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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Os Romances da Semana reúne narrativas curtas originalmente publicadas em jornal, escritas de forma rápida e espontânea. Na introdução, o próprio autor apresenta os textos com humildade, reconhecendo imperfeições de estilo e simplicidade da ação, mas defendendo-os com afeto, como um pai que não abandona seus filhos. A obra preserva histórias que nasceram no espaço efêmero do jornalismo, oferecendo ao leitor um contato direto com a escrita imediata e reflexiva do século XIX.

AOS LEITORES

Reunindo em um volume estes ligeiros romances, todos escriptos ao correr da penna, e já publicados na Semana e na Chronica da Semana do Jornal do Commercio, não me seduz a esperança de merecer por isso os applausos e o louvor do publico.

Sou o primeiro a reconhecer a falta de merecimento, a pobreza de acção, e os descuidos e desmazelo de estylo que aniesquinhão estes pobres romances que improvisei.

Comprehendo que com. o mais seguro fundamento poderia alguém observar-me que, pensando eu assim, a razão devia ter-me aconselhado a não arrancar do esquecimento esses escriptos sem merito, que não estavão no caso de apparecer á luz da imprensa.

Concordo plenamente com a observação.

Mas... um autor é como um pai: um pai não desama seus filhos ainda os mais feios : um autor não desama as suas obras ainda as mais defeituosas.

Demais, não brigarei com os criticos, e ainda menos me queixarei do publico por amor deste livrinho.

Cheguemos todos a um accordo a respeito delle.

Sabe-se que os artigos de Jornaes participão um pouco da condição dos ephemeros : ficão esquecidos, e morrem portanto um dia depois de serem dados á luz..

Estes romances forão publicados em artigos do Jornal do Commercio, e por consequencia um dia depois o publico os esqueceu e os deixou morrer da fatal molestia que persegue o Jornalismo.

Que póde fazer um pai a seus filhos mortos ?... ajuntar-lhes os restos para guardal-os em uma urna, que sirva de consolação ao seu amor.

Pois bem : assentemos e concordemos todos em que este livro é a urna, em que determinei guardar estes pobres romances que morrerão. Deste modo ganho sempre alguma cousa, porque ficarei livre dos criticos que hão de respeitar o parce sepultis.

E como é de regra que toda a urna deste genero tenha o seu epitaphio, darei por epitaphio a esta o titulo Romances da Semana, titulo que se explica pelo facto de terem sido, como já disse, todos estes romances publicados na Semana e na Chronica da Semana do Jornal do Commercio.

A BOLSA DE SEDA

INTRODUCÇAO

O tremendo flagello da Asia que, ainda não ha muito annos, Eugênio Sue, personificando-o em uma personagem biblica, pintou estendendo debalde os braços para a America, pois que não podia vencer de um salto o estreito de Bhering, arrojou-se atravez do oceano Atlantico, e desmentindo a imagem do romancista, invadio com horrivel violencia o Impéerio do Brazil.

Em 1855 o cholera-morbus enchia de luto e lagrimas a cidade de Rio de Janeiro; então porém a população illustrou-se por uma firmeza que lhe foi proveitosa e lhe fez honra, e em vez de mostrar-se abatida pelo terror, soube engrandecer-se pela constancia e pela coragem.

A peste flagellava especialmente as classes mais pobres : onde havia miseria se ia encontrar a morte. Esta observação foi como um grito doloroso que despertou a caridade publica, e nunca esta santa virtude se demonstrou mais viva e brilhante.

Todos á porfia corrião a soccorrer os infelizes atacados pelo cholera: multiplicárão-se os hospitaes, as enfermarias, sobrarão os donativos e abundou o ouro para mitigar os soffrimentos da indigencia.

E o empenho da caridade foi tal, que levou-se até á exageração essa sublime virtude, que uma ou outra vez perdeu o seu caracter pela ostentação e pelo luxo com que foi por alguns praticada.

Foi esta consideração que deu motivo ao brevissimo romance, a que dei o titulo de — Boísa de Seda — aproveitando para a acção d'elle a exposição e leilão de objectos curiosos e interessantes offerecidos por muitas senhoras distinctas para, com o productod'essa feira philantropica e caridosa, serem soccorridos os pobres da freguezia de N. S. da Gloria da cidade do Rio de Janeiro.

Deve-se acreditar que ainda ninguém esqueceu esse interessante e nobre leilão que em 1855 teve logar no edifício da Academia das Bellas Artes.

Esta simples exposição servirá para que mais completamente transpareça o pensamento do nosso romance.



A BOLSA DE SEDA



Era o dia 20 de Outubro de 1855 — um sabbado, e por consequencia a vespera de um Domingo.

Creio que sabeis que é nos domingos que apparece a Semana, o meu folhetim hebdomadario do Jornal do Commercio.

Faltava-me matéria para a Semana : sentia-me incapaz de satisfazer os leitores do Jornal do Commercio no dia seguinte : estava triste, aborrecido de mim mesmo.

Reconheci que não dava conta da mão : roguei pragas ao publico, atirei com as pennas para baixo da mesa, tomei o chapéo, e sahi.

Fui passear.

(continua...)

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