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#Dramas#Literatura Brasileira

Mãe

Por José de Alencar (1860)

Mãe é uma peça teatral de José de Alencar que aborda os laços familiares e os conflitos morais do século XIX. A obra gira em torno do amor materno, do sacrifício e das desigualdades sociais, revelando tensões entre sentimentos pessoais e convenções da época. Com tom dramático e emotivo, o texto convida o leitor a refletir sobre dever, afeto e justiça dentro da família.

Drama em Quatro Atos


À MINHA MÃE

E MINHA SENHORA

D. ANA J. DE ALENCAR

Mãe,

Em todos os meus livros há uma página que me foi inspirada por ti. É aquela em que fala esse amor sublime que se reparte sem dividir-se e remoça quando todas as afeições caducam.

Desta vez não foi uma página, mas o livro todo.

Escrevi-o com o pensamento em ti, cheio de tua imagem, bebendo em tua alma perfumes que nos vêm do céu pelos lábios maternos. Se, pois, encontrares ai uma dessas palavras que dizendo nada exprimem tanto, deves sorrir-te; porque foste tu, sem o querer e sem o saber quem me ensinou a compreender essa linguagem.

Acharás neste livro uma história simples; simples quanto pode ser.

É um coração de mãe como o teu. A diferença está em que a Providência o colocou o mais baixo que era possível na escala social, para que o amor estreme e a abnegação sublime o elevassem tão alto, que ante ele se curvassem a virtude e a inteligência; isto é, quanto se apura de melhor na lia humana.

A outra que não a ti causaria reparo que eu fosse procurar a maternidade entre a ignorância e a rudeza do cativeiro, podendo encontrá-la nas salas trajando sedas. Mas sentes que se há diamante inalterável é o coração materno, que mais brilha quanto mais espessa é a treva. Rainha ou escrava, a mãe é sempre mãe.

Tu me deste a vida e a imaginação ardente que faz que eu me veja tantas vezes viver em ti, como vives em mim; embora mil circunstâncias tenham modificado a obra primitiva. Me deste o coração que o mundo não gastou, não; mas cerrou-o tanto e tão forte, que só, como agora, no silêncio da vigília, na solidão da noite, posso abri-lo e vazá-lo nestas páginas que te envio.

Recebe, pois, Mãe, do filho a quem deste tanto, esta pequena parcela da alma que bafejaste.

J. DE ALENCAR

Rio de Janeiro, 1859


PERSONAGENS

DR. LIMA

JORGE

GOMES 

PEIXOTO

VICENTE

ELISA

JOANA

A cena é no Rio de Janeiro A época 1855.

 

ATO PRIMEIRO

Em casa de GOMES. Sala de visitas. 


CENA PRIMEIRA 

ELISA e GOMES


GOMES - Já estás cosendo, minha filha?

ELISA - Acordei tão cedo... Não tinha que fazer.

GOMES - Por que me ocultas o teu generoso sacrifício? Cuidas que não adivinhei?

ELISA - O que, meu pai?... Que fiz eu?...

GOMES - São as tuas costuras que têm suprido esta semana as nossas despesas. Conheceste que eu não tinha dinheiro para os gastos da casa e não me pediste... trabalhaste!

ELISA - Não era a minha obrigação, meu pai?

GOMES - Oh! E preciso que isto tenha um termo!

ELISA - Também hoje é 3 do mês... Vm. receberá o seu ordenado.

GOMES - Meu ordenado?... Já o recebi.

ELISA - Ah! Precisou dele para pagar a casa?

GOMES - Depois que morreu tua mãe, Elisa, tenho sofrido muito. Além dessa perda irreparável, as despesas da moléstia me atrasaram de modo, que não sei quando poderei pagar as dívidas que pesam sobre mim.

ELISA - E são muitas?

GOMES - Nem eu sei... Já perdi a cabeça! Mas isto vai acabar... Não é possível viver assim.

ELISA - Que diz, meu pai!

GOMES - Perdoa, Elisa. Foi um grito de desespero... Às vezes, confesso-te, tenho medo de enlouquecer! Até logo.

CENA II

ELISA e JOANA JOANA - Bom dia, iaiá.

ELISA - Adeus, Joana.

JOANA - Iaiá está boa?

ELISA - Boa, obrigada.

JOANA - Sr. Gomes já foi para a repartição...

ELISA - Saiu agora mesmo.

JOANA - Encontrei ele na escada. Hoje não é dia de lição de nhonhô Jorge?

ELISA - Segunda-feira.... É, e ainda nem tive tempo de passar os olhos por ela.

JOANA - Então como há de ser?

ELISA - Estou acabando esta costura. Já vou estudar.

JOANA - Pois enquanto iaiá cose, eu vou arrumando a sala: pode vir gente.

ELISA - Mas, Joana... Teu senhor não há de gostar disto!

JOANA - De que, iaiá?

ELISA - Tu nos serves, como se fosses nossa escrava. Todas as manhãs vens arranjar-nos a casa. Varres tudo, espanas os trastes, lavas a louça e até cozinhas o nosso jantar.

JOANA - Ora, iaiá! que me custa a fazer isso?... Nhonhô sai muito cedinho, logo às 7 horas; eu endireito tudo lá por cima, num momento, porque também tem pouco que fazer; e depois venho ajudar a iaiá que se mata com tanto trabalho.

ELISA - E o Sr. Jorge sabe disto?

JOANA - Que tem que saiba?... Não é nada de mal!

ELISA - Muitos senhores não gostam que seus escravos sirvam a pessoas estranhas.

JOANA - Iaiá não é nenhuma pessoa estranha... Depois, Vm. não conhece meu nhonhô? Não sabe como ele é bom?...

(continua...)

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