazê-lo prosperar.
A reforma do ministro Lino Coutinho viera mudar até a
natureza da instituição.
No primeiro plano: a antiga igreja matriz da Freguesia de
Santana em dia da festa do Divino
Espírito Santo. No segundo plano: a primitiva estação da
Cia. Estrada de Ferro
D. Pedro II, construída no mesmo local daquela igreja, no
campo da Aclamação
Convento da Ajuda, vendo-se uma gôndola da linha de Botafogo
A essa reforma seguiu-se mais do que a decadência, seguiu-se
a ruína.
A fundação do Imperial Colégio de Pedro II aproveitou o que
se estava perdendo, e não só regenerou o seminário, mas ainda engrandeceu-o
muito notavelmente.
A natureza primitiva da instituição não foi ferida ou o foi
apenas no esquecimento da aula de cantochão, que não suponho ser necessária,
quando há no colégio uma excelente aula de música onde se pode aprender
bastante para ficar depois um grande cantochonista em poucos dias.
Enfim, os alunos do colégio, tomando o seu barrete de
bacharéis, podem ir ser padres de muito mais préstimo do que chegariam a sê-lo
os antigos seminaristas de S. Joaquim, se não tivessem fora da casa mestres que
os ilustrassem, e ainda assim mesmo não podiam achar na corte todas as aulas
que o Colégio de Pedro II oferece.
Conseqüentemente, não houve esbulho debaixo do ponto de
vista em que acabei de tomar a questão.
Mas infelizmente houve e há uma injustiça que é preciso
tornar bem clara para que seja reparada.
Houve e há uma injustiça. Porque o seminário e as suas
propriedades eram dos pobres órfãos e não se atendeu nem ainda se atende
bastante aos direitos dos pobres órfãos.
Até 1854, eram admitidos no Imperial Colégio de Pedro II até
doze alunos internos gratuitos, que deviam ser órfãos pobres.
O regulamento para o Imperial Colégio de Pedro II, de 17 de
fevereiro de 1855, diz no
“Art. 14 – O governo poderá mandar admitir gratuitamente,
ouvido o reitor do colégio, até vinte alunos internos (art. 90 do decreto de 17
de fevereiro de 1854), dos quais doze serão órfãos reconhecidamente pobres.
“Além destes serão preferidos:
“1º – Os filhos de professores públicos que tiverem servido
bem por dez anos.
“2º – Os alunos pobres que nas escolas primárias se tenham
distinguido por seu talento, aplicação e moralidade.”
Por conseqüência, há para os pobres órfãos doze lugares
internos gratuitos.
Entendo eu que o governo, já por consideração ao direito de
propriedade que assiste aos pobres órfãos e já por princípio de caridade, não
pensou em amesquinhar o favor que fez aos pobres órfãos, calculando-o pela
renda dos bens que a estes pertenciam.
Suponhamos, porém, que os doze pobres órfãos alunos internos
gratuitos fossem contribuintes, e vejamos quanto pagariam.
As pensões anuais dos doze alunos importariam em . . . . . .
. 5:040$000
Os seus enxovais custariam provavelmente. . . . . . . . . . . . . .
.
7:200$000
Total da despesa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
.
12:240$000
Examinemos agora a quanto chega o rendimento dos bens e
propriedades dos órfãos pobres de S. Joaquim, bens e propriedades que passaram
para o Imperial Colégio de Pedro II:
A casa em que está o externato não seria alugada pelo
governo por menos de quatro contos de réis. Estão vendo que eu vou alugando a
casa por um preço desastradamente barato. Mas o governo é bom freguês, e
portanto, lá vai . . . . . . . . . . . . . . . . . .
.
4:000$000 Aluguel de três prédios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . .
.
1:800$000
A quarta parte de nove prédios administrados pela Ordem
Terceira da Penitência, conforme a instituição legada
pelo
benfeitor Medela . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . .
.
4:763$500
Juros de apólices provenientes da permuta de prédios .
. . .
.
9:828$000
Somando, enfim, tudo, nada menos que . . . . . . . .
.
20:391$500
E por conseqüência, aí estão os doze pobres alunos internos
gratuitos, sendo realmente mais contribuintes do que os contribuintes. Porque
concorrem para as despesas do colégio com uma soma igual à que despendem os
alunos pensionistas, e dão ainda mais de oito contos, cento e cinqüenta e um
mil quinhentos, isto é, a quantia necessária para pagar as pensões anuais e os
enxovais de mais quase oito alunos internos!
E chamam-se tais alunos, alunos gratuitos!
Eu não sei o que se há de dizer a isto. Porquanto as
propriedades de casas que ainda existem, as casas que se venderam e cujo
produto se empregou em apólices, e o edifício em que se acha estabelecido o
externato do Imperial Colégio de Pedro II, foram o fruto de doações, de legados
e de esmolas, que pertencem determinadamente e por declaração explícita dos
benfeitores aos pobres órfãos de S. Joaquim, não somente aos que então
existiam, mas aos que se fossem sucedendo uns aos outros, para se aproveitarem daqueles
atos de beneficência e de caridade.
E a coisa ainda é pior do que se pensa, e do que mostrei até aqui.
Devo dizer a verdade, e hei de dizê-la.
É um erro supor que esses mal chamados doze lugares internos
gratuitos têm sido sempre dados a pobres órfãos e por estes aproveitados.
Desde longa data, desde os primeiros tempos do Imperial
Colégio de Pedro II, o patronato arrancou lugares dos pobres orfãos para dá-los
de presente a meninos que não eram órfãos, e que muitas vezes nem eram pobres!
E os doze lugares iam-se deste modo reduzindo...
reduzindo... Deus sabe a quantos! Reduziam-se na razão inversa da extensão do
patronato, que em alguns anos chegou a ser escandaloso.
Já até se observou que um ministro mandasse matricular como
aluno interno gratuito um menino que o reitor informara não estar nas condições
da lei para merecer um tal favor!
E vá a responsabilidade de semelhantes abusos a quem toca.
Não são os reitores do colégio os culpados de semelhantes
esbulhos dos lugares dos pobres. Os reitores são apenas ouvidos a respeito das
condições dos pretendentes, que raramente eles conhecem, e o ministro do
Império vai repartindo essa fatia de pão de rala dos pobres pelos filhos de
quem tem melhores padrinhos.
E bom é, quando um órfão pobre acha padrinho.
Não me seria impossível apontar o caso de um personagem
altamente colocado na escala social que, em anos passados, usurpou o lugar de
um pobre órfão, um lugar gratuito no Imperial Colégio de Pedro II para seu
filho!
E hoje, ou dão-se ainda, ou podem dar-se todos esses abusos,
e podem ou não admitir-se doze órfãos pobres no Imperial Colégio de Pedro II,
podem até negar-se a eles, um, dez ou todos os doze lugares. Porque o governo
tem a seu favor a lei que fez para o colégio e para si. Porque o art. 14 do
regulamento de 17 de fevereiro de 1855 diz: “O governo poderá mandar admitir
gratuitamente”, e portanto manda, se quer mandar, ou quando quer mandar.
E os órfãos pobres que concorrem para a receita do Imperial
Colégio de Pedro II com uma soma que se eleva a mais de vinte contos de réis
estão na dependência de um “poderá mandar” do governo, para que doze dentre
eles se aproveitem da instrução que os seus rendimentos pagam sem o menor
favor, para ser dada a dezenove ou vinte pensionistas do mesmo colégio.
Sou o primeiro a defender o Imperial Colégio de Pedro II das
increpações infundadas que lhe fazem críticos levianos e detratores de mau
gosto. Mas não posso escurecer esta injustiça do governo, injustiça tanto mais
censurável quanto é ofensiva dos direitos daqueles que contam a seu favor menos
proteção e menos patronos.
Em toda a parte os ricos pagam para os pobres, e é incrível,
mas certo e positivo, que no Imperial Colégio de Pedro II os pobres estão
pagando para alguns ricos!
E que pobres? Os órfãos! Os órfãos que devem merecer toda a
caridade na Terra. Por isso mesmo que não têm por si nem o encanto do amor, nem
os milagres da providência de seus pais.
Indubitavelmente o governo ainda não meditou na injustiça
enorme e na inconveniência de semelhante prática e de tais abusos. A minha voz,
porém, será ouvida por ele, e os pobres órfãos serão mais bem atendidos no
Imperial Colégio de Pedro II.
Dêem-lhes o que de direito lhes pertence, ao menos, e
ninguém mais falará em esbulho com aparência de fundamento.
Em uma palavra: a fundação do Imperial Colégio de Pedro II
foi de suma utilidade e honra o governo que a determinou. E o fato de terem
passado para esse estabelecimento os bens e propriedades do antigo seminário
dos pobres órfãos de S. Joaquim não pode ser considerado um despojamento.
Porque o produto dessas propriedades é empregado em um fim idêntico e com um
desenvolvimento muito maior. Infelizmente, porém, parece tomar o caráter de
esbulho, porque é positivo e inegável que os pobres órfãos não se aproveitam do
que é seu, não têm no Imperial Colégio de Pedro II a parte que deviam ter.
O regulamento de 24 de outubro de 1857, alterando algumas
disposições dos anteriores relativos aos estudos de instrução secundária do
município da corte, veio, quanto a mim, trazer também um grande mal aos meninos
pobres da nossa capital com uma medida menos bem pensada que levou a efeito.
Havia antes dessa data, espalhadas pela cidade, algumas
aulas avulsas de instrução pública secundária, uma de latim, uma de filosofia,
e alguma outra ainda, e os meninos pobres que não podiam seguir o curso de
estudos do Imperial Colégio de Pedro II achavam ao menos naquelas aulas alguns
recursos, embora mesquinhos, para cultivar suas inteligências.
Era um benefício já feito, um benefício antigo, a que as
classes pobres tinham adquirido um certo direito.
O regulamento de 24 de outubro de 1857 determinou o
seguinte, no seu
“Art. 3º – O externato será estabelecido no edifício em que
ora se acha o Colégio de Pedro II.
“Logo que for criado este colégio, ficam cessando as aulas
avulsas das cadeiras de instrução pública secundária atualmente existentes no
município da corte, na conformidade do Decreto nº 630, de 17 de setembro de
1851. Art. 1º, Disp. 7a.”
Não é preciso dizer que o externato a que se refere este
artigo é o do Imperial Colégio de Pedro II.
À primeira vista, parece que a disposição do artigo que
copiei não apresenta o menor inconveniente. Porque no externato se encontram
todas as aulas que se fizeram cessar e muitas outras ainda, e porque o art. 23
daquele mesmo regulamento declara que os alunos externos gratuitos serão
admitidos em número indeterminado. Podendo, por conseqüência, concorrerem todos
os meninos pobres ao externato, e matricularem-se nas aulas que quiserem. Pois
que também isso ficou permitido pelo supracitado regulamento.
Mas o que aparentemente se mostrou sem desvantagem vai
depois de breve reflexão parecer o que realmente é: muito prejudicial aos
meninos pobres.
Não se trata daqueles meninos pobres que podiam ou podem
seguir o curso de estudos do Imperial Colégio de Pedro II. A esses não
contrariou de modo algum a disposição do art. 3º do regulamento de 24 de
outubro de 1857.
Aqueles, porém, que não tinham meios nem disposições para
pretender o bacharelado em letras achavam nessas aulas avulsas uma consolação e
um socorro que hoje não encontram mais, pelo menos nas antigas e favoráveis
condições.
Dantes, um jovem desfavorecido da fortuna conseguia estudar,
por exemplo, latim e filosofia em três ou quatro anos nas aulas avulsas; e
hoje, para obter um resultado igual, precisaria estudar sete anos no Imperial
Colégio de Pedro II.
As aulas avulsas não estavam sujeitas ao sistema do ensino
simultâneo, e os professores, não sendo obrigados a dar às suas lições as
proporções convenientes, para não embaraçar o estudo de muitas outras matérias,
como acontece naquele colégio, faziam progredir rapidamente os seus alunos sem
transtorno de um sistema de ensino.
No Colégio de Pedro II, porém, o estudo de cada matéria é
moroso, porque não pode deixar de sê-lo, seguindo-se o ensino simultâneo de
muitas matérias. E o estudante que deseja aplicar-se ao estudo de uma só
matéria erra, porque perde tempo, matriculando-se na aula competente do
Imperial Colégio de Pedro II.
Assim, pois, é evidente que a reforma proveniente do art. 3º
do regulamento de 24 de outubro de 1857 foi desastrosa para os pobres, e
satisfez apenas uma idéia mesquinha de falsa economia.
O governo devia reconsiderar este ponto da sua última
reforma. Cumpria-lhe fazê-lo, não só para dar aos meninos pobres o que eles já
tinham desde longos anos, e de que se viam de súbito privados, como para
desmentir aqueles que propalam que se procura muito de propósito dificultar aos
pobres a carreira das letras. Cumpria-lhe, e cumpre-lhe fazê-lo enfim, para que
nunca se possa julgar e ainda menos dizer que os pobres órfãos e os meninos
pobres perderam muito com a fundação de uma das nossas mais belas instituições:
o Imperial Colégio de Pedro II.
Reparo agora que este meu passeio correu todo inteiro nos
campos imateriais do raciocínio. Desde o começo até à terminação dele não pus
uma só vez os pés em terra.
Foi um longo passeio dado sem sair à rua.
Se faltei aos meus compromissos, passeando assim, dou as
mãos à palmatória, com a condição de que não seja o governo quem me aplique os
bolos, porque o governo seria muito suspeito nos seus juízos sobre este meu
passeio.
VI
Nos precedentes passeios contei-vos tão rapidamente quanto me foi possível a história do Imperial Colégio de Pedro II, importantíssima e patriótica instituição que tem as suas primeiras raízes no século passado, descendendo muito legitimamente dos seminários dos pobres órfãos de S. Pedro e de S. Joaquim, de quem não conservou o nome, mas herdou a fortuna.
Entretanto, essa história ficaria incompleta, se eu não vos
levasse agora a visitar os edifícios onde se acham estabelecidos o internato e
o externato do Imperial Colégio de Pedro II.
Creio que devemos começar pelo externato, que tem por si o
direito de antiguidade.
É bem certo que o tal direito de antiguidade torna-se uma
verdadeira burla sempre que o patronato se resolve a tomar a peito fazer saltar
um mocinho de bigode preto por cima de um veterano de barbas brancas. Mas o
patronato é fidalgo de sangue azul, não se abaixa a passear comigo e, portanto,
livre dele, posso ainda prosseguir, andando direito.
Além disso, ao internato não se pode ir calcante pede sem
grande fadiga e incômodo. Enquanto, pois, mando preparar os carros que nos
devem levar ao Engenho Velho, vamos à Rua Larga de S. Joaquim fazer a nossa
visita ao externato.
No fundo da Rua Larga de S. Joaquim se levanta a igreja
consagrada ao santo desse nome, e tem pelo seu lado direito a Rua Estreita de
S. Joaquim, ligando-se pelo esquerdo ao antigo seminário, depois Imperial
Colégio, e hoje externato do Imperial Colégio de Pedro II.
Aqui, acha ainda fundamento para cantar vitória a teoria das
compensações.
A Rua Larga de S. Joaquim é tão notável pelo que lhe sobra
em largura como pelo que lhe falta em comprimento. E a Estreita, apertada como
um beco, sombria e úmida, estende-se bastante, como tantos outros mesquinhos e
feios corredores do labirinto chamado cidade velha.
Não disputo à Rua Larga de S. Joaquim o seu qualificativo
larga, pois que bem o merece. Mas o nome de S. Joaquim protesto que já o perdeu
de direito.
S. Joaquim é desde algum tempo tão denominador ou dono
daquela rua como o Sr. D. João VI foi Imperador do Brasil desde 1825, em que
declarou que conservava para si esse título, até o ano seguinte, em que morreu,
ou como ainda há pouco era Vítor Manuel, Rei de Chipre e de Jerusalém.
S. Joaquim foi sem a menor cerimônia despedido da sua
igreja, e provavelmente estimou sê-lo, porque ela já tinha perdido um certo
encanto de puro amor que a recomendava.
Em frente da igreja de S. Joaquim mostrava-se no Campo da
Aclamação, dantes chamado de Santana, a pequena e humilde igreja desta Santa,
que foi, como todos sabem, esposa daquele Santo.
Em um dia de progresso material, veio a estrada de ferro de
D. Pedro II, declarou que precisava do lugar em que estava a igreja de Santana,
e em 1856 foi a santa arrancada do seu altar e depois levada para uma capela
provisória que se levantou sobre os alicerces que tinham sido destinados para
uma cadeia na cidade nova.
Os velhos e santos esposos foram assim ainda mais separados
do que estavam, e por conseqüência, não devia ser grande o pesar de S. Joaquim,
quando aquela mesma estrada de ferro resolveu estender os seus trilhos até à
praia, passando exatamente pelo lugar ocupado pela sua igreja.
Não sei se ainda se projeta executar esse plano. Certo é,
porém, que S. Joaquim abandonou a sua igreja, condenada pelo progresso material
do país, e hoje tem a sua veneranda imagem no altar da capela do internato.
A igreja tem duas torres e é toda de sólida construção de
cantaria; e se não é admirável debaixo do ponto de vista arquitetônico, pelo
menos não se ressente de falta de elegância apropriada.
Três grandes portas com portais de pedra davam entrada para
o templo. A primeira, que fica à direita, para um largo e vasto corredor que se
estende com todo o comprimento do templo. A segunda para o corpo da igreja,
cujos ornatos eram no estilo barroco, que dominara no Rio de Janeiro,
aparecendo em todos os templos levantados antes da nossa época.
Cinco eram os altares da igreja. O primeiro, à entrada e do
lado da Epístola, era o altar de S. Bom Homem. O segundo, do mesmo lado, era o
da Senhora das Dores, de especial devoção dos pobres órfãos de S. Joaquim. Do
lado do Evangelho, o primeiro altar à entrada era dedicado à Imaculada
Conceição de Maria. O segundo a S. José, e no altar-mor adorava-se a S.
Joaquim.
O coro era, como ainda hoje se mostra, tão simples como
espaçoso.
A terceira porta, que fica à direita, abria para outro
corredor (também largo e vasto como o da esquerda), que ia terminar na
sacristia, sala de muito suficientes proporções.
Do lado esquerdo, em um pavimento superior, havia uma sala,
e além desta, o consistório que por uma porta dava entrada pelo coro.
Como já indiquei, a igreja deixou de ser igreja. É, porém,
Deus servido que ainda hoje esteja prestando grande utilidade, porque no
corredor da direita e no próprio corpo principal dela se acham estabelecidas as
aulas do Liceu de Artes e Ofícios, instituição filantrópica de que o país deve
colher muito proveito, e os seus fundadores e professores bem merecida glória,
se tiverem constância na sua dedicação e nobre empenho.
Ligado à igreja de S. Joaquim, o edifício do antigo
seminário, e hoje do externato, se mostra com dois pavimentos, um térreo e
outro superior, abrindo-se neste duas janelas de grades de ferro para a Rua
Larga de S. Joaquim, e algumas outras iguais para um pátio murado que oferece
uma pequena face para aquela rua e outra muito maior para a Rua da Imperatriz,
estendendo ainda o edifício uma terceira face pela Rua da Prainha.
Uma porta igual às da igreja, conservando ainda, como
recordação do passado, as armas do príncipe dos apóstolos, dá entrada para a
portaria do colégio, pequena, porém muito decente.
A portaria do Imperial Colégio de Pedro II era o mundo do
velho Manuel Babo Rebelo, porteiro contratado no princípio, talvez em janeiro
de 1838, e conservado nesse lugar até o último dia de sua vida, no ano de 1855.
O velho Babo era a crônica viva da casa. E sabia e contava a
história de cada pedra que servira para as obras do colégio, desde 1838. Tinha
de cor o número das visitas que o ministro Vasconcelos fizera ao
estabelecimento, quando se ocupava em fundar e dar vida e calor à instituição.
Babo era natural de Portugal, viera para o Brasil e chegara
à Bahia, tendo apenas nove anos de idade. Um negociante o recebeu, e o pobre
menino foi tratado e educado como filho pela família brasileira cujo chefe o
adotara. O velho porteiro relatava tudo isso duas ou três vezes por dia. E de
cada vez que o fazia, era certo vê-lo chorar e concluir dizendo: “A Sra. D.
Maria foi minha mãe e queria que eu a chamasse minha mãe!”
Pelo menos, era um homem agradecido.
Mas era também um pouco original, e levava a virtude da
economia até àquele extremo em que ela se torna em vício.
O velho Babo sustentava que, para conservar a saúde, lhe
eram necessárias as três seguintes condições: tomar banhos gerais de água fria,
ter os pés muito frios de manhã e passear muito a pé durante o dia. E eis aqui
como ele satisfazia essas condições, e especialmente a última, sem sair do
colégio.
Às dez horas da noite, o Sr. Babo deitava-se e dormia a sono
solto até às três horas da madrugada – Levantava-se, tomava um banho geral de
água fria, e depois, conservando-se descalço sobre os tijolos de mármore da
portaria durante meia hora, começava então a espirrar com estrondo tal que
despertava às vezes os alunos. Depois de duas dúzias de espirros, e às vezes
mais tinha o homem os seus pés frios e ficava contente.
Em seguida, e durante o dia todo, embora com intervalos
multiplicados, efetuava-se o exercício de passeio a pé.
Das quatro às cinco e meia da manhã, o velho Babo passeava
em toda a extensão da varanda que por dois lados cerca o pátio interior do
colégio, e ainda pelo mesmo pátio, e no correr do dia, passeava na sua pequena
portaria.
E passeava sempre com passo acelerado, com a cabeça baixa,
olhando para o chão e contando as pisadas.
Ao cair da tarde, somava os passos que tinha dado durante o
dia, e calculando como cumpria, declarava, alegre e risonho, que tinha andado a
pé três ou quatro léguas!
O espírito de economia do velho Babo pode-se apreciar bem na
seguinte observação.
Este célebre porteiro entrou para o serviço do colégio em
1838, trazendo uma casaca bastante usada e uma casaca em muito bom uso. Desde
as seis horas da manhã até à noite, sempre estava de casaca, e morreu em 1855
sem ter mandado fazer uma casaca nova!
Entretanto, em l854, foi obrigado a abandonar a sua casaca
velha em conseqüência de uma terrível catástrofe.
Estavam-se caiando de novo algumas paredes do colégio. O
zeloso porteiro fiscalizava por sua vontade o trabalho, quando em um momento
sinistro o caiador estremeceu na escada, e tão desastradamente se houve, que
despejou sobre o velho Babo um banho, um dilúvio de água de cal.
Não houve meio de regenerar-se a casaca inundada.
À parte este defeito, que, aliás, a ninguém era nocivo,
Manuel Babo Rebelo tinha qualidades que o recomendavam. Gozou sempre da
confiança e da estima dos chefes do colégio e dos professores. Era muito
querido dos alunos, e não menos dos empregados da casa.
A portaria tem ao lado esquerdo uma escada que nos levará ao
andar superior.
Ainda no mesmo lado, uma pequena porta que dá entrada para
uma saleta de espera onde se reúnem e descansam os professores, e no fundo uma
grande porta de ferro que se abre para o interior do colégio.
Entrando-se pela porta de ferro, encontra-se à mão direita a
vigilante sineta que marca as horas de descanso e de trabalho, e logo em
seguida entra-se para o corredor da esquerda da igreja, que serve para ponto de
espera, onde se ajuntam os alunos externos. Passa-se deste largo corredor para
a antiga sacristia, que é hoje a sala das aulas das ciências naturais.
O primeiro professor de ciências naturais no Imperial
Colégio de Pedro II foi o Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia. Em 1855, esta
matéria passou a ser ensinada em duas cadeiras, a primeira de zoologia e
botânica, que continuou a cargo do Dr. Maia, e a segunda de física e química,
para a qual foi nomeado o Sr. Dr. Saturnino Soares de Meireles. Atualmente
essas cadeiras estão a cargo de outros cavalheiros, porque o Dr. Maia faleceu,
e foi substituído no colégio pelo Sr. Dr. José da Silva Lisboa, e o Sr. Dr. Meireles
passou a professar a mesma matéria na Academia de Marinha, tomando o seu lugar
no colégio o Sr. Dr. José Maria Correia de Sá e Benevides, que aí tomara o grau
de bacharel em
Letras.
O Dr. Maia era natural da Bahia, onde nasceu a 8 de agosto
de 1808, e onde fez os seus estudos de humanidades. Em 1823, foi com toda a sua
família para Portugal, e aí se matriculou na Universidade de Coimbra. Tinha já
obtido o grau de bacharel em filosofia natural, quando rebentou a guerra civil
entre os constitucionais e os absolutistas. O jovem brasileiro trocou o livro
pela espada, e alistando-se entre os acadêmicos voluntários, bateu-se
nobremente pela causa da liberdade, e vencido e perseguido, fugiu para escapar
aos algozes do terrível usurpador. Enfim, a 2 de setembro de 1833, obteve o
diploma de doutor em medicina pela universidade de Paris, e, tornado à pátria,
consagrou-se durante vinte cinco anos ao cultivo da medicina, das ciências
naturais e das letras. Foi um dos diretores do Museu Nacional e um dos
professores da criação do Imperial Colégio de Pedro II. E nos jornais da
sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e da Academia Imperial de Medicina,
de que foi por muito tempo redator, e na Minerva Brasileira, revista científica
e literária, que o teve por fundador e redator-em-chefe, deixou-nos
interessantes trabalhos. O Sr. Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia morreu no dia
21 de novembro de 1859.
Suspendo aqui a cansada relação dos professores do colégio,
que, aliás, ultimarei no próximo passeio.
E ainda para completar a descrição do pavimento inferior do
edifício que estamos visitando, me era necessário levar-vos por um corredor que
começa à porta da sala do refeitório, à grande e excelente cozinha do colégio,
além da qual se encontram a sala de banhos e quartos de criados, que abrem
portas para um segundo pátio. Creio, porém, que podemos dispensar-nos de
estender até lá o nosso passeio de hoje, que já se tem prolongado não pouco,
convindo portanto dá-lo por acabado aqui.
VII
Não temos, creio eu, a menor necessidade de andar correndo.
Vivemos, é certo, no século do vapor e da eletricidade, que vieram dar aos
homens admiráveis asas, ainda mais leves que as do beija-flor e mais possantes
que as da águia. Mas ninguém se lembra de passear em fios elétricos ou em
cavalos de vapor. Ao contrário, é de regra absoluta que quem passeia não tem
pressa, e quem tem pressa não passeia.
Estou, portanto, no meu direito, demorando-me ainda no
pavimento térreo do externato do Imperial Colégio de Pedro II, para, ao lançar
a última vista de olhos pelas salas de aulas, recordar os nomes dos professores
que nelas lecionaram e lecionam, e especialmente os daqueles que já não são
deste mundo.
A cadeira de retórica do Imperial Colégio de Pedro II foi
ocupa da pelos srs. Dr. Joaquim Caetano da Silva, Tibúrcio Antônio Craveiro,
Santiago Nunes Ribeiro, Dr. Francisco de Paula Meneses, e o é atualmente pelo
Sr. Dr. cônego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.
Santiago Nunes Ribeiro era natural do Chile. Vítima de uma
borrasca política, viu-se ainda menino obrigado a expatriar-se, e acompanhando
um seu tio e preceptor, acolheu-se ao Brasil, que lhe abriu o seio tranqüilo,
benfazejo e amigo.
O tio de Santiago Nunes Ribeiro era um religioso de grande
ilustração, e foi o primeiro mestre do talentoso sobrinho. Mas o religioso
tinha, além da fé do altar, a fé do coração, e como disse o Sr. Porto Alegre,
aquela cedeu a esta, o patriota foi maior que o frade e o proscrito sucumbiu à
saudade da terra natal e aos pesares, deixando sem recursos e na mais completa
orfandade o mísero sobrinho, ainda de menor idade.
O órfão de pátria e de benfeitor foi pedir pão ao comércio,
e serviu de caixeiro em uma casa comercial da cidade do Rio de Janeiro durante
os primeiros anos da sua juventude. Trabalhava.
Talvez me observem que estou escrevendo uma carta de nomes,
paciência. Quero de boa vontade sofrer agora a pecha de maçante, para deixar
informações que algum dia possam servir.
E bem quisera estar habilitado para escrever algumas
palavras a respeito de cada um dos professores que a morte roubou ao colégio.
Na impossibilidade, porém, de o fazer completamente, lembrarei ao menos o
merecimento daqueles de quem tenho informações.
E os professores e ex-professores que ainda vivem
contentem-se com a simples menção de seus nomes, e não tenham pressa de
achar-se no caso dos outros.
A cadeira de ciências matemáticas foi ocupada pelo Dr.
Emílio Joaquim da Silva Maia, Sr. Dr. João Dias Ferraz da Luz, sendo ainda
estudante de medicina, Dr. Lino Antônio Rebelo, Sr. Dr. bacharel Antônio
Machado Dias, e o é hoje pelo Sr. José Ventura Bôscoli.
Do ano de 1856 ao de 1861, serviram sucessivamente de pro
fessores suplementares de matemáticas o Sr. Dr. Saturnino Soares de Meireles, o
bacharel João Antônio Gonçalves, os srs. bacharel Eduardo de Sá Pereira de
Castro, bacharel Manuel Buarque de Macedo Lima, Dr. Pedro José de Abreu, Dr.
José da Silva Lisboa, bacharel Antônio Maria Correia de Sá, e serve hoje o Dr.
João dos Santos Marques.
O Dr. Lino Antônio Rebelo foi um homem que, se não tivesse
deixado na terra, esposa, e filhos, teria saudado a morte com um sorriso. Gasto
na mocidade pelas privações, não teve forças para chegar à velhice.
Era natural de Buenos Aires, mas aos dois anos de idade já
estava no Rio de Janeiro, onde estudou humanidades. Passou à Europa, e tomou em
Bolonha o grau de doutor em ciências naturais e em matemáticas.
Em 1836, foi o D. Lino Rebelo nomeado lente substituto e
logo depois proprietário da escola de arquitetos medidores da província do Rio
de Janeiro, e um pouco mais tarde, professor de matemática do Imperial Colégio
de Pedro II. Extinta, porém, aquela escola, teve de contentar-se com o
limitadíssimo ordenado que lhe dava o colégio, e que era muito menos que os
ordenados dos atuais professores.
Sobrecarregado de família e sem fortuna, e sem algum outro
meio de subsistência, o Dr. Lino lutou oito anos com a mais cruel pobreza.
Tinha talento e instrução, era de reconhecida probidade, e sofria profundamente
ainda mais pelas privações que experimentavam sua mulher e seus filhos do que
pelas próprias. Ainda era moço em anos, e já o seu aspecto era de um velho
afável no trato, sorria às vezes. Mas o seu sorriso era tão triste, que fazia
entristecer.
Em 1852, o governo imperial melhorou a sorte do Dr. Lino,
nomeando-o inspetor da tesouraria da província de Minas Gerais. Mas, cinco anos
depois, o Dr. Lino Antônio Rebelo deixava de existir.
A cadeira de francês foi ocupada primeiro por Francisco
Maria Piquet, depois pelo Sr. Dr. Fernando Francisco Leça, que teve a sua
jubilação, e o é agora pelo Sr. João Francisco Halbout, tendo também servido
como professores suplementares o bacharel Antônio Gonçalves Silva e o Sr.
bacharel Batista Caetano de Almeida Nogueira.
O colégio tem tido por professores de grego os srs. Dr. Joa
quim Caetano da Silva, barão de Tautphoeus, e o Sr. Dr. Guilherme Teodoro
Schieffler, que o é atualmente.
Foram professores de alemão o barão de Planitz, o Sr. barão
de Tautphoeus, George Gael, e o é agora o Sr. Bertoldo Goldschmidt.
O barão de Planitz era um homem de instrução vasta e
profunda e um professor abalizado; e apesar de algumas generalidades, gozava do
respeito devido à sua ilustração e capacidade, e era muito estimado dos alunos.
Incansável no estudo e no trabalho, e por isso sofrendo não
pouco em sua saúde, tinha o barão de Planitz dias de mau humor em que
facilmente se encolerizava, e então chegava às vezes a parecer menino.
Uma vez, estava ele lecionando, e empenhado em fazer
compreender completamente um ponto da lição aos seus alunos, levantou-se, tomou
o giz, foi à pedra, escreveu o que julgou preciso, e empunhando a flecha,
começou a explicar a questão. Mas uma mosca impertinente veio pousar no nariz
do professor, que a espantou debalde, porque a mosca fugia e voltava, ora a
pousar-lhe na face, ora no queixo, ora outra vez no nariz. Os alunos sorriam,
vendo a impaciência do barão de Planitz, que, acabando por desesperar, lançou-se
atrás da mosca pela sala fora, procurando matá-la a golpes de flecha.
Os alunos ficaram sem lição, e guardaram a lembrança da
história da mosca.
Era, porém, tão real e notável o merecimento do barão de
Planitz, que, ainda mesmo com esta e algumas outras excentricidades, não perdeu
jamais a consideração que soubera desde o princípio conquistar.
A sala, que foi sacristia, oferece-nos ao fundo uma porta
que dá passagem para uma escada, por onde se vai ter à casa que era da
habitação dos reitores.
No centro do edifício alarga-se um belo pátio quadrado a que prestam sombra cerca de uma dúzia de graciosas amendoeiras, e onde estão dispostos os meios necessários para os exercícios ginásticos, sendo, além disso, um lugar de recreio para os alunos, de que atualmente só se aproveitam os meio-pensionistas.
Para este pátio quadrado apresenta o edifício quatro faces.
Da que fica ao lado direito da entrada acabei de falar há pouco, no que diz
respeito ao pavimento inferior de que estou tratando.
As faces principais e do lado esquerdo, sempre do pavimento
inferior, são formadas por uma varanda defendida por grades de ferro.
Na última face, enfim, abrem janelas para o pátio duas salas
de espera dos professores e duas salas de aulas separadas por um pequeno
corredor. E na face do lado esquerdo a sala do refeitório, que é vasta e
asseada, e uma outra sala de aulas.
Na última face, enfim, abrem janelas para o pátio duas salas
de aulas também separadas por um corredor.
Lembrarei agora os nomes dos professores cuja voz se tem
feito ouvir nestas salas.
De gramática portuguesa foram professores o Sr. Dr. Joaquim
Caetano da Silva e depois o Sr. Dr. João Dias Ferraz da Luz, que ocupou esta
cadeira quando ainda era estudante da Escola de Medicina do Rio de Janeiro.
Atualmente, e desde muitos anos, ensina esta matéria o Sr. Gabriel de Medeiros
Gomes, professor de latim.
O primeiro professor de latim do Imperial Colégio de Pedro
II foi o Sr. Jorge Furtado de Mendonça, cujo título teve a data de 30 de abril
de 1838. Tendo-se, porém, retirado em agosto do mesmo ano, foi a cadeira de
latim dividida em duas, e estas preenchidas pelo Sr. Gabriel de Medeiros Gomes,
que felizmente ainda hoje leciona e é o decano dos professores do colégio, e
pelo professor público de latim, João de Castro e Silva, e pelos seguintes, que
se foram sucedendo, padre Manuel Antônio da Silva, Tibúrcio Antônio Craveiro,
barão de Planitz, e Bernardo José Faletti, que deixou o lugar em 1849.
Nesse ano criou-se uma terceira cadeira de latim; e enquanto
o Sr. Dr. Antônio de Castro Lopes tomava o posto que ocupara Faletti, e o Sr.
Dr. Antônio José de Sousa, professor atual, sucedia àquele, era nomeado para a
nova cadeira criada o nosso suavíssimo poeta o Sr. Dr. Antônio Gonçalves Dias,
a quem sucederam o Sr. frei José de Santa Maria Amaral, e enfim, o Sr. Jorge
Furtado de Mendonça, que fora um dos professores da criação do colégio, e que
hoje continua a sê-lo, entregando-se aos mais sérios estudos de algumas línguas
vivas e mortas, e à leitura e meditação dos poetas e dos historiadores.
Em breve, quebrou os laços que o ligavam ao comércio e
dedicou-se todo às letras, adotando como um recurso a arte taquigráfica, e mais
tarde, seguindo a carreira do professorado.
Ensinou filosofia em vários colégios particulares e foi
professor de retórica do Imperial Colégio de Pedro II.
Escreveu em alguns jornais literários, tendo sido um dos
fundadores e o último redator da Minerva Brasileira. Deixou algumas lindas
canções eróticas e publicados alguns fragmentos de um poema O libertador, e
outros escritos.
Santiago Nunes Ribeiro era de uma modéstia que tocava ao
excesso. Triste de fisionomia, de voz muito débil e de timidez que o abatia.
Mas o seu merecimento era real e incontestável.
Foi um homem que passou toda a sua vida esperando, sofrendo
e quase sempre infeliz. Morreu ainda muito moço. Sentiu que ia soar para ele a
hora da agonia, e saudou com um sorriso a morte.
O Dr. Francisco de Paula Meneses nasceu na freguesia de S.
Lourenço, em Niterói, a 25 de agosto de 1811. Viu a primeira luz perto do sítio
em que Martim Afonso, o Ararigbóia, assentara a sua aldeia depois que Mem de Sá
lançou os fundamentos da cidade do Rio de Janeiro.
Mostrando muita viveza e talento desde os mais verdes anos,
Francisco de Paula Meneses desejou seguir a carreira das letras, contrariando
nisso a vontade de seu pai, José Antunes de Meneses. que pretendia fazê-lo
seguir o curso da Academia das Belas-Artes. O pai contemporizou com o filho,
esperando sempre, mas sempre debalde, vencer-lhe a vocação.
Paula Meneses matriculou-se na Academia Médico-Cirúrgica do
Rio de Janeiro, e em 1834 chegou ao termo do curso escolar, tomando o grau de
doutor em medicina em 1838.
Em 1833, sendo ainda simples estudante da Academia
Médico-Cirúrgica, foi mandado pelo governo para a vila de S. Antônio de Sá, que
era de novo assolada pelas terríveis febres paludosas que tão fatais lhe foram.
Aí, no campo da peste, o jovem estudante disputou com a morte e arrancou-lhe
das garras vitimas feridas pela moléstia cruel.
Depois de tomar o grau de doutor em medicina, Paula Mene
ses, por duas vezes, tentou em concurso público conquistar uma cadeira na
escola de que era filho; e se em nenhuma delas alcançou os louros da vitória,
nem por isso saiu da luta abatido pela vergonha de uma derrota humilhante. Os
vencedores olharam-no com respeito depois do combate.
Em 1844, foi o Dr. Paula Meneses nomeado pelo governo de Sua
Majestade professor público de retórica do município da corte, e em 1848,
professor da mesma cadeira do Imperial Colégio de Pedro II, onde também
lecionou interinamente, durante alguns meses, filosofia.
Apesar do labor do magistério e dos cuidados da clínica
médica, que tantas fadigas lhe custavam, achava o Dr. Paula Meneses ainda tempo
de sobra e ânimo bastante para se ocupar de outros e importantes trabalhos que
aproveitavam ao país. Foi sempre um membro ativo e dedicado de muitas das
nossas sociedades científicas e literárias. No Instituto Histórico e Geográfico
do Brasil serviu de segundo secretário durante não poucos anos. Na Academia
Imperial de Medicina foi também por alguns anos o redator da competente
revista. Concorreu como colaborador para diversos periódicos literários e
publicou uma revista literária, de que foi o principal ou quase único redator.
Deixou numerosos discursos impressos e também diversos
manuscritos, entre os quais alguns infelizmente incompletos. Compôs, e não sei
onde param, uma tragédia em verso endecassílabo intitulada Lúcia de Miranda, um
drama e uma comédia que tinha por título A noite de S. João na roça.
Sobressaíam entre esses manuscritos os quadros da literatura
brasileira, a que faltava a última parte, de que ele mais fervoroso se ocupava,
quando foi atacado pela enfermidade que o levou à sepultura em 1857, tendo
então apenas quarenta e seis anos de idade.
O Dr. Francisco de Paula Meneses possuiu em sumo grau o dom
da palavra. Tinha imaginação viva e compreensão fácil. Era feliz nos
improvisos. Muitas vezes brilhante no discurso e gozou de uma bem merecida
nomeada.
A cadeira de filosofia do Imperial Colégio de Pedro II foi
ocupada pelo Sr. Dr. Domingos José Gonçalves de Magalhães, e o é agora
pelo Sr. padre-mestre frei José de Santa Maria Amaral. Mas, entre o ilustre
poeta e o venerando e ilustrado beneditino, lecionaram interinamente a mesma
matéria Santiago Nunes Ribeiro, Dr. Francisco de Paula Meneses e o Sr. bacharel
Joaquim Pinto Brasil.
A cadeira em que não têm parado professores no Imperial
Colégio de Pedro II é a de inglês. Pois que, entre interinos e não interinos,
já se contam em vinte e quatro anos não menos de treze! Eis aqui os nomes
desses professores: Srs. Diogo Mare, José Luís Alves, Guilherme Fairfax Norris,
José André Garcia Ximenes, outra vez Guilherme Fairfax Norris, Dr. Ernesto
Ferreira França, Dr. José Manuel Valdez y Palacios, Galiano Ravara, Ciro
Cardoso de Meneses, Alberto Cumberworth, Simeão Pereira de Morais Abunaiuba,
bacharel Miguel Arcanjo da Silva Costa, e enfim, Dr. Filipe da Mota Azevedo
Correia.
Dizem que o número treze é infeliz. Mas contra esse pueril prejuízo está protestando o Colégio de Pedro II, que se acha muito feliz com o seu décimo-terceiro professor de inglês o Sr. Dr. Azevedo Correia.
O Dr. José Manuel Valdez y Palacios, ilustrado peruano,
deixou a pátria, fugindo às reações políticas e à morte, de que estava
ameaçado. Trazendo consigo um filho, sobe os Andes, e através de todas as
privações, procura a terra hospitaleira do Brasil, chega ao Pará, depois de
correr mil perigos, vem para o Rio de Janeiro, e aqui acha ao menos
tranqüilidade e pão, embora se visse abatido pela pobreza.
O Dr. Valdez teve um recurso no magistério e foi professor
público de inglês no Liceu de Niterói e no Imperial Colégio de Pedro II.
Em 1842, publicou o Dr. Valdez a relação duma parte da sua
viagem de Cuzco ao Pará pelos rios Vilcamayo, Ucuyaly e Amazonas, precedida de
um bosquejo sobre o estado político, moral e literário do Peru em suas três
grandes épocas. É um trabalho curiosíssimo e digno de ser consultado.
Colaborou esse distinto peruano em diversos periódicos heb
domadários e sustentou por mais de um ano a Nova Minerva, onde deixou um
testemunho seguro dos seus variados conhecimentos.
A vida do infeliz e nobre proscrito político foi toda de
saudades da pátria natal e de trabalho incessante na pátria adotiva.
Em 1844, o Dr. Valdez descansou morrendo, deixando por
únicos bens na terra dois filhos menores na mais completa pobreza. Na sua bolsa
não se achou recurso para dar um lençol ao seu cadáver, que foi amortalhado e
levado ao último jazigo pelos professores do Imperial Colégio de Pedro II.
A cadeira de história e geografia coube, na época da
fundação do colégio, ao Sr. Dr. Justiniano José da Rocha, depois ao cônego Dr.
Marcelino José da Ribeira, e em seguida, ao barão de Planitz e ao Sr. João
Batista Calógeras.
Em 1849, foi essa cadeira dividida em duas: na de história e
geografia moderna e média, e na de história e geografia antiga, separando-se
ainda interinamente da primeira a história do Brasil.
A primeira cadeira foi ocupada pelo mesmo Sr. Calógeras, e
em 1850, pelo Dr. Joaquim Manuel de Macedo.
A segunda coube ao Dr. Joaquim Manuel de Macedo em 1849, e
depois ao padre-mestre frei Camilo de Montserrate e ao bacharel João Antônio
Gonçalves da Silva.
A interina de história do Brasil foi confiada ao Sr. Dr.
Antônio Gonçalves Dias, e em breve de novo ligada à da história moderna.
Em 1858, criou-se uma aula especial de história e corografia
do Brasil, uma outra de geografia geral e encarregou-se o ensino da história
média ao professor de história antiga.
Foi nomeado então professor de história do Brasil o Dr.
Joaquim Manuel de Macedo, e professor de geografia o Sr. Dr. Pedro José de
Abreu.
A cadeira de história moderna foi ocupada interinamente pelo
Sr. Dr. Domingos Jaci Monteiro, e é hoje dela professor o Sr. Dr. Joaquim
Mendes Malheiros, que foi um dos primeiros que tomaram o grau de bacharel no
Imperial Colégio de Pedro II.
A cadeira de história antiga e média coube ao bacharel João
Antônio Gonçalves da Silva, também um dos primeiros bacharéis do colégio, e
agora vai ser ocupada pelo Sr. Dr. Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo .
João Antônio Gonçalves da Silva nasceu na cidade do Rio de
Janeiro a 26 de fevereiro de 1828. Destinado a seguir a carreira das letras,
matriculou-se no Imperial Colégio de Pedro II, cujos estudos fez com grande
aproveitamento, merecendo ser premiado em diversos anos. Em 1845, tomou o grau
de bacharel em letras. Matriculou-se depois na Escola Militar, que freqüentou
por algum tempo, deixando-a, porém, por motivos estranhos à sua vontade.
Dedicando-se ao magistério, ganhou logo uma justa reputação,
ensinando diversas matérias no colégio que ainda não perdeu o nome de seu
ilustre fundador: o colégio Marinho.
Em 1858, a 26 de fevereiro, no dia do seu aniversário
natalício foi nomeado professor da cadeira de história e geografia antiga do
Imperial Colégio de Pedro II. Em 12 de março de 1859, recebeu a nomeação de
professor de francês da Escola de Marinha, e logo depois, a de latim e francês
da Escola Central .
Em 1861, a 31 de janeiro, uniu-se pelos laços do himeneu a
uma digna senhora escolhida pelo seu coração. Quando, porém, saudava a
felicidade, caiu ferido por uma enfermidade cruel que devia levá-lo ao túmulo;
e quatro meses e meio depois do seu casamento, e no fim de dois meses de
incessantes e dolorosos padecimentos, deu a alma a Deus, no dia 18 de julho de
1861.
A dor e o pranto dos seus colegas, numerosos amigos e
discípulos fizeram o mais completo elogio das excelentes qualidades do bacharel
Gonçalves.
Este digno fluminense, o bacharel João Antônio Gonçalves da
Silva, era ativo e severo no cumprimento dos seus deveres. Grave e muitas vezes
austero na cadeira de professor, brincalhão, espirituoso e sempre alegre no
seio da amizade.
Era um companheiro com quem se podia contar para o traba lho
como para a alegria. Ninguém era mais laborioso que ele, e ninguém podia estar
triste ao seu lado.
Cultivando sempre as matérias que estudara no colégio de que
era filho, pôde ensinar a história e geografia, latim, francês, grego e
matemáticas. Não era profundo em todas essas matérias. Tinha, porém, o dom de
ensinar, e os seus discípulos aproveitavam sempre muito.
O bacharel Gonçalves pertenceu a diversas sociedades literárias. Amava bastante o teatro, e a Ópera Nacional deveu-lhe bons serviços em seu berço e nos dias de suas mais belas esperanças, pois que ele se prestou gratuitamente a ensinar aos artistas novéis dessa companhia que o amor da arte e o patriotismo improvisaram na cidade do Rio de Janeiro.
O bacharel João Antônio Gonçalves da Silva ainda é hoje e
será por muito tempo saudosamente lembrado pelos seus colegas, amigos e
discípulos.
A cadeira de doutrina cristã e história sagrada, criada em
1859 no Imperial Colégio de Pedro II, é ocupada pelo Sr. Cônego Félix Maria de
Freitas Albuquerque.
A de italiano pelo Sr. Dr. Luís Vicente de Simoni.
A de desenho coube, em 1838, ao Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre, que foi substituído pelo Sr. Cândido Mateus de Faria Pardal.
Têm sido professores de música: Januário da Silva Aryolos e
os srs. Francisco da Luz Pinto e José Joaquim Goiano, que o é atualmente.
Têm ensinado ginástica os Srs. Guilherme Luís de Taube,
Frederico Hoppe, Antônio Francisco da Gama e Pedro Guilherme Mayer; e dança, os
srs. João José da Rocha, que a ensina ainda no internato, e Júlio Toussain, que
a ensina no externato.
Acabei, enfim, de fazer a enumeração e de declinar os nomes
de todos os professores que tem tido o Imperial Colégio de Pedro II.
Provavelmente já me condenaram como o mais terrível e teimoso de todos os
maçantes. Mas eu tenho cá no espírito a minha idéia e vou passeando com ela.
Quem se aborrecer da minha companhia pode bem me deixar sem mesmo passar pelo
incômodo de uma despedida.
Sem a menor dúvida, deixei de apresentar notas biográficas
de alguns antigos professores do colégio, que a morte já levou deste mundo para
a eternidade. Não me acusem, porém, de injustiça por essa omissão, que é só
devida à falta de conhecimento em que estou da vida e feitos desses esquecidos.
Nada mais temos a fazer no pavimento inferior do externato
do Imperial Colégio de Pedro II. Voltemos, pois, à portaria, e subamos ao andar
superior pela escada principal.
A escada que se levanta à mão esquerda de quem entra da rua
na portaria é em dois lanços, sendo o primeiro de degraus de pedra e o segundo
de degraus de madeira, e vai terminar em um corredor que abre três janelas para
o pátio central do colégio.
Ao lado direito da escada fica uma sala chamada da reitoria,
porque é aí que despacha o reitor do externato. Esta sala tem duas janelas de
sacadas de ferro para a rua, é separada do corredor por uma parede de tabique,
e além de servir para os despachos da reitoria, guarda a pequena biblioteca do
externato.
Contígua a esta sala se acha a entrada para a escada da
torre da igreja. Em frente a esta escada estende-se o antigo consistório do
lado esquerdo do templo, longa sala que se transformou em três, separadas por
paredes de tabique, e outrora reservadas para a habitação dos vice-reitores,
tendo ultimamente servido para secretaria do colégio, e depois para secretaria
do Instituto Comercial. Cada uma destas três salas abre uma janela para o pátio
central do colégio. Da última das três passa-se, descendo três degraus, para um
salão que dantes era chamado – a sala da música – porque aí dava lições dessa
bela arte o competente professor.
Era também neste salão que tinha lugar o banquete dado pelo colégio aos professores e aos alunos premiados no dia da distribuição dos prêmios, no fim de cada ano. O último banquete desta ordem foi em 1849.
O salão em que estamos agora olha por quatro janelas para o
pátio, e se comunica por outras tantas portas com as salas do lado direito da
igreja e com a casa da Rua Estreita de S. Joaquim, que é contígua à mesma
igreja.
Tendo perdido o seu antigo destino, serve atualmente o salão
para os exames gerais de instrução pública e para a aula de português e
caligrafia do Instituto Comercial.
A casa da Rua Estreita de S. Joaquim a que acabei de me
referir é um sobrado que tem de frente cinco janelas de peitoril, três que
pertencem à sala principal e duas a um gabinete. Duas alcovas e mais uma saleta
de jantar resumem todas as acomodações dessa casa, que outrora serviu para a
habitação dos reitores do colégio, e que, achando-se hoje desocupada, terá,
segundo se diz, de receber os consertos e obras indispensáveis para se
estabelecer nela o Instituto Comercial, que o externato do Imperial Colégio de
Pedro II hospeda desde 1857.
Visto que visitamos as salas e a casa em que habitaram
alguns reitores (dois) e os vice-reitores do Imperial Colégio de Pedro II,
justo é que recordemos os nomes daqueles que ocuparam tão importantes cargos.
O primeiro reitor do Imperial Colégio de Pedro II foi D.
frei Antônio d’Arrábida, bispo de Anemúria, que entrou no exercício da reitoria
a 4 de março de 1838, residindo sempre no convento de S. Antônio. Diz-se que se
achou logo em desinteligência com o ministro Vasconcelos, retirando-se por isso
da direção do colégio a 7 de outubro do mesmo ano, e obtendo a sua demissão de
reitor por decreto de 25 de junho de 1839.
O segundo reitor foi o Sr. Joaquim Caetano da Silva, nomeado
por decreto de 26 de junho de 1839, e exonerado desse cargo por decreto de 28
de novembro de 1851, quando teve a nomeação de encarregado de negócios do
Brasil na Holanda.
O terceiro reitor foi o Sr. capitão-de-mar-e-guerra
reformado e lente da Academia de Marinha jubilado José de Sousa Correia. O
decreto de 28 de novembro de 1851 marca a data da sua nomeação, e o de 28 de
julho de 1855 a da sua demissão, que obteve a pedido.
O quarto e último reitor do Imperial Colégio de Pedro II foi
o Sr. Dr. Manuel Pacheco da Silva, nomeado por decreto de 28 de julho de 1855.
Como, porém, entrasse em exercício a 10 de setembro seguinte, serviu de reitor
desde 28 de julho até aquela data o professor Sr. Jorge Furtado de Mendonça.
O decreto de 24 de outubro de 1857 dividiu o Imperial
Colégio de Pedro II em internato e externato, tendo cada uma destas casas
colegiais o seu competente reitor. Assim, pois, ficou ocupando esse cargo no
externato o mesmo Sr. Dr. Manuel Pacheco da Silva, e foi nomeado reitor do
internato, por um decreto de fevereiro de 1858, o Sr. Dr. Joaquim Marcos de
Almeida Rego, que presidiu à criação do estabelecimento, e ainda atualmente o
dirige.
Têm sido vice-reitores do Imperial Colégio de Pedro II os
srs.
padre José Inácio de Carvalho Freitas, de 29 de abril de
l838 a 29 de julho seguinte, servindo interinamente.
Padre Leandro Rebelo Peixoto e Castro, de 28 de agosto de
1838 a 30 do mesmo mês de 1839.
Frei Rodrigo de S. José da Silva Pereira, de 6 de março de
1840 a 25 de abril de 1853, dia em que faleceu.
Frei Luís da Conceição Saraiva, nomeado interinamente para
servir no impedimento do precedente, e depois efetivo até 28 de junho de 1855.
Jorge Furtado de Mendonça, nomeado interinamente a 28 de
junho de 1855, entrou logo em exercício residindo no colégio até à posse do
novo reitor, o Sr. Dr. Manuel Pacheco da Silva, e sendo, enfim, exonerado a
instâncias suas.
Frei José da Purificação Franco, nomeado por decreto de 18
de setembro de 1855.
A reforma do colégio, em 1857, determinou a necessidade de
dois vice-reitores. O Sr. Frei José da Purificação Franco passou a ocupar a
vice-reitoria do internato, e o Sr. Jorge Furtado de Mendonça, cuja nomeação,
aliás, não foi apresentada, serviu de vice-reitor nos exames de 1858, e
conseguiu a sua exoneração por decreto de 1º de novembro de 1859.
É hoje vice-reitor do externato o Sr. cônego Félix Maria de
Freitas Albuquerque, nomeado por decreto de 2 de setembro de
1859.71
Cumpre que me deixem tomar fôlego. Este passeio foi longo e
árido. Adio, portanto, o mais que tenho a dizer a respeito do Imperial Colégio
de Pedro II para um último passeio, que principiará no externato e irá acabar
no internato. Até breve.
VIII
Já têm sido muitos os nossos passeios ao Imperial Colégio de
Pedro II. Estou ansioso por chegar ao fim deles e, portanto, sem mais
preâmbulos, vou prosseguir, e agora ainda mais rapidamente, na descrição, que
deixei interrompida, do pavimento superior do externato.
Voltemos sobre os nossos passos, e passando outra vez pelo
corredor onde vem acabar a escada da portaria, sigamos para o lado oposto
àquele que acabamos de visitar.
Temos aqui logo junto da escada uma sala que deita duas janelas para o segundo pátio do colégio, e que serve atualmente de secretaria deste e do Instituto Comercial.
Contígua a esta sala estende-se um salão com quatro janelas
para aquele mesmo pátio exterior, e três outras para o pátio interior do
colégio. Servindo até 1857 de dormitório para os alunos internos e de sala de
exames no fim dos anos letivos, este espaçoso salão está hoje ocupado pelo
Instituto Comercial, e também nele se fazem os concursos e exames para o
magistério público e particular de instrução primária e secundária, assim como
os exames anuais dos alunos do externato, que são muitas vezes honrados com a
presença de S. M. o Imperador.
Entra-se pelo fundo deste salão para um corredor que abre
sete janelas para o pátio interior do colégio, e que se comunica com as
seguintes salas:
Primeiro, e por uma de suas extremidades, com o vasto salão
em que se celebra a distribuição dos prêmios e colação do grau de bacharel.
Segundo, com uma sala chamada do retrato, porque nela existe
um retrato do Imperador. Nesta sala se reúne o conselho diretor de instrução
pública, e também nela se celebram as congregações dos professores.
Em seguida a esta sala, há um pequeno corredor que vai ter a
um quartinho com escada para o forro do edifício, e logo depois há uma escada
por onde se desce para o refeitório.
Terceiro, com cinco salas sucessivas, tendo cada uma duas
janelas para a Rua da Prainha. As quatro primeiras destas salas serviam
dantes para o estudo dos alunos nas horas de silêncio. A quinta era a
enfermaria.
O grande corredor termina abrindo uma porta para um pequeno
quarto, e outra em frente da do dormitório, dando entrada para um extenso salão
com seis janelas para o pátio interior do colégio, salão que servia também de
dormitório, e no fim do qual uma escada o separa do salão chamado da música,
que aliás já visitamos.
Atualmente existe uma parede de tabique, levantada logo além
da escada do refeitório, e essa parede divide em dois o grande corredor. As
cinco salas e o salão seguinte estão destinados à habitação do reitor do
externato.
Não posso continuar a descrição que vou fazendo da casa do
externato do Imperial Colégio de Pedro II, sem libertar-me da lembrança de uma
travessura de estudantes.
Mostrei-vos ainda há pouco o quartinho que tem uma escada
para o forro do edifício.
Esse forro não tem separações, é um vão imenso, tenebroso, e
em alguns pontos de altura muito irregular. É um mundo, em cujo seio caberia
mais gente do que na platéia do Teatro Lírico ou no Teatro Provisório,
esse monstro de arquitetura que se tem perpetuado provisoriamente.
Em certo ano, que não foi muito depois de 1849, notaram os
inspetores do colégio que nas horas de recreio diversos alunos conversavam em
português, em voz alta e sem mistério, mas de um modo que eles não podiam
compreender.
Os rapazes falavam da cidade de Roma como se nela tivessem
estado pouco antes. Marcavam a situação de praças e de ruas a que iam dando
nomes de heróis e de heroínas da história romana. Preveniam-se uns aos outros
de que no meio da Rua Tarquínio havia um despenhadeiro, de que na travessa de
Nero se expunha a dar cabeçadas quem não passasse com cuidado, de que na praça
de Graco ou na Rua do Tibre se podia andar perfeitamente.
Os inspetores viam-se perdidos no labirinto daquelas ruas e
praças desconhecidas.
Ao mesmo tempo, recebeu o reitor participação de que certos
alunos internos gazeavam nas aulas, e que depois apareciam de súbito sem se
poder descobrir onde se tinham escondido. O velho porteiro Babo jurava por
todos os santos que nenhum aluno interno saía nem entrava pela portaria sem
licença.
O abuso repetia-se. A polícia do colégio pôs-se em
atividade, e afinal conseguiu ver um aluno interno descendo furtivamente do
forro pela escada do quartinho.
Estava descoberta a cidade de Roma.
O reitor impôs segredo à sua polícia, e no outro dia,
dando-se por falta de alguns alunos nas aulas, mandou ele trancar a porta da
escada do quartinho, e ficou à espera do resultado da peça que pregara aos
gazeadores de aulas e viajantes do forro.
Acabadas as aulas, a sineta tocou a recreio, e como por
encanto, apareceram todos os alunos internos, sem faltar um só.
Mas positivamente quatro deles tinham ido passear à cidade
de Roma.
O reitor fingiu que se deixava enganar. Dobrou de
vigilância. Cercou de espiões os gazeadores, e enfim, ao cabo de dois dias,
achou-se na escada da torre a saída misteriosa por onde os rapazes desciam do
forro e onde foram apanhados em flagrante delito.
Nesta história, o que há de mais curioso é que alguns dos
alunos internos possuíam um estudo completo e muito minucioso da topografia do
país do forro, e a mais esmerada planta da sua cidade de Roma, que estava toda
dividida em ruas, praças e ladeiras, e por onde eles passeavam perfeitamente no
meio da escuridão.
Um desses amantes daquela cidade de Roma é hoje um mancebo
notável por sua bela inteligência e por sua instrução.
Quando entramos no longo corredor, para o qual se abrem não
menos de nove salas, apontei-vos o salão dos prêmios. Não vo-lo descrevi,
porém, cumprindo-me por isso fazê-lo agora que estou aqui a despedir-me do
externato.
Para aquele salão entra-se por duas portas. Uma que o
comunica com um pequeno quarto que o separa do corredor, e outra que o comunica
com a sala do retrato.
O salão tem cento e sessenta e nove palmos de cumprimento
sobre trinta e três de largura. Lança por um lado oito janelas para a rua da
Prainha e seis para o segundo pátio do colégio, e tem no fundo dois quartinhos,
o da direita com uma janela para a Rua da Prainha, e o da esquerda com uma
janela para a Rua da Imperatriz.
Este vasto salão servia, durante o correr do ano, de
dormitório para os alunos internos, e hoje serve de sala de estudo, sendo, como
disse, destinado para a solenidade da distribuição dos prêmios e da colação do
grau de bacharel no fim dos anos letivos.
Esta solenidade é grave, tocante e animadora, e sempre tem
sido honrada com a presença de Suas Majestades Imperiais. Começa pela
distribuição dos prêmios, que os alunos recebem da mão augusta do Imperador.
Até o ano de 1854 eram três os prêmios, e havia ainda mais
duas menções honrosas, constando aqueles de livros clássicos ricamente
encadernados, e recebendo o aluno merecedor do primeiro prêmio uma coroa de
louro e café com que o Imperador lhe cingia a fronte.
O regulamento de 1855 reduziu os prêmios aos seguintes:
Primeiro: um livro de encadernação dourada e uma coroa
entretecida de louro e café.
Segundo: um livro de igual encadernação.
Terceiro: um livro de encadernação menos rica.
As menções honrosas desapareceram, portanto. Mas, em lugar
delas, eram proclamados os nomes dos alunos aprovados com distinção.
O regulamento de 1857 conservou os três prêmios, consistindo
todos em livros de encadernação dourada. Acabou com a coroa de louro e café,
manteve a disposição pela qual o reitor proclama os nomes dos alunos aprovados
com distinção.
As cerimônias da colação do grau de bacharel, que tem lugar
imediatamente depois da distribuição dos prêmios, são ainda as mesmas que
dantes se observavam, e de que já dei conta, quando tratei da legislação do
Imperial Colégio de Pedro II.
Completam esta bela solenidade um discurso lido pelo
professor de retórica e os hinos e as harmonias de uma orquestra dirigida pelo
professor de música.
Eis aqui o número dos bacharéis que até o ano de 1860 nos
tem dado o Imperial Colégio de Pedro II, em 1843, oito; em 1844, cinco; em
1845, onze; em 1846, seis; em 1847, oito; em 1848, dez; em 1849, trinta e dois;
em 1850, dezoito; em 1851, vinte e um; em 1852, quatorze; em 1853, vinte e
dois; em 1854, quatorze; em 1855, oito; em 1856, onze; em 1857, cinco; em 1858,
doze (sendo dez do externato e dois do internato); em 1859, seis do externato;
em 1860, dez (sendo seis do externato e quatro do internato). Ao todo, 221
bacharéis.
Nada mais tenho que acrescentar ao que deixo escrito a
respeito do externato do Imperial Colégio de Pedro II. Partamos, pois, para o
internato.
Os carros nos esperam, meus bons companheiros de passeio.
–
Os carros?
–
Pois, que dúvida! Da cidade ao Engenho Velho há perto deuma légua de caminho, e
não é agradável fazer semelhante viagem a pé.
–
Mas então, como se arranjam os professores que devem irao internato de doze a
quatorze vezes por mês? O governo paga-lhes as despesas da viagem?
–
É verdade. Mas de um modo muito engraçado. O governocalculou que, fazendo-se
tal viagem em ônibus ou nos carros da Tijuca, gastaria cada professor 1$ na ida
e volta. Como, porém, é muito liberal, concedeu 2$ de ajuda de custo para cada
viagem de ida e volta aos professores.
–
Ah! o dobro! Ainda bem.
–
Sim, o dobro. Mas o governo esqueceu que não há ônibusnem carros da Tijuca a
todas as horas, e que, si os professores os têm para a ida, ficam sem eles para
a volta.
–
E, portanto...
–
E, portanto, gasta cada um professor de 5$ a 7$ em cada viagem, e assim lá se
vai em tílburi ou em carro, além da ajuda de custo, quase toda a gratificação
mensal que percebem no internato!
E o mais interessante é que, quando um professor deixa de
dar aula, perde a gratificação correspondente ao dia em que faltou, e também
perde a ajuda de custo. Somados, porém, estes dois prejuízos, ficam eles ainda
muito aquém da despesa que se faz com a viagem. De modo que o professor ganha
mais dinheiro não indo ao colégio do que ganha quando comparece nele, o que
chegaria a fazer supor que o governo paga a excita os professores do Colégio de
Pedro II para não irem ao internato.
Esta inocente e brevíssima conversação que acabo de ter com
os meus companheiros de passeio fez-nos passar, sem que o sentíssemos, além de
casa de correção e do bairro de Mata-porcos. O resto da viagem é
tão agradável, que não precisa ser conversada. O nosso carro vai rodando pela
Rua do Engenho Velho, e portanto, por entre jardins.
Eis-nos chegados. Aí está junto do pontilhão a antiga cruz
de pau com a sua caixinha das almas, que um vigário da freguesia do Engenho
Velho mandou ali levantar para recolher as esmolas dos fiéis que passassem.
Dobramos para a Rua de S. Francisco Xavier, e encontramos o
internato na primeira chácara que nos fica à mão esquerda.
O internato está estabelecido na antiga chácara do Mata, e
tem ao lado direito uma casa de secos e molhados, verdadeira e completa venda
da roça, e ao lado esquerdo a matriz da freguesia do Engenho Velho. E (que
vergonha!), a casa de secos e molhados ou a venda da roça, apesar de velha e
feia, se apresenta em estado muito menos lamentável do que a igreja, que se
acha tão arruinada que entrar nela é já um perigo, e manter ali o culto divino
é uma indecência.
A frente da chácara em que se estabeleceu o internato é
defendida por um muro que sustenta uma gradaria de ferro. No centro, abre-se em
par um portão também de ferro.
No meio de uma área espaçosa e ornada de algumas árvores que
oferecem aprazível sombra levanta-se a casa do internato, que consta de dois
pavimentos. Ao lado esquerdo desta, vê-se uma outra de um único pavimento, e
que foi mandada construir pelo governo para habitação do reitor.
Previno-vos desde já que não encontrareis aqui as
disposições vastas e apropriadas que vimos no edifício do externato. Mas a
razão é simples. Lá, temos uma casa construída de propósito para o mister, em
que continua e continuará a ser empregada. Aqui, aproveitou-se o que se achou
em uma casa particular, e a que se tem ido adicionando novos cômodos, que aliás
ainda não são suficientes.
O edifício do internato apresenta de frente no pavimento
inferior duas portas nas extremidades, uma no centro e quatro janelas. E no
superior sete janelas com sacadas de ferro.
O pavimento superior é assobradado, e sobe-se para ele por
escadas de pedra que não vão além de três degraus.
Na extrema direita está a portaria, pequena sala que tem
para fora a porta da entrada e uma janela; ao lado esquerdo outra porta que se
comunica com a sala da capela; do lado oposto, primeiro uma janela e depois a
escada principal para o pavimento superior, e ao fundo outra porta que abre
para um corredor, seguindo o qual deixam-se à mão direita dois quartos, e
encontra-se um outro corredor que forma com este um ângulo reto.
O novo corredor divide o pavimento em duas partes, mas
incompletamente. Para a frente abre três portas para uma sala espaçosa, que era
dantes um dormitório, e é agora a capela provisória do internato, tendo no seu
altar a imagem de S. Joaquim, que é a mesma da antiga igreja de S. Joaquim na
cidade. Esta sala comunica-se de um lado por uma porta com a saleta da
portaria, do outro lado por outra com um dormitório, onde chegaremos em breve,
e abre para a frente uma outra porta e duas janelas. A capela é tão simples e
modesta como decente.
O corredor não divide o pavimento inferior completamente em
duas partes, porque vai acabar diante da porta de uma bela sala que se estende
da frente para o fundo, por todo o lado esquerdo da antiga casa, e abre uma
porta e janela para a frente e janelas para o lado esquerdo e para o fundo.
Esta sala serve de dormitório e admite dezesseis leitos guardada entre eles a
distância de quatro palmos. É também nela que têm lugar os exames no fim dos
anos letivos.
Indo da direita para a esquerda, a outra parte da casa que o
corredor divide contém uma excelente sala que é a secretaria do internato, e em
seguida uma saleta ou largo e curto corredor, onde está o livro do ponto;
depois, uma outra saleta que se transformou em dois quartos destinados a
servirem de prisão para os alunos que essa pena merecem.
E enfim, uma segunda escada para o pavimento superior.
Da saleta do livro do ponto desce-se para uma varanda com
teto de zinco sustentado por varões de ferro, que cerca pela frente e pelo lado
direito um pátio quadrado a que prometem encher de deleitosa sombra doze jovens
e viçosas astrápeas.
Ao lado direito do pátio comunicam-se com a varanda cinco
salas, das quais as quatro primeiras são destinadas para as aulas, estudos nas
horas de silêncio, e também para recreio dos alunos. E a última é uma das da
rouparia.
No fundo, o pátio termina diante de três salas. Uma, que é a
segunda da rouparia, outra que é a sala de aula, e a terceira que serve de
despensa.
Do lado esquerdo do pátio há uma boa sala de aula, e além
desta a do refeitório, que tem 96 palmos de comprimento sobre 34 de largura, e
separa-se do pátio por uma elegante varanda de arcaria.
No pavimento superior há três salas na frente. A da extrema
direita é a enfermaria, a do centro um dormitório que admite dezenove leitos, e
a do lado esquerdo é da habitação do vice-reitor. Das janelas destas salas os
olhos do observador enlevam-se, contemplando um quadro magnífico da natureza,
já um pouco embelecido pela mão do homem. À mão direita vêem-se montes
soberbos, na frente e à esquerda um espaçoso vale semeado de jardins, casas de
campo e outeiros graciosos.
Um corredor se estende pelo meio do pavimento superior, abre
portas para as salas da frente, e para o fundo se comunica com uma outra sala
de dormitório, que contém doze camas. Deste dormitório, enfim, passa-se para um
espaçoso salão que se estende pelo lado esquerdo do pátio, e que tem cento e
quarenta e um palmos de comprimento sobre cinqüenta e dois de largura.
Este salão é um dormitório que admite setenta leitos.
Na grande área que cerca o edifício vêem-se ao lado direito
deste todas as disposições necessárias para os trabalhos da ginástica.
Agora que concluí tudo quanto me pareceu necessário
descrever no edifício do internato, terminarei este passeio com algumas breves
considerações.
Tratando do externato, falei em geral do Imperial Colégio de
Pedro II, e o que neste sentido referi aplica-se também ao internato.
Os alunos do internato, recebendo a sagrada imagem de S.
Joaquim da antiga igreja do colégio, ficaram possuídos da justa e louvável
devoção que desde o século passado excitava este velho e santo patrono, e
anualmente o festejam com o possível brilhantismo, sendo muito concorrida a
festa que se celebra em honra dele no internato.
Descrevendo o edifício que acabamos de visitar esqueceu-me
dizer, e era preciso fazê-lo, que não somente todas as salas do pavimento
inferior que cercam o pátio pelos lados direito e esquerdo e pelo fundo, mas
ainda o grande salão do pavimento superior, foram construídos de 1857 a 1860 à
custa do governo, que deu assim mais algumas proporções à casa insuficiente em
que se estabeleceu o internato.
As novas obras têm sido executadas com habilidade,
harmonizando-se tanto quanto é possível com a casa que se achou feita e
adaptando-se ao fim para que elas se destinam.
São já por certo notáveis os melhoramentos. Entretanto, é
indispensável que ainda muito mais se faça, e depressa.
Ora, infelizmente depressa, ou ao menos a tempo, quase nada
se executa no Brasil.
Desde 1858 se observa que muitos meninos que pedem para
serem admitidos no internato ficam sem conseguir o que desejam, por falta de
acomodações no estabelecimento.
Nos últimos meses de 1860, a imprensa da capital bradou pela
necessidade de se darem maiores proporções ao edifício do internato, e lembrou
ao governo a conveniência de se aproveitar o tempo das férias, dois meses, para
se adiantarem as obras necessárias.
O governo reconheceu a procedência e justiça de tal pedido,
e os mandou ou fez começar os trabalhos para aumento do edifício do internato
depois de abertas as aulas, em 1861!
Atualmente, e chegamos ao princípio das férias de 1861, é
positivo que o internato não pode acrescentar mais um único leito nos seus
dormitórios, e que, por conseqüência, em 1862, só receberá tantos novos alunos
quantos forem os antigos que se despedirem. E o governo, que de tudo isso tem
conhecimento, o governo, que tem a certeza de que se hão de contar por dezenas
os meninos que pretenderem serem admitidos no internato, ainda não mandou dar
começo às obras que o estabelecimento reclama indispensavelmente para
corresponder ao menos por metade às justas exigências do país.
Um falso princípio de falsíssima economia tem feito com que
vão sendo executados aos poucos os trabalhos de que o internato do Imperial
Colégio precisa instantemente. Em um ano, fez-se uma nova sala. No ano
seguinte, uma outra, mais tarde empreendem-se novas construções, e no fim de
cem anos se completará o que se poderia realizar em alguns meses com uma
despesa evidentemente menos avultada.
E além desse erro grave de economia, a população vai
sofrendo, e o internato é obrigado a trancar as suas portas e a despedir grande
número de meninos, para quem os pais vêm pedir o cultivo da inteligência.
A administração pública no Brasil, quando não caminha para
trás, espanta pela sua morosidade. Se escapa de ter a natureza de caranguejo,
não escapa de ter a natureza de preguiça. Pois olhem, não sei qual dos dois
animais é mais feio!
Em nome da mocidade estudiosa, eu peço ao governo que tenha
mais atividade e mais zelo, e que se lembre das obras de que indispensavelmente
carece o internato do Colégio de Pedro II.
Lembre-se ao menos o governo de que este colégio se honra
com o nome do Imperador, e de que o Imperador o distingue e protege, e não
perde uma única ocasião de manifestar o interesse que por ele toma.
Basta.
Outra vez aos carros, meus bons amigos! Voltemos de novo à
cidade, onde nos esperam outros passeios, sem dúvida mais breves e menos
monótonos do que os últimos, a que hoje ponho termo, despedindo-me do Imperial
Colégio de Pedro II.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Capela e o Recolhimento de N. S. do Parto
I
OU César ou João Fernandes. Assim diz um rifão antigo, que
com essa injustíssima e cruel antítese faz no nome e sobrenome João Fernandes
um sinônimo de nonada, como outro fez também de Manuel de Sousa um sinônimo de
tolo.
Protesto contra esses rifões revoltantes e iníquos, e comigo
protesta igualmente o Brasil, que debaixo dos pontos de vista da política e da
administração, tem sido elevado às grimpas por não sei quantas dúzias de Joões
Fernandes e Manuéis de Sousa que se resolveram a felicitá-lo.
Mas, pela minha parte, não me limitarei a protestar; antes,
estou firmemente disposto a provar com a lógica irresistível dos fatos a
injustiça daqueles rifões. É um serviço que desejo prestar aos estadistas das
dúzias de que acima falei, e dou parabéns à minha fortuna, porque já no meu
passeio de hoje encontrarei logo ao encetá-lo um João Fernandes, que no Rio de
Janeiro se tornou recomendável por uma ação meritória.
Naturalmente hei de nos meus passeios esbarrar mais tarde
com algum Manuel de Sousa merecedor de elogios, e ficará por esse modo fundada
com a necessária solidez a glória da maior parte dos estadistas de minha terra.
Apesar deste meu empenho há de o passeio de hoje ser feito a
galope. Os meus companheiros não se arrepiem com a palavra que acabo de
empregar, por nos acharmos todos a pé. Aquele substantivo cavalar ficou
definitivamente humanizado desde que nos bailes e nos salões mais elegantes
galoparam noites sem conta homens tão sábios como a enciclopédia, e senhoras
tão delicadas e mimosas como as violetas e as pumilas.
Passearei, pois, a galope, e é indispensável que o faça,
porque, se a custo achei quem me perdoasse o vagar com que passeei por um
convento de frades, pela igreja dos padres e por um colégio de meninos e
rapazes, não haveria quem me absolvesse e não fizesse maus juízos de mim, se eu
procedesse do mesmo modo hoje que, visitando uma das nossas antigas capelas,
terei de penetrar também em um recolhimento de mulheres sem voto, por
conseqüência, recolhimento inflamável e tão inflamável que até houve uma noite
em que chegou a incendiar-se.
Eia, pois, meus companheiros de passeio, a galope! Vamos ou
pela Rua do Parto, dantes tão famosa pelas excelentes balas que tomaram
dela o nome e pelos cupidos de alfenim que ali se vendiam, ou pela Rua da
Ajuda, célebre pela poderosa Floresta (casa assim chamada) onde se planejou o
golpe de estado de 30 de julho de 1832, que felizmente abortou, ou pela
Rua de S. José, que nos lembra as primeiras campanhas da homeopatia na cidade
do Rio de Janeiro, ou enfim, pela Rua dos Ourives, onde quase não há mais ourives.
Vamos chegar à capela de N. S. do Parto.
Façamos de conta que viemos pela primeira daquelas ruas. Eis
aí a capela, não duvideis. A verdade nem sempre é verossímil. Podeis acreditar
que estais diante da pequena igreja de N. S. do Parto.
Reconheço a procedência e o justo fundamento das vossas dúvidas. Este casarão que temos à vista pode muito bem não parecer capela ou igreja a quem ainda não ouvisse dizer que o é alguma pessoa insuspeita e digna de crédito.
A capela apresenta aos olhos do observador duas faces. Uma,
que se levanta na extrema da rua dos Ourives, indica no edifício a existência
de três pavimentos que abrem para o exterior, os dois superiores cinco janelas
de peitoril cada um, e o térreo apenas alguns respiradouros com grades de
ferro. Liga-se esta face à outra que se estende na direção da rua do Parto, e
que é rasgada por duas portas, a primeira abrindo para o corpo da igreja, e a
segunda ladeada de janelas defendidas de alto a baixo por grades de ferro, que
é a da sacristia. Na parte superior deste lado do edifício mostram-se quatro
grupos de janelas, tendo o primeiro quatro de peitoril, duas superiores e duas
inferiores, o segundo duas de peitoril, o terceiro outras duas com grades de
varões de ferro, o quarto três mais juntas com balcões de grades igualmente de
ferro. Os dois últimos grupos parecem pertencer a uma casa estranha ao resto do
edifício, pois que até o telhado é nesse extremo muito mais baixo. As janelas
não estão dispostas na mesma linha. O aspecto exterior da capela é triste e sem
majestade. A arquitetura não se ocupou dele nem metade de um minuto. Torre é
coisa que aí não se encontra, e o sino, escondido misteriosamente no interior
da pequena igreja, faz às vezes ouvir o seu dobre, que parte de um asilo
invisível como a voz que sai de uma gruta profunda.
A este casarão, à capela de N. S. do Parto, une-se outro que
se levanta na rua dos Ourives e chega até à da Assembléia (que ainda há poucos
anos se chamava da Cadeia), onde também oferece uma face. Consta de três
pavimentos, um térreo e dois superiores. O primeiro, além de uma portaria
ladeada de janelas, aloja diversas oficinas. Dos dois outros tem para a rua dos
Ourives o primeiro dezessete, e o segundo ou mais alto, dezoito janelas todas
de peitoril; e menos irregular para a rua da Assembléia, ambos cinco janelas
também de peitoril, menos a segunda, que, tanto em um como em outro pavimento,
apresenta um singelo parapeito de grades de ferro.
Hoje em dia, este segundo casarão serve para um mister que é
absolutamente estranho à capela de N. S. do Parto. Como, porém, tempo houve em
que se observava o contrário, e nesse casarão nos espera a lembrança de uma
história que parecera um romance, julguei conveniente aproveitar o ensejo para
fazê-lo notar.
Ficando assim descrito o aspecto exterior da capela e da
casa que a esta se prende, aproveitarei o tempo, enquanto não chega o sacristão
que nos deve abrir a porta, para contar-vos o que sei do passado desses dois
religiosos tetos.
A capela de N. S. do Parto é a piedosa filha da devoção de
um João Fernandes, habitante da cidade do Rio de Janeiro, homem pardo, natural
da ilha da Madeira, o qual, depois de levantá-la no ano de 1653, ornou os seus
altares e manteve zeloso o seu culto.
E, note-se bem, este João Fernandes não se lembrou de pedir,
nem de esperar que por tão boa ação o rei de Portugal, que então era D. João
IV, lhe mandasse nem hábito, nem comenda de ordem alguma. Contentou-se o pobre
homem com as glórias da sua opa, o que pode muito bem servir de lição àqueles
que no nosso tempo apenas acabam de assinar algumas dezenas de mil-réis, ou de
prestar algum serviço para uma obra pia, ou de interesse público, ou de
manifestação patriótica, vão logo calculando e sonhando com a tetéia que devem
ganhar por isso, e dão aos diabos a caridade e o patriotismo, quando não ganham
aquilo a que aspiram.
A morte do bom João Fernandes não arrefeceu o ardor dos
devotos de N. S. do Parto, em cuja capela organizaram-se irmandades e foi
exercida uma santa hospitalidade, como o podem testemunhar S. Jorge e S. Pedro.
S. Jorge, que até algum tempo depois de 1753 ali se conservou tranqüilo e
venerado, e que antes houvesse ficado sempre debaixo daquele teto benéfico,
porque assim não passaria pelo desgosto de lhe deitarem a casa abaixo, como há
bem poucos anos aconteceu para grande vergonha da sua irmandade, que não soube
regenerá-la. S. Pedro, que em 1705 ali se foi hospedar, quando S. José, ou por
ele a competente irmandade, sem a menor cerimônia o despediu da sua igreja.
No século XVIII ajuntou-se à capela de N. S. do Parto um
notável apêndice que modificou não pouco a sua vida suave, modesta e sossegada.
Estêvão Dias de Oliveira deixara por sua morte uma avultada
soma para se distribuir em benefício de sua alma, depois de satisfeitos alguns
legados que dispusera.
Ah! Que regalo! Que mina de caroço para certos
testamenteiros da nossa época! Mas o bispo D. Frei Antônio do Desterro,
fazendo-se então testamenteiro do legatário, e vendo cumpridas as disposições
por este especificadas, aplicou, obtido para isso, o breve pontifício, mas de
quarenta mil cruzados que ainda tinham ficado à fundação de um recolhimento
para asilo de mulheres não virgens que, deixando a perversidade do século,
fossem ali reformar os costumes repreensíveis, trocando-os por santo e regular
comportamento.
No ano de 1742 foi lançada a primeira pedra do
estabelecimento, que em breve se mostrou pronto para receber e guardar não
poucas arrependidas.
Mas não foram somente arrependidas que para o novo asilo
entraram.
Duas classes de reclusas o povoaram. A primeira foi composta
de algumas velhas e matronas, umas fugindo cansadas dos enganos do mundo,
outras desprezadas pelo mundo delas cansado. Eram as recolhidas voluntárias. A
segunda constou de senhoras casadas e moças solteiras obrigadas a retirar-se
para essa reclusão em castigo de faltas cometidas ou de supostas faltas, e em
punição de desobediência à vontade de seus pais.
Tratarei deste estabelecimento em relação ao segundo fim a
que foi destinado. Esquecerei as recolhidas voluntárias, que estavam no seu
direito, divorciando-se e separando-se do mundo. Faziam muito bem em
esconder-se de um mundo de que não gostavam e que provavelmente já não gostava
delas. O que vou dizer não se entende, pois, com as voluntárias.
A segunda classe das recolhidas terá quase exclusiva menção
neste passeio, que vai tocar muito de perto nos direitos e na causa social do
sexo feminino.
Creio que não havia inconveniência em obrigar a amar
exclusivamente a Deus uma senhora casada que tivesse amado demasiadamente a um
próximo que não era seu marido. Parece, porém, que alguns lamentáveis abusos
misturaram no recolhimento esposas inocentes com esposas culpadas.
Sobretudo, julgaram as senhoras que era uma iniqüidade
estabelecer-se uma reclusão para as esposas infiéis, onde não havia reclusão
para os esposos infidelíssimos.
Devemos todos acreditar que o pensamento do bispo que fez
construir aquele recolhimento era piedoso e santo. Mas certo é que os homens se
aproveitaram do asilo para atormentar como acabo de dizer, algumas inocentes, e
castigar algumas culpadas senhoras, que por isso rogaram pragas ao velho e
venerando prelado.
O bispo denominara acertadamente o asilo que levantara
recolhimento de N. S. do Parto. As senhoras, porém, em suas conversações
particulares, davam-lhe o nome de recolhimento do Desterro, não porque Antônio
do Desterro se chamasse o prelado, mas porque um desterro foi considerado por
elas aquele asilo.
E não eram somente as senhoras casadas que maldiziam do
recolhimento, também as solteiras antipatizavam com ele, pois, sofismado o fim
para que se criara o asilo, encerravam-se ali meninas e moças ainda não casadas
a pretexto de irem receber no piedoso retiro educação moral e religiosa.
É preciso dizer que o bispo D. Antônio do Desterro foi
sempre pouco simpático ao belo sexo, e carregou com as culpas dos abusos a que
deu lugar o recolhimento do Parto.
Explicarei os motivos dessa falta de simpatia, e aposto que
ainda atualmente as senhoras hão de achar muita razão às suas antepassadas.
D. Frei Antônio do Desterro, prelado distinto por suas
virtudes e sabedoria, e pelo seu zelo, era tão simples e humilde que, vestido
sempre de monge, conservava também a coroa regular, conformando-se com o mesmo
rito no ofício divino. Severo consigo, justo, mas compassivo com todas as suas
ovelhas, ativo fiscalizador do proceder dos párocos, mantenedor do culto,
benfeitor das igrejas e conventos, e especialmente da mitra fluminense, que lhe
deve, além de outros legados, o da chácara do Rio Comprido, que todos conhecem
pelo nome de Chácara do Bispo, caiu, apesar de tudo isso, no desagrado das
senhoras por um pecado de mau gosto e por um pecado de rabugem.
O pecado de mau gosto foi cometido pelo bispo, quando
proibiu que aparecessem nas procissões da quaresma os penitentes de açoites e
outras figuras que tornavam mais divertido o espetáculo religioso. Os
penitentes de açoites, sobretudo, trajando ricos vestidos e açoitando-se ou
fingindo açoitar-se, davam muitas graças às procissões, apraziam às senhoras, e
o prelado teve a idéia infeliz de acabar com aquela variedade de
entretenimento.
O pecado de rabugem foi pior ainda. O bispo proibiu, sob
pena de excomunhão maior, que os homens se reunissem nos adros e às portas das
igrejas para verem entrar e cortejarem as belas devotas. Que estas falassem e
conversassem com os homens nestes lugares. E que, enfim, fossem as senhoras às
igrejas por qualquer motivo desde o tanger da Ave-Maria até à hora matutina,
excetuando-se desta última proibição unicamente as pobres que concorressem às
missas e confissões de madrugada.
Não discutirei a procedência das acusações que as senhoras
faziam ao velho bispo, e pelas quais o consideravam rabugento e impertinente.
Certo é, porém, que os abusos de que algumas foram vítimas depois da fundação
do recolhimento de N. S. do Parto deram até certo ponto justificado fundamento,
não ao seu ressentimento contra o prelado, mas à sua inimizade ao asilo.
Se o piedoso e santo recolhimento abrisse as suas portas
somente àquelas senhoras que voluntariamente fossem procurar o religioso
retiro, não havia que dizer, ao menos naquele tempo. Se, além de recolhimento
de velhas arrependidas, desvirtuado embora o pensamento que presidira à sua
fundação, servisse para receber e educar meninas e jovens, havia muito que
louvar, uma vez que a educação fosse ali bem dirigida. Mas o asilo que se
levantara foi mais do que isso, foi uma terrível ameaça de pedra e cal, tornou-se
em uma espécie de casa de correção feminina, em uma espécie de cadeia que fazia
medo não só às más esposas como às esposas de maus maridos, e também às moças
solteiras filhas de pais enfezados, cabeçudos e prepotentes.
Realmente era uma questão muito grave que se decidira contra
o belo sexo à custa dos mil cruzados do finado, Estêvão Dias de Oliveira.
Naquele tempo (no bom tempo), em grande número de casos o
marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com
quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e
noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo
e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras da
aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava
resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se
tivessem visto, e realizava-se o casamento.
Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática
pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres
vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros
purgatórios nas vidas que passavam muitos casais.
Está visto que era a mulher, o ente passivo, a senhora
escrava, quem mais tinha de sofrer em tais circunstâncias sociais, e, sem o
pensar, veio o bispo D. Antônio do Desterro acrescentar mais um tormento para
as vítimas e as culpadas, fundando o recolhimento do Parto.
Em um ou outro caso, sempre por exceção, acontecia que
alguma jovem mais esperta ou mais sonsinha chegava a amar algum mancebo sem
licença do papai ou da mamãe, e tinha por isso a audácia de resistir ao projeto
de casamento ajustado por estes com outro e sem consultá-la, vendo-se por isso
condenada à prisão em um quarto escuro, jejuns de pão e água, e às vezes a
castigos muito mais cruéis.
Mas os gemidos da vítima chegavam a incomodar os pais, e até
a comover-lhes os corações. O recolhimento do Parto foi, portanto. um excelente
recurso, e nele tiveram de entrar algumas donzelas desobedientes que se
supunham com o direito de escolher maridos.
Acontecia às esposas ainda pior que às filhas. Umas porque
realmente mentiam à fidelidade conjugal, outras porque, embora inocentes, eram
aborrecidas por maridos indignos que se fingiam ultrajados na sua honra para se
livrarem das pobres mulheres. Lá iam em castigo das faltas cometidas, ou sob
pretexto de amores impuros, fazer penitência e corrigirem-se da perversidade do
século no recolhimento do Parto.
Escusado é dizer que eu me refiro aqui somente aos pais
prepotentes e testos, e aos maridos infelizes ou desmoralizados, sendo verdade
que, apesar desses rudes e grosseiros costumes da sociedade dos séculos
passados, muitos eram os casais que se felicitavam pela virtude e também pelo
amor, e também não poucos os pais que não se ensurdeciam à natureza para serem
opressores de seus filhos.
Entretanto, estas exceções não destruíam a regra que
proviera daquela rudeza de costumes e da educação mais do que austera, quase
bárbara, da sociedade daqueles tempos de despotismo do governo do Estado, e
despotismo do governo das famílias.
Abusou-se, pois, não pouco, e certamente, como era de
prever, do recolhimento do Parto, que se tornou um espectro ameaçador para
muitas senhoras, e uma arma de prepotência e de disciplina doméstica para os
homens.
Não havia fervura de briga de mulher com marido que não se
abatesse com o encanto das terríveis palavras – “Olha o recolhimento do Parto!”
O marido voltava para casa depois da meia-noite sem explicar
o motivo da sua ausência, via sem receio descoberto o segredo das suas
infidelidades, negava à mulher um vestido novo para a festa de S. Sebastião,
contrariava-lhe os desejos, zombava do seu amor, e se a vítima desprendia a voz
e dava princípio a uma tempestade doméstica, o nobre Adão, sem se exaltar, sem
se afligir, murmurava apenas – “Olha o recolhimento do Parto” – e a pobre Eva
caía fulminada, quando não corria a abraçar o marido.
A idéia do bispo D. Antônio do Desterro tinha sido,
portanto, aproveitada com admirável habilidade pelos maridos, e com razão
condenada e aborrecida pelas senhoras, que maldiziam do prelado e teimavam em
chamar o asilo – recolhimento do Desterro.
Eu vou contando estas coisas sem o mais leve temor de
acender empenhos de imitação do passado, porque a nossa atual sociedade
contrasta absolutamente com a dos dois séculos anteriores. Não duvido que haja
maridos a quem sorrisse o pensamento da restauração do recolhimento do Parto.
Nenhum, porém, se lembraria de falar em tal. Pois hoje em dia fora mais fácil
estabelecer um asilo onde as senhoras casadas prendessem os maridos do que
ressuscitar a antiga providência.
Mas no reinado do século décimo oitavo ainda não se falava
em emancipações das mulheres. Ainda não havia no Rio de Janeiro casas de
bailes, nem teatro de S. Pedro de Alcântara, nem companhia italiana, nem
a rua do Ouvidor anunciava as ricas lojas de modas, o poder e a influência
dominadora do belo sexo.
Os maridos eram senhores ainda, e acharam tão sublime o
recolhimento do Parto, que chegaram a reputá-lo insuficiente. E como não
tivesse morrido mais algum Estêvão Dias de Oliveira, realizou a favor deles um
vivo obra igual à que se tinha feito com o legado de um defunto.
Manuel da Rocha, e outros que a ele se reuniram, fundaram em
1764, junto à matriz da freguesia de S. Sebastião de Itaipu (ou Itaipuig) outro
recolhimento, sob a dedicação de Santa Teresa, para mulheres a quem agradasse o
retiro do século, ou a quem algumas circunstâncias obrigassem a ir habitá-lo
por castigo de culpas. O edifício depressa ficou pronto, começou logo a ser
povoado, e...
Eu peço aqui toda a atenção das senhoras que porventura
fazem a honra de acompanhar-me também no meu passeio.
E Manuel da Costa, o principal fundador do recolhimento de Itaipu, recebeu desde então o título grandioso de Protetor do Bem Comum!
Como o chamaram pela sua parte as senhoras, não sei. Mas sou
capaz de jurar que foram os maus maridos que inventaram aquele título, os maus
maridos que desde 1764 puderam dizer às suas mulheres – “Olhem o Itaipu”!
No recolhimento do Parto ainda as pobres reclusas podiam por
entre as grades da sua prisão ver o povo passar pelas ruas, ver nas janelas
fronteiras e em todas as que, embora afastadas, a seus olhos se mostravam,
senhoras, talvez algumas amigas que as saudassem com os lenços, talvez algum
primo... algum mancebo muito amado que as consolassem, correspondendo-se com
elas por meio da telegrafia amorosa. Podiam ouvir o ruído das festas, e também
conversar às vezes do locutório. Mas no recolhimento de Itaipu o desterro era
completo, completa para as pobres moças a solidão.
O recolhimento de Itaipu foi prosperando. Mas à medida que
ele prosperava, decaía o de N. S. do Parto, e a tal ponto que, em 1787, tanto a
sua administração como as obras e o material da casa acharam-se no mais
lamentável abandono.
Que causas determinaram a decadência desse estabelecimento?
Disseram uns que a expulsão dos jesuítas, em 1759,
arrefecera o zelo religioso dos habitantes do Brasil, ressentindo-se disso
algumas piedosas instituições. Mas os fatos provam o contrário, e semelhante
explicação não passou da roda das velhas confessadas dos padres da companhia.
Sustentaram outros que a decadência do recolhimento proviera
da influência que exercia o belo sexo sobre o muito sensível vice-rei marquês
do Lavradio. Mas ainda aqui o erro é positivo, porque o vice-rei marquês, sem
dúvida muito apaixonado de todas as moças bonitas, e mesmo de muitas feias, era
como S. Tomás, e queria que a seu respeito se dissesse também – façam o que ele
diz e não o que ele faz.
Afirmaram, enfim, algumas senhoras que o fato era devido a
um requinte de crueldade dos maus maridos, que, para mais atormentarem as suas
mulheres, preferiam encerrá-las no recolhimento de Itaipu, esquecendo assim o
de N. S. do Parto. As senhoras, porém, eram muito suspeitas para poderem ser
imparciais juízes do caso.
O recolhimento do Parto decaiu, porque ainda não tinha
rendas suficientes, e por que administradores desmazelados e sem capacidade
deixaram que se fosse estragando a obra caridosa do bispo D. frei Antônio do
Desterro.
Eis aí a melhor e a mais segura das explicações. Falta de
dinheiro. Já viram lâmpada sem óleo conservar a sua luz? Desmazelo e
incapacidade de administradores. Não estamos vendo todos os dias os resultados
fatais de semelhante praga?
E ainda bem que para regenerar o recolhimento do Parto vão
aparecer o vice-rei Luís de Vasconcelos e o seu braço direito, o mestre
Valentim.
Mas também terá de mostrar-se, erguendo um facho de
incendiária, uma mulher que violentamente se revoltou contra aquela
instituição.
Deixai-me respirar. Contar-vos-ei esta curiosa história no
próximo passeio.
II
O vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, apesar de ter já
empreendido e adiantado diversas e importantes obras na cidade do Rio de
Janeiro, não pôde ver a decadência e a ruína em que se achavam a capela e o
recolhimento de N. S. do Parto sem sentir vivos desejos de regenerar uma e
outro.
Para Luís de Vasconcelos, o desejar precedia poucos
instantes ao querer, e o querer se satisfazia logo pelo poder, que não tardava
a mandar. E assim devia naturalmente observar-se no tempo do posso, quero e
mando, que eram as três sublimes notas da música do despotismo, que no Brasil
se cantava a compasso marcado pela mais infalível das batutas – o bastão do
vice-rei.
Demais, o enérgico sucessor do hábil marquês de Lavradio
tinha por sua vez descoberto o segredo de arranjar dinheiro, quando os cofres
estavam exaustos, e de improvisar trabalhadores, quando não havia gente para o
trabalho, como já ficou dito e demonstrado em um dos nossos passeios ao jardim
público do Rio de Janeiro.
O desejo que teve Luís de Vasconcelos de regenerar a capela
e o recolhimento de N. S. do Parto entrou, por conseqüência, em imediata
realização. O mestre Valentim acudiu à voz do vice-rei e meteu mãos à obra.
Somente um pouco desapontado por ver-se coagido a consertar e a acrescentar o
edifício velho, em vez de construir um novo, que fosse digno da sua maestria em
arquitetura.
Não me é possível marcar o dia em que começam as obras, no
ano de 1787. Contaram-me, porém, uma história que provavelmente contém
episódios inventados pela imaginação. Mas uma história a cujos fios prende-se a
inauguração daqueles trabalhos, e vai toda ela acabar na catástrofe que dois
anos depois ia destruindo completamente a capela e o recolhimento do Parto.
É claro que estou na obrigação de reproduzir aqui o romance
do incêndio do recolhimento do Parto, para não deixá-lo ficar de todo perdido
nas sombras do passado.
No momento em que terminava a cerimônia da inauguração dos
trabalhos em presença do vice-rei, passou diante da capela, vindo da igreja, e
pela rua de S. José, seguindo pela da Ajuda, o cortejo de um casamento,
constando de duas elegantes cadeirinhas em que eram levadas a noiva e a
madrinha, e do noivo, e dos parentes e amigos, que marchavam a pé.
É de regra que as noivas abaixem os olhos e procurem
esconder-se às vistas dos observadores. Mas, por exceção a essa regra, a noiva
que passava abriu as cortinas da sua cadeirinha, mostrou o seu lindo rosto e,
encarando o mestre Valentim, não pôde conter um sorriso malicioso.
A madrinha seguiu o exemplo da noiva. Abriu as cortinas,
olhou. Mas não sorriu, brilhando apenas seus olhos com uma flama ousada e
irresistível.
O cortejo foi seguindo, e Luís de Vasconcelos, que estava
perto do mestre Valentim, com quem gostava muito de gracejar, principalmente a
respeito do belo sexo, de que o feio arquiteto era famoso apaixonado,
perguntou-lhe a meia-voz:
–
Que lhe parecem aquelas moças, mestre?
–
Pelo sorrir da noiva e pelo olhar da madrinha, adivinha-seque bem posso ter
começado hoje a preparar aqui aposentos para ambas.
–
Longe vá o agouro! – disse o vice-rei, afastando-se.
No entanto, chegara o cortejo nupcial à casa onde o
esperavam o banquete e a festa.
Na sala, sentara-se a noiva ao lado da madrinha, e o
cobiçoso noivo não tardou a ir ter com elas.
–
Venho pedir-lhe contas de um sorriso – disse ele a noiva.
–
Pois já? – observou a madrinha.
–
Então? Preciso saber porque sorriu, passando em frente dacapela do Parto.
–
Ri-me – respondeu a noiva, porque achei muito apropriadoque as obras da casa
mais antipática do Rio de Janeiro fossem dirigidas pelo homem mais feio do
mundo.
–
Acha antipática, portanto, a capela de N. S. do Parto?
–
A capela não. O recolhimento, sem dúvida.
–
Mas por quê?
–
Porque é um recurso da tirania dos maus maridos.
–
Ah! Então receia que eu seja um grande tirano?
–
Também não. Revolta-me a injustiça que sofre o meu sexo.Mas, quando mesmo eu
fosse encarcerada no recolhimento do Desterro, não me conservaria aí por muito
tempo.
–
Que faria em tal caso?
–
Incendiava-o.
–
Ah! Sr. Gil Soares! – exclamou a madrinha. Tome cuidado.Veja que se casou com
uma moça do fogo.
–
Eu tenho as provas disso no meu coração – respondeu galantemente o noivo.
A conversação foi nesse ponto interrompida. Bastante, porém,
durara, para se apreciar o caráter vivo e indiscreto da noiva.
Algumas palavras agora, para esclarecimento da história.
A noiva chama-se Matilde. Não ignoro, mas entendo que devo
ocultar o seu nome de família. Contava essa moça 20 anos de idade. Tinha tido
uma educação muito mais livre do que era de costume naquele tempo. Seu rosto
era claro, regular, móbil e alegre. Seus cabelos castanhos. Seus olhos grandes,
quase pretos, e sem contestação, formosos. Era, enfim esbelta, bonita, ardente
e vaidosa.
A madrinha chamava-se Ana, e tinha o sobrenome ou alcunha de
Campista, que não tirara do nome de seu pai, nem do de seu esposo. Contava
perto de 30 anos, era alta, bem-feita, e, não podendo dizer-se bela,
mostrava-se perigosamente voluptuosa pela cor morena carregada de seu rosto,
pelo brilhantismo e audácia de seus olhos negros e por um não-sei-quê de
provocador em seus sorrisos, em seus gestos e movimentos.
Ana Campista fora trazida de uma vila do interior por
Leôncio Peres, seu pai, que viera se estabelecer com uma modesta casa de
comércio na cidade do Rio de Janeiro e que um dia lhe apresentou um seu
afilhado, Lourenço Taques, chegado uma hora antes daquela mesma vila, e
disse-lhe sem consultas nem explicações:
– O Sr. Lourenço vai ser teu marido.
Lourenço ficou espantado e Ana curvou a cabeça. A notícia
apanhara de surpresa os dois noivos, que eram quase desconhecidos.
Dito e feito. Dois dias depois, celebrou-se o casamento, a
que Ana Campista se submeteu sem murmurar, porque seu pai era o tipo da
severidade a mais violenta.
Leôncio Peres casara a filha, porque Lourenço lhe pareceu um
bom partido. Ambrósio Taques casou o filho para livrá-lo de sentar praça de
soldado. Nada mais simples.
O mestre-de-campo do distrito onde morava a família de
Lourenço achou neste mancebo disposições para guerreiro e mandou-o recrutar; e,
como o não encontrassem os seus agentes, fez trancar na cadeia da vila a
Ambrósio Taques. Mas debalde, porque o enfezado velho zombou dos gritos e das
ameaças do fidalgão mestre-de-campo, e não deu conta do filho.
No fim de dois meses saiu Ambrósio da prisão, escreveu logo
ao seu compadre Peres e, recebendo a resposta deste, foi aos matos da fazenda,
onde escondera Lourenço, e, sem dizer a este o fim a que o destinava, mandou-o
para a cidade.
Este casamento assemelha-se a muitos outros daquele tempo,
em que, por medo do recrutamento, os pais chegavam a casar meninos de 10 ou 12
anos com meninas que preferiam as bonecas aos maridos.
Entre parênteses. Não se lembrem os felizes viventes de hoje
de persignarem-se para espantar o demônio do passado.
O demônio mudou de nome, de figura e de maneiras. Mas se
recolheu ainda ao Inferno. Chamava-se mestre-do-campo e chama-se hoje aí por
fora delegado de polícia, e faz pouco mais ou menos as mesmas diabruras que
fazia dantes. Neste século e depois da constituição, já um dia prendeu para
soldado a um bacharel em direito, prende e faz assentar praça a homens casados
e a outros que têm por si isenção da lei, e que, apesar da lei recebem muito
honradamente chibatadas nos lombos.
Por conseqüência, no fundo continua o mal a ser o mesmo. A
única diferença que eu lhe encontro é que outrora o arbítrio era a verdadeira
lei, e hoje a lei é o verdadeiro arbítrio. Se não compreenderem a metafísica
desta diferença, consolem-se, porque eu também não a compreendo.
Fecho o parêntesis e continuo a história.
Lourenço Taques ficou morando na cidade, e passou em bre ve
de caixeiro a sócio da casa comercial do sogro. Mas se deixou de ter amo no
negócio, teve na vida doméstica mais do que amo: teve uma senhora despótica em
Ana Campista, que, em retribuição ao amor o mais cego e complacente do esposo
deu apenas a este o disfarce de uma indiferença que mais tarde se transformou
em desprezo, contido apenas pelo medo que ela tinha da autoridade e do
desabrimento de seu pai.
Leôncio Peres era amigo do pai de Matilde, e esta e Ana se
tornaram íntimas camaradas; e nas efusões de uma recíproca e decidida confiança
fizeram um contrato de aliança indissolúvel e perpétua.
As senhoras costumam celebrar com freqüência tais ajustes, e
os respeitam tanto como os governos os seus tratados de aliança ofensiva e
defensiva. Nestes, como em outros pontos, os governos parecem pertencer ao sexo
feminino.
Tratou-se do casamento de Matilde, e quis a má fortuna desta
que Ana Campista, encontrando o noivo, Gil Soares, por ele se apaixonasse
perdidamente. Mas, tão fementida como hábil a falsa amiga, vendo insensível aos
seus agrados provocadores porém cautelosos, o jovem, que então só parecia ter
olhos, ouvidos e coração para a sua noiva, mudou de plano, sacrificou o
presente ao futuro, e calculou que, não podendo desposar o homem que amava,
mais facilmente o tornaria seu amante depois de casado com Matilde, cuja
família tão íntimas relações entretinha com a sua. Em seguida, pois, tão
interessada se mostrou pelo casamento da incauta amiga, que esta a escolheu
para acompanhá-la ao altar.
O mestre Valentim havia, portanto, acertado no juízo que
fizera de Matilde e de Ana Campista, vendo e apreciando a malícia do sorriso de
uma e o fogo do olhar da outra.
Correram felizes e tranqüilos os primeiros meses que
sucederam ao casamento de Gil Soares.
Ana Campista contemporizara com a lua-de-mel. Não deixou,
porém, acabar o ano de noivado sem entrar em ação, e, tomando por pretexto os
ajustes que celebrara com a amiga, principiou por lançar no seio desta amargas
suspeitas de infidelidades do esposo.
A intrigante era auxiliada pelo indigno procedimento de Gil
Soares, que, libertino antes, libertino continuou a ser, e bem cedo, depois do
seu casamento.
Os ciúmes de Matilde irritaram Gil Soares. Para ambos,
tornou-se o lar doméstico um purgatório; e Ana Campista, confidente da pobre
esposa, e fazendo espiar todos os passos do marido infiel, ficou senhora dos
segredos de um e de outra.
Na véspera do dia de Natal de 1787, Matilde foi jantar com
Ana Campista, e depois da longa conferência que teve com ela, resolveu-se a
passar a noite em sua companhia, com evidente satisfação do marido, que se
despediu até ao dia seguinte, e retirou-se logo que anoiteceu.
Leôncio Peres ceou, como costumava, com o genro e a filha;
mas as 9 horas da noite, saía o velho pela porta do seu quarto para adormecer
profundamente alguns minutos depois.
Lourenço se admirara muito de que sua mulher não quisesse ir
à missa do galo, sendo, como era, tão religiosa que nunca perdia festa alguma.
Habituado, porém, a não discutir, e somente a obedecer às resoluções de Ana
Campista, deu as boas noites a ela e a Matilde, e foi entregar-se ao mais
tranqüilo sono.
Às 11 horas da noite, Ana e Matilde achavam-se envolvidas em
longas mantilhas pretas, que escondiam completamente as formas e quase
completamente o rosto de ambas.
–
E teu marido não acordará? – perguntou Matilde com voz
trêmula.
–
Não. Lourenço é um marido modelo. Dorme um sono só.
Esse, porém, dura apenas das 9 horas da noite até ao romper
do dia.
–
Mas... se por acaso acordasse?
–
Dormiria outra vez – respondeu Ana com acento decididoe seguro.
–
Sim... mas amanhã...
–
Amanhã eu o faria pedir-me perdão de se ter acordado.
–
Ana!
–
Vamos.
E tomando a mão de Matilde, Ana Campista dirigiu-se à por ta
da rua, que foi aberta de manso por uma escrava fiel.
As duas senhoras saíram e começaram a caminhar apressadas.
Mantilhas! Mantilhas! Já passou o tempo das mantilhas, e as
senhoras talvez não calculem o que perderam.
O belo sexo condenou e proscreveu a mantilha, porque essa
imensa capa, que envolvia inteiramente uma mulher, não deixava ostentar a
gentileza do corpo, nem a riqueza dos enfeites e das jóias. Condenou-a e
proscreveu-a, porque a mantilha era o manto com que se cobriam geralmente as
velhas, as pobres e as mendicantes.
Como a vaidade faz errar as senhoras!
Condenada e proscrita por todas as moças e por todas as
senhoras faceiras, a mantilha, que era um romanesco e cômodo recurso para as
jovens e matronas de todas as classes e posições no século passado, e ainda no
princípio deste, tornou-se desde alguns lustros em objeto de irrisão, e nem é
mais permitido às próprias mendicantes, a quem os gaiatos, ao encontrá-las
assim vestidas, perseguem cruelmente, gritando: “Barata! barata!”
Entretanto, a mantilha, que se usava tanto no Brasil, e que,
como todos sabem, não era um manto curto, que é o que significa esse nome,
porém, sim, um manto de pano preto, e tão longo que caía da cabeça até aos pés
e envolvia a mulher toda, escondendo-a desde os cabelos até à barra do vestido,
a mantilha era dantes tanto um espesso véu, em que se ocultava a pobreza e a
velhice, como uma nuvem, que encobria uma estrela brilhante. Era ao mesmo tempo
o manto da mendicidade e o disfarce da riqueza. Um expediente de amor e um
recurso do ciúme.
Ah! quantos romances não pôde dar a mantilha do século
passado!
E as senhoras condenaram e proscreveram as mantilhas!
Coitadinhas! Perdem-se sempre pela sua vaidade.
Mas, como eu ia dizendo, Ana Campista e Matilde caminhavam apressadamente, levando suas mantilhas tão fechadas diante do rosto, que apenas seus olhos brilhantes podiam ser descobertos e apreciados pelos curiosos, que abundavam no meio das ondas do povo que en chiam as ruas.
Admitindo que os meus companheiros de passeio principiem a
interessar-se pela história que vou contando, sou obrigado a pedir-lhes perdão,
porque é força que eu a interrompa por momentos, para dizer em duas palavras
alguma coisa sobre as festas do Natal na cidade do Rio de Janeiro, tais como
elas eram no século passado e ainda em alguns anos do atual.
As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis.
O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas
ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se
abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores.
No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio
de Janeiro eram três. O da ladeira de S. António, que os religiosos
franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno que
o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em
que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao
assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o
presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do
Livramento.
Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público
em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.
O presépio do Livramento era propriedade e glória do célebre
cônego Filipe. As figuras que ali se apresentavam eram de barro e tinham dois
palmos de altura, e de tanta fama gozava esse presépio que o príncipe regente,
depois rei d. João VI, o visitou por mais de uma vez.
Como já disse, o proprietário desse presépio foi aquele
sempre lembrado cônego Filipe, que se imortalizou por trinta mil simplicidades.
Uma vez, por exemplo, indo esse cônego pregar em uma festa fora da cidade,
hospedou-se na casa do festeiro, e, como chovesse muito durante a noite e
houvesse uma goteira exatamente por cima da cama em que devia dormir o cônego,
este passou a noite inteira sentado na cama a receber no prato do rosto a água
que caía da goteira. No dia se guinte, lamentou-se o pregador da sua triste e
maçante vigília.
–
Oh! Sr. cônego! – disse o festeiro. – Por que não afastou V.Rev.ma para longe
da goteira a sua cama?
–
Homem! – respondeu o cônego. – Você tem toda a razão.Mas essa só lembra ao
Diabo!
E como esta muitas outras.
Ao dia do Natal seguia-se o de Ano Bom, que era o das
visitas, dos presentes, dos banquetes e dos obséquios.
E enfim, o dia de Reis fazia-se muito apreciado pelas
cantatas de reis, que começavam na noite de 5 e repetiam-se na de 6 de janeiro.
Eram numerosos os reis que corriam a cidade, cantando às
portas das casas das famílias amigas, que ofereciam a esses obsequiadores ceias
opíparas e riquíssimas e variadas mesas de doces. Havia cantador de reis que
atacava dez ou doze ceias em uma noite e não tinha indigestão.
Os cantadores de reis compunham-se de mancebos e moças, de
ordinário vestidos à camponesa, e de alguns grotescos mascarados, a quem
competia alegrar as companhias, provocando risadas.
Percorrendo a cidade em diversas direções, reuniam-se enfim
todos os cantadores de reis no pátio do convento da Ajuda, onde terminava a
festa alegremente, em um outeiro mais ou menos brilhante. As freiras davam
motes do alto das janelas e por entre as grades, e os poetas glosavam como
podiam e de improviso, mas quase sempre com metrificação livre.
Dou apenas uma ligeira idéia destas festas, de que espero
tratar mais de espaço. Agora é impossível continuar a discorrer sobre este
assunto, visto que nos cumpre acompanhar duas senhoras de mantilha que não
devemos perder de vista.
Ana Campista e Matilde, depois de um quarto de hora de acelerada marcha, entraram no largo da Carioca, foram subindo a ladeira de S. Antônio, demoraram-se apenas alguns momentos diante do presépio, continuaram a subir, e chegaram enfim ao pátio da frente do convento e igreja, onde já havia muito povo, embora ainda fosse um pouco cedo para a missa do galo.
Cheio estava o pátio. Mas tornava-se notável que a quase
tota lidade dos fiéis que aí se achavam se desviassem de um grupo de mancebos e
de moças, que assim se mostrava isolado. Contudo, o observador conhecia bem
depressa a causa dessa separação, que era um protesto dos bons contra o
sacrilégio da libertinagem em uma noite de tão santas recordações.
O grupo condenado ostentava ali à face de todos a vilania
dos costumes de mancebos desmoralizados e de mulheres loucas que não se
envergonhavam de uma conversação licenciosa e misturada de frenéticas risadas.
As duas senhoras recém-chegadas tinham-se misturado com a
multidão; e Ana Campista, estendendo o braço para fora da mantilha, mostrou a
Matilde Gil Soares no meio do grupo reprovado, tendo pelo braço a mais
petulante daquelas mulheres sem nome.
Basta! – murmurou Matilde, segurando-se ao braço da falsa
amiga.
– Ainda não – respondeu Ana Campista.
A missa começou à meia-noite em ponto, e finda ela o povo
que enchera a igreja desceu pela ladeira, como um exército que desfila.
Ana e Matilde seguiram de perto o grupo licencioso, que foi
ruidosamente visitar o presépio do convento de Ajuda, seguindo daí para o do
Livramento. Gil Soares não deixara um só instante o braço da mulher que
acompanhava desde o pátio da igreja de S. Antônio.
–
Basta! – balbuciou de novo Matilde.
–
Ainda não – repetiu Ana Campista.
Voltando do Livramento, o grupo foi pouco a pouco se
dissolvendo ao som de gargalhadas e de zombarias. Finalmente, acharam-se sós
Gil Soares e a sua indigna companheira, que, parando à porta de uma casa de
triste aparência, bateu com força, e, apenas a viu aberta, entrou com aquele
marido que atraiçoava sua mulher.
A porta fechou-se.
–
Basta! basta! – disse Matilde em convulsivo tremor.
–
Agora sim, basta! – respondeu Ana Campista.
E voltaram ambas para a casa, onde entraram às 4 horas da madrugada.
Lourenço Taques dormia ainda a sono solto.
As duas senhoras arrancaram as mantilhas e sentaram-se
extenuadas de fadiga.
Depois de algum tempo dado ao descanso, Ana Campista rompeu
o silêncio.
–
Então? – perguntou.
–
É um infame! – exclamou Matilde. – Hoje mesmo separar-me-ei desse monstro.
–
Louca! O mundo te cobriria de ridículo ou de ignomínia.
–
Oh! É assim? Pois bem, matar-me-ei.
–
E o teu belo viúvo não se divertirá menos por isso.
–
Sim... sim... Mas que farias tu?
–
Não se trata de mim, Matilde.
–
Mas. Se se tratasse?
–
Não aconselharei a mulher alguma que faça o que eu faria.
A serpente ia-se arrastando para dar o bote.
–
Não aconselha, porém fala. Que farias?
–
Não te direi.
–
Ana! Não és mais a minha amiga fiel.
–
Ingrata? Depois do que acabo de fazer por ti!
–
Dize, pois, que farias?
Ana respondeu em voz baixa, mas terrível.
–
Vingar-me-ia!
–
Vingar-me? Oh! Sim. Porém como?
Ana Campista olhou para Matilde com piedade, e depois dis-
se-lhe:
–
Vai chorar.
–
Ana!
–
Quem no teu caso não compreende qual é a vingança quedeve tomar é uma criança,
a quem só cumpre chorar.
Uma luz infernal brilhou aos olhos de Matilde, e o demônio
que acendera essa luz contemplou com um rir de triunfo a exaltação e o delírio
da esposa traída.
III
Estava aberto o caminho da perdição de Matilde, e para
precipitá-la por ele conspiravam o ciúme, a vaidade ofendida, o amor justamente
ressentido, um espírito exaltado, uma natureza ardente e a educação mal
dirigida.
E além de tudo isso, velava sinistra ao lado de Matilde a
traição com a máscara da amizade.
–
Vingar-me-ei! – repetiu a infeliz com um tom que indicavajá um pensamento
criminoso.
–
Sim – observou Ana Campista. – Um amor cura-se comoutro amor.
Era ainda um conselho pérfido que prometia o castigo do
esposo infiel com a infâmia da esposa traída, como se a desonra desta não
tivesse de atenuar de certo modo a maldade daquele.
Mas o provérbio imoral fizera estremecer Matilde.
–
Um outro amor! – disse ela, atraiçoando-se. – Um outroamor! E eu que...
–
Acaba. Já és amada por um belo mancebo.
–
Quem to disse?
–
Agora mesmo começavas a confessá-lo.
Matilde corou. Ana Campista alterou-lhe o rubor da face,
envenenando com um beijo insano a rosa do pudor.
–
Quem é o teu apaixonado? – perguntou.
–
É Lopo de Freitas, que me requesta em toda a parte ondeencontra, apesar da
aspereza com que o trato.
–
É um moço nobre, bonito, discreto e rico. Quantas invejariam a tua felicidade!
Ah! o Sr. Gil Soares paga-te bem essa tua surdez aos protestos de amor de Lopo
de Freitas.
A lembrança da ingratidão de Gil Soares era naquele momento
inspirada pelo Demônio.
–
Pode-se lá deixar de ser surda? – murmurou sinistramente
Matilde.
Alguns momentos depois, Ana Campista perguntou:
–
Vês muitas vezes Lopo de Freitas?
–
Não.
–
Pois é fácil vê-lo.
–
Onde?
–
Na ópera.
–
Raramente vou à ópera.
–
Queres ir comigo depois de amanhã?
–
Irei.
Facilmente pode-se calcular como passaram os dois dias que
correram entre a noite de Natal e a da ópera, a que deviam ir Ana Campista e
Matilde.
A casa da ópera era naquele tempo defronte das primeiras
janelas do lado direito do palácio dos vice-reis, exatamente a mesma casa que
depois ficou sendo uma dependência do paço, e que ainda hoje se vê paralela ao
edifício da Câmara dos Deputados.
Não direi agora o pouco que tenho conseguido saber a
respeito dessa casa da ópera. Porque tal assunto será tratado em um dos nossos
próximos passeios.
Ana Campista e Matilde não faltaram à ópera. Estavam ambas
vestidas com elegância e primor, e enquanto uma, pela fascinação da
voluptuosidade. fazia esquecer que não era formosa, a outra avassalava corações
com o poder de sua beleza, mais fulgurosa ainda naquela noite por uma indizível
exaltação que parecia em luta com o receio.
Defronte delas mostrava-se um cavalheiro radiante de
mocidade. Tinha olhos pretos, a fronte alta, rosto pálido e belos dentes.
Estava vestido como um peralta do seu tempo. Era Lopo de Freitas.
Acaso ou prevenção de quem facilmente se adivinha, Lopo
escolhera um lugar onde, volvendo apenas os olhos, podia contemplar Matilde.
Ainda não tinham sido introduzidos no Rio de Janeiro os binóculos teatrais e
naquela casa da ópera um binóculo seria um pleonasmo, como atualmente se diz no
Ginásio. Além disso Lopo tinha bonitos olhos e excelente vista.
É inútil dizer que o mancebo inebriava-se, devorando com um
olhar abrasador o lindo rosto de Matilde, que, pela primeira vez, não se
mostrava enfadada com essa adoração atrevida.
Representava-se a ópera intitulada Guerras do Alecrim e
Mangerona, do nosso Antônio José da Silva, o chamado Judeu, a quem o horrível
tribunal da Inquisição fez queimar em uma de suas infernais fogueiras.
O público aplaudia com ardor o espirituoso semicúpio,
enquanto Lopo de Freitas repetia com os olhos a Matilde as finezas que D.
Gilvaz e D. Fuas rendiam a D. Clóris e a D. Nize.
Entretanto, Matilde tolerava apenas, mas não correspondia
ainda às demonstrações de amor do seu namorado.
D. Fuas cantou na cena os versinhos seguintes:
Se chego a vencer
De Nize o rigor,
De gosto morrer Você me verá.
Porém, se um favor
Alenta o viver,
Quem morre de amor
Mais vida terá.
Ao terminar o canto, encontraram-se os olhos de Lopo e de
Matilde, e tanto fogo havia nos do mancebo, que Matilde abaixou os seus e
mostrou o rosto inundado do rubor do pejo.
A ópera auxiliava Lopo de Freitas, porque logo depois veio a
cena em que D. Clóris cantou por sua vez:
Dirás ao meu bem
Que não desconfie,
Que adore, que espere,
Que não desespere,
Que à sua firmeza
Constante serei;
Que firme eu também
A tanta fineza,
Amante constante
Extremos farei.
Lopo e Matilde tornaram a olhar-se e sorriram ambos da
coincidência daqueles cantos com as falas dos seus corações.
O sorriso de Matilde não escapou a Ana Campista.
– Até que enfim! – disse esta ao ouvido da amiga, ao mesmo
tempo em que lhe apertava a mão.
O resto do espetáculo foi para Matilde cheio de novos
sorrisos, daqueles sorrisos sacrílegos que murcham depressa, cedendo o rosto às
lágrimas e o coração aos remorsos.
Algumas semanas de galanteio acabavam de perder Matilde. A
vingança a impelira, a vaidade incensada e satisfeita embriagou-a. E pouco a
pouco, uma paixão infrene arrastou-a ao precipício.
Ana Campista protegia um amor criminoso, que devia servir
aos seus cálculos.
Lopo de Freitas pediu uma entrevista a Matilde. O prazo e o
lugar foram marcados.
Uma noite, e já muito tarde, abriu-se a porta da casa de
Lourenço Taques e outra vez saíram duas mulheres de mantilha, que caminharam
apressadas e silenciosas e passavam diante da igreja de N. S. do Parto, quando
uma delas parou, estremeceu e murmurou, tremendo:
–
O recolhimento!
Mas imediatamente, parecendo ceder a uma força irresistível,
disse:
–
Vamos!
E continuou em rápida marcha até chegar, quase no fim da rua
do Parto, a uma casa térrea, cuja porta, já entreaberta, então de todo se abriu
para dar entrada às duas senhoras.
Lopo de Freitas recebeu de joelhos a Matilde, a quem Ana
acabava de arrancar a mantilha.
A estrada do vício é íngreme e escorregadia, e quem uma vez
começou a descer por ela, tarde ou nunca mais pode parar.
As entrevistas de Lopo e de Matilde repetiram-se muitas
vezes.
A esposa indigna correu precipitada para o abismo onde a
esperava o maior opróbrio.
O mundo, que tudo vê e arrasa todos os mistérios, descobriu
esses amores impuros, e a murmuração e a reprovação pública marcaram com o
ferrete da infâmia a mísera Matilde.
Ana Campista triunfava, pois, e contando já com a mais
completa vitória, sempre, porém, hábil e astuta, começava a provocar, como
involuntariamente e sem comprometer-se, a atenção e os anelos de Gil
Soares.
O libertino deixou-se pouco a pouco atrair pela mulher
voluptuosa que lhe acendia a imaginação adivinhadora de irresistíveis encantos.
Cercou-a de cuidados, ousou fazer-lhe a confissão do seu amor, e tomou-se ainda
mais vivamente apaixonado pelo desdém fingido com que Ana Campista o repeliu.
Ana esperava ainda. A mulher a quem profundamente aborrecia
e a quem dava o nome de amiga, a esposa do homem que lhe inspirara uma paixão
reprovada pagava-lhe com hedionda miséria o crime de haver gozado alguns dias
de amor e de felicidade. Sua vingança poderia talvez estar saciada. Mas o
domínio exclusivo e indispensável do coração de Gil Soares só lhe parecia
seguro, quando uma barreira ou um abismo o separasse de Matilde.
Tal reparação era, portanto, a sua idéia implacável.
Uma carta anônima foi em breve patentear a vida ignominiosa
de Matilde aos olhos de Gil Soares, que, arrebatado e furioso, não podendo
ocultar os seus ciúmes, perdeu o mais seguro de certificar-se da verdade,
porque os dois amantes, acautelando-se temerosos, interromperam as suas
entrevistas.
Ana Campista, contrariada em seus planos por esse prudente
proceder, receou ver arrefecer-se a paixão criminosa de Matilde, e para
inflamá-la de novo, correu a derramar o veneno de pérfidos conselhos no seio da
desgraçada.
Matilde seguiu de olhos fechados o caminho por onde quis
conduzi-la a traição. Um dia em que foi visitar sua mãe, fingiu-se, de súbito,
tão incomodada, que não pôde voltar para casa.
Matilde contava que seu marido, habituado a passar as noites
em orgias, a deixasse só com sua mãe. Não calculou, porém, com as suspeitas de
um marido desconfiado.
Gil Soares, com efeito, deixou-a só. Mas retirou-se
suspeitoso.
O incômodo de Matilde desapareceu com a partida do marido. E
a mãe da inconsiderada moça sorriu àquela milagrosa cura, vendo apenas um
inocente capricho no que a filha ocultava um desígnio criminoso.
A mãe de Matilde morava no largo da Ajuda. Era uma boa
velha, observadora fiel dos costumes antigos. Às 9 horas da noite rezou o seu
terço, e às 10 dormia.
À meia-noite, uma voz abafada e trêmula pronunciou na rua a
palavra – segredo!
Daí a poucos minutos Matilde e Ana Campista seguiam juntas
para o Passeio Público, onde entraram pela porta lateral, que lhes foi aberta
por Lopo de Freitas, que conseguira obter a chave.
Os dois amantes sentaram-se ao lado um do outro no banco de
um dos caramanchões cobertos de jasmins.
A lua estava clara e brilhante, e o ar embalsamado de
perfumes.
A noite parecia propicia aos amores.
Ana Campista passeava no terraço. Toda ocupada de seus
malvados tramas, nem sentia a indignidade do seu repugnante proceder, nem se
lembrava dos perigos a que se expunha. Mas, de súbito, ouviu um grito pungente
soltado por Matilde, e logo, soando rouca e terrível, a voz de Gil Soares.
Ana Campista não calculara com esse contratempo. Rápida,
porém, como o raio, desceu a escada do terraço, e escapando pela porta do
Passeio que ficara aberta, voltou correndo para sua casa, onde, apenas chegou,
caiu desfalecida de terror e de fadiga.
Lourenço Taques dormia sempre o seu aturado sono de ferro.
Amante extremoso e cheio de confiança na esposa, e constante dorminhoco da
noite, era um marido que convinha perfeitamente a Ana Campista.
Mas esta mulher ousada e falsa tremia pela primeira vez.
Receava que a tivessem conhecido no Passeio, que Matilde a houvesse
comprometido. Receava as conseqüências de uma luta que devia ter havido entre
Gil Soares e Lopo. E receava-se, mais do que tudo, da cólera de seu pai.
E foi ainda com violento esforço que dissimulou o medo de
que estava possuída, quando, na manhã seguinte, recebeu Gil Soares, que veio
lhe pedir alguns momentos de atenção.
Lourenço Taques já tinha saído.
Gil Soares estava pálido e agitado. Soubera da cumplicidade
de Ana Campista no crime de sua mulher, e queria confundi-la antes de denunciar
a sua culpa a Lourenço Taques e a Leôncio Peres.
Nas primeiras horas do seu arrebatado e justo desespero,
pareceu-lhe transformado em ódio o amor que tantas vezes, desde alguns dias, e
até então sempre inutilmente, o arrastava aos pés de Ana Campista.
Chegou trazendo na alma um pensamento de vingança cruel.
Ana fingiu não reparar na agitação de Gil Soares e pediu-lhe
notícias de Matilde.
–
Esta noite – disse Gil Soares, – teve lugar no Passeio Públi-co a última
entrevista dessa mulher com Lopo de Freitas, seu amante. O infame escapou à
minha vingança, porque, aos gritos de uma esposa que me desonrou, acudiram
intrometidos que o arrancaram de minhas mãos.
Ana Campista não respondeu, mas fitou um olhar audacioso no
rosto de Gil Soares.
–
Quer notícias da sua amiga? – continuou este. – Acha-sebem guardada no seu
quarto, onde não receberá nem parentes, nem amigas, até que amanhã entre no
recolhimento do Parto, para ficar nele todo o resto da sua vida.
Os olhos de Ana Campista brilharam com um fogo irresistível.
O seu seio, abalado por uma viva comoção, mostrou-se ofegante de ardor e
voluptuosidade. Ela não arredava suas vistas magnetizadoras do rosto de Gil
Soares, que, começando a experimentar a influência daquela mulher perigosa,
para escapar à fascinação do seu olhar, abaixou um pouco os olhos, mas
deixou-os presos ao seio que arfava tão provocadoramente.
–
Minha mulher atraiçoou-me, – continuou ele – e sofrerá,portanto, o merecido
castigo. Sei, porém, que ela teve uma cúmplice que eu preciso conhecer para
puni-la também.
Ana Campista fez um movimento e ergueu-se. Os seus cabelos
negros desataram-se e caíram em enchentes de bastos anéis sobre os seus ombros
nus.
–
A senhora – prosseguiu Gil Soares – amiga íntima de Matilde, necessariamente
conhece a sua cúmplice. Quem é, pois, essa mulher? Quem é?
–
Sou eu – respondeu Ana Campista.
–
E ousa dizê-lo?!
–
Sim. Fui eu que levei Matilde à perdição. Fui eu que caveium abismo entre ela e
seu marido.
Gil Soares encarou confuso, quase aterrado, a mulher que
assim lhe falava, e viu-lhe no semblante a audácia, a paixão, o arrebatamento
em flamas abrasadoras.
–
Mas é horrível – disse ele atônito.
–
Sim! – exclamou Ana, prorrompendo. – Mas eu te amava!Eu te amo, Gil Soares!
No dia seguinte, Matilde entrava para o recolhimento do
Parto, e Ana Campista ficava sendo a amante de Gil Soares.
Mulher execrável, porém alucinadora, fez do inconstante e
libertino Gil Soares um escravo submisso. Dominou sobre ele, tornou-se o
encanto e a loucura de sua vida.
Alguns meses durou a gozar tranqüilo desses indignos amores.
Ana Campista, embebida nos triunfos da sua paixão, tinha-se
esquecido de um homem que devia vingar Matilde.
Lopo de Freitas descobriu a traição de que ele e a sua amada
haviam sido vítimas, aborreceu ainda menos Gil Soares do que Ana Campista. Mas,
observando com a solicitude e a vigilância do ódio os passos dos seus dois
inimigos, exultou, conhecendo que podia tirar deles uma desforra completa.
Sem que lhe tremesse a mão com a vergonha de uma vil
denúncia, escreveu a Lourenço Taques, informando-o dos desregramentos de sua
mulher, e a Leôncio Peres, anunciando-lhe a desonra de sua filha, e julgou-se
livre da ignobilidade de denunciante, escondendo-se com a capa do anônimo.
Lourenço estava em companhia do sogro, no escritório da sua
casa comercial, quando as cartas de Lopo de Freitas foram entregues. E apenas
leu a que lhe era dirigida, rasgou-a com raiva, exclamando:
–
É impossível! É uma calúnia!
–
É possível – disse Leôncio com amargura e calma. – É mesmo provável. Eu já o
suspeitava.
Lourenço sentiu um ímpeto de cólera igual ao amor ardente
que nutria por Ana Campista, e ia sair precipitado, mas Leôncio Peres o deteve.
–
Espera – disse ele a Lourenço.
–
Atraiçoado e esperar! – exclamou o marido amante e des-graçado.
O velho riu-se de um modo feroz.
–
E eu não espero? – perguntou.
–
O senhor não é marido, é pai.
–
Mas eu espero porque... devo ser juiz, e se for preciso, sereialgoz.
Passaram alguns momentos de silêncio.
–
Escuta-me, tornou Leôncio. – Eu não compreendo a vidacom uma nódoa, nem admito
que haja perdão para a filha que desonra seu pai.
–
E então?
–
Então? É que o crime de que acusam minha filha importanuma sentença de morte
para ela e para mim.
–
E então? – repetiu Lourenço, como se receasse ter compreendido mal o lúgubre
pensamento do velho.
–
Então? – continuou este. É que o juiz tem necessidade deinteirar-se de toda a
verdade, antes de lavrar a sentença que deve arrancar do mundo uma filha que
desonrou seu pai, e um pai que não tolera a vida com o opróbrio.
Leôncio Peres falara com voz pausada e grave. O seu rosto
mostrava uma serenidade aterradora.
Pai severo e homem de justiça cruel, que não sentia que a
justiça deixa de o ser, quando se torna em crueldade, Leôncio Peres tinha já
tomado uma resolução irrevogável.
Essa resolução preparava um atentado nefando.
Leôncio Peres era no fundo um mau homem.
Lourenço conservava-se em pé diante de seu sogro, que
tornou, dizendo:
–
Assim, pois, devemos primeiro chegar à evidência dos fatosque nos revelam.
Descansa em mim. Silêncio e dissimulação. Dentro de três dias eu te falarei.
Lourenço obedeceu. Não falou. Não dormiu. Mas fingiu dormir.
Dissimulou, e sabia já demais, quando no fim de três dias o sogro o chamou ao
escritório.
–
Tudo é verdade – disse Leôncio Peres.
–
Eu o sei – respondeu Lourenço.
–
Uma filha que enche de ignomínia seu pai – tornou o velho.Uma esposa que mancha
o nome de seu marido é uma criminosa que deve morrer. É, porém, necessário que
a sua morte não pareça um castigo, porque um castigo seria a manifestação
pública da infâmia.
Lourenço estremeceu.
–
Vou dizer-te como hás de matar tua mulher – continuou
Leôncio.
–
Matá-la?... Eu?... – exclamou o infeliz.
–
Bem – prosseguiu o velho. – Não serás tu o algoz. Mas, emfalta do marido que
devia castigar a esposa infiel, o pai saberá punir a filha.
Lourenço horrorizou-se do que lhe dizia Leôncio, e saindo
logo depois, tão ativamente trabalhou, que na tarde desse mesmo dia Ana
Campista, quando menos o esperava, foi por seu marido conduzida para o
recolhimento do Parto.
Lourenço não dera explicação alguma a sua mulher, não a
injuriou, nem a maldisse. Obrigou-a a sair com ele, levou-a ao recolhimento, e
ao vê-la entrar, disse-lhe:
–
É o seu lugar. Arrependa-se.
Ana desapareceu. Lourenço escondeu duas grossas lágrimas que
lhe caíram dos olhos e voltou para casa.
Tinha-se realizado a profecia do mestre Valentim.
Às sete horas da noite. Leôncio Peres chegou à casa de seu
genro. Onde está minha filha? – perguntou, antes de sentar-se.
–
No recolhimento do Parto – respondeu o genro.
O velho lançou um olhar de desprezo e de cólera sobre
Lourenço, e saiu.
Leôncio Peres não tornou a aparecer no seu escritório a quem
quer que fosse, e nunca mais dirigiu a palavra a seu genro. Escondendo-se de
dia a todos os olhos, saía apenas de noite para ir passear muito tempo e sempre
diante da capela do recolhimento do Parto.
O ressentimento e a severidade selvagem desse velho eram
implacáveis.
Vagando de noite em frente do recolhimento do Parto, onde
estava encerada sua filha, Leôncio Peres era como a sentinela de uma vingança
satânica.
E era mil vezes horrível, por isso mesmo que era pai.
IV
Ana Campista e Matilde tinham-se encontrado no recolhimento
do Parto. Mas um ódio inflexível as separava para sempre. Eram ambas
criminosas, estavam ambas igualmente corrompidas pelo vício. Matilde, porém,
era ainda menos repulsiva do que Ana Campista.
O tempo foi correndo, e pouco e pouco caiu no esquecimento a
história das desordens e loucuras das duas esposas adúlteras, e foi também
esmorecendo a vigilância que se tivera sobre elas.
Lopo de Freitas e Gil Soares, escravos dos encantos dessas
reclusas, sentiam redobrar a paixão que os devorava, por isso mesmo que a
violência erguera muralhas insuperáveis e duras grades de ferro entre eles e
suas amantes.
As reclusas e os dois apaixonados conseguiram escreverem-se.
Mais tarde, Gil Soares e Ana Campista, Lopo de Freitas e Matilde encontraram-se
e falaram-se algumas vezes no locutório.
Libertino e audaz como Gil Soares, Lopo de Freitas seguia
também como ele o mesmo caminho. Seus destinos pareciam medidos pelo mesmo
pensamento. Ambos, porém, ignoravam que iam marchando no mesmo terreno, e
semelhantemente Ana Campista e Matilde mal pensavam que a vida e o proceder de
uma eram ali, no recolhimento, verdadeira cópia da vida e do proceder da outra.
Adiantava-se o ano de 1789. Estava chegando ao seu termo o
mês de julho.
Um acontecimento tristíssimo preocupava todos os espíritos,
e tinha feito ainda mais esquecer as duas reclusas.
Descobrira-se em Minas Gerais o trama da famosa e patriótica
revolução chamada do Tiradentes. Haviam sido presos em Minas os principais
chefes da conspiração, e no Rio de Janeiro, além do infeliz Tiradentes, um
outro comprometido e muitos inocentes.
Luís de Vasconcelos tornava-se suspeitoso e perseguidor.
A desconfiança e o terror estavam derramados na capital do
Brasil. Falava-se em forcas e horrorosos castigos, espalhavam-se boatos de
projetadas desordens para se soltarem e salvarem os patriotas. Os corpos
militares estavam alerta. O povo vivia em sobressalto.
A monção era favorável aos atrevimentos de um amor impetuoso
e louco. Matilde ardia por ver-se fora e longe do recolhimento do Parto, e
desde o mês de julho trabalhou por preparar os meios de sua evasão, de acordo
com Lopo de Freitas.
O pensamento dominante na alma de Matilde era aquele mesmo
que manifestara no dia do seu casamento. Era um incêndio.
Lopo resistiu. Mas por fim cedeu. Na sua última conferência
com Matilde ficou resolvido que esta lançaria fogo ao recolhimento na madrugada
de 24 de agosto e que, aproveitando a conseqüente desordem, fugiria para ir
encontrar-se com o seu amante na rampa do largo do Paço, onde, embarcando-se
ambos em algum batelão, atravessariam a baía e iriam ocultar-se em algum
longínquo distrito do interior. Este plano tinha sido forjado e absolutamente
adotado no locutório a 21 de agosto.
Entretanto, a mesma idéia de incêndio e de evasão fora
tambem concebida e planejada por Ana Campista e por Gil Soares, que igualmente
assentavam de efetuá-la nas primeiras horas do dia 24 de agosto.
Por que essa coincidência na escolha do dia para a execução
dos sinistros projetos? É fácil de explicar. Um prejuízo havia e há ainda hoje,
fundado, aliás, em observações repetidas de fenômenos atmosféricos muito
constantes no mês de agosto. Por esse prejuízo acredita-se na infalibilidade de
furacões e ventos fortíssimos no dia de S. Bartolomeu. Ora, uma ventania era
útil para dar toda a veemência ao incêndio. E portanto, as duas reclusas
designaram, cada uma de sua parte, a madrugada do santo das tempestades para
fazerem arder o recolhimento.
Ana Campista e Gil Soares tinham assentado encontrarem-se no
locutório a fim de tomarem as últimas disposições ao começar a noite de 22 de
agosto.
Como mais tarde veremos o locutório das recolhidas do Parto
era na igreja que ficava por baixo do coro.
Na tarde de 22 de agosto, estava o sacristão da capela de
Nossa Senhora do Parto muito cansado, varrendo a sacristia, e a lembrar-se de
que ainda tinha de varrer a nave da igreja e os corredores, quando desatou a
rir, ouvindo uma voz bem conhecida repetir-lhe em tom baixinho:
Reverendo sacristão, que estás com a vassoura em punho,
varrerei por ti a igreja, se me deres cruz e cunho. -A
– Toma lá, Bota-bicas – exclamou o sacristão atirando com a
vassoura ao poeta varredor.
Bota-bicas era um doido inofensivo, às vezes divertido, que
então vivia na cidade do Rio de Janeiro, tão guloso como apaixonado das
libações alcoólicas. Improvisava quadrinhas, quando tinha fome ou sede.
Por que o chamavam Bota-bicas? Não sei. Certo é que o
próprio doido perdeu a lembrança do seu nome de batismo, habituando-se à
alcunha que lhe tinham posto.
Bota-bicas era uma notabilidade burlesca da cidade. Conhecia
todos os seus habitantes e era de todos conhecido. O mesmo vice-rei recebera
dele, uma ou outra vez, cumprimentos em consoantes.
O sacristão foi passear e Bota-bicas ficou varrendo, com a
esperança de receber alguns vinténs. Acabou de varrer e deixou-se na igreja à
espera do sacristão. E tanto esperou, que de cansado sentou-se, e recostando-se
a uma das colunas do coro estava quase adormecendo, quando sentiu rumor e viu
Gil Soares aproximar-se do locutório, a quem logo depois veio falar Ana
Campista.
Curioso de ouvir a conversação de uma recolhida, Bota-bicas
fingiu dormir e começou a roncar como um endemoninhado.
–
Quem está aí? – perguntou Ana.
–
É o Bota-bicas – respondeu Gil Soares.
–
É preciso despertá-lo e fazê-lo sair.
–
Mas esse doido conhece-nos, e se nos visse aqui poderia falar.
–
E se nos ouvisse?
–
Um homem que dorme não ouve. Aproveitemos o tempo.Sobreveio algum inconveniente
que possa contrariar o nosso plano?
–
Não. Depois de amanhã, à 1 hora da madrugada, um incên-dio estará devorando
este maldito recolhimento, e às 2 horas conto achar-me fora dele e correndo
para encontrar-te.
–
À meia-noite em ponto – respondeu Gil Soares. – Postar-me-ei com dois fogosos
cavalos à entrada do caminho de Catumbi. É aí que te espero, Ana, para nunca
mais nos separarmos, porque o asilo a que nos recolheremos é tão longe da
capital como aprazível e seguro.
Nesse momento soou o toque de uma sineta.
–
Adeus – disse Ana Campista. – Conta comigo. Até depoisde amanhã às 2 horas da
madrugada.
–
Sim. Às 2 horas da madrugada.
Ana retirou-se. Gil Soares saiu da capela. E Bota-bicas
deixou de roncar, e abriu os olhos.
–
Fogo no Parto! – balbuciou ele espantado e levantando-se.
Era noite fechada. Bota-bicas não pensou mais no sacristão
e, atirando-se para a rua, começou a correr e a bradar:
–
Fogo no Parto! Fogo no Parto!
Todos aqueles que ouviam os gritos de Bota-bicas punham-se a rir.
– Ah! vocês riem-se? Pois é verdade! Fogo no Parto! Fogo no Parto!
Todos, porém, continuavam a rir do Bota-bicas e este a
correr e a bradar, até que uma mão de ferro lhe travou o braço e uma voz grave
e um pouco trêmula lhe disse:
–
Basta, já sei. Queres tu cear e beber uma garrafa de bom vinho?
O terror de Bota-bicas dissipou-se de súbito ao encanto
daquele convite.
–
Se quero!
–
Acompanha-me.
O doido obedeceu prontamente, e seguindo as pisadas do homem
que lhe falava e que se conservava cuidadosamente rebuçado, entrou em uma
taverna do largo da Carioca e foi sentar-se defronte no misterioso personagem,
junto de uma rude mesa, em um gabinete escuro e úmido que havia no fundo da
venda.
–
Ninguém deve entrar aqui. Preciso estar só – disse o rebu-çado ao taverneiro. –
Mande vir peixe, pão e vinho.
O taverneiro desapareceu imediatamente.
Bota-bicas sentiu uma impressão suavíssima, ouvindo falar em
peixe, pão e vinho. Não pôde conter-se e bradou:
–
Sardinhas fritas, pimentões e aguardente!
–
Terás tudo isso e mais ainda – tornou o rebuçado. – Responde, porém, primeiro.
Quem ainda há pouco saiu antes de ti da capela do Parto?
–
Foi o Sr. Gil Soares – respondeu o doido.
–- E o que fez ele na igreja?
–
Conversou no locutório.
–
Com quem?
–
Com a filha do Sr. Leôncio Peres.
O rebuçado violentou-se para conter uma imprecação.
O taverneiro trouxe quatro grandes postas de peixe frito, um
prato de sardinhas com pimentões, farinha, pão e uma garrafa de vinho.
–
Falta a aguardente – disse Bota-bicas, começando a devorar.
O rebuçado encheu de vinho um copo de quartilho, mas deteve
o doido que se lançava já ao licor atrativo.
–
Antes de beber hás de repetir-me a conversação de Gil Soares e... da recolhida.
–
Fogo do Parto! – gritou Bota-bicas.
–
Não grites, desgraçado! Explica-me isso em voz baixa, ouviste? Se gritares,
deitarei fora o vinho.
O doido contou tudo quanto ouvira.
O rebuçado fê-lo repetir dez vezes todas as particularidades
de trama.
–
Podes beber – disse, entregando o copo a Bota-bicas. Agarrafa de vinho ficou
logo esgotada.
–
Mais vinho e meia garrafa de aguardente! – bradou o rebu-çado.
Bota-bicas exultou de prazer.
–
Ouve – tornou daí a pouco o rebuçado. – Não quero quefales mais em fogo no
Parto.
–
Menos essa! – disse o doido.
–
Por quê?
–
Não quero que se queime a igreja.
–
Não falarás.
–
Fogo no Parto! – gritou Bota-bicas.
–
Não te darei mais aguardente nem vinho.
–
Algum outro me dará amanhã – respondeu o doido, e tornou a gritar!
–
Fogo no Parto!
Ouviam-se risadas da gente que estava na taverna.
O rebuçado tranqüilizou Bota-bicas, oferecendo-lhe um copo
de aguardente.
–
Gostas de genebra? – perguntou logo depois.
–
Venha – disse Bota-bicas.
Às 9 horas da noite o doido estava completamente bêbedo, e
saiu do gabinete quase arrastado pelo misterioso rebuçado.
–
Mais um copo de aguardente – disse este.
E o pobre doido bebeu ainda e foi cambaleando pela rua,
preso pelo braço do rebuçado, que o levou assim até o princípio da rua da
Cadeia, e que, aí chegando, bradou por socorro com voz alterada e aflita.
Acudiram logo alguns soldados da guarda da cadeia.
–
Este bêbedo ofendeu-me e persegue-me – exclamou o rebuçado.
Bota-bicas não podia defender-se, e foi conduzido pelos
soldados, que o trancaram na cadeia, enquanto o rebuçado voltava tranqüilamente
para sua casa.
No dia seguinte Bota-bicas acordou espantado, achando-se na
prisão. Lembrou-se vagamente do que lhe acontecera na véspera, sentia-se
possuído de uma espécie de terror ao recordar-se do rebuçado, e voltando outra
vez à sua idéia, tantas vezes gritou – Fogo no Parto! – que o carcereiro teve
de impor-lhe silêncio ameaçando-o com pancadas.
O pobre doido calou-se, e, abraçado com as grades da janela
da sala em que estava preso, passou o dia a olhar para a rua e a sofrer
silencioso as zombarias dos meninos e dos garotos.
Ao cair da tarde, Bota-bicas viu o vice-rei Luís de
Vasconcelos, que, saindo a cavalo, passava diante da cadeia. Perdendo então o
medo ao carcereiro, bradou:
Bota-bicas está preso, deves mandá-lo soltar, Porque, preso,
o Bota-bicas não pode bicas botar.
O vice-rei pôs-se a rir e ordenou que soltassem o pobre
doido.
Esta ordem foi logo cumprida, e Bota-bicas, festejado pelos
rapazes, achou logo entre eles um que mais velho parecia, e que o levou a comer
sardinhas fritas com pimentões e a beber aguardente em uma tasca do beco, hoje
rua do Cotovelo, onde o reteve até alta noite.
Esse apreciador do Bota-bicas era um caixeiro da casa
comercial de Leôncio Peres.
A espécie de caridade que esse caixeiro mostrara
converteu-se no mais repreensível abuso da miséria e do vício do doido.
O caixeiro evidentemente trabalhava por embebedar outra vez
Bota-bicas, esforçando-se por fazê-lo beber vinho, aguardente e genebra, que
não cessava do mandar vir.
Bota-bicas lutava heroicamente com o seu vício dominante.
Cedendo à atração dos licores que o caixeiro lhe oferecia, levava os copos à
boca, bebia algumas gotas. Mas deitava logo fora quase todo o vinho, aguardente
e genebra.
–
Por que não bebes? – perguntou-lhe o caixeiro.
–
Não quero embebedar-me. Preciso falar ao vice-rei antes dameia-noite.
Mas o vício não ficava de todo vencido. Bota-bicas não se
embebedava. Não tinha, porém, ânimo de sair da tasca.
O cheiro da aguardente encantava-o e retinha-o. Fê-lo
esquecer que as horas corriam e prendeu-o à tasca por tanto tempo que o pobre
doido soltou um grito e levantou-se desesperado, ouvindo os sinos de algumas
igrejas darem o sinal da meia-noite.
Bota-bicas, sem atender ao caixeiro que o procurava reter,
correu para o palácio e declarou que queria falar com o vice-rei.
Os soldados da guarda do vice-rei a princípio riram-se do
doido. Um deles, porém, aborrecido da sua insistência, deu-lhe tal empurrão,
que o fez cair estirado nas pedras.
Bota-bicas soltou um gemido pungente. Levantou-se a custo e
retirou-se, murmurando:
–
Não foi culpa do Bota-bicas.
Reinava o silêncio.
No recolhimento do Parto dormiam as recolhidas em profun do
sono.
Mas, ao soar aquela hora solene da meia-noite, Ana Campista
ergueu-se. Prendeu ao braço esquerdo uma pequena trouxa, acendeu uma lanterna,
envolveu-a com um lenço para encobrir a luz, tomou algumas velas de que já se
tinha munido, saiu para o corredor e seguia em direção à igreja, quando a porta
da cela de Matilde abriu-se, e as duas esposas adúlteras acharam-se em frente
uma da outra.
Matilde trazia também uma lanterna na mão direita e algumas
velas na esquerda.
Ana Campista havia recuado um passo. Logo, porém,
adivinhando pelos seus os desígnios de Matilde, avançou para ela e murmurou a
seus ouvidos com acento ameaçador:
– Incendiária!
Matilde estremeceu, cambaleou, e cairia desmaiada no
assoalho, se Ana Campista a não recebesse nos braços.
Não foi a compaixão nem sentimento algum de humanidade que
impediu aquela queda. O ruído não convinha a Ana Campista, que por isso
prevenira com o auxilio dos seus braços o baque de um corpo.
Logo depois, a ousada e terrível mulher descansou no
assoalho Matilde desmaiada, deixou junto dela a lanterna, cuja luz apagou, e as
velas que lhe pertenciam, e prosseguiu com passos rápidos e leves para a
capela.
À uma hora da madrugada os habitantes da capital despertaram
sobressaltados aos dobres dos sinos e ao rufar dos tambores.
O vice-rei montou a cavalo e saiu. As autoridades correram
aos seus postos, os corpos militares já estavam em armas.
No primeiro momento supôs-se que rebentara uma conspiração a
favor dos presos políticos comprometidos na projetada revolução de Minas
Gerais.
Os tranqüilos habitantes da cidade do Rio de Janeiro
hesitavam em sair de suas casas. Mas em breve encheram-se as ruas com a notícia
de que se incendiara o recolhimento do Parto.
Fantasmas de negro fumo e horríveis línguas de chamas
atestavam o grande infortúnio.
Uma fogueira colossal iluminava a cidade.
Ana Campista tomara com habilidade todas as suas medidas.
Fora atear o incêndio no fundo da igreja, e o fogo desenvolveu-se sem ser
sentido nesse lugar afastado.
Quando a luz infernal e ondas de fumo sufocante acordaram as
recolhidas, já era tarde. O incêndio tinha conquistado toda a capela e invadia
o recolhimento.
É inexprimível o terror e a desordem de que se apoderaram as
infelizes recolhidas. Todas gritavam misericórdia, todas tentavam debalde
salvarem-se.
Matilde, encontrada sem sentidos caída no corredor, tendo
junto de si algumas velas e uma lanterna, foi logo reputada autora do horrível
malefício.
Mas enfim, as portas começaram a ser despedaçadas,
penetraram guardas e homens dedicados no recolhimento. As recolhidas
arrojaram-se espantadas para a rua e Matilde foi levada nos braços de dois
soldados para fora do edifício inflamado.
Entre as reclusas, uma, porém, houve que se mostrou
intrépida e capaz de afrontar a morte.
O fogo abrasava a igreja toda. A reclusa heróica lembrou-se
das imagens santas, e, esquecida de si própria, arrojou-se à nave coberta e
cercada de flamas. Uma nuvem de fumo escureceu-lhe a vista. Mas nem assim
recuou, e, voando por entre as chamas, desaparecendo na fumaça, correu ao
altar-mor, tomou em seus braços a imagem de N. S. do Parto, e, sem dúvida
defendida por tão sagrado escudo, apareceu sã e salva no meio da multidão, que
a vitoriou entusiasmada.
O fogo consumiu todas as outras imagens.
No indizível tumulto e na desordem imensa a que o incêndio
dava lugar, Ana Campista conseguira desaparecer.
Quando se fez a conta das recolhidas, deu-se por falta dela.
Uns a acreditaram vítima do incêndio, outros pensaram que, aproveitando a
confusão geral, ela tinha escapado a uma reclusão que aborrecia.
Mas faltava o tempo para as reflexões.
Empenhavam-se todos os esforços para atalhar o fogo. O fogo,
porém, triunfava de todos os esforços do homem.
Com o estalido das madeiras, com o ruído dos tetos que desa
bavam, com o sussurro sinistro das chamas, misturavam-se os gritos da multidão,
as reclamações dos bombeiros e as ordens dos chefes, dadas em alta voz.
Lia-se em todos os semblantes a dor, chegavam a todos os
corações os gemidos e as lamentações das recolhidas, e no meio dessa aflição de
tantos, desse pesar de quase todos, retumbava de espaço a espaço uma gargalhada
estridente.
Era Bota-bicas, que em sua loucura ria-se daqueles que não
tinham querido acreditar no seu prudente brado! – Fogo no Parto!
Enquanto o incêndio devorava assim a capela e o recolhimento
de N. S. do Parto, Ana Campista corria para o sítio onde Gil Soares a devia
estar esperando.
Sem temor e sem refletir no mal que havia feito, sem receio
da justiça dos homens e da justiça de Deus, impávida e resoluta, Ana Campista
foi, com acelerado passo, atravessando o campo do Rosário, depois o campo de
Santana, e avançando sempre para o sítio desejado.
Em sua marcha rápida encontrara grupos de curiosos que se
dirigiam ao lugar do incêndio. Ninguém lhe falou, ninguém procurou conhecê-la.
Uma única vez ouviu a voz de um desconhecido, que exclamou,
ao vê-la passar:
– Onde irá essa infeliz?
Ana estremeceu. Aquela pergunta inesperada, aquela palavra –
infeliz – soou a seus ouvidos como um presságio funesto. Era tarde, porém, para
o arrependimento.
A incendiária do recolhimento do Parto continuou a caminhar,
e, arfando de fadiga, saudou, enfim, de perto a entrada do caminho de Catumbi.
Alguns passos ainda, e achar-se-ia nos braços de Gil Soares.
Ana Campista caminhou um pouco mais; de súbito, porém,
hesitou, parou e teve medo.
Gil Soares devia estar só e Ana começava a entrever alguns
vultos exatamente no lugar onde o seu amante prometera esperá-la.
A esposa adúltera julgou ouvir um gemido abafado. Aterrada,
pensou em voltar e fugir, mas faltaram-lhe as forças e ficou imóvel.
Um dos vultos avançou para ela, deixou cair uma capa em que
se envolvia, e mostrando bem de perto o rosto, perguntou-lhe com voz surda e
lúgubre
– Conheces-me?
A desgraçada reconheceu seu pai e caiu de joelhos.
Leôncio Peres arrastou-a para onde estavam os outros vultos.
Ana viu de um lado dois homens mascarados, do outro Gil
Soares com uma mordaça na boca, atado a uma árvore, e perto dele dois cavalos
selados.
O sítio era ermo. Não havia ali socorro possível.
–
A cavalo! – disse Leôncio Peres à sua filha. Queriam fugir,fugiremos.
Ana estava a ponto de desmaiar.
–
A cavalo! – repetiu o velho terrível e cruel.
E como não fosse logo obedecido, Leôncio fez que Ana
Campista se aproximasse de Gil Soares, e, tirando um punhal do seio, tornou a
dizer:
– A cavalo!
Ana pareceu não ouvir.
O velho descobriu o peito de Gil Soares, e marcando o lugar
do coração, aplicou aí a ponta do punhal, que penetrou algumas linhas.
A vítima gemeu. Ana sentiu o sangue do amante salpicar-lhe
as mãos e soltou um grito de dor extrema.
– A cavalo! – bradou Leôncio com a mão no punhal.
Ana Campista, trêmula e arquejante, montou a cavalo.
O velho imitou-a logo, e disse aos mascarados:
– Podeis retirar-vos. E... silêncio!
E quando não ouviu mais o ruído dos passos daqueles ferozes
cúmplices de uma vingança bárbara e inumana, Leôncio Peres tocou para diante do
seu o cavalo em que ia sua filha e obrigou-a a romper em rápida carreira.
Dentro em pouco Gil Soares nem mais ouviu o tropel dos ca
valos.
Quando se dissiparam as trevas daquela tormentosa noite, Gil
Soares foi encontrado ainda com a mordaça na boca, com os vestidos cheios de
sangue e atado à arvore, como o deixara Leôncio Peres.
Debalde procuraram fazê-lo dar esclarecimentos sobre os
motivos e os autores de semelhante violência. Gil Soares não se atreveu a
acusar aquele pai cruel e selvagem. Porque também a si acusaria, publicando a
verdade.
Leôncio Peres e Ana Campista desapareceram para sempre. O
fim que ambos tiveram foi um mistério que nunca se revelou, e de que
provavelmente a natureza deveu horrorizar-se.
Eis aqui a história do incêndio da capela e do recolhimento
de N. S. do Parto, como a ouvi daquele padre velho de quem tenho já falado aos
meus companheiros de passeio.
Mas eu estou convencido de que esse meu respeitável
informante arranja de vez em quando, e apesar de ser padre, suas petas muito
honradamente. E, pois que não desejo que nos nossos passeios a verdade seja
sacrificada aos encantos da imaginação, vou dizer o que é preciso para impedir
esse grave inconveniente.
Quem quiser prestar fé inteira à história que me contou o
padre velho pode fazê-lo, na certeza de que não virá por isso grande mal ao
mundo, e tenho a consolação de afirmar que muitas outras correm por aí tão
autênticas e positivas como esta.
Pela minha parte, creio que o padre velho arranjou um
romance em vez de contar-me uma história verídica. Entretanto, estou habilitado
para assegurar que há nesse romance algumas verdades que convém indicar.
É exato que Ana Campista e Matilde existiram, foram casadas,
esposas infiéis encerradas por seus maridos, em castigo das suas infidelidades,
no recolhimento do Parto.
É exato que viveu no tempo do vice-rei Luís de Vasconcelos o
tal doido Bota-bicas, e é absolutamente autêntica a sua prisão, como é
autêntica a quadrinha pela qual o vice-rei o mandou soltar.
É exato que alguns pensaram e propalaram ter sido Matilde
que pusera fogo ao recolhimento. Sobre Ana Campista, porém, recaíram ainda mais
veementes suspeitas da perpetração desse crime, porque a sua fuga pareceu a
muitos seguro indício de culpa.
É ainda verdade que Ana Campista desapareceu na madrugada de
24 de agosto, aproveitando-se do tumulto e da confusão a que deu motivo o
incêndio para efetuar uma fuga tão afortunada ou tão fatal, que não foi
possível descobrir-se o retiro a que se acolheu, ou o fim que teve essa
desgraçada, de quem não houve mais notícia, apesar de todas as indagações e
diligências das autoridades.
É, enfim, da mais completa exatidão o belo feito daquela
recolhida que ousou arrostar as chamas para salvar a imagem sagrada de N. S. do
Parto.
Resume-se nisto o pouco que sei de mais positivo a respeito
do incêndio do recolhimento e da capela do Parto. Contento-me com esse pouco, e
deixo as glórias do romanesco e dos alinhos de imaginação ao meu amigo e
informante, o padre velho.
V
Enquanto com energia e atividade se empregavam todos os
meios para atalhar o incêndio que devorava a capela e o recolhimento de N. S.
do Parto, o vice-rei Luís de Vasconcelos ocupava-se também das pobres
recolhidas que não podiam ficar na rua, nem acolher-se onde o seu recato não
estivesse plena e religiosamente defendido.
Em falta de melhor asilo, foram às recolhidas hospedar-se na
casa dos terceiros franciscanos, que servia de hospital, como ainda hoje o é, e
ali receberam elas todos os cuidados e socorros.
Matilde seguiu o destino de suas companheiras, que sem de todo absolvê-la da culpa daquele incêndio, acabaram por considerar Ana Campista a principal criminosa.
Ao romper do dia 24 de agosto, o incêndio tinha sido, enfim,
dominado. Mas da capela e do recolhimento só restavam as paredes enegrecidas.
Luís de Vasconcelos observava triste, aos primeiros raios do
sol, os restos fumegantes dos dois edifícios, quando, ao voltar os olhos, viu a
dois passos o mestre Valentim.
–
Está vendo, mestre? Perdemos em poucas horas o nossotrabalho de dois anos!
–
Senhor vice-rei – disse o arquiteto friamente – a fazendareal, o culto
religioso e a piedade perderam muito por certo, mas a arte...
–
Que tem com isto a arte?
–
Não perdeu coisa alguma.
Luís de Vasconcelos sorriu e tornou, logo depois:
–
Perdôo-lhe esse egoísmo de artista. Mas o seu gênio vai so-frer um novo
tormento.
–
Como?
–
Não temos dinheiro para levantar monumentos, e pois queainda nos ficaram as
paredes da capela e do recolhimento, é preciso que as aproveitemos nas novas
obras da reedificação.
–
Nas novas obras...
–
Que devem começar imediatamente debaixo da sua direção.
O mestre Valentim conhecia bem o homem que lhe falava, e
portanto, não replicou.
Luís de Vasconcelos tinha palavra e vontade forte, e no
arbítrio e no despotismo recursos vigorosos para fazer-se obedecido.
Quando encontrava um obstáculo que lhe impedia a marcha,
franzia as sobrancelhas, e o obstáculo desaparecia. Em uma hora, com quatro
ordenanças, realizava mais do que hoje o Ministério das Obras Públicas em um
ano, com toda a sua secretaria e com todos os seus engenheiros, empregados e
exército de trabalhadores.
Apesar disso, confesso que não quisera ter vivido no tempo
em que a liberdade e a sorte dos brasileiros pendiam dos cabelos das
sobrancelhas do vice-rei.
Porém, Luís de Vasconcelos quis, mandou e fez-se.
Quentes estavam ainda as cinzas resultantes do incêndio, e
tinham já começado as obras da reedificação da capela e do recolhimento de N.
S. do Parto.
Como por encanto, apareceram madeiras, materiais e
trabalhadores de sobra.
E dirigindo as obras, solícito, infatigável e zeloso
mostrava-se, correndo de um para outro lado, e falando e gritando, com um
acento minhoto muito forte que adquirira em Portugal o feio, mas habilíssimo
mestre Valentim, a quem todos conheciam mesmo de longe pelo infalível capote de
pano cor de vinho, que nas horas de trabalho e em seus passeios à noite trazia
constantemente, quer fizesse calor, quer frio.
O capote cor de vinho do mestre Valentim era célebre no Rio
de Janeiro, e mais de uma vez tinha sido o denunciante de seu dono, em algumas
empresas amorosas.
Com tanto vigor e atividade foram as obras executadas, que
se acharam prontas no fim do mesmo ano de 1789, e no dia 8 de dezembro puderam
voltar N. S. do Parto ao seu trono e as recolhidas ao seu asilo.
A reedificação não mudou o aspecto nem as proporções dos
edifícios, o que não pouco incomodava o mestre Valentim.
–
Então, mestre? – perguntaram-lhe uma vez. – Concluiu, en-fim, as suas obras?
–
Aquelas obras não são minhas – respondeu o arquiteto. –Aquelas obras são do
vice-rei.
Na tarde do dia 8 de dezembro de 1789, toda a população da
cidade do Rio de Janeiro acudiu ao largo da Carioca, à ladeira de S. Antônio e
à rua do Parto para testemunhar a aparatosa solenidade da volta de N. S. do
Parto e das recolhidas aos seus antigos domínios.
Houve uma brilhante procissão em que tomaram parte diversas
corporações religiosas e todas as pessoas gradas da capital.
A S. do Parto foi conduzida em um rico andor carregado aos
ombros do vice-rei Luís de Vasconcelos e dos homens mais graduados que a cidade
contava.
Imediatamente depois do andor, vinham as recolhidas, duas a
duas, com os olhos baixos e dando graças ao céus em piedosas orações.
O povo mostrava entre as recolhidas a mísera Matilde, que
caminhava menos alegre e mais perturbada que todas as suas companheiras.
A procissão, que saíra da igreja de S. Antônio, onde tinha
sido recolhida a imagem sagrada, seguiu logo para a capela reedificada, e aí
foi a S. do Parto colocada no seu trono, e em seguida encerraram-se as
recolhidas no seu asilo.
No dia seguinte, celebrou-se uma pomposa festividade
religiosa na capela nova.
O vice-rei Luís de Vasconcelos fez doação do que se
despendera com as obras da reedificação da capela e do recolhimento à mitra do
Rio de Janeiro, ficando, pois, desde então, uma e outra debaixo da guarda e
como propriedade episcopal, o que ainda mais confirmou a portaria do Ministério
dos Negócios do Reino, datada de 30 de setembro de 1812.
Dezessete anos mais tarde, outra portaria, de 13 de novembro
de 1829 (essa, porém, do bispo do Rio de Janeiro, passou a capela e a casa do
recolhimento de N. S. do Parto para o domínio do seminário episcopal de S.
José, como parte do seu patrimônio, com a obrigação de sustentar o mesmo
seminário o culto religioso na capela).
Mas, a esse tempo, já o recolhimento pertencia apenas à
história do passado, tendo desaparecido essa instituição em conseqüência de uma
espécie daquelas aposentadorias que, em seguida à vinda da família real
portuguesa para o Brasil, puseram a tanta gente com os trastes na rua.
O palácio real tinha, em 1808, conquistado o convento dos
Carmelitas e a igreja dos mesmos, que se tornara em capela real. E pouco
depois, operou a conquista do hospital da Ordem Terceira do Carmo, que ficava
contíguo, e ali estabeleceu a biblioteca também real, que foi franqueada ao
público. Sendo, porém, indispensável compensar a perda sofrida pela Ordem
Terceira, deu-se-lhe a casa do recolhimento de N. S. do Parto para aí ser
arranjado o hospital.
Essa mudança efetuou-se em 1814. Desde 1812, porém, o
recolhimento já tinha deixado de existir, ou porque se calculasse com a
necessidade da compensação, que se realizou dois anos mais tarde, ou porque
tivesse parecido a casa das recolhidas precisa e conveniente para algum outro
mister.
A Santa Casa de Misericórdia foi o seio onde se abrigaram as
meninas e moças que então ainda havia no recolhimento. É certo, porém, que nem
todas seguiram esse destino, e que uma ou outra ficou vivendo no século, e
recebendo uma pensão ou mensalidade paga, creio eu, pela mitra.
Ainda hoje, vê ir correndo o tempo, e rende, por isso e por
outros favores, graças a Deus uma, pelo menos uma, das antigas recolhidas de N.
S. do Parto. Mas não quero dizer quem é, nem onde mora, para poupá-la às
visitas e perseguições dos curiosos que de ordinário se mostram sobremaneira
impertinentes.
Assim, pois, o ano de 1812 pôs um ponto final ao
recolhimento de N. S. do Parto.
Devemos ter saudade dele? Creio que não.
Esse recolhimento nem era um estabelecimento criado para
instrução e educação de meninas, nem um convento de freiras. Abrigo de mulheres
sem voto, serviu também, e muitas vezes para reclusão de filhas e de esposas
condenadas por seus pais e por seus maridos.
Como simples retiro destinado àquelas que, aborrecidas do
século, desejavam fugir ao mundo e consagrar-se exclusivamente a Deus, era, sem
a menor dúvida, muito desnecessário, porque a mulher que, desenganada das
ilusões do século, quer engolfar-se no amor divino, tem o mais completo dos
retiros do mundo no exclusivismo desse amor puro e santo. Que receia ela fora
das grades e dos muros de um recolhimento? A tentação do Diabo? Ah! porventura
o Diabo não tem penetrado mil vezes nos recolhimentos e nos claustros? Não é o
hábito que faz o monge.
Como reclusão para filhas desobedientes e esposas infiéis,
era um abuso da prepotência do homem sobre a mulher e um castigo que a lei não
autoriza nem pode autorizar, porque, além de tudo, permitia que o homem fosse
ao mesmo tempo juiz e algoz, e que a ré, criminosa ou não, fosse julgada,
condenada e punida sem que pudesse um só momento fazer-se ouvir.
Convenho em que era um excelente recurso para os maridos que
se aborreciam de suas mulheres. Mas a religião não deve proteger a prepotência.
Como estabelecimento de educação para o sexo feminino,
poderia ser muito útil, uma vez que fosse bem dirigido. Mas ainda bem que não
perdurou, sendo o que era. Porque, se houvesse perdurado, talvez estivesse
agora entregue a certas professoras de religiosa importação, que no Brasil
florescem fora da lei ou acima da lei, pois que nem ao menos são sujeitas a
exame das matérias que ensinam, sendo, aliás, isso a todos determinado e de
todos exigido pelos regulamentos da instrução pública.
E bom foi que não tivesse sido convento de freiras, em vez
de simples recolhimento de mulheres sem voto, o asilo de N. S. do Parto, porque
assim contamos de menos um desses anacronismos de pedra e cal que ainda hoje
existem, uma dessas tristíssimas prisões onde, a par de algumas, talvez bem
poucas, respeitáveis e santas vocações, gemem em perpétuo tormento muitas
pobres senhoras que poderiam ter sido dignas e virtuosas mães de família, e
dado à pátria filhos prestantes e beneméritos.
Não me chamem irreligioso. A religião não pode andar em
briga com a natureza. A primeira lei de Deus não pode ser ultrajada pelos
homens em nome do mesmo Deus.
A mulher que por vocação, por arrependimento ou por qualquer
outro motivo entender que lhe cumpre separar-se do mundo e procurar ser
agradável a Deus, sujeitando-se a quantas privações e austeridades se observam
nos conventos mais rígidos, pode bem fazê-lo em sua casa, e por certo que será
prática mais meritória a observação de todas as regras claustrais no seio da
liberdade do que dentro dos muros de uma prisão, e em conseqüência de um voto
perpétuo, que equivale a um suicídio moral.
Os conventos são sepulturas de muitos corações que palpitam,
almejando debalde a vida.
Um voto de freira é um roubo feito à sociedade. É a morte
antes de se ter morrido. Nas portas dos conventos estariam bem cabidas as
palavras que o Dante escreveu na entrada do seu Inferno.
Mas por onde vou eu? Fiz protestos de concisão, e estou
divagando como um deputado que fala sobre o voto de graças. E em que me fui
meter? Quem sabe se desabará sobre mim alguma horrível trovoada?
Corro a abrigar-me no seio sagrado. Entro na capela de N. S.
do Parto.
Já dei uma ligeira idéia do triste e feio aspecto exterior
desta capela e do antigo recolhimento que se exteriormente não é feio nem
triste, mostra-se, pelo menos, irregular, muito comum e sem beleza alguma de
arquitetura.
Completarei agora aquela rápida e insuficientíssima
descrição, estudando o interior da capela.
Do antigo recolhimento falarei mais tarde, quando visitarmos
o hospital da ordem terceira do Carmo.
O nosso muito ligeiro exame e passageira apreciação hão de
limitar-se à sacristia e ao corpo principal da capela.
Comecemos pela sacristia.
É ela uma sala simples e pobre, mas proporcionada em tudo ao
resto do edifício de que faz parte.
Entretanto, encontram-se presos às paredes desta sacristia
preciosos tesouros artísticos que devem ser conservados com amor.
Além de um retrato do atual e venerando bispo, conde de
Irajá, obra de arte devida ao pincel do Sr. Silva Manuel, e de um retrato cujo
autor não conheço e que perpetua o nome de frei Francisco de Gênova,
missionário apostólico, capuchinho, ex-procomissário, falecido no dia 3 de
abril de 1852, religioso, sem dúvida, prestante, a quem a venerável Ordem
Terceira de N. S. das Mercês, em agradecimento aos seus relevantes serviços,
fez retratar para conservar a sua memória, além desses dois, digo eu, ainda há
um retrato do vice-rei Luís de Vasconcelos, e mais dois quadros cujo valor
aumenta à medida que o tempo vai correndo.
O primeiro desses quadros representa o incêndio do
recolhimento e capela de N. S. do Parto, lendo-se abaixo da pintura a seguinte
nota: “Fatal e rápido incêndio o que reduziu a cinzas em 23 de agosto de 1789 a
igreja, suas imagens e todo o antigo recolhimento de N. S. do Parto,
salvando-se unicamente ilesa dentre as chamas a milagrosa imagem do mesma
Senhora.”
Cumpre observar que nesta nota vem marcado o dia 23 de
agosto, como aquele em que teve lugar o incêndio. É um erro a que deu causa o
haver-se ateado o fogo nas primeiras horas do dia 24. Todos os cronistas marcam
o mesmo dia e a mesma data que marquei, exceto o padre Luís Gonçalves dos
Santos, que, nas suas Memórias, diz na noite de 23 para 24 de agosto de 1787, o
que é erro ainda maior.
O segundo quadro representa a capela e o recolhimento já
reedificados, e traz, como o primeiro, a sua nota: “Feliz e pronta reedificação
da igreja e todo o antigo recolhimento de N. S. do Parto, começada no dia 25 de
agosto de 1789 e concluída em 8 de dezembro do mesmo ano.”
Nestes painéis se descobrem as figuras do vice-rei Luís de
Vasconcelos e do mestre Valentim, e são ainda mais apreciáveis, e o serão
dobradamente para os vindouros, porque aí se podem estudar os trajos da época
desenhados com fidelidade e beleza.
Estes dois painéis e o retrato de Luís de Vasconcelos são do
mestre Leandro Joaquim.
Além das obras de arte que acabo de mencionar há na
sacristia uma porção de parede coberta de pés e pernas, mãos, cabeças, seios e
até meninos de cera, cumprimentos de promessas devotas e agradecidas à bondade
e misericórdia divina. São os testemunhos em cera dos milagres que têm dado
assunto a mil epigramas de certos viajantes que, quanto menos observam, mais
falham.
A capela propriamente dita contém, além do altar-mor, onde é
adorada N. S. do Parto, mais quatro altares, e ainda um portátil, do lado da
Epístola, e uma capelinha de N. S. das Dores, do lado do Evangelho.
A imagem de N. S. do Parto ainda hoje é, e deve ser sempre a
mesma que foi salva das chamas.
Os quatro altares laterais têm um painel de Santa Cecília e
alguns outros, que são todos obra de Leandro Joaquim.
Duas palavras sobre este artista.
Leandro Joaquim foi contemporâneo do célebre Manuel da
Cunha, que pintou o teto da capela do Senhor dos Passos na capela real e hoje
imperial. Teve um pincel suave, como diz o Sr. Porto Alegre, e deixou muitos
quadros na igreja de S. Sebastião do Castelo, na de N. S. do Parto,
conforme acabamos de ver, e provavelmente em outras.
Nada mais sei de Leandro Joaquim, e pena é que tão pouco se
sabia dos nossos artistas.
Acabemos com o estudo da capela.
O coro chama agora, e por último, a nossa atenção.
Encontram-se aí, embora em quase abandono, os sinais postremos do antigo
recolhimento.
O coro da capela, aberto aos músicos que devem acompanhar
com seus cantos as solenidades religiosas, está colocado entre um outro,
defendido por grades de pau, que era o coro das recolhidas, e o locutório, que
se mostra ainda no fundo da capela, vedado por grades também de pau.
O locutório servia também de comungatório às recolhidas e,
além de comungatório, de sepulcrário a essas pobres criaturas.
Hoje em dia, está o antigo locutório reduzido a armazém de
trastes velhos. Quem entra, porém, ali, ainda vê no meio de cadeiras e de
armários desconjuntados o esquife em que eram por algumas horas depositados os
cadáveres das recolhidas que morriam, e ainda pode contar as sepulturas que as
esperavam, cárceres da morte preparados no seio de um cárcere da vida.
Não tenho mais que descrever. Restam-me, porém, algumas, bem
poucas, recordações a deixar aqui registradas.
A capela de N. S. do Parto já teve o seu tempo de esplendor.
Celebravam-se nela festas pomposas, sendo entre outras muito
notável a de Santa Cecília, cujo culto os músicos tinham e têm tomado a seu
cargo.
Ouviram-se nessa capela os nossos principais oradores
sagrados. Mas, por certo, que não se pode contar no número deles um padre Fuão
de tal Macedo, que andava de hábito de Rilhafoles, e que ali ia pregar
muitas vezes com o fim de doutrinar o povo.
Esse padre Macedo não pregava sem ajudante, e o seu ajudante
era sempre algum menino por ele industriado.
O padre subia ao púlpito, e em baixo do púlpito postava-se o
menino.
Começava o orador o seu discurso, e imediatamente
estabelecia um diálogo com o ajudante, que em caso de aperto, por esquecimento
do seu papel, tinha o recurso de responder a tudo, bradando: “Sim, padre! Sim,
padre!”
Ainda vivem pessoas que ouviram alguns desses sermões em
diálogo, pregados pelo padre Macedo.
Organizaram-se na capela de N. S. do Parto algumas
irmandades, e entre elas floresceu bastante a de Santa Cecília, irmandade de
que proveio, penso eu, a sociedade de música do Rio de Janeiro, instituição de
beneficência, a que deve o Brasil a fundação de um conservatório de música, que
andou manquejando por muito tempo, e ainda hoje não anda o melhor possível,
sendo de esperar (a esperança é tão doce!) que dentro em pouco marche
perfeitamente como convém ao país e à arte musical.
Uma das irmandades estabelecidas na capela de N. S. do Parto
deve desvanecer-se de uma singularidade, pois, se não me engano, tem uma
reforma do seu compromisso aprovado, e talvez sancionada por portaria ou talvez
por decreto de um juiz de paz.
A reitoria do seminário de S. José, pelo direito que lhe deu
o bispo com a portaria de 13 de novembro de 1829, se ocupa desde algum tempo em
recuperar diversos bens pertencentes à capela de N. S. do Parto, e que, segundo
parece, não eram por ela aproveitados, e conseqüentemente forçada se tem visto
a demandar com o governo e com irmandades.
Reivindicando a posse da casa do antigo recolhimento,
mostrou aquela reitoria o seu direito ao governo, e com este conseguiu, a 15 de
abril de 1861 fixar um contrato de locação da mesma casa por nove anos.
Em suas questões com algumas irmandades das estabelecidas na
capela de N. S. do Parto, vai sendo igualmente feliz a reitoria do seminário de
S. José.
Não tenho nem tempo, nem disposição para estudar
profundamente essas questões judiciais da mitra ou do seminário de S. José com
o governo e as irmandades estabelecidas na capela de N. S. do Parto. Preciso
seria fazê-lo para que, no tribunal do meu passeio, desse eu a minha sentença.
Salto por cima dessas questões, e deixo a cada uma das
partes o cuidado de sustentar e provar o seu direito. Mas não nosso abster-me
de confessar que tenho motivos para fazer uma censurazinha, ou mesmo
censurazona ao seminário de S. José e às irmandades estabelecidas na capela de
que trato.
Quem entra nessa capela encontra os altares cheios de
poeira, as paredes nunca espanadas, e uma falta de asseio e de cuidado que são
verdadeiras ofensas ao culto.
Quem deve carregar com a culpa de tanta incúria? Sobre quem
deve cair tanta poeira? Não discuto, não sei. Sustento somente que há
necessidade de algumas escovadelas.
Tal foi o recolhimento, e tal foi e tal é a capela de N. S.
do
Parto.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Sé do Rio de Janeiro
I
POSITIVAMENTE não contáveis com um passeio à Sé do Rio de Janeiro.
Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e
estudastes comigo a igreja do antigo convento do Carmo, elevada a catedral
desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, e sem dúvida, vós supuzestes
por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.
Acrescentai mais uma suave ilusão ao número das vossas
ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos
os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.
Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos
meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reisinhos absolutos na
sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles
bichos não são melhores do que eu.
Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai
ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela rua do Ouvidor, parando
diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando
coronéis no Desmarais, e ao chegar à rua Direita, descansando um pouco nos
banquinhos do Boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial
para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não
tão desastradamente para o tesouro nacional como as companhias líricas italianas,
que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.
Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o
competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os
carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários
o aluguel das casas em que moram.
Comecemos.
A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular
estabeleceram-se apenas se realizou a sua instituição na primeira matriz da
cidade, na igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.
Mas onde era essa igreja de S. Sebastião?
É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar
esclarecido este ponto.
Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.
Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito
como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo
sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do
Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus
domínios da América deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói,
namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia
ousaram com mão armada apoderar-se dela.
Os portugueses trocaram, então, a indiferença por amor, e
ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560,
atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro
governador-geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e ficou vencedor, mas
chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses
vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.
Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito al
gum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu
pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a
casa sem moradores e com a porta aberta.
E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.
Os franceses tornaram a entrar, e fizeram muito bem.
Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França,
que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos
seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.
Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de
outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá,
sobrinho do governador-geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses,
para lançá-los fora das posições que ocupavam.
Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o
concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.
Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio
de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência
gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto
do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se dominou de Martim
Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os
fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi
mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era
devida àquele santo mártir do Céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S.
Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D.
Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.
Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o
segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro
I, § 78, da sua Guerra Brasílica, que “chamaram [a cidade] de S. Sebastião,
vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção
do santo”.
E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do Céu como em breve terei ocasião de dizer, e mos trando-se no Rio de Janeiro à frente dos portugueses, deu pancada velha, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.
Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da
cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se
uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou
de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.
Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da
sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais
sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas
em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas
gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai
reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se
do fogueteiro que fabricou as girândolas.
Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os
portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam,
levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira
inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador-geral Mem de
Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse
consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses,
e o fez com tanto ardor que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas
fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.
Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia
deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os
sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os
quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.
Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto,
nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e
simplesmente refiro uma tradição conservada por alguns autores.
Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes
pala vras: “A quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em
algumas ocasiões mais apertadas [referem às relações manuscritas do venerável
padre José de Anchieta] que a favor dos nossos se vira pelejar contra os
inimigos.”
Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da
cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: “Deu-se-lhe o nome de S.
Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve
indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por
muitas pessoas visto no combate pelejar diante dos portugueses um mancebo tão
valoroso quanto desconhecido, que a piedade e a devoção julgou ser o glorioso
santo ao qual haviam tomado por protetor, memória que sempre conservou aquela
cidade nos cultos de padroeiro que lhe dedica.”
Entrego a tradição aos meus companheiros de passeio tão
fielmente como a recebi. Dei aos pais a criança, e portanto, estou livre de
toda a suspeita de paternidade.
Mas não se comem trutas a bragas enxutas. S. Sebastião
tornara invictos, porém não invulneráveis, os portugueses. Estácio de Sá foi na
peleja ferido no rosto por uma flecha, e morreu depois de não poucos dias de
sofrimento, recebendo sepultura sob o teto de palha da igreja que levantara.
Mem de Sá, que era obrigado a voltar para a cidade do
Salvador, capital do Brasil, resolveu primeiro mudar da Praia Vermelha para
melhor posição o assento da nova cidade, e acertou escolhendo um monte que
depois se chamou do Castelo, e a praia que lhe fica vizinha. Deu logo princípio
aos trabalhos, e retirando-se, enfim, nomeou governador do Rio de Janeiro outro
sobrinho seu, Salvador Correia de Sá.
Indubitavelmente o novo governador, Salvador Correia de Sá,
prestou muitos serviços e mostrou-se digno da honra que lhe fizera e da
confiança que depositara nele seu tio. Mas esta sucessão de parentes não sei se
trouxe consigo um cheirinho de mau agouro... Dir-se-ia que o Rio de Janeiro
estava destinado a ser uma espécie de feudo de um círculo privilegiado. Eu
embirro com o domínio dos sobrinhos de seu tio sobre qualquer terra e qualquer
povo. É uma simples embirração. Vamos adiante.
Roma não se fez num dia, e portanto, não é de admirar que a
cidade do Rio de Janeiro não se fizesse em um ano.
Salvador Correia de Sá animou os colonos portugueses,
excitou-os a levantarem suas cabanas e deu-lhes bom exemplo, construindo no
morro do Castelo o seu primeiro palácio, que, sem dúvida, foi de pau-a-pique e
teto de palha. Os jesuítas arranjavam o seu ninho no Rio de Janeiro, tendo um
dos olhos fito no gentio, o outro no futuro e a alma ocupada ao mesmo tempo do
serviço espiritual de Deus e das conveniências temporais deste mundo. Eram (e
dizem que continuam a ser) uns padres que sabiam arranjar perfeitamente os seus
negócios, adorando a Deus e entendendo-se com o Diabo.
A nova cidade ia-se desenvolvendo. Construíam-se casas no
morro do Castelo e perto do mar no sítio ocupado depois pela Santa Casa da
Misericórdia e em suas circunvizinhanças.
A nascente e já desprezada povoação da Praia Vermelha ficou
sendo chamada Vila Velha, até que esse mesmo nome perdeu com o desaparecimento
das cabanas que a formavam e que pouco e pouco foram caindo.
O que eu não sei ao certo, mas admito como provável, é que
Salvador Correia de Sá mandasse levantar no morro do Castelo alguma capela
provisória. Mas é positivo que desde logo esse ativo governador meteu mãos à
obra de uma nova igreja mais decente feita de grossa taipa, como permitiam as
circunstâncias do tempo. Infelizmente, porém, esses trabalhos pararam com a
terminação do seu primeiro governo.
No ano de 1568, ou no seguinte, Cristóvão de Barros veio substituir a Salvador Correia de Sá, e não deixou seu nome lembrado por feito algum importante no governo da nascente cidade. Em 1574 o Dr. Antônio Salema sucedeu a Cristóvão de Barros, trazendo o elevado caráter de governador-geral das capitanias do sul do Brasil, e cuidou mais em matar e escravizar índios do que no culto divino. Entendeu lá para si o sabichão magistrado que era menos digno do seu alto poder acabar a casa começada para S. Sebastião do que incendiar aldeias de gentio, fazer horrorosas matanças nesse rude povo e lançar em cadeias de nefanda escravidão alguns mil caboclos que caíram em suas mãos, quando ele já estava bem farto de sangue. Não construiu, destruiu. A beca do famoso magistrado deixou no Rio de Janeiro um rasto de sangue e de horrores. Era uma beca que levava fogo na cauda.
Dizem que o Dr. Antônio Salema foi um grande civilizador e
que pôs tudo em boa ordem nos seus domínios. Ah! meu Deus quanto aleive se tem
levantado às idéias de civilização e de ordem! Eram capazes de dar patente de
civilizador a um tigre, e de chamar ordeiro a um algoz!
Em 1578, Salvador Correia de Sá, tornando a ser encarregado
do governo do Rio de Janeiro, deu novo impulso à obra da igreja que mandara
construir no alto do morro do Castelo, e conseguiu enfim vê-la de todo acabada
no ano de 1583.
Foi esta a segunda igreja de S. Sebastião no Rio de Janeiro.
Ignoro se a sagrada imagem do padroeiro da cidade foi nesse
ano levada para a nova casa, ou se desde algum tempo ali já se achava em algum
altar provisoriamente armado. Mas, com certeza, foram em 1583 transferidos para
a igreja mencionada os ossos de Estácio de Sá, que descansavam na sua sepultura
da capela de Vila Velha.
A trasladação dos ossos do primeiro governador do Rio de
Janeiro, o valente capitão que selou com o seu nobre sangue a vitória dos
portugueses em janeiro de 1567 foi feita com todas as honras militares e
religiosas, e sobre a sua campa, na igreja nova do Castelo, ficou gravado o
seguinte epitáfio: “Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador
desta terra e cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correia de Sá, seu primo,
segundo capitão e governador, com as suas armas. E essa capela acabou no ano de
1583.”
Declarou o padre José de Anchieta, o muito célebre jesuíta,
que Estácio de Sá falecera com grandes sinais de virtude que em toda aquela
conquista tinha mostrado, e que no ato de se abrir a sua sepultura e de se
trasladarem seus ossos, experimentara um servo de Deus da Companhia de Jesus
que saía deles um cheiro suave como sinal de que gozava sua alma da felicidade
da glória.
Pizarro pensa com razão que o tal servo de Deus da Companhia
de Jesus, que experimentara o cheiro suave, fora o próprio padre José de
Anchieta, e eu, pela minha parte, limito-me a dar notícia do caso com o nome da
testemunha que o referiu, e abstenho-me de reflexões.
À parte a questão do cheiro suave dos ossos de Estácio de
Sá, é indubitável que a sepultura desse ilustre varão tem para nós grande
importância histórica. E assim o entendeu o atual imperador do Brasil o Sr. D.
Pedro II, quando, ainda bem jovem, em 1842 ou 1843, depois de uma visita com
que honrou a Escola de Medicina, foi pessoalmente procurar aquela sepultura na
igreja de S. Sebastião do Castelo, e aí gastaria, sem dúvida, bastante tempo
antes de descobri-la, pois que nenhum dos empregados da igreja tinha idéia
dessa antigualha, se entre diversos estudantes de medicina que tiveram licença
para acompanhar Sua Majestade não se achasse um que, por muito louvável
curiosidade, tinha já descoberto aquele tesouro da história do passado,
conseguindo decifrar o epitáfio do primeiro governador do Rio de Janeiro.
O estudante de que falo é hoje o Sr. Dr. José Ribeiro de
Sousa Fontes, lente da Escola de Medicina, que se ufana de contemplar
nele um dos seus mais ilustres filhos.
Estou convencido de que atualmente a sepultura de Estácio de
Sá é objeto dos mais solícitos desvelos dos frades barbadinhos que se acham de
posse da igreja de S. Sebastião do Castelo. Porque estes religiosos quererão
provavelmente pagar, ao menos, com um tão louvável cuidado, as inocentes e
civilizadoras conquistas que vão efetuando no morro onde se foram asilar.
À vista do que acabo de expor, creio que fica bem e
positivamente determinado que S. Sebastião, o padroeiro da nossa heróica e leal
cidade, teve o seu primeiro altar em uma casa de palha na Praia Vermelha, e o
segundo em uma casa de taipa no monte do Castelo, e que nesta recebeu o cabido
do Rio de Janeiro.
Esclarecido, pois, este ponto, entremos no estudo da Sé do
nosso bispado.
Mas... eis aí o morro do Castelo, que pede a palavra pela
ordem e exige que lhe paguemos o tributo de alguns momentos de atenção.
É impossível não satisfazer uma tão justa exigência. A Sé
não pode ser impaciente. Bem vê que é um monte que está clamando. Ah! E eu
tenho bem receio que deste clamor de montanha vá nascer um ratinho.
Não importa. Direi alguma coisa da história do morro do Castelo.
Os franceses, que, por doze anos, de 1555 a 1567, dominaram
na baía do Rio de Janeiro, nunca passaram de algumas ilhas e da praia, e se
alguns deles subiram uma ou outra vez o monte que depois se chamou do Castelo,
só o fizeram por curiosidade, ou talvez seguindo a pista de alguma bonita
caboclinha.
O sítio que mais vizinho do morro do Castelo os franceses
ocuparam foi o que muito mais tarde veio a chamar-se ponta do Calabouço,
e aí deixaram eles algumas obras de fortificacão que depois o governador Martim
de Sá ou Martim Correia de Sá adiantou notavelmente, e dizem alguns, à custa da
própria fazenda, elevando-o à categoria de forte, que recebeu o nome de S.
Tiago.
O vice-rei marquês do Lavradio reconstruiu este forte e
acrescentou-lhe a praça e a força. Durante muitos anos chamara-se aquele sítio
ponta da Misericórdia. Mas acabou por trocar esse nome pelo de ponta do
Calabouço, que ainda conserva, apesar de haver perdido a triste condição que
lho fizera merecer.
O morro do Castelo não se chamou nem havia razão para ser
chamado do Castelo, nos primeiros tempos. O padre Simão de Vasconcelos, falando
da fundação do colégio dos jesuítas na cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, não dá nome ao sítio onde se estabeleceu o colégio, e a carta régia da
rainha regente, que permitiu tal fundação, diz apenas “um segundo colégio na
capitania de S. Vicente”. E assim o diz, porque o Rio de Janeiro estava dentro
dos limites dessa capitania.
Morro do S. Sebastião foi, sem dúvida, o primeiro nome que
recebeu o monte, berço primitivo da capital do império do Brasil, e assim se
encontra ele designado em algumas memórias e documentos antigos. Donde lhe veio
tal denominação é tão claro que nem tomo o trabalho de explicar.
Quando começou esse morro a chamar-se do Castelo não sei
bem, mas é de supor que fosse no primeiro quarto do século décimo sétimo,
depois que o governador Martim de Sá fez construir uma fortaleza na eminência
do monte, com grande circunferência, diz Rocha Pita, e feita em um semicírculo
pela parte da cidade, e pela outra fechada com a torre da pólvora.
Esta obra de defesa foi cerca de cem anos depois desprezada,
e aí se colocou em tempos muito mais próximos o telégrafo, tendo sido antes de
1711 construída outra praça mais ampla e mais regular, dentro da qual, e no
meio de um espaçoso pátio, se abriu uma profunda e famosa cisterna.
Pouco mais ou menos nesta mesma época, isto é, logo depois
do ataque da cidade do Rio de Janeiro pelos franceses comandados por Duclerc,
levantou-se um reduto que cobria o desembarque nas praias de Santa Luzia e de
N. S. da Glória, e como fosse dedicado a S. Januário, deu-se a essa parte do
monte que fica da igreja de S. Sebastião, ou Sé Velha, para o lado do convento
da Ajuda o nome de S. Januário. Mas houve por isso mesmo não pouca gente que
chamasse indistintamente todo o morro ora do Castelo, ora de S. Januário.
No reduto de S. Januário estabeleceu-se o laboratório de
fogos artificiais, como diz Pizarro.
Vivemos, graças a Deus, em tempos de perfeita paz, e em que
não há receios nem de invasões de inimigos externos, nem do flagelo de guerras
civis. Dessas fortalezas restam, pois, unicamente vestígios, e no leito da
primeira que se construíra no Castelo vê-se hoje um jardim modesto que, em
letras de verde relva, se anuncia dedicado ao belo sexo pelo diretor do
telégrafo ali levantado, o excelente velho coronel Gabizo, que, apesar dos seus
cabelos brancos e avançados anos, folga ainda de ver engraçados e alegres
ranchos de moças bonitas, aprazendo-se e passeando nos seus domínios.
Com efeito, o telégrafo do Castelo, com seu jardinzinho e seu pátio, suas ruas e sua fonte, e sobretudo, com a sua feliz situação, avassalando a cidade do Rio de Janeiro e a magnífica baía de Niterói, é um dos mais freqüentados e estimados passeios da capital, e principalmente aos domingos e dias feriados não há tarde em que uma multidão festiva, ruidosa de contentamento e atraída pelo mais formoso panorama, não vá aproveitar-se das inocentes e suavíssimas delícias que lhe facilita o sempre obsequiador coronel Gabizo, ali no trono dos seus estados telegráficos.
Naquele sítio aprazível e encantador os olhos têm sempre um
quadro admirável a contemplar na majestosa natureza do Rio de Janeiro, os
ouvidos têm às vezes segredinhos misteriosos e ternos a roubar a namorados que
se atraiçoam em seu embevecimento, os corações perigos a correr expostos à
impressão das graças e da beleza de mil jovens interessantes e lindas, que
bebem a água da Carioca, água encantada e mimosa que, conforme dizem muitos, e
entre esses Rocha Pita, é fama acreditada em seus naturais que “faz vozes
suaves nos músicos e mimosos carões nas damas”. E os pulmões, enfim, exultam,
respirando um ar livre, puro, suave e bem diverso daquele com que a
ilustríssima Câmara Municipal infecciona e envenena o respeitável público nas
ruas imundas da cidade.
Ah! Eu contava despedir-me do morro do Castelo neste
primeiro passeio à Sé do Rio de Janeiro, e reconheço agora que não se deixa
este célebre monte com duas razões e meia.
Tenho ainda muito que dizer a respeito dele. Mas é de regra
que não se faça um longo discurso sem molhar a palavra. A regra é parlamentar.
Foi estabelecida na Câmara temporária, adotada por unanimidade de votos no
Senado, e portanto, posso bem admiti-la nos meus passeios.
Vou beber um copo d’água.
No corpo legislativo quem paga os copos d’água (e são caros
como brilhantes sem jaça) é o tesouro público. Neste meu passeio quem mo vai
pagar é o meu velho amigo o coronel Gabizo.
Descansem, pois, os meus companheiros de passeio, enquanto
molho a palavra.
II
Subir o morro do Castelo, percorrê-lo, estudar, embora muito
rapidamente, a sua história e descer enfim desse velho e desprezado ca pitólio
da cidade do Rio de Janeiro, sem ter parado, por alguns minutos ao menos,
diante do antigo colégio dos jesuítas, fora o mesmo que ir a Roma e não ver o
papa.
Paremos, portanto, defronte desse bem pouco bonito e não
pouco interessante edifício que se mostra, como todos sabem, e quem quer vê, no
morro do Castelo, à mão esquerda de quem sobe pela ladeira chamada no outro
tempo do colégio e agora da misericórdia, e tal qual era no século passado, com
a exceção de um alegre e elevado terraço que havia na sua extremidade do lado
direito, e que recentemente recebeu teto e janelas e oferece novas acomodações
na casa.
Não farei uma descrição do edifício, nem levarei os meus
companheiros de passeio a visitar suas numerosas salas e seus corredores, que
sucessivamente têm ouvido orações e misteriosos conselhos de jesuítas, gemidos
de doentes e moribundos, lições de respeitáveis lentes e cantos e risadas de
estudantes de medicina, e outra vez lamentos de enfermos e suspiros de
agonizantes.
Não farei descrições, repito, e limitar-me-ei a lembrar
alguns pontos principais da história dessa casa grande.
Já disse em outro lugar que os jesuítas entraram no Rio de
Janeiro com Estácio de Sá, e que arranjaram logo o seu ninho na cidade
nascente, fundada por Mem de Sá em 1567.
Da Crônica da Província do Brasil, do padre Simão de
Vasconcelos, copio a lembrança desse fato.
“... No coração da cidade deu Mem de Sá sítio, onde os
padres escolheram, para fundação de um colégio e logo em nome de S. A. o
sereníssimo Rei D. Sebastião, de saudosa memória príncipe liberal, lhe aplicou
dote de renda necessária para sustento de até cinqüenta religiosos, que aceitou
e agradeceu em nome de toda a companhia o P. visitador Inácio de Azevedo. A
escritura autêntica do dito dote se passou depois em Lisboa, firmada pela mão
real em 6 de fevereiro do seguinte ano de 1568.”
Os jesuítas foram os mais felizes dos primeiros habitantes
da cidade do Rio de Janeiro. Porque, como fica dito, tiveram logo segura a sua
subsistência à custa do Estado e puderam muito desembaraçadamente meter mãos às
obras do seu colégio, que levantaram e foram au mentando, sem que, contudo,
conseguissem acabá-lo todo com a grandeza que tinham planejado, pois que, em
1759, deixaram a igreja apenas começada, e paredes e muralhas imensas que
prometiam um edifício majestoso.
Os padres da Companhia de Jesus foram sempre e em toda a
parte muito buliçosos e rusguentos, e no Rio de Janeiro achavam-se em luta
constante com o povo, e por vezes criaram sérios embaraços ao Governo.
Ligando-se à autoridade eclesiástica, que em compensação
apadrinhava os seus interesses temporais, os jesuítas a protegiam em suas
pretensões de invadir as prerrogativas do poder civil.
Tratando de aumentar suas riquezss com a posse de extensos
territórios, os padres da Companhia rompiam em contestações com o povo, que era
apoiado pela Câmara, que chegou uma vez a ser excomungada, e tornavam-se
aborrecidos pela sua ambição inexcusável.
E finalmente, defendendo com ardor a liberdade dos índios,
que lhes fazia muita conta, servindo aos seus cálculos de poder e de
engrandecimento, viam-se constantemente em contendas com os colonos.
Em conseqüência de uma dessas questões de índios,
levantou-se uma vez o povo da cidade do Rio de Janeiro (e também em São Paulo,
onde a desordem tomou caráter muito mais sério), e os jesuítas viram-se
ameaçados no seu próprio colégio.
Eis o caso. Irritados pelo arrojo dos sertanejos paulistas
que, perseguindo o gentio, chegavam a ir atacar e escravizar os pobres índios
nas próprias missões dos jesuítas, e ainda não menos ressentidos do proceder
dos colonos do Rio, que compravam aos paulistas os selvagens escravizados,
mandaram os padres da Companhia dois dos seus como emissários, um a Roma e
outro a Madri, para trazerem dessas cortes as providências que mais desejavam,
e com efeito, receberam em 1640, do papa Urbano VII, a publicação no Brasil da
bula de Paulo III a favor dos índios do Peru, declarando incorrerem em
excomunhão os que cativassem, vendessem, traspassassem ou se servissem dos
índios.
Era então Governador do Rio de Janeiro Salvador Correia de
Sá e Benevides, homem distinto, valente capitão e chefe severo, e o Padre Albernaz exercia também nesse tempo o cargo de administrador eclesiástico e mostrava-se muito favorável aos padres da Companhia.
A bula foi apresentada a Albernaz e os jesuítas exultavam já
com o seu triunfo, quando saíram a campo com embargos a Câmara e o povo, e
este, não contando muito com a justiça oficial, foi de voz em grita reunir-se
em frente do colégio, mostrando-se sinistramente disposto a dar uma lição
tremenda aos filhos de Loiola.
O colégio dos jesuítas achou-se cercado e os sitiantes
estavam-se dispondo a tomar de assalto essa Sebastopol defendida por guerreiros
de roupeta. Mas os atiladíssimos padres foram sempre tão ousados com certeza de
vitória, como prontos a recuar risonhos e meigos nas batalhas de um êxito
duvidoso. Capitularam, pois. A bula ficou sem efeito, e eles, prometendo
caridoso esquecimento do ataque do colégio in toto pro bono pacis, abençoaram o
povo com as mãos direitas, e no fundo do coração o mandaram ao Diabo.
O que não tem remédio dá-se pelo amor de Deus.
Os jesuítas obedeceram ao provérbio.
Em desavenças sempre mais ou menos acesas com o povo, e
enfim, em oposição declarada ao Governo de D. José I, no meado do século
décimo-oitavo, os jesuítas, que se reputavam mais fortes que o rei, viram-se,
de súbito, fulminados e proscritos pelo déspota ilustrado marquês de Pombal, e
no mês de novembro de 1759, foram presos no Rio de Janeiro, depois expulsos,
ficando vago e incorporado aos bens da coroa o seu colégio, como todas as
outras suas propriedades.
Não me consta que alguém chorasse com saudades dos jesuítas,
e por isso não posso fazer menção das lágrimas derramadas em conseqüência da
proscricão desses padres, de quem confesso que desconfio muito, pela simples
razão de que ainda não houve governo nem povo que pudesse viver com eles em boa
paz.
Ao conde de Bobadela, que tomara as chaves do colégio dos
jesuítas, sucedeu, como vice-rei do Brasil, D. Antônio Alves da Cunha, conde da
Cunha, que governou desde 16 de novembro de 1763 até 21 de novembro de 1767, e
que neste ano ativamente se ocupava de novas obras naquele edifício, com o fim
de mudar para ele a residência dos vice-reis, medida que fora aprovada por
carta régia de 19 de outubro de 1766.
Provavelmente não tornarei a falar no conde da Cunha.
Aproveito, pois, a ocasião para dizer deste administrador alguma coisa que o
torne mais conhecido.
Devem-se a este vice-rei uma ativa e severa perseguição dos
ladrões, e uma tal convicção de segurança de vida e de propriedade no Rio de
Janeiro, que se dormia na cidade e seus contornos, deixando-se abertas as
portas das casas! Positivamente o conde da Cunha era mais zeloso e mais
respeitado do que a nossa atual polícia, a cuja sombra os habitantes da capital
não dormem tranqüilos, nem mesmo trancando com sete chaves as portas de suas
casas.
Devem-se-lhe mais os reparos e aumentos de quase todas as
fortalezas antigas e a construção de outras. A fundação de um arsenal junto ao
morro de S. Bento, onde se construiu uma famosa nau chamada S. Sebastião. E
assim como esse arsenal foi o princípio daquele que depois se elevou a Arsenal
de Marinha, também se deve ao mesmo vice-rei o princípio do nosso Arsenal de
Guerra, na grande casa que mandou levantar na ponta da Misericórdia para o
parque de artilharia, cujas fábricas foram reguladas e providenciadas pela sua
especial direção e fiscalização.
Além de muitos outros bons serviços, prestou o conde da
Cunha ainda um, pelo qual se tornou verdadeiro benemérito das moças, fazendo a
favor delas muito mais do que S. Gonçalo de Amarante tem feito a favor das
velhas, porque determinou que os homens solteiros ou se casassem ou assentassem
praça nos regimentos de linha. Calculem os meus companheiros de passeio que
epidemia de casamentos grassou na cidade do Rio de Janeiro no tempo do conde da
Cunha! Diz monsenhor Pizarro que “daí principiou, sem dúvida, a multiplicação
de povo que em poucos anos depois foi aparecendo no termo do Rio de Janeiro e a
notável cultura das terras do seu distrito, até então inúteis, por lhes
faltarem os braços que as fizessem produzir”.
Tenho receio de que as senhoras solteiras do nosso tempo se
declarem absolutistas e recolonizadoras por amor do conde da Cunha.
Realmente um vice-rei casamenteiro deve parecer às senhoras
muito mais útil à pátria do que dez ministros constitucionais.
Entretanto, convém que se saiba que o conde da Cunha foi
aborrecido pelo povo nos primeiros tempos do seu vice-reinado.
Era déspota, como todos os vice-reis o foram, mas ativo e
zeloso, desejava fazer o bem e distribuía a justiça com imparcialidade e
retidão. Acontecia, porém, que a sua justiça chegava ao povo transformada em
patronato, em arbítrio cruel e em abusos escandalosos que oprimiam os
governados.
À força de muito sofrerem as vítimas desabafaram,
queixando-se em alta voz, e o vice-rei descobriu enfim que o ajudante oficial
da sala e outros subalternos mentiam à sua confiança, desvirtuavam as suas
deliberações e ordens, e para satisfazer ambições e vinganças, flagelavam o
povo à sombra do seu poder e em seu nome. Era a corte do vice-rei que ostentava
os vícios e a desmoralização que se observa em quase todas as cortes. Mas o
conde da Cunha não deixou impunes os aduladores e falsos amigos que o cercavam
e, punindo-os severa e exemplarmente, acabou o seu governo com louvor e aplauso
de todos, e... abençoado pelas moças.
D. Antônio Rolim de Moura Tavares, conde de Azambuja,
sucedeu ao conde da Cunha no vice-reinado do Brasil, e não aprovando a mudança
da residência dos vice-reis para o antigo colégio dos jesuitas, aproveitou as
obras que aí se estavam fazendo para estabelecer, como de fato estabeleceu
nessa casa, o hospital militar.
Até os primeiros anos do século décimo-oitavo os soldados da
guarnição do Rio de Janeiro, das guarnições dos navios de guerra e os presos
eram tratados em suas moléstias na Santa Casa da Misericórdia, que recebia, por
isso, da fazenda real um conto de réis anualmente. Em cumprimento da carta
régia de 21 de março de 1702, cuidou-se de criar um hospital dentro do chamado
Quartel das Naus, que era na rua chamada dos Quartéis da Armada, na fralda do
morro de S. Bento. Em 1727, ou pouco depois, abriu-se ali o hospital, que enfim
o conde de Azambuja transferiu, em 1768 ou 1769, para o colégio dos jesuítas.
Volveram-se os anos, e em uma época bem recente, resolvendo
o governo do império estabelecer hospitais regimentais, desapareceram as
enfermarias do antigo colégio, que, em 1832, recebeu a nova escola de medicina
fundada pelo benemérito e ilustre Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, ministro
do império do terceiro Ministério da regência permanente.
Estavam muito a gosto e a cômodo os lentes e os estudantes
de medicina ali, naquele ninho dos filhos de Loiola, quando, em 1845, foram
despedidos pelo governo, que é o proprietário da casa, e que de novo instituiu
nesse edifício o hospital militar, enquanto a pobre escola de medicina anda de
Herodes para Pilatos e ainda não tem casa sua.
Além do hospital militar, o antigo colégio dos jesuítas
hospeda ainda o imperial observatório astronômico, que foi criado por Decreto
nº 457 e regulamento de 22 de julho de 1846, e que se acha estabelecido sobre a
abóbada e muralhas da igreja começada por aqueles padres, e de onde os
abalizados astrônomos têm no sol e na lua, nas estrelas e nos cometas,
histórias muito bonitas que não vêm agora ao caso.
Eis aí, muito em resumo, os transes e viravoltas por que tem
passado o antigo colégio, onde muitas vezes habitou, rezou e dormiu o padre
Anchieta, que foi um santo homem, e habitaram, não sei se rezaram, mas comeram,
conspiraram e dormiram não poucos Loiolas ambiciosos e mais ocupados em
aumentar o seu poder e riquezas do que em servir a Deus e ao próximo.
Que casa! Depois de ter sido colégio dos padres da
Companhia, esteve a ponto de ser palácio, foi reduzido a hospital, passou a ser
escola de medicina e é de novo hospital e observatório astronômico. Foi teatro
de travessuras de padres, escapou de sê-lo de travessuras de governos, e o foi
de traquinadas de estudantes, e o será às vezes de soldados. Que casa! Se as
suas paredes pudessem falar!
E quem sabe quantos segredos, quantos mistérios nos esconde
ainda o antigo colégio dos jesuitas?
Conhecemos a face e o corpo exterior desse colégio. Mas,
quem conhece as suas entranhas?
Ele tem entranhas, não é invenção minha.
O antigo colégio dos jesuitas está assentado sobre um solo
minado. Há fundas cisternas, que ainda não foram examinadas. Há escadas que se
atiram a subterrâneos sombrios e profundos. Portas muradas, que parecem
encobrir abismos misteriosos. Observadores sem ciência e sem coragem têm
tentado descer a esses subterrâneos. Mas as lanternas se apagam, os pulmões não
acham ar que se preste à respiração, e pedras atiradas nessas minas
escuríssimas não mandam aos curiosos um só eco do seu baque.
O conhecimento da existência desses subterrâneos não é novo.
Desde a expulsão dos jesuítas teve-se certeza de que tais obras havia, e o povo
acreditou que os padres da Companhia tinham escondido riquezas imensas nas
entranhas do seu colégio.
Que extensão tem esses subterrâneos? Que destino lhes davam
os jesuítas? Não eram, não é possível que fossem cárceres. Para que serviam
então?
Admira que até hoje o governo não tenha mandado examinar os
subterrâneos do antigo colégio dos jesuítas. É caso este em que a curiosidade
não pode pecar por exagerada.
Sinto não poder levar os meus companheiros de passeio ao
fundo dos tais subterrâneos, e conto que o governo tratará em breve de fazer
brilhar a luz de um escrupuloso exame nesse mundo escuro e desconhecido que os
jesuítas deixaram por baixo do seu colégio do Rio de Janeiro.
Agora, meus amigos, agora que não se pode mais dizer de nós
que fomos a Roma e não vimos o papa, rematarei este passeio, conversando ainda
alguns momentos convosco a respeito do morro do Castelo.
Semelhante às antigas e prestigiosas instituições que,
arraigadas aos costumes dos povos e defendidas pelos interesses e pelas
tradições de classes privilegiadas, resistem à força potente da civilização e
do progresso e à influência destruidora do tempo, e só pouco e pouco se vão
desmoronando, agora pelo triunfo pacífico de novas idéias, logo pelo impulso
violento de uma revolução política, o morro do Castelo, firmado em sua imensa
base, tem até hoje zombado de não sei quantos projetos e planos de arrasamento
com que o ameaçam desde muitos anos; e apenas vai sofrendo escavações parciais
determinadas pela conveniência de alguns particulares que se utilizam do seu
barro, ou cedendo ao ímpeto das tempestades e das águas, desmorona porções de
sua terra com espanto e bem fundado susto dos habitantes da cidade.
Desses desmoronamentos houve dois principais que a memória
do povo conserva até hoje tristemente lembrados.
O primeiro ocorreu em abril de 1759. Mas nem causou
desgraças tão lamentáveis, nem foi tão considerável como o segundo. O povo teve
então menos terror do desmoronamento do morro do que da inundação
extraordinária da cidade.
Eis aqui a lembrança desse acontecimento exatamente como a
perpetuou Baltasar da Silva Lisboa nos seus Anais do Rio de Janeiro.
“As trovoadas ocasionavam na cidade grandes inundações. Em 4
de abril de 1756, depois de uma hora da tarde, choveu tão grossa e copiosa
chuva, precedida de veementes convulsões do ar e espantosos furacões, por três
dias sem interrupção, que o temor e o susto se apoderou de tal sorte do ânimo
dos habitantes, que desde a primeira noite muita gente desamparou as casas, as
quais caíram, fugindo sem tino para as igrejas. Desde então, as águas cresceram
por tal maneira que inundaram a rua dos Ourives e entraram pelas casas dentro,
por não caberem pela vala. No dia 5 do dito mês, saindo o Santíssimo da Sé, o
sacerdote que levava o Senhor foi descalço, e bem assim os irmãos da irmandade
do Santíssimo. Todo o campo parecia um lagamar. Vadeavam-se as ruas de canoas,
e no dia 6 uma navegou desde o Valongo até à Sé (que estava na igreja do
Rosário dos pretos) com sete pessoas.”
O segundo e terrível desmoronamento do morro do Castelo
aconteceu em fevereiro de 1811.
No dia 10 de fevereiro desse ano, pelas onze horas da manhã,
começou a cair uma violenta chuva, que continuou incessante por sete dias. As
ruas e casas ficaram inundadas. A rua da Vala conservou-se durante todo esse
tempo com cinco palmos d’água, e no campo de Santana (hoje da Aclamação),
navegavam canoas. O príncipe regente ordenou que se conservassem abertas as
igrejas, onde, apesar da inundação, rezavam os padres e os fiéis.
É facil compreender o susto da população, que falava
tremendo, em um novo Dilúvio.
E pior do que tudo isso, em um desses tristíssimos e
amargurados dias correu uma das abas do morro do Castelo, ficando soterradas
muitas casas da rua da Misericórdia e no beco, hoje rua do Cotovelo, e morrendo
sepultadas em vida famílias inteiras.
A esta inundação formidável deu-se então o nome de água do
monte, e essas duas palavras água do monte resumiram também nas conversações
populares a história toda do fatal desabamento.
A família real portuguesa já estava nesse tempo no Rio de
Janeiro, e o príncipe regente, receoso de maiores desgraças em alguma nova água
do monte, mandou arrasar uma muralha que havia no Castelo, sobranceira à
cidade.
O povo ocupou-se muito com o sinistro acontecimento. Mas
depois de lamentá-lo e de chorar as vítimas, inventou até uma rude cantiga, que
se refere à água do monte.
É a célebre cantiga do Bitu, que principia assim:
Vem cá, Bitu, vem cá!
E cuja segunda estrofe é a seguinte:
Que é do teu camarada?...
Água do monte o levou. Não foi água, não foi nada, Foi
cachaça que o matou.
O Bitu, de que fala a cantiga, era um crioulo apaixonado das
bebidas alcoólicas, e soldado do corpo dos Henriques. Trajava o clássico
calção, capote de pano verde e chapéu de três pancadas. Vivia de duas
indústrias, uma pública e outra misteriosa. A pública era muito simples. Andava
cantando pelas ruas e fazendo dançar um boneco de molas que levava na mão. Os
apreciadores deste precursor dos italianos de realejo pagavam-lhe a habilidade
com alguns vinténs. Como, porém, o Bitu fosse muito engraçado, chamavam-no para
o interior das casas as famílias que queriam divertir-se, ouvindo-o cantar e
tagarelar, e daí nascia a facilidade com que esse original exercia a sua
segunda indústria, que consistia em prestar-se a ser mensageiro de amor.
Que imoralidade! Que corrupção de costumes – dirão talvez,
escondendo o rosto, certos homens muito sérios e perdidamente pudibundos do
nosso tempo.
Alto lá! Não sou dos que têm saudades das coisas do século
passado, e nem mesmo da nossa primeira época neste século. Mas também não apóio
as injustiças com que alguns as julgam.
Atualmente nós temos um número muito maior de Bitus do que
havia no Rio de Janeiro no fim do século passado e no princípio do atual, e a
diferença que se nota entre um e outros é que os Bitus do outro tempo eram mais
rudes e mais farroupilhas, e os de agora são civilizados e até mesmo um pouco
fidalgos.
Dantes, as intrigas de amor e os namoros teciam-se às
ocultas, e o seu segredo era um sinal de respeito à sociedade. Hoje namora-se e
escrevem-se cartas de amor à face do público e sem vergonha nenhuma.
Temos na atualidade excelentes Bitus que se fazem portadores
de cartas de amor a tantos réis por linha.
A civilização desregrou-se neste ponto de modo tal que
transformou a nobre filha de Gutenberg em mensageira de amores! Os namorados e
namoradas não têm mais trabalho em arranjar bons e fiéis Mercúrios. As nossas
gazetas diárias publicam com sublime dedicação quantos bilhetinhos amorosos
lhes querem levar.
Temos – Gazetas-Bitus – que fazem perfeitamente o que fazia
com rudeza o Bitu de outro tempo.
O que eu mais lamento no Bitu é a nódoa com que ele manchou
com o seu indigno proceder a nobre farda que lhe dava o título de soldado de
Henrique Dias, de soldado de um desses corpos que herdaram o nome daquele
valente guerreiro e herói esclarecido, que desde o princípio até ao fim da
guerra holandesa no Brasil, batalhou sempre denodada e valorosamente contra o
estrangeiro invasor, sem que por isso merecesse de D. João IV o menor galardão,
o mais insignificante prêmio, quando esse rei, mil vezes ingrato com ele,
premiou e agraciou, depois de terminada a guerra a todos os chefes portugueses
e pernambucanos.
D. João IV não tolerou talvez a idéia de ornar o peito
daquele negro com uma medalha de honra! Esqueceu-se ou não pensou que no peito
daquele nobre negro não haveria medalha, por mais estimada que fosse, que
deixasse de ficar mais honrada.
Mas deixemos o indigno Bitu e o digníssimo Henrique Dias, e
vamos tratar de fazer ponto final em nossas observações sobre o morro do
Castelo.
O receio de novos e mais terríveis desmoronamentos, e o
empenho de dar mais beleza à cidade e de libertá-la de uma colossal muralha que
não a deixa ser francamente banhada pelos ventos do mar têm feito com que por
vezes se haja projetado e tratado de organizar empresas destinadas a demolir o
morro do Castelo.
Dizem que foram ingleses os que primeiro, e ainda no tempo
do rei, conceberam tal idéia, e o povo rude, a gente menos sensata, pensava
então que os espertalhões ingleses queriam demolir o morro para enriquecer-se
com os tesouros deixados pelos jesuítas em vastos e profundos subterrâneos.
A magnitude da empresa, a necessidade de estudos completos
sobre a utilidade e condições da obra e, sobretudo, a falta de dinheiro, têm
impedido a demolição do morro histórico.
E até hoje não me consta que alguém se tenha posto em campo,
defendendo o morro do Castelo, senão o Sr. Varnhagen, que, na sua
História Geral do Brasil se mostrou armado de ponto em branco e de lança em
riste, declarando e sustentando que a demolição do morro do Castelo tornaria a
cidade do Rio de Janeiro mais monótona e menos fresca do que se em suas
encostas se plantassem árvores, destinando-as para passeio público da cidade.
Mas o Sr. Varnhagen não tem conseguido fazer prosélitos. Nem
ao menos os frades barbadinhos italianos se lembram de erguer a voz para
impedir a destruição da igreja de S. Sebastião e para defender as suas
elásticas propriedades do morro.
Que têm com isso os barbadinhos. Se for demolido o Castelo,
sempre há de haver para eles um suave asilo. Os barbadinhos italianos
arranjam-se em qualquer cantinho, até porque sabem o segredo de transformar em
poucos anos um pequeno cantinho em um grande cantão.
O que vai ao morro do Castelo é a anemia da praça. Não se faz fogo por falta de pólvora.
E no entanto, como a ameaça da demolição é a espada de
Dâmocles, que continua sempre suspensa sobre o morro desarmado, o governo não
compreende obras sérias para impedir um desastroso desmoronamento, que, aliás,
está muito na ordem das coisas possíveis, e se contenta em mandar especar
aquele colosso.
Ah! Muita coisa neste menino-velho, chamado Brasil, anda por
espeques!
Creio que é tempo de dar por terminado este passeio. No
seguinte, desceremos do morro do Castelo com o cabido, levando a Sé às costas.
III
Façam de conta que os dois precedentes passeios foram dois
exórdios de um discurso que devo proferir sobre a Sé do Rio de Janeiro, e não
se admirem de que eu pronuncie um discurso com dois exórdios, porque conheço na
minha terra grandes oradores que tomam a palavra, falam duas e mais horas e
descem da tribuna no meio de bravos, apoiados e aplausos, não tendo feito outra
coisa mais do que uma ou duas dúzias de exórdios.
Ao menos, eu me contentei com dois exórdios somente e já
entro na matéria.
Por carta de 7 de outubro de 1639, Filipe IV de Espanha e
III de Portugal, requereu à Sé Apostólica a elevação da prelazia do Rio de
Janeiro a bispado e nomeou para ocupar a mitra fluminense o competente prelado
administrador eclesiástico Lourenço de Mendonça, declarando, por outra carta
régia de 22 de agosto oe 1640, as causas por que assim deliberava.
Essas causas referiam-se às tramas urdidas contra Lourenço
de Mendonça no Rio de Janeiro, e aos abusos e desmoralização que se observavam
em algumas capitanias do sul do Brasil.
Contarei resumidamente essa feia história.
O Dr. Lourenço de Mendonça, natural de Lisboa e presbítero
secular, nomeado administrador eclesiástico do Rio de Janeiro, chegou a esta
cidade a 9 de setembro de 1632, e quatro dias depois, começou logo a
experimentar violenta oposição. Os seus inimigos chegaram ao ponto de
introduzirem de noite um barril de pólvora com quatro morrões por uma janela da
sua casa e de o colocarem junto ao leito do prelado, que felizmente escapou da
horrível tentativa de assassinato, ardendo, porém, toda a casa, como já em outro
passeio referi.
Procedeu-se, em consequência, a uma devassa cujo resultado
foi contrário ao prelado, que ainda em cima pagou as custas.
Choveram depois libelos infamatórios contra o Dr. Lourenço
de Mendonça, imputaram-se criminosos vícios, de que o acusaram perante o
metropolitano da Bahia; e os aleivosos, não colhendo desta acusação o que
esperavam, recorreram a outra de um fato escandaloso em presença do tribunal da
Fé; e enfim, premeditavam levá-lo preso em um barco até fora da barra e lá
abandoná-lo à inconstância e ao ímpeto das vagas, quando Mendonça, avisado de
tão sinistros planos, fugiu ao perigo, embarcando-se em uma nau que o levou a
Portugal em março ou abril de 1637.
Julgado inocente do crime dc que o acusavam por sentença do
tribunal da Inquisição, recebeu a confiança de novos cargos e teve finalmenie a
honra de ser nomeado bispo do Rio de Janeiro, na data já apontada.
Diz-se, e Pizarro sustenta, que o bispado do Rio de Janeiro
fora então criado para defensa dos índios atropelados pelos paulistas, e que
Lourenço de Mendonça tinha sido insultado por aqueles cativadores do gentio e
pelo povo e câmara da cidade do Rio de Janeiro, em conseqüência de suas
manifestas disposições e do seu empenho a favor dos míseros selvagens. Mas é
preciso atender a que Pizarro, padre também, desejaria muito arredar da sua
classe a responsabilidade dos criminosos e horríveis atentados que mais de uma
vez puseram em risco a vida de Lourenço de Mendonça, embora, em sua consciência
de escritor fiel e homem de verdade, houvesse já declarado que “entre os
intrigantes mais notáveis apareceram alguns eclesiásticos (como os padres
Manuel da Nóbrega, Francisco Carneiro e um frei João da Cruz), a quem a fortuna
menos próspera desviou de ocupar benefícios curados.
Eu estou convencido de que em todas aquelas desordens e
tramas abomináveis entrou muito notavelmente a influência maligna de padres
ambiciosos, e bem quisera achar sempre pura a memória do Dr.
Lourenço de Mendonça. Encontro nela, porém, um fato que
desabona o seu caráter. Mendonça era português e em 1640 seguiu o partido da
Espanha e lá ficou sendo bispo d’Anel do arcebispado de Toledo. Era mais bonito
mais nobre ser sacristão da última capelinha da sua terra do que bispo ou
arcebispo de Castela. Depois de Deus a pátria. A pátria é o Céu da Terra.
A revolução de Portugal, em 1640, anulou as negociações para
a criação do bispado do Rio de Janeiro. D. João IV e Afonso VI não trataram
disso. Mas o príncipe regente D. Pedro, a quem o Brasil deveu não poucos
cuidados, conseguiu do papa Inocêncio XI a bula Romani Pontificis pastoralis
solicitudo, de 16 de novembro de 1676, determinando a elevação do bispado da
Bahia a arcebispado e das prelazias do Rio de Janeiro e Pernambuco a bispados.
“Por território do bispado do Rio de Janeiro foram
demarcados os limites desde a capitania do Espírito Santo até ao Rio da Prata,
correndo a costa do mar, e nessa correspondência toda a terra central a topar
com a do domínio espanhol, não obstante qualquer outra separação ou
desmembração da Província do Rio de Janeiro anteriormente feita, etc.”
Monsenhor Pizarro, que isto informa, acrescenta depois:
“Mas apesar da explicada demarcação, continuou a capitania
de Porto Seguro, sita na latitude austral de 16º40’ e longitude de 34º45’, a
compreender-se no termo divisório, etc.”
O primeiro bispo nomeado para o Rio de Janeiro foi Frei
Manuel Pereira, homem de tantas virtudes como ilustração. Mas depois de
sagrado, renunciou a sede em 1640, porque o serviço da pátria e a confiança do
soberano o chamaram a exercer altas funções políticas, como secretário de
Estado e um dos plenipotenciários que, com o duque de Cadaval e o marquês de
Fronteira, assinaram o tratado de 7 de maio de 1861, celebrado com a Espanha
sobre a colônia do Sacramento.
Na igreja de S. Domingos, em Benfica, no reino de Portugal,
fizera Frei Manuel da Cruz construir uma capela dedicada ao taumaturgo
português S. Gonçalo, e aí mandara abrir uma sepultura para descanso do seu
corpo. A 6 de janeiro de 1685, morreu com S. Gonçalo na boca e nos braços, como
diz Pizarro, e foi sepultado na cova que para si preparara.
Apesar de ter sido político e diplomata, isto é, cultor de
duas artes que são às vezes não pouco diabólicas, Frei Manuel da Cruz deixou
fama de bem-aventurado. Diz-se que ao ato do ofício da sua sepultura assistira
um formoso jovem que a todos admirara, e que misteriosamente desaparecera ao
recolher-se o caixão ao jazigo, sem que o conhecessem nem a família, nem os
amigos do finado. Acreditou-se que o jovem era S. Gonçalo.
Recomendo aos políticos da minha terra esta tradição.
Façam-se devotos de S. Gonçalo todos eles. Creiam que precisam muito de um
zeloso advogado no Céu, porque, pelas obras que têm feito no Brasil, ou eu me
engano muito, ou, a não valer-lhes a intercessão de algum santo, irão
direitinho para o Inferno.
Renunciada a mitra por D. frei Manuel Pereira foi nomeado
bispo do Rio de Janeiro o padre José de Barros de Alarcão, natural de Leiria, o
qual, tendo a sua eleição confirmada pelo Santo Padre Inocêncio IX, a 19 de
agosto de 1680, tomou posse da mitra por seu procurador Padre Sebastião Barreto
de Brito, vigário da freguesia de N. S. da Candelária, a quem coube o governo
eclesiástico, até que ele chegou à cidade de S. Sabestião do Rio de Janeiro no
19 de junho de 1682, e fez a sua entrada solene no dia 13 do mesmo mês.
Não existe documento algum que ateste positivamente a época
em que se instituiu o corpo capitular do bispado do Rio de Janeiro. O Bispo D.
frei Antônio de Guadalupe, falando da origem do cabido no prelúdio dos
estatutos que lhe deu a 21 de setembro de 1736, diz que ele fora instituído a
19 de janeiro de 1685, e o cabido em uma representação que dirigiu ao rei em
1733, firmou a criação da Sé na era de 1684. Felizmente, porém, a crítica de
Monsenhor Pizarro faz-nos escapar a esta dúvida, ensinando-nos que, em 1684, o
Bispo José de Barros Alarcão nomeara os sujeitos dignos de ocupar os benefícios
da nova Sé, e que a instituição do corpo capitular se realizara no dia 18 de
janeiro de 1685.
A corporação catedral foi criada com cinco dignidades, a
saber: deão, chantre, tesoureiro-mor, mestre-escola e arcediago, seis cônegos
de prebenda inteira e dois de meia prebenda, um subchantre, quatro capelães,
quatro moços de coro, um organista, um mestre de capela, um sacristão, um
porteiro da maça, um cura e um coadjutor, e pela provisão de 1º de março de
1689 teve mestre de cerimônias.
Esta moderníssima organização do corpo capitular foi sendo
pouco a pouco modificada, aumentando-se sempre o seu pessoal, que se elevou nos
modernos tempos ao número que se apreciara em um quadro que apresentarei daqui
a pouco.
As côngruas estabelecidas primitivamente aos ministros da Sé
foram também muito moderadas e dão idéia da vida barata daqueles tempos. A
provisão de 18 de novembro de 1681, em que o príncipe regente D. Pedro
determinou o número dos ministros de que se havia de compor o corpo capitular,
regulou as côngruas cumpetentes, arbitrando-as assim: côngruas, do deão, 100$;
a cada uma das dignidades, 80$; a cada um dos cônegos de prebenda inteira, 60$;
a cada um dos de meia prebenda, 30$; a cada um dos capelães, 25$; ao
subchantre, 10$; a cada um dos moços de coro, 12$; ao sacristão, 25$; ao
porteiro da maça, 10$; ao mestre da capela, 40$; ao organista, 25$; ao cura,
73$920; ao coadjutor 25$, e finalmente ao mestre de cerimônias, por ordem de 1º
de março de 1689, 10$.
É claro que, com o andar do tempo, não podiam tais côngruas
deixar de ser elevadas e o foram por muitas vezes, observando-se até, por ordem
de 25 de setembro de 1758, que os capitulares tiveram a dita de vencer as suas
côngruas durante um ano ainda depois de mortos, para ajuda das despesas do seu
tratamento na moléstia e do seu funeral. Os padres, que sabem dar nomes às
coisas, chamaram a essa côngrua dalém-túmulo – o ano morto. O que eu não sei é
como ainda não se lembraram de introduzir esta moda do ano morto a favor dos
altos funcionários do Estado. É verdade que a indústria política inventou coisa
muito melhor e mais sublime, criando as famosas ajudas de custo, misteriosa
mamadeira, que é o ano vivo dos políticos velhos, e que vale às vezes por dez,
e às vezes por vinte anos mortos dos ministros da Sé.
Aproveitarei agora um ligeiro quadro da corporação catedral
e dos empregados da capela imperial na atualidade e com os seus respectivos
vencimentos. A comparação destes com as côngruas estabelecidas na época da
instituição do corpo capitular nos fará admirar a diferença dos tempos e das
coisas.
Eis aqui o quadro:
Classes
Côngruas Gratificação
6
monsenhores
1:200$000 800$000
16 cônegos
800$000 400$000
14 capelães
600$000
2 mestres de
cerimônias
600$000
1
dito
1:000$000
2 tesoureiros da
sacristia
400$000
3
organistas
500$000
12
sacristães
200$000
3 moços de
maça
200$000
É possível que este quadro não esteja absolutamente exato.
Se o não está, asseguro que ele não peca porque eu exagerasse o número dos
ministros da Sé, nem porque lhes tenha eu marcado côngruas e gratificações de
mais. Copiei tudo de um documento oficial.
E a respeito das côngruas, devo acrescentar que com toda a
certeza os ministros da catedral as reputam muito insuficientes, e pedem, ou
estão prontos a pedir que elas sejam aumentadas, o que não é para admirar em um
tempo em que todos, sem exceção, pedem mais dinheiro do que ganham e nunca se
acham satisfeitos com a partilha do grande bolo.
Dizem por aí que os ministros da Sé, como todos os outros
eclesiásticos, precisam menos de bons rendimentos do que os outros homens,
porque pertencem, moralmente falando, ao sexo neutro, isto é, a um sexo que não
é masculino nem feminino, visto que não tem descendência. Eles, porém,
protestam neste caso contra as teorias e requerem que se olhe para os fatos.
Ora, a lógica dos fatos é irresistível.
Continuemos.
O primitivo e modesto corpo capitular foi instituído na
catedral, que, conforme já disse, se estabeleceu na igreja de S. Sebastião,
erigida no alto monte de S. Januário, um dos cabeços do morro do Castelo,
igreja onde teve assento a primeira matriz da cidade do Rio de Janeiro.
Em tão mau estado já se achava por esse tempo a igreja de S.
Sebastião do Castelo, que, em 1659, o prelado Manuel de Sousa e Almada tratava
de desfabricá-la e de passar a matriz para a ermida de S. José, e ameaçava ao
senado da Câmara, que lhe representara contra essa medida, com duas excomunhões
da bula da Ceia.
Com efeito, desde aquele ano talvez, e sem dúvida, desde
antes de 1661, passaram a pia batismal e o sacrário da matriz de S. Sebastião
para a ermida de S. José, que ficou servindo de matriz até 1734, no qual a pia
batismal e o sacrário se transferiram com a Sé catedral para a igreja Santa
Cruz, como veremos em breve.
Cumpre-me certamente fazer uma ligeira descrição da igreja
de S. Sebastião, tal qual se mostrava no ano de 1685, em que se instituiu o
corpo capitular. Como, porém, isso me e impossível, limitar-me-ei simplesmente
a lembrar que D. João V, permitindo por alvará de 30 de setembro a mudança da
catedral, ordenou ao mesmo tempo que, conservando-se o templo para não se
perder com ele a sua memória, se estabelecesse ali uma capelania perpétua e se
erigisse finalmente uma irmandade do mesmo santo.
O rei mandara, mas apenas fora obedecido em parte. Porque a
ereção da irmandade não se realizou senão no vice-reinado do Conde de Resende,
a título de particular devoção deste, que, além de organizar a irmandade, fez
renovar a igreja e reedificar as casas anexas da sacristia à custa de esmolas
pedidas ao povo.
Seria aqui a ocasião a mais oportuna para descrever a igreja
de S. Sebastião tal qual a vimos em anos deste século, e tal qual se acha
depois que se hospedaram nela os religiosos barbadinhos italianos. Mas
desconfio que teremos de ir um pouco longe, logo que nos metermos neste
empenho. Peço, pois, licença para estudar este assunto em um passeio especial
que será o seguinte.
Está, portanto, adiada a descrição da igreja de S.
Sebastião.
E prossigo na história, que devo contar.
À medida que corriam os anos, iam os habitantes da nova
cidade do Rio de Janeiro abandonando o morro do Castelo e edificando suas casas
na planície, de modo que, dentro em pouco, estava aquele reduzido a um deserto.
Como todos praticavam, também os ministros da Sé procuravam
habitar no centro da povoação, e muito amigos do seu cômodo começaram a
mostrar-se negligentes no cumprimento dos seus deveres.
Por outro lado, despovoando-se o morro do Castelo,
principiaram a aparecer ali com facilidade latrocínios e insultos que chegavam
até ao sacrilégio. Uma noite, a sentinela que velava perto da igreja de S.
Sebastião sentiu notável ruido dentro dela, e medrosa ou de almas do outro
mundo ou de violências dos vivos, retirou-se para um telhal vizinho, e na manhã
seguinte achou-se uma porta do templo sobreposta, tendo sido roubada a caldeira
de prata d’água benta. Em outra noite, desapareceram os castiçais dos altares e
em uma terceira deu-se o caso do furto no cofre, onde se recolhia o Santíssimo
Sacramento. O tesoureiro da Sé conservava recolhida toda a prata, não confiando
mais na vigilância das sentinelas. Os ladrões não carregavam com a igreja
inteira, porque não podiam levá-la às costas, e não carregavam com todo o corpo
capitular, porque não tinham que fazer dele.
Além disso, o bispo D. Francisco de S. Jerônimo fazia notar
em uma pastoral o incômodo dos moradores da cidade, perigo das crianças que iam
a batizar e indecência com que se faziam as procissões saindo com o Santíssimo
por entre valos, azinhagas e passos, em que se arriscava cair o sacerdote, e
ainda o bispo, com a custódia levada em suas mãos, e finalmente achar-se a
mesma Sé, por sua antiguidade, ameaçando ruína.
Tratou-se, pois, da mudança da Sé. Mas desde logo começaram
as oposições, dificuldades e desinteligências.
Coisa célebre: Não houve ermida nem igreja que desejasse
receber o corpo capitular no seu seio! Tinham todos receio de que os hóspedes
se mostrassem absolutos senhores da casa a que se acolhessem.
Monsenhor Pizarro admira-se de que não se recebesse com
ufania e gratidão semelhante honra.
O Bispo D. Francisco de S. Jerônimo representou ao rei em
1702, pedindo-lhe a mudança da Sé para a ermida de S. José, cuja irmandade nem
obstava, nem defendia o ingresso do corpo capitular, como, pelo contrário,
dificultavam os militares do Terço Velho da praça, recusando o uso da igreja da
Santa Cruz, a que ele dirigia as suas vistas por mais apta. Como, porém, a
ermida de S. José fosse declarada por engenheiros que a examinaram não ter
capacidade para o corpo capitular, nem apresentar conveniências que aconselhassem
novas obras para aumentar-lhe as proporções, voltaram-se de novo os olhos do
bispo para a igreja da Cruz.
Poupo aos meus companheiros de passeio a história de uma
longa e porfiada luta que durou até o ano de 1734, entre o bispo e o cabido de
uma parte e a câmara e as irmandades de S. Pedro Gonçalves e Santa Cruz da
outra. Basta dizer que os primeiros teimavam em querer mudar a Sé para a igreja
da Santa Cruz e os segundos opunham-se pertinazmente a semelhante idéia.
O rei contemporizava, mostrando-se disposto a respeitar os
direitos das irmandades da igreja da Santa Cruz. Pelo alvará de 13 de março de
1703, mandou que o governador da capitania, conferenciando a despesa precisa
(por um orçamento) para se erigir novo templo, à vista da planta feita em
Lisboa pelo Padre Francisco Tinoco, informasse competentemente a esse respeito.
Em carta régia de 16 de fevereiro de 1705, dirigida ao bispo do Rio de Janeiro,
escreveu, além de outras coisas, o seguinte: “Me pareceu encomendar-vos que com
o vosso zelo e prudente persuasão animeis esses moradores a concorrer para esta
obra [o novo templo] com as suas esmolas, para o que se fará um livro, que o
juíz de fora rubricará, onde se farão os termos das promessas pelo escrivão da
comarca, assinadas por ele e pelos promitentes, para que não haja falta, e do
que se puder dar, me dareis conta, e para que a esse respeito se veja o que
pode suprir a fazenda real, que nestes tempos, com tantas fortificações e
presídios, não lhe resta muito com que concorrer.”
A idéia da edificação de um novo templo para catedral era
útil. Mas não resolvia a questão instante. O bispo obedeceu ao rei, dirigiu ao
povo uma pastoral, pedindo esmolas para a obra da Sé nova. Mas não continuou
menos a instar pela mudança já pedida e pela concessão da igreja da Santa Cruz.
Mas, parecendo-lhe difícil consegui-la, apesar de se oferecerem os cônegos para
comprar à sua custa as casas contíguas à mesma igreja, a fim de torná-la mais
espaçosa, pediu o templo paroquial da Candelária por supô-lo menos sujeito a
contradições.
Depois de novas consultas e de um longo adiamento da decisão
deste assunto, facultou o rei, em data de 2 de abril de 1721, a mudança da Sé
para a Candelária. Morrendo, porém, o Bispo D. Francisco de S. Jerônimo, ficou
ainda suspensa a execução desta providência.
Sucedeu a este bispo na mitra do Rio de Janeiro, D. Frei
Antônio de Guadalupe que, conseguindo do rei o alvará de 30 de setembro de
1733, ordenando a trasladação da Sé para a sempre desejada igreja da Santa
Cruz, que deveria perder este título, pondo-se no altar-mor um painel da imagem
de S. Sebastião, para que este ficasse sendo como até esse tempo, titular da
catedral e também pertencendo esse templo ao padroado real, como pertenciam as
catedrais todas das conquistas portuguesas, viu-se ainda embaraçado o novo
bispo pela câmara, que opôs dúvidas a mudança da Sé.
Mas, nestas circunstâncias, o cabido mostrou que era homem,
e que homem! Nada menos que Alexandre Magno. Lembrou-se do herói macedônio, do
nó górdio e do famoso non interest quomodo solvatur.
Os meios legais são muito bonitos e dignos de todo o
respeito, quando se trata de defender a causa própria. Mas em caso em que é
preciso tomar a casa alheia, faz-se da lei gato e sapato, preconiza-se o
encanto do poder da força e reputa-se o non interest quomodo solvatur à última
expressão da sabedoria humana.
O cabido resolveu, pois, inopinadamente a questão,
empregando, em vez do seu latim da Igreja, o recurso diplomático e político dos
fatos consumados. Precedendo o consenso do bispo, o corpo capitular, que soube
guardar a respeito do seu plano inviolável segredo, reuniu-se, na noite de 23
de fevereiro de 1734, na igreja de S. Sebastião do Castelo, e levando a imagem
do santo padroeiro em procissão, avançou a marche-marche para a igreja da Cruz,
tomou-a, como uma fortaleza que de assalto é conquistada, colocou S. Sebastião
no altar-mor, achou-se de improviso dono da casa, rezou suas orações e depois
debandou-se e pôs-se ao fresco.
E... talvez não acreditem. Mas é verdade.
E apesar de ter vindo a procissão morro abaixo e a
marchemarche, não consta que um só dos ministros da Sé escorregasse, nem caísse
nos valos, azinhagas e passos do Castelo.
Depois de um ataque de surpresa, tão bem sucedido, os
ministros da Sé naturalmente respiraram com suavidade, disseram talvez, como
Mac-Mahon disse no alto de Malakoff: “A fortaleza é nossa. Agora nem todo o
poder do mundo nos arrancará daqui!” E descansaram por algum tempo.
Os bons exemplos devem ser seguidos, imitemos, pois, o
venerando cabido.
Descansemos um pouco, por nossa vez.
IV
No nosso último passeio vimos como o cabido da Sé do Rio de
Janeiro, para cortar um nó górdio com a espada de Alexandre, improvisara uma
procissão e a marche-marche entrara na igreja da Santa Cruz, e dela tomara
conta, par droit de conquête, em nome de S. Sebastião, que ficou ocupando o
altar-mor do templo com o mais completo desapontamento das irmandades da Cruz e
de S. Pedro Gonçalves, que a essa conquista se opunham.
Tendo sido esta interpresa efetuada de noite e a pas de
course, não me foi possível então dar-vos conhecimento da igreja para onde
ficara desde aquele momento transferida a catedral do Rio de Janeiro. Agora,
porém, que é dia claro e não temos pressa, conversarei com os meus companheiros
de passeio a respeito desse templo, começando por contar-lhes a sua história
antiga.
O domínio espanhol não somente foi uma calamidade política
para Portugal, como também expôs todas as colônias deste reino aos ódios,
vinganças e ataques dos inimigos da Espanha.
Corsários e piratas insultaram e saquearam algumas povoações
do litoral do Brasil, e tornou-se, por isso, indispensável fortalecer as
cidades nascentes desta grande colônia.
Na cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro levantaram-se
diversos fortes no princípio do século décimo-sétimo. Não sei ao certo em que
ano, talvez no primeiro governo de Martim de Sá, isto é, de 1602 a 1608, foi
construído um fortim junto do mar, na praia que ficava quase fronteira à ilha
que depois se chamou das Cobras, e que a princípio se chamara da Madeira,
porque, diz Gabriel Soares, dela se tira muita, a qual serve aos navios que
aqui se recolhem, de consertar as velas.
A esse forte deu-se o nome de Santa Cruz, e Martim de Sá no
seu segundo governo, que se estendeu do ano de 1618 a 1632 (contadas as
administrações interinas, que por ausência dele exerceram alguns), o fez
construir mais regularmente ou de novo (diz Pizarro), com despesa da sua
fazenda.
O mesmo monsenhor Pizarro informa que o fortim da Santa Cruz
fora levantado por ordem régia, e parece-me extraordinário que o rei desse
ordem e não desse dinheiro para essa obra, donde concluo que a renovação foi
que correu por conta da fazenda particular de Martim de Sá.
Baltasar da Silva Lisboa fala de um forte da Candelária,
guarnecido por esse mesmo tempo. Não tenho idéia desse forte, e chego a pensar
que é o mesmo de Santa Cruz, de que o autor citado não faz menção.
Pouco tempo durou o fortim de Santa Cruz. O abandono deixou
que o mar o destruísse e entulhasse. Também a obra não podia aumentar o número
das maravilhas do mundo, porquanto, apesar do seu título de fortaleza, resistiu
tão fracamente aos embates das ondas, que sobre as suas ruínas, já em 1628, se
tinha levantado uma capela.
No capítulo IV do tomo II das Memórias de monsenhor Pizarro,
encontra-se na pág. 237 uma nota que se refere à origem da igreja de Santa Cruz
dos Militares. Eu, porém, prefiro oferecer aos meus companheiros de passeio a
notícia do princípio que teve a imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares,
oferecida à mesa administrativa desta no ano de 1856 por um irmão, e prefiro,
porque esta notícia é evidentemente mais positiva e mais completa.
Ei-la, aí vai, portanto:
“No lugar em que se acha a majestosa igreja de Santa Cruz da imperial irmandade dos militares, existia, no ano de 1611, um pequeno forte denominado Santa Cruz, que fora mandado construir no ano de 1605 pelo capitão Martim de Sá, governador do Rio de Janeiro, para defesa desta cidade. O forte Santa Cruz, que foi em seu princípio dentro do mar, achava-se já fora dele e totalmente arruinado no ano de 1623, e nessa época os oficiais e soldados da guarnição da Cidade do Rio de Janeiro o pediram e alcançaram do mesmo Governador Martim de Sá para ali edificarem uma capela onde fossem sepultados. Concluída a capela no ano de 1628 com a invocação de Santa Vera Cruz, os oficiais e soldados seus proprietários se reuniram em irmandade religiosa, concorrendo os oficiais superiores com 100 rs., os subalternos com 50 rs., e os soldados com 20 rs., mensais para as despesas do culto. Sendo extraordinários os trabalhos e sacrifícios desses beneméritos, que, incumbidos da defesa da pátria, empregavam os momentos de sua folga na construção de um templo onde eternamente descansassem à sombra do divino emblema da nossa redenção. Na capela de Santa Vera Cruz, com permissão da irmandade dos militares, festejavam os comerciantes e navegantes a S. Pedro Gonçalves. No ano de 1681, a irmandade de Santa Vera Cruz, apesar de seu zelo e sacrifícios, viu-se exaurida de meios que suprissem a todas as despesas da sua capela e resolveu ceder metade dela aos festeiros de S. Pedro Gonçalves, com a obrigação de concorrerem com metade de todas as despesas ordinárias, e das obras que fossem necessárias, e assim concordaram e confirmaram por escritura pública lavrada pelo tabelião José Correia Ximenes, em 18 de março de 1682, sendo Governador do Rio de Janeiro o General Duarte Teixeira Chaves, e juiz da irmandade dos militares o capitão Manuel da Costa Cabral.
“Teve a irmandade militar de Santa Vera Cruz o primeiro
compromisso em 12 de julho de 1700, sendo juiz da irmandade o General Artur de
Sá e Meneses, Governador do Rio de Janeiro. Continha vinte artigos sobre
sufrágios e disposições administrativas.
“Por carta de sesmaria dada pelo General Francisco de
Távora, Governador do Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro de 1716, confirmada
por el-rei o Sr. D. João V, em carta régia de 3 de outubro de 1722, e mandada
cumprir pelo General Aires de Saldanha de Albuquerque, governador do Rio de
Janeiro, em 9 de setembro de 1723, foi concedida à irmandade militar de Santa
Vera Cruz toda a terra que então existisse, e aquela que o mar fosse deixando
em toda a largura do terreno que ocupava a capela desta irmandade. Achando-se
arruinada a primeira capela de Santa Vera Cruz, a irmandade dos militares
intentou edificar uma igreja mais sólida e regular, e para isso convocaram os
festeiros de S. Pedro Gonçalves, a fim de concorrerem com metade das despesas
na forma contratada. Porém, como já não existiam os instituidores daquela
festa, os que então haviam recusaram a proposta, e não continuaram a festejar o
seu padroeiro. A irmandade dos militares havia adquirido alguns prédios por
compras que fizera e por dádivas que tivera de alguns devotas, e edificado
outros conjuntamete com os festeiros de S. Pedro Gonçalves, ao lado e fundos da
capela.
“Não podendo por mais tempo conservar-se a capela de Santa
Vera Cruz, em razão de sua antiguidade e fraca construção, deliberou a
irmandade dos militares, em sessão de 20 de janeiro de 1780, que a mesma
irmandade tomasse sobre si a nobre empresa de construir um novo templo e nisso
empregar todos os seus recursos, e sendo convocados os festeiros de S. Pedro
Gonçalves para deliberarem sobre a posse dos prédios que possuíam em comum,
resolveram os festeiros que a parte que tinham nos prédios cediam e davam à irmandade
dos militares, ficando esta obrigada a fazer anualmente uma festa a S. Pedro
Gonçalves, cuja imagem teria altar em a nova igreja. Com a primeira pedra,
lançada no 1º de setembro de 1780, deu-se princípio ao novo templo, conforme o
risco e direção do Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, sendo juiz da
irmandade o Coronel José da Silva Santos, e protetor o vice-rei Luís de
Vasconcelos e Sousa. Concluída a atual igreja da irmandade dos militares, foi
sagrada a 28 de outubro de 1811 com a invocação da Santa Cruz, havendo nesse
dia uma missa solene a que assistiu S. A. R. o Sr. D. João, príncipe regente,
que houve por bem aceitar o título de protetor da irmandade, da quel era juiz o
Marechal-de-Campo João de Barros Pereira do Lago Soares de Figueiredo Sarmento.
“A igreja da imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares
está colocada na rua Direita, esquina da rua do Ouvidor, da parte do mar, tem
do lado esquerdo uma grande porta e as janelas da sacristia e consistório. Está
entre dois espaçosos corredores ladrilhados de mármore, que dão entrada para a
igreja, em cuja frente tem um grande pórtico lavrado. Tem três altares, sendo o
da capela-mor ocupado pela Cruz sobre o monte Calvário, o do lado direito pela
imagem de N. S. das Dores, e o do lado esquerdo pela imagem de S. Pedro
Gonçalves. Toda a capela-mor é ornada de preciosa obra de talha, representando
os martírios da paixão e morte de Jesus Cristo, e o corpo da igreja com igual
obra, representando todos os instrumentos e troféus militares. Com o aumento de
seus réditos, a irmandade não limitou seus benefícios somente ao funeral de
seus irmãos. Conferiu pensões caridosas às viúvas e filhos. De oficiais
generais a 9$600, de oficiais superiores a 6$400 e de oficiais subalternos a
3S200 mensais, e à proporção que têm aumentado os bens e réditos da irmandade,
ela os distribui em socorros as viúvas e filhas dos irmãos que falecem.
“Pelo compromisso de 4 de julho de 1830 foi abolida a pensão
caridosa e decretada a pensão compromissal correspondente à quarta parte do
soldo, e pelo compromisso de 14 de julho de 1853 foi esta pensão elevada à
terça parte do soldo de cada um irmão oficial, sendo também socorridos em sua
vida com igual pensão, no caso de perdimento de soldo e reconhecida indigência.
“São admitidos a irmãos da imperial irmandade da Santa Cruz
aos Militares somente os cidadãos brasileiros que forem oficiais de primeira
linha do exército, pertencente à guarnição da corte e Província do Rio de
Janeiro, e professem a religião católica apostólica romana.
“Sua Santidade Pio VII, pontífice de Roma, em bula de 27 de
setembro de 1822, concedeu indulgência plenária a quem visitasse a igreja de
Santa Cruz dos Militares no dia do seu orago, a exaltação da Santa Cruz, que
pomposamente se festeja a 21 de setembro. E o Sr. D. Pedro I, imperador do
Brasil, aceitou, em 21 de setembro de 1828, o lugar de protetor da irmandade, à
qual, por decreto de 3 de dezembro do mesmo ano, conferiu o honroso título de
Imperial. O Sr. D. Pedro II, Imperador do Brasil, é o atual protetor da
irmandade.”
A esta notícia cumpre-me acrescentar algumas, porém muito
breves observações.
Os militares que instituíram a irmandade da Santa Cruz, pertenciam ao chamado Terço Velho. Porque, somente em 1700 ou pouco antes desse ano, organizou-se o intitulado Terço Novo com quatro companhias vindas de Lisboa para aumentar a infantaria do país e a de Santos.
A denominação de Terço Velho, dada àquele primeiro corpo de
infantaria de linha, foi devida a ter sido ele formado primitivamente dos
infantes com que o Capitão Estácio de Sá e seu tio Mem de Sá conquistaram o Rio
de Janeiro.
Devo finalmente observar que o Governador Francisco de
Távora não podia dar a sesmaria de que fez presente, a 12 de fevereiro de 1716,
às duas irmandades da igreja da Santa Cruz. Porque a carta régia de 23 de
fevereiro de 1713 determinara que o Governador do Rio de Janeiro não desse
sesmarias dentro da cidade, por pertencer somente à Câmara, competindo ao
governador dar as dos sertões. E assim o entendeu o Governo da metrópole, que,
a 3 de outubro de 1720, confirmou aquela doação de Francisco de Távora, mas só
a título de esmola.
Este abuso que passo a notar é uma consolação para nós
outros, porque deixa ver que a sem-cerimônia com que os homens do governo fazem
doações do que não é seu tem-se observado em todos os tempos, parecendo-se às
vezes muito nesse ponto os nossos ministros do Governo representativo com
aqueles governadores do sistema absoluto.
É uma triste consolação. Mas é preciso que nos contentemos
com ela.
Agora, ainda mesmo cometendo um evidente anacronismo,
continuarei a história da igreja da Santa Cruz até os nossos dias, deixando o
cabido à minha espera no ano de 1731. Creio que não lhe custará muito a
esperar, visto que se acha bem a gosto em casa alheia.
Se não há memória do que era, debaixo do ponto de vista
arquitetônico, a antiga capela da Santa Cruz, temos ao menos diante aos nossos
olhos a igreja que a substituiu, e que é talvez a mais bela que possuímos na
capital.
Vou fazer a descrição desse templo, e desta vez sou
exigente. Acho-me no caso de certos estadistas parlamentares que, descobrindo
no prólogo de um livro novo de direito público uma tirada eloqüente,
decoram-na, palavra por palavra, e aproveitam a primeira ocasião para atirá-la
no meio da Câmara temporária, como se fora obra e parto feliz da sua admirável
inteligência. Temos uma dúzia dessas ilustrações que brilham pelos prólogos,
que nunca passam dos prólogos, e que hão de morrer, tendo sido sempre e somente
prólogos.
Eu, ao menos, declaro a todos o nome do autor que fala por
mim. É o meu distinto e velho amigo o Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre quem
vai descrever a igreja da Cruz. Copio textualmente o que esse artista e poeta
escreveu há alguns anos.
“Cabe-me hoje a descrição da igreja da Santa Cruz dos
Militares, que pertence a época imediata à da arquitetura jesuítica, mas que se
encosta mais ao estilo clássico do que os outros templos onde a escola
borromínica alardeou toda a pompa caprichosa de suas combinações
grotescas e que hoje fazem as delícias das borboletas parisienses. E que
reconquistaria de novo o trono das artes, se um grande número de abalisados
mestres não se opusessem à torrente devastadora e inconstante da moda.
“Propensa ao classicismo, a igreja da Cruz é o templo que
possuímos de uma arquitetura mais regular. As linhas que entram na ordenação da
fachada, sem ter o peso das da Candelária, nem o recurvado dos fastígios do
Carmo, de S. Francisco de Paula e de S. Pedro, conservam uma agradável harmonia
em suas proporções. As áreas são bem calculadas, os ornatos distribuídos com
uma inteligente economia, e as proporções das ordens, seus perfis e ligações
bebidos nas obras dos mestres italianos do século atrasado, que, pretendendo
realizar a grande palavra de Buonaroti, quando criou o novo Capitólio,
caíram nesses desvarios preconizados por Maderna e Bernini, tendo em completo
esquecimento as obras de Paládio, Bramante e Samovino.
“Se compararmos a fachada da igreja da Cruz com as modernas
de S. José e do Sacramento, veremos uma retrogradação horrorosa nos modernos
tempos, e o quanto a arquitetura perdeu nestes dois edifícios que parecem sair
da mesma forma bastarda e insignificante.
“As obras do tempo da colônia têm um caráter mais grandioso.
Havia mais gosto. Ao menos elas caminhavam com o tempo e com as idéias
artísticas dominantes. Mas hoje que houve uma revolução completa, um retrocesso
às idéias clássicas, um apurado estudo da antiguidade, e no momento em que o
mundo civilizado tinha reconhecido como uma verdade eterna que o preceito de
Paládio, que recomenda a simplicidade das linhas, a aplicação da harmonia grega
a todos os edifícios, a esse consórcio da arte gráfica profana com a sagrada, a
esse caráter de solidez, a essa beleza de contornos, aparecem de pedra e cal
esses templos construídos por habilíssimos pedreiros e riscados por homens
apenas possuidores de longínquas tradições, que, sem serem borromínicos, nem
gregos, são uma verdadeira monstruosidade sem gosto e sem poesia.
“Na igreja do Carmo há dois portais de um trabalho
esquisitíssimo, e o que deita para o beco dos Barbeiros é uma obra maravilhosa
naquele estilo. E impossível será que o cinzel do escultor possa talhar o
mármore com maior morbidez e graça do que ali se acham. Estas duas portas
seriam consideradas como dois monumentos perfeitíssimos da arte borromínica em
toda a sua pompa e em qualquer parte da Europa.
“Não sabemos a quem o provedor da ordem dos militares, o
Coronel de Artilharia José da Silva Santos, encomendara o risco (da igreja da
Cruz). Mas unicamente ao certo é que a obra de talha e as estátuas externas são
da mão do insigne Valentim.
“O alpendre olórico da sua fachada é uma obra bem acabada. A
mistura do granito e do mármore é feita com inteligência e gosto, e os ornatos
externos da escola borromínica são muito bem acabados, principalmente os da
porta principal.
“No interior da igreja se acha toda a pompa e magnificência
do gênio de Valentim. O mesmo cinzel da capela-mor de S. Francisco de Paula. O
partido tomado na distribuição das linhas gerais é felicíssimo, principalmente
as das portas laterais depois da tribuna do coro, que são ornadas e
distribuídas com muito gosto.
“A igreja da Cruz, situada na rua Direita, no quarteirão
mais nobre e movediço da cidade, será por longo tempo um ornato desta, e um
testemunho de que os homens do século passado tinham mais gosto para as artes
do que os do século atual. Com raras exceções, tudo o que fazemos hoje é
destituído de grandeza e de poesia.”
Esta descrição do templo da Santa Cruz dos Militares foi
publicada no Ostensor Brasileiro. Mas, embora tenham passado não poucos anos
depois que ela viu a luz da imprensa, julgo-a tão suficiente, e tanto respeito
o mestre que a fez, que não me atrevo a acrescentar-lhe palavra.
A imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares, no seio da
qual fundiu-se a de S. Pedro Gonçalves, é desde muito tempo uma instituição que
desempenha dignamente um duplo fim católico. Porque não só atende com esmero e
brilhantismo a todas as condições do culto externo, como socorre
filantropicamente as viúvas e famílias dos militares irmãos finados,
pagando-lhes pensões da quarta e terça parte dos soldos que estes venciam.
Esta providência aproveita notavelmente aos pensionados.
Porque, em verdade, no Brasil não há classe que mereça mais e receba menos do
Estado do que a militar.
No nosso país o soldado, qualquer que seja a sua patente, se
não tem outros recursos além do seu soldo, é sempre um pobre, não deixa por sua
morte à mulher e aos filhos outro legado que não seja a memória de uma vida
trabalhosa e árdua e a mais triste e completa pobreza, e às vezes mesmo a
miséria.
Ainda bem que a nação raramente se esquece de acudir em
auxílio das viúvas e dos órfãos dos seus valentes defensores, e que há uma
instituição como a imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares, que em
grande parte concorre para o mesmo fim.
E esta irmandade oferece um novo e belo exemplo do que pode
fazer e conseguir o espírito de associação bem dirigido e constantemente
aplicado com solicitude. Homens pobres, mas dedicados e prudentes, levando a um
cofre comum diminutas somas anuais, chegaram a realizar um fundo de importância
elevada e um montepio considerável.
A irmandade da Santa Cruz dos Militares tinha, no fim do ano
de 1861, uma receita de 596:603$129, procedente de juros de apólices e da conta
corrente do Banco Hipotecário, dos aluguéis de prédios de suas propriedades e
das jóias e diversas contribuições dos respectivos irmãos, e pôde assim pagar
nesse mesmo ano, 38:792$961 de pensões às viúvas e órfãos dos irmãos finados.
Sem dúvida essa receita deve ter crescido e atualmente se
apresentará um quadro ainda mais animador.
Essa prosperidade financeira dá pleno testemunho da
sabedoria e do zelo com que a irmandade tem sido dirigida pelas suas
administrações, que merecem por isso muitos elogios.
Pois olhem, nem todas as irmandades podem gabar-se de igual felicidade.
O culto divino está no caso do alto serviço da pátria, e há
bom número de carolas que se aproveitam do serviço de Deus para cuidarem dos
seus interesses materiais de um modo um pouco abusivo, assim como se contam
notáveis patriotas de elevada posição social que se regalam à custa da nação,
de quem se dizem beneméritos.
Que religiosos e que beneméritos uns e outros rezam o Padre
Nosso unicamente por causa do venha-a-nós. Florescem por aí procuradorezinhos
de irmandades a quem os santos de sua devoção têm a infelicidade de estarem
sempre devendo, e apesar dos sacrifícios de tempo e de dinheiro que fazem, os
tais devotos carolas agarram-se às procuradorias como sanguessugas aos corpos
dos doentes, e nos atos de eleições brigam, cabalam e se esforçam para serem
reeleitos, como se fossem candidatos a uma senatória!
Faz desconfiar tanta dedicação religiosa.
Faz desconfiar deveras, e pelo menos obriga um homem de
consciência a ficar por alguns momentos refletindo sobre o caso.
Reflitamos, pois, meus companheiros de passeio; e para
refletirmos tranquilamente façamos aqui uma pausa de suspensão.
V
A igreja da Santa Cruz dos Militares, fundada sobre as minas
de um fortim por soldados que são homens de proezas, e mantida em todas as
condições do culto divino, além deles primitivamente por navegantes, que são
homens férteis em histórias curiosas, muitas vezes terríveis, e às vezes também
mais ou menos exageradas, obtida ou conquistada pelo cabido da Sé fluminense e
de novo restituída às irmandades a quem ela de direito pertencia, dava-me
lisonjeira esperança de pingue colheita de interessantes tradições.
Infelizmente, porém, o seu passado é um túmulo que escondeu para sempre as
memórias do outro tempo.
O descuido e o cupim têm feito perder a lembrança de muitos
fatos importantes, de romanescas lendas e mesmo de crenças e prejuízos
populares, que seria agradável conhecer atualmente.
O descuido fez com que não se escrevesse o que devia ser
perpetuado. O cupim devorou tesouros imensos nos arquivos públicos e de não
poucas instituições religiosas.
Não sei se devo atribuir ao descuido ou explicar pela ação
do cupim a pobreza de tradições do passado que se nota na igreja da Santa Cruz
dos Militares. Mas é certo que somente encontrei nela a lembrança de fatos
contemporâneos para referir aos meus companheiros de passeio.
Além das solenidades compromissais a que está obrigada a
imperial irmandade da Santa Cruz dos Militares, celebram-se anualmente nessa
igreja duas pomposas festas. Uma é a do Senhor Desagravado, outra a de N. S. da
Piedade, e ambas têm uma origem que convêm não deixar esquecer.
São histórias do nosso tempo e que todos sabem. Não é isso,
porém uma razão para condená-las ao silêncio. Porque todos as sabiam, deixaram
talvez os nossos avós de escrever e perpetuar coisas do passado que se perderam
completamente na memória dos homens.
Tratarei em primeiro lugar do acontecimento escandaloso de
que proveio a justíssima e louvável idéia da festa do Senhor Desagravado, e
contarei o princípio da história, copiando textualmente alguns períodos da
erudita pastoral do venerando bispo do Rio de Janeiro, datada de 10 de agosto
de 1815 e relativa a esse caso.
“Na igreja da Santa Cruz dos Militares desta corte,
andando-se em obras, aconteceu que no dia 29 do mês de julho ultimamente findo,
pelo meio-dia, um oficial de pintura, que trabalhava nas referidas obras fosse
ao consistório onde se achava a imagem do Senhor Jesus morto. E aí abrindo a
cortina que encerrava e sacrossanta imagem (ah! quem o pensara de um católico?)
escarnecera, blasfemara e desacatara a veneranda imagem!
“O desacato de que falamos foi seguido de um efeito
prodigioso. O seu infeliz autor, sobre sacrilégio, foi também incrédulo. E à
semelhança daqueles que blasfemaram do Nosso Salvador na hora do seu martírio,
dizendo-lhe que se era Deus, descesse da cruz para acreditarem, o desgraçado
dizia, ao passo que desacatava a imagem, e negava a divindade daquele que essa
imagem representava. ‘Se tens poder, tira-me a vida neste momento.’
“Mal o infeliz consumara o atentado, que a razão o
abandonou, como que espavorida da profundidade do abismo a que chegara. Ficou
ele, diante, em pouca distância da santa imagem, estupefato, com a fisionomia
notavelmente alterada e tendo aberta a boca (que acabava de insultar o Céu) e
sobre ela a língua estendida!
“Depois deste sucesso, outro da mesma natureza, porém de uma
maior gravidade, teve lugar. O infeliz, tornando a si, achava-se pintando a
urna de N. S. das Dores na igreja, quando, precisamente às 3 horas da tarde do
referido dia, soltou dois fortes gritos que assustaram grandemente os outros
trabalhadores. E imediatamente caiu por terra, sem sentidos, quase morto, e
sofrendo em todo o corpo horríveis contorções! Neste estado permaneceu até
perto da noite, quando foi levado para sua casa. Não consta que padecesse tão
grave mal em nenhum tempo, e nem se conhece nenhuma causa precedente que o
motivasse.
“Quando o desacato foi feito, as pessoas que o presenciaram
exprobaram-no ao seu autor. Este, sofrendo dois dias depois um novo ataque,
abraçou-se com uma imagem do Senhor Jesus crucificado e o mesmo fez no dia
seguinte com a imagem das Dores de Maria Santíssima a quem saudou com um afeto
filial. Assevera que não se recorda do que lhe sucedera nesse infausto dia 29
de julho e nos dois seguintes. Mas está pronto a renovar a sua fé à face da
igreja que escandalizara, e a dar todo o gênero de satisfação que necessária
for para reparar o mal que fizera, arrependendo-se e sujeitando-se às penas
canônicas.”
O infeliz de quem se trata nesta pastoral chamava-se Augusto
Frederico Correia, era natural dos Açores, tinha vinte e três anos de idade e
ocupava-se no gessamento da igreja da Santa Cruz dos Militares, quando, no dia
29 de julho de 1815, cometeu os horríveis excessos de incredulidade e
sacrilégio, ofendendo a imagem sagrada com palavras e com ações que devem ficar
no esquecimento.
No dia 12 de agosto do mesmo ano de 1815, efetuou-se na
igreja da Santa Cruz dos Militares o ato solene do desagravo da imagem sagrada
de Jesus Cristo morto, conforme fora determinado na pastoral de 10 de agosto, e
eis aqui uma descrição fiel dessa solenidade, descrição que copio tambem ipsis
verbis de uma das nossas gazetas diárias.
“Às dez horas da manhã, achando-se reunido o clero da
freguesia da Candelária, presidido pelo seu reverendo pároco, muitos cônegos e
mais eclesiásticos seculares e regulares e a imperial irmandade, chegou o Sr.
bispo capelão-mor conde de Irajá, e sendo recebido à porta pelo reverendo
pároco, subiu com dificuldade (pelo imenso povo que se achava apinhado no
trânsito, a fim de assistir ao ato) as escadas do consistório, onde já se
achava o monsenhor e o vigário geral, cônegos Marinho e Chaves, mestres de cerimônias,
e o delinqüente junto ao altar do lado da Epístola. S. Ex.a Rev.ma fez a oração
ao Senhor depositado em cima do altar, coberto com um rico véu roxo, e foi
sentar-se no fraldistório, ao lado do Evangelho, não querendo fazê-lo no meio
do altar, como era do cerimonial, pelo respeito, humildade e acatamento à mesma
sagrada imagem. Paramentado de amito, cruz peitoral, estola, pluvial roxo e
mitra amarela, sentado no seu fraldistório, mandou ao mestre de cerimônias, o
cônego Moreira, que lesse em voz alta a enérgica e devota pastoral, na qual
dava provas não equívocas do seu zelo, religião e cuidado pastoral na
manutenção do culto religioso, que sustenta no governo da sua vasta diocese.
Acabada a leitura, o mestre de cerimônias conduziu o delinqüente aos pés de S.
Ex.a, o qual, pondo-se de joelhos, disse a confissão geral. Acabada a qual, S.
Ex.ª, de pé e sem mitra, o absolveu da censura, na forma do ritual romano. O
delinqüente depois recitou o símbolo dos apóstolos, com o artigo da
constituição de Pio IV, na forma seguinte, pondo a mão sobre o missal:
‘Firmemente afirmo que se devem ter e reter as imagens de N. S. Jesus Cristo e
da sempre Virgem Maria Mãe de Deus, e dos outros santos, e bem assim que a
essas imagens se deve dar a devida honra e veneração.’ Isto feito, o
delinqüente tomou o seu lugar ao lado da Epístola, e S. Ex.ª prostou-se no
fraldistório com mitra e os cantores começaram a ladainha de todos os santos,
cantada por todos com a maior devoção possível, estando todos de joelhos.
Acabadas as ladainhas, S. Ex.ª, de pé e sem mitra, cantou o Pater Noster e a
oração pro Eclesia. E ajoelhando-se depois com ambos os joelhos, beijou com
toda a reverência e acatamento a mão direita da sagrada imagem, que se achava
descoberta. O mesmo praticaram o clero secular e regular, a irmandade, o
delinqüente e mais pessoas que se achavam presentes. S. Exª mandou que a
sagrada imagem estivesse todo o dia exposta à veneração de todos os fiéis, a
fim de terem a doce consolação de adorar e beijar seus sagrados pés. É deste
modo que S. Ex.ª Rev.ma deu um público testemunho da sua devoção e respeito à
religião católica apostólica romana, que felizmente e de coração professamos.”
Ainda alguns esclarecimentos, e completa ficará a história
do desacatador.
Terminada a cerimônia religiosa que os meus companheiros de
passeio acabam de ver descrita, quis o vigário geral esperar que o povo se
retirasse para sair com o delinqüente. Mas esperou debalde. A multidão de
curiosos permanecia postada em frente da igreja com o empenho de conhecer o
infeliz, e conseqüentemente aquele digno sacerdote resolveu-se a escapar com o
penitente por uma porta lateral do templo. Sendo, porém, pressentido e
acompanhado pelo povo que murmurava, apressou-se e conseguiu entrar em sua casa
na rua da Assembléia (que ainda se chamava da Cadeia), diante da qual ficaram
de vigia muitos homens do povo.
Às oito e meia horas da noite o infeliz Augusto Frederico
Correia, supondo-se livre de qualquer perigo, saiu da casa do vigário geral, o
monsenhor Narciso da Silva Nepomuceno, e acompanhado de um caridoso sacerdote,
seguia pela rua da Assembléia, quando, ao entrar no largo da Caneca, viu-se
perseguido duma turba ameaçadora, que entre vaias bradava: “Fora, judeu! Fora,
excomungado!” E em tão grande risco se achou, que se homiziou no hotel de
Itália, que então era na praça da Constituição, e ali ficou até à tarde
do dia seguinte, em que o chefe de polícia o foi buscar e o levou em sua
carruagem ao Arsenal de Marinha, entregando-o à autoridade competente, com a
declaração de não o deixar preso, mas somente abrigado por alguns dias a bordo
da fragata de guerra Príncipe Imperial.
Eis o fato absolutamente como se passou e em toda a
simplicidade e nudez. Não preciso dizer quanto me horrorizou o sacrilégio
perpetrado pelo miserável Correia, e quanto me horrorizo ainda à simples
lembrança dele. É a única apreciação que me atrevo a fazer desse desacato
insólito e maldito. Quanto ao mais, não adiantarei palavra. Creio firmemente
que Deus Nosso Senhor muitas vezes castiga os grandes pecadores neste mundo.
Mas, se os ataques e convulsões que sofreu na igreja da Cruz aquele infeliz
sacrílego foram ou não foram um castigo de Deus, não sei. Bem pode ser que o
fossem. Se, porém, de certo o foram, só Deus o sabe.
O que me cumpre acrescentar é que Augusto Frederico Correia era notável pela sua ignorância, e que deixou irrecusável prova disso na seguinte carta que escreveu, achando-se a bordo da fragata Príncipe Imperial.
“Reverendíssimo Sr. Mon. Sr. Digníssimo Vigário Geral. – Às 5½ da manhã logo que foi presenteado ao Sr. Com. desta fragata Princete recepi a ingusta repreensão de filho de má mulher de ladrão de cachorro e de malvado a vista de toda a guarnição e mandaram-me em mangas de camiza apresentam ao Sr. Com. da fragata Praguaçu. Logo que voltei deram que eu estava prezo a ordem do Sr. Chefe de polícia que era para todo o serviço e de noite para o porão quem será Sr. que ature asim que o seu crime já vossa rerevendíssima é eu ter-se esforçado e mostrar a Deus Nosso Senhor e ao mundo que não sou culpado de um crime tão disgraçado em fim Mon. Sr. não se passarão cinco minutos que não me mandassem dar umas poucas de chibatadas e outra vez ordem para pessoa nenhuma falar comigo que era um ladrão malvado por isso vou depositar aos pés de vossa S.ª Reverendíssima que é impossível Sr. que eu possa persistir neste por mais tempo desta maneira o Sr. Juiz ou Chefe da polícia disse ao Sr. inspetor do arsenal de marinha que eu não era preso mas aqui logo me trataram assim e continuam a pior e se vossa reverenndíssima não quiser ter compaixão do mais disgraçado de todos os homens fazer com que um reverendo me ouça de confissão por que estou resolvido a retirar-me do mundo para não pensar mais injustamente eu espero estimadíssimo mon Sr. que vos não me desamparareis nesta tão arriscada uma só fala vossa faz a minha felicidade não posso mais por que vou varrer, os chiqueiros dos porcos nem reparar alguns erros que fiz Adeus mon Sr. Adeus mon Sr. a mesma recomendação faço ao Sr. Padre que mora com V. Ex.ª que também se compadeça de mim e fico até o último suspiro sendo de V. S.ª e Reverendíssimas desgraçado muito Venerando Criado e Obrado. – Augusto Frederico Correia.”
Deixemos o pobre Correia com o arrependimento que decerto o
acompanhará até à morte, se é que ainda não morreu. Foi um miserável diabo que
pagou caro uma hora medonha de indigno e estupidíssimo sacrilégio. Mas do seu
desacato proveio ao menos uma santa e louvável devoção.
O tremendo e medonho insulto feito à imagem de Jesus Cristo
morto despertou imediatamente no Rio de Janeiro a fé de muitos católicos. O
Coronel Manuel José de Castro, irmão da irmandade da Santa Cruz dos Militares,
ofertou a quantia de 2:000$ para de seu produto haver uma missa às
sexta-feiras, no altar de N. S. das Dores, estando exposta a imagem do Senhor
Desagravado, e este exemplo de piedade religiosa tem excitado tão importantes
ofertas, que, além da missa instituída por aquele irmão, e que é sempre muito
concorrida, há uma festividade anual do Senhor Desagravado, que é solenizada
com grande pompa, e a que assiste com a maior devoção um grande número de
fiéis.
A origem da devoção do Senhor Desagravado foi, portanto, um
sacrilégio. A origem da devoção de N. S. da Piedade, na mesma igreja da Santa
Cruz dos Militares, foi um horroroso flagelo.
Isto prova ainda uma vez que, estremecendo ante o espetáculo
de crimes abomináveis, ou no meio das mais dolorosas provações, a humanidade
acha sempre um recurso poderoso, uma suave esperança, um conforto animador,
voltando-se para Deus.
No ano de 1855, a terrível peste do cólera-morbo, que
invadira pela primeira vez diversas províncias do Brasil, fazia cruéis estragos
na capital do império, ceifando, principalmente na classe pobre, um grande
número de vítimas.
Ao grito de angústia soltado em triste coro por milhares de
famílias necessitadas, pronta e zelosamente despertaram a um tempo a caridade
pública e a particular. Multiplicaram-se os hospitais, as enfermarias e postos
médicos, avultaram os donativos e as subscrições, e por toda a parte abriram-se
os cofres dos ricos em auxílio da pobreza.
Nessas circunstâncias difíceis, o Imperador o Sr. D. Pedro
II praticou um grande ato de sabedoria e virtude, pois, rejeitando o parecer
daqueles que o aconselhavam a retirar-se da capital, não só permaneceu nela com
sua augusta esposa e as sereníssimas princesas, mas ainda saiu a visitar as
enfermarias dos afetados do cólera, e gastou longas horas conversando,
consolando e animando os infelizes doentes, sem receio algum do contágio que,
com fundamentos ou não, a tantos aterrava.
Este procedimento do Imperador deu coragem aos mais
medrosos, dedicação aos menos zelosos, e inflamava ainda mais o sublime
espírito da caridade, que se achava já muito nobremente excitado.
Todas as classes rivalizaram em solicitude, e o sexo
feminino disputou nesse ponto a primazia ao masculino.
Viram-se senhoras deixarem suas casas e famílias para
servirem de enfermeiras nos hospitais. Outras, e entre estas muitas de elevada
hierarquia, saírem pelas ruas a pedirem esmolas para os pobres. Quase todas
cotizaram-se, destinando a esta obra de caridade somas que deviam empregar em
jóias e enfeites. E um grande número delas, reunindo muitos e muitos delicados
trabalhos de suas mãos, efetuaram na Academia das Belas-Artes um leilão de
caridade em proveito dos doentes pobres.
Neste fervoroso empenho de caridade mostraram-se enfim
algumas esposas e filhas de irmãos da Santa Cruz dos Militares, esmolando às
portas da igreja desta invocação o preciso socorro para os pobres feridos da
tremenda peste; e mais tarde uma reunião de senhoras deliberou dar graças à
Santíssima Virgem da Piedade, a quem tinham devotamente recorrido contra a
peste, e que ouvira as suas súplicas, e conseqüentemente fora instituída uma
festa anual, e uma missa rezada todos os sábados.
A mesa da irmandade foi pronta em conceder a necessária
licença para que essas solenidades se efetuassem na sua igreja, e a devoção de
N. S. da Piedade tem tido o mais louvável desenvolvimento.
Esta devoção tomou por protetora Sua Majestade a Imperatriz,
e a festa anual que celebra é uma das mais pomposas e brilhantes do Rio de
Janeiro. Senhoras estimadíssimas e de elevada hierarquia vão cantar ao coro e
tudo é feito com esmero e esplendor. As missas dos sábados reúnem imenso e
piedoso concurso, e além da satisfação do culto divino, a santa instituição
desempenha o dever e a virtude da caridade, distribuindo sem ostentação e com a
graça no fazer o bem, que só pertence às senhoras, esmolas preciosas que matam
a fome de muitas famílias pobres aqui na Terra, e são aplaudidas pelos anjos do
Céu.
Com a história destas duas devoções, a do Senhor Desagravado
e de N. S. da Piedade, concluo em tudo quanto posso dizer a respeito da igreja
da Santa Cruz dos Militares, e agora volto ao ponto em que deixei o cabido da
Sé, na noite da sua conquista da mesma igreja.
As irmandades da Santa Cruz e de S. Pedro Gonçalves
acordaram sobressaltadas com a presença dos seus hóspedes obrigados, levantaram
alarido igual ao de um partido em maioria que perde uma eleição, porque a
polícia fez o diabo na urna. Mas a Câmara e o governador, escandalizados
também, não se contentaram com palavras vãs, e queixaram-se do fato ao rei, que
por provisão de 14 de dezembro do mesmo ano de 1731, estranhou aos capitulares
da Sé a demasiada aceleração e pouca decência com que a horas noturnas trasladaram
a imagem de S. Sebastião sem darem parte ao governador, e também declarou à
câmara que nenhum direito tinha de impedir a mudança das imagens, pias e
púlpitos.
O fato estava, pois, consumado, e o venerando cabido ficou
na casa alheia contra a vontade dos donos.
A teoria dos fatos consumados não é descoberta do século
dezenove. Em todos os tempos, a violência achou sempre desculpas, quando as
conveniências e os interesses dos governos os aconselham a legitimá-la.
A oposição das irmandades proprietárias da igreja da Santa
Cruz continuou sempre a incomodar os capitulares, e monsenhor Pizarro, que é um
pouco suspeito pela sua mesma qualidade de monsenhor, observa nas suas Memórias
do Rio de Janeiro que o simples uso da igreja não foi decerto a causa primária
nem única da repugnância de tais corporações, mas as circunstâncias prescritas
no mesmo alvará (de 30 de setembro de 1733), onde, além das declarações já
referidas, acresceram as seguintes: “E as duas irmandades da Cruz e S. Pedro
Gonçalves que há na dita igreja da Cruz se conservaram nela, assinando-se para
a irmandade da Cruz em lugar da capela-mor, alguma das outras do corpo da
igreja, para nela se colocar a Santa Cruz e celebrarem a sua missa como até
agora, e em lugar das sepulturas que as ditas têm no pavimento da igreja, se
fará um cemitério no lugar que parecer mais conveniente, do qual se dará parte
às ditas irmandades e as outras partes ficarão livres para se enterrarem os
paroquianos e mais pessoas seculares, reservando-se as sepulturas da igreja
somente para os eclesiásticos e mais pessoas a que, conforme o direito, se lhes
devam conceder dentro da igreja – cujas cláusulas, parecendo odiosas aos
proprietários da casa, lhes ministravam o fundamento para suplicarem a
restituição dela.”
Supondo que monsenhor Pizarro tenha bem determinado os
motivos da contestação, ainda assim ninguém deixará de inclinar o seu juízo
para o lado das irmandades que haviam levantado a sua casa, e viam a Santa Cruz
desterrada da capela-mor para o corpo da igreja. Que tinham preparado na igreja
sepulturas, para que os seus finados nelas dormissem o sono eterno aos pés dos
santos altares e debaixo de coberta enxuta, e que se viam condenados a irem
sepultar-se em um cemitério público, tomando os eclesiásticos e os
privilegiados as suas covas da igreja.
Foi, portanto, segundo monsenhor Pizarro, uma briga por
causa da Santa Cruz e dos defuntos. Mas não é menos certo que o direito de
propriedade da Santa Cruz e de S. Pedro Gonçalves foi sacrificado em proveito
do cabido.
Ainda bem que um dos pontos que deram motivo a esta questão
foi para sempre resolvido pela carta régia de 14 de janeiro de 1801, que
proibiu as sepulturas dentro das igrejas, e ainda mais pela febre amarela, que,
assolando o Rio de Janeiro em 1850, obrigou o governador a tomar a utilíssima
providência que acabou com os enterramentos dentro da cidade, e determinou o
estabelecimento de cemitérios fora dela, e onde todos os defuntos, seculares,
eclesiásticos e privilegiados, vão jazer como irmãos que são, aos lados uns dos
outros, e com a certeza de não brigarem por causa dessa lei de igualdade.
Continuemos, porém, a nossa história.
Quis o rei que pela mudança da Sé não ficasse esquecida a
catedral primitiva, e por isso ordenou no alvará já citado que:
1°, se erigisse ali uma confraria de S. Sebastião, a fim de
que ela mantivesse a decência do templo; 2°, que houvesse um capelão efetivo
com a obrigação de celebrar missa no altar-mor todos os dias, por si e por
outro sacerdote em benefício das almas dos reis de Portugal; 3°, que ao capelão
se daria a côngrua como pelo soberano fosse consignada e à fábrica da igreja;
4°, que no dia 27 de janeiro de cada ano, no qual se soleniza a oitava do mesmo
santo padroeiro, depois de satisfeitos os ofícios divinos e cantada a missa
conventual na catedral nova, fosse obrigado o cabido, acompanhado de todo o
clero, sem exceção do regular, a fazer uma procissão solene à igreja antiga,
onde se cantaria outra missa igualmente solene. E por último, recomendou muito
ao bispo e ao cabido que a manhã e o dia todo da procissão fossem de guarda.
O bispo satisfez plenamente o segundo e terceiro destes
quatro artigos do alvará. Nomeou o capelão e este recebeu a sua côngrua. O
primeiro artigo deixou de cumprir-se, porque faltou zelo e boa vontade dos
devotos para sustentação da irmandade de S. Sebastião, que, aliás, já existia
antes do ano de 1716. Mas, quase de fato extinta, apenas, como já disse em
outro passeio, reviveu muito mais tarde pelo influxo do vice-rei conde de
Resende.
O quarto artigo, enfim, recebeu fiel execução, e até o ano
de 1757 foi observado, tendo-se transferido para o dia designado no alvará a
procissão que se fazia a 20 de janeiro. Como, porém, o Santíssimo Sacramento
era levado pela íngreme ladeira do colégio da Sé nova para a velha, nas horas
mais ardentes de um dia de verão, e isso causava grande incômodo aos
eclesiásticos e ao povo que o acompanhava, pareceu melhor ao cabido dividir-se
o corpo capitular em dois grupos, ficando um na Sé nova, onde se celebravam as
horas canônicas e a primeira missa, e outro na Sé velha, satisfazendo a
assistência da segunda missa juntamente com o Senado e a Câmara e ordenando-se
a procissão na tarde do oitavário. O Bispo D. frei Antônio do Desterro e o
Senado aprovaram esta proposição, e assim começaram a ser efetuadas as
solenidades desde 1758.
As festas de S. Sebastião eram celebradas com todo o aparato
e esplendor. A cidade iluminava-se à noite, como ainda agora se observa. Mas,
indubitavelmente havia mais devoção em todos e mais alegria no povo.
Entretanto, nem o encanto divino destas solenidades, nem a
justa devoção que merecia o santo que dera o seu nome e patrocínio à cidade,
tinham podido extinguir as divergências que traziam em oposição o corpo
capitular e as irmandades proprietárias da igreja da Santa Cruz.
Cartas régias de 10 de novembro de 1736 e de 5 de agosto de
1738 ordenaram ao bispo que escolhesse sítio conveniente para nele se construir
uma nova catedral, determinando ainda outra, de 11 de agosto do mesmo ano de
1738, ao governador e capitão-general que, em conferência com o bispo e o
brigadeiro José da Silva Páez, apontasse outra igreja para Sé-catedral, ou
lugar em que de novo se edificasse, conforme parecesse melhor.
Aquelas duas primeiras cartas régias e o fato de se adiantar
notavelmente a mina da igreja da Cruz livraram as irmandades da Santa Cruz dos
Militares e de S. Pedro Gonçalves dos seus hóspedes obrigados.
Em cabido de 28 de julho de 1737, declarou o corpo capitular
que, entre os templos existentes na cidade do Rio de Janeiro, o mais apto para
servir de catedral era a igreja de N. S. do Rosário. E aprovando o Bispo S.
frei Antônio de Guadalupe este conselho, foi na tarde do 1° de agosto do mesmo
ano trasladado procissionalmente para esta igreja, onde o recebeu a irmandade
senhora da casa.
Parece-me inútil dizer que as irmandades da Santa Cruz dos
Militares e de S. Pedro Gonçalves despediram-se do cabido com o sorriso nos
lábios. Mas, convém desde já declarar que os pretinhos que compunham a
irmandade de N. S. do Rosário (é a frase de monsenhor Pizarro) abriram-lhe a
porta da sua igreja quase com as lágrimas nos olhos.
E preciso é confessar, os pretinhos tinham alguma razão.
VI
Pela mesma razão por que, acompanhando o respeitável cabido
do Rio de Janeiro em sua mudança da Sé velha para a igreja da Santa Cruz dos
Militares, ofereci uma descrição desta e contei a sua história, entendo que
também me cumpre destinar o nosso passeio de hoje exclusivamente à igreja de N.
S. do Rosário, para a qual, como ficou dito, se transferiu a Sé em conseqüência
da ruína daquele templo.
É verdade que a igreja de N. S. do Rosário pertencia e
pertence aos pretinhos, de quem o cabido nunca fez caso algum e antes procurou
maltratar por vezes. Mas eu neste ponto não posso ser solidário com o venerando
cabido, e além disso, não é admissível que a má vontade dos ministros da Sé se
estendesse dos pretinhos à casa de N. Senhora e nem mesmo a S. Benedito.
Também os pretos são filhos de Deus, e como tais, os que
habitavam a cidade do Rio de Janeiro, logo nos primeiros tempos, colocaram na
igreja de S. Sebastião do Castelo uma imagem de N. S. do Rosário, a quem
tributavam desvelado culto, para perpetuidade do qual criaram, antes do ano de
1639, uma confraria em que se fundiram as devoções da Senhora do Rosário e de
S. Benedito, sob o título de irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito. O
prelado administrador, Manuel de Sousa e Almada, aprovou essa instituição em
provisão de 22 de março de 1669, e a confraria começou a desenvolver-se
zelosamente até à época em que se instituiu a Sé do bispado.
A corporação capitular não se entendeu com os pretinhos, ou
estes não se entenderam com ela. O que houve entre uns e outra não sei
detalhadamente. Certo é, porém, que a irmandade de N. S. do Rosário e S.
Benedito experimentou muitos dissabores. No tomo 10, livro 1°, título 8° do
Santuário Mariano lêem-se, por este motivo, censuras graves aos cônegos, e o
próprio monsenhor Pizarro, que é nestes assuntos não pouco suspeito, dá idéia
das desinteligências que houve, dizendo: “...alguns desgostos com os cônegos por
serem obrigados [os pretinhos] a prestar certas propinas ao cabido, a ter por
seu capelão um dos capitulares e a pagar as covas ocupadas pelos cadáveres de
seus confrades, de que tudo ficaram isentos pelo alvará de 19 de janeiro de
1700, etc.”
Como quer que fosse, a irmandade de N. S. do Rosário e S.
Benedito teve de lutar com o corpo capitular, e, fatigada da luta, resolveu
deixar a igreja de S. Sebastião do Castelo, tratando de subsistir em casa
própria, e, obtendo de Francisca de Pontes doação de sete braças de terra com
trinta e duas de fundo, na rua então denominada de Pedro da Costa, traçou a
fundação de um templo, que começou a ser erigido no ano de 1700, concluindo em
poucos anos a capela-mor, e pouco depois de 1725 todo o corpo da igreja,
servindo-lhe neste empenho de poderoso auxílio a devoção do Governador Luís
Vahia Monteiro, cujo retrato ficou, por título de gratidão, conservado no
consistório da igreja.
Coisas deste mundo! A corporação capitular que brigara no
templo de S. Sebastião do Castelo com a irmandade de N. S. do Rosário e S.
Benedito, foi bater à porta da igreja da mesma irmandade no ano de 1737! A
porta lhe foi aberta de má vontade e só por obediência, e monsenhor Pizarro se
admira de que os pretinhos não se mostrassem satisfeitos pela honra que
recebiam, hospedando o cabido!
À parte o antigo ressentimento, a admiração do ilustre
monsenhor não era bem fundada. Porque, não só as irmandades da Santa Cruz dos
Militares e de N. S. do Rosário e S. Benedito se opuseram ao estabelecimento da
Sé em suas igrejas, como ainda outras irmandades demonstravam igual oposição; e
em prova disto aí está o cônego Luís Gonçalves dos Santos, dizendo em suas
Memórias que a capela-mor da igreja de S. Francisco de Paula foi construída com
acanhadas proporções, muito de propósito, pelo receio de que se passasse para
esse templo a catedral.
O motivo destas oposições era evidentemente a certeza de
que, com o estabelecimento da catedral em qualquer igreja, ficava o cabido
exercendo e gozando nela direitos e prerrogativas que amesquinhavam as
irmandades proprietárias da casa. Ora, é bem natural que ninguém deseje receber
hóspedes que mandem na casa hospitaleira mais do que os donos.
O descontentamento da irmandade de N. S. do Rosário e S.
Benedito pela obrigada hospedagem que lhe impuseram demonstrou-se imediatamente
em uma queixa dirigida ao rei, que, à vista de informações dadas pelo
governador e da consulta da mesa de consciência e ordens de 24 de julho de
1739, mandou, em provisão de 3 de outubro seguinte, dirigida ao bispo,
“conservar interinamente a catedral e o cabido na igreja de N. S. do Rosário,
enquanto se fazia nova Sé, para cuja obra de novo recomendou ao bispo que escolhesse
sítio apto onde se executasse, sem ser na igreja dos pretos, por não ser
decente que o mesmo prelado e o cabido estivessem celebrando os ofícios divinos
em uma igreja emprestada e de mistura com os pretos”.
Não havia que dizer, nem apelação de uma tal sentença. O rei
mandou. Era inevitável o sacrifício, e a obediência à risca tornara-se um
dever. Se os militares não tinham podido resistir aos cônegos, quanto mais os
pretinhos!
Mas o resultado dessa situação um pouco anormal era fácil de
prever. Contestações e intrigas incessantes perturbaram a paz que devia se
observar na igreja do Rosário, cujas portas tinham duas chaves, uma nas mãos da
irmandade e outra nas do cabido, seguindo-se daí um abre-e-fecha e um
fecha-e-abre contraditório e manifestamente hostil.
O alvará de 19 de janeiro de 1700, que permitira à irmandade
de N. S. do Rosário e S. Benedito a edificação do seu templo, isentara-a de
pagar o encargo das propinas ao cabido, de ter por seu capelão algum dos
capitulares, de pagar covas na igreja da Sé (de S. Sebastião), e de não
reconhecer os direitos do pároco territorial, apesar de salvá-los o mesmo
alvará, dizendo: “... salvo sempre o padroado real, direito da ordem e
paroquial”.
As contestações mais sérias provieram da interpretação
diversa que as duas partes interessadas deram a esse alvará. A privação das
propinas e da capelania da irmandade incomodava os capitulares e acendia a
inimizade, o que não deve admirar, porque neste mundo em que vivemos as lutas
mais enraivadas são quase sempre ateadas por causa das propinas. Os políticos,
os homens de ciência, de artes liberais e de ofícios mecânicos, os homens de
toga e os de farda, todos, enfim, brigam muitas vezes, mordem-se e atassalham-se,
disputando propinas que não podem chegar a todos. Os padres não podiam fazer
exceção a esta regra, e cada um deles diria com fundamento a respeito das
propinas o que os fazem dizer a respeito de certos pecadinhos:
Não sou padre, não sou nada.
Sou vivente como os mais.
O que, porém, deu motivo à mais forte e disputada contenda
foi a interpretação da última isenção concedida pelo alvará. Porque a irmandade
a entendeu de modo a supor-se com o direito de (são palavras de monsenhor
Pizarro) querer subtrair-se de prestar obediência ao legítimo pároco da
freguesia da Sé, fazendo celebrar sem o seu consentimento todas e quaisquer
funções por seus capelães, a quem arvoraram arbitrariamente com a distinta
qualidade de párocos privativos. Longa foi sobre este ponto a disputa, que finalmente
acabou, resolvida competentemente a questão em favor da irmandade, o que não
impediu que monsenhor Pizarro escrevesse nas suas Memórias Históricas do Rio de
Janeiro, não sei quantas páginas atacando o acórdão tomado e sustentando os
direitos paroquiais.
Ou por falta de meios ou por má vontade aos hóspedes, que se
via obrigada a ter em casa, a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito
deixou durante muitos anos de melhorar com obras novas e indispensáveis a sua
igreja, até que em 1773, Antônio da Silva Ribeiro, um dos mais zelosos
protetores da irmandade e então tesoureiro dela, resolveu reformar a capela-mor
para dar-lhe extensão proporcionada ao corpo da igreja, e mais apta para se
celebrarem com dignidade as grandes solenidades religiosas. Em 26 de junho do
mesmo ano, tiveram princípio as obras, que não se limitaram à capela-mor, mas
ainda um espaçoso consistório com diversas acomodações, parte das quais deviam
ser destinadas a servir de casa capitular e de quartos para os capitulares
mudarem vestido e hospedarem-se mais a gosto, pelo que concorreram eles também
com algumas esmolas.
Antônio da Silva Ribeiro faleceu antes de se acharem
terminadas as obras, e a irmandade que as levou ao cabo no fim de alguns anos
fez uma verdadeira pirraça ao venerando cabido, pois nunca lhe ofertou, nem
conveio em conceder-lhe acomodação alguma do seu novo e grande consistório,
temendo que o empréstimo e a generosidade fossem prejudiciais à propriedade.
Este fato prova como andam em assanhada hostilidade os
cônegos e a irmandade do Rosário e S. Benedito, e disso mesmo se ressentem as
Memórias Históricas do Rio de Janeiro, nas quais monsenhor Pizarro, seu autor e
membro do cabido, não poupa censuras aos pretinhos, assinalando até abusos e
quebras de contratos que cometera a referida irmandade, como se vê do seguinte
fato, que ele perpetuou em uma nota do tomo 6º da sua obra, e que eu copio por
pertencer também à história da igreja do Rosário.
“Determinando o padre Luís de Lemos Pereira, em testamento
com que faleceu a 21 de julho de 1731, que seus testamenteiros se ajustassem
com a irmandade do Rosário para colocar em uma capela particular da igreja a
imagem de S. Vicente Ferreira, em cujo ornato mandou dispender a quantia de
400$, além da importância da faculdade pretendida, sob a condição, porém, de
ficar a capela (ou o altar) com o título do mesmo santo, e de se permitir junto
a ela duas sepulturas para sacerdotes pobres e forasteiros que não fossem
irmãos da irmandade de S. Pedro, e para anjinhos também pobres. Não obstou essa
corporação ao disposto pelo testador, recebendo com prazer grande a quantia do
ajuste. Mas considerando depois na quebra dos réditos provenientes das covas, e
como arrependida da outorga, cessou de facilitar gratuitamente estes jazigos
aos necessitados expressos. Pouco depois de colocada a imagem sobredita em seu
altar próximo (que foi o primeiro do lado da Epístola, junto ao arco cruzeiro)
não tardou em sofrer a violência de uma aposentadoria, que, excluindo-a do
lugar, fez substituir a Santana por dona da casa, a quem se deu a posse, e a um
lado da entrada ficou o senhor da propriedade como hóspede, por muito favor. À
mesma irmandade legou aquele testador uma propriedade de casa, no canto da rua
da Quitanda do Marisco, pensionando-a com cinqüenta missas anualmente por sua
alma, que se deveriam dizer no altar de S. Vicente. Mas não consta a satisfação
desse encargo, (ao menos no lugar declarado), nem ouvi no longo espaço de anos,
desde 1781 a 1801 que residi na catedral, que se cumprisse a verba
testamentária nos termos declarados.”
Do que acabo de transcrever conclui-se que a irmandade de N.
S. do Rosário e S. Benedito pregou um tríplice calote à alma do padre Luís de
Lemos Pereira, calote de altar, calote de covas e calote de missas, e procedeu
como certos políticos candidatos eleitores, que, depois que obtêm os votos dos
eleitores, esquecem os seus compromissos e zombam dos programas que
apresentaram.
Se realmente as coisas se passaram assim, a irmandade não
tem desculpa. Esse abuso, porém, não dá razão ao cabido contra os pretinhos,
como os chama o monsenhor Pizarro, nessa prolongada luta que uns e outros
sustentaram desde o ano de 1737 até 1808, em que finalmente passou a catedral
para a igreja do convento dos carmelitas, que se elevou ao grau de capela real.
Reparo agora que cheguei ao ano da mudança da Sé da igreja
do Rosário para a capela real sem ter feito a competente descrição daquela. Mas
seria ainda tempo de corrigir esta omissão, se eu tivesse ou achasse que
descrever na igreja do Rosário, que é um triste quadro de incúria e desmazelo.
Em falta de descrição, aí vai a pintura que há trinta e oito
para quarenta anos fez dessa igreja o padre Luís Gonçalves dos Santos nas suas
Memórias:
“Defronte da rua do Rosário está a igreja deste nome, que
pertence a uma confraria de pretos, e esta é a que serviu de Sé Catedral do Rio
de Janeiro, há sessenta anos pouco mais ou menos. O seu prospecto exterior é
por todos os lados triste e miserável, pois nem rebocada está senão na frente,
na qual tem uma boa portada de pedra de mármore, e o interior se assemelha mais
a um grande armazém do que à casa de Deus, apesar de ter nove altares. Pois nem
forrada e assoalhada é. E se os altares estão com alguma decência, é por
acharem-se ali a sede episcopal, o cabido e algumas confrarias anexas à
catedral. A capela-mor é nova, com forro de talha, mas não tem retábulo no
altar-mor. Os pretos começaram um grande consistório, que tarde ou nunca
concluíram. E os pardieiros que servem de sacristia e de guardar as alfaias da
irmandade do Sacramento e outras, como tambem a casinha do cura, causam
compaixão.”
Eis o que era a Igreja de N. S. do Rosário na época em que
dali saiu o cabido e onde se conservou a matriz da freguesia, chamada da Sé,
até junho de 1820, em que se transferiu o Santíssimo Sacramento para a nova
paróquia defronte do tesouro nacional.
Pensavam alguns que a irmandade de N. S. do Rosário e S.
Benedito deixava a sua igreja em tanto abandono pela má vontade e aborrecido
constrangimento com que era obrigada a hospedar o cabido. Mas o cabido mudou-se
e as coisas foram a pior.
Compreendei ou imaginai uma igreja em estado cem vezes mais
lastimável do que esse de que nos deixou tão triste quadro o padre Luís
Gonçalves, e ainda assim mal podereis fazer idéia do que é atualmente a igreja
do Rosário.
As paredes, que há quarenta anos não estavam rebocadas,
receberam, não sei quando, uma ligeira mão de cal, que resumiu todos os
melhoramentos daquela casa de Deus. O interior da igreja, que tão pobre se
mostrava, caiu da pobreza na miséria e é hoje um painel de ruínas, sempre em
esperanças de uma regeneração que nunca chega. Os pardieiros de que fala o
padre Luís Gonçalves causam repugnância pelo seu aspecto vergonhoso. Só o
consistório é que, sem ter passado por mudanças notáveis, nem adquirir sensível
embelezamento, conserva-se ao menos tão bom como era, e se mostra mais
recentemente caiado.
É provável que, em honra da Imperial Academia de Medicina,
que ali se hospeda, dessem ao consistório essa e algumas condições higiênicas
que se acham em decidida oposição com as condições pestíferas que perto se
observam.
As ruas que cercam a igreja do Rosário completam o
tristíssimo painel que estou apresentando. Ao lado direito, o largo da Sé,
povoado de barracas e de tabuleiros de negras mercadoras de verduras, oferece
todos os dias espetáculos desagradáveis pela desenvoltura das quitandeiras, e
recebe o som, felizmente confuso, de vozes e de gritos, de gargalhadas e de
injúrias que ofendem os ouvidos não habituados aos dialetos da indecência e da
desmoralização. Em frente, onde vem terminar a rua do Rosário e se interrompe a
rua da Vala, e ao lado esquerdo pela travessa do Rosário, postam-se às
vezes negros barbeiros volantes e aplicadores de ventosas de chifre, que
exercem os seus misteres no meio da rua, aproveitando fregueses da sua igualha.
Ao fundo no beco do Rosário, descansam carros velhos e lavam-se carros novos.
As paredes da igreja, no exterior, conservam-se
constantemente úmidas até uma certa altura, tendo no chão contíguo um depósito
de lama em diversos pontos, e exalando um mau cheiro de amoníaco que indica bem
a causa de semelhante imundície.
Se a irmandade de N. S. do Rosário e S. Benedito é
responsável e merece ser censurada pelo estado miserável em que se acha a sua
igreja, não menos ou ainda muito mais acre censura deve cair sobre a Câmara
Municipal da corte, que permite cenas indignas de um país civilizado em torno
daquela igreja, e deixa que junto das paredes desta se improvisem lugares de
despejo.
É mais do que ridículo, é desagradável o ver-se em uma
capital como a nossa um preto sentado em um banquinho no meio da rua, com a
cara entregue às mãos de outro que a ensaboa e barbeia como se estivesse na sua
loja, e logo adiante um outro, com a boca na ponta de uma ventosa de chifre, a
chupar o sangue de um padecente que se entrega a essa operação, tendo por leito
a calçada da rua; e pior que tudo é cada canto da igreja transformado em
latrina.
A Câmara Municipal e a polícia têm obrigação de pôr um termo
a semelhantes abusos.
A igreja do Rosário, tal como se acha, e as cenas que se
observam nas ruas que a cercam, são senões muito feios da cidade do Rio de
Janeiro, que tem direito a ser muito bonita, e deve considerar-se uma formosa
moça que tem por modistas e joalheiras a sua Câmara Municipal e a sua polícia.
Todavia, não tendo nunca sido um belo templo, não sendo
recomendável por obra alguma de arte, nem pela magnificência de seus altares,
nem pela riqueza de seus ornatos, a igreja da Rosário já teve o seu tempo de
brilhantes e esplêndidas festas.
Não há um só dos nossos velhos, e menos se encontrará uma só
das nossas velhas que não se lembre com saudades das famosas festas do Rosário.
Assim como na festa do Espírito Santo há um imperador, nas
do Rosário havia rei e rainha, com a sua competente corte, e cuja realeza
durava um ano, como a dos imperadores do Espírito Santo.
O negro e a negra, rei e rainha da festa do Rosário,
apresentavam-se trajando riquíssimos vestidos bordados de ouro e prata, e
imitando o mais possível as vestes reais dos antigos tempos. A sua corte
enfeitava-se às vezes extravagantemente, mas sempre com grande luxo. O aparato
pareceria hoje ridículo, e era então, não direi imponente, porém muito
interessante.
O cortejo real era precedido de uma música especial, e, além
da solenidade religiosa, havia danças na rua, em que tomava parte a realeza
improvisada, e os pretos do Rosário batiam palma, vendo bailar a seu modo o rei
e a rainha da festa.
Este costume do passado observava-se não só na cidade do Rio
de Janeiro, mas também em diversas freguesias do interior, onde as irmandades
do Rosário eram principalmente formadas e sustentadas por negros escravos cujos
senhores prestavam-se a fazer por eles as maiores despesas da festa, e faziam
garbo de gastar avultadas quantias para vestir com todo o luxo o rei e a rainha
do Rosário.
Esse tempo já lá vai. A realeza do Rosário acabou e os
imperadores do Espírito Santo dão-nos hoje apenas muito fraca idéia do que ela
foi.
Nas lembranças do passado da igreja do Rosário tem o
consistório respectivo justos motivos de ufania, porque foi em outro tempo um
lugar de escolha, um seio ardente onde palpitaram e donde saíram manifestações
de idéias liberais.
Logo depois da chegada da família real portuguesa ao Rio de
Janeiro, o senado da Câmara desta cidade estabeleceu o seu paço no consistório
do Rosário, e foi aí que essa instituição profundamente popular tomou todas as
patrióticas e gloriosas resoluções que precederam e apressaram a proclamação da
independência do Brasil.
Foi do consistório da igreja do Rosário que saiu o senado da
Câmara com o seu estandarte em frente, no dia 9 de janeiro de 1822, para
apresentar ao príncipe regente D. Pedro a representação em que o povo pedia a
este que, desobedecendo às ordens terminantes da corte de Lisboa, ficasse no
Brasil.
Foi perto e quase junto desse consistório que, tendo a
câmara voltado para o seu paço, no mesmo dia 9 de janeiro, com a resposta
revolucionária e patriótica do príncipe, subiu a um monte de pedras que ali
havia um dos filhos do ilustre capitão-mor José Joaquim da Rocha, o Sr.
Inocêncio da Rocha Maciel, atual contador da Câmara Municipal, e em alta voz
leu à multidão de povo entusiasmado o primeiro número da Reclamação do Brasil,
periódico que acabava de sair à luz e de ser distribuído, e cujo redator foi o venerando
José da Silva Lisboa, posteriormente visconde de Cairu, e que então era
deputado da junta do comércio e um dos diretores da Imprensa Régia.
Foi do consistório da igreja do Rosário que, ao chegar ao
Rio de Janeiro a notícia de que o governo de Portugal notificara aos seus
agentes nos portos estrangeiros que tratassem de opor-se eficazmente à remessa
de armas e munições bélicas para o Brasil, saiu o senado da Câmara no dia 13 de
maio de 1822, e foi pedir, em nome do povo, ao príncipe regente D. Pedro que
aceitasse o título e o nobre empenho de defensor perpétuo do Brasil, solene
voto que foi logo satisfeito.
Foi ainda do mesmo consistório que saiu outra vez o senado
da Câmara, no dia 23 do mesmo mês e ano, e dirigiu-se ao príncipe regente,
requerendo a convocação de uma assembléia legislativa brasileira, pedido a que
atendeu o príncipe depois de ouvir o seu Ministério e os procuradores das
províncias que se achavam no Rio de Janeiro.
Foi no consistório da igreja do Rosário que, em março de
1824, se abriu o livro em que a todos os cidadãos do município da corte ficou
lícito darem o seu voto aprovador ou rejeitador da Constituição oferecida pelo
imperador D. Pedro I.
Cumpre aqui observar que todas as Câmaras municipais do
império fizeram então o que fez a da nossa capital, por ordem do governo do
imperador.
Era, sem mais nem menos, uma apelação para o sufrágio
universal, que tinha sido posto em prática pelo imperador Napoleão, em França,
quando quis, em nome do povo, acabar com o sistema republicano nesse país, e a
que D. Pedro I recorria no Brasil, procurando habilmente dar à Constituição que
oferecia o apoio e a legitimidade da sacramental aceitação nacional, depois do
gravíssimo e calamitoso erro político da dissolução da Constituinte. A
diferença das intenções dos dois imperadores tornou-se mais saliente pelo
resultado de ambas as apelações. O governo de Napoleão caiu, e a constituição
do Brasil perdurou, embora o Brasil não perdoasse ao seu primeiro imperador o
fato de se haver desquitado do elemento popular pela dissolução da assembléia
constituinte.
É verdade que poucos relativamente foram os cidadãos que
concorreram ao plebiscito para que os convocara o governo. Mas o princípio nem
por isso se reputou anulado. A nação foi chamada a manifestar o seu voto sobre
a constituição oferecida. A sua indisputável soberania foi por esse fato
reconhecida. O voto do povo, podia, pois, ter-se manifestado contra essa
Constituição, e se não se manifestou então, nem depois, nem em época em que o
elemento popular foi o exclusivo dominador do país, segue-se incontestavelmente
que a constituição política do Brasil teve e, tem, por seu principal fundamento
o apoio e a legitimidade da sacramental aceitação nacional.
Pouco depois do ano de 1824, a Câmara Municipal passou a
ocupar o seu paço construído no campo de Santana, posteriormente da Aclamação.
O consistório da igreja do Rosário ficou por algum tempo vago. Mas foi em breve
ocupado pela Imperial Academia de Medicina, que celebra nele as suas sessões
ordinárias.
Sic transit gloria mundi!
O famoso consistório é hoje apenas o modesto asilo de uma
instituição científica, e a igreja do Rosário um templo velho que nunca foi
novo.
Dir-se-ia que o cabido deixou cair a sua maldição sobre a
igreja dos pretinhos, como a chamava, e que o próprio S. Benedito retirou dela
a sua proteção.
E, segundo dizem muitas velhas beatas, S. Benedito ficou há
poucos anos mal com a cidade do Rio de Janeiro, e chamou sobre ela um terrível
castigo.
Completarei o meu passeio de hoje com a história desse
aleive que as tais beatas levantaram a S. Benedito.
Eis o caso.
S. Benedito entrava com o seu andor na procissão de Cinzas.
Mas, em 1849, não sei por que, o excluíram dela.
Devia certamente haver motivo forte para essa exclusão.
Porque não admito que também nas procissões e ofícios religiosos se misturem
certas prevenções e privilégios aristocráticos que enchem o mundo de vento e
bolhas de espuma.
Mas o certo é que S. Benedito foi excluído da procissão de
Cinzas, e que, ofendido por isto, dizem as velhas beatas, resolveu punir a
cidade do Rio de Janeiro, e fez imediatamente entrar no seio dela a tremenda
peste da febre amarela, que a encheu de terror e de luto e povoou os seus
cemitérios.
Creio firmemente que S. Benedito ressentiu-se muito menos da
exclusão do seu andor na procissão de Cinzas do que da história que inventaram
as suas devotas, atribuindo-lhe a introdução de uma peste na cidade do Rio de
Janeiro.
Podia eu, porém, pregar dez anos neste sentido, que não
conseguiria com toda a minha retórica convencer as velhas beatas do prejuízo
que as leva a ofender o santo.
Tempo perdido!
Elas diriam e jurariam, como ainda hoje dizem e juram, que
foi S. Benedito quem nos trouxe à cidade do Rio de Janeiro a febre amarela!
VII
Todos no Brasil têm ouvido e repetido um anexim que diz:
“Velho como as obras da Sé.” Mostrarei o fundamento desse anexim, que é, por
sinal, ainda muito novo, pois que foi inventado no presente século, ou, quando
muito, no fim do século passado.
Em obediência às ordens do rei, por mais de uma vez
reiteradas, para se fazer uma nova Sé no Rio de Janeiro, foi enfim escolhido e
marcado no largo de S. Francisco de Paula o lugar onde se devia erigir o novo
templo dedicado ao santo padroeiro da cidade e capitania.
O rei tinha mandado de Lisboa uma planta para o templo,
executada pelo sargento-mor Carlos Manuel. Como, porém, exigisse esse plano
despesas avultadíssimas para ser posto em obra, aprovou uma outra planta assaz
nobre e soberba, que por sua ordem lhe mandou o governador Gomes Freire de
Andrade, de acordo com o bispo.
A primeira pedra do edifício foi lançada no dia 20 de
janeiro de 1749, como declara o termo de 21 de junho de 1750, lavrado no livro
2º do registro da secretaria do bispado à fl. 4, e transcrito no livro do tombo
do cabido, fl. 144, não constando desse documento a inscrição que acompanhou
essa primeira pedra, nem as cerimônias com que ela foi lançada.
A obra adiantava-se com empenho e ardor, e, segundo informa
monsenhor Bizarro, “a vinte côvados de altura, com pouca diferença, chegaram as
paredes levantadas acima de grossíssimos alicerces. E quando o seu trabalho
prosseguia com esperança de se concluir em tempo breve, tendo-se já empregado
na obra 96:752$584, como importavam as verbas dos pagamentos feitos”, teve o
governo de suspendê-lo, obrigado a aplicar as somas que eram destinadas para
essa construção às despesas de demarcação dos limites do Brasil com as
possessões espanholas na América meridional, conforme as disposições do Tratado
de Madri de 1750.
No ano de 1752, interromperam-se, pois, os trabalhos da Sé
nova, e interrompidos ficaram por quarenta e quatro anos.
As desinteligências do cabido com a irmandade de N. S. do
Rosário e S. Benedito incitaram os capitulares a tratar da continuação da obra,
e, aprovado esse empenho pelo vice-rei conde de Resende e pelo bispo,
recomeçaram os trabalhos no dia 29 de fevereiro de 1796.
Os capitulares concorreram para a obra com uma parte da
côngrua dos seus benefícios, obtiveram alguns contos de réis em moeda, muitos
materiais e outros subsídios de esmola dos moradores da cidade e dos distritos
da capitania, e contavam que o bispo aplicasse ao mesmo piedoso fim aquelas
esmolas destinadas por direito em benefício da fábrica da igreja catedral, e
que o vice-rei cumprisse a promessa que fizera de mandar alguns condenados a
galés prestar os seus serviços, fazendo diminuir assim as despesas com os
serventes de obras. Enganaram-se, porém, com o bispo e o vice-rei, porque o
primeiro apenas concedeu insignificantes auxílios, a muito suplicar do chantre
José Pereira Duarte; e o segundo esqueceu as promessas que fizera, e ocupado em
reparar e melhorar a Sé velha, ou igreja de S. Sebastião do Castelo, mostrava
grandes desejos de fazer voltar para ela o cabido.
Está visto que, assim desamparados, não podiam os
capitulares levar ao cabo o seu intento; e desanimando completamente, porque o
rei, a quem dirigiram instantes rogos, não os pôde acudir com o necessário
auxílio, em conseqüência da situação crítica em que se achava Portugal na
Europa, abalada toda pelas bélicas proezas dos exércitos da França, não
pensaram mais em continuar as obras da Sé nova, que efetivamente pararam no dia
27 de maio de 1797, ficando pronto o corpo da capela-mor até ao arco cruzeiro,
e quase terminadas as casas laterais correspondentes.
Recolheram-se então, e ainda com a esperança de serem
aplicadas em melhor tempo, grande cópia de madeira já lavrada e muita pedra,
que, ver-se-á, não deviam servir para a Sé.
Razão teve, pois, o povo de inventar o seu anexim. Depois de
quarenta anos do começo das obras da Sé, ainda esta não se chegara a concluir,
e ainda se adiavam os trabalhos. Tinham principiado as obras no reinado de D.
João V, e ia já adiantado o de D. Maria I, sem que elas chegassem ao seu termo!
Monsenhor Pizarro, lamentando a má fortuna da Sé nova, e
querendo mostrar que, por descuido ou desamor, era o governo o culpado de
tantas demoras e do abandono das obras, exclama em uma nota que se acha à pág.
58 do tomo 6º, das suas Memórias:
“Quando aos governadores do Rio de Janeiro agradou a
execução de alguma obra pública, ou ela se originasse do gosto particular, da
necessidade, ou da devoção, tudo se prontificou, e tudo se concluiu sem
obstáculos. Omitindo fatos antigos, referirei apenas alguns dos mais chegados
aos nossos dias. Verbi gratia. Empreendeu o conde de Bobadela levantar o
convento de Santa Teresa e renovar o templo junto, de N. S. do Desterro.
Ultimou o seu empenho. Lembrou-se o conde da Cunha de construir entre outras
obras, as casas do trem e das armas. Executou o projeto. Intentou o marquês de
Lavradio melhorar a cidade, fazendo-lhe muitos benefícios. Conseguiu efetuar as
suas idéias. Traçou Luís de Vasconcelos e Sousa edificar o Passeio Público, o
cais novo, e renovar a igreja de N. S. do Parto juntamente com o recolhimento
anexo, etc. Não encontrou óbices. Deliberou o conde de Resende aterrar o campo
de Santana, adiantar a obra do cais, e reedificar o templo antigo de S.
Sebastião, etc. Tudo realizou. Só a desgraçada Sé nova, que a todos devia
merecer muita atenção, por ser uma casa dedicada a Deus e ao seu culto, e por
pertencer ao padroado real, não teve patronos autorizados que a concluíssem ao
menos na parte mais necessária a se poder dignamente celebrar ali os ofícios divinos,
e acomodar o corpo capitular, separando-o da comunicação com os pretinhos
irmãos da confraria de N. S. do Rosário! Adoremos a Divina Providência!”
Realmente as queixas de monsenhor Bizarro tiveram justos
fundamentos. Mas na história que vou contando neste passeio, o essencial é o
conhecimento dos fatos, e o fato é que a Sé nova, começada com tanto ardor e
entusiasmo, acabou por cair no mais triste abandono.
E como a Sé nova nunca pôde ser o que diz o seu nome, e já
desapareceram quase todos os sinais das obras que chegaram a se executar, darei
delas a idéia, embora incompleta, que única nos ficou perpetuada nas Memórias
do padre Luís Gonçalves dos Santos.
“A sua fachada era toda de cantaria e da mesma era o adro,
que se elevava do chão uma braça, e cercava todo este edifício. Por um e outro
lado era o templo separado das casas fronteiras por duas travessas que
confinavam com o pequeno campo da Lampadosa.”
Eis aí tudo quanto achei escrito sobre a mal afortunada Sé
nova.
Estavam as coisas neste estado. A Sé nova a tornar-se antiga
antes de chegar ao fim das suas obras, e o cabido a brigar com a irmandade do
Rosário na igreja deste nome, quando, em 1808, chegou a família real portuguesa
ao Rio de Janeiro.
A chegada da família real influiu muito nos destinos da Sé.
Mas, tende paciência, meus bons companheiros de passeio. Eu não sei se terei
ocasião de tratar em algum outro passeio daquele importantíssimo acontecimento,
e portanto, não quero perder o ensejo, e aí vai a descrição do desembarque da
real família portuguesa, a quem agora acompanharemos até à igreja do Rosário,
ainda então catedral do Rio de Janeiro.
Fala por mim o padre Luís Gonçalves dos Santos, que foi
testemunha do grandioso espetáculo.
“Finalmente amanheceu o suspirado dia 8 de março tão claro e
formoso como o antecedente; e estando as coisas dispostas para a recepção de
Suas Altezas, pelas quatro horas da mais bela e serena tarde, por entre
repetidas e alegres salvas das naus portuguesas e inglesas e por entre vivas
que os respectivos marinheiros postos em parada sobre as vergas, davam em altos
gritos, desceu o príncipe regente, nosso senhor, da nau Príncipe Real, que o
conduzira, e se meteu no bergantim com a sereníssima senhora princesa do Brasil
e com os sereníssimos senhores príncipe da Beira, infantes e infantas. E
acompanhado de toda a corte com que saíra de Lisboa, e de outras personagens
distintas que de terra o foram buscar a bordo, ou que das naus desembarcaram (o
que tudo fazia uma comitiva muito numerosa e brilhante de escaleres, lanchas e
outras embarcações menores), se dirigiu para a cidade em direitura do lugar do
desembarque. Todo o numeroso povo que bordava o cais e as praias vizinhas
estava como estático, com os olhos fixos no real bergantim, e no maior
silêncio. Mas logo que o mesmo real bergantim passava pela frente da fortaleza
da ilha das Cobras e que esta começou a salvar com a sua artilharia a Sua
Alteza real, no que foi imitada pelas demais fortalezas, imediatamente rompeu o
povo que estava sobre o monte do Castelo em altos vivas, acompanhados dos
repiques dos sinos do colégio e de muitos fogos do ar que dali se soltaram.
Entretanto, chegou o real bergantim à rampa do cais, e logo que o príncipe
regente, nosso senhor, pôs o pé em terra, ah! como poderei descrever o que tive
a fortuna de testemunhar neste ditoso momento? Centenas de fogos subiram ao
mesmo tempo ao ar. Rompeu imediatamente um clamor de vivas sobre vivas. Os
alegres repiques de sinos e os sons dos tambores e dos instrumentos músicos
misturados com o estrondo das salvas, estrépito dos foguetes e aplausos do
povo, faziam uma estrondosa confusão, tão magnífica, majestosa e arrebatadora,
que parecia coisa sobrenatural e maravilhosa. No meio desta assombrosa confusão
de tantos e tão multiplicados sons diferentes desembarcaram todas as pessoas
reais, e juntamente com o príncipe regente, nosso senhor, se prostraram diante
de um rico altar, que na parte superior da rampa estava ereto, em torno do qual
se achava o cabido da catedral paramentado de pluviais de seda e de ouro
branco, e ali osculou S. A. real a Santa Cruz nas mãos do Revmº chantre Filipe
Pinto da Cunha e Sousa, e o mesmo fizeram todas as pessoas reais. Mas, antes
desta ação, o Revmº chantre havia feito a aspersão da água benta e dado as
purificações ao príncipe regente, nosso senhor, e à real família. Levantando-se
Sua Alteza o príncipe regente com a sereníssima srª princesa e sua augusta
família, se recolheram debaixo de um precioso pálio de seda de ouro encarnada,
cujas varas eram sustentadas pelo juiz de fora, presidente do senado da Câmara,
Agostinho Petra de Bittencourt, pelos vereadores Manuel José da Costa,
Francisco Xavier Pires, Manuel Pinheiro Guimarães, procurador José Luís
Álvares, escrivão Antônio Martins Brito, e cidadãos Anacleto Elas da Fonseca e
Amaro Velho da Silva, os quais, ambos, havendo sido vereadores, foram
convidados para esta ação, que tanto honrou a todos.
“Então começou a caminhar a procissão do modo seguinte:
“Um numeroso e luzido cortejo das mais distintas pessoas
civis e militares, que não se achavam em atual serviço, ou não tinham lugares
determinados, vinha adiante, vestido de corte e com muito asseio e riqueza, e
promiscuamente os religiosos de S. Bento, do Carmo e de S. Francisco, alguns
Barbadinhos, seminaristas de S. José, de S. Joaquim e da Lapa, e também os
magistrados, sem distinção de lugar. Seguia-se o estandarte da câmara, que era
levado por um cidadão, o qual trajava vestido de seda preta, capa da mesma,
colete e meias de seda branca, chapéu meio abado com plumas brancas e presilhas
de pedras preciosas, e cuja capa era ornada com bandas de seda ricamente
bordada. Formavam em seguimento do estandarte os cidadãos, vestidos com o mesmo
traje, duas compridas alas por um e outro lado. Vinha depois a cruz do cabido
entre dois ciriais, e logo todo o clero da cidade também em duas alas e todos
de sobrepelizes muito ricas e engomadas, e finalmente o cabido com pluviais.
Então vinha o pálio e debaixo dele o príncipe regente, nosso senhor, com a sua
real família...
“...Rodeavam a Sua Alteza real os grandes do reino, oficiais
mores da sua real casa, camaristas e nobreza, e era seguido de um numeroso
cortejo de eclesiásticos, militares, oficiais de marinha portuguesa e
britânica, como também de outras muitas pessoas, que de Lisboa tinham vindo em
sua companhia.
“O regimento de artilharia estava postado com o parque no
largo fronteiro à casa da ópera, e era comandado pelo coronel José de Oliveira
Barbosa. Seguiam-se em diferentes lugares, pela frente do cais, os três
regimentos de linha. Os quatro regimentos de milícias bordavam as ruas desde o
cais até a catedral...
“Todo o caminho por onde havia de passar o príncipe regente
estava coberto de fina e branca areia, e juncado de folhas, ervas odoríferas e
flores. As portas das casas se ornaram de cortinados de damasco carmezim. E das
janelas pendiam ricas e vistosas tapeçarias de lindas e variadas cores, umas de
damasco, outras de cetim, e outras de seda ainda mais preciosas. E toda esta
brilhante armação era realçada pelo grande número de senhoras, que, vestidas e
toucadas com o maior asseio e riqueza, aformoseavam e faziam mais brilhante o
pomposo aparato da magnífica e triunfal entrada de Sua Alteza real. Na Rua do
Rosário se via, ereto na porta de um leal vassalo, um grande coreto, onde em
melodiosas vozes, tanto instrumentais como vocais, cantavam os músicos hinos de
júbilo em louvor de Sua Alteza real.
“À medida que este augusto senhor ia passando pela frente de
cada um dos regimentos, levantavam os seus comandantes a voz, dando por três
vezes os vivas a Sua Alteza, a que os soldados e o imenso povo que cobriam as
ruas, ocupavam as portas e janelas e mesmo estavam sobre os telhados,
respondiam com o maior entusiasmo e contentamento... “... Uma perene chuva de
mimosas e suaves flores caía sobre Suas Altezas. Sendo lançadas pelas mãos da
inocência e da formosura, excitavam as mais afetuosas sensações...
“Chegou finalmente o solene acompanhamento à catedral, cujo
adro e lugares circunvizinhos se viam cobertos de povo infinito, cujas vozes
que altamente saudavam a Sua Alteza com incessantes vivas, misturadas com
harmoniosos repiques de sinos da catedral, de S. Francisco de Paula, e do
Senhor Bom Jesus, e de outras igrejas mais distantes, se não aumentavam,
certamente reviviam os mesmos transportes de prazer que sentimos por todo o
caminho. O templo se achava decentemente ornado e esclarecido com profusão de luzes.
Uma grande orquestra rompeu em melodiosos cânticos, logo que entrou Sua Alteza
Real com a sua augusta família, e ao som dos instrumentos e vozes que ressoavam
pelo santuário, caminhou o príncipe regente, nosso senhor, com muito vagar e
custo, por causa do imenso concurso que dentro da igreja se achava, até ao
altar do Santíssimo Sacramento, e ali saindo debaixo do pálio, juntamente com
as mais pessoas reais, se prostou com a real consorte e os augustos filhos e
filhas ante o trono da Majestade Divina. Entretanto, cantavam os músicos o hino
Te Deum Laudamus, e concluído o verso Te ergo etc., se levantou Sua Alteza com
a real família e se dirigiu para o altar-mor, igualmente debaixo do pálio, onde
pondo-se Suas Altezas outra vez de joelhos sobre almofadas, que também naquele
lugar estavam colocadas, renderam suas homenagens à Santíssima Virgem Senhora e
ao glorioso martir S. Sebastião, padroeiro da cidade. Concluído o hino de
graças e cantadas as antífonas Sub tuum proesidium, O beate Sebastiane, entoou o
reverendíssimo chantre o verso Domine, salvum fac principem, etc., e cantou as
orações respectivas a este ato, como prescreve o cerimonial. Concluída esta
sagrada cerimônia, levantaram-se Suas Altezas, e benignamente deram a mão a
beijar a todos quantos se aproximavam às suas reais pessoas, sem preferência
nem exclusão de alguém.
“Depois de uma breve demora, voltavam Suas Altezas,
acompanhadas do cabido, clero, câmara e de toda a nobreza que dentro da
catedral estava, e chegando todos ao adro, entre novas aclamações do povo, que
esperava ansiosamente tornar a ver Suas Altezas, se meteu o príncipe regente,
nosso senhor, com o sereníssimo Sr. príncipe da Beira, em um rico coche, e o
mesmo fez toda a real família em outros coches que para esse fim estavam
prevenidos, e, seguidos de guardas de cavalaria, se dirigiram para o paço pelas
mesmas ruas por onde pouco antes haviam passado com tanto aplauso, indo os
coches com muito vagar, pelo grande concurso de povo que nelas esperava a volta
de Suas Altezas. E estando as tropas do mesmo modo postadas, por entre elas
passaram os coches, e de novo fizeram as continências ao príncipe regente,
nosso senhor, e à real família. Chegando Sua Alteza ao real palácio, foi ali
recebido com salvas do parque de artilharia e descarga da tropa de linha,
seguidas de muitos vivas dos soldados e do numeroso povo que ocupava todo o
largo do Paço. Logo depois começaram a concorrer a fidalguia, o cabido, a
câmara, os magistrados, os oficiais de superior patente e as pessoas mais
distintas da cidade para terem a honra de cumprimentar ao príncipe regente,
etc.”
Pára aqui a descrição da entrada da família real portuguesa
na Cidade do Rio de Janeiro. Mas a dos festejos que houve por esse motivo
continua longamente nas Memórias do Padre Luís Gonçalves, com toda a profusão
de adjetivos, às vezes mal cabidos, e com a linguagem e idéias da época. Quem
quiser apreciar tudo isso recorra à obra que indico. Para os meus companheiros
de passeio é de sobra a maçada que já lhes dei, e que, no entanto, há de fazer
saudades aos nossos velhos do tempo daquela transmigração real.
Os fluminenses, que então festejaram tanto a chegada da
família real portuguesa, mal pensavam que estavam solenizando e aplaudindo um
acontecimento precursor da gloriosa independência da pátria.
Mas o Te Deum Laudamus, cantado por tão justo motivo, foi a
última solenidade grandiosa que o cabido celebrou na igreja do Rosário.
Três meses e alguns dias tinham apenas corrido, quando o
príncipe regente, pelo alvará de 15 de junho de 1808, elevou à primazia de
capela real a igreja de N. S. do Carmo, e a criou paróquia do seu real paço,
ordenando outrossim que o cabido da catedral fosse logo, com a possível
brevidade, transferido para ela. As disposições deste alvará, que em parte
satisfaziam o cabido, porque o tiravam da igreja do Rosário, onde estava
continuando a experimentar a má vontade e oposição da irmandade proprietária da
casa, também em parte destruía todas as esperanças da conclusão das obras da Sé
nova, porque dizia que “considerando as necessidades atuais e urgentes do
Estado, a que cumpre acudir sem demora e que me não permitem continuar as obras
da nova catedral, a que dera princípio meu augusto avô, o Sr. Rei D. João V, de
gloriosa memória etc.”. Palavras estas que indicavam claramente como a Sé nova
ficava adiada para as calendas gregas.
Todavia, estava o cabido tão desejoso de mudar de catedral,
que logo na tarde do mesmo dia da data do alvará, depois de cantar vésperas
solenes na antiga Sé, se transferiu para a capela real, onde, no dia seguinte,
16 de junho, celebrou a festa de Corpo de Deus, assistindo a ela o príncipe
regente e a família real na respectiva tribuna.
Os ofícios dessa pomposa solenidade deram brado na cidade do
Rio de Janeiro, cuja população admirou a procissão de Corpus Christi, não só
pela riqueza e pompa com que saiu, como por ver pela primeira vez o príncipe
regente com o príncipe da Beira e infantes sustentando as varas do pálio, e
cercados do luzido cortejo de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes das três
ordens militares do reino de Portugal, ornados com seus respectivos mantos e
insígnias.
Descansou, enfim, o cabido na capela real, que se tornara e
é ainda hoje a catedral do Rio de Janeiro. E como em um dos meus primeiros
passeios já descrevi e falei largamente dessa igreja, julgo-me dispensado de
repetir o que já disse, e penso que é chegada a ocasião de, post tantos
labores, fazer as minhas despedidas ao venerando cabido.
Não posso, porém, dar por acabado este passeio sem informar
os meus bons companheiros do destino que teve a Sé nova, que nunca chegou a ser
o que indicava o seu nome.
Pela carta de lei de 4 de dezembro de 1810, foi criada na
cidade do Rio de Janeiro a Real Academia Militar, e designado para o
estabelecimento de suas aulas o ainda não acabado edifício da Sé nova, onde se
fizeram as acomodações necessárias nos consistórios e sacristia, que melhores
proporções ofereciam, e concluídos se achavam.
Assim acabaram as famosas obras da Sé, que deixaram ao povo
um anexim que é hoje o tormento das obras públicas, pela aplicação justíssima
que dele lhe fazem.
A Real Academia Militar tornou-se depois da nossa
independência em Escola Militar, e ficou sempre ocupando o mesmo edifício, que
atualmente oferece as melhores condições e vastos cômodos para o mister a que
foi por último destinado.
Nos trabalhos que em 1810 e 1811 foram sendo executados no
edifício para o estabelecimento da Real Academia Militar, aproveitaram-se as
madeiras que se tinham guardado, e tratando-se logo depois de edificar um bom
teatro na capital, e lançando-se os fundamentos dele no Campo dos Ciganos,
posteriormente chamado largo do Rocio, e enfim, praça da Constituição,
empregou-se nesta obra não só toda a pedra que era destinada para a conclusão
da igreja, mas ainda a das duas torres, que já estavam muito adiantadas, e que
se desmoronaram.
Serviram, pois, as pedras da mal afortunada Sé nova para os
imensos alicerces e gigantescas paredes do teatro, e por isso mesmo, muitos
velhos daquele tempo severos respeitadores de quanto se referia a coisas
sagradas, agouraram mal do futuro daquele edifício profano, e como se o futuro
quisesse justificar tais agouros, já três vezes foi esse teatro devorado pelas
chamas. Mas nem mesmo com três incêndios se abalaram suas grossas paredes.
Eram e são as pedras da Sé nova, contra as quais nada tem
podido o fogo destruidor.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Passeio suplementa
I
NATURALMENTE os meus companheiros de passeio entenderam que, com o precedente, tinha terminado a série dos que eu destinei à Sé do Rio de Janeiro, e com efeito, entendendo assim, raciocinaram com todo o rigor da lógica. Mas a lógica hoje em dia não governa o mundo. Agora quem mais acerta é aquele que, estabelecidos certos princípios, conclui o que está em oposição aos princípios expostos.
Por conseqüência ainda não acabamos com os nossos passeios
que têm por título a Sé do Rio de Janeiro. Como, porém, o absurdo é sempre
repugnante, é de regra que se apele para o sofisma, que é o padrinho constante
do absurdo e do abuso.
O sofisma vive sempre encapotado, e de ordinário encapota-se
em nomes mais ou menos bonitos ou retumbantes.
Às vezes, uma reforma da Constituição chama-se
interpretação. É o sofisma encapotado no nome interpretação.
E do mesmo modo e com uma capa semelhante, a cadeia chama-se
custódia.
A prisão arbitrária, averiguação policial.
Um atentado contra a nação, salus populi.
O esbanjamento dos dinheiros públicos, despesas secretas.
Uma perpétua suspensão de garantias, polícia.
A ditadura nas finanças do Estado, crédito suplementar.
A compressão e o terror do povo, ordem.
A desordem no orçamento da receita e despesa do Estado,
artigos aditivos do mesmo orçamento.
E assim por diante.
O sofisma está, portanto, na moda, e eu que resolvi
apresentar-me hoje à moda, chamarei a este e a um próximo passeio – Passeios
suplementares.
O meu último passeio era, pelo modo por que o concluí, o
último que devia ter o título de Sé do Rio de Janeiro. Mas, obrigado por fatos
recentes a voltar à igreja de S. Sebastião do Castelo ou à Sé velha, não quero
dar o meu braço a torcer, e vou de novo passear à Sé velha, ajuntando a dois
passeios que farei a ela o adjetivo – suplementares.
É um sofisma como outro qualquer.
Subamos, pois, de novo ao morro do Castelo. Subamos pela
ladeira do sofisma. Muitos têm subido por ela a outras alturas. Vamos outra vez
visitar a antiga igreja de S. Sebastião, e visto que aí encontramos hospedados
os religiosos barbadinhos italianos, vou começar antes de tudo por dizer-vos
quando e como foi a entrada desses religiosos no Brasil, e especialmente no Rio
de Janeiro.
Eu principio.
Não sei por que o Rei D. João IV entendeu que não eram
suficientes os padres jesuítas para desempenhar a tarefa das missões e
conversão dos índios do Brasil. O certo é que, a instâncias dele e com
faculdade da congregação Propaganda Fide, vieram de França para o nosso país
alguns religiosos da ordem capucha encarregados daquele mister, e que dois dos
que se destinaram para a capitania do Rio de Janeiro chegaram a esta cidade em
1659, segundo informa Monsenhor Pizarro, ou em 1650, pouco mais ou menos, como
querem outros, e foram hospedados na casa contígua à capela da Senhora da
Conceição, onde atualmente e desde muito residem os bispos diocesanos.
Consta de uma escritura celebrada na nota de 4 de janeiro de
1667, a 24 de janeiro de 1669, fl. 106 v., que o prelado administrador da
diocese Manuel de Sousa e Almada doara essa capela da Senhora da Conceição, e a
Câmara as terras respectivas, aos religiosos capuchinhos para sua habitação.
Ignoro, porém, em que direito se fundaram o prelado e a Câmara para se fazerem
doadores.
Maria Dantas fundou a capela de que se trata, à sua custa,
em terras próprias, e parte do conselho, e por escritura de 6 de junho de 1655,
doou tudo à religião do Carmo para se instituir ali um convento de religiosos
recoletos da mesma ordem, com a condição de se lhe dar sepultura na
capela-mor, a seus filhos, herdeiros e sucessores, e sob a pensão de cinqüenta
missas anualmente por sua alma e pela de seu marido Miguel Carvalho de Souto, o
que aceitou aquela religião. Mas nem se instituiu o convento, nem se sabe o
motivo da provável desistência que depois faria a religião do Carmo de tal
doação. O que é positivo é que a capela e as terras passaram para os capuchos
franceses e em seguida entraram para os bens da mitra, ficando a defunta Maria
Dantas sem as sepulturas da capela-mor para os seus herdeiros e descendentes,
sem a pensão das cinqüenta missas por sua alma e pela de seu marido, e podendo
lá da eternidade repetir com Virgílio o mil vezes verdadeiro sic vos nom vobis.
Mas o prelado Almada e a Câmara resolveram a questão. Em
falta de recoletos carmelitas passou a capela aos capuchos franceses, que tão
nas boas graças da corte se achavam que, pelo alvará de 11 de outubro de 1679,
foram declarados sob a proteção real.
Começavam estes religiosos as suas missões e trabalhos de
conversão de índios, entrando pelos sertões, quando, mais cedo do que pensavam,
mudou o vento da fortuna e tornou-se para eles de favorável em contrário.
O Rei D. Pedro II não pensou como os seus antecessores.
Persuadiu-se de que não podiam convir a Portugal missões francesas no Brasil, e
além de proibir o ingresso de religiosos estrangeiros nas conquistas
ultramarinas e na Índia, determinou que os existentes nessas províncias se
retirassem para a Europa.
E assim desapareceram do Brasil os capuchos franceses.
Seguindo os capuchinhos franceses, tinham chegado também
alguns italianos ao Rio de Janeiro, e, sem dúvida, já aqui estavam antes de
1681, pois que uma ordem de 9 de dezembro desse ano lhes mandou dar pela
fazenda real 80$000 anualmente para aumento das aldeações dos índios de Campos
dos Goitacazes; e parece que não foram compreendidos na proibição que fechou a
porta aos religiosos franceses, porque continuaram a exercer o seu ministério
em domínios de Portugal.
O Rei D. Pedro II sabia bem quais eram os hóspedes que
podiam ser incômodos e até perigosos.
Em 1720, os capuchinhos italianos Frei Antônio de Perúsia e
Frei Jerônimo de Monte Real, saídos da Itália para a missão de S. Tomé,
arribaram ao Rio de Janeiro, onde o Governador Aires de Saldanha de Albuquerque
os deteve em benefício das missões dos índios; e para sua residência lhes deu a
mesma capela da Senhora da Conceição, que pertencia já ao bispo, mas que podia
ser por eles ocupada, visto como se achava então vaga pelo falecimento do Bispo
D. Francisco de S. Jerônimo.
Aconteceu, porém, aos capuchinhos italianos o que acontecera
aos capuchos franciscanos que andaram por algum tempo sem aquentar lugar, e
mudando de casa como os pássaros de ninho.
Em 1721, foram os capuchinhos italianos hospedados na
Conceição. Mas, em 1725, chegando o sucessor do bispado, viram-se na rua, e
tiveram de acomodar-se em outra ermida do mesmo título, fundada por Francisco
de Seixas da França. Essa ermida, porém, que é a igreja do Hospício, foi
comprada pelos chismáticos terceiros franciscanos, e nela se instituiu uma
irmandade de homens pardos, tendo os capuchinhos de procurar novo abrigo no fim
de poucos meses.
O bispo acudiu aos religiosos italianos e abriu-lhes as
portas da ermida de N. S. do Desterro (depois convento de Santa Teresa). Mas,
ou por que estivesse a casa muito arruinada, ou por outro qualquer motivo,
apenas se demoraram nela os capuchinhos até o ano de 1739.
Ofereceu-se a esses religiosos a igreja e casa do
recolhimento da Ajuda, havendo para isso determinação explícita na resolução
régia de 9 de abril de 1738. Ignoro qual o destino que pretendiam dar às
freiras. Estou, porém, seguro de que respeitariam os seus votos, e de que não
data dessa época aquela cantiga popular e um pouco livre, que diz assim em uma
de suas coplas:
Se as freiras d’Ajuda
Se vissem na rua, Era um Deus nos acuda Na venda.
Não sei, repito. Sei, porém, que o povo não gostou do
oferecimento, e murmurou, reprovando a resolução régia, e que os capuchinhos
italianos, mais prudentes que o rei, renunciaram judiciosamente o benefício.
Por ordem de 23 de outubro de 1739, mandaram-se então tomar
e pagar três moradas de casas térreas no sítio vizinho e fronteiro do hospício
de Jerusalém e N. S. da Oliveira, para residência dos religiosos barbadinhos
italianos, sob a condição de em tempo algum se formar convento, isto é, de
poderem os missionários capuchos apropriar-se daquele hospício e sua competente
cerca, que também se fez.
Em 1710, efetuou-se a mudança dos barbadinhos para essa nova
casa e a rua onde ela se erigira tomou dos religiosos o nome dos Barbonos, que
ainda hoje conserva.
Sessenta e oito anos ficaram os religiosos italianos
habitando aquele hospício. Mas no ano de 1808, tendo-se tomado para aumento do
palácio do largo do Paço o convento do Carmo, destinou-se aos carmelitas a casa
ocupada pelos barbadinhos e foram estes asilados nas casas dos romeiros de N.
S. da Glória, donde também saíram mais tarde, porque, não estimados pela
irmandade da ermida de N. S. da Glória, tiveram de mudar de habitação, e se
recolheram à igreja de S. Antônio dos Pobres, que o Imperador D. Pedro I mandou
reparar à custa do tesouro nacional.
O hospício da rua dos Barbonos, depois de desocupado pelos
carmelitas, foi habitado pelos frades de Jesus da Terceira Ordem da Penitência,
passou em seguida a quartel de soldados e o é atualmente do corpo de municipais
permanentes.
Passou esse hospício de uma milícia sagrada a uma milícia
profana. Trocou pelas fardas os hábitos dos frades. Esqueceu as barbas dos
capuchos italianos pelos bigodes dos militares, os cantos religiosos pelo rufar
dos tambores e já perdeu quase todos os vestígios do seu primitivo destino.
Naquele hospício foi enterrado o autor do Hissope, o célebre
poeta desembargador Antônio Diniz da Cruz e Silva, que viera de Portugal e
fizera parte da alçada que condenou, em 1792, o Tiradentes e os patriotas
comprometidos na famosa conjuração de Minas.
A igreja de S. Antônio dos Pobres foi dentro em pouco
deixada pelos capuchos italianos, dos quais se retiraram uns para a Europa e
outros para as aldeias.
Existe ainda na Aldeia da Pedra, na província do Rio de
Janeiro, o padre-mestre Frei Florido, que habitara na ermida de N. S. da Glória
e na igreja de S. Antônio dos Pobres, e que, indo para a Pedra, começou a
catequizar os índios selvagens, conseguiu fixá-los e dominar sobre eles,
levantar uma igreja e dar à aldeia um certo grau de prosperidade.
Outros missionários italianos trabalharam no serviço de Deus
na povoação hoje vila de S. Fidélis, e aí erigiram o templo consagrado a
esse santo, templo que passa por ser um dos mais belos do Brasil.
Não disse ainda, mas convém saber que, embora tivessem
chegado muito cedo ao Rio de Janeiro esses missionários somente no ano de 1738
formaram nesta cidade uma prefeitura.
Evidentemente os capuchinhos italianos não tinham sido muito
felizes no Brasil. Mas não desanimaram por isso, e a prova é que, em 1840,
acedendo a um convite do governo imperial que os chamava a formar uma nova
prefeitura no Rio de Janeiro, donde deveriam sair os missionários destinados à
catequese dos índios e às missões pelo interior do país, acudiram logo,
chegando a esta corte na qualidade de prefeito frei Fidélis de Montuano, que
trouxe consigo cinco outros religiosos, com os quais foi morar a princípio no
mosteiro de S. Bento.
O governo imperial ofereceu à escolha dos barbadinhos
recém-chegados diversas igrejas, mas frei Fidélis preferiu a todas a de S.
Sebastião do Castelo; e a 18 de agosto de 1842, recebeu não somente essa
igreja, mas ainda o terreno adjacente medido e demarcado, como consta de uma
planta levantada pelo tenente-coronel de engenheiros o Sr. Domingos Monteiro.
Eu ponho aqui de parte todas as discussões que se têm
debatido a respeito dos barbadinhos italianos, todas as censuras que eles têm
sofrido, e de algumas das quais não hesitei em tornar-me eco consciencioso.
Esses religiosos não me devem favor, e penso que não lhes agrada o meu juízo
relativo a diversos atos que hão praticado, e especialmente às suas exagerações
no púlpito e no modo por que exigem que se concorra aos ofícios divinos na
igreja de S. Sebastião.
Ponho tudo isso de parte, e como não os tenho poupado nas
minhas censuras, não lhes farei a injustiça de desconhecer que o país lhe deve
alguns bons serviços, pois são serviços reais às igrejas, os cemitérios e os
colégios que eles têm criado, e a catequese de algumas cabildas de índios, por
esses religiosos arrancados à vida selvagem. É pena que não procedam sempre
assim. Em uma palavra, os barbadinhos italianos não são diabos como querem os
seus inimigos, nem santos como dizem os seus apaixonados. São pecadores como
todos nós, e muitas vezes sicut et nos manquejant de um olho.
Mas tudo isso fica de parte.
Eu disse que frei Fidélis de Montuano tinha recebido a
igreja de S. Sebastião do Castelo, e agora vou referir o estado em que ele a
recebeu e o que têm feito por ela os barbadinhos italianos. Isto é, vou
descrever a igreja de S. Sebastião do Castelo como era em 1842, e como é e vai
ser, convindo saber desde já que os melhoramentos que introduziu e obras que
fez nela o conde de Resende não alteraram nem as suas proporções, nem o seu
caráter e disposições arquitetônicas, sendo, pois, certo que debaixo deste ponto
de vista o templo se conservou tal qual era desde os seus primeiros tempos.
Simples em seu aspecto exterior, a igreja de S. Sebastião do
Castelo apresentava na frente uma porta principal e duas laterais. Sobre a
primeira uma janela e um óculo davam luz ao coro. Duas torres formavam os
ângulos da frente da igreja. Das portas laterais uma olhava para o Castelo, a
outra para a barra do Rio de Janeiro. Perto da porta principal e do lado do
Castelo via-se erguido um frade de pedra, como o povo chama, tendo em uma de
suas faces gravadas as cinco chagas e na outra uma cruz. Era tradição, mas
tradição que me parece não ter fundamento, que debaixo dessa pedra fora
sepultado o primeiro soldado que morrera nas pelejas do dia 20 de janeiro de
1567. No fundo ligava-se ao templo uma pequena casa que era a sacristia.
Em seu interior o templo pertencia em sua arquitetura à
ordem toscana. Havia três naves, no meio elevavam-se cinco pilares
octangulares, de cada lado com as suas bases forradas de madeira, as paredes
laterais eram de trinta palmos e as do meio, que eram sustidas por arcos
assentados sobre os pilares, tinham quarenta palmos. Corria em todo o corpo da
igreja uma pequena cimalha de madeira.
Os altares eram cinco, dois de cada lado e o principal. Do
lado do Evangelho, no primeiro havia um painel de N. S. de Belém, que
representava a adoração dos Reis Magos. No segundo estava S. André Avelino,
que, por muito estragado, frei Fidélis fez substituir por outro painel em que
se viam S. Francisco de Assis, S. Antônio e S. Afonso de Liguori. Os altares do
outro lado pertenciam a S. João Batista e a S. Januário. Os altares eram
singelos e sem obra de talha.
Antigamente, e ainda no século atual, o povo do Rio de
Janeiro era muito devoto de S. Januário, a quem se festejava com pompa todos os
anos, e igualmente de N. S. de Belém, que era honrada com especialidade em todo
o oitavário do Natal.
O arco cruzeiro da igreja era de extrema singeleza, tendo
apenas algum trabalho de talha. No altar-mor, o retábulo era em parte dourado e
em parte pintado de amarelo. Pouco trabalho de talha nele havia, e apenas se
notavam dois anjos de seis palmos de altura. Sobre o trono do altar-mor estava
um nicho onde se via o padroeiro S. Sebastião, tendo a imagem quatro palmos de
altura.
No meio do arco cruzeiro da capela-mor viam-se a coroa de
Portugal e as armas e o escudo do Brasil.
No prebistério da capela-mor, ao pé dos degraus, que são
três e eram de pedra do país, estava (e estará) a sepultura de Estácio de Sá,
da qual já em outro passeio dei conta, e por conseqüência julgo-me dispensado
de tornar a fazê-lo neste.
Fora da grade do altar-mor havia algumas pedras sepulcrais, umas tendo inscrição e outras não. Uma daquelas estava ao lado da Epístola e rezava deste modo:
Francisco d’Alvarenga deitado jaz aqui neste crucifixo e seja ressuscitado daqui donde está sepultado em o dia derradeiro.
Outra, que era de pedra de Lisboa e estava ao lado do Evan-
gelho, rezava:
A
S
De Francisco de Caldas
e de sua mulher Helena de
Sousa e seus Herdeiros.
Outra pedra sepulcral estava na capela-mor do lado do
Evangelho, e tinha inscrição. Esta, porém, tão consumida pelo tempo que não foi
possível entendê-la ou decifrá-la bem.
Limita-se ao que deixo escrito tudo quanto posso dizer a
respeito da antiga igreja de S. Sebastião do Castelo.
Em 1842, achava-se esta igreja em verdadeiro estado de quase
abandono e de evidente ruína. O capim e as ervas cresciam em torno do templo e
ameaçavam conquistá-lo. O madeiramento do teto, as cimalhas, os altares da
santa casa de S. Sebastião, a casa toda, enfim, achavam-se podres, e expostos a
cair ao impulso das tempestades. O cruel esquecimento em que se deixava uma
igreja histórica, a mais antiga do Rio de Janeiro, o teto sagrado que se
dedicara ao padroeiro da cidade e que encerrava em seu seio os restos do
primeiro fundador da Sebastianópolis, dava testemunho público da nossa incúria
por tudo quanto não é positivo e material.
Muito longe teria eu de ir, se quisesse descrever esse
estado de ruína a que chegara a igreja de S. Sebastião do Castelo. Basta dizer
que os consertos necessários eram tais, que exigiam uma completa reparação do
templo.
E foi assim que os capuchinhos italianos receberam essa
igreja, que, aliás, fora a da sua própria escolha. E enquanto esperavam
recursos para, se lhes fosse possível, tratarem de realizar obras importantes,
ocuparam-se logo de apanhar as goteiras por onde a chuva inundava todo o templo
e de remendar um pouco o arruinado teto; e logo depois, auxiliados pelos meios
pecuniários que lhes subministrou o governo imperial e pelas esmolas do povo,
construíram um modesto hospício, onde se asilaram, mudando-se, enfim de duas
pequenas casas vizinhas da igreja e que pertenciam e pertencem a S. Sebastião.
Entretanto, o sucessor de frei Fidélis de Montuano, o
padre-mestre trei Fabiano de Scandiano, prefeito e primeiro comissário geral
dos missionários barbadinhos em todo o Brasil, oficiava por vezes ao governo,
mostrando a urgente necessidade da restauração da igreja, e perdia o seu papel
e a sua prosa como se pregasse no deserto, porque o governo ou não lhe dava
resposta, ou lhe respondia com a mais desesperadora concisão: “Não há
dinheiro.”
Frei Fabiano de Scandiano foi chamado a Roma, sendo
substituído na prefeitura e comissariado geral pelo padre-mestre frei Caetano
de Messina, que ainda mais apertou o governo com pedidos e reclamações de meios
pecuniários para restaurar a igreja. Creio, porém, que teria sido tão infeliz
como o seu antecessor, apesar das promessas que lhe fizeram alguns ministros,
se não viesse apadrinhá-lo uma violenta tempestade.
Com efeito, no dia 21 de novembro de 1861, desenfreou-se uma
tremenda borrasca, ao ímpeto da qual sentiu-se abalar a velha igreja, que
estremeceu em suas cansadas paredes. S. Sebastião susteve ainda nesse dia a sua
casa, mas força foi reconhecer que ela não tardaria muito tempo a cair.
A imprensa periódica da capital registrou este fato. O
padre-mestre frei Caetano insistiu em seus pedidos, que o governo dessa vez
atendeu; e pondo-se logo mãos à obra que devia restaurar o templo,
trasladaram-se nos primeiros dias de dezembro desse mesmo ano as sagradas
imagens, com toda a solenidade, fazendo-se uma procissão, na qual levou o
Santíssimo Sacramento o Ex.mo Sr. Bispo de Goiás, então recentemente sagrado,
e, desmanchando-se a igreja arruinada, continuaram, entretanto, os capuchinhos
a oficiar em uma capela provisória preparada na sacristia.
Deus escreve direito por linhas tortas.
Diz o povo da nossa capital que o fogo é um elemento de
progresso no Rio de Janeiro, porque à medida que alguns incêndios devoram
casebres que afeiam a cidade, levantam-se logo depois e no mesmo lugar casas
menos mesquinhas.
Para a igreja de S. Sebastião do Castelo, ou para a antiga
Sé, o elemento de progresso não foi o fogo. Foi uma tempestade, que esteve a
ponto de derribá-la.
Todavia, cumpre confessar que não é das coisas mais bonitas
que se esteja esperando por grandes desastres para se tomar providências, aliás
reclamadas por urgente necessidade.
Reparo agora que os meus companheiros de passeio estão
arfando de fadiga.
Por conseqüência... adiamento no caso.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Passeio suplementar II
NO meu último passeio descrevi a igreja de S. Sebastião como ela era em 1842 e se conservou até o fim do ano de 1861. Agora vou descrevê-la como hoje se acha, e como deve mostrar-se em breve prazo, quando se terminarem todas as suas obras.
O templo não mudou em relação à ordem arquitetônica. Sofreu,
porém, modificação em algumas de suas disposições.
A igreja antiga era muito baixa e escura, e, encontrando-se
nela paredes rachadas e desaprumadas, que tiveram de se levantar de novo, houve
ocasião de se corrigir esses defeitos.
A paredes laterais tinham trinta palmos, e têm agora
quarenta de altura. As do meio tinham quarenta, e se elevam hoje a mais de
cinqüenta. As da capela-mor eram de trinta palmos e passaram a ter quarenta e
oito. A da frente da igreja não excedia a quarenta e cinco e excede agora a
sessenta.
O templo era, como disse, escuro. O coro recebia luz por uma
janela e um óculo, e as naves dos altares laterais por cinco clarabóias
colocadas no telhado, uma sobre cada arco. A maior altura que as novas obras
deram às paredes permitiu que se rasgassem quatro janelas de cada lado do corpo
da igreja, duas de cada lado da capela-mor, e mais duas aos lados do camarim.
Ao todo, quatorze janelas, e todas de cantaria.
A torre do lado direito estava rachada desde cima até os
alicerces. Foi consertada, ficando sem obelisco, para não agravar mais os
alicerces; e ajuntando-se-lhe um gigante do lado do mar, para dar-lhe mais
segurança, sobre o gigante construiu-se uma escada, por onde se sobe ao coro e
à mesma torre. A outra, do lado esquerdo, também consertada e caiada, perdeu um
galo que pousava sobre ela, e que teve de ceder o poleiro a um S. Miguel de
cobre. Ignoro se o galo, por ter descido do poleiro, declarou-se em oposição a
S. Miguel. É este um problema que deve ser resolvido pelos nossos políticos.
Na frente da igreja corre uma cimalha, e por cima do
telhado, entre as duas torres, levantou-se uma cruz de cantaria que tem nove
palmos de altura. Por baixo dessa mesma cimalha há um óculo de dezesseis palmos
de circunferência, e conservou-se metade da janela do coro.
No interior da igreja levantou-se o coro à altura de trinta
palmos, pôs-se-lhe uma grade de balaústres, deram-se-lhe uma forma mais
graciosa e alguns ornamentos de obra de talha.
A igreja tem, como dantes, três naves. Mas os pilares, que
em duas ordens se erguiam e que eram octangulares, são agora redondos, fingindo
colunas de mármore.
Os altares elevaram-se ao número de nove, três de cada lado,
mais dois em duas capelas aos lados do altar-mor e este. Cada um dos primeiros
tem um arco singelo, as capelas os seus zimbórios.
Na altura de trinta palmos corre uma cimalha de madeira de
ambos os lados da capela-mor e chega até o fundo da igreja. Por baixo da
cimalha daquela, a parede é forrada até o chão com tábuas de cedro, tendo
colunas que descem até o soalho e correspondem ao risco do forro. Entre estas
devem mostrar-se quatro painéis cercados de obra de talha. Os painéis serão de
N. S. de Belém, de S. João Batista, de S. Januário e de S. André Avelino, que
conservaram a memória dos antigos que estavam nos altares.
O arco-cruzeiro recebeu ornamentos de obra de talha, e por cima dele vê-se a arca santa, na parte superior da qual se mostra N. Senhora, sendo este grupo cercado de nuvens, no meio das quais aparecem cabeças de querubins e os dois anjos da antiga igreja, ajoelhados aos lados da arca.
As portas laterais e os dois portões da principal são novos
e aquelas mais altas que as antigas.
A igreja será dividida por grades com balaústres, que
fecharão os altares, a capela-mor e as capelas laterais.
Oportunamente a igreja terá um pátio cercado de grades de
ferro e com dois portões também de ferro.
Terminando aqui as informações que posso dar a respeito das
obras feitas e por fazer na antiga igreja de S. Sebastião é de justiça dizer
que o adiantamento que elas têm tido abonam muito o zelo e a dedicação que
nesse empenho há mostrado o reverendíssimo prefeito dos barbadinhos, o
padre-mestre frei Caetano de Messina, aliás já recomendável por outros
trabalhos da mesma natureza realizados em Pernambuco, e sobretudo, pelo
importante colégio de Papacaça, por ele fundado nessa província, e onde se
educam muitas dezenas de meninas.
Antes de considerar o assunto principal deste passeio, que é
aquele com que o rematarei, quero deixar ainda alguns apontamentos relativos
aos barbadinhos italianos.
O padre-mestre frei Fidélis mandou vir da Itália para a
igreja de S. Sebastião duas imagens de santas, a de Santa Verônica Juliani
capuchinha, e Santa Filomena, virgem e mártir. E vendo que muitos fiéis tomavam
por elas grande devoção, lembrou-se de instituir duas irmandades que se
ocupassem do culto destas santas. Bem depressa, porém, as irmandades e os
religiosos barbadinhos acharam-se em desacordo, e de modo tão positivo e
desagradável que o prefeito e comissário geral, frei Fabiano de Scandiano, pôs
termo às desavenças, despedindo e mandando com Deus aquelas corporações.
Tenho por vezes repetido o título de comissário geral que
teve o padre-mestre frei Fabiano, e tem o atual prefeito o padre-mestre frei
Caetano de Messina. Parece-me, pois, conveniente explicar a origem dele e as
obrigações que lhe pertencem.
O título de comissário geral é um caráter de superioridade
que a sacra congregação e os superiores dos barbadinhos em Roma deram ao
prefeito destes religiosos no Rio de Janeiro, a fim de que todos os prefeitos e
vice-prefeitos do império do Brasil dependessem dele e a ele recorressem nas
dificuldades e dúvidas em que porventura se achassem em suas administrações, e
para que também essa autoridade tratasse os negócios das missões com o governo
imperial e desse de tudo parte aos chefes em Roma. A princípio, os prefeitos
recorriam a Roma ou ao núncio apostólico. Mas pareceu melhor ao governo
imperial tratar com um comissário geral, e exigiu que uma tal autoridade fosse
criada no Brasil, para que por meio dela negociasse as coisas da missão com os
superiores dos barbadinhos na capital do mundo católico.
Os novos religiosos barbadinhos que entraram no Brasil e que
administraram a igreja de S. Sebastião acham-se entre nós há vinte e um anos.
Tem-se dito e escrito longamente a favor e contra ele. Mas eu já protestei que
não entraria em questões desta ordem, e limito-me a declarar que estimaria
vê-los sempre muito ocupados com a catequese do nosso gentio e um pouco menos
com a direção das almas dos habitantes das nossas cidades e povoações.
Entretanto, é certo que alguns desses religiosos têm
prestado bons serviços, e ainda mesmo aqui, na capital, mostram-se dedicados no
cumprimento de seus deveres religiosos, especialmente quando nos vimos
flagelados pela febre amarela e pelo cólera-mórbus.
Devo lembrar o nome de um desses capuchinhos italianos que
deixou suaves recordações e desceu à sepultura, morrendo de morte súbita e
inesperada nessa mesma igreja de S. Sebastião do Castelo.
Era o religioso a que me refiro de família abastada, e no
século floresceu como sacerdote e vigário colado na Itália. Desprezou, porém,
todos os bens do mundo pelo amor de Deus e pelo desejo de se agregar à
congregação dos barbadinhos, professando a regra respectiva com o nome de padre
frei Paulino de Limone. Sendo destinado às missões e mandado para o Brasil,
desembarcou na Bahia, e nessa província se ocupou da catequese dos índios em
Rodelas durante cinco anos. Chamado depois pela obediência a esta corte,
distinguiu-se na pregação da palavra de Deus. Era de todos estimado.
Tinha frei Paulino por costume ir todas as tardes fazer
oração em um quarto que havia no ângulo do hospício do lado do mar. No dia 6 de
outubro de 1854, pelas duas horas da tarde, rompeu uma furiosa tempestade.
Ribombavam os trovões com violência, quando frei Paulino, chegada a hora
costumada de suas orações, dirigiu-se ao quarto mencionado. Apenas, porém,
acabava de entrar nele, caiu morto, fulminado por um raio.
Agora, meus companheiros de passeio, chegamos ao último
ponto com que me cumpre ocupar a vossa atenção. Não vos contarei novidade
alguma, porque tenho apenas de referir fatos que se passaram recentemente aos
olhos de todos na cidade do Rio de Janeiro, e que devem ficar registrados neste
rápido estudo que vou fazendo.
Adiantando-se as novas obras da igreja de S. Sebastião do
Castelo, e chegada a ocasião de se tocar no pavimento que devia ser melhorado e
alteado, recebeu disso comunicação o Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, que, rendendo as devidas honras ao primeiro fundador da cidade do
Rio de Janeiro, resolveu ir testemunhar e ainda presidir a exumação dos restos
de Estácio de Sá, que conseqüentemente foram recolhidos e depois solenemente
encerrados em uma urna, em sinal do respeito e gratidão que se devem à memória
do ilustre varão.
As duas cerimônias de que acabo de falar acham-se
perfeitamente descritas em um artigo da redação do Jornal do Comércio, a 22 de
janeiro de 1863, porque, além da descrição da solenidade do dia 20 do mesmo mês
e ano, vem nesse artigo transcrito o ato da exumação a que se procedera no dia
16 de novembro de 1862. Sendo assim e achando eu trabalho feito, aproveito-me
do labor alheio, e sem mais cerimônia, copio ipsis verbis tudo quanto a
respeito escreveu o Jornal do Comércio.
Aí vai a história.
“Estácio de Sá – Publicamos em seguida a notícia
circunstanciada do que se passou no dia 20 do corrente, por ocasião da nova
exumação dos restos mortais deste homem ilustre.
“Efetuou-se com toda a solenidade a inumação dos restos de
Estácio de Sá, primeiro governador e fundador desta cidade que há 296 anos
desbaratara os tamoios, que se haviam aliado aos franceses e se achavam
entrincheirados nas aldeias de Urucumirim e Paranapuca.
“Comprou Estácio de Sá a vitória à custa de sua própria
vida, e, mártir, regou com sangue os alicerces da cidade que fundava, e que,
mal sabia ele, tinha de ser a capital de um grande império.
“O Instituto Histórico Brasileiro associou-se a este ato de
homenagem de S. M. o Imperador, que, para lhe dar maior realce, ordenou que a
festa de S. Sebastião, o santo mártir padroeiro da nossa cidade, que até aqui
se celebrava na capela imperial, se fizesse este ano na primitiva Sé do Rio de
Janeiro, na igreja do Castelo.
“Às 11 3/4 horas chegou S. M. o Imperador, acompanhado de
seus semanários.
“Os Srs. Ministros dos Negócios Estrangeiros e das Obras
Públicas, o presidente da Câmara Municipal, o cabido e mais empregados da Sé
catedral da imperial capela, o prefeito dos capuchinhos e seus missionários e
os membros do Instituto Histórico saíram ao encontro de Sua Majestade, que foi
recebido ao som do hino nacional, tocado pela banda de música da guarda de
honra postada ao lado da igreja.
“O templo, erguido do meio de suas ruínas, não está ainda
completo. Viam-se ainda algumas construções incompletas através de suas
singelas galas. No teto abobadado do presbitério e por cima da campa do grande
capitão sobressai um painel análogo à reconstrução da igreja. É um monge
amparando um templo que se desmorona. Do céu como do seio de uma aurora boreal,
saem estas palavras:
Vai, Francisco, Repara a minha casa,
Que está caindo em ruínas.
“A igreja continha um numeroso concurso de pessoas de todas
as classes e sexos. Começou para logo a cerimônia religiosa, e a música suave e
melancólica, com toda a pompa da natureza brasileira, e digna por certo de José
Maurício Nunes Garcia, ecoou nas restauradas naves do templo. Fez o panegírico
de S. Sebastião, e recordou as tradições históricas de Estácio de Sá, o rev.
cônego José Luís Gomes de Meneses. Finda a festividade, seguiu-se a cerimônia
fúnebre. Ergueu-se no corpo da igreja uma eça, onde foi depositada, sobre uma
padiola, a urna que contém os restos do grande capitão. É um cofre fabricado de
pau-brasil, fechado a tornos, encerrando outro de chumbo com 16 polegadas de
comprido, 10 de largo e 10 de altura, no qual foram postas as cinzas em 30 de
novembro do ano passado, e depois soldado. Desse ato se lavraram dois termos de
um só teor, assinados pelo presidente do Instituto, o Sr. visconde de Sapucaí e
seus secretários, os Srs. Drs. José Ribeiro de Sousa Fontes e Carlos Honório de
Figueiredo, e o rev. prefeito frei Caetano de Messina.
“Entoou-se, ao som melancólico e religioso do órgão, um
memento.
“Então. S M. o Imperador, deixando o dossel, veio em pessoa
prestar augusta homenagem a tão venerandos restos.
“Pegaram nas argolas da padiola S. M. o Imperador e o Sr.
conselheiro Sinimbu à direita os Srs. marquês de Abrantes e
visconde de Sapucaí à esquerda, e conduziram a urna para junto da campa. A fim
de receber a urna, entrou o Sr. dr. Sousa Fontes no carneiro, construído de
pedra de alvenaria e dividido em duas partes. Na parte de cima estava um caixão
de cedro contendo os ossos duvidosos encontrados na campa. Na parte de baixo
havia um vão, forrado de cantaria lavrada, destinado à urna de pau-brasil.
“S. M. o Imperador ordenou que se lesse o auto da exumação
de cuja redação fora incumbido o Sr. J. Norberto de Sousa e Silva. O Sr. cônego
Dr. J. C. Fernandes Pinheiro procedeu à sua leitura, que foi ouvida com
religiosa atenção, como 1º secretário do Instituto.
“Depositou-se depois o auto no vão formado pelas pedras de
cantaria. O Sr. A. A. Pereira Coruja apresentou as gazetas publicadas no dia e
as seguintes moedas, que foram colocadas no mesmo lugar: 1 de 20$ e 1 de l0$ do
ano de 1861, e 1 de 5$, de 1855, todas de ouro; 1 de 2$, de 1857, 1 de 1$, 1 de
500 rs. e 1 de 200 rs., de 1862, todas de prata. Frei Caetano de Messina
ofereceu uma medalha de ouro sobre o dogma da imaculada Conceição da Santa
Viagem com a efígie de Pio IX e outra de prata com as imagens de N. S. da
Conceição e S. Francisco de Assis, as quais tiveram o mesmo destino e foram
postas sobre o auto.
“Metida a urna no vão de cantaria, foi este hermeticamente
fechado com uma lápide de mármore, tomada com cimento, contendo em letras
indeléveis e douradas a seguinte inscrição:
Restos mortais de Estácio de Sá, exumados desta sepultura
em 16 de novembro de 1862, a ela restituídos em 20 de
janeiro de 1863.
“A pesada lápide da antiga campa rolou então sobre o
pavimento e ajustou-se sobre o carneiro. Eram 2¼ horas da tarde.
“S. M. o Imperador deu a cerimônia por concluída e
retirou-se, descendo a ladeira da Ajuda, acompanhado de quase todas as pessoas
que assistiram a este ato de tão grande acatamento e respeito pago ao fundador
da capital do império.
“Aqui transcrevemos o auto da exumação dos ossos de que
acima falamos.
“Aos 16 dias do mês de novembro do ano de 1862, nesta cidade
do Rio de Janeiro, e na igreja de S. Sebastião do morro do Castelo, antiga Sé
da cidade velha, achando-se presentes S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro II,
acompanhado de seus semanários gentil-homem da imperial câmara, Augusto
Duque-Estrada Meyer e guarda-roupa Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis,
o prefeito dos missionários capuchinhos que ao presente ocupam a mesma igreja,
frei Caetano de Messina, e mais missionários e os membros do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro, visconde de Sapucaí, presidente Dr. Joaquim Manuel de
Macedo, 2º vice-presidente, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, 3º dito, Dr.
José Ribeiro de Sousa Fontes, 2º secretário, bacharel Carlos Honório de
Figueiredo, secretário adjunto, Antônio Álvares Pereira Coruja, tesoureiro, e
os sócios conselheiros Antônio Manuel de Melo, comendador Manuel Ferreira
Lagos, bacharel Felizardo Pinheiro de Campos e A. D. de Pascoal, e grande
número de pessoas gradas, se dirigiram ao meio-dia ao presbitério da capela-mor
da mesma igreja, onde junto aos degraus do altar se achavam sepultados os ossos
de Estácio de Sá, primeiro governador e povoador do Rio de Janeiro, para
proceder à sua exumação, visto ter entrado a igreja em conserto e ser necessário
elevar o pavimento da mesma, a fim de que a todo o tempo conste o respeito e
veneração que mereceu a conservação dos restos do fundador da capital do
império, que na sua conquista adquiriu a glória do martírio pela coragem e
afouteza com que barateou a vida nas batalhas de Uruçumirim e Paranapuca, que
foram ganhas aos tamoios e aos franceses seus aliados.
“E, sendo ordenada a exumação por S. M. o Imperador,
procedeu-se à remoção de uma lápide de granito do país, lavrada, mas não
polida, de nove palmos de comprido, quatro de largo e um de espessura, que se
achava rente com o solo e tinha gravado na face exterior o seguinte epitáfio,
em letras capitais de caráter latino, sendo o algarismo em caracteres arábicos:
Aqui jaz Estácio de Sá, primeiro capitão e conquistador
desta terra e cidade, e a campa mandou fazer Salvador Correia de Sá, seu primo,
segundo capitão e governador, com as suas armas. E esta capela acabou no ano de
1583.
“Por baixo desta inscrição viam-se as armas de sua casa.
“E removida a lápide, com facilidade conheceu-se então que
não havia depósito algum, como era de presumir, por isso que, sendo o corpo de
Estácio de Sá sepultado em Vila Velha, povoação e fortaleza por ele fundadas
nas imediações do Pão de Açúcar, só dezesseis anos depois é que seus ossos
foram removidos para a nova povoação do morro do Castelo, traçada por Salvador
Correia de Sá, que a firmou com o marco da conquista, que ainda existe à porta
principal do templo, e que daí a um século se ficou chamando Cidade Velha, para
distinção da novíssima povoação que se estendeu pelos vales de S. Bento, da
Misericórdia e Ajuda, e ainda da primitiva, conhecida por Vila Velha. Assim
pois, era uma sepultura rasa sobre o solo artificial da igreja, o qual foi
cavado cuidadosamente na extensão de dez palmos sobre cinco de largo e cinco de
profundidade.
“E, começadas as escavações, apareceram nas primeiras
camadas de argila alguns ossos de criança, e depois ossos de adulto, e
finalmente, onde terminava o aterro e começava o solo primitivo da montanha,
encontraram-se ossos que por sua antiguidade mereceram ser recolhidos
separadamente dos outros. E, tendo-se concluído a exumação, e levados os restos
mortais para a capela provisória de S. Sebastião, estabelecida na sacristia da
mesma igreja, entoou frei Caetano de Messina com os demais sacerdotes de sua missão
um memento, a que assistiram S. M. o Imperador, as pessoas aqui declaradas e
grande número de indivíduos de todas as classes; e finda a cerimônia religiosa
recomendou S. M. Imperial que se lavrasse o presente auto, sendo os ossos
previamente sujeitos a exame científico, de que foram encarregados pelo mesmo
augusto senhor os Srs. José Ribeiro de Sousa Fontes e Francisco Ferreira de
Abreu, para serem quanto antes encerrados convenientemente em urna
duradoura e depositados no mesmo lugar, sob a lápide que os cobre há 279 anos.
“E, feito o exame ordenado por S. M. o Imperador,
apresentaram os mencionados doutores as 12 seguintes conclusões:
“1ª Que foram evidentemente reconhecidos e com precisão
determinados durante a exumação (pelo 1º perito) e pelos exames ulteriores
feitos em comum, apreciada a disposição e natureza do solo, os limites da
sepultura indicada como devendo conter os ossos de Estácio de Sá.
“2ª Que nessa sepultura não fora inumado cadáver algum, mas
sim, depositadas as peças pertencentes a três esqueletos. Este fato se deduz
naturalmente da falta de relações anatômicas em que foram encontrados os
diferentes ossos, acumulados sem ordem, confundidos entre si, como assim do
respectivo exame anatômico dos mesmos.
“3ª Que os ossos encontrados no primeiro jazigo ou camada
superficial, a uma profundidade apenas de dois palmos mais ou menos, procedem
de dois indivíduos distintos, o primeiro dos quais teria no máximo 15 anos de
idade, e cujo sexo não pode ser determinado, e o segundo era um adulto.
“4ª Que as peças ósseas do primeiro jazigo, separadas das do
segundo por uma espessura de terreno de três palmos pouco mais ou menos, e
visivelmente distintas destas últimas por sua maior consistência e peso
específico, pela melhor conservação dos seus elementos, e por outros caracteres
mais, procedem indubitavelmente de indivíduos que sucumbiram posteriormente, e
em uma época muito mais aproximada de nós. Procedem elas dos restos de outros
membros da mesma família ou tronco, e que mais tarde foram também trasladados
para o mesmo jazigo.
“5ª Que as peças ósseas encontradas no segundo jazigo, e em
grande parte carcomidas ou destruídas pela voracidade do tempo, parecem
pertencer todas a um único e mesmo esqueleto.
“6ª Que este esqueleto pertenceu a um indivíduo do sexo
masculino.
“As proporções e grossura geralmente observadas nas peças
ósseas que melhor se conservaram; o notável desenvolvimento das desigualdades e
asperezas destinadas às inserções musculares, como assim das espinhas ósseas e
dos sulcos diversos; o volume das extremidades articulares dos ossos longos dos
membros; o comprimento, a grossura e a notável incurvação da clavícula
encontrada; a grande espessura do frontal, como dos fragmentos de outros ossos
largos do crânio, que foram igualmente encontrados; os caracteres anatômicos
das vértebras achadas, e sobretudo, a disposição das duas porções ilíacas dos
respectivos ossos coxais, nos induzem com efeito a acreditar que o esqueleto de
que se trata pertenceu a um individuo do sexo masculino. Não podendo, todavia,
deixar de lastimar a impossibilidade em que nos achamos de apreciar a
disposição geral da escavação da bacia, o grau de concavidade da face anterior
do sacrum as dimensões e configuração dos buracos infrapubianos, o grau de
afastamento das cavidades cotilóides, como assim as dimensões dos principais
diâmetros do pélvis. elementos cuja apreciação imprimiria a esta nossa
conclusão o desejável caráter de certeza anatômica.
“7ª Que esse esqueleto procede de um indivíduo cuja idade
pode, com grande verossimilhança, ser calculada entre 35 a 50 anos.
“Na deficiência dos elementos anatômicos que principalmente
caracterizam semelhantes idades sobre o esqueleto; uma completa da primeira
peça do sacrum com as outras: soldadura do apêndice xifóide com o corpo do
sternum, como assim do sacrum com o cóccix: – baseamos esta nossa conclusão
sobre – a completa soldadura dos discos epifisários das vértebras encontradas,
e sobre o estado das suturas dos ossos do crânio. As metades do frontal eram
perfeitamente reunidas ou soldadas. A sutura frontoparietal e as porções
encontradas das suturas sagital e lambdoidal são ainda muito aparentes,
conquanto a união das peças ósseas e o encravamento das suas dentilações sega
assás completo. O segundo molar encontrado é alvo e pouco gasto na sua coroa.
“8ª Que este esqueleto devia pertencer a um indivíduo cuja
estatura aproximada e provável deve ser avaliada em lm.74l, por isso que o osso
tíbia tinha 0,36c.
“9ª Que esse indivíduo seria de um corpo regular, pois a
clavícula encontrada tinha 0.14c., o que inculca que o peito na sua parte
superior, de um extremo clavicular a outro, ofereceria mais ou menos 0,32c. Por
outra, que era um indivíduo de tipo português e de estatura regular.
“10ª Que os ossos pertencentes a este esqueleto, despidos
tanto quanto foi possível da terra argilosa que lhes era aderente, pesaram 7
libras e 5 onças ou 117 onças; a saber: os ossos que por muito quebrados não
foram classificados e os detritos purulentos, 56 onças. Ossos classificados, 61
onças.
“11ª Que os ossos reunidos pertencentes aos dois esqueletos
encontrados no primeiro jazigo pesam 128 onças.
“12ª Que, finalmente, as peças ósseas encontradas no segundo
jazigo, e que fizeram o mais particular assunto dos nossos estudos e análise,
estiveram indubitavelmente inumadas por um imenso período durante séculos, pelo
menos dois, pois que séculos são necessários para reduzir os ossos humanos às
condições em que foram encontrados os restos que, com todo o fundamento, se
julga pertencerem a Estácio de Sá.
“E para que conste a todo o tempo se lavrou o presente auto,
que é assinado por S. M. o Imperador e por todas as pessoas acima designadas –
D. Pedro II, Imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil, Augusto
Duque-Estrada Meyer, Dr. Antônio Dias Coelho Neto dos Reis, Frei Caetano de
Messina, Visconde de Sapucaí, Dr. Joaquim Manuel de Macedo, Joaquim Norberto de
Sousa e Silva, Dr. José Ribeiro de Sousa Fontes, Carlos Honório de Figueiredo,
Antônio Alves Pereira Coruja, Antônio Manuel de Melo, Manuel Ferreira Lagos,
Felizardo Pinheiro de Campos, A. D. de Pascoal.”
No fim desta transcrição veio-me à lembrança que um homem
sério, um desses altivos e carrancudos senhores que torcem o nariz a tudo
quanto lhe cheira a poesia, achou poesia, id est, extravagância e falta de
juízo na exumação dos restos de Estácio de Sá, e nas subseqüentes honras que
foram prestadas à memória do assinalado varão, e olhando-me um pouco de revés,
teve a complacência de dirigir-me a palavra perguntando:
– Para que serve isso?
Isso é um adjetivo que, pronunciado com certa contração dos
lábios, exprime o profundo desprezo que sente quem o pronuncia.
Confesso a minha vergonha. Não pude responder ao homem
sério, porque receei perder o restinho de confiança que lhe merecia. Mas,
pensando comigo mesmo nos tributos de gratidão que se devem pagar aos varões
prestantes que floresceram no passado; pensando que as honras prestadas aos
beneméritos que já não vivem são incentivos que excitam à prática de virtudes;
pensando que a história do passado é um tesouro que só os brutos desprezam,
pus-me a avivar na memória os feitos de Estácio de Sá. E, idéia desperta idéia,
lembrança chama lembrança, recordei-me de um fato do tempo desse distinto
capitão, fato que bem pudera ser aproveitado para a instituição de uma festa
muito popular e muito útil, e que, sem a menor dúvida, teria o seu encanto
pelas recordações que despertaria.
As regatas de Veneza, sem dúvida muito famosas pelo número,
riqueza e velocidade das gôndolas que tomavam nelas parte, e pela pompa com que
se celebrava essa festa nacional, não eram menos pela sua origem romanesca.
Ninguém ignora que os venezianos comemoravam com as regatas a libertação das
noivas venezianas que atrevidos piratas haviam raptado.
Pois bem. Nós temos igualmente uma origem histórica e
romanesca para a instituição de regatas no Rio de Janeiro, e nesse ponto não
nos levará vantagem a antiga rainha do Adriático. Mais ainda. Nos tempos
primitivos da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, celebrava-se anual e
regularmente uma solenidade que então tinha o nome de Festa das Canoas.
Para que algum incrédulo não pense e diga que estou
improvisando, declaro alto e bom som que tenho por mim os valiosos testemunhos
de dois veneráveis escritores, um que é o bom Santa Maria no seu Ano Histórico,
tomo II, § 3º, pág. 397, e outro que é o maçantíssimo Simão de Vasconcelos na
sua Crônica da Companhia de Jesus, livro III, § 96, págs. 352 e seguintes.
Em resumo, a história foi esta. Em dias de julho de 1566,
quando Estácio de Sá tinha já lançado os fundamentos da cidade de S. Sebastião,
perto do Pão de Açúcar, e se mantinha ali diante dos franceses e dos tamoios
seus aliados, vieram alguns desses selvagens em vinte canoas simular um ataque,
e realmente provocar os portugueses, que, deixando-se iludir saíram em quatro
canoas a combatê-los. Fingiram-se os tamoios amedrontados e foram-se retirando.
Com o que, ainda mais animados os portugueses, lançaram-se em seguida em
perseguição do inimigo. Mas, de súbito, ao dobrar um cabo, viram-se no meio de
duzentas canoas que cercaram as suas quatro. O combate era desigual e o êxito
não podia ser duvidoso, tanto mais que alguns franceses animavam e dirigiam os
índios. Sucedendo, porém, atear-se o fogo na pólvora de uma das canoas, e logo
a mulher do principal ou Guaixará, que assim se chamava, ao ver o incêndio,
começou, tomada de pavor, a bradar que era ardil dos portugueses para queimar a
todos os tamoios, e logo deita a fugir, assim como o Guaixará e todos os seus
companheiros de combate. Os portugueses atribuíram a milagre de S. Sebastião o
terem escapado a tão grande perigo. O padre Simão de Vasconcelos diz que foi
visto um soldado, muito gentil homem, aparecer de canoa em canoa, combatendo
contra os selvagens, e referindo-se ao padre José de Anchieta, pretende que
esse soldado fosse S. Sebastião. Certo é que voltaram à cidade nascente aqueles
bravos de Estácio de Sá e os seus valorosos aliados, os índios do intrépido
Ararigbóia; e em ação de graças por vitória tão assinalada. começaram a
celebrar no dia 20 de janeiro, dedicado àquele santo mártir, a solenidade que
por muito tempo ficou conhecida por Festa das Canoas.
Creio que os meus companheiros de passeio devem-me estar
muito agradecidos pelo resumo que fiz de não sei quantas colunas no livro
aterrador do padre Simão de Vasconcelos. Mas, em vez dos louvores que mereço
por serviço tão relevante, eu peço em prêmio – a instituição de regatas – no
Rio de Janeiro.
Digam-me cá. Os venezianos, armando-se em guerra e
fazendo-se ao mar em perseguição dos piratas que lhes tinham roubado as suas
noivas, e enfim batendo-os e trazendo em triunfo as suas belas, tiveram para as
suas regatas origem mais interessante do que essas quatro canoas de portugueses
e índios aliados, que não recuam diante de duzentas canoas inimigas, e que,
pelejando com ardor, têm por companheiro no combate o próprio S. Sebastião, que
espanta os inimigos com um fogo milagroso, que se diria, naquele caso e por
aquele motivo, uma celeste flama?
Que importa que o sobrenatural se misture nesta tradição com
os fatos registrados na História? Todos os povos amam e guardam zelosos suas
tradições com todos os milagres que as exaltam, e vêem nelas um encanto e a
poesia do seu passado.
Aproveitemos o pouco que temos em uma curtíssima vida de
três séculos e meio.
As regatas são instituições utilíssimas. Não é preciso
demonstrá-lo.
Achar na sua história uma origem romanesca para a
instituição das regatas é ouro sobre azul para qualquer nação.
Pois então?
Restaure-se entre nós a Festa das Canoas com a instituição
das regatas. O dia da festa marítima está marcado pela História. É o dia 20 de
janeiro.
Que nos falta? Quem queira ser o juiz da festa?
O juiz da festa acha-se natural e suavemente eleito sem
empenhos nem cabala.
O juiz da festa deve ser a corporação da marinha brasileira,
que prestará assim um grande e bonito serviço à pátria e ao mártir S.
Sebastião.
Disse.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.