Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, é um romance romântico que acompanha jovens estudantes do Rio de Janeiro envolvidos em uma aposta amorosa que os leva à Ilha de Paquetá. A obra combina idealização do amor, leveza e humor, retratando costumes do século XIX e valorizando a constância dos sentimentos e as promessas da juventude.
DUAS PALAVRAS
Eis aí vão algumas páginas escritas, às quais me atrevi dar
o nome de romã
Não foi ele movido por nenhuma dessas três poderosas
inspirações que tantas vezes soem amparar as penas dos autores: glória, amor e
interesse. Desse último estou eu bem a coberto com meus 23 anos de idade, que
não é na juventude que pode ele dirigir o homem; a glória só se andasse ela
caída de suas alturas, rojando as asas quebradas, me lembraria eu, tão pela
terra que rastejo, de pretender ir apanhá-la. A respeito do amor não falemos,
pois se me estivesse o buliçoso a fazer cócegas no coração, bem sabia eu que
mais proveitoso me seria gastar meia dúzia de semanas aprendendo numa sala de
dança, do que velar trinta noites garatujando o que por aí vai. Este pequeno
romance deve sua existência somente aos dias de desenfado e folga que passei no
belo Itaboraí, durante as férias do ano passado. Longe do bulício da corte e
quase em ócio, a minha imaginação assentou lá consigo que bom ensejo era esse
de fazer travessuras, e em resultado delas saiu a Moreninha.
Dir-me-ão que o ser a minha imaginação traquinas não é um
motivo plausível para vir eu maçar a paciência dos leitores com uma composição
balda de merecimento e cheia de irregularidades e defeitos; mas que querem?
Quem escreve olha a sua obra como seu filho, e todo o mundo sabe que o pai acha
sempre graças e bondades na querida prole.
Do que vem dito concluir-se-á que a Moreninha é minha filha:
exatamente assim penso eu. Pode ser que me acusem por não tê-la conservado
debaixo de minhas vistas por mais tempo, para corrigir suas imperfeições; esse
era o meu primeiro intento. A Moreninha não é a única filha que possuo: tem
três irmãos que pretendo educar com esmero, e o mesmo faria a ela; porém esta
menina saiu tão travessa, tão impertinente, que não pude mais sofrê-la no seu
berço de carteira e, para ver-me livre dela, venho depositá-la nas mãos do
público, de cuja benignidade e paciência tenho ouvido grandes elogios.
Eu, pois, conto que, não esquecendo a fama antiga, o público
a receba e lhe perdoe seus senões, maus modos e leviandades. E uma criança que
terá, quando muito, seis meses de idade; merece a compaixão que por ela
imploro; mas, se lhe notarem graves defeitos de educação, que provenham da
ignorância do pai, rogo que não os deixem passar por alto; acusem-nos, que daí
tirarei eu muito proveito, criando e educando melhor os irmãozinhos que a
Moreninha tem cá.
Tu, filha minha, vai com a bênção paterna e queira o céu que
ditosa sejas. Nem por seres traquinas te estimo menos; e, como prova, vou em
despedida dar-te um precioso conselho: recebe, filha, com gratidão, a crítica
do homem instruído; não chores se com a unha marcarem o lugar em que tiveres
mais notável senão, e quando te disserem que por este erro ou aquela falta não
és boa menina, jamais te arrepies, antes agradece e anima-te sempre com as
palavras do velho poeta:
"Deixa-te repreender de quem bem te ama,
Que, ou te aproveita ou quer aproveitar-te."
CAPÍTULO I
Aposta imprudente
— Bravo! Exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que
pendurou em um cabide velho. Bravo!... Interessante cena! Mas certo que
desonrosa fora para casa de um estudante de medicina e já do sexto ano, a não
lhe valer o adágio antigo: o hábito não faz o monge.
— Temos discurso!... Atenção!... Ordem!... gritaram a um
tempo três vozes.
— Coisa célebre! acrescentou Leopoldo, Filipe sempre se
torna orador depois do jantar...
— E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.
— Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa,
maior quinhão houvera no cumprimento do recém-chegado; naturalmente Bocage,
quando tomava carraspanas, descompunha os médicos.
— C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no
canapé em que se achava deitado.
— Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos
menores; mas por minha vida que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar
devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar de alguma
visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém tendo a cabeça
encapuçada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido
dentro de seu robe de chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma
cadeira tão desconjuntada que, para não cair com ela, põe em ação todas as leis
de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romântico Augusto,
em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que
ainda agora mesmo fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! V.S.as tomam
café!
Ali o senhor descansa a xícara azul em um pires de
porcelana... aquele tem uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é
cor-de-rosa... aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de
rosa, nem xícara... nem pires... aquilo é uma tigela num prato...
— Carraspana!... Carraspana!... gritaram os três.
— Ó moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor,
traz-me café, ainda que seja no púcaro em que o coas; pois creio que, a não ser
a falta de louça, já teu senhor mo teria oferecido.
— Carraspana!... Carraspana!...
— Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...
— Carraspana! Carraspana!...
Não sei de nós quem mostra...
— Carraspana! ... Carraspana!
Seguiram-se alguns momentos de silêncio, e ficaram os quatro
estudantes assim a modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava, por
conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não deixar concluir uma só
proposição; e estes, porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe:
carraspana!
Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de
repente:
— Paz! Paz!...
— Ah! já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.
— Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para
não guardar silêncio durante uma hora.
— Está bem, o passado, passado: protesto não falar mais
nunca na carapuça, nem nas cadeiras, nem na louça do Leopoldo... Estão no
caso... sim...
— Hein?... olha a carraspana...
— Basta! Vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o
dia de Sant’Ana?
— Por quê?... Temos patuscada?... acudiu Leopoldo.
— Minha avó chama-se Ana.
— Ergo!...
Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e
dia de Sant’Ana conosco, na ilha de...
— Eu vou, disse prontamente Leopoldo.
— E dois, acudiu logo Fabrício.
Augusto só guardou silêncio.
— E tu, Augusto?... perguntou Filipe.
— Eu?... Eu não conheço tua avó.
— Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse
Fabrício.
— Nem eu, acrescentou Leopoldo.
— Não conhecem a avó, mas conhecem o neto, disse Filipe.
— E ademais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de
nós tomará o trabalho de lá ir por causa da velha.
— Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de
Janeiro.
— Sim?... Que idade tem?
— Sessenta anos.
— Está fresquinha ainda... Ora.... se um de nós a enfeitiça
e se faz avô de Filipe!
— E ela, que possui talvez seus 200 mil cruzados, não é
assim, Filipe? Olha, se é assim, e tua avó se lembrasse de querer casar comigo,
disse Fabrício, juro que mais depressa daria o meu "recebo a vós" aos
cobres da velha, do que a qualquer das nossas "toma-larguras" da
moda.
— Por quem são!... Deixem minha avó e tratemos da patuscada.
Então tu vais, Augusto?
— Não.
— É uma bonita ilha.
— Não duvido.
— Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem
escolhida.
Melhor para vocês.
— No domingo, à noite, teremos um baile.
— Estimo que se divirtam.
— Minhas primas vão. Não as conheço.
— São bonitas.
— Que me importa?... Deixem-me. Vocês sabem o meu fraco e
caem-me logo com ele: moças!... moças!... Confesso que dou o cavaco por elas,
mas as moças me têm posto velho.
— E porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.
— Ora… o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as
outras moças bonitas?
— Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a
Filipe.
— A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se
Joana, tem cabelos negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.
— Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças
longe do canapé onde estava deitado: então ela é pálida?...
— A mais moça tem um ano de menos: loira, de olhos azuis,
faces cor-derosa... seio de alabastro... dentes...
— Como se chama?
— Joaquina.
— Ai, meus pecados! ... disse Augusto.
— Vejam como Augusto já está enternecido...
Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.
— Sim: é uma moreninha de catorze anos.
— Moreninha! Diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando
novo pulo.
— Está sabido... Augusto não relaxa a patuscada.
— É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis; e,
assim como vocês, também eu quero andar em dia com alguns senhores, com quem
nos é muito preciso andar de contas justos no mês de novembro.
— Mas a pálida?... A loira?... A moreninha?...
— Que interessante terceto! exclamou em tom teatral Augusto;
que coleção de belos tipos!... Uma jovem com dezessete anos, pálida… romântica
e, portanto, sublime; uma outra, loira… de olhos azuis... faces cor-de-rosa…
e... não sei que mais; enfim, clássica e por isso bela. Por último, uma
terceira de catorze anos… moreninha, que, ou seja romântica ou clássica,
prosaica ou poética, ingênua ou misteriosa, há de por força ser interessante,
travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das três, ou todas ao mesmo
tempo, muito capazes de fazer de minha alma peteca, de meu coração pitorra!...
Está tratado… não há remédio... Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor
passar os dois dias estudando alegremente nesses três interessantes volumes da
grande obra da natureza, do que gastar as horas, por exemplo, sobre um célebre
Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página do
que todos os meirinhos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo.
— Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria inveja a
um calouro, disse Fabrício.
— Bem raciocinado… não tem dúvida, acudiu Filipe; então,
conto contigo, Augusto.
— Dou-te palavra… e mesmo porque eu devo visitar tua avó.
— Sim... já sei... isso dirás tu a ela.
— Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se amuado e
pensativo, desde que se falou nas primas de Filipe?...
— Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima
Joaninha.
— A pálida?… pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé de
alferes com a loira.
— E tu, Augusto, quererás porventura requestar minha
irmã?...
— É possível.
— E de qual gostarás mais, da pálida, da loira ou da
moreninha?...
Creio que gostarei, principalmente, de todas..
— Ei-lo aí com sua mania.
— Augusto é incorrigível.
— Não, é romântico.
— Nem uma coisa nem outra... é um grandíssimo velhaco.
— Não diz o que sente.
— Não sente o que diz.
— Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.
— O que quiserem… Serei incorrigível, romântico ou velhaco,
não digo o que sinto, não sinto o que digo, ou mesmo digo o que não sinto; sou,
enfim, mau e perigoso, e vocês inocentes e anjinhos. Todavia, eu a ninguém
escondo os sentimentos que ainda há pouco mostrei: em toda a parte confesso que
sou volúvel, inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto; verdade
seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um "eu vos amo" , mas
também a nenhuma pedi ainda que me desse fé; pelo contrário, digo a todas o
como sou; e se, apesar de tal, sua vaidade é tanta que se suponham
inesquecíveis, a culpa, certo que não é minha. Eis o que faço. E vós, meus
caros amigos, que blasonais de firmeza de rochedo, que jurais amor eterno cem
vezes por ano a cem diversas belezas... sois tanto ou ainda mais inconstantes
que eu!... Mas entre nós há sempre uma grande diferença; vós enganais e eu
desengano; eu digo a verdade e vós, meus senhores, mentis...
— Está romântico!... Está romântico!... exclamaram os três,
rindo às gargalhadas.
— A alma que Deus me deu, continuou Augusto, é sensível
demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. Sou inconstante, mas sou
feliz na minha inconstância, porque, apaixonando-me tantas vezes, não chego
nunca a amar uma vez...
— Oh!... Oh!... Que horror!... Que horror!...
— Sim! Esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só
dia, às vezes numa mesma hora, não é amor, certamente. Por minha vida,
interessantes senhores, meus pensamentos nunca têm damas; porque sempre têm
damas; eu nunca amei... eu não amo ainda… eu não amarei jamais.
— Ah!... Ah!... Ah!... E como ele diz aquilo!
— Ou, se querem, precisarei melhor o meu programa
sentimental; lá vai:
afirmo, meus senhores, que meu pensamento nunca se ocupou,
não se ocupa, nem se há de ocupar de uma mesma moça durante quinze dias.
— E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de...
loucamente apaixonado de alguma de minhas primas.
— Pode bem suceder que de ambas.
E que todo resto do ano letivo passarás pela rua de... duas
e três vezes por dia, somente com o fim de vê-la.
— Assevero que não.
— Assevero que sim.
— Quem?... Eu?... Eu mesmo passar duas e três vezes por dia
por uma só rua por causa de uma moça?... E para quê?... Para vê-la lançar-me
olhos de ternura, ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar, e depois
fazer-me caretas ao lhe dar as costas?... Para que ela chame as vizinhas que
lhe devem ajudar a chamarme tolo, paleta, basbaque e namorador?... Não, minhas
belas senhoras da moda! Eu vos conheço!... Amante apaixonado quando vos vejo,
esqueço-me de vós, duas horas depois de deixar-vos. Fora disto só queimarei o
incenso da ironia no altar de vossa vaidade; fingirei obedecer a vossos
caprichos e somente zombarei deles. Ah! ... Muitas vezes, alguma de vós, quando
me ouve dizer: "Sois encantadora", está dizendo consigo: "Ele me
adora", enquanto eu digo também comigo: "Que vaidosa!" — Que
vaidoso!… te digo eu, exclamou Filipe.
— Ora, esta não é má!... Então vocês querem governar o meu
coração?...
— Não; porém eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas
primas durante todo o tempo que for da vontade dela.
— Que mimos de amor que são as primas deste senhor!
— Eu te mostrarei.
— Juro que não.
Aposto que sim.
— Aposto que não.
— Papel e tinta: escreva-se a aposta.
— Mas tu me dás muita vantagem, e eu rejeitarei a menor.
Tens apenas duas primas: é um número de feiticeiras muito limitado. Não sejam
só elas as únicas magas que em teu favor invoquem para me encantar: meus
sentimentos ofendem, talvez, a vaidade de todas as belas; todas as belas, pois,
tenham o direito de te fazer ganhar a aposta, meu valente campeão do amor
constante!
— Como quiseres, mas escreve.
— E quem perder?...
— Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse Fabrício.
Qual almoço! acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no primeiro
drama novo que representar o nosso João Caetano.
— Nem almoço, nem camarote, concluiu Filipe; se perderes,
escreverás a história da tua derrota; e se ganhares, escreverei o triunfo da
tua inconstância.
— Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós dois, o
infeliz, será o autor.
Augusto escreveu primeira, segunda e terceira vez o termo da
aposta; mas depois de longa e vigorosa discussão, em que qualquer dos quatro
falou duas vezes sobre a matéria, uma para responder e dez ou doze pela ordem;
depois de se oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos, caiu tudo por
grande maioria, e entre bravos, apoiados e aplausos, foi aprovado, salva a
redação, o seguinte termo: "No dia 20 de julho de 18... na sala
parlamentar da casa nº ... da rua de..., sendo testemunhas os estudantes Fabrício
e Leopoldo, acordaram Filipe e Augusto, também estudantes, que, se até o dia 20
de agosto do corrente ano, o segundo acordante tiver amado a uma só mulher
durante quinze dias ou mais, será obrigado a escrever um romance em que tal
acontecimento confesse; e, no caso contrário, igual pena sofrerá o primeiro
acordante. Sala parlamentar, 20 de julho de 18... Salva a redação".
Como testemunhas — Fabrício e Leopoldo.
Acordantes — Filipe e Augusto.
E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.
CAPÍTULO II
Fabrício em apuros
A cena que se passou teve lugar numa segunda-feira.
Já lá se foram quatro dias: hoje é sexta-feira, amanhã será
sábado, não um sábado como outro qualquer, mas um sábado véspera de Sant’Ana.
São dez horas da noite; os sinos tocaram a recolher. Augusto
está só, sentado junto de sua mesa, tendo diante de seus olhos seis ou sete
livros, papéis, pena e toda essa série de coisas que compõem a família do
estudante.
É inútil descrever o quarto de um estudante: aí nada se
encontra de novo. Ao muito acharão uma estante, onde ele guarda os seus livros,
um cabide, onde pendura a casaca, o moringue, o castiçal, a cama, uma até duas
canastras de roupa, o chapéu, a bengala e a bacia, a mesa, onde escreve e que
só apresenta de recomendável a gaveta cheia de papéis, de cartas de família, de
flores e fitinhas misteriosas: é pouco mais ou menos assim o quarto de Augusto.
Agora ele está só. Às sete horas, desse quarto saíram três
amigos: Filipe, Leopoldo e Fabrício. Trataram da viagem para a ilha de... no
dia seguinte e retiraram-se descontentes, porque Augusto não se quis convencer
de que deveria dar um ponto na clínica para ir com eles ao amanhecer. Augusto
tinha respondido: Ora vivam! Bem basta que eu faça gazeta na aula de partos;
não vou senão às dez horas do dia.
E, pois despediram-se amuados. Fabrício queria ainda
demorar-se e mesmo ficar com Augusto, mas Leopoldo e Filipe o levaram consigo à
força. Fabrício fez-se acompanhar do moleque que servia Augusto, porque, dizia
ele, tinha um papel de importância a mandar.
Eram dez horas da noite, e nada de moleque. Augusto via-se
atormentado pela fome, e Rafael, o seu querido moleque, não aparecia... o bom
Rafael, que era ao mesmo tempo o seu cozinheiro, limpa-botas, cabeleireiro,
moço de recados e... e tudo mais que as urgências mandavam que ele fosse.
Com justa razão, portanto, estava cuidadoso Augusto, que de
momento a momento exclamava:
Vejam isto! ... Já tocou a recolher e Rafael está ainda na
rua! Se cai nas unhas de algum beleguim, não é decerto o sr. Fabrício quem há
de pagar as despesas da Casa de Correção... Pobre do Rafael! Que cavaco não
dará quando lhe raparem os cabelos!
Mas neste momento ouviu-se tropel na escada... Era Rafael,
que trazia uma carta de Fabrício, e que foi aprontar o chá, enquanto Augusto
lia a carta. Ei-la aqui:
"Augusto. Demorei o Rafael porque era longo o que tenho
de escrever-te.
Melhor seria que eu te falasse, porém bem viste a
impertinência de Filipe e Leopoldo. Felizmente, acabam de deixar-me. Que
macistas!... Principio por dizer-te que te vou pedir um favor, do qual
dependerá o meu prazer e sossego na ilha de...
Conto com a tua amizade, tanto mais que foram os teus
princípios que me levaram aos apuros em que ora me vejo. Eis o caso".
Tu sabes, Augusto, que, concordando com algumas de tuas
opiniões a respeito de amor, sempre entendi que uma namorada é traste tão
essencial ao estudante, como o chapéu com que se cobre ou o livro com que
estuda. Concordei mesmo algumas vezes em dar batalha a dois e três castelos a
um tempo; porém tu não ignoras que a semelhante respeito estamos discordes no
mais: tu és ultraromântico e eu ultraclássico.
O meu sistema era este:
1º Não namorar moça de sobrado. Daqui tirava eu dois
proveitos, a saber:
não pagava o moleque para me levar recados e dava
sossegadamente, e a mercê das trevas, meus beijos por entre os postigos das janelas.
2º Não requestar moça endinheirada. Assim eu não ia ao
teatro para vê-la, nem aos bailes para com ela dançar, e poupava meus cobres.
3º Fingir e ficar mal com a namorada em tempos de festas e
barracas no campo. E por tal modo livrava-me de pagar doces, frutas e outras
impertinências.
Estas eram as bases fundamentais do meu sistema.
Ora, tu te lembrarás que bradavas contra o meu proceder como
indigno da minha categoria de estudante; e, apesar de me ajudares a comer
saborosas empadas, quitutes apimentados e finos doces, com que as belas pagavam
por vezes a minha assiduidade amantética, tu exclamavas:
— Fabrício! Não convêm tais amores ao jovem de letras e de
espírito. O estudante deve considerar o amor como um excitante que desperte e
ateie as faculdades de sua alma: pode mesmo amar uma moça feia e estúpida,
contanto que sua imaginação lha represente bela e espirituosa. Em amor a
imaginação é tudo: é ardendo em chamas, é elevado nas asas de seus delírios que
o mancebo se faz poeta por amor.
Eu então te respondia:
— Mas quando as chamas se apagam, e as asas dos delírios se
desfazem, o poeta não tem, como eu, nem quitutes nem empadas.
E tu me tornavas:
— E porque ainda não experimentaste o que nos prepara o que
se chama amor platônico, paixão romântica! Ainda não sentiste como é belo
derramar-se a alma toda inteira de um jovem na carta abrasadora que escreve à
sua adorada, e receber de troco uma alma de moça, derramada toda inteira em
suas letras, que tantas mil vezes se beijam.
Ora, esses derramamentos de alma bastante me assustavam;
porque eu me lembro que em patologia se trata mui seriamente dos derramamentos.
Mas tu prosseguias:
— E depois, como é sublime deitar-se o estudante no
solitário leito e ver-se acompanhado pela imagem da bela que lhe vela no
pensamento, ou despertar ao momento de ver-se em sonhos sorvendo-lhe nos lábios
voluptuosos beijos!
A inda estes argumentos não me convenciam suficientemente,
porque eu pensava: 1º que essa imagem que vela no pensamento não será a melhor
companhia possível para um estudante, principalmente quando ela lhe velasse na
véspera de alguma sabatina; 2º porque eu sempre acho muito mais apreciável
sorver os beijos voluptuosos por entre postigos de uma janela, do que sorvê-los
em sonhos e acordar com água na boca: beijos por beijos, antes os reais que os
sonhados.
Além disto, no teu sistema nunca se fala em empadas, doces,
petiscos etc; no meu eles aparecem e tu, apesar de romântico, nunca viraste as
costas nem fizeste ma cara a esses despojos de minhas batalhas.
Mas, enfim, maldita curiosidade de rapaz!... Eu quis
experimentar o amor platônico, e dirigindo-me certa noite ao teatro São Pedro
de Alcântara, disse entre mim: esta noite hei de entabular um namoro romântico.
Entabulei-o, sr. Augusto de uma figa!... Entabulei-o, e quer
saber como?... Saí fora do meu elemento e espichei-me completamente. Estou em
apuros.
Eis o caso:
Nessa noite fui para a superior; eu ia entabular um namoro
romântico; não podia ser de outro modo. Para ser tudo à romântica consegui
entrar antes de todos; fui o primeiro a sentar-me quando ainda o lustre monstro
não estava aceso; vi--o descer e subir depois, ornado e brilhante de luzes, vi
se irem enchendo os camarotes; finalmente eu, que tinha estado no vácuo,
achei-me no mundo: o teatro estava cheio. Consultei com meus botões como devia
principiar, concluí que, para portar-me romanticamente, deveria namorar alguma
moça que estivesse na quarta ordem. Levantei os olhos, vi uma que olhava para o
meu lado, e então pensei comigo mesmo: seja aquela!... Não sei se é bonita ou
fria, mas que importa? Um romântico não cura dessas futilidades. Tirei, pois,
da casaca o meu lenço branco, para fingir que enxugava o suor, para abanar-me e
enfim para fazer todas essas macaquices que eu ainda ignorava que estavam
condenadas pelo Romantismo. Porém, oh infortúnio!... Quando de novo olhei para
o camarote, a moça tinha-se voltado completamente para a tribuna; tossi, tomei
tabaco, assoei-me, espirrei e a pequena... nem caso; parecia que o negócio com
ela não era. Começou a ouverture e nada; levantou-se o pano, e ela voltou os
olhos para a cena, sem olhar para o meu lado. Representou-se o 1º ato…
Tempo perdido. Veio o pano finalmente abaixo.
— Agora sim, começará o nosso telégrafo a trabalhar, disse
eu comigo mesmo, erguendo-me para tornar-me mais saliente.
Porém, nova desgraça! Mal me tinha levantado, quando a moça
ergueu-se por sua vez e retirou-se para dentro do camarote, sem dizer por que,
nem por que não.
— Isto só pelo diabo!... exclamei eu involuntariamente,
batendo o pé com toda a força.
— O senhor está doido?! disse-me... gemendo e fazendo uma
careta horrível, o meu companheiro da esquerda.
— Não tenho que lhe dar satisfações, respondi-lhe amuado.
Tem, sim senhor, retorquiu-me o sujeito, empinando-se.
Pois que lhe fiz eu então? acudi, alterando-me.
— Acaba de pisar-me, com a maior força, no melhor calo do
meu pé direito.
— Oh! senhor… queira perdoar!...
E dando mil desculpas ao homem, saí do teatro, pensando no
meu amor.
Confesso que deveria ter notado que a minha paixão começava
debaixo de maus auspícios, mas a minha má fortuna ou, melhor, os teus maus
conselhos me empurravam para diante com força de gigante.
Sem pensar no que fazia, subi para os camarotes e fui dar
comigo no corredor da quarta ordem; passei junto do camarote de minhas
atenções: era o nº 3 (número simbólico, cabalístico e fatal! repara
que em tudo segui o Romantismo). A porta estava cerrada; fui ao fim do corredor
e voltei de novo; um pensamento esquisito e singular acabava de me brilhar na
mente, e abracei-me com ele.
Eu tinha visto junto à porta nº 3 um moleque com
todas as aparências de ser belíssimo cravo da Índia. Ora, lembrava-me que nesse
camarote a minha querida era a única que se achava vestida de branco e, pois,
eu podia muito bem mandar--lhe um recado pelo qual me fizesse conhecido. E
assim avancei para o moleque.
Ah! maldito crioulo… estava-lhe o todo dizendo o para que
servia!... Pinta na tua imaginação, Augusto, um crioulo de dezesseis anos, todo
vestido de branco com uma cara mais negra e mais lustrosa do que um botim
envernizado, tendo, além disso, dois olhos belos, grandes, vivíssimos e cuja
esclerótica era branca como o papel em que te escrevo, com lábios grossos e de
nácar, ocultando duas ordens de finos e claros dentes, que fariam inveja a uma
baiana; dá-lhe a ligeireza, a inquietação e rapidez de movimentos de um macaco
e terás frito idéia desse diabo de azeviche, que se chama Tobias.
Não me foi preciso chamá-lo: bastou um movimento de olhos
para que o Tobias viesse a mim, rindo-se desavergonhadamente. Levei-o para um
canto.
— Tu pertences aquelas senhoras que estão no camarote, a
cuja porta te encostavas?...perguntei.
— Sim, senhor, me respondeu ele, e elas moram na rua de...
nº… ao lado esquerdo de quem vai para cima.
E quem são?...
— São duas filhas de uma senhora viúva, que também aí está,
e que se chama a Ilma. Sra. d. Luíza. O meu defunto senhor era negociante e o
pai de minha senhora é padre.
— Como se chama a senhora que está vestida de branco?
— A sra. d. Joana... tem dezessete anos, e morre por casar.
— Quem te disse isso?...
— Pelos olhos se conhece quem tem lombrigas, meu senhor!...
— Como te chamas?
— Tobias, escravo de meu senhor, crioulo de qualidade, fiel
como um cão e vivo como um gato.
O maldito do crioulo era um clássico a falar português. Eu
continuei:
— Hás de me levar um recado à sra. d. Joana.
— Pronto, lesto e agudo, respondeu-me o moleque.
— Pois toma sentido.
— Não precisa dizer duas vezes.
Ouve. Das duas uma: ou poderás falar com ela hoje, ou só
amanhã...
— Hoje... agora mesmo. Nestas coisas Tobias não cochila: com
licença de meu senhor, eu cá sou doutor nisto; meus parceiros me chamam orelha
de cesto, pé de coelho e boca de taramela. Vá dizendo o que quiser, que em
menos de dez minutos minha senhora saberá tudo; o recado de meu senhor é uma
carambola que, batendo no meu ouvido vai logo bater no da senhora d. Joaninha.
— Pois dize-lhe que o moço que se sentar na última cadeira
da 4ª coluna da superior, que assoar-se com uni lenço de seda verde,
quando ela para ele olhar, se acha loucamente apaixonado de sua beleza etc.,
etc., etc.
— Sim, senhor, eu já sei o que se diz nessas ocasiões: o
discurso fica por minha conta.
— E amanhã, ao anoitecer, espera-me na porta de tua casa.
— Pronto, lesto e agudo, repetiu de novo o crioulo.
— Eu recompensar-te-ei, se fores fiel.
— Mais pronto, mais lesto e mais agudo!
— Por agora toma estes cobres.
— Oh, meu senhor! Prontíssimo, lentíssimo e agudíssimo.
Ignoro de que meios se serviu o Tobias para executar sua
comissão. O que sei é que antes de começar o 2º ato já eu havia feito o sinal,
e então comecei a pôr em ação toda a mímica amantética que me lembrou: o namoro
estava entabulado; embora a moça não correspondesse aos sinais do meu
telégrafo, concedendo-me
apenas amiudados e curiosos olhares, isso era já muito para
quem a via pela primeira vez.
Finalmente, sr. Augusto dos meus pecados, o negócio
adiantou-se, e hoje, tarde me arrependo e não sei como me livre de semelhante
entaladela, pois o Tobias não me sai da porta. Já não tenho tempo de exercer o
meu classismo; há três meses que não como empadas e, apesar de minhas
economias, ando sempre com as algibeiras a tocar matinas. Para maior martírio a
minha querida é a sra. Joana, prima de Filipe.
Para compreenderes bem o quanto sofro, aqui te escrevo
algumas das principais exigências da minha amada romântica.
1º Devo passar por defronte de sua casa duas vezes de manhã
e duas à tarde. Aqui, vês bem, principia a minha vergonha, pois não há pela
vizinhança gordurento caixeirinho que se não ria nas minhas barbas quatro vezes
por dia.
2º Devo escrever-lhe, pelo menos, quatro cartas por semana,
em papel bordado, de custo de 400 réis a folha. Ora, isto é detestável, porque
eu não sei onde vá buscar mais cruzados para comprar papel, nem mais asneiras
para lhe escrever.
3º Devo tratá-la por "minha linda prima" e ela a
mim por "querido primo".
Daqui concluo que a sra. d. Joana leu o Faublas. Boa
recomendação!...
4º Devo ir ao teatro sempre que ela for, o que sucede quatro
vezes no mês; o mesmo a respeito de bailes. Esta despesa arrasa-me a mesada
terrivelmente.
5º Ao teatro e bailes devo levar no pescoço um lenço ou
manta da cor da fita que ela porá em seu vestido ou no cabelo, o que, com
antecedência, me é participado. Isto é um despotismo detestável.
Finalmente, ela quer governar os meus cabelos, as minhas
barbas, a cor de meus lenços, a minha casaca, a minha bengala, os botins que
calço e, por último, ordenou-me que não fumasse charutos de Havana nem de
Manilha, porque era isto falta de patriotismo.
Para bem rematar o quadro das desgraças que me sobrevieram
com a tal paixão romântica que me aconselhaste, d. Joana, dir-te-ei, mostra
amar-me com extremo, e, no meio de seus caprichos de menina, dá-me prova do
mais constante e desvelado amor; mas que importa isso, se eu não posso
pagar-lhe com gratidão?... Vocês com seu romantismo a que me não posso
acomodar, a chamariam "pálida". Eu, que sou clássico em corpo e alma
e que, portanto, dou os coisas o seu verdadeiro nome, a chamarei sempre "amarela".
Malditos românticos, que têm crismado tudo e trocado em seu
crismar os nomes que melhor exprimem suas idéias!…
O que outrora se chamava, em bom português, moça feia, os
reformadores dizem: menina simpática!... O que em uma moça era antigamente
desenxabimento, hoje é ao contrário: sublime languidez!... Já não há mais
meninas importunas e vaidosas. As que forem, chamam-se agora espirituosas! A
escola dos românticos reformou tudo isso, em consideração ao belo sexo.
E eu, apesar dos tratos que dou a minha imaginação, não
posso deixar de convencer-me que a minha linda prima é (aqui para nós) amarela
e feia como uma convalescente de febres perniciosas.
O que, porém, se torna sobretudo insofrível é o despotismo
que exerce sobre mim o brejeiro do Tobias!...
Entende que todos os dias lhe devo dar dinheiro e
persegue-me de maneira tal que, para ver-me livre dele, escorrego-lhe cum
quibus, a despeito da minha má vontade.
O Tobias está no caso de muitos que, grandes e excelentes
parladores, são péssimos financeiros na prática. Como eles fazem ao país, faz
Tobias comigo, que sempre depois de longo discurso me apresenta um déficit e
pede-me um crédito suplementar.
Eis aqui, meu Augusto, o lamentável estado em que me acho.
Lembra-te que foram os teus conselhos que me obrigaram a experimentar uma
paixão romântica; portanto, não só por amizade, como por dever, conto que me
ajudarás no que te vou propor.
Eu preciso de um pretexto mais ou menos razoável para
descartar-me de tal pálida.
Ela vai passar conosco dois dias na ilha de… Aí podemos
levar a efeito, e com facilidade, o meu plano: ele é de simples compreensão e
de fácil execução.
Tu deverás requestar, principalmente a minha vista, a tal
minha querida. A inda que ela não te corresponda, persegue-a. Não te custará
muito isso, pois que é o teu costume. Nisto se limita o teu trabalho, e
começará então o meu, que é mais importante.
Ver-me-ás enfadado, talvez que te trate com rispidez, e que
te dirija alguma graça pesada, mas não farás caso e continuarás com a requesta
para diante.
Eu então irei as nuvens... Desesperado, ciumento e
delirante, aproveitarei o primeiro instante em que estiver a sós com d.
Joaninha, e farei um discurso forte e eloqüente contra a inconstância e
volubilidade das mulheres. No meio de meus transportes, dou-me por despedido de
amores com ela, e pulando fora de tal paixão romântica, correrei a apertar-te
contra meu peito, como teu amigo e colega do coração — Fabrício".
— E esta!... exclamou Augusto, depondo a carta sobre a mesa
e sorvendo uma boa pitada de rapé de Lisboa. E esta!...
Acabando de sorver a pitada, o nosso estudante desatou a rir
como um doido. Rir-se-ia a noite inteira talvez, se não fosse interrompido pelo
Rafael, que o vinha chamar para tomar chá.
CAPÍTULO III
Manhã de sábado
Seriam pouco mais ou menos onze da manhã, quando o batelão
de Augusto abordou à ilha de... Embarcando às dez horas, ele designou ao seu
palinuro o lugar a que se destinava, e deitou-se para ler mais à vontade o
Jornal do Comércio. Soprava vento fresco e, muito antes do que supunha, Augusto
ergueu-se, ouvindo a voz de Leopoldo que o esperava na praia.
— Bem-vindo sejas, Augusto. Não sabes o que tens perdido...
— Então... muita gente, Leopoldo?
— Não: pouca; mas escolhida.
No entanto, Augusto pagou, despediu o seu bateleiro, que se
foi remando e cantando com seus companheiros. Leopoldo deu-lhe o braço, e,
enquanto por uma bela avenida, orlada de coqueiros, se dirigiam à elegante casa
que lhes ficava a trinta braças do mar, o curioso estudante recém-chegado
examinava o lindo quadro que a seus olhos tinha e do qual, para não sermos
prolixos, daremos idéia em duas palavras. A ilha de... é tão pitoresca como
pequena. A casa da avó de Filipe ocupa exatamente o centro dela. A avenida por
onde iam os estudantes a divide cm duas metades, das quais a que fica à
esquerda de quem desembarca, está simetricamente coberta de belos arvoredos,
estimáveis ou pelos frutos de que se carregam, ou pelo aspecto curioso que
oferecem. A que fica à mão direita é mais notável ainda: fechada do lado do mar
por uma longa fila de rochedos, e no interior da ilha por negras grades de
ferro, está adornada de mil flores, sempre brilhantes e viçosas, graças à
eterna primavera desta nossa boa terra de Santa Cruz. De tudo isto se conclui
que a avó de Filipe tem no lado direito de sua casa um pomar e no esquerdo um
jardim.
E fizemos muito bem em concluir depressa, porque Filipe
acaba de receber Augusto com todas as demonstrações de sincero prazer e o faz
entrar imediatamente para a sala.
Agora, outras duas palavras sobre a casa: imagine-se uma
elegante sala de cinqüenta palmos em quadro; aos lados dela dois gabinetes
proporcionalmente espaçosos, dos quais um, o do lado esquerdo, pelos aromas que
exala, espelhos que brilham, e um não sei quê que insinua, está dizendo que é o
gabinete das moças. Imagine-se mais, fazendo frente para o mar e em toda a
extensão da sala e dos gabinetes, uma varanda terminada em arcos; no interior
meia dúzia de quartos; depois uma alegre e longa sala de jantar, com janelas e
portas para o pomar e jardim, e ter-se-á feito da casa a idéia que precisamos
dar.
Pois bem; Augusto apresentou-se. A sala estava ornada com
boa dúzia de jovens interessantes: pareceu ao estudante um jardim cheio de
flores ou o céu semeado de estrelas. Verdade seja que, entre esses
"orgulhos" da idade presente, havia também algumas rugosas
representantes do tempo passado; porém isso ainda mais lhe sanciona a
propriedade da comparação, porque há muitas rosas murchas nos jardins e
estrelas quase obscuras no firmamento.
Filipe apresentou o seu amigo à sua digna avó, e a todas as
outras pessoas que aí se achavam. Não há remédio senão dizer alguma coisa sobre
elas.
A sra. d. Ana, este é o nome da avó de Filipe, é uma senhora
de espírito e alguma instrução. Em consideração a seus sessenta anos, ela
dispensa tudo quanto se poderia dizer sobre o seu físico. Em suma, cheia de
bondade e de agrado, ela recebe a todos com o sorriso nos lábios: seu coração
pode-se talvez dizer o templo da amizade, cujo mais nobre altar é
exclusivamente consagrado à querida neta, irmã de Filipe; e ainda mais, seu
afeto para com essa menina não se limita à doçura da amizade; vai ao ardor da
paixão. Perdendo seus pais quando apenas contava oito anos, a inocente criança
tinha, assim como Filipe, achado no seio da melhor das avós a ternura de sua
extremosa mãe.
Ao lado da sra. d. Ana estavam duas jovens, cujos nomes se
adivinharão facilmente: uma é a "pálida", a outra a
"loira". São as primas de Filipe.
Ambas são bonitinhas; mas, para Augusto, d. Quinquina tem as
feições mais regulares, achou-lhe mesmo muita harmonia nos cabelos loiros,
olhos azuis e faces coradas, confessando, todavia, que as negras madeixas e o
rosto romântico de d. Joaninha fizeram-lhe uma brecha terrível no coração.
Além destas, algumas outras senhoras aí estavam, valendo bem
a pena de se olhar para elas meia hora sem pestanejar. Toda a dificuldade,
porém, está em pintar aquela mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez,
depois que Augusto entrou na sala: é a irmã de Filipe. Que beija-flor! Há cinco
minutos que Augusto entrou e em tão curto espaço já ela sentou-se em diferentes
cadeiras, desfolhou um lindo pendão de rosas, derramou no chapéu de Leopoldo
mais de duas onças de água-de-colônia de um vidro que estava sobre um dos
aparadores, fez chorar uma criança, deu um beliscão em Filipe, e Augusto a
surpreendeu fazendo-lhe caretas: travessa, inconseqüente e às vezes engraçada;
viva, curiosa e em algumas ocasiões impertinente, O nosso estudante não pode
dizer com precisão nem o que ela é, nem o que não é: acha-a estouvada,
caprichosa e mesmo feia, e pretende tratá-la com seriedade e estudo para nem
desgostar a dona da casa, nem se sujeitar a sofrer as impertinências e
travessuras que a todo o momento a vê praticar com os outros. Enfim, para
acabar de uma vez esta já longa conta das senhoras que se achavam na sala,
diremos que aí se notavam também duas velhas amigas da dona da casa. Uma, que
só se entreteve, se entretém e se há de entreter em admirar a graça e encantos
de duas filhas que consigo trouxera; e outra, que pertence ao gênero daquelas
que nas sociedades agarram num pobre homem, sentam-no ao pé de si, e, maçando-o
duas e três horas com enfadonhas e intermináveis dissertações, finalmente o
largam, supondo que lhe têm feito grande honra e dado o maior prazer.
Quanto aos homens... Não vale a pena! ... Vamos adiante.
Estas observações que aqui vamos oferecendo, fez também
Augusto consigo mesmo, durante o tempo que gastou cm endereçar seus
cumprimentos e dizer todas essas coisas muito banais, e já muito cediças, mas
que se dizem sempre de parte a parte, com obrigado sorrir nos lábios e
indiferença no coração. Concluída essa verdadeira maçada e reparando que todos
tratavam de conversar, para melhor passar as horas e esperar a do jantar, ele
voltou o rosto com vistas de achar uma cadeira desocupada junto de algumas daquelas
moças; porém, é mofina do pobre estudante! O intempestivo castigo dos seus
maiores pecados! ... A segunda das duas velhas, de quem há pouco se tratou,
estendeu a mão e chamou-o, mostrando com o dedo carregado de anéis um lugar
livre junto dela.
Não havia remédio; era preciso sofrer, com os olhos enxutos,
o prazer na face, o martírio que se lhe oferecia. Augusto sentou-se ao pé da
sra. d. Violante.
Ela lançou-lhe um olhar de bondade e proteção, e ele abaixou
os olhos, porque os de d. Violante são terrivelmente feios e os do estudante
não se podem demorar por muito tempo sobre espelho de tal qualidade.
— Adivinho, disse ela com certo ar de ironia, que lhe está
pesando demais o sacrifício de perder alguns momentos conversando com uma
velha.
— Oh, minha senhora! respondeu o moço, as palavras de V. S.a
fazem grande injustiça a si própria e a mim também: a mim, porque me faz bem
cheio de rudeza e mau gosto; a si, porque, se um cego as ouvisse, certo que não
faria idéia do vigor e da...
— Olhem como ele é lisonjeiro!… exclamou a velha, batendo
levemente com o leque no ombro do estudante, acompanhando esta ação com uma
terrível olhadura, rindo-se com tão particular estudo, que mostrava dois únicos
dentes que lhe restavam.
Augusto olhou fixamente para ela e conheceu que na verdade
se havia adiantado muito. D. Violante era horrivelmente horrenda, e, com
sessenta anos de idade, apresentava um carão capaz de desmamar a mais emperrada
criança.
A conversação continuou por urna boa hora; o tédio do
estudante chegou a ponto de fazê-lo arrepender-se de ter vindo à ilha de...
Três vezes tentou levantarse; mas d. Violante sempre tinha novas coisas a
dizer: falou-lhe sobre a sua mocidade… seus pais, seus amores, seu tempo, seu
finado marido, sua esterilidade, seus rendimentos, seu papagaio, e até suas
galinhas. Ah! falou mais que um deputado da oposição, quando se discute o voto
de graças. Finalmente, parou um instante, talvez para respirar, e para começar
novo ataque de maçada. Augusto quis aproveitar-se da intermitência: estava
desesperado e pela quarta vez ergueu-se.
— Com licença de V. Sa...
— Nada! disse a velha, detendo-se e apertando-lhe a mão: eu
ainda tenho muito que dizer-lhe.
Muito que dizer?... balbuciou o estudante automaticamente, e
deixando-se cair sobre a cadeira, como fulminado por um raio.
— O senhor está incomodado?… perguntou d. Violante com toda
a ingenuidade.
— Eu... eu estou às ordens de V. S. ª.
— Ah! vê-se que a sua delicadeza iguala a sua bondade,
continuou ela com acento meio açucarado e terno.
— Oh, castigo de meus pecados! ... pensou Augusto consigo;
querem ver que a velha está namorada de mim?!! E recuou sua cadeira meio palmo
para longe da dela.
Não fuja... prosseguiu d. Violante, arrastando por sua vez
sua cadeira até encostá-la à do estudante; não fuja... eu quero dizer-lhe
coisas que não é preciso que os outros ouçam.
— E então? pensou de novo Augusto, fiz ou não uma galante
conquista!... E suava suores frios.
— O senhor está no quinto ano de medicina?...
— Sim, minha senhora. Já cura?
— Não, minha senhora.
— Pois eu desejava referir-lhe certos incômodos que sofro,
para que o senhor me dissesse que moléstia padeço e que tratamento me convém.
— Mas... minha senhora… eu ainda não sou médico e só no caso
de urgente necessidade me atreveria...
— Eu tenho inteira confiança no senhor: me parece que é o
único capaz de acertar com a minha enfermidade.
Mas ali está um estudante do sexto ano...
— Eu quero o senhor mesmo.
Pois, minha senhora, eu estou pronto para ouvi-la; porém
julgo que o tempo e o lugar são pouco oportunos...
— Nada… há de ser agora mesmo.
Ah!... A boa da velha falou e tornou a falar. Eram duas
horas da tarde e ela ainda dava conta de todos os seus costumes, de sua vida
inteira; enfim, foi uma relação de comemorativos, como nunca mais ouvirá o
nosso estudante. Às vezes Augusto olhava para seus companheiros e os via
alegremente praticando com as belas senhoras que abrilhantavam a sala, enquanto
ele se via obrigado a ouvir a mais insuportável de todas as histórias. Daqui e
de certos fenômenos que acusava a macista, nasceu-lhe o desejo de tomar uma
vingançazinha. Firme neste propósito, esperou com paciência que d. Violante
fizesse ponto final, bem determinado a esmagá-la com o peso de seu diagnóstico,
e ainda mais com o tratamento que tencionava prescrever-lhe.
As duas horas e meia a oradora terminou o seu discurso,
dizendo:
— Agora quero que, com toda a sinceridade, me diga se
conhece a minha enfermidade e o que devo fazer.
Então V. S. ª dá-me licença para falar com toda a
sinceridade?
— Eu o exijo.
— Pois, minha senhora, atendendo a tudo quanto ouvi, e
principalmente a esses últimos incômodos, que tão amiúde sofre, e de que mais
se queixa, como tonteiras, dores no ventre, calafrios, certas dificuldades,
esse peso dos lombos etc., concluo, e todo o mundo médico concluirá comigo, que
V. S. padece...
— Diga... não tenha medo. — Hemorróidas.
D. Violante fez-se vermelha como um pimentão, horrível como
a mais horrível das fúrias, encarou o estudante com despeito, e, fixando nele
seus tristíssimos olhos furta-cores, perguntou:
— O que foi que disse, senhor?
— Hemorróidas, minha senhora.
Ela soltou uma risada sarcástica.
— V. S.ª quer que lhe prescreva o tratamento
conveniente?...
— Menino, respondeu com mau humor, tome o meu conselho:
outro ofício; o senhor não nasceu para médico.
— Sinto ter desmerecido o agrado de V. S.ª por tão
insignificante motivo. Rogo-lhe que me desculpe, mas eu julguei dever dizer o
que entendia.
Isto dizendo, o estudante ergueu-se; a velha já não fez o
menor movimento para o demorar, e vendo-o deixá-la, disse em tom profético:
— Este não nasceu para a medicina!
Mas Augusto, afastando-se de d. Violante, dava graças ao
poder de seu diagnóstico e augurava muito bem de seu futuro médico, pela grande
vitória que acabava de alcançar.
Agora sim, disse ele com os seus botões, vou recuperar o
tempo perdido; e procurava uma cadeira, cuja vizinhança lhe conviesse.
A digna hóspeda compreendeu perfeitamente os desejos do
estudante, pois mostrando-lhe um lugar junto de sua neta, disse:
— Aquela menina lhe poderá divertir alguns instantes.
— Mas, minha avó, exclamou a menina com prontidão, até o dia
de hoje ainda não me supus boneca.
Menina!...
Contudo, eu serei bem feliz se puder fazer com que o
senhor... o senhor...
— Augusto, minha senhora...
— O sr. Augusto passe junto a mim momentos tão agradáveis,
como lhe foram as horas que gozou ao pé da sra. d. Violante.
Augusto gostou da ironia, e já se dispunha a travar
conversação com a menina travessa, quando Fabrício se chegou a eles, e disse a
Augusto:
— Tu me deves dar uma palavra.
— Creio que não é preciso que seja imediatamente.
— Se a sra. d. Carolina o permitisse, eu estimaria falar-te
já.
— Por mim não seja... disse a menina erguendo-se.
— Não, minha senhora, eu o ouvirei mais tarde, acudiu
Augusto, querendo retê-la.
Nada... não quero que o sr. Fabrício me olhe com maus
olhos... Além de que, eu devo ir apressar o jantar, pois li no seu rosto que a
conversação que teve com a sra. d. Violante, quando mais não desse, ao menos
produziu-lhe muito apetite... mesmo um apetite de... de...
— Acabe.
— De estudante.
E, mal o disse, a travessa moreninha correu para fora da
sala.
CAPÍTULO IV
Falta de condescendência
Fabrício acaba de cometer um grande erro, que para ele será
de más conseqüências. Quem pede e quer ser servido, deve medir bem o tempo, o
lugar e as circunstâncias, e Fabrício não soube conhecer que o tempo, o lugar e
as circunstâncias lhe eram completamente desfavoráveis. Vai exigir que Augusto
o ajude a forjar cruel cilada contra uma jovem de dezessete anos, cujo delito é
ter sabido amar o ingrato com exagerado extremo. Ora, para conseguir semelhante
torpeza, preciso seria que Fabrício aproveitasse uni momento de loucura, um
desses instantes de capricho e de delírio cm que Augusto pensasse que ferir a
fibra mais sensível e vibrante do coração da mulher, a fibra do amor, não é um
crime, não é pelo menos, Louca e repreensível leviandade, e apenas perdoável e
interessante divertimento de rapazes; e nessa hora não podia Augusto raciocinar
tão indignamente. Ainda quando não houvesse nele muita generosidade, estava
para desarmá-lo o poder indizível da inocência, o poderoso magnetismo de vinte
olhos belos como o planeta do dia, a influência cativadora da formosura em
botão, da beleza virgem ainda, de um anjo enfim, porque é símbolo de um anjo a
virgindade de uma jovem bela.
Mas Fabrício olvidou tudo, e mal, sem dúvida, terá de sair
de seu empenho com tantas contrariedades; o tempo não lhe é propício, porque
Augusto começa a sentir todos os sintomas de apetite devorador. Ora, um rapaz,
e principalmente um estudante com fome, aborrece-se de tudo, principalmente do
que lhe cheira a maçada. O lugar não menos lhe era desfavorável, porque, diante
de um ranchinho de belas moças, quem poderá tramar contra o sossego delas?...
Então Augusto, que era dos tais que por semelhante povo, são como formiga por
açúcar, macaco por banana, criança por campainha… e ele tinha razão! Por
último, as circunstâncias também contrariavam Fabrício, pois a sra. d. Violante
havia tido o poder de esgotar toda a elástica paciência do pobre estudante, que
não acharia nem mais uma só dose homeopática desse tão necessário confortativo
para despender com o novo macista.
Fabrício tomou, pois, o braço de Augusto e ambos saíram da
sala, este com vivos sinais de impaciência, o primeiro com ares de quem ia
tratar importante negócio.
A inocente d. Joaninha os acompanhou com os olhos e riu-se
brandamente, encontrando os de Fabrício, que teve ainda bastante audácia para
tingir um sorriso de gratidão.
Eles se dirigiram ao gabinete do lado direito da sala, o
qual fora destinado para os homens; e entrando fechou Fabrício a porta sobre
si, para se achar em toda liberdade. Enfim, estavam sos. Voltados um para o
outro, guardavam alguns momentos de silêncio. Foi Augusto que teve de rompê-lo.
— Então, ficamos a jogar o siso?...
— Espero a tua resposta, disse Fabrício.
— Ainda não me perguntaste nada, respondeu o outro.
— A minha carta?...
— Eu a li... sim, tive a paciência de lê-la toda.
— E então?...
— Então o que, homem?...
— A resposta.
— Aquilo não tem resposta.
— Ora, deixa-te disso; vamos mangar com a moça.
— Tu estás doido, Fabrício.
— Por tua culpa, Augusto.
— Pois então cuidas que o amor de uma senhora deva ser a
peteca com que se divirtam dois estudantes?...
— Quem é que te fala em peteca?... Pelo contrário, o que eu
quero é desgrudar-me do fatal contrabando.
— Não! A pesar teu, deves respeitar e cultivar o nobre
sentimento que te liga a d. Joaninha. Que se diria dó teu procedimento, se
depois de trazeres uma moça toda cheia de amor e fé na tua constância, por
espaço de três meses, a desprezasses sem a menor aparência de razão, sem a mais
pequena desculpa?...
— Então tu, com o teu sistema de...
Eu desengano: previno a todas que as minhas paixões têm
apenas horas de vida, e tu, como os outros, juras amor eterno.
— Estou desconhecendo-te, Augusto. Sempre te achei com juízo
e bom conceito e agora temo muito que estejas com princípios de alienação
mental! Explica-me, por quem és, que súbito acesso de moralidade é esse que
tanto te perturba.
— Isto, Fabrício, chama-se inspiração dos bons costumes.
— Bravo! Bravo! Foi muito bem respondido, mas, palavra de
honra que tenho dó de ti! Vejo que em matéria da natureza da de que tratamos
estás tão atrasado como eu em fazer sonetos. Apesar de todo o teu romantismo,
ou talvez principalmente por causa dele, não vês o que se passa a duas
polegadas do nariz. Pois, meu amigo, quero te dizer: a teoria do amor do nosso
tempo aplaude e aconselha o meu procedimento; tu verás que eu estou na regra,
porque as moças têm ultimamente tomado por mote de todos os seus apaixonados
extremos, ternos, afetos e gratos requebros, estes três infinitos de verbos:
iscar, pescar e casar. Ora, bem vês que, para contrabalançar tão parlamentares
e viciosas disposições, nós, os rapazes, não podíamos deixar de inscrever por
divisa em nossos escudos os infinitos desses três outros verbos: fingir, rir e
fugir. Portanto, segue-se que estou encadernado nos axiomas da ciência.
— Com efeito! ... Não te supunha tão adiantado!
— Pois que dúvida? Para viver-se vida boa e livre, é preciso
andar com o olho aberto e o pé ligeiro. Então as tais sujeitinhas que, com a
felicidade e indústria com que a aranha prende a mosca na teia, são capazes de
tecer de repente, com os olhares, sorrisos, palavrinhas doces, suspiros a
tempo, me deixes aproximando-se, zelos afetados e arrufos com sai e pimenta,
uma armadilha tão emaranhada que, se o papagaio é tolo e não voa logo, mete por
força o pé no laço e adeus minhas encomendas, fica de gaiola para todo o resto
de seus dias... E, portanto, meu Augusto, deixa-te de insípidos escrúpulos e
ajuda-me a sair dos apuros em que me vejo.
— Torno a dizer-te que estás doido, Fabrício, pois que me
acreditas capaz de servir de instrumento para um enredo… uma verdadeira
traição. Então, que pensas? Eu requestaria d. Joaninha, não é assim?... Tu a
deixavas, fingindo ciúmes, e depois quem me livraria dos apertos em que
necessariamente tinha de ficar?...
— Ora, isso não te custava cinco minutos de trabalho: tu...
inconstante por índole e por sistema!
— Fabrício, deixa-te de asneiras; já que te meteste nisso,
avante! Além de que, d. Joaninha é um peixão.
— Oh! Oh! Oh!... Uma desenxabida...
— Que blasfêmia!
— Além disso é impossível... Não posso suportar o peso:
escrever quatro cartas por semana... Só o talento que é preciso para inventar
asneiras e mentiras dezesseis vezes por mês! ... E depois, o Tobias...
— Puxa-lhe as orelhas.
— Como?... Se ele é a cria de d. Joaninha, o alfenim da
casa, o São Benedito da família!
— Não sei, meu amigo, arranja-te como puderes.
— Lembra-te que foste a causa principal de tudo isso.
— Quem?... Eu?... Eu apenas te disse que não sabias o gosto
que tinha o amor à moderna.
Pois bem, saí do meu elemento, fui experimentar a paixão
romântica... aí a tem! ... A tal paixãozinha me esgotou já paciência, juízo e
dinheiro. Não a quero mais.
— Tu sempre foste um papa-empadas.
— Sim, e há dois meses que não sei o que é cheiro delas.
Anda, meu Augustozinho, ajuda-me!
— Não posso e não devo.
— Vê lá o que dizes! Tenho dito.
— Augusto!
— Agora digo mais que não quero.
— Olha que te hás de arrepender!
Esta é melhor! ... Pretendes meter-me medo?... Eu sou capaz
de vingar-me.
— Desafio-te a isso.
— Desacredito-te na opinião das moças.
— E um meio de tornar-me objeto de suas atenções. Peço-te
que o faças.
Descubro e analiso o teu sistema de iludir a todas.
Tornar-me-ás interessante a seus olhos.
— Direi que és um bandoleiro.
— Melhor, elas farão por tornar-me constante.
— Mostrarei que a tua moral a respeito de amor é a pior
possível. Ótimo! ...
Elas se esforçarão por fazê-la boa.
— Hei de, nestes dois dias, atrapalhar-te continuamente.
— Bravo!... Não contava divertir-me tanto! Então tu teimas
no teu propósito?...
— Pois, se é precisamente agora que estou vendo os bons
resultados que ele me promete!
— Portanto... estes dois dias, guerra!
— Bravíssimo, meu Fabrício; guerra!
— Antecipo-te que o meu primeiro ataque terá lugar durante o
jantar.
— Oh! Por milhares de razões, tomara eu que chegasse a hora
dele!...
— Augusto, até o jantar!
— Fabrício, até o jantar!
Neste momento Filipe abriu a porta do gabinete e,
dirigindo-se aos dois, disse:
— Vamos jantar.
CAPÍTULO V
Jantar Conversado
Ao escutar aquele aviso animador que, repetido pela boca de
Filipe, tinha chegado até o gabinete onde conversavam Augusto e Fabrício, raios
de alegria brilhavam em todos os semblantes. Cada cavalheiro deu o braço a uma
senhora e, par a par, se dirigiram para a sala de jantar. Eram, entre senhoras
e homens, vinte e seis pessoas.
Coube a Augusto a glória de ficar entre d. Quinquina, que
lhe dera a honra de aceitar seu braço direito, e uma jovem de quinze anos, cuja
cintura se podia abraçar completamente com as mãos. Um velho alemão ficava à
esquerda dela e, sem vaidade, podia Augusto afirmar que d. Clementina prestava
mais atenção a ele que ao jogadores, que, também, a falar a verdade, por seu
turno, mais se importava com o copo que com a moça.
D. Quinquina (como a chamam suas amigas) conversa sofrível e
sentimentalmente: é meiga, terna, pudibunda, e mostra ser muito modesta. Seu
moral é belo e lânguido como seu rosto; um apurado observador, por mais que
contra ela se dispusesse, não passaria de classificá-la entre as sonsas. D.
Clementina pertencia, decididamente, a outro gênero: o que ela é lhe estão
dizendo dois olhos vivos e perspicazes e um sorriso que lhe está tão assíduo
nos lábios, como o copo de vinho nos do alemão. D. Clementina é um epigrama
interminável; não poupa a melhor de suas camaradas: sua vivacidade e espírito
se empregam sempre em descobrir e patentear nas outras as melhores brechas,
para abatê-las na opinião dos homens com quem pratica.
Durante as primeiras cobertas ela dissertou maravilhosamente
acerca de suas companheiras. Maliciosa e picante, lançou sobre elas o ridículo,
que manejava, e os sorrisos de Augusto, que com destreza desafiava. As únicas
que lhe haviam escapado eram d. Quinquina, provavelmente por ficar-lhe muito
vizinha, e a irmã de Filipe, que estava defronte ou como é moda dizer —
vis-à-vis.
Augusto quis provocar os tiros de d. Clementina contra
aquela menina impertinente, que tão pouco lhe agradava.
— E que pensa V. S.ª desta jovem senhora que está
defronte de nós? perguntou ele em voz baixa.
Quem?... A Moreninha?... respondeu ela no mesmo tom. Falo da
irmã de Filipe, minha senhora.
— Sim... todos nós gostamos de chamá-la a Moreninha. Essa...
Acabe d. Clementina, disse a irmã de Filipe que, fingindo antes não prestar
atenção ao que conversavam os dois, acabava de fixar de repente na terrível
cronista dois olhares penetrantes e irresistíveis.
Parecia que uma luta interessante ia ter lugar; as duas
adversárias mostravam-se ambas fortes e decididas, porém d. Clementina para
logo recuou; e, como querendo não passar por vencida, sorriu-se maliciosamente
e, apontando para a Moreninha disse, afetando um acento gracejador:
— Ela é travessa como o beija-flor, inocente como uma
boneca, faceira como o pavão, e curiosa como... uma mulher.
— Sim, tornou-lhe d. Carolina. Preciso é que os ouvidos
estejam bem abertos e a atenção bem apurada, quando se está defronte de uma
moça como d. Clementina, que sempre tem coisas tão engraçadas e tão inocentes
para dizer! ... Oh! minha camarada, juro-lhe que ninguém lhe iguala na
habilidade de compor um mapa.
— Mas... d. Carolina... você deu o cavaco?...
Oh! não, não... continuou a menina, com picante ironia;
porém é fato que nenhuma de nós gosta de ser ofuscada com o esplendor de outra.
Já basta de brilhar, d. Clementina; o sr. Augusto deve estar tão enfeitiçado
com o seu espírito e talento, que decerto não poderá toda esta tarde e noite
olhar para nós outras, sem compaixão ou desgosto; portanto, já basta... se não
por si, ao menos por nós.
A cronista fez-se cor de nácar e a sua adversária,
imitando-a na malícia do sorriso e no acento gracejador, prosseguiu ainda:
— Mas ninguém conclua daqui que, por ofuscada, perco o amor
que tinha ao astro que me ofuscou. Bela rosa do jardim! Teus espinhos feriram a
borboleta, mas nem por isso deixarás de ser beijada por ela!...
E assim dizendo, a Moreninha estendeu e apinhou os dedos de
sua mão direita, fez estalar um beijo no centro do belo grupo que eles formaram
e, enfim, executou com o braço um movimento, como se atirasse o beijo sobre d.
Clementina. Oh! disse Augusto consigo mesmo: a tal menina travessa não é tola
como me pareceu ainda há pouco. E desde então começou o nosso estudante a
demorar seus olhares naquele rosto que, com tanta injustiça, tachara de
irregular e feio. Prevenido contra d. Carolina, por havê-la surpreendido
fazendo-lhe uma careta, o tal sr. Augusto, com toda a empáfia de um semidoutor,
decidiu magistralmente que a moça tinha todos os defeitos possíveis.
Coitadinho! ... Espichou-se tão completamente, que agora mesmo já estava
pensando com os seus botões: ela não será bonita!... porém feia?... isso é
demais!
— Chegou muito tarde à ilha... balbuciou d. Quinquina, como
quem desejava travar conversação com Augusto.
— Pensa deveras isso, minha senhora?!... respondeu este,
pregando nela um olhar de quem está pedindo um sim.
— Penso... disse a moça enrubescendo.
— Pois é precisamente agora que eu reconheço ter chegado
muito tarde ou pelo contrário, talvez cedo demais.
— Cedo demais?...
— Certamente: não se chegará sempre cedo demais onde se
corre algum risco?
— Aqui, portanto...
— Neste lugar, portanto, continuou o estudante, voltando os
olhos por todas as senhoras, e apontando depois para d. Quinquina; aqui,
principalmente, floresce e brilha o prazer, mas perde-se também a liberdade de
um mancebo!
Os dois foram interrompidos para corresponder a uma longa e
interminável coleção de brindes que o alemão principiou a desenrolar, e com
tanta freqüência e tão pouca fertilidade, que só a sra. d. Ana teve, por sua
saúde, de vê-lo beber seis vezes.
Enfim, cedeu um pouco a tormenta, e d. Quinquina, que havia
gostado do que lhe dissera o estudante, continuou:
— Não quis vir com os seus colegas?
— Eu gosto de andar só, minha senhora.
— Sempre é má e triste a solidão.
— Mas às vezes também a sociedade se torna insuportável...
por exemplo, depois de amanhã...
— Depois de amanhã? repetiu ela, sorrindo-se; depois de
amanhã o quê?
— Minha senhora, ouvidos que escutaram acordes, sons de
harpa sonora, vibrada por ligeira mão de formosa donzela, doem-se de ouvir o
toque inqualificável da viola desafinada da rude sabia.
Eu não o compreendo bem...
— Quem respirou o ar embalsamado dos jardins. o aroma das
rosas, os eflúvios da angélica, incomoda-se, exaspera-se ao respirar logo
depois a atmosfera grave e carregada de miasmas de um hospital.
— Ainda o não entendi.
— Pois juro, minha senhora, que desta vez me há de
compreender perfeitamente. Digo que, vendo eu hoje dois olhos que por sua cor
se assemelham a dois belos astros de luz, cintilando em céus do mais puro azul;
que, escutando uma voz tão doce como serão as melodias dos anjos; que enfim,
respirando junto de alguém, cujo bafo é um perfume de delícias, depois de
amanhã preferirei não ver, não ouvir e não cheirar coisa alguma, a ver os olhos
pardos e encovados ali do meu amigo Leopoldo, a ouvir a voz de taboca rachada
do meu colega Filipe e a respirar a fumaça dos charutos de meu companheiro
Fabrício.
—Ah!... exclamou outra vez inesperadamente d. Carolina, eu
creio que d. Quinquina terá finalmente compreendido o que o sr. Augusto tanto
se empenha em lhe explicar.
— Minha prima, atreveu-se a dizer a ingênua, modesta,
medrosa e muito sonsa d. Quinquina; minha prima, você o teria compreendido no
primeiro instante, não é assim?...
— Certamente, respondeu a mocinha, sem perturbar-se; o sr.
Augusto, além de falar com habilidade e fogo, pôs em ação três sentidos; o que
poderia também suceder, era que, como algumas costumam fazer, eu fingisse não
compreendê-lo logo, para dar lugar a mais vivas finezas, até que ele de
fatigado dissesse tudo, sem figuras e flores de eloqüência... Ora, isso quase
que aconteceu, porque os olhos, os ouvidos e o nariz do sr. Augusto hão de
estar certamente cansados de tão excessivo trabalho!
— Minha senhora!
Por desdita dele não houve ocasião de pôr em campo um outro
sentido; o gosto ficou em inação, bem contra a sua vontade, não é assim, sr.
Augusto?...
— Minha prima, todos olham para nós...
— A respeito do tato, não direi palavra, continuou a
terrível Moreninha; porque se as mãos do sr. Augusto conservaram-se em justa
posição, quem sabe os transes por que passariam os pés de minha prima?... Os
srs. estão tão juntinhos, que com facilidade e sem risco se podem tocar por
baixo da mesa.
— Menina! exclamou a sra. d. Ana, com acento de repreensão.
— Minha senhora, consinta que ela continue a gracejar, disse
Augusto, meio aturdido. Além de me dar a honra de tomar-me por objeto de seus
gracejos, dá-me também o prazer de apreciar e admirar seu espírito e agudeza.
— Agradecida! Muito agradecida! tornou o diabinho da menina,
rindo-se com a melhor vontade. Eu cá não custo a compreendê-lo como minha
prima; já sei o que querem de mim os seus elogios... Estou comprada, não falo
mais.
Uma risada geral aplaudiu as últimas palavras de d.
Carolina; não há nada mais natural; ela era a neta da dona da casa, além de ser
moça e rica.
Começava então a servir-se a sobremesa.
E eu, apesar de amigo e colega de Augusto, disse por fim
Fabrício, endireitando-se, não posso deixar de lastimar a sra. d. Joaquina,
pela triste conquista que acaba de fazer.
Augusto conheceu que lhe era dado o sinal de combate.
Fabrício queria tomar vingança de sua nenhuma condescendência, e pois,
preparou-se para sustentar a luta com todo o esforço. Vendo que todos tinham os
olhos fitos nele, como que esperando unia resposta, não hesitou.
— Obrigado, disse; nem eu mesmo posso de mim formar outro
conceito. Devo, todavia, declarar que, se me fosse dado conhecer a ditosa
mortal que conseguiu ganhar os pensamentos e o coração do meu colega, certo que
eu lhe daria meus parabéns em prosa e verso, porque Fabrício é, sem
contradição, a mais alegre e apreciável conquista!
A ironia o feriu. A interessante Moreninha lançou sobre
Augusto um olhar de aprovação e sorriu-se brandamente; gostou de o ver manejar
sua arma favorita. Sem se explicar o porquê, também o nosso estudante teve em
muita conta aquele sorriso da menina travessa. Fabrício continuou:
— Venha embora o ridículo, que nem por isso poder-se-á negar
que para o nosso Augusto não houve, não há, nem pode haver amor que dure mais
de três dias.
— Venha embora o ridículo, que nem por isso poder-se-á negar
que para o nosso Augusto não houve, não há, nem pode haver amor que dure mais
de três dias.
Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime
de lesaformosura. Augusto respondeu:
— E o que há aí de mais engraçado, é que Fabrício tem culpa
disso, porque, enfim, manda o meu destino que eu sempre tenha andado, ande, e
haja de andar em companhia dele, que com a maior crueldade do mundo, tira-me
todos os lances, antes de três dias de amor.
Novo olhar, novo sorriso de aprovação de d. Carolina: novo
prazer de Augusto por merecê-los.
Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu:
— Nada de fugir da questão. Poder-se-ia julgar fraqueza
querer de algum modo ocultar que, tanto em prática como em teoria, o meu colega
é e se preza de ser o protótipo da inconstância.
Eis o que ele não pode negar, acudiram Leopoldo e Filipe,
rindo-se.
— E para que negar, se já o nosso colega afirmou que eu me
prezava de ter essa qualidade?
— Misericórdia! exclamou uma das moças.
— É possível?! ... perguntou a avó de Filipe, com seriedade.
— É absolutamente verdade, respondeu o estudante. Lançou
depois um olhar ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram o rosto.
D. Quinquina tinha nos lábios um triste sorriso. A Moreninha olhou-o com
espanto, durante um certo momento, mas logo depois soltou uma sofrível risada e
pareceu ocupar-se exclusivamente de uma fatia de pudim.
Reinou silêncio por alguns instantes; Fabrício parecia
vitorioso; Augusto estava como em isolamento, as senhoras olhavam para ele com
receio, e mostravam temer encontrar seus olhos; dir-se-ia que receavam que de
uma troca de olhar nascesse para logo o sentimento que as devesse tornar
desgraçadas. Desde as fatais palavras de Fabrício, Augusto era naquela mesa o
que costumava ser um leproso na Idade Média: o homem perigoso, cujo contato
podia fazer a desgraça de outro.
Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu
adversário e inexperiente, se havia de deixá-lo debatendo-se em sua má posição,
quis ainda mais piorá-la, e foi talvez arrancá-lo dela. Fabrício, pois, fala;
as senhoras embebem nele os olhos e o aplaudem, enquanto Augusto, servindo-se
de um prato de grosso melado, afeta prestar pouca atenção ao seu acusador.
— Sim, minhas senhoras, é um jovem inconstante, acessível a
todas as belezas, repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra, que
será logo deixada pela vista de uma nova, como se ele fosse a inércia da
matéria, que conserva impressão, mas que não a guarda senão o tempo que é gasto
para um novo agente modificá-la!
Muito bem! Muito bem! disseram algumas vozes.
— Seu coração é pétrea abóboda de teatro que não entende o
dizer de Auber, quando soluça a flauta ternos sons de musical discurso, pois
aquela muda superfície reflete a todos, e a todos esquece com estúpida
indiferença!
— Bravo!... Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo,
apontando maliciosamente para a garrafa que se achava defronte do orador, e
quase de todo esgotada.
Apoiadíssimo! ... murmurou Augusto, apontando também para a
garrafa.
— Mas ele deverá viver de lágrimas, suspiros e ânsias de
condenado...
concluiu Fabrício.
— Bravo!... Muito bem!... Bravo!...
— Peço a palavra para responder! exclamou Augusto.
— Tem a palavra, mas nada de maçada!
— Duas palavras, minhas senhoras, só duas palavras. Sim,
defenda-se, defenda-se.
— Defender-me?... Certo que não o farei; poderia, ao
contrário, acusar, mas também não quero; julgo apenas dar algumas explicações.
Minhas senhoras, debaixo de certo ponto de vista o meu colega Fabrício disse a
verdade, porque eu sou, com efeito, o mais inconstante dos homens em negócio de
amor.
— Ainda repete?!
— Mas também quem me conhece bastante conclui que, por fim
de contas, não há amante algum mais firme do que eu.
— O senhor está compondo enigmas.
— Não o interrompam, deixem-no apresentar o seu programa
amoroso.
— Sim, minhas senhoras, continuou Augusto; vamos ao
desenvolvimento da primeira proposição.
— Ouçam! Ouçam!
— A minha inconstância é natural, justa e, sem dúvida,
estimável. Eu vejo uma senhora bela: amo-a, não porque ela é senhora… mas
porque é bela; logo, eu amo a beleza. Ora, esse atributo não foi exclusivamente
dado a uma senhora, e quando o encontro em outra, fora injustiça que eu
desprezasse nesta aquilo mesmo que eu tanto amei na primeira.
— Bravo! ... Viva o raciocínio!
— Mais ainda. Todo mundo sabe que não há quem nasça
perfeito. Suponhamos que eu estou na agradável companhia de três jovens, todas
são lindas; a primeira vence a segunda na delicadeza do talhe, esta supera
aquela na ternura do olhar e na graça dos sorrisos, e a terceira, enfim,
ganha-as na sublime harmonia de umas bastas madeixas negras, coroando um rosto
romanticamente pálido; ora, bem se vê que seria cometer a mais detestável
injustiça se eu, por amar a delicadeza do talhe da primeira, me esquecesse das
ternuras dos olhares e da graça dos sorrisos da segunda, assim como das bastas
madeixas negras e do rosto romanticamente pálido da última.
— Muito bem, Augusto, exclamou Filipe. Estou achando um não
sei quê tão aproveitável no teu sistema, que me vejo em termos de segui-lo.
— Eis aqui, pois, porque sou inconstante, minhas senhoras; é
o respeito que tributo ao merecimento de todas, é talvez o excesso a que levo
as considerações que julgo devidas ao sexo amável, que me faz ser volúvel.
Agora eu entro na segunda parte de minha explicação.
— Atenção! ... Ele vai provar que é constante!
— Antes que ninguém, minhas senhoras, eu repreendi o meu
coração pela sua volubilidade; mas vendo que era vão trabalho querer extinguir
por tal meio uma disposição que a natureza nele plantara, pretendi primeiro
achar na mesma natureza um corretivo que o fizesse constante. Procurei uma
jovem bem encantadora para me lançar em cativeiro eterno, mas debalde o fiz,
porque eu sou tão sensível ao poder da formosura, que sempre me sucedia
esquecer a bela de ontem pela que via hoje, a qual, pela mesma razão, era esquecida
depois. Quantas vezes, minhas senhoras, nos meus passeios da tarde, eu olvidei
o amor da manhã desse mesmo dia por outro amor, que se extinguiu no baile dessa
mesma noite!
— E exageração! disse uma senhora.
— E exatamente assim, acudiu Fabrício.
— Que folha d’alho! ... exclamou d. Quinquina.
— Então, minhas senhoras, prosseguiu Augusto, entendi que
deveria recorrer a mim próprio para tornar-me constante. Consegui-o. Sou firme
amante de um só objeto que não tem existência real, que não vive.
— Como é isso!... Então a quem ama?
— A sua sombra, como Narciso?...
— A boneca que se vê na vidraça do Desmarais?...
— Ao cupido de Praxíteles, como Aquídias de Rodes?...
— Alguma estátua da Academia das Belas-Artes?...
— Nada disso.
— Então a quem?
— A todas as senhoras, resumidas num só ente ideal. À custa
dos belos olhos de uma, das lindas madeixas de outra, do colo de alabastro
desta, do talhe elegante daquela, eu formei o meu belo ideal, a quem tributo o
amor mais constante. Reuno o que de melhor está repartido e faço mais ainda:
aperfeiçôo a minha obra todos os dias. Por exemplo, retirando-me desta ilha, eu
creio que vestirei o meu belo ideal de novas formas!
Viva o cumprimento!...
— Foi assim, minhas senhoras, que me pude tornar constante
e, graças ao meu proveitoso sistema, posso amar a todas as senhoras a um tempo,
sem ser infiel a nenhuma, disse.
— Muito bem!... Muito bem!...
— Augusto desempenhou-se.
O champanha estourava naquele momento. Leopoldo tomou a
palavra pela ordem.
Eu vou, exclamou, propor um belo meio de terminar estas
discussões, convidando a todos os senhores para um brinde, no qual Augusto, por
castigo de sua inconstância, não nos poderá acompanhar. Não é novo que mancebos
bebam, no meio dos prazeres de um festim, um copo de vinho depois de pronunciar
o nome daquela que é a dama de seus pensamentos. Aqui não estamos só mancebos
e, pois, não faremos tanto; pronunciaremos, contudo, a inicial do primeiro
nome.
— Sim! Sim! disse Filipe, Augusto não beberá conosco...
— Não, maninho, acudiu a interessante Moreninha, ele há de
beber também.
— Ah, minha senhora! No beber um copo de champanha não está
a dúvida; a dificuldade toda é poder, entre tantos nomes, escolher o mais
amado. Acode-me tal número dos que têm tocado o superlativo do amor...
— M... disse Leopoldo, esvaziando seu copo.
— C... pronunciou Filipe, olhando para d. Clementina.
— J... balbuciou Fabrício, exasperado com um acesso de tosse
que atacara Augusto.
Os outros mancebos pronunciaram suas letras, e só o
inconstante faltava.
— Eia! Ânimo, sr. Augusto, disse d. Carolina.
— Mas que letra, minha senhora?... se eles me dessem
licença, faria o enorme sacrifício de reduzir as que me lembram ao diminuto
número de vinte e três.
— Nada! nada! Nesta saúde não entra o número plural.
— Pois bem, sr. Augusto, continuou a menina, uma coleção não
deixa de ser singular; beba o seu copo de champanha ao alfabeto inteiro!
— Sim, minha senhora, ao alfabeto inteiro!
Meia hora depois levantaram-se da mesa. Leopoldo
aproximou-se de Augusto.
— Então que dizes, Augusto?...
— Que passaremos a mais agradável noite.
— E quem ganhará a aposta?
— Eu.
— De qual destas meninas estás mais apaixonado?...
— Estou na minha regra, mas hoje tenho-me apaixonado só de
três, principalmente.
— E o que pensas da irmã de Filipe?
— A melhor resposta que te posso dar, é... não sei...
porque, ao meio-dia, a julgava travessa, importuna e feia, mas era-me
completamente indiferente.
— À uma hora?...
— Eu a supus estouvada e desagradável.
— Às duas horas?...
— Má, e desejava vê-la longe de mim.
— Durante o jantar?...
— Fui achando-lhe algum espírito e acusei-me por havê-la
julgado feia.
— E agora?
— Parece que me sinto inclinado a declará-la engraçada e
bonitinha.
— E daqui a pouco? Eu direi.
CAPÍTULO VI
Augusto com seus amores
Poucos momentos depois da cena antecedente, a sala de jantar
ficou entregue unicamente ao insaciável Keblerc, que entendeu, não sabemos se
mal ou bem, que era muito mais proveitoso ficar fazendo honra a meia dúzia de
garrafas de belo vinho, do que acompanhar as moças, que se foram deslizar pelo
jardim. Outro tanto não fizeram os rapazes, que de perto as acompanharam, assim
como pais, maridos e irmãos, todos animados e cheios de prazer e harmonia,
dispostos a acabar o dia e entrar pela noite com gosto.
Mas dissemos que não sabíamos se Keblerc havia feito bem ou
mal em não imitar os outros. Sem dúvida já fomos condenados por homens de mau
gosto; cumpre-nos dar algumas razões. Entendemos. cá para nós, que por diversos
caminhos vão, tanto o alemão como os rapazes, a um mesmo fim. Em resultado,
esgotadas as garrafas e terminado o passeio, haverá mona, não só na sala de
jantar, mas também no jardim; a diferença é que uma será mona de vinho e a
outra de amor. Esta última costuma sempre ser a mais perigosa. Pela nossa parte
confessamos que não há cachaça que embebede mais depressa do que uma que se
bebe nos olhos travessos de certas pessoas.
Passeava-se. Cada cavalheiro dava o braço a uma senhora, e,
divagando-se assim pelo jardim, o dicionário das flores era lembrado a todo
momento. Menina havia que, apenas algum lhe dizia, apontando para a flor:
— Acácia!
— Sonhei com você! respondia logo.
— Amor-perfeito!
— Existo para ti só! tornava imediatamente.
E o mesmo faria a respeito de todas as flores que lhe
mostravam. Era uma doutora de borla e capelo em todas as ciências amatórias; e
esta menina era, sem mais nem menos, aquela lânguida e sonsinha d. Quinquina...
Fiai-vos nas sonsas!
Um moço e uma moça, porém, andavam como se costuma dizer,
solteiros; bem vezes dela se aproximava o sujeito, mas a bela quanto mais perto
a via, mais saltava, corria, voava como um beija-flor, como uma abelha ou,
melhor, como uma doidinha. Eram eles d. Carolina e Augusto.
Augusto passeava só, contra vontade; d. Carolina por assim o
querer.
Augusto viu de repente todos os braços
"engajados". Duas senhoras, a quem se dirigiu, fingiram não ouvi-lo
ou se desculparam. O inconstante não lhes fazia conta, ou antes queriam,
tornando-se difíceis, vê-lo requestando-as; porque, desde o programa de
Augusto, cada uma delas entendeu lá consigo que seria grande glória para
qualquer, prender com inquebráveis cadeias aquele capoeira de amor e que o
melhor meio de isto conseguir era fingir desprezá-lo e mostrar não fazer conta
com ele. Exatamente intentavam batê-lo por meio dessa tática poderosa, com que
quase sempre se triunfa da mulher, isto é, pouco a pouco.
D. Carolina, pelo contrário, havia rejeitado dez braços.
Queria passear só. Um braço era uma prisão e a engraçada Moreninha gosta
sobretudo da liberdade. Ela quer correr, saltar e entender com as outras; agora
adiante de todos, e daqui a pouco ser a última no passeio; viva, com os olhos
brilhantes; ágil, com seu pezinho sempre pronto para a carreira; inocente para
não se envergonhar de suas travessuras e criada com mimo demais para prestar
atenção ao conselho de seu irmão, está em toda a parte, vê, observa tudo e de
tudo tira partido para rir-se. Em contínua hostilidade com todas aquelas que
passeavam com moços, de cada vista d’olhos, de cada suspiro, de cada ação que
percebia, tirava motivo para seus epigramas; e, inimigo invencível, porque não
tinha fraco por onde fosse atacado, era por isso temido e acariciado.
Deixemô-la, pois, correr e saltar, aparecer e desaparecer ao mesmo tempo; nem à
nossa pena é dado o poder de acompanhá-la, que ela é tão rápida como o
pensamento.
Finalmente, o pobre Augusto encontrou uma senhora que teve
piedade dele. Estão afastados do resto da companhia, e conversam. Vamos
ouvi-los.
— Com efeito, disse a sra. d. Ana, devo confessar que me
espantei, ouvindoo sustentar com tão vivo fogo a inconstância do amor.
— Mas, minha senhora, não sei por que se quer espantar!... E
uma opinião.
— Um erro, senhor! ... Ou, melhor ainda, um sistema perigoso
e capaz de produzir grandes males.
— Eis o que também me espanta!
— Não, senhor, nada há aqui que exagerado seja; rogo-lhe que
por um instante pense comigo: se o seu sistema é bom, deve ser seguido por
todos; e se assim acontecesse, onde iria assentar o sossego das famílias, a paz
dos esposos, se lhe faltava a sua base — a constância?...
Augusto guardou silêncio e ela continuou:
— Eu devo crer que o sr. Augusto pensa de maneira
absolutamente diversa daquela pela qual se explicou. Consinta que lhe diga: no
seu pretendido sistema, o que há é muita velhacaria; finge não se curvar por
muito tempo diante de beleza alguma, para plantar no amor-próprio das moças o
desejo de triunfar de sua inconstância.
— Não, minha senhora, o único partido que eu procuro, e
tenho conseguido tirar, é o sossego de que há algum tempo gozo.
— Como?
— É uma história muito longa, mas que eu resumirei em poucas
palavras. Com efeito, não sou tal qual me pintei durante o jantar. Não tenho a
louca mania de amar um belo ideal, como pretendi fazer crer; porém, o certo é
que eu sou e quero ser inconstante com todas e conservar-me firme no amor de
uma só.
— Então o senhor já ama?...
— Julgo que sim.
— A uma moça?
— Pois então a quem?...
— Sem dúvida bela!...
— Creio que deve ser.
— Pois o senhor não sabe?...
— Juro que não.
— O seu semblante?
— Não me lembro dele.
— Mora na corte?...
— Ignoro-o.
— Vê-a muitas vezes?...
— Nunca.
— Como se chama?...
— Desejo muito sabê-lo.
— Que mistério!
— Eu devo mostrar-me grato à bondade com que tenho sido
tratado, satisfazendo a curiosidade que vejo muito avivada no seu rosto; e,
pois, a senhora vai ouvir o que ainda não ouviu nenhum dos meus amigos, o que
eu não lhes diria, porque eles provavelmente rir-se-iam de mim. Se deseja saber
o mais interessante episódio de minha vida, entremos nesta gruta, onde
praticaremos livres de testemunhas, e mais em liberdade.
Eles entraram.
Era uma gruta pouco espaçosa e cavada na base de um rochedo
que dominava o mar. Entrava-se por uma abertura alta e larga, como qualquer
porta ordinária. Ao lado direito havia um banco de relva, em que poderiam
sentar-se a gosto três pessoas; no fundo via-se uma pequena bacia de pedra,
onde caía, gota a gota, límpida e fresca, água que do alto do rochedo se
destilava; preso por uma corrente à bacia de pedra, estava um copo de prata,
para servir a quem quisesse provar da boa água do rochedo.
Foi este lugar escolhido por Augusto para fazer suas
revelações à digna hóspeda.
O estudante, depois de certificar-se de que toda a companhia
estava longe, veio sentar-se junto da sra. d. Ana, no banco de relva, e começou
a história dos seus amores.
CAPÍTULO VII
Os dois breves, branco e verde
Negócios importantes, minha senhora, tinham obrigado meu pai
a deixar sua fazenda e a vir passar alguns meses na corte; eu o acompanhei,
assim como toda a nossa família, isto foi há sete anos, e nessa época houve um
dia... mas que importa o dia?... Eu o poderia dizer já; o dia, o lugar, a hora,
tudo está presente à minha alma, como se fora sucedido ontem o acontecimento
que vou ter a honra de relatar; é uma loucura… a minha mania... embora... Foi,
pois, há sete anos, e tinha eu então treze anos de idade, que, brincando em uma
das belas praias do Rio de Janeiro, vi uma menina que não poderia ter ainda
oito.
Figure-se a mais bonita criança do mundo, com um vivo,
agradável e alegre semblante, com cabelos negros e anelados voando ao derredor
de seu pescoço, com o fogo do céu nos olhos, com o sorrir dos anjos nos lábios,
com a graça divina em toda ela, e far-se-á ainda uma idéia incompleta dessa
menina.
Ela estava à borda do mar e seu rosto voltado para ele;
aproximei-me devagarinho. Uma criança viva e espirituosa, quando está quieta, é
porque imagina novas travessuras ou combina os meios para executar alguma a que
se opõe obstáculos; eu sabia isto por experiência própria; cheguei-me para
saber em que pensava a menina; a pequena distância dela parei, porque já tinha
adivinhado seu pensamento.
Na praia estava deposta uma concha, mas tão perto do mar,
que quem a quisesse tomar e não fosse ligeiro e experiente se expunha a ser
apanhado pelas ondas, que rebentavam com força, então.
Eu vi a travessa menina hesitar longo tempo entre o desejo
de possuir a concha e o receio de ser molhada pelas vagas; depois pareceu haver
tomado uma resolução: o capricho de criança tinha vencido. Com suas lindas
mãozinhas arregaçou o vestido até aos joelhos, e quando a onda recuou, ela fez
um movimento, mas ficou ainda no mesmo lugar, inclinada para diante e na ponta
dos pés: segunda, terceira, quarta, quinta onda, e sempre a mesma cena de
ataque e receio do inimigo. Finalmente, ao refluxo da sexta, ela precipitou-se
sobre a concha; mas a areia escorregou debaixo de seus pés e a interessante
menina caiu na praia, sem risco e com graça: erguendo-se logo e, espantada ao
ver perto de si a nova onda, que desta vez vinha mansa e fraca como respeitosa,
correu para trás e sem o pensar atirou-se nos meus braços, exclamando:
— Ah!... Eu ia morrer afogada!...
Depois, vendo-se com o vestido cheio de areia, começou a
rir-se muito, sacudindo-o e dizendo ao mesmo tempo:
— Eu caí! Eu caí!...
E como se não bastasse esta passagem rápida do susto para o
prazer, ela olhou de novo para o mar, e tornando-se levemente melancólica,
balbuciou com voz pesarosa, apontando para a concha:
— Mas... a minha concha!...
Ouvindo a sua voz harmoniosa e vibrante, eu não quis saber
de fluxos nem refluxos de ondas; corri para elas com entusiasmo e, radiante de
prazer e felicidade, apresentei-me à linda menina, embora um pouco molhado, mas
trazendo a concha desejada.
Este acontecimento fez-nos logo camaradas. Corremos a
brincar juntos com toda essa confiança infantil que só pode nascer da inocência
e que ainda em parte se dava em mim, posto que já esse tempo fosse eu um pouco
velhaquete e sonso, como um estudante de latim que era, e por tal já procurava
minhas blasfêmias no dicionário.
É sempre digno de observar-se esta tendência que têm as
calças para o vestido! Desde a mais nova idade e no mais inocente brinquedo
aparece o tal mútuo pendor dos sexos... e de mistura umas vergonhas muito
engraçadas...
Eu cá sempre fui assim; quando brincava o tempo-será, por
exemplo, sempre preferia esconder-me atrás das portas com a menos bonita de
minhas primas, do que com o mais formoso de meus amigos de infância.
Mas, como ia dizendo, nós brincamos juntos, corríamos e
caíamos na areia, e depois ríamos ambos de nós mesmos. Tínhamos esquecido todo
o mundo, e pensávamos somente em nos divertir, como os melhores amigos.
Depois de uma agradável hora passada em mil diversas
travessuras, que nossa imaginação e inconstância de meninos modificava e
inventava a cada momento, a minha interessante camarada voltou-se de repente
para mim, e perguntou:
— Sou bonita, ou feia?...
Eu quis responder-lhe mil coisas... corei... e finalmente
murmurei tremendo:
— Tão bonita!...
— Pois então, tornou-me ela, quando formos grandes, havemos
de nos casar, sim?
— Oh!... Pois bem!...
— Havemos, continuou o lindo anjinho de oito anos, eu o
quero... Olhe, o meu primo Juca me queria também, mas ainda ontem me quebrou a
minha mais bonita boneca... Ora, o marido não deve quebrar as bonecas de sua
mulher!... Eu quero, pois, me casar com o senhor, que há de apanhar bonitas
conchinhas para mim...
Além disso ele não tem, como o senhor, os cabelos louros nem
a cor rosada...
— Porém eu gosto mais dos cabelos pretos...
— Melhor!... Melhor!... exclamou a menina, saltando de
prazer. Olhe: os meus são pretos!
E nisto ela puxou com a sua pequena mãozinha um de seus
belos anéis da madeixa, para mostrar-mo, e largando-o depois, eu vi cair outra
vez em seu pescoço, de novo torcido como um caracol.
Ainda corremos mais e continuamos a brincar juntos; e, sem o
pensar, nós nos esquecemos de procurar saber os nossos verdadeiros nomes,
porque nos bastavam esses com que já nos tratávamos, de: meu marido, minha
mulher!
A viveza, a graça e o espírito da encantadora menina tinham
feito desaparecer meu natural acanhamento; nós estávamos como dois antigos
camaradas, quando fomos interrompidos em nossas travessuras por um outro menino
que para nós corria chorando.
— O que tem? perguntamos ambos.
— E meu pai que morre! exclamou ele, apontando para uma
casinha que avistamos algumas braças distante de nos.
Ficamos um momento tristemente surpreendidos; depois, como
dominados pelo mesmo pensamento, ela e eu dissemos a um tempo:
— Vamos lá.
E corremos para a pequena casa.
Entramos. Era um quadro de dor e luto que tínhamos ido ver.
Uma pobre velha e três meninos, mal vestidos e magros, cercavam o leito em que
jazia moribundo um ancião de cinqüenta anos, pouco mais ou menos. Pelo que
agora posso concluir, uma síncope havia causado todo o movimento, pranto e
desolação que observamos. Quando chegamos ao pé de seu leito, ele tornava a si.
— Ainda não morri, balbuciou, olhando com ternura para seus
filhos, e deixando cair dos olhos grossas lágrimas. Depois, deparando conosco,
continuou:
— Quem são estes dois meninos?...
Ninguém lhe respondeu, porque todos choravam, sem excetuar a
minha bela camarada e eu.
— Não chorem ao pé de mim, exclamou o velho, sufocado em
pranto e escondendo o rosto entre as mãos, enquanto seus três filhos e o quarto
que tínhamos há pouco visto fora, se atiravam sobre ele, no excesso da maior,
da mais nobre e da mais sublime das dores.
A minha camarada dirigiu-se então à velha.
— O que tem então ele?… perguntou com viva demonstração de
interesse.
— Oh, meus meninos, respondeu a aflita velha, ele sofre uma
enfermidade cruel, mas que poderia não ser mortal... porém e pobre!... E morre
mais depressa pelo pesar de deixar seus filhos expostos à fome!... Morre de
miséria!... Morre de fome!...
— Fome! exclamamos com espanto; fome! pois também morre-se
de fome?...
E instintivamente a minha interessante companheira tirou do
bolso do seu avental uma moeda de ouro e, dando-a à velha, disse:
— Foi meu padrinho que ma deu hoje de manhã... eu não
preciso dela... não tenho fome.
E eu tirei do meu bolso uma nota, não me lembro de que
valor, e por minha vez a entreguei, dizendo:
— Foi minha mãe que ma deu e ela me dá um abraço, sempre que
faço esmolas aos pobres.
Não é possível descrever o que se passou então naquela
miserável choupana. Minha linda mulher e eu tivemos de ser abraçados mil vezes,
de ver de joelhos a nossos pés a velha e os meninos... Finalmente nós nos
aproximamos dele, que nos apertou com entusiasmo contra o coração.
— Quem sois? pôde, enfim, dizer; quem sois?
— Duas crianças, foi a menina que respondeu.
— Dois anjos, tornou o velho. E quem é este menino?...
— É o meu camarada, disse ainda ela. Vosso irmão?
— Não senhor, meu… marido.
— Marido?
— Sim, eu quero que ele seja meu marido.
— Deus realize vossos desejos!...
Acabando de pronunciar estas palavras, o ancião guardou
silêncio por alguns instantes… bebeu com sofreguidão um púcaro cheio de água e,
olhando de novo para nós, e tendo no rosto um ar de inspiração e em suas
palavras um acento profético, exclamou:
— Seja dado ao homem agonizante lançar seus últimos
pensamentos do leito da morte, além dos anos, que já não serão para ele, e
penetrar com seus olhares através do véu futuro... Meus filhos, amai-vos e
amai-vos muito! A virtude se deve ajuntar, assim como o vício se procura; sim,
amai-vos. Eu não vos iludo... vejo lá... bem longe… a promessa realizada! São
dois anjos que se unem... vêde!... Os meninos que entraram na casa do
miserável, que enxugaram o pranto e mataram a fome da indigência, são abençoados
por Deus e unidos em nome d’Ele!... Meus filhos, eu os vejo casados lá no
futuro!
— Oh!... Eis aí outra vez o delírio!… disse a velha, vendo a
exaltação e o semblante afogueado do enfermo.
— Não, minha mãe, continuou ele; não! Não é delírio... Pois
quê!... Não pode o Eterno abençoar a virtude pela minha boca?... Oh! Meus
meninos! Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!... Ainda uma vez… lá no
futuro... vós o sentireis.
Nós estávamos espantados: o rosto do ancião se havia tornado
rubro, seus olhos flamejantes... Seus lábios tremiam convulsivamente, sua mão
rugosa tinha três vezes nos abençoado.
Escutando suas palavras, eu acreditei que estávamos ouvindo
uma profecia infalivelmente realizável, pronunciada por um inspirado do Senhor.
Não parou aí a nossa admiração. O doente, cujas forças
pareciam haver reaparecido subitamente, apoiando-se sobre um dos cotovelos,
abriu a gaveta de uma mesa que estava junto de seu leito, e tirando de uma
pequena e antiga caixa dois breves, os deu à velha dizendo:
— Minha mãe, descosa esses dois breves.
A velha, obedecendo pontualmente, os descoseu com prontidão.
Os breves eram dois: um verde e outro branco.
Depois o ancião, voltando-se para mim, disse:
Menino! Que trazeis convosco que possais oferecer a esta
menina?...
Eu corri com os olhos tudo que em mim havia e só achei para
entregar ao admirável homem que me falava um lindo alfinete de camafeu, que meu
pai me tinha dado para trazer ao peito: maquinalmente, pus-lhe nas mãos o meu
camafeu. O velho quebrou o pé do alfinete e dando-o a sua mãe, acrescentou:
— Minha mãe, cosa dentro do breve branco este camafeu.
E voltando-se para minha bela camarada, continuou:
— Menina! Que trazeis convosco que possais oferecer a este
menino?...
A menina, atilada e viva, como já esperando tal pergunta,
entregou-lhe um botão de esmeralda que trazia em sua camisinha. O velho o deu a
sua mãe, dizendo:
— Minha mãe, cosa esta esmeralda dentro do breve verde.
Quando as ordens do ancião foram completamente executadas,
ele tomou os dois breves e, dando-me o de cor branca, disse-me:
— Tomai este breve, cuja cor exprime a candura da alma
daquela menina. Ele contém o vosso camafeu: se tendes bastante força para ser
constante e amar para sempre aquele belo anjo, dai-lho a fim de que ela o
guarde com desvelo.
Eu mal compreendi o que o velho queria: ainda maquinalmente
entreguei o breve à linda menina, que o prendeu no cordão de ouro que trazia ao
pescoço.
Chegou a vez dela. O homem deu-lhe o outro breve, dizendo:
— Tomai este breve, cuja cor exprime as esperanças do
coração daquele menino. Ele contém a vossa esmeralda: se tendes bastante força
para ser constante e amar para sempre aquele bom anjo, dai-lho, a fim de que
ele o guarde com desvelo.
Minha bela mulher executou a insinuação do velho com
prontidão, e eu prendi o breve ao meu pescoço, com uma fita que me deram.
Quando tudo isto estava feito, o velho prosseguiu ainda:
— Ide, meus meninos; crescei e sede felizes! Vós olhastes
para mim, pobre e miserável, e Deus olhará para vós... Ah! Recebei a bênção de
um moribundo!... Recebei-a e sai para não vê-lo expirar!
Isto dizendo, apertou nossas mãos com força: eu senti,
então, que o velho ardia; senti que seu bafo era como vapor de água fervendo,
que sua mão era uma brasa que queimava... Sinto ainda sobre os meus dedos o
calor abrasador dos seus e agora compreendo que, com efeito, ele delirava
quando assim praticou com duas crianças.
Enfim, nós deixamos aquela morada aflitos e admirados. Sós,
nós pensamos no velho e choramos juntos; depois, nas crianças isto não merece
reparo, a nossa dor se mitigou, para cuidarmos em brincar outra vez. De repente
a menina olhou para mim e disse:
— E quando minha mãe perguntar pela esmeralda?...
Eu cuidei que lhe respondia, e fiz-lhe igual pergunta:
— E quando meu pai perguntar pelo meu camafeu?
Ficamos olhando um para o outro; passados alguns instantes,
minha linda mulher, que me parecera estar pensando, disse sorrindo-se.
— Eu vou pregar uma mentira.
— E qual?
— Eu direi a minha mãe que perdi a minha esmeralda na praia.
— E eu responderei a meu pai que perdi o meu camafeu nas
pedras.
— Eles mandarão procurar, sem dúvida...
— E, não o achando, esquecer-se-ão disso.
— E os breves?... Nós os guardaremos?...
— O velho disse que sim. Para que será isto?...
— Disse que é para nos casarmos quando formos grandes.
— Pois então nós os guardaremos.
— Oh! Eu o prometo.
— Eu o juro.
Neste momento soou ave-maria.
— Tão tarde! exclamou a menina…minha mãe ralhará comigo!
E, dizendo isto, correu, esquecendo-se até de despedir-se de
mim. Esse fatal descuido acabava de entristecer-me, quando ela, já de longe,
voltou-se para onde eu estava e, mostrando-me o breve branco, gritou:
— Eu o guardarei!
Pela minha parte entendi dever dar-lhe igual resposta, e,
pois, mostrei-lhe o meu breve verde e gritei-lhe também:
— Eu o guardarei!
Aqui parou Augusto para respirar, tão cansado estava com a
longa narração; porém ergueu-se logo, ouvindo à entrada da gruta.
— Alguém nos escuta! disse ele.
— Foi talvez uma ilusão! respondeu a digna hóspeda.
— Não, minha senhora; eu ouvi distintamente a bulha que faz
uma pessoa que corre, tornou Augusto dirigindo-se à entrada da gruta e
observando em derredor dela.
— Então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Enganei-me, na verdade.
— Mas vê alguma pessoa?...
— Apenas lá vejo sua bela neta, a sra. d. Carolina,
pensativa e recostada à Efígie da Esperança.
CAPÍTULO VIII
Augusto prosseguindo
A avó de Filipe quis tomar, por sua vez, a palavra; porém o
estudante lhe fez ver que ainda muito faltava para o fim de suas histórias, e
voltando de novo ao seu lugar, continuou:
— O acontecimento que acabo de relatar, minha senhora,
produziu vivíssima impressão no meu espírito; ajudado por minha memória de
menino de treze anos, apenas entrei em casa escrevi, palavra por palavra,
quanto me havia acontecido. isto me tirou o trabalho de mentir, porque
adormecendo sobre o papel que acabava de escrever, meu pai o leu à sua vontade
e soube o destino do camafeu, sem precisar que eu lhe dissesse. Ele ainda
estava junto de mim quando despertei, exclamando: o meu breve!… o velho!...
minha mulher!...
Anda, doidinho, disse-me meu pai com bondade; eu te perdôo
as novas loucuras, em louvor da ação que praticaste, socorrendo um velho
enfermo; agora, guarda, eu to peço, e mesmo to mando, guarda melhor esse breve
do que guardaste o camafeu.
E isto dizendo, deixou-me.
Não se falou mais neste acontecimento; soube que o velho
morrera no dia seguinte e que no momento da agonia abençoara de novo a minha
camarada e a mim.
Meu pai fez todas as despesas do enterro do velho e socorreu
a sua desgraçada família.
Eu nunca mais vi, nem tive notícia alguma da minha
interessante camarada, mas nem por isso a esqueci, minha senhora... porque, ou
seja que meu coração a tivesse amado deveras, ou que esse breve tivesse alguma
coisa de encantador, o certo é que eu ainda hoje me lembro com saudades dessa
criança tão travessa, porém tão bela. Sem saber seu nome, pois nem lho
perguntei, nem ela mo disse, quando quero falar a seu respeito, digo sempre: a
minha mulher! Riem-se... não me importa: eu não posso dizer de outro modo.
Sempre com sua imagem na minha alma, com seu engraçado
sorriso diante de meus olhos, com suas sonoras palavras soando a meus ouvidos,
passei cinco anos pensando nela de dia, e com ela sonhando de noite; era uma
loucura, mas que havia eu de fazer?... Cheguei assim aos meus dezoito anos.
Eu já era, pois, mancebo. Meus pais nada poupavam para me
educar convenientemente, e eu aprendia quanto me vinha à cabeça; diziam que a
minha voz era sonora, e por tal convidavam-me para cantar em elegantes
sociedades; julgavam que eu dançava com graça e lá ia eu para os bailes;
finalmente, como cheguei a fazer algumas quadras, pediam-me recitar sonetos em
dias de anos, e assim introduziram-me em mil reuniões, onde as belezas
formigavam e os amores eram dardejados por brilhantes olhos de todas as cores.
Além disto freqüentava as casas de meus companheiros de
estudos e os ouvia contar proezas de paixões, triunfos e derrotas amorosas. Meu
amor-próprio se despertou, e tive vontade de amar e ser amado.
Julguei esta minha determinação ainda mais justa, pois tendo
ido passar certas férias na roça, e falando mil vezes no meu breve e em minha
mulher, ouvi minha mãe dizer uma vez, cru que me julgava longe:
— Temo que esse breve tire o juízo àquele menino; talvez que
nos seja preciso casá-lo cedo.
Portanto, para não ouvir somente, mas também para contar
alguma vitória de amor, para não endoidecer por causa do breve e, finalmente,
para não ser necessário à minha mãe casar-me cedo, determinei-me a amar.
— Esqueceu-se, por conseqüência, de sua mulher e do seu
breve! perguntou a sra. d. Ana, interrompendo Augusto.
— Ao contrário, minha senhora, tornou este; foi essa minha
resolução que me tornou mais firme e mais amante de minha mulher.
Não sei, continuou Augusto, que teve o amor comigo. para
entender que todas as moças deviam rir-se de mim e zombar de meus afetos! Pensa
que brinco, minha senhora?... Pois foi isso mesmo que me sucedeu no decurso de
minhas paixões. Eu resumo algumas.
A primeira moça que amei era uma bela moreninha, de
dezesseis anos de idade. Fiz-lhe a minha declaração na carta mais patética que
um pateta poderia conceber, no fim de três dias recebi uma resposta abrasadora
e cheia de protestos de gratidão e ternura; meu coração se entusiasmou com
isso... Na primeira reunião de estudantes contei a minha vitória, li a minha
carta e a resposta que havia recebido. Fui vivamente aplaudido; porém, oito
dias depois, os mesmos estudantes quase me quebraram a cabeça com cacholetas e
gargalhadas, porque oito dias, bem contadinhos, depois dessa resposta, a minha
terna amada casou-se com um velho de sessenta anos. Jurei não amar moça nenhuma
que tivesse a cor morena.
Apaixonei-me logo e fui, desgraçadamente, correspondido por
uma interessante jovem tão coradinha, que parecia mesmo uma rosa francesa, Nós
nos encontrávamos nas noites dos sábados em certa casa, onde se dava todas as
semanas uma partida; era a mais agradável sabatina que podia ter um estudante;
porém o meu novo amor chegava a ser tocante demais, e a minha querida levava o
ciúme até um ponto que me atormentava prodigiosamente: se passava algum dia em
que não a visse e lhe não mandasse uma flor, aparecia-me depois chorosa e
abatida; se na tal partida eu me atrevia a dançar com alguma outra moça bonita,
era contar com um desmaio certo, e desmaio de que não acordava sem que eu mesmo
lhe chegasse ao nariz o seu vidrinho de essência de rosas; tudo mais era por este
teor e forma. Este amor já estava um pouco velho, certamente, tinha três meses
de idade. Um sábado mandei-lhe prevenir que faltaria à partida; mas tendo
terminado cedo meus trabalhos, não pude resistir ao desejo de vê-la e fui à
reunião; eram onze horas da noite quando entrei na sala, procurei-a com os
olhos e certo moço, com quem me dava, que me entendeu, apontou para um gabinete
vizinho. Voei para ele.
Ela estava sentada junto de um mancebo e com as costas
voltadas para a porta; tomavam sorvetes. Cheguei-me de manso: conversavam os
dois, sem vergonha nenhuma, em seus amores!
Fiquei espantado e tanto mais que, pelo que ouvi, eles já se
correspondiam há muito tempo; mas o meu espanto se tornou em fúria quando ouvi
o machacaz falar no meu nome, fingindo-se zeloso, e receber em resposta as
seguintes palavras: — Augustozinho?... Lamente-o antes, coitado! É um pobre
menino com quem me divirto nas horas vagas! ... Soltei um surdo gemido; a
traidora olhou para mim e, voltando-se depois para o seu querido, disse com o
maior sangue frio: — Ora, aí tem! Perdi por sua causa este divertimento.
Jurei não amar moça nenhuma de cor rosada. Sem emendar-me,
ainda tornei-me cego amante de uma jovem pálida, e, como das outras vezes, fui
correspondido com ardor; mas desta tive eu provas de afeto muito sérias. Antes
de ver-me, ela amava um primo e até escrevia-lhe a miúdo; eu exigi que a minha
terceira amada continuasse a receber cartas dele e que as respondesse;
consentiu nisso, com a condição de lhe redigir eu as respostas. Belo! disse eu
comigo: vou também divertir-me por minha vez à custa de um amante infeliz!
E o negócio ficou assentado.
Infelizmente eu não conhecia o primo da minha amada, mas
essa era a infelicidade mais tolerável possível.
Um dia tratamos de encontrar-nos em certa igreja, onde tinha
de haver esplêndida festa; cheguei cedo, mas logo depois de minha chegada
rebentou uma tempestade e choveu prodigiosamente. Pouco durou o mau tempo,
porém as ruas deveriam ter ficado alagadas e a bela esperada não podia vir;
apesar disso eu olhava a todos os momentos para a porta e, coisa notável,
sempre encontrava os olhos de um outro moço, que se dirigiam também para lá;
acabada a festa, ambos nos aproximamos.
— Nós devemos ser amigos, disse ele.
— Eu penso do mesmo modo, respondi.
E apertamos as mãos.
— Sou capaz de jurar que adivinho a razão por que o senhor
olhava tanto para aquela porta, continuou ele.
— E eu também.
Convenho: esperávamos ambos nossas amadas e a chuva mangaram
conosco.
— Exatamente.
— Mas nós vamos, sem dúvida, vingar-nos, indo agora vê-las à
janela.
— Eu queria propor a mesma vingança.
Bravo! ... Iremos juntos... Onde mora a sua?...
— Na rua de...
— Ainda melhor... a minha é na mesma rua.
Saímos da igreja, embraçamo-nos e fomos. A minha amada
morava perto, eu avistei-a debruçada na janela, talvez me esperando, pois
olhava para o lado donde eu vinha; abri a boca para dizer ao meu novo amigo: é
aquela!... Quando ele me pronunciou com indizível prazer: é aquela!
Julgue, minha senhora, da minha exasperação! Pela terceira
vez eu era a boneca de uma menina!...
Não sei por que ainda tive ânimo de tirar o meu chapéu à tal
pálida, que ao menos dessa vez se fez cor-de-rosa, talvez por ver-me de braço
com o novo amigo.
Passando a maldita casa, Jorge, que assim se chamava o moço,
disse-me com fogo:
— Aquela jovem adora-me!
— Está certo disso, meu amigo?
— Tenho provas.
— Acredita muito nelas?
— Tenho as mais fortes; por último recebi ainda a de maior
confiança: eu lhe conto. Um estudante a requestou e escreveu-lhe; ela mandou-me
a carta, e eu respondi em seu lugar. A correspondência tem continuado por minha
vontade e sou eu quem sempre faço a norma das cartas que ela deve escrever;
achará isto imprudência, e eu acho um belo divertimento.
— Sim... um belo divertimento...
— Mas que é isso? Está tão pálido!
— Não é coisa de cuidado... Eu... ora... o estudante...
— É por certo um famoso pateta...
— Não é bom ir tão longe...
— Não tem dúvida… é um tolo rematado.
— Fale-me a verdade: eu acho aquela moça com cara de ser sua
prima.
— Quem lhe disse?... E, com efeito, minha prima!
— Pois vamos à minha casa.
— E a sua amada?...
— Não me fale mais nela.
Apenas chegamos à minha casa, abri uma gaveta, e tirando
dela todas as cartas que Jorge havia escrito à sua prima, e que ela me tinha
mandado, assim como as normas que eu redigira para as que deveriam ser enviadas
ao meu amigo, acrescentando:
— Concordemos ambos que, se o estudante foi um famoso pateta
e um tolo rematado, não o foi menos o primo daquela senhora a quem cortejamos
na rua de... Jorge devorou todas as cartas e normas que lhe dei; depois desatou
a rir e, abraçando-me, exclamou:
— Concordemos também, caro estudante, que minha prima tem
bastante habilidade para se corresponder com meio mundo, sem se incomodar com o
trabalho da redação de suas cartas!
O bom humor de Jorge tornou-me alegre. Jantamos juntos,
rimo-nos todo o dia, e só de noite se retirou.
Tratei de dormir, mas, antes de adormecer, falei ainda
comigo mesmo: juro que não hei de amar a moça nenhuma de cor pálida.
Desde então declarei guerra ao amor, minha senhora;
tornei-me ao que era dantes, isto é, ocupei-me somente em me lembrar de minha
mulher e em beijar o meu breve.
Mas eu andava triste e abatido e às vezes pensava assim:
ora, pois jurei não amar moça nenhuma que fosse morena, corada ou pálida: estas
são as cores, estes são os tipos da beleza... e, portanto, minha mulher terá, a
pesar meu, uma das tais cores; logo não me caso com minha mulher e, em última
conclusão, serei celibatário; vou ser frade... frade!
Minha tristeza, meu abatimento deu nos olhos da digna,
jovial e espirituosa esposa de um de meus bons amigos. Ela me pediu que lhe
confiasse as minhas penas e eu não pude deixar de relatar estes três fatos à
consorte de um caro amigo. A única consolação que tive foi vê-la correr para o
piano, e ouvi-la cantar as seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto
nacional.
I
Menina solteira
Que almeja casar
Não caia em amar
A homem algum;
Nem se/a notável
Por sua esquivança,
Não tire a esperança
De amante nenhum.
II
Mereçam-lhe todos
Olhares ardentes,
Suspiros ferventes
Bem pode soltar:
Não negue a nenhum
Protestos de amor;
A qualquer que for
O pode jurar.
III
Os velhos não devem
Formar exceção,
Porquanto eles são
Um grande partido;
Que, em falta de moço
Que fortuna faça,
Nunca foi desgraça
Um velho marido.
IV
Ciúmes e zelos,
Amor e ternura
Não será loucura
Fingida estudar;
Assim ganhar tudo
Moças se tem vis/o,
Serve muito isto
Antes de casar.
V
Contra os ardilosos
Oponha seu brio:
Tenha sangue frio
Pra saber fugir;
Eu, todos os casos
Sempre deve estar
Pronta pra chorar,
Pronta para rir.
VI
Pode bem a moça,
Assim praticando,.
Dos homens zombando,
A vida passar;
Mas, se aparecer
Algum toleirão,
Sem mais reflexão,
É logo casar.
— Então o negócio é assim, minha senhora? exclamei eu, ao
vê-la levantarse do piano.
— Certamente, me respondeu ela; é este, pouco mais ou menos,
o breviário por onde reza a totalidade das moças.
— Fico-lhe extremamente agradecido pelo desengano.
— Estimo que lhe sirva de muito.
— Já serve, minha senhora; já tirei grande proveito dele.
— E como?
— Escute. Abatido e desesperado com os meus infortúnios, eu
tinha jurado não amar a mais nenhuma moça que fosse morena, corada ou pálida:
estavam, pois, esgotados os belos tipos... eu deveria morrer celibatário.
— E agora?...
— Agora?... Graças ao seu lundu, juro que de hoje avante
amarei a todas elas... morenas, coradas, magras e gordas, cortesãs ou roceiras,
feias ou bonitas… tudo serve.
— E, com efeito, minha senhora, continuou Augusto,
dirigindo-se à sra. d. Ana, fiz-me absolutamente um ser novo, graças ao lundu;
guardando e beijando com desvelo o meu querido breve, que sempre comigo trago,
eu conservo a lembrança mais terna e constante de minha mulher: ela é o amor de
meu coração, enquanto todas as outras são divertimentos dos meus olhos e o
passatempo de minha vida. Eis, finalmente, a história de meus amores!... Tais
foram as razões que me tornaram borboleta de amor.
Terminando assim, Augusto ia respirar um instante, quando
pela segunda vez lhe pareceu ouvir ruído na porta da gruta.
— Alguém nos escuta, disse ele, como da outra vez.
— E talvez uma nova ilusão... respondeu a digna hóspeda.
— Não, minha senhora; eu ouvi distintamente a bulha de uma
pessoa que corre, tornou Augusto, dirigindo-se à entrada da gruta e observando
ao derredor dela.
Então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Enganei-me, na verdade.
— Mas vê alguém?...
— Apenas lá vejo a sua bela neta, a sra. d. Carolina, que se
precipita com a maior graça do mundo sobre uma borboleta que lhe foge, e que
ela procura prender.
— Uma borboleta...
CAPÍTULO IX
A srª. D. Ana com suas histórias
Finalmente, o bom do estudante que, quando lhe dava para
falar, era mais difuso que alguns de nossos deputados novos na discussão do
artigo l o dos orçamentos, julgou dever fazer pausa de suspensão; mas a sra. d.
Ana, que já tinha-o por vezes interrompido fora de tempo e debalde, não quis
tomar a palavra para responder, sem assegurar-se, dirigindo-lhe estas palavras
pela ordem:
— Então concluiu, sr. Augusto?...
Sim, minha senhora; e peço-lhe perdão por me haver tornado
incômodo, pois fui, sem dúvida, tão minucioso em minha narração que eu mesmo
tanto me fatiguei, que vou beber uma gota d’água.
E isto dizendo, foi ao fundo da gruta, e enchendo o copo de
prata na bacia de pedra, o esgotou até o fim: quando voltou os olhos, viu que a
boa hóspeda estava rindo-se maliciosamente.
— Sabe de que estou rindo?…disse ela.
— Certamente que não o adivinho.
— Pois estava neste momento lembrando-me de uma tradição
muito antiga, seguramente fabulosa, mas bem apropositada dessa fonte, e que tem
muita relação com a história dos seus amores e com o copo d’água que acaba de
beber.
— S.S.a põe em tributo a minha curiosidade...
— Eu o satisfaço com todo o prazer.
A sra. d. Ana principiou:
AS LÁGRIMAS DE AMOR
— Eu lhe vou contar a história das lágrimas de amor, tal
qual a ouvi à minha avó, que em pequena a aprendeu de um velho gentio que nesta
ilha habitava.
Era no tempo em que ainda os portugueses não haviam sido por
uma tempestade empurrados para a terra de Santa Cruz. Esta pequena ilha
abundava de belas aves e em derredor pescava-se excelente peixe. Uma jovem
tamóia, cujo rosto moreno parecia tostado pelo fogo em que ardia-lhe o coração,
uma jovem tamóia linda e sensível, tinha por habitação esta rude gruta, onde
ainda então não se via a fonte que hoje vemos. Ora, ela, que até aos quinze
anos era inocente como a flor, e por isso alegre e folgazona como uma cabritinha
nova, começou a fazer-se tímida e depois triste, como o gemido da rola; a causa
disto estava no agradável parecer de um mancebo da sua tribo, que diariamente
vinha caçar ou pescar à ilha, e vinte vezes já o havia feito sem que de uma só
desse fé dos olhares ardentes que lhe dardejava a moça. O nome dele era Aoitin;
o nome dela era Ahy. A pobre Ahy, que sempre o seguia, ora lhe apanhava as aves
que ele matava, ora lhe buscava as flechas disparadas, e nunca um só sinal de
reconhecimento obtinha; quando no fim de seus trabalhos, Aoitin ia adormecer na
gruta, ela entrava de manso e com um ramo de palmeira procurava, movendo o ar,
refrescar a fronte do guerreiro adormecido. Mas tantos extremos eram tão mal
pagos que Ahy de cansada procurou fugir do insensível moço e fazer por
esquecê-lo; porém, como era de esperar, nem fugiu-lhe e nem o esqueceu.
Desde então tomou outro partido: chorou. Ou porque a sua dor
era tão grande que lhe podia exprimir o amor em lágrimas desde o coração até os
olhos, ou porque, selvagem mesmo, ela já tinha compreendido que a grande arma
da mulher está no pranto, Ahy chorou.
E também porque nas lágrimas de amor há, como na saudade,
uma doce amargura, que é veneno que não mata, por vir sempre temperado com o
reativo da esperança, a moça julgou dever separar da dor, que a fazia chorar
amargores, a esperança que no pranto lhe adicionava a doçura, e, tendo de
exprimir a doçura, Ahy cantou.
Seu canto era triste e selvagem, mas terno canto. Dizem que
um velho frade português, ouvindo-o por tradição ao depois de muitos anos, o
traduziu para a nossa língua e fez dele uma balada, a qual minha neta canta.
Todos os dias, ao romper da aurora, a pobre Ahy subia ao
rochedo, que serve de teto a esta gruta, e esperava a piroga de Aoitin. Mal a
avistava ao longe, chorava e cantava horas inteiras, sem descanso, até que se
partia o bárbaro que nunca dela dera fé, nem mesmo quando, dormindo na gruta, o
canto soava sobre a sua cabeça.
Mas Ahy era tão formosa e sua voz tão sonora e terna, que o
mesmo que não pôde vencer do insensível moço, pôde do bruto rochedo: com
efeito, seu canto havia amolecido a rocha e as suas lágrimas a traspassaram.
E o mancebo vinha sempre e sempre, e ela cantava e chorava e
nunca ele a atendia.
Uma vez, e já então o rochedo estava todo traspassado pelas
lágrimas da virgem selvagem, uma vez veio Aoitin e, como das outras, não olhou
para Ahy, nem lhe escutou as sentidas cantigas; entregou-se a seus prazeres e,
quando se sentiu fatigado, entrou na gruta e adormeceu num leito de verde
relva; mas, ao tempo que em mais sossego dormia, duas gotas das lágrimas de
amor, que tinham passado através do rochedo, caíram-lhe sobre as pálpebras, que
lhe cerravam os olhos. Aoitin despertou; e tomando suas flechas, correu para o
mar, mas, saltando dentro de sua piroga e afastando-se da ilha, ele viu sobre o
rochedo a jovem Ahy e disse bem alto:
— Linda moça!
No outro dia ele voltou e já então olhou para a virgem
selvagem, mas não ouviu ainda o canto dela; depois de caçar veio, como sempre,
adormecer na gruta; e, dessa vez, a gota de lágrimas lhe veio cair no ouvido; e
na volta não só admirou a beleza da jovem, como, ouvindo a terna cantiga, disse
bem alto:
A voz sonora!
Terceiro dia amanheceu e Aoitin viu e ouviu Ahy, caçou e
cansou, veio repousar na gruta e dessa vez a gota de lágrima lhe caiu no lugar
do coração e, quando voltava, disse bem alto:
— Sinto amar-te!
Ora, parece que nada mais faltava a Ahy, e que a ela cumpria
responder a este último grito de Aoitin, confessando também o seu amor tão
antigo; mas a natureza da mulher é a mesma, tanto na selvagem, como na
civilizada. A mulher deseja ser amada, fingindo não amar; deseja ser senhora do
mesmo de quem é escrava: e pois Ahy nada respondeu; mas riu-se, e suas lágrimas
secaram; porém já a esse tempo as muitas que havia derramado tinham dado origem
a esta fonte, que ainda hoje existe.
No dia seguinte veio Aoitin, e viu a sua amada, que já não
cantava, nem chorava: mesmo antes de abicar à praia, foi clamando:
— Sinto amar-te!
E Ahy não respondeu, e só sorriu-se.
Nada de caça... nada de pesca... já o insensível era escravo
e não vivia longe do encanto que o prendia: correu, pois, para a gruta,
deitou-se mas não dormiu. Quem ama não dorme; sentiu que em suas veias corria
sangue ardente, que seu coração estava em fogo: era a febre do amor... Aoitin
teve sede, e a dois passos viu a fonte que manava; correu açodado para o pé
dela e, ajuntando as suas mãos, foi bebendo as lágrimas de amor. A cada trago
que bebia, um raio de esperança lhe brilhava, e quando a sede foi saciada já
estava feliz: a fonte era milagrosa.
As lágrimas de amor, que haviam tido o poder de tornar
amante o insensível mancebo, não puderam esconder a sua origem e fizeram com
que Aoitin conhecesse que era amado.
Então ele não mais buscou sua piroga. Saindo da gruta, fez
um rodeio e foi, de manso, trepando pelo rochedo, até chegar junto de Ahy, que,
com os olhos na praia do lado oposto, esperava ver partir o seu amante e ouvir
o seu belo grito:
— Sinto amar-te!
Mas de repente ela estremeceu, porque uma mão estava sobre
seu ombro; e quando olhou, viu Aoitin, que, sorrindo-se, lhe disse de um tom
seguro e terno:
— Tu me amas!
Ahy não respondeu, mas também não fugiu dos braços de
Aoitin, nem ficou devendo o beijo que nesse instante lhe estalou na face.
Desde então foram felizes na vida, e foi numa mesma hora que
morreram ambos.
A fonte nunca mais deixou de existir, e há ainda quem
acredite que por desconhecido encanto conserva duas grandes virtudes...
Dizem, pois, que quem bebe desta água não sai da nossa ilha
sem amar alguém dela e volta, por força, em demanda do objeto amado; e em
segundo lugar, querem também alguns que algumas gotas bastam para fazer a quem
bebe adivinhar os segredos de amor.
— Terminei aqui a minha história, disse a sra. d. Ana,
respirando.
— E eu sou capaz de jurar, disse Augusto, que pela terceira
vez sinto o ruído de alguém que se retira correndo.
— Pois examine depressa.
Augusto correu à porta e voltou logo depois.
— E então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Ninguém, respondeu o estudante.
— E vê alguém no jardim?...
Apenas a sra. d. Carolina, que vai apressadamente para o
rochedo.
— Sempre minha neta!...
E eu, minha senhora, tenho que pedir-lhe uma graça.
— Diga.
— Rogo-lhe que, por sua intervenção, me facilite o prazer de
ouvir sua linda neta cantar a balada de Ahy, que tanto me interessou com o seu
amor.
— Oh! ... Não carece pedir: não a ouve cantar sobre o
rochedo?... É a balada.
— Será possível?!
— Adivinhou o seu pensamento.
CAPÍTULO X
A balada do rochedo
A hóspeda e o estudante deixaram então a gruta e, tomando o
do jardim para vencer a altura do rochedo, viram a bela Moreninha em pé e
voltada para o mar, com seus cabelos negros divididos em duas tranças que caíam
pelas espáduas, e cantando com terna voz o seguinte:
I
Eu tenho quinze anos
E sou morena e linda!
Mas amo e não me amam
E tenho amor ainda.
E por tão triste amar,
Aqui venho chorar.
II
O riso de meus lábios
Há muito que murchou;
Aquele que eu adoro
Ah! Foi quem matou;
Ao riso, que morreu,
O pranto sucedeu.
III
O fogo de meus olhos
De todo se acabou,
Aquele que eu adoro
Foi quem o apagou:
Onde houve fogo tanto
Agora corre o pranto.
IV
A face cor de jambo
Enfim se descorou,
Aquele que eu adoro
Ah! Foi quem a desbotou:
A face tão rosada
De pranto está lavada!
V
O coração tão puro
Já sabe o que é amor,
Aquele que eu adoro
Ah! Só me dá rigor:
O coração no entanto
Desfaz o amor em pranto.
VI
Diurno aqui se mostra
Aquele que eu adoro;
E nunca ele me vê,
E sempre o vejo e choro;
Por paga a tal paixão
Só lágrimas me dão!
VII
Aquele que eu adoro
E qual rio que corre,
Sem ver a flor pendente
Que ti margem murcha e morre:
Eu sou u pobre flor
Que vou murchar de amor.
VIII
São horas de raiar
O sol dos olhos meus,
Mau sol! Queima a florzinha
Que adora os olhos seus:
Tempo é do sol raiar
E é tempo de chorar.
IX
Lá vem sua piroga
Cortando leve os mares,
Lá vem uma esperança
Que sempre dá pesares:
Lá vem o meu encanto,
Que sempre causa pranto.
X
Enfim abica a praia,
Enfim salta apressado.
Garboso como o cervo
Que salta alto valado:
Quando há de ele cá vir
Só pra me ver sorrir?
XI
Lá corre em busca de aves
A selva que lhe é cara,
Ligeiro como a seta
Que do arco seu dispara:
Quando há de ele correr
Somente para me ver.
XII
Lá vem do feliz bosque
Cansado de caçar,
Qual beija-flor que cansa
De mil flores a beijar:
Quando há de ele, cansado,
Descansar a meu lado?
XIII
Lá entra para a gruta,
E cai na rude cama,
Qual flor de belas cores,
Que cai do pé na grama:
Quando há de nesse leito
Dormir junto a meu peito?
XIV
Lá súbito desperta,
E na piroga embarca,
Qual sol que, se ocultando,
O fim do dia marca:
Quando hei de este sol ver
Não mais desaparecer?
XV
Lá voa na piroga,
Que o rasto deixa aos mares,
Qual sonho que se esvai
E deixa após pesares:
Quando há de ele cá vir
Pra nunca mais fugir?...
XVI
Oh bárbaro! Tu partes
E nem sequer me olhaste?
Amor tão delicado
Em outra já achaste?
Oh bárbaro! responde,
Amor como este, aonde?
XVII
Somente pra teus beijos
Te guardo a boca para;
Em que lábios tu podes
Achar maior doçura?...
Meus lábios, murchareis,
Seus beijos não tereis!
XVIII
Meu colo levantado
Não vale teus abraços?...
Que colo há mais formoso,
Mais digno de teus braços?
ingrato! Morrerei...
E não te abraçarei.
XIX
Meus seios entonados
Não podem ter valia?
Desprezas as delícias
Que neles te of’recia?
Pois hão de os seios puros
Murcharem prematuros?
XX
Não sabes que me chamam
A bela do deserto?...
Empurras para longe
O bem que te está perto?...
Só pagas com rigor
As lágrimas de amor?...
XXI
Ingrato! Ingrato! foge...
E aqui não tornes mais,
Que, sempre que tornares,
‘Terás de ouvir meus ais:
E ouvir queixas de amor,
E ver pranto de dor.1...
XXII
E, se amanhã vieres,
Em pé na rocha dura
‘Starei cantando aos ares
A mal paga ternura...
Cantando me ouviras,
Chorando me acharás!...
CAPÍTULO XI
Travessuras de d. Carolina
Mas ela não pára: o movimento é a sua vida; esteve no jardim
e em toda a parte; cantou sobre o rochedo e ei-la outra vez no jardim!
Infatigável, apenas suas faces se coraram com o rubor da
agitação. Travessa menina!... Porém ela tempera todas as travessuras com tanta
viveza, graça e espírito, que menos valera se não fizera o que faz. Não há um
só, entre todos, de cuja alma não se tenham esvaído as idéias desfavoráveis que
à primeira vista produzira o gênio inquieto de d. Carolina. O mesmo Augusto não
pôde resistir à vivacidade da menina. Encontrando Leopoldo, disseram duas
palavras sobre ela.
— Então, como a achas agora?... disse Leopoldo, apontando
para a irmã de Filipe.
— Interessante, espirituosa e capaz de levar a glória ao
mais destro casuísta. Olha, Fabrício vê-se doido com ela.
— Só isto?...
— Acho-a bonita.
— Nada mais?...
— Tem voz muito agradável.
— É tudo o que pensas?...
— Tem a boca mais engraçada que se pode imaginar.
— Só?...
— Só?...
— Que mais?
— É tão ligeira como um juramento de mulher.
— Dize tudo de uma vez.
— Pois que queres mais que eu diga?
— Que a amas!... Que dás o cavaco por ela.
— Amá-la? Não faltava mais nada! Amo-a como amo as outras..,
isto sim.
— Pois meu amigo, todos nós estamos derrotados: o diabinho
da menina nos tem posto o coração em retalhos. Se, de novo, se fizer a saúde
que hoje fizemos, todos, à exceção de Felipe, pronunciarão a letra C.
— Também Fabrício?
— Ora! Esse está doente... perdido... doido enfim! E ela?
— Zomba de todos nós; cada cumprimento que lhe endereçamos
paga ela com uma resposta que não tem troco e que nos racha de meio a meio. Tu
ainda lhe não disseste nada?
— Coisas vãs... e palavras da tarifa.
— E ela?
— Palavras da tarifa… e coisas vãs.
— Tanto melhor para mim.
— Pois é opinião geral que ela te prefere a todos nós.
— E pior para ela, mas... adeus! O meu lindo par se levanta
do banco de relva em que descansava, vou tomar-lhe o braço; tenho-me
singularmente divertido: a bela senhora é filósofa! ... Faze idéia! Já leu Mary
de Wollstonecraft e, como esta defende o direito das mulheres, agastou-se
comigo, porque lhe pedi uma comenda para quando fosse ministra de Estado, e a
patente de cirurgião de exército, no caso de chegar a ser general; mas, enfim,
fez as pazes, pois lhe prometi que, apenas me formasse, trabalharia para
encartar-me na Assembléia Provincial e lá, em lugar das maçadas de pontes,
estradas e canais, promoveria a discussão de uma mensagem ao Governo Geral, em
prol dos tais direitos das mulheres; além de que... Mas... tu bem vês que ela
me está chamando; adeus!...
No entanto d. Carolina continuava a cativar todos os olhares
e atenções; tinham notado, é verdade, que ela estivera alguns momentos
recostada à efígie da Esperança, triste e pensativa. Fabrício jurava mesmo que
a vira enxugar uma lágrima, mas logo depois, lhe desaparecera completamente a
menor aparência de tristeza, tornou a brilhar o prazer em ebulição.
Todos tinham tido seu quinhão, maior ou menor, segundo os
merecimentos de cada um, nas graças maliciosas da menina. Ninguém havia
escapado: Fabrício era a vítima predileta, porque também fora ele o único que
se atreveu a travar luta com ela.
Finalmente d. Carolina acabava de entrar outra vez no
jardim, depois de ter cantado sua balada. De todos os lados soavam-lhe os
parabéns, mas ela escapou a eles, correndo para junto de uma roseira toda
corada por suas belas e rubras flores.
Fabrício, que ainda não estava suficientemente castigado e
que, além disso, começava a gostar seu tantum da Moreninha, dirigiu-se com d.
Joaninha para o lado em que ela se achava.
— É decididamente o que eu pensava, disse Fabrício, quando
se viu ao pé de d. Carolina; e dirigindo-se a d. Joaninha: sim... sua bela
prima ama as rosas, exclusivamente.
— Conforme as ocasiões e circunstâncias, respondeu a menina.
— Poderia eu merecer a honra de uma explicação? perguntou
Fabrício.
Com toda a justiça e, continuou d. Carolina rindo-se, tanto
mais que foi a V.S.a que me dirigi. Eu queria dizer que entre um beijo de frade
ou um cravo defunto e uma rosa, não hesito em preferir a última.
Fabrício fingiu não entender a alusão e continuou:
— Todavia não é sempre bem pensada semelhante preferência; a
rosa é como a beleza: encanta, mas espinha! V.S.a o sabe, não é assim?
— Perfeitamente, mas também não ignoro que a rosa só espinha
quando se defende de alguma mão impertinente que vem perturbar a paz de que
goza; V. S.a o sabe, não é assim?
— Oh! Então a sra. d. Carolina foi bem imprudente em quebrar
o pé dessa rosa com que brinca, expondo assim seus delicados dedos: e bem cruel
também em fazê-la murchar de inveja, tendo-a defronte de seu formoso semblante.
— Pela minha vida, meu caro senhor! Nunca vi pedir uma rosa
com tanta graça: quer servir-se dela?
— Seria a mais apetecível glória...
— Pois aqui a tem... Querido primo, nada de ciúmes.
E Fabrício, recebendo o belo presente, em vez de olhar para
a mão que o dava, atentava em êxtase o rosto moreno e o sorrir malicioso de d.
Carolina. Ao momento de se encontrar a mão que dava e a que recebia, Fabrício
sentiu que lhe apertavam os dedos; seu primeiro pensamento foi acreditar que
era amado, mas logo se lhe apagou esse raio de vaidade, pois que ele retirou
vivamente a mão, exclamando involuntariamente:
— Ai! Feri-me!...
Era que a travessa lhe havia apertado os dedos contra os
espinhos da rosa. Mas a flor tinha caído na relva: Fabrício, já menos
desconcertado, a levantou com presteza; e encarando a irmã de Filipe, disse-lhe
em tom meio vingativo:
— Foi um combate sanguinolento, mas ganhei o prêmio da
vitória!
— Pois feriu-se?… perguntou d. Carolina, chegando-se com
fingido cuidado para ele.
— Nada foi, minha senhora: comprei uma rosa por algumas
gotas de sangue... Valeu a pena.
— Maldita rosa! exclamou a Moreninha, teatralmente...
Maldita rosa! Eu te amaldiçôo!
E dando um piparote na inocente flor, a desfolhou
completamente: não ficou na mão de Fabrício mais que o verde cálice. D.
Carolina correu para junto de sua digna avó, e o pobre estudante ficou
desconcertado. E esta! murmurou ele enfim.
— Foi muito bem-feito! disse d. Joaninha, cheia de zelos e
dando-lhe um beliscão que o fez ir às nuvens.
— Perdão, minha senhora... seja pelo amor de Deus! exclamou
Fabrício, que se via batido por todos os lados.
No entanto começava a declinar a tarde. Uma voz reuniu todas
as senhoras e senhores em um só ponto; servia-se o café num belo caramanchão,
mas como fosse ele pouco espaçoso para conter tão numerosa sociedade, aí só se
abrigaram as senhoras, enquanto os homens se conservaram da parte de fora.
Escravas decentemente vestidas ofereciam chávenas de café
fora do caramanchão e, apesar disso, d. Carolina se dirigiu com uma para
Fabrício, que praticava com Augusto.
— Eu quero fazer as pazes, sr. Fabrício; vejo que deve estar
muito agastado comigo e venho trazer-lhe uma chávena de café temperado pela
minha mão.
Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto;
ele desconfiava das tenções da menina, e sua primeira idéia foi esta: o café
não tem açúcar.
Então começou entre os dois um duelo de cerimônias, que
durou alguns instantes; finalmente, o homem teve de ceder à mulher, Fabrício ia
receber a chávena, quando esta estremeceu no pires... D. Carolina, temendo que
sobre ele se entornasse o café, recuou um pouco. Fabrício fez outro tanto, e a
chávena, ainda mal tomada, tombou e o café derramou-se inopinadamente. Fabrício
recuou ainda mais com vivacidade, mas encontrando a raiz de um chorão, que
sombreava o caramanchão, perdeu o equilíbrio e caiu redondamente na relva. Uma
gargalhada geral aplaudiu o sucesso.
— Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe.
O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade,
corrido do que acabava de sobrevir-lhe; as risadas continuavam, as terríveis
consolações o atormentavam, todas as senhoras tinham saído do caramanchão e
riam-se, por sua vez, desapiedadamente. Fabrício daria muito para livrar-se dos
apuros em que se achava, quando de repente soltou também a sua risada e
exclamou:
— Vivam as calças de Augusto!
Todos olharam. Com efeito, Fabrício tinha encontrado um
companheiro na desgraça. Augusto estava de calças brancas, e a maior porção do
café entornado havia caído neles.
CAPÍTULO XII
Meia hora embaixo da cama
Não tardou que Filipe, como bom amigo e hóspede, viesse em
auxílio de Augusto. Em verdade que era impossível passar o resto da tarde e a
noite inteira com aquela calça, manchada pelo café; e, portanto, os dois
estudantes voaram à casa. Augusto, entrando no gabinete destinado aos homens,
ia tratar de despir-se, quando foi por Filipe interrompido.
— Augusto, uma idéia feliz! Vai vestir-te no gabinete das
moças.
— Mas que espécie de felicidade achas tu nisso?
— Ora! Pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te
mirares no mesmo espelho em que elas se miram?... De te aproveitares das mil
comodidades e das mil superfluidades que formigam no toucador de uma moça?...
Vai!... Sou eu que to digo; ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os
países; óleos aromáticos essências de formosura e de todas as qualidades; águas
cheirosas, pós vermelhos para as faces e para os lábios, baeta fina para
esfregar o rosto e enrubescer as pálidas; escovas e escovinhas, flores murchas
e outras viçosas...
— Basta, basta; eu vou, mas lembra-te que és tu quem me
fazes ir e que o meu coração adivinha...
— Anda, que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno.
E isto dizendo, Filipe empurrou Augusto para o gabinete das
moças e se foi reunir ao rancho delas.
Ai do pobre Augusto!... Mal tinha acabado de tirar as calças
e a camisa, que também se achava manchada, sentiu o rumor que faziam algumas
pessoas que entravam na sala.
Augusto conheceu logo que eram moças, porque estes anjinhos,
quando se ajuntam, fazem, conversando, matinada tal, que a um quarto de légua
se deixam adivinhar; se é cediço e mesmo insólito compará-las a um bando de
lindas maitacas, não há remédio senão dizer que muito se assemelham a uma
orquestra de peritos instrumentistas, na hora da afinação.
Ora, o nosso estudante estava, por sua esdrúxula figura,
incapaz de aparecer a pessoa alguma: em ceroulas e nu da cinta para cima, faria
recuar de espanto, horror, vergonha e não sei que mais, ao belo povinho que
acabava de entrar em casa e que, certamente, se assim o encontrasse, teria de
cobrir o rosto com as mãos; e portanto, o pobre rapaz seguiu o primeiro
pensamento que lhe veio à mente: ajuntou toda a roupa, enrolou-a, e com ela
embaixo do braço escondeu-se atrás de uma linda cama que se achava no fundo do
gabinete, cuidando que cedo se veria livre de tão intempestiva visita; mas,
ainda outra vez, pobre estudante! Teve logo de agachar-se e espremer-se para
baixo da cama, pois quatro moças entraram no quarto. E eram elas d. Joaninha,
d. Quinquina, d. Clementina e uma outra por nome Gabriela, muito adocicada,
muito espartilhada, muito estufada, e que seria tudo quanto tivesse vontade de
ser, menos o que mais acreditava que era, isto é... bonita.
Depois que todas quatro se miraram, compuseram cabelos,
enfeites e mil outras coisas que estavam muito em ordem, mas que as mãozinhas
destas quatro demoiselles não puderam resistir ao prazer, muito habitual nas
moças, de desarranjar para outra vez arranjar, foram, por mal dos pecados de
Augusto, sentarse da maneira seguinte: d. Clementina e d. Joaninha na cama,
embaixo da qual estava ele; d. Quinquina de um lado, em uma cadeira; e d.
Gabriela exatamente defronte do espelho, do qual não tirava os olhos, em outra
cadeira que, apesar de ser de braços e larga, pequena era para lhe caber sem
incômodo toda a coleção de saias, saiotes, vestidos de baixo e enorme variedade
de enchimentos que lhe faziam de suplemento à natureza, que com d. Gabriela,
segundo suas próprias camaradas, tinha sido um pouco mesquinha a certos
respeitos.
Depois de respirarem um momento, as meninas, julgando-se
sós, começaram a conversar livremente, enquanto Augusto, com sua roupa embaixo
do braço, coberto de teias de aranha e suores frios, comprimia a respiração e
conservava-se mudo e quedo, medroso de que o mais pequeno ruído o pudesse
descobrir: para seu maior infortúnio, a barra da cama era incompleta e havia
seguramente dois palmos e meio de altura descobertos por onde, se alguma das
moças olhasse, seria ele impreterivelmente visto. A posição do estudante era
penosa, certamente; por último saltou-lhe uma pulga á ponta do nariz, e por
mais que o infeliz a soprasse, a teimosa continuou a chuchá-lo com a mais
descarada impunidade.
— Antes mil vezes cinco sabatinas seguidas, em tempo de
barracas no campo! ... dizia ele consigo.
Mas as moças falavam já há cinco minutos; façamos por colher
algumas belezas, o que é na verdade um pouco difícil, pois segundo o antigo
costume, falam todas quatro ao mesmo tempo. Todavia, alguma coisa se
aproveitará.
— Que calor!… exclamou d. Gabriela, afetando no abanar de
seu leque todo o donaire de uma espanhola; oh! não parece que estamos no mês de
julho; mas, por minha vida, vale bem o incômodo que sofremos o regalo que têm
tido nossos olhos.
— Bravo, d. Gabriela!... Então seus olhos...
— Têm visto muita coisa boa. Olhe, não é por falar, mas, por
exemplo, há objeto mais interessante do que d. Luisa mostrar-se gorda, esbelta,
bem feita?
— É um saco!
— E como é feia!...
— E horrenda!
— É um bicho!
— E não vimos a filha do capitão com sua dentadura
postiça?... Agora não faz senão rir!...
— Coitadinha! Aperta tanto os olhos!
— Se ela pudesse arranjar também um postiço para o queixo!
— Ora, d. Clementina, não me obrigue a rir!...
— D. Joaninha, você reparou no vestido de chalim de d.
Carlota?... Quanto a mim, está absolutamente fora da moda.
— Ainda que estivesse na moda, não há nada que nela assente
bem.
— Ora... é um pau vestido!... Tem urna testa maior que a
rampa do largo do Paço!...
— Um nariz com tal cavalete, que parece o morro do
Corcovado!
— E a boca?... Ah! Ah! Ah!
— Parece que anda sempre pedindo boquinhas...
— E que língua ela tem!
— É uma víbora!
— Eu não sei por que as outras mulheres não hão de ser como
nós, que não dizemos mal de nenhuma delas.
— E verdade, porque se eu quisesse falar...
— Diga sempre, d. Quinquina.
— Não... não quero. Mas, passando a outra coisa... D.
Josefina aplaude com prazer a moda dos vestidos compridos!
— Ora... porque tem pernas de caniço de sacristão.
— Pernas finas também é moda, presentemente.
— Deus me livre!…acudiu d. Clementina; pelo menos para mim
nunca deve ser, pois não posso emendar a natureza, que me deu pernas grossas.
— Não lhe fico atrás, juro-lhe eu! exclamou d. Quinquina.
Nem eu! Nem eu! disseram as outras duas.
— Isso é bom de se dizer, tornou a primeira; mas,
felizmente, podemos tirar as dúvidas.
— Como?
— Facilmente: vamos medir as nossas pernas.
Ouvindo tal proposição, o nosso estudante, apesar de se ver
em apuros embaixo da cama, arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam
querer saltar das órbitas; porém, d. Gabriela, que não parecia estar consigo e
que só por honra da firma dissera o seu ‘‘nem eu", veio deixá-lo com água
na boca.
Havia de ser engraçado, disse ela, arregaçarmos agora os
nossos vestidos!
— Que tinha isso?... acudiu d. Quinquina; não somos todas
moças?... Dir-seia que não temos dormido juntas.
— E verdade, acrescentou d. Clementina e, além do que, não
se veria demais senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido.
— E talvez algum saiote... vamos a isto!
— Não... não... disse, por sua vez, d. Joaninha.
— Pois por mim não era a dúvida, tornou d. Clementina, com
ar de triunfo, recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas, e deixando
escorregar de propósito uma das pernas para fora do leito, até tocar com o pé
no chão, de modo que ficou à mostra até o joelho.
— Quem me dera já casar! ... suspirou ela.
Pobre Augusto! ... Não te chamarei eu feliz?... Ele vê a um
palmo dos olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!…Através da
finíssima meia aparecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e,
rematando este interessante painel róseo, um pezinho que só se poderia medir a
polegadas, apertado em um sapatinho de cetim, e que estava mesmo pedindo um...
dez... cem... mil beijos; mas quem o pensaria? Não foram beijos o que desejou o
estudante outorgado àquele precioso objeto: veio-lhe ao pensamento o prazer que
sentiria dando-lhe uma dentada... Quase que já não se podia suster... já estava
de boca aberta e para saltar... Porém, lembrando-se da exótica figura em que se
via, meteu a roupa que tinha enrolada entre os dentes e, apertando-os com força
procurava iludir a sua imaginação.
— Quem me dera já casar!... repetiu d. Clementina.
— Isto é fácil, disse d. Gabriela; principalmente se devemos
dar crédito aos que tanto nos perseguem com finezas. Olhem, eu vejo-me
doida!... Mais de vinte me atormentam! Querem saber o que me sucedeu
ultimamente?... Eu confesso que me correspondo com cinco… isto é só para ver
qual dos cinco quer casar primeiro; pois bem, ontem, uma preta que vende
empadas e que se encarrega das minhas cartas recebeu das minhas mãos duas...
— Logo duas?...
— Ora, pois, apesar de todas as minhas explicações, a
maldita estava de mona: mesmo dizendo-lhe eu dez vezes: a de lacre azul é a do
sr. Joãozinho e a de verde é do sr. Juca, sabem o que fez?…trocou as cartas!
— E o resultado?...
— Ei-lo aqui, respondeu d. Gabriela, tirando um papel do
seio; ao vir embarcar, e quando descia, a tal preta, com a destreza precisa,
entregou-me este escrito do sr. Joãozinho: "Ingrata! ainda tremem minhas
mãos, pegando no corpo de delito da tua perfídia! Escreves a outro!? Compareces
por tão horrível crime perante o júri do meu coração; e, bem que tenhas nesse
tribunal a tua beleza por advogado, o meu ciúme e justo ressentimento, que são
os juizes, te condenam às perpétuas galés do desprezo; e só te poderás livrar
se apelares dessa sentença para o poder moderador de minha cega paixão."
— Bravo, d. Gabriela! O sr. Joãozinho é sem dúvida estudante
de jurisprudência?
— Não, é doutor.
Bem mostra pelo bem que escreve.
— Mas eu sou bem tola! Conto tudo o que me sucede e ninguém
me confia nada!
— Isso é razoável, disse d. Clementina; nós devemos pagar
com gratidão a confiança de d. Gabriela. Eu começo declarando que estou
comprometida com o sr.
Filipe a deixar esta noite, embaixo da quarta roseira da rua
do jardim, que vai direta ao caramanchão, um embrulhozinho com uma madeixa de
meus cabelos. Que asneira!... Por que lho não entrega ou não lho manda
entregar?
— Ora... eu tenho muita vergonha…antes quero assim; até
parece mais romântico.
— São caprichos de namorados! falou d. Quinquina; havia
tempo para isso! Mas, enfim, de futilidades é que o amor se alimenta. Querem
ver uma dessas? O meu predileto está de luto e por isso exige que eu vá á festa
de... com uma fita preta no cabelo, em sinal de sentimento; exige ainda que eu
não valse mais, que não tome sorvetes, para não constipar, que não dê dorninus
tecum a moço nenhum que espirrar ao pé de mim, e que jamais me ria quando ele
estiver sério; e a tudo isso julga ele ter direito, por ser tenente da Guarda
Nacional! Pois, por isso mesmo, ando agora de fita branca no cabelo, valso
todas as vezes que posso, tomo sorvetes até não poder mais, dou dominus tecum
aos moços mesmo quando não espirram e na() posso ver o sr. tenente Gusmão sério
sem soltar uma gargalhada.
— Olhem lá o diabinho da sonsa! murmurou consigo mesmo
Augusto, embaixo da cama.
— E você, mana, não diz nada?... perguntou ainda a d.
Joaninha.
— Eu?... O que hei de dizer? respondeu esta; digo que ainda
não amo.
— E a única que ama deveras! pensou o estudante, a quem já
doíam as cadeiras de tanto agachar-se.
— E o sr. Fabrício?... E o sr. Fabrício?... exclamaram as
três.
— Pois bem, tornou d. Joaninha, é o único de quem gosto.
— Mas que temos nós hoje feito nesta ilha?... Que triunfo
havemos conseguido?... Vaidade para o lado: moças bonitas, como somos, devemos
ter conquistado alguns corações!
— Juro que estou completamente aturdida com os protestos de
eterna paixão do sr. Leopoldo, disse d. Quinquina; mas é uma verdadeira
desgraça ser hoje moda ouvir com paciência quanta frivolidade vem, não direi à
cabeça, porque parece que os tolos como que não a têm, porém aos lábios de um
desenxabido namorado. O tal sr. Leopoldo... não é graça, eu ainda não vi
estudante mais desestudável!...
— Você, d. Joaninha, acudiu d. Clementina, tem-se regalado
hoje com o incomparável Fabrício. Não lhe gabo o gosto... só as perninhas que
ele tem!...
— Ora, respondeu aquela; ainda não tive tempo de lhe olhar
para as pernas… mas também você parece que não se arrepia muito com a corcova
do nariz de meu primo; confessemos, minha amiga, todas nós gostamos de ser
conquistadoras.
— Pois confessamos... isso é verdade.
— Pela minha parte não diga nada, assobiou d. Gabriela
mirando-se no espelho; mas enfim… eu não sei se sou bonita, mas, onde quer que
eu esteja, vejome sempre cercada de adoradores: hoje, por exemplo, tenho-me
visto doida... perseguiram-me constantemente seis... era impossível ter tempo
de mangar com todos a preceito.
— Mas, d. Gabriela, onde está o seu talento?...
— Pois bem, que se ponha outra no meu lugar.
— Alguns homens zombariam de doze de nós outras a um
tempo... Houve já um que não teve vergonha de escrever isto em um papel:
Num dia, numa hora,
No mesmo lugar
Eu gosto de amar
Quarenta,
Cinqüenta,
Sessenta:
Se mil forem belas,
Amo a todas elas.
— Que pateta!
— Que tolo!...
— Que vaidoso!
— Essa opinião segue também o Augusto!
— Oh!... e esse paspalhão!...
Ei-las comigo... murmurou entre os dentes o nosso estudante,
estendendo o pescoço a modo de cágado.
— Como lhe fica mal aquela cabeleira!... Assemelha-se muito
a uma preguiça.
— Tem as pernas tortas.
— Eu creio que ele é corcunda.
— Não aquilo é magreza.
— Forte impertinente! Falando, é um Lucas...
— Há de ser interessante dançando!
— Vamos nós tomá-lo à nossa conta?
— Vamos; pensemos nos meios de zombar dele cruelmente...
Pois pensemos...
Mas elas não tiveram tempo de pensar, porque, nesse momento,
ouviu-se um grito de dor, ao qual seguiu-se viva agitação no interior daquela
casa, onde ainda há pouco só se respirava prazer e delícias. As quatro moças
levantaram-se espantadas.
— Pareceu-me a voz de minha prima Carolina, exclamou d.
Joaninha.
— Coitada! Que lhe sucederia?...
— Vamos ver.
As quatro moças correram precipitadamente para fora do
quarto.
Augusto, que não estava menos assustado, saiu do seu
esconderijo, vestiu-se apressadamente e ia, por sua vez, deixar aquele lugar,
em que se vira em tantos apuros, quando deu com os olhos na carta do sr.
Joãozinho, que, com a pressa e agitação, havia d. Gabriela deixado cair.
O estudante apanhou e guardou aquele interessante papel, e
com prontidão e cuidado pôde, sem ser visto, escapar-se do gabinete.
Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do
rumor que ouvira. O grito de dor tinha sido, com efeito, soltado por d.
Carolina.
CAPÍTULO XIII
Os quatro em conferência
Ninguém se arreceie pela nossa travessa, O grito de dor foi,
na verdade, seu; mas, se alguém corre perigo, não é certamente ela. O caso é
simples.
Morava com a sra. d. Ana uma pobre mulher, por nome Paula
muito estimada de todos, porque o era da despotazinha daquela ilha, de d.
Carolina, a quem tinha servido de ama. Os desvelos e incômodos que tivera na
criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça.
Ora, todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar
mas o nosso amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honra
à meia dúzia de lindas garrafas das quais se achava ternamente enamorado:
contudo ele pensava que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o
ajudasse a requestar aquelas belezas: era um amante sem zelos. Por infelicidade
de Paula, o alemão a lobrigou a entrar num quarto. Chamou-a, obrigou-a a
sentar-se junto de si, mostrou por ela o mais vivo interesse e depois
convidou-a a beber à saúde de seu pai e sua mãe e sua família.
Não havia remédio senão corresponder a brindes tão
obrigativos. Depois não houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse
dever com a sua meiga língua dirigir uma saúde, e, como já estivesse um pouco
impertinente, forçava Paula a virar copos cheios. Passado algum tempo, e muito
naturalmente, Paula se foi tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc
a fazer novos brindes: em resultado, as suas garrafas foram-se. Paula deixou-se
ficar sentada risonha e imóvel, junto à mesa, enquanto o alemão, rubicundo e
reluzente se dirigiu para a sala.
Quando daí a pouco a ama de d. Carolina quis levantar-se,
pareceu-lhe que estava uma nuvem diante dos olhos, que os copos dançavam, que
havia duas mesas, duas salas e tudo em dobro; ergueu-se e sentiu que as paredes
andavamlhe à roda, que o assoalho abaixava-se e levantava-se debaixo dos seus
pés; depois... não pôde dar mais que dois passos, cambaleou e, acreditando
sentar-se numa cadeira, caiu com estrondo contra uma porta. Logo confusão e
movimento... Ninguém ousou pensar que Paula, sempre sóbria e inimiga de
espíritos, se tivesse deixado embriagar, e, por isso, correram alguns escravos
para o jardim, gritando que Paula acabava de ter um ataque.
A primeira pessoa que entrou em casa foi d. Carolina que,
vendo a infeliz mulher estirada no assoalho, caiu sobre ela, exclamando com
força:
— Oh, minha mãe!... Foi este o seu grito de dor.
Momentos depois, Paula se achava deitada numa boa cama e
rodeada por toda a família; porém havia algazarra tal, que mal se entendia uma
palavra.
— Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza, gritou uma
avelhantada matrona, que se supunha com muito jeito para medicina; é fraqueza
complicada com o tempo frio… não vale nada... venha um copo de vinho!
E dizendo isto, foi despejando meia garrafa de vinho na boca
da pobre Paula que, por mais lépida e risonha que fosse engolindo a largos
tragos, não pôde livrarse de que a interessante Esculápia lhe entornasse boa
porção pelos vestidos.
— São maleitas! exclamava d. Violante, com toda a força de
seus pulmões... São maleitas! ... Quem lhe olha para o nariz diz logo que são
maleitas! Eu já vi curarse uma mulher, que teve o mesmo mal, com cauda de cobra
moída, torrada e depois desfeita num copo d’água tirada do pote velho com um
coco novo e com a mão esquerda, pelo lado da parede. E fazer isto já.
— São lombrigas! gritava uma terceira.
— É ataque de estupor! bradava a quarta senhora.
— É espírito maligno! acudiu outra, que foi mais ouvida que
as primeiras... E espírito maligno que lhe entrou no corpo... Venha quanto
antes um padre com água benta e seu breviário.
— Ora, para que estão com tal azáfama?... disse uma senhora
que acabava de entrar no quarto; não se vê logo que isto não passa de uma mona,
que a boa da Paula tomou? Olhem; até tem o vestido cheio de vinho.
— Mona, não senhora! acudiu d. Carolina; a minha Paula nunca
teve tão feio costume, e, se está molhada com vinho, a culpa é desta senhora,
que há pouco lhe despejou meia garrafa por cima. Oh! é bem cruel que, mesmo
vendo-se a minha dor, digam semelhantes coisas!
No meio de toda esta balbúrdia era de ver-se o zelo e a
solicitude da menina travessa! ... Observava-se aquela Moreninha de quinze
anos, que parecera somente capaz de brincar e ser estouvada, correndo de uma
para outra parte, prevenindo tudo e aparecendo sempre onde se precisava
apressar um serviço ou acudir a um reclamo. Só cuidava de si quando devia
enxugar as lágrimas.
Junto do leito apareceram os quatro estudantes.
Curto foi o exame. O rosto e o bafo da doente bastaram para
denunciar-lhes com evidência a natureza da moléstia.
— Isto não vale a pena, disse Filipe em tom baixo a seus
colegas; é uma mona de primeira ordem.
— Está claro, vamos sossegar estas senhoras.
— Não, tornou Filipe, sempre em voz baixa; aturdidas pelo
caso repentino e preocupadas pela sobriedade desta mulher, nenhuma delas quer
ver o que está diante de seus olhos, nem sentir o cheiro que lhes está entrando
pelo nariz; minha irmã ficaria inconsolável, brigaria conosco e não nos
acreditaria, se lhe disséssemos que sua ama se embebedou; e portanto, podemos
aproveitar as circunstâncias para zombar de todas elas e divertir-nos fazendo
uma conferência.
— Oh, diabo! ... isso é catecismo dos charlatões!
— Ora, não sejas tolo… não pareces estudante; devemos lançar
mão de tudo o que nos possa dar prazer e não ofenda os outros.
— Mas que iremos dizer nesta conferência, senão que ela está
espirituosa demais? perguntou Augusto.
— Diremos tudo o que nos vier à cabeça, ficando entendido
que as honras pertencerão ao que maior número de asneiras produzir; o caso é
que nos não entendam, ainda que também nos não entendamos.
— Há de ser bonito, tornou Augusto, à vista de tanta gente,
que por força conhecerá esta patacoada.
— Qual conhecer?... Aqui ninguém nos entende, tornou Filipe,
que, voltandose para os circunstantes, disse com voz teatralmente solene:
— Meus senhores, rogamos breves momentos de atenção;
queremos conferenciar.
Movimento de curiosidade.
Seguiu-se novo exame da enferma, no qual os quatro
estudantes fingiram observar o pulso, a língua e os olhos da doente;
auscultaram e percutiram-lhe o peito e fizeram todas as outras pesquisas do
costume.
Depois eles se colocaram em um dos ângulos do quarto; Filipe
teve a palavra. Profundo silêncio.
— Acabastes, senhores, de fazer-me observar uma enfermidade
que não nos deixa de pedir sérias atenções e sobre a qual eu vou
respeitosamente submeter o meu juízo. Poucas palavras bastam. A moléstia de que
nos vamos ocupar não é nova para nós; creio mesmo, senhores, que qualquer de
vós já a tem padecido muitas vezes...
— Está enganado.
— Não respondo aos apartes. Eu diagnostico uma baquites.
Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos
éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal, uma vez que a
compressão do diafragma lhes causa vibrações simpáticas que os façam caminhar
pelo canal colédoco até o periostio dos pulmões...
— C’est trop fort!...
— Daí, passando à garganta, perturbam a quimificação da
hematose, que por isso se tornando em linfa hemostática, vá de um jato causar
um tricocéfalo no esfenóide, podendo mesmo produzir uma proctorragia nas
glândulas de Meyer, até que, penetrando pelas câmaras ópticas, no esfíncter do
cerebelo, causa um retrocesso prostático, como pensam os modernos autores, e
promovem uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é
nervoso.
— Muito bem concluído.
— O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de
éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado; o cozimento dos frutos
do coffea arábica torrados, ou mesmo o thea sinensis; e quando isto não baste,
o que julgo impossível, as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de
sangue de menos não farão falta à doente: disse.
— Como ele fala bem, murmurou uma das moças.
Fabrício tomou a palavra.
— Sangue! Sempre sangue! Eis a medicina romântica do
insignificante Broussais! Mas eu detesto tanto a medicina sanguinária, como a
estercorária, herbária, sudorária e todas as que acabam em ária. Desde
Hipócrates, que foi o maior charlatão do seu tempo, até os nossos dias, tem
triunfado a ignorância, mas já, enfim, brilhou o sol da sabedoria...
Hahnemann... Ah! Quebrai vossas lancetas, senhores; para curar o mundo inteiro
basta-vos uma botica homeopática com o Amazonas ao pé!... Queimai todos os
vossos livros, porque a verdade está só, exclusivamente, no alcorão de nosso
Mafoma, no Organon do grande homem! Ah! Se depois do divino sistema morre por
acaso alguém, é por não se ter ainda descoberto o meio de dividir cm um milhão
de partes cada simples átomo da matéria! Senhores, eu concordo com o
diagnóstico de meu colega, mas devo combater o tratamento por ele oferecido.
Uma taça de líquido fontâneo açucarado, e acidulado com algumas gotas de éter
sulfúrico, é, em minha opinião, capaz de envenenar a todos os habitantes da
China! O mesmo direi do cozimento do coffea arábica...
— Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes
os têm tomado?...
— Eis aí a consideração que os leva ao erro! ... Senhor meu
colega, é porque a ação maléfica desses medicamentos não se faz sentir logo… às
vezes só aparece depois de cem, duzentos e mais anos: eis a grande verdade! ...
Mas eu tenho observações de moléstias de natureza da que nos ocupamos e que vão
mostrar a superioridade do meu sistema. Ouçam-me. Uma mulher padecia este mesmo
mal, já tinha sofrido trinta sangrias; haviam-lhe mandado aplicar mais de
trezentas bichas, purgantes sem conta, vomitórios às dúzias e tisanas aos
milheiros; quis o seu bom gênio que ela recorresse a um homeopata, que, com
três doses, das quais cada uma continha apenas a trimilionésima parte de um
quarto de grão de nihilitas nihilitatis, a pôs completamente restabelecida; e
quem quiser pode ir vê-ia na rua... E certo que não me lembro agora onde, mas
posso afirmar que ela mora em uma casa e que hoje está nédia, gorda, com cores
e até remoçou e ficou mais bonita... Outro fato.
— Basta! Basta!
— Pois bem, basta; e propondo a aplicação das nihilitas
nihilitatis na dose da trimilionésima parte de um grão, dou por terminado o meu
discurso.
— O sr. Leopoldo tem a palavra.
— Senhores, eu devo confessar que restam-me muitas dúvidas a
respeito do diagnóstico e, portanto, julgo útil recorrermos ao magnetismo
animal, para vermos se a enferma, levada ao sonambulismo, nos aclara sua
enfermidade. Além disto, eu tenho fé de que não há moléstia alguma que possa
resistir à maravilhosa aplicação dos passes, que tanto abismaram Paracelso e
Kisker. Ainda mais: se o diagnóstico do colega que falou em primeiro lugar é
exato, dobrada razão acho para sustentar o meu parecer; porque, enfim, se
simula similibus curantur, necessariamente o magnetismo tem de curar a
baquites. Voto, pois, para que comecemos já a aplicarlhe os passes.
Seguiu-se o discurso de Augusto que, por longo demais,
parece prudente omitir. Em resumo basta dizer que ele combateu as raras teorias
de Filipe, mas concordou com o tratamento por ele proposto e falou com arte
tal, que d. Carolina o escolheu para assistência de sua ama.
Augusto determinou as aplicações equivalentes ao caso, mas,
não tendo entrado no número delas a essencial lembrança de um escalda-pés, caiu
a tropa das mezinheiras sobre o desgraçado estudante, que se viu quase doido
com a balbúrdia de novo levantada no quarto.
— Menos ruído, minhas senhoras, dizia o rapaz; isto pode ser
fatal à doente!
— Ora... eu nunca vi negar-se um escalda-pés!
— Ainda em cima de não lhe mandar aplicar uma ajuda,
esquece-se também de escalda-pés!
— Se não lhe derem um escalda-pés, eu não respondo pelo
resultado!
— Olhem como a doente está risonha, só por ouvir falar em
escalda-pés!
— Aquilo é pressentimento!
— Sr. doutor, um escalda-pés! .
— Pois bem, minha senhoras, disse Augusto para se ver livre
delas, dêem-lhe o preconizado escalda-pés!
E fugindo logo do quarto, foi pensando consigo mesmo que as
coisas que mais contrariam o médico são: primeiro, a saúde alheia, segundo, um
mau enfermeiro e, por último, as senhoras mezinheiras.
CAPÍTULO XIV
Pedilúvio sentimental
Ria-se, jogava-se, brincava-se: todos se haviam já esquecido
da pobre Paula. Na verdade também que, por ter a ama de d. Carolina tomado seu
copo de vinho a mais, não era justo que tantas moças e moços, em boa disposição
de brincar, e umas poucas velhas determinadas a maçar meio mundo, ficassem a
noite inteira pensando na carraspana da rapariga. E, além disso, quatro
semidoutores já haviam pronunciado favorável prognóstico; como, pois, se
arrojaria Paula a morrer contra a ordem expressa dos quatro hipocratíssimos
senhores?...
Era por isso que todos brincavam alegremente, menos o sr.
Keblerc que, diante de meia dúzia de garrafas vazias, roncava prodigiosamente:
grande alemão para roncar!... Era uma escala inteira que ele solfejava com
bemóis, bequadros e sustenidos!
Dir-se-ia que entoava um hino… a Baco.
Os rapazes estavam nos seus gerais; a princípio, como era
seu velho costume haviam festejado, cumprimentado e aplaudido as senhoras
idosas que se achavam na sala, principalmente aquelas que tinham trazido
consigo moças; mas, passada meia hora, adeus etiquetas e cerimônias!...
Estabeleceu-se um cordão sanitário entre a velhice e a mocidade; a sra. d. Ana
achou a ocasião oportuna para ir dar ordens para o chá; d. Violante ocupou-se
em desenvolver a um velho roceiro os meios mais adequados para se preencher o déficit
provável do Brasil para o ano financeiro de 44 a 45, sem aumentar os direitos
de importação, nem criar impostos, abolindo-se, pelo contrário, a décima
urbana. Já se vê que d. Violante tinha casas na cidade. Restavam quatro
senhoras, que julgaram a propósito jogar o embarque, que na verdade as divertia
muito, com o episódio do ás galar o sete; havia, enfim, outra mesa em que
alguns senhores, viúvos, casados e velhos pais perdiam ou ganhavam dinheiro no
écarté, jogo muito bonito e muito variado, que nos vieram ensinar os senhores
franceses, grandes inventores, sem dúvida!...
A rapaziada empregava melhor o seu tempo: também jogava, mas
na sua roda não havia nem mesa, nem cartas, nem dados. O seu jogo tinha um
diretor que, exceção de regra entre os mais, não podia ter menos de cinqüenta
anos: era um homem de estatura muito menos que a ordinária, tinha o rosto muito
vermelho, cabelos e barbas ruivos, gordo, de pernas arqueadas, ajuntando ao
ridículo de sua figura muito espírito; não estava bem senão entre rapazes. por
felicidade deles sempre se encontra desses. Tal o diretor da roda dos moços. O
sr. Batista (este o seu nome) era fértil em jogos; quando um aborrecia, vinha
logo outro melhor. Já se havia jogado o do toucador e o do enfermo. O terceiro
agradou tanto, que se repetia pela duodécima vez, com aplauso geral,
principalmente das moças: era, sem mais nem menos, o jogo da palhinha.
Caso célebre!... Já se viu que coincidência!... Ora
expliquem. se são capazes... Tem-se jogado a palhinha doze vezes e em todas
elas tem a sorte feito com que Filipe abrace d. Clementina e Fabrício d.
Joaninha! E sempre, no fim de cada jogo, qualquer das duas recua um passo, como
se pouca vontade houvesse nelas de dar o abraço, e fazendo-se coradinha,
exclama:
— Quantos abraços!... Pois outra vez?...
— Eu já não dei ainda agora?... Ora isto!...
Entre os rapazes, porém, há um que não está absolutamente
satisfeito: é Augusto. Será porque no tal jogo da palhinha tem por vezes ficado
viúvo?... Não! Ele esperava isso como castigo da sua inconstância. A causa é
outra: a alma da ilha de... não está na sala! Augusto vê o jogo ir indo o seu
caminho muito sem ordem; não se rasgou ainda nenhum lenço, Filipe ainda não
gritou com a dor de nenhum beliscão, tudo se faz em regra e muito direito; a
travessa, a inquieta, a buliçosa, a tentaçãozinha não está aí: d. Carolina está
ausente!...
Com efeito, Augusto, sem amar d. Carolina (ele assim o
pensa) já faz dela idéia absolutamente diversa da que fazia ainda há poucas
horas: agora, segundo ele, a interessante Moreninha é, na verdade, travessa,
mas a cada travessura ajunta tanta graça, que tudo se lhe perdoa. D. Carolina é
o prazer em ebulição; se é inquieta e buliçosa, está em sê-lo a sua maior
graça: aquele rosto moreno, vivo e delicado, aquele corpinho, ligeiro como a
abelha, perderia metade do que vale se não estivesse em contínua agitação. O
beija-flor nunca se mostra tão belo como quando se pendura na mais tênue flor e
voeja nos ares; d. Carolina é como um beija-flor completo.
Neste momento a sra. d. Ana entrou na sala, e depois
dirigindo-se à grande varanda da frente, sentou-se defronte do jardim. Batista
acabava de dar fim ao jogo da palhinha e começava novo: Augusto pediu que o
dispensassem e foi ter com a dona da casa.
— Não joga mais, sr. Augusto? disse ela.
— Por ora não, minha senhora.
— Parece-me pouco alegre.
— Ao contrário… estou satisfeitíssimo.
— Oh! O seu rosto mostra não sentir o que dizem seus lábios;
se aqui lhe falta alguma coisa...
— Na verdade que aqui não está tudo, minha senhora.
— Então que falta?
— A sra. d. Carolina!
A boa senhora riu-se com satisfação. Seu orgulho de avó
acabava de ser incensado: era tocar-lhe no fraco.
— Gosta de minha neta, sr. Augusto?
— É a delicada borboleta deste jardim, respondeu ele,
mostrando as flores.
— Vá buscá-la, disse a sra. d. Ana, apontando para dentro.
— Minha senhora, tanta honra!
— O amigo de meu neto deve merecer minha confiança: esta
casa é dos meus amigos e também dos dele. Carolina está, sem dúvida, no quarto
de Paula; vá vê-la e consiga arrancá-la de junto da sua ama.
A sra. d. Ana levou Augusto pela mão até o corredor e depois
o empurrou brandamente.
— Vá, disse ela, e receba isso como a mais franca prova de
minha estima para com o amigo de meu neto.
Augusto não esperou ouvir nova ordem: endireitou para o
quarto de Paula, com presteza e alegria. A porta estava cerrada; abriu sem
ruído e parou no limiar.
Três pessoas havia nesse quarto: Paula, deitada e abatida
sob o peso de sua sofrível mona, era um objeto triste e talvez ridículo, se não
padecesse; a segunda era uma escrava que acabava de depor junto do leito a
bacia em que Paula deveria tomar o pedilúvio recomendado, objeto indiferente; a
terceira era uma menina de quinze anos, que desprezava a sala, em que
borbulhava o prazer, pelo quarto em que padecia uma pobre mulher; este objetivo
era nobre...
D. Carolina e a escrava tinham as costas voltadas para a
porta e por isso não viam Augusto: Paula olhava, mas não via, ou antes não
sabia o que via.
— Anda, Tomásia, dá-lhe o escalda-pés! disse d. Carolina.
Pela sua voz conhecia-se que tinha chorado.
A escrava abaixou-se e puxou os pés da pobre Paula; depois,
pondo a mão n’água, tirou-a de repente, e sacudindo-a:
— Está fervendo!… disse.
— Não está fervendo, respondeu a menina; deve ser bem
quente, assim disseram os moços.
A escrava tornou a pôr a mão e de novo retirou-a com
presteza tal, que bateu com os pés de Paula contra a bacia.
— Estonteada!... Sai... Afasta-te, exclamou d. Carolina,
arregaçando as mangas de seu lindo vestido.
A escrava não obedeceu.
— Afasta-te daí, disse a menina em tom imperioso; e depois
abaixou-se no lugar da escrava, tomou os pés de sua ama, apertou-os contra o
peito, chorando, e começou a banhá-los.
Belo espetáculo era o ver essa menina delicada, curvada aos
pés de uma rude mulher, banhando-os com sossego, mergulhando suas mãos tão
finas, tão lindas, nessa mesma água que fizera lançar um grito de dor à
escrava, quando aí tocara de leve com as suas, tão grosseiras e calejadas!...
Os últimos vislumbres das impressões desagradáveis que ela causara a Augusto,
de todo se esvaíram.
Acabou-se a criança estouvada… ficou em seu lugar o anjo de
candura.
O sensível estudante viu as mãozinhas tão delicadas da
piedosa menina já roxas, e adivinhou que ela estava engolindo suas dores para
não gemer; por isso não pôde suster-se e, adiantando-se, disse:
— Perdoe, minha senhora.
— Oh!... O senhor estava aí?
E tenho testemunhado tudo!
A menina abaixou os olhos, confusa, e apontando para a
doente, disse:
— Ela me deu de mamar.
— Mas nem por isso deve a senhora condenar suas lindas mãos
a serem queimadas, quando algum dos muitos escravos que a cercam poderia
encarregar-se do trabalho em que a vi tão piedosamente ocupada.
— Nenhum o fará com jeito.
— Experimente.
— Mas a quem encarregarei?
— A mim, minha senhora.
— O senhor falava de meus escravos...
— Pois nem para escravo eu presto?
— Senhor!
E nisto o estudante abaixou-se e tomou os pés de Paula,
enquanto d. Carolina, junto dele, o olhava com ternura.
Quando Augusto julgou que era tempo de terminar, a
jovenzinha recebeu os pés de sua ama e os envolveu na toalha que tinha nos
braços.
— Agora deixemo-la descansar, disse o moço.
— Ela corre algum risco?…perguntou a menina.
— Afirmo que acordará amanhã perfeitamente boa.
— Obrigada!
— Quer dar-me a honra de acompanhá-la até à sala? disse
Augusto, oferecendo a sua mão direita à bela Moreninha.
Ela não respondeu, mas olhou. com gratidão, aceitando o
braço do mancebo, deixou o quarto de Paula.
CAPÍTULO XV
Um dia em quatro palavras
Ao romper do dia de Sant’Ana estavam todos na ilha de...
descansando nos braços do sono: era isso muito natural, depois de uma noite
como a da véspera, em que tanto se havia brincado.
Com efeito, os jogos de prendas tinham-se prolongado
excessivamente. A chegada de d. Carolina e Augusto lhes deu ainda dobrada
viveza e fogo. A bonita Moreninha tornou-se mais travessa do que nunca; mil
vezes barulhenta, perturbava a ordem dos jogos de modo que era preciso começar
de novo o que já estava no fim; outras tantas rebelde, não cumpria certos
castigos que lhe impunham, não deu um só beijo e aquele que atreveu-se a
abraçá-la, teve em recompensa um beliscão.
Finalmente, ouviu-se a voz de vamos dormir, e cada qual
tratou de fazer por consegui-lo.
O último que se deitou foi Augusto e ignora-se por que saiu
de luz na mão, a passear pelo jardim, quando todos se achavam acomodados; de
volta do seu passeio noturno, atirou-se entre Fabrício e Leopoldo e
imediatamente adormeceu. Os estudantes dormiram juntos.
São seis horas da manhã e todos dormem ainda a sono solto.
Um autor pode entrar em toda a parte e, pois... não, não, alto lá! No gabinete
das moças... Não senhor; no dos rapazes, ainda bem. A porta está aberta. Eis os
quatro estudantes estirados numa larga esteira; e como roncam!... Mas que faz o
nosso Augusto? Rise, murmura frases imperceptíveis, suspira... Então que é
isso?... Dá um beijo em Fabrício; acorda espantado e ainda por cima empurra
cruelmente o mesmo a quem acaba de beijar...
Oh, beleza! Oh, inexplicável poder de um rosto bonito que,
não contente com as zombarias que faz ao homem que vela, o ilude e ainda zomba
dele dormindo!
Estava o nosso estudante sonhando que certa pessoa, de quem
ele tivera até aborrecimento e que agora começava com olhos travessos a
fazer-lhe cócegas no coração, vinha terna e amorosamente despertá-lo; que ele
fingira continuar a dormir e ela se sentara à sua cabeceira que, traquinas como
sempre, em vez de chamá-lo queria rir-se acordando-o pouco a pouco; que para
isso aproximava seu rosto do dele, e, assoprando-lhe os lábios, ria-se ao ver
as contrações que produzia a titilação causada pelo sopro; que ele, ao sentir
tão perto dos seus os lindos lábios dela, estava ardentemente desejoso de
furtar-lhe um beijo, mas que temia vê-la fugir ao menor movimento; que
finalmente, não podendo mais resistir aos seus férvidos beijos, assentara de,
quando se aproximasse o belo rosto, ir de um salto colher o voluptuoso beijo
naquela boquinha de botão de rosa; que o rosto chegou à distância de meio palmo
e... (aqui parou o sonho e principiou a realidade) e ele deu um salto mas, em
lugar de pregar um beijo nos lábios de d. Carolina, foi com toda a força e
estouvamento bater com os beiços e nariz contra a testa de Fabrício; depois,
como se o colega tivesse culpa de tal infelicidade, deu-lhe dois empurrões
dizendo:
— Sai-te daí, peste! ... Ora, quando eu sonhava com um anjo,
acordo-me nos braços de Satanás!...
Corra-se, porém, um véu sobre quanto se passou até que se
levantaram do almoço. A sociedade se dividiu logo depois em grupos. Uns
conversavam, outros jogavam, dois velhos ferraram-se no gamão, as moças
espalharam-se pelo jardim e os quatros estudantes tiveram a péssima lembrança
de formar uma mesa de voltarete.
E apesar do poder da cachaça do jogo, de cada vez que
qualquer deles dava cartas, ficava na mesa um lugar vazio, e junto do arco da
varanda, que olhava para o jardim, colocava-se uma sentinela. Já se vê que o
voltarete não podia seguir marcha muito regular. Augusto, por exemplo,
distraía-se com freqüência tal, que às vezes passava com basto e espadilha, e
era codilhado todas as mãos que jogava de feito. A Moreninha já fazia
travessuras muito especiais no coração do estudante; e ele, que se acusava de
haver sido injusto para com ela, agora a observava com cuidado e prazer, para
em compensação render-lhe toda justiça. D. Carolina brilhava jardim e, mais que
as outras, por graças e encantos que todos sentiam e que ninguém poderia bem
descrever; confessava-se que não era bela, mas jurava-se que era encantadora;
alguém queria que ela tivesse maiores olhos, porém não havia quem resistisse à
viveza de seus olhares; os que mais apaixonados fossem da doce melancolia de
certos semblantes em que a languidez dos olhos e a brandura de custosos risos
estão exprimindo amor ardente e sentimentalismo, concordariam por força que no
lindo rosto moreno de d. Carolina nada iria melhor do que o prazer que nele
transluz e o sorriso engraçado e picante que de ordinário enfeita seus lábios;
além disto, sempre em brincadeira, guerreia com todos e em interessante
contradição consigo mesma, ela a um tempo solta um ai e uma risada, graceja,
fazendo-se de grave, fala, jurando não dizer palavra, apresenta-se
escondendo-se, sempre quer jamais querendo.
Nunca também se havia mostrado a Moreninha tão jovial e
feiticeira, mas para isso boas razões havia: esse era o dia dos anos da sua boa
avó e a pobre Paula, sua estimada amada ama, estava completamente
restabelecida.
Eis uma deliciosa invasão!... Dez moças entram de repente na
varanda e num momento dado tudo se confunde e amotina; d. Carolina atira no
meio da mesa do voltarete uma mão cheia de flores, e enquanto Filipe faz tenção
de dirigir-lhe um discurso admoestador, ela furta-lhe a espadilha e voa para
tornar a aparecer logo depois. E impossível continuar assim: dá-se por acabado
o jogo e a Moreninha, à custa de um único sorriso, faz as pazes com o irmão.
— Parabéns, sra. d. Joaquina, disse Augusto; já triunfou de
uma de suas rivais!
— Como?... perguntou ela.
— Ora, que esta minha prima nunca entende as figuras do sr.
Augusto, acudiu d. Carolina; explique-se, sr. doutor.
Sua prima, minha senhora, a aurora e a rosa disputam sobre
qual primará na viveza da cor, e eu vejo que ela tem presa no cabelo uma das
duas rivais.
Eu o encarrego com prazer da guarda fiel desta minha
competidora... seja o seu carcereiro! disse d. Quinquina, querendo tirar uma
linda rosa do cabelo, para oferecê-la a Augusto.
— Oh! Minha senhora! Seria um cruel castigo para ela, que se
mostra tão vaidosa.
— Pois rejeita?...
— Certo que não; aceito, mas rogo um outro obséquio.
— Qual?
— Que por ora lhe conceda seus cabelos por homenagem. Pois
bem, será satisfeito; eu guardarei a sua rosa.
— Mas cuidado, não haja quem liberte a bela cativa! disse
Leopoldo.
— Protesto que a hei de furtar, acrescentou d. Carolina.
— Desafio-lhe a isso! respondeu a prima.
Então começou uma luta de ardis e cuidados entre a Moreninha
e d. Quinquina. Aquela já tinha debalde esgotado quantos estratagemas lhe pôde
sugerir seu fértil espírito, e enfim, fingindo-se fatigada, veio sossegadamente
conversar junto de d. Quinquina, que, não menos viva, conservava-se na
defensiva.
Depois de uma meia hora de hábil afetação, a menina
travessa, com um rápido movimento, fez cair o leque de sua adversária; Leopoldo
abaixou-se para levantá-lo e d. Quinquina, um instante despercebida, curvou-se
também e soltou logo um grito, sentindo a mão da prima sobre a rosa: com a sua
foi acudir a esta; houve um conflito entre duas finas mãozinhas, que mutuamente
se beliscaram, e em resultado desfolhou-se completamente a rosa.
Morreu a bela cativa! ... Morreu a pobre cativa! ...
gritaram as moças.
— D. Carolina está criminosa! disse d. Clementina.
— Vai ao júri, minha senhora!
É verdade, vamos levá-la ao júri.
A idéia foi recebida com aplauso geral: só Filipe se opôs.
Não, não, disse ele. Carolina é muito rebelde, se fosse
condenada, não cumpriria a sentença.
— Oh! Maninho! Não diga isso. Você jura obedecer?...
— Eu juro por você.
Tanto pior: era mais um motivo para se tornar perjura. Pois
bem, dou a minha palavra, não é suficiente?
— Basta! Basta!
Organizou-se o júri; Fabrício foi encarregado da
presidência, um outro moço serviu de escrivão, e cinco moças saíram por sorte
para juradas; d. Clementina terá de ser a relatora da sentença. A Augusto
declararam suspeito na causa. Filipe foi escolhido para advogado da ré e
Leopoldo da autora.
A sessão começou.
Longo fora enumerar tudo o que se passou em duas horas muito
agradáveis e por isso muito breves também. Toda a companhia veio tomar parte
naquele divertimento improvisado e até, quem o diria?! os dois velhos deixaram
o tabuleiro de gamão. Resuma-se alguma coisa.
As testemunhas foram d. Gabriela e uma outra, que deram
provas de bastante espírito: o interrogatório de d. Carolina fez rir a quantos
o ouviram. O debate dos advogados esteve curioso.
Leopoldo acusou a ré, demonstrando que tinha havido a
circunstância agravante da premeditação e que o crime se tornava ainda mais
feio, por ser causado pelo ciúme; procurou provar que d. Carolina, cônscia de
seus encantos e beleza, queria ser senhora absoluta de todos os corações e até
de todos os seres; que ela se enchera de zelos supondo, com razão, que Augusto
desse subido valor à rosa, por lhe ser dada por uma moça bela como era a autora
e, enfim, que o crime da ré era excessivo, que já na tarde antecedente jurara a
perda daquela flor, por desconfiar que o zéfiro brincava mais com ela do que
com seus olhos.
Filipe não se deixou ficar atrás. Argumentou dizendo que era
impossível decidir que mão tinha dado a morte à bela cativa; que não houvera
premeditação, porque a ré não quisera matar, mas sim Libertar; que, se havia
crime, só o cometera a autora, por prender uma inocente flor; e que, por
último, ainda quando fosse a ré que desfolhara a rosa e mesmo dando-se o
propósito de o fazer, dever-se-ia atribuir tal ação à piedade, pois que d.
Quinquina a estava matando pouco a pouco com o veneno da inveja, colocando-a
tão perto de suas faces, que tanto a venciam em rubor e viço.
As juradas recolheram-se ao boilette e cinco minutos depois
voltaram com a sentença, que foi lida por d. Clementina.
O júri declarou d. Carolina criminosa e a condenou a
indenizar o dono da rosa com um beijo.
— Para fazer tal, disse a ré, não carecia eu da sentença do
júri: tome um beijo, minha prima...
— Não é a mim que o deve dar, respondeu a autora; o dono da
rosa é o sr. Augusto.
De rosa fez-se o rosto de d. Carolina.
— O beijo! O beijo! gritaram as juradas. Você deu sua
palavra!
Ela hesitou alguns momentos... depois, aproximou-se de
Augusto e, com seu sorriso feiticeiro e irresistível nos lábios, disse...
— O senhor me perdoa?...
— Não! Não! Não! clamaram de todos os lados.
Mas a menina parecia contar com o poder de seus lábios,
porque, sorrindo-se ainda do mesmo modo, tornou a perguntar com meiguice e
ternura:
— Me perdoa?...
— Não! Não!
— Porém, como resistir ao seu sorriso?... Como dizer que não
a quem pede como ela?…exclamou Augusto, entusiasmado. D. Carolina estava, pois,
perdoada.
— Agradecida! disse ela com vivo acento de gratidão e
estendeu sua destra para Augusto que, não podendo ceder tudo com tão criminoso
desinteresse, tomou entre as suas aquela mãozinha de querubim e fez estalar
sobre ela o beijo mais gostoso que tinham até então dado seus lábios.
A manhã deste dia foi assim passada e à tarde voltou-se aos
preparativos do sarau.
CAPÍTULO XVI
O sarau
‘Um sarau é o bocado mais delicioso que temos, de telhado
abaixo. Em um sarau todo o mundo tem que fazer. O diplomata ajusta, com um copo
de champanha na mão, os mais intrincados negócios; todos murmuram e não há quem
deixe de ser murmurado. O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu
tempo, e o moço goza todos os regalos da sua época; as moças são no sarau como
as estrelas no céu; estão no seu elemento; aqui uma, cantando suave cavatina,
eleva-se vaidosa nas asas dos aplausos, por entre os quais surde, às vezes, um
bravíssimo inopinado, que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de
ganhar sua partida do écarté mesmo na ocasião em que a moça se espicha
completamente, desafinando um sustenido; daí a pouco vão outras pelo braço de
seus pares, se deslizando pela sala e marchando em seu passeio, mais a compasso
que qualquer de nossos batalhões da Guarda Nacional, ao mesmo tempo que
conversam sempre sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas
apreciáveis. Outras criticam de uma gorducha vovó, que ensaca nos bolsos meia
bandeja de doces que vieram para o chá, e que ela leva aos pequenos que, diz,
lhe ficaram em casa. Ali vê-se um ataviado dândi que dirige mil finezas a uma
senhora idosa, tendo os olhos pregados na sinhá, que senta-se ao lado.
Finalmente, no sarau não é essencial ter cabeça nem boca, porque, para alguns e
regra, durante ele, pensar pelos pés e falar pelos olhos.
E o mais é que nós estamos num sarau: inúmeros batéis
conduziram da corte para a ilha de... senhoras e senhores, recomendáveis por
caráter e qualidade: alegre, numerosa e escolhida sociedade enche a grande
casa, que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto.
Entre todas essas elegantes e agradáveis moças, que com
aturado empenho se esforçam por ver qual delas vence em graças, encantos e
donaires, certo que sobrepuja a travessa Moreninha, princesa daquela festa.
Hábil menina é ela! Nunca seu amor-próprio produziu com
tanto estudo seu toucador e, contudo, dir-se-ia que o gênio da simplicidade a
penteara e vestira. Enquanto as outras moças haviam esgotado a paciência de
seus cabeleireiros, posto em tributo toda a habilidade das modistas da rua do
Ouvidor e coberto seus colos com as mais ricas e preciosas jóias, d. Carolina
dividiu seus cabelos em duas tranças, que deixou cair pela costa; não quis
adornar o pescoço com seu adereço de brilhantes nem com seu lindo colar de
esmeraldas; vestiu um finíssimo, mas simples vestido de garça, que até pecava
contra a moda reinante, por não ser sobejamente comprido. Vindo assim aparecer
na sala, arrebatou todas as vistas e atenções.
Porém, se um atento observador a estudasse, descobriria que
ela adrede se mostrava assim, para ostentar as longas e ondeadas madeixas
negras, em belo contraste com a alvura de seu vestido branco, e para mostrar,
todo nu, o elevado colo de alabastro, que tanto a aformoseava, e que seu pecado
contra a moda reinante não era senão um meio sutil de que se aproveitara para
deixar ver o pezinho mais bem feito e mais pequeno que se pode imaginar.
Sobre ela estão conversando agora mesmo Fabrício e Leopoldo;
terminaram sem dúvida a sua prática; não importa. Vamos ouvi-los.
— Está na verdade encantadora!... repetiu pela quarta vez
aquele.
— Danças com ela? perguntou Leopoldo.
— Não, já estava engajada para doze quadrilhas.
— Oh! Lá vai ter com ela o nosso Augusto. Vamos apreciá-lo.
Os dois estudantes aproximaram-se de Augusto, que acabava de
rogar à linda Moreninha a mercê da terceira quadrilha.
— Leva de tábua, disse Fabrício ao ouvido de Leopoldo; é a
mesma que eu lhe havia pedido.
Mas a jovenzinha pensou um momento antes de responder ao
pretendente; olhou para Fabrício e com particular mover de lábios pareceu
mostrar-se descontente; depois riu-se e respondeu a Augusto:
— Com muito prazer.
— Mas minha senhora, disse Fabrício, vermelho de despeito e
aturdido com um beliscão que lhe dera Leopoldo; há cinco minutos que já estava
engajada até á duodécima.
— E verdade, tornou d. Carolina; e agora só acabo de
ratificar uma promessa; o sr. Augusto poderá dizer se ontem pediu-me ou não a
terceira contradança.
— Juro... balbuciou Augusto.
— Basta! acudiu Fabrício interrompendo-o; é inútil qualquer
juramento de homem, depois das palavras de uma senhora.
Fabrício e Leopoldo retiraram-se; d. Carolina, que tinha
iludido o primeiro, vendo brilhar o prazer na face de Augusto, e temendo que
daquela ocorrência tirasse este alguma explicação lisonjeira demais, quis
aplicar um corretivo e, erguendo-se, tomou o braço de Augusto. Aproveitando o
passeio, disse:
— Agradeço-lhe a condescendência com que ia tomar parte na
minha mentira... foi necessário que eu praticasse assim; quero antes dançar com
qualquer, do que com aquele seu amigo.
— Ofendeu-a, minha senhora?
— Certo que não, mas diz-me coisas que não quero saber.
— Meu Deus! É um crime que também eu tenho estado bem perto
de cometer!
— Pois bem, foi esta a única razão.
— Mas eu temo perder a minha contradança... alguns momentos
mais e serei réu como Fabrício.
— A culpa será de seus lábios.
— Antes dos seus olhos, minha senhora.
— Cuidado, sr. Augusto! Lembre-se da contradança!
— Pois será preciso dizer que a detesto?...
— Basta não dizer que me ama.
— Ë não dizer o que sinto; eu não sei mentir. Ainda há pouco
ia jurar falso...
— Nas palavras de um anjo ou de uma...
— Acabe.
— Tentaçãozinha.
— Perdeu a terceira contradança.
— Misericórdia! Eu não falei em amor!...
Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. E
preciso antecipar que nos não vamos dar ao trabalho de descrever este; é um
sarau como todos os outros, basta dizer o seguinte:
Os velhos lembraram-se do passado, os moços aproveitaram o
presente, ninguém cuidou do futuro. Os solteiros fizeram por lembrar-se do
casamento, os casados trabalharam por esquecer-se dele. Os homens jogaram,
falaram em política e requestaram as moças; as senhoras ouviram finezas,
trataram de modas e criticaram desapiedadamente umas às outras. As filhas deram
carreirinhas ao som da música, as mães, já idosas, receberam cumprimentos por
amor daquelas e as avós, por não terem que fazer nem que ouvir, levaram todo o
tempo a endireitar as toucas e a comer doces. Tudo esteve debaixo destas regras
gerais; só basta dar conta das seguintes particularidades:
D. Carolina sempre dançou a terceira contradança com
Augusto, mas, para isso, foi preciso que a sra. d. Ana empenhasse todo o seu
valimento; a tirana princesinha da festa esteve realmente desapiedada. e não
quis passear com o estudante.
. A interessante d. Violante fez o diabo a quatro: tomou
doze sorvetes, comeu pão-de-ló como nenhuma, tocou em todos os doces, obrigou
alguns moços a tomála por par, e até dançou uma valsa corrupio.
Augusto apaixonou-se por seis senhoras com quem dançou; o
rapaz é incorrigível. E assim tudo mais.
Agora são quatro horas da manhã; o sarau está terminado, os
convidados vão retirando-se e nós, entrando no toilette, vamos ouvir quatro
belas conhecidas nossas, que conversam com ardor e fogo.
— É possível?!… exclamou d. Quinquina, dirigindo-se à sua
mana; pois é verdade que esse sr. Augusto lhe fez uma declaração de amor?...
— Como quer que lhe diga, maninha!... Asseverou que meus
olhos pretos davam à sua alma mais luz do que aos seus olhos todos os
candelabros da sala nesta noite, e mesmo do que o sol nos dias mais brilhantes…
palavras dele.
— Que insolente!… tornou d. Quinquina, ele mesmo, que me
jurou ser a mais bela a seus olhos e a mais cara ao seu coração, porque meus
cabelos eram fios de ouro e a cor das minhas faces o rubor de um belo
amanhecer!... Palavras dele.
— Que atrevido!… bradou d. Clementina; o próprio que afirmou
ser-lhe impossível viver sem alentar-se com a esperança de possuir-me, porque
eu sabia ferir corações com minhas vistas e curar profundas mágoas com meus
sorrisos!... Palavras dele.
— Oh! Que moço abominável, disse, por sua vez, d. Gabriela;
e ousou dizerme que me amava com tão subida paixão que, se fora por mim amado e
pudesse desejar e pedir algum extremo, não me pediria como a outras, para
beijar-me a face, porque das virgens do céu somente se beijam os pés, e de
joelho! Palavras dele.
— Mas isto é um insulto feito a todas nós!
— Como se estará ele rindo!
— Qual! Se ele está apaixonado... Apaixonado?... E por
quem?...
— Por nós quatro... talvez por outras mais: ele pensa assim.
— Que maldito brasileiro com alma de mouro!...
— E havemos de ficar assim?...
— Não, acudiu d. Joaninha: vamos ter com ele,
desmascaremo-lo.
— Isto é nada para quem não tem vergonha!...
— Pois troquemos os papéis: finjamos que estávamos tratadas
para desafiarlhe os requebros, e... ridicularizemo-lo como for possível.
— Sim... obriguemo-lo a dizer qual de nós é a mais bonita;
cada uma lhe pedirá um anel de seus cabelos... uma prenda... uma lembrança...
ponhamo-lo doido.
— Muito bem pensado! Vamos!
— Deus nos livre!... A vista de tanta gente!...
— Então, quando e aonde?
— Uma idéia... seja a zombaria completa: escreva-se uma
carta anônima, convidando-o para estar ao romper do dia na gruta.
— Bravo! Então escreva...
— Eu, não, escreva você...
— Deus me defenda! ... escreva d. Gabriela, que tem boa
letra...
— Então, nenhuma escreve? Pois tiremos por sorte.
A idéia foi recebida com aprovação e a sorte destinou para
secretária d. Clementina, que tirando de seu álbum um lápis uma tira de papel,
escreveu sem hesitar:
"Senhor: — Uma jovem que vos ama e que de vós escutou
palavras de ternura tem um segredo a confiar-vos: ao ralar da aurora a
encontrareis no banco de relva da gruta; sede circunspecto e vereis a quem, por
meia hora ainda, quer ser apenas — Uma incógnita".
— Bem, disse d. Quinquina, eu me encarrego de fazer-lhe
receber a carta. Saiamos.
As quatro moças iam sair, quando um suspiro as suspendeu;
mais alguém estava no toilette. D. Joaninha, medrosa de que uma testemunha
tivesse presenciado a cena que se acabava de passar, voltou-se para o fundo do
gabinete e o susto logo se dissipou.
— Vejam como ela dorme! ... disse.
Com efeito, recostada em uma cadeira de braços, d. Carolina
estava profundamente adormecida.
A Moreninha se mostrava, na verdade, encantadora no mole
descuido de seu dormir, e à mercê de um doce resfolegar, os desejos se agitavam
entre seus seios; seu pezinho bem à mostra, suas tranças dobradas no colo, seus
lábios entreabertos e como por costume amoldados àquele sorrir cheio de malícia
e de encanto que já lhe conhecemos e, finalmente, suas pálpebras cerradas e
coroadas por bastos e negros supercílios, a tornavam mais feiticeira que nunca.
D. Clementina não pôde resistir a tantas graças: correu para
ela… dois rostos angélicos se aproximaram... quatro lábios cor-de-rosa se
tocaram e este toque fez acordar d. Carolina.
Um beijo tinha despertado um anjo, se é que o anjo realmente
dormia.
CAPÍTULO XVII
Foram buscar lã e saíram tosquiadas
Se houve alguém que quisesse servir a d. Quinquina, ou se
foi ela mesma quem pôs a carta anônima no bolso da jaqueta de Augusto, é coisa
que pouco interesse dá; o certo é que o estudante, indo tirar o lenço para
assoar-se, achou o interessante escritinho; então correu logo para um lugar
solitário, e só depois de devorar o convite sem assinatura, foi que lembrou-se
que ainda não se havia assoado e que o pingo estava cai não cai na ponta do
nariz; enfim, ainda com o lenço acudiu a tempo, e depois entendeu que, para
melhor decidir o que lhe cumpria fazer naquela conjuntura, deveria avivar o
cérebro, sorvendo uma boa pitada de rapé; portanto, lançou a mão ao segundo
bolso de sua jaqueta, e eis que lhe sai com a caixa do bom Princesa um outro
escritinho como o primeiro.
— Bravo! exclamou o nosso estudante; temíveis mãozinhas
seriam estas, se dessem ao exercício, não de encher, mas de vazar as algibeiras
da gente.
E sem mais dizer, abriu e leu o escrito.
"Senhor: — Uma moça, que nem é bonita nem namorada, mas
que quer interessar-se por vós, entende dever prevenir-vos que no banco de
relva da gruta não achareis ao amanhecer uma incógnita, porém quatro
conhecidas, que pretendem zombar de vós, porque esta mesma noite jurastes amar
a cada uma delas cm particular. Não procureis adivinhar quem vos escreve,
porque apesar de vossa amiga será por agora — Uma incógnita".
— Muito bonito! Muito bonito!... disse Augusto, beijando o
bilhete; estou exatamente representando um papel de romance! Mas quem sabe se
ainda acharei mais cartas?...
E nisso pensando, foi correndo um por um todos os bolsos de
seus vestidos, sem esquecer o do relógio; e até passou os dedos pela sua basta
cabeleira, presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo de
cabelos que lhe escondia as orelhas.
Porém nada mais havia; também duas cartas tão curiosas já
eram de sobra em uma só noite.
O estudante pensou no conteúdo de ambas, e ainda
reflexionava se lhe cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças, que
ele adivinhava quais eram, quando a primeira rosa da aurora se desabriu no
horizonte. Augusto correu para a gruta encantada.
Chegando ao pé, foi de mansinho se aproximando, sentiu rumor
e ouviu que alguém dizia em tom baixo:
— Oh! Se ele vier!
— Ei-lo aqui, minhas belas senhoras, exclamou o estudante,
que entendeu não lhes dever nunca dar tempo a tomarem a ofensiva; eis-me
aqui!...
As moças, que estavam todas sentadinhas no banco de relva,
como quatro pombas rolas enfileiradas no mesmo galho, ergueram-se
sobressaltadas ao ver entrar inopinadamente o estudante; era isso mesmo o que
ele queria, pois continuou:
— As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e
que me entusiasmo vendo quatro auroras em lugar de uma só. Belo amanhecer é
este, sem dúvida… mas, exposto ao fogo abrasador de oito olhos brilhantes… eu
me sinto arder... juro que tenho sede... Eis ali uma fonte... Mas, meu Deus, é
a fonte encantada que descobre os segredos de quem está conosco!... Bem! Bem!
Melhor… uma gota desta linfa de fadas!...
— O que é que ele está dizendo, mana? exclamou d. Quinquina,
apontando para Augusto, que tinha entre os lábios o copo de prata.
— É preciso decidir-nos a começar, disse d. Gabriela.
— Principie você, disse d. Joaninha.
— Eu não! comece você.
— Eu não, que sou a mais moça.
Então o estudante, que tinha acabado de esgotar o seu copo
d’água, voltouse para elas, e dando a seu rosto uma expressão animada e às suas
palavras estudado acento:
— Começo eu, minhas senhoras, disse, e começo por dizer-vos
que aquela fonte é realmente encantada; sim, eu tenho, à mercê de sua água,
adivinhado belos segredos: escutai vós Perdoai e consenti que vos trate assim,
enquanto vos falar inspirado por um poder sobrenatural. Vós viestes aqui para
maltratar-me e zombar de mim, por haver amado a todas vós numa só noite; que
ingratidão!... Eu vos poderia perguntar como o poeta: Assim se paga a um
coração amante?! Mas, desgraçadamente, a fada que preside àquela fonte, quer
mais alguma coisa ainda, e me dá uma cruel missão! Ordena-me que eu diga a cada
uma de vós, em particular, algum segredo do fundo de vossos corações, para
melhor provar os seus encantamentos. Pois bem, é preciso obedecer; qual de vós
quer ser a primeira?... Eu não ouso falar alto, porque pelo jardim talvez
estejam passeando alguns profanos. Qual de vós quer ser a primeira?...
Nenhuma se moveu.
— Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela.
Escolherei... lluminaime, boa fada! Quem será?... Será… a sra. d. Gabriela?
— Eu?! respondeu a menina, recuando.
— A senhora mesma, disse Augusto, trazendo-a pela mão para
junto da fonte; vinde, senhora, para bem perto do lugar encantado; agora
silêncio... ouvi. — Ele está mangando conosco, murmurou d. Clementina.
Augusto já estava falando em voz baixa a d. Gabriela.
— Vós, senhora, ainda não amastes a pessoa alguma; para vós
amor não existe: é um sonho apenas, e só olhais como real a galanteria; vós
queríeis zombar de mim, porque vos protestei os mesmos sentimentos que havia
protestado a mais três companheiras vossas, e todavia, estais incursa em igual
delito, pois só por cartas vos correspondeis com cinco mancebos.
— Senhor!...
— Oh! Não vos impacienteis; quereis provas?... Há quatro
dias, uma vendedora de empadas, que se encarrega de vossas cartas, enganou-se
na entrega de duas; trocou-as e deu, se bem se lembra a fada, a de lacre azul
ao sr. Juca e a de lacre verde ao sr. Joãozinho.
— Ora… ora, senhor! Quem lhe contou essas invenções?
— A fada! E fez mais ainda. Vós não achareis em vosso álbum
o escrito desesperado do sr. Joãozinho, que vos foi entregue no momento de
vossa partida para esta ilha; sou eu que o tenho, a fada mo deu há pouco com
sua mão invisível. — Impossível! balbuciou d. Gabriela, recorrendo ao seu
álbum.
Ela não podia encontrar o escrito.
— Sr. Augusto, disse então, toda vergonha e acanhamento, eu
lhe rogo que me dê esse papel.
— Pois não quereis ouvir mais nada!...
— Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender;
mas dê-me o que lhe pedi.
— Daqui a pouco, senhora, na hora de minha partida para a
corte, porém com uma condição.
— Pode dizê-la.
— Sois sobremaneira delicada, senhora; este excesso vos deve
ser nocivo; quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de
aceitar a minha mão até à porta da gruta?...
— Com muito prazer.
Então os dois se dirigiram para fora; passando junto das
três companheiras,
d. Gabriela pôde apenas dizer-lhes:
— Até logo.
Chegando à porta, Augusto falou já em outro tom:
— Minha senhora, espero que me faça a justiça de crer que
fico extremamente penalizado por não poder dilatar por mais tempo a glória de
acompanhá-la; mas sabe o que ainda tenho de fazer.
— Obrigada, respondeu d. Gabriela, não poupe as outras.
Não é possível bem descrever a admiração das três.
Augusto chegou-se a d. Quinquina, e tomando-lhe a mão disse:
— Minha senhora, é chegada a vossa vez.
D. Quinquina deixou-se levar para junto da fonte; as moças
tinham perdido toda a força; o que diante delas se passava pedia uma explicação
que não estava ao seu alcance dar. Augusto começou:
— Senhora, eu poderia dizer-vos, pelo que me conta a boa
fada, que vós sois como as outras de vossa idade, tão volúveis como eu; mas
para tal saber não precisava eu beber da água encantada; podia também gastar
meia hora em falar do vosso galanteio com um tenente da Guarda Nacional, por
nome Gusmão...
— Senhor!...
— Por nome Gusmão, que leva o seu despotismo amoroso a ponto
de exigir que não valseis, que não tomeis sorvetes, que não deis dominus tetum
quando ao pé de vós espirrar algum moço e que não vos riais quando ele estiver
sério, — Quem lhe disse isto, senhor?...
— A fada, senhora; e ainda me disse mais: por exemplo,
contou-me que no baile desta noite, passeando com um velho militar, vós
recebestes da mão dele um lindo cravo e a seus olhos o escondestes, com gesto
apaixonado, no palpitante seio; mas daí a um quarto de hora essa mesma flor,
tão ternamente aceita, deveria ir parar ao bolso de um belo jovem, chamado
Lúcio, se acaso não fosse roubada pela fada que preside esta fonte.
— Eu não entendo nada do que o senhor está dizendo… isso não
é comigo.
— Eu me explico: o sr. Lúcio viu ser dado e recebido o
presente, e fingindo-se zeloso, vos pediu esse cravo, muito notável porque,
além da flor aberta, havia sete flores em botão. Ora, dizei, não é verdade?
Pois o sr. Lúcio queria esse cravo, mas vós não lho podíeis dar, porque o velho
militar não tirava os olhos de vós; ora, conversando com o sr. Lúcio,
acordastes ambos que ele iria esperar um instante no jardim e que um pequeno
escravo, por nome Tobias, lhe levaria a flor; e como o tal Tobias ainda não conhecia
o sr. Lúcio, este lhe daria por senha as seguintes palavras — sete botões — não
foi assim?
D. Quinquina guardou silêncio, porque tudo era verdade; ela
estava cor de nácar. Augusto prosseguiu:
— Isto se passou estando vós na grande varanda, sentados em
um banco e com as costas voltadas para uma janela da sala do jogo; ora, a fada
esteve recostada a essa janela, ouviu quanto dissestes e como lhe é dado tomar
todas as figuras, tomou a do moço, foi ao jardim, e quando viu o Tobias, disse
— sete botões; e o cravo foi logo da fada e é agora meu; ei-lo aqui!...
— Isto é uma invenção; eu não conheço essa flor.
— Bem então consentireis que eu a traga esta manhã no meu
peito?... Se não confessais, eu a mostrarei... O senhor coronel ainda se não
retirou e...
— Perdoe-me, balbuciou, enfim, d. Quinquina, deixando cair
uma lágrima na mão de Augusto. Dê-me esse maldito cravo.
— Eu vo-lo darei na hora de minha partida, senhora; porém,
ouvi mais.
— Basta.
— Pois bem, basta; mas eu vejo que vossa face está
umedecida; seria uma lágrima se o relento da noite não molhasse também a rosa.
Quereis descansar sem dúvida; poderei gozar o prazer de conduzir-vos até à
porta da gruta?...
— Sim, senhor.
Duas guerreiras tinham sido batidas; só a curiosidade
retinha as outras; Augusto se chegou para elas e falou a d. Clementina:
— Agora vós, senhora.
Ela deixou-se levar pela mão até junto da fonte, e o
estudante começou:
— Quereis fatos de anteontem ou da noite passada, senhora?
Eu não entendo o que o senhor quer dizer.
— Pergunto, senhora, se vos dá gosto que eu vos repita o que
convosco se passou, quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos
negros... o que convosco conversou o meu colega Filipe, quando tomáveis chá?
— Eu não preciso saber mais nada disso.
— Então dir-vos-ei o que mais vos interessa; sossegarei
mesmo os vossos cuidados e os de sr. Filipe, a respeito da perda de certo
objeto...
— Sr. Augusto!
— Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou
um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria
ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter
— Sr. Augusto!
— Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou
um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria
ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão; e essa
trança pára hoje em minhas mãos, ei-la aqui...
— Oh! Dê-ma.
— Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a
destináveis?
— Não, eu lhe peço que ma dê.
— Eu estou pronto a obedecer-vos, senhora, mas só na hora de
minha partida. Vós quatro queríeis zombar de mim, e não concebo até onde iria a
vossa vingança; preciso de reféns que assegurem a paz entre nós, estes são os
meus; quereis saber mais alguma coisa?
— Eu já sei que o senhor sabe demais!
— Então...
Quer, como às duas primeiras, oferecer-me a mão e obrigar-me
a desamparar o campo? Venceu, senhor, e sou eu que lhe peço que me acompanheis
até à porta da gruta.
— Eu estou pronto, senhora, para servir-vos em tudo.
Só restava d. Joaninha: era a vez dela.
— Eu vos deixei para o fim, disse Augusto, porque a vós é
que eu mais admiro, porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem
amado melhor e que mais infeliz tem sido; eu vos explicarei isto. Sois,
todavia, um pouco excessiva em exigências.
— Que quer dizer, sr. Augusto?
— Que quereis muito, quando ordenais a um estudante que vos
escreva quatro vezes por semana, pelo menos; que passe defronte de vossa casa
quatro vezes por dia; que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais, e
até que não fume charutos de Havana, nem de Manilha, por ser falta de
patriotismo.
Quem lhe disse isso, senhor?
— A fada, senhora, que sabe que amais a um moço, a quem dais
a honra de chamar querido primo.
— E uma vil traição!
— Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada, e ainda mais,
senhora, quer que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel, que não
sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas...
— Não as tenho eu bastantes, exclamou d. Joaninha com
sentimento, quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim
somente?
Augusto ia falar; ela o interrompeu.
— Senhor, eu agradeço o benefício que recebi; o senhor quis
zombar de mim, como das outras, mas não o fez; ao contrário, atalhou em
princípio uma grande enfermidade, que, talvez, fosse daqui a pouco tempo
incurável! Eu galanteio também às vezes, porém sei amar ao extremo. Adeus,
senhor! Eu posso apenas agradecer-lhe, dizendo que tenho tanta confiança na sua
discrição e no seu caráter, que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu
segredo.
D. Joaninha ia deixar a gruta, e Augusto lhe ofereceu o
braço.
— Agradecida, disse ela; permita que eu entre sé em casa.
Augusto ficou sé. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de
ter lugar; finalmente disse, soltando uma risada:
— Vieram buscar lã e saíram tosquiadas!
E já estava para pôr o pé fora da gruta, quando uma voz
branda e sonora o suspendeu, dizendo:
— Agora, sr. Augusto, é chegada a sua vez...
CAPÍTULO XVIII
Achou quem o tosquiasse
Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a
mesma posição em que ele tinha colocado as quatro moças, Augusto voltou-se de
repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha, que enchia o copo de
prata.
— Minha senhora!... balbuciou o estudante confuso.
D. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado
sorriso e depois assim:
— Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro
senhoras; uma outra toma o cuidado de vingá-las. Sr. estudante, eu também sou
adepta ao culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio.
A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu
copo d’água e depois, imitando o estilo de Augusto que se achava junto dela,
disse:
— Quereis que vos fale do passado, do presente, ou do
futuro?
— De todas essas épocas... ao menos para ouvir por mais
tempo os vaticínios e palavras de tão amável Sibila.
— Pois então principiemos pelo passado. Oh! Que belas
revelações me faz a fada! Sim, eu estou lendo no livro da vossa vida estou
vendo tudo, estou dentro do vosso espírito e de vosso coração!
— Oh! Sim, eu juro que isso é verdade, atalhou o estudante.
A menina fingiu não entender a alusão e continuou:
— Senhor, vós amastes muito cedo… creio… sim, foi na idade
de treze anos.
Augusto recuou um passo; ela prosseguiu:
— Amastes, sim, a uma menina de sete anos, com quem
brincastes à borda do mar.
— E quem era ela? Como se chamava? perguntou Augusto com
fogo, talvez pensando que d. Carolina estava com efeito adivinhando e podia
dizer-lhe o que ele mesmo ignorava.
Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha; a fada só me diz o
que se passou em vosso coração, e vós, por certo, que também não sabeis quem
era essa menina e só a conheceis pelo nome de — minha mulher.
— Prossiga, minha senhora!
Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo,
esmeralda, camafeu, mas basta de vossa mulher; permiti que vos diga que
mostrava ser uma criança doidinha, que cedo começava a fazer loucuras.
— Que cruel juízo!
— Oh! Não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção a
vós, porém vamos acabar com o vosso passado. Houve um tempo em que quisestes
figurar entre os amigos como galanteador de damas, e por justo e bem merecido
castigo fostes desgraçado: todas elas zombaram de vós!
E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia
Augusto.
— Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.
A primeira jovem que requestastes foi uma moreninha de
dezesseis anos, que jurou-vos gratidão e ternura, e casou-se oito dias depois
com um velho de sessenta anos! Não foi assim?
E a menina de novo desatou a rir.
— Minha senhora, de que se ri tanto?
Ora! E que a fada está me dizendo que ainda em cima os
vossos amigos, quando souberam de tal, deram-vos uma roda de cacholetas!
— Então a sra. d. Ana lhe contou tudo isso?
— Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes
objetos.
Consenti que eu continue. A segunda foi uma jovem coradinha,
a quem em uma noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre menino com quem
ela se divertia nas horas vagas, não foi assim?
— Prossiga, minha senhora.
— A terceira foi uma moça pálida, que zombou solenemente,
tanto de um primo que tinha, como de vós. Eis alguns de vossos principais
galanteios. Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente tocado das
letras e da música de certo lundu que se vos cantou, tomastes outro partido e
desde então vós pretendeis fazer-vos passar por borboleta de amor.
— Borboleta?!... Sim... Sim… lembro-me agora que a senhora
passeava pelo jardim. Já sei de quem foram certas carreirinhas e portanto
compreendo que sabeis de tudo à custa...
— A custa da fada, senhor, e escuso estender-me mais, porque
vós estais bem certo de que eu devo saber ainda muito.
Sim, mas diga sempre.
— Não, antes quero falar-vos do vosso presente.
— Pelo amor de seus belos olhos, minha senhora, vamos antes
ao que eu não sei, vamos ao meu futuro.
— Sois sobejamente sôfrego! Não vedes como isso vai contra a
boa ordem da narração?
— Mas a desordem é hoje moda! O belo está no desconcerto; o
sublime no que se não entende; o feio é só o que podemos compreender: isto é,
romântico; queira ser romântica, vamos ao meu futuro.
— Pois bem, vamos ao vosso futuro. Principiarei, como
pretendia fazer, se falasse do presente de vossa vida, dizendo-vos que vós não
sois tão inconstante como afetais.
— Misericórdia!
— Mas que estais a ponto de o ser; digo-vos que perdereis
uma certa aposta que fizestes com três estudantes.
— Como é isso? Então a senhora sabe...
— A fada que me revelou isso leu o termo na carteira de quem
o guardou.
— A fada? Sim, a feiticeira o leu... Compreendo.
— Vós não sois inconstante, porque tendes até hoje cultivado
com religioso empenho o amor de vossa mulher; mas vós o ides ser, porque não
longe está o dia em que a esquecereis por outra.
— A culpa será dos olhos dessa outra; porém quem sabe?...
Desejo que não; contudo, eu já vos vejo em princípio e temo que ides ao fim;
sereis perjuro, tereis de escrever um romance e perdoai-me se vos desejo este
mal: eu quisera que ao pé de meu irmão, que vos apresentará o termo da aposta,
aparecesse a vossos olhos a mulher traída. Do vosso futuro eis quanto me disse
a fada.
— E disse bastante para me confundir.
— Quereis que vos fale agora do vosso presente?
— Oh, se quero! No presente está a minha glória.
— Ontem, no baile, dissestes palavras de ternura pelo menos
a seis senhoras.
— Esta agora é melhor! E quem o pôde notar?
— Provavelmente a fada vos observava.
— Então a fada, a feiticeira fazia isso?
— Depois do baile puseram-vos duas cartas no bolso.
— Que mãos delicadas?... Não mo sabe dizer a fada, porém vós
viestes para esta gruta acudindo a um convite, e fingistes adivinhar segredos
de corações.
— Não era verdade: a fada nada vos revelou, e o que
dissestes que sabíeis antes e a fada me disse como.
— Explique-me, pois, minha senhora.
— Quando involuntariamente fui causa de vos entornarem café
nas calças, vós fostes mudar de roupa e entrastes para o gabinete das senhoras;
lá ouvistes tudo o que afetastes adivinhar há pouco.
— E quem me viu entrar?
— A fada sem dúvida. O cravo de d. Quinquina fostes vós que
o recebestes no jardim; na noite dos jogos de prendas, fostes vós ainda quem,
com uma luz na mão, procurou e achou a trança de cabelos de d. Clementina,
embaixo da quarta roseira da rua que vai para o caramanchão.
— Mas quem observou o que eu fiz às escondidas e com tanto
cuidado?
— A fada, que, segundo penso, vos tem sempre seguido com os
olhos.
— A fada?!... A feiticeira me segue sempre com os olhos?!...
Oh! Como sou feliz!... A feiticeira é a senhora!
— Senhor! Sois pouco modesto; que me importariam vossos
passos e vossas ações?...
— Perdão! Perdão!... Eu sou um tresloucado... um incivil...
um doido... não sei o que faço, nem o que digo, mas continue...
— Basta! Vós duvidastes da fada e por isso eu termino aqui.
Não! Não minha senhora! E preciso dizer-me mais alguma coisa ainda!... Por
força a fada lhe deveria ter revelado! Ela, que adivinha tudo o que está dentro
do meu coração, diga o que ainda se passa nele.
Nada mais me disse.
— Beba outro copo d’água...
— Não julgo necessário. Pois então...
— Cumpre retirar-me.
— Não é por certo! Perdoe-me, minha senhora, mas eu devo
descobrir todos os meus segredos a quem conhece tão boa parte deles.
— Eu me contento com o pouco que sei.
— Ouça uma só palavra...
— Não sou curiosa. — Pois a senhora...
— Sei que sou senhora, mas sou exceção de regra; não quero
saber.
— Embora, eu lhe direi ainda contra a vontade...
— E para isso toma-me a saída?...
— E só para lhe dizer que eu amo...
— Já sei, à sua mulher
— Não é isso: a uma bela moça... — Ela o deve ser agora.
Muito espirituosa...
— Já ela o era em criança.
— E que se chama...
— Ah! espreitam-nos da entrada da gruta!
Augusto correu a examinar quem era a indiscreta testemunha;
não aparecia pessoa alguma; compreendeu então que fora ainda um meio de que se
lembrara d. Carolina para não deixá-lo concluir sua declaração e, disposto a
lançar-se aos pés da menina, voltou-se já com o nome da bela nos lábios, e...
D. Carolina tinha desaparecido da gruta.
CAPÍTULO XIX
Entremos nos corações
O que é bom dura pouco. As festas estão acabadas, as nossas
belas conhecidas bordam, os nossos alegres estudantes estão de livro na mão.
Mas, pelo que toca a estes, qual é digam-me, qual o estudante que, depois de
uma patuscada de tom, não fica por oito dias incapaz de compreender a mais
insignificante lição? Isto sucede assim; essa pobre gente vê, por toda a parte
e misturando-se com todos os pensamentos, no livro em que estuda, nas estampas
que observa, na dissertação que escreve, o baile, as moças e os prazeres que
apreciou.
O nosso Augusto, por exemplo, está agora bronco para as
lições e impertinente com tudo. Rafael é quem paga o pato: se o inocente
moleque lhe apronta o chá muito cedo, apanha meia dúzia de bolos, porque quer
ir vadiar pelas ruas; se no dia seguinte se demora só dez minutos, leva dois
pescoções, para andar mais ligeiro. Não há, enfim, coisa alguma que possa
contentar o sr. Augusto; está aborrecido da medicina, tem feito duas gazetas na
aula; de ministerial, que era, passou-se para a oposição; não quer mais ser
assinante de periódicos, não há para seus olhos lugar nenhum bonito no mundo;
aborrece a corte, detesta a roça e só gosta das ilhas.
Deveremos fazer-lhe uma visita; ele está em seu gabinete e
um pouco menos carrancudo, porque Leopoldo, o seu amigo do coração, o acompanha
e tem a paciência de estar ouvindo pela duodécima vez a narração do que com ele
se passou na ilha de...
Segundo parece, Augusto acaba de relatar o que ocorreu na
gruta, entre ele e a bela Moreninha, porque Leopoldo lhe perguntou:
— E por onde fugiria ela?...
— Por uma difícil saída que eu não tinha observado,
respondeu Augusto, e que exatamente se praticava no fundo da gruta.
— Que diabinho de menina!
— Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela,
quando entrei na sala, me perguntou sossegadamente: "Esteve dormindo na
gruta, sr. Augusto?…"
— Então ela gostou da tua semideclaração?!
— Não... não... se ela tivesse gostado, não me fugiria.
— Ora, é boa! Não devia fazer outra coisa.
Se ela gostasse de mim!... Mas, por que não me deu um só
sinal de ternura?... Também eu, às vezes tão adiantado, fui desta um tolo, um
basbaque! Tremi diante de uma criança que não tem quinze anos e não soube dizer
duas palavras.
— Estás doido, Augusto, e doido varrido; acredita que d.
Carolina foi mais sensível aos teus cumprimentos que aos de nenhum outro; e se
não, dize por que se não deixou ela dormir, como as outras senhoras, e foi à
hora de tua partida passear pela praia e ver-te embarcar?... Por que ficou ali
passeando até desaparecer o teu batelão?
— Isto não significa nada.
— Ora, ature-se um namorado!... Mas venha cá sr. Augusto,
então como é isto?... Estás realmente apaixonado?!
— Quem te disse semelhante asneira?...
— Há três dias que não falas senão na irmã de Filipe e...
— Ora viva! Quero divertir-me… digo-te que a acho feia; não
é lá essas coisas; parece ter mau gênio. Realmente notei-lhe muitos defeitos...
sim... mas, às vezes... Olha, Leopoldo, quando ela fala ou mesmo quando está
calada, ainda melhor; quando ela dança, ou mesmo quando está sentada... ah!
ela, rindo-se… e até mesmo séria... quando ela canta ou toca ou brinca ou
corre, com os cabelos à negligé, ou divididos em belas tranças; quando... Para
que dizer mais? Sempre, Leopoldo, sempre ela é bela, formosa, encantadora,
angélica!
Então, que história é essa? Acabas divinizando a mesma
pessoa que, principiando, chamaste feia?...
— Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu... no
princípio... Mas depois... Ora, estou com dores de cabeça; este maldito
Velpeau!... Que lição temos amanhã?
— Tratar-se-á das representações de...
— Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de
d.
Carolina, do baile, do...
— Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a
lição de amanhã?
— Eu? Pode ser... Esta minha cabeça!...
— Não é a tua cabeça, Augusto, é o teu coração.
Houve então um momento de silêncio. Augusto abriu um livro e
fechou-o logo; depois tomou rapé, passeou pelo quarto duas ou três vezes e,
finalmente, veio de novo sentar junto de Leopoldo.
— É verdade, disse; não é a minha cabeça: a causa está no
coração. Leopoldo, tenho tido pejo de te confessar, porém luto posso mais
esconder estes sentimentos que eu penso que são segredos e que todo o mundo lê
nos olhos! Leopoldo, aquela menina que aborreci no primeiro instante, que
julguei insuportável e logo depois espirituosa, que daí a algumas horas comecei
a achar bonita, no curto trato de um dia, ou melhor ainda, em alguns minutos de
unia cena de amor e piedade, em que a vi de joelhos banhando os pés de sua ama,
plantou no meu coração um domínio forte, um sentimento filho da admiração,
talvez, mas, sentimento que é novo para mim, que não sei como o chame, porque o
amor é um nome muito frio para que o pudesse exprimir!... Eu já não me
conheço... não sei onde irá isto parar... Eu amo! Ardo! Morro!
— Modera-te, Augusto; acalma-te; não é graça; olha que estás
vermelho como um pimentão.
— Oh! Tudo naquela ilha fatal se assanhou para
enfeitiçar-me, tudo, até a própria mentira.
— E tu acreditaste muito nessa senhora!…
— Escuta, Leopoldo: uma vez que com a avó de Filipe
conversava na gruta, eu, fatigado e sequioso, bebi um copo d’água da fonte do
rochedo; então, a nossa boa hóspeda contou-me uma fabulosa e singular tradição
daquela fonte. A água dizia-se milagrosa e quem a bebesse não sairia da ilha
sem atuar algum de seus habitantes. Eis aqui, pois, uma mentira, mais uma
mentira que excitou a minha imaginação; uma mentira que me perseguiu lá dois
dias e que me persegue ainda hoje; uma mentira, enfim, que se transformou em
verdade, porque eu bebi daquela água e não pude deixar a ilha sem amar, e
muito, um de seus habitantes...
— Deveras que isso não deixa de ser interessante. Mas que
efeito esperas tu que provenha de toda essa moxinifada?
— Que efeito?... O... amor...
— Amor?... Amor não é efeito, nem causa, nem princípio. nem
fim, e é tudo isso ao mesmo tempo; e uma coisa que... sim... finalmente, para
encurtar razões, amor é o diabo... Dize-me, pois, sinceramente falando, qual o
resultado que pensas tirar de tudo isso que me contaste.
— Que resultado?... O... amor...
— E ele a dar-me com o maldito amor! Augusto, falemos sério,
essa tua exaltação estava muito em ordem num moço que quisesse desposar d.
Carolina; porém tu nem cuidas em casamento nem, se em tal pensasses, te
lembrarias, roceiro como és, de escolher para mulher uma menina que foi criada,
educada e pode-se dizer que mora na corte.
— Esta agora não é má!... Deveras que ainda me não passou
pela mente a idéia do casamento, nem chegará a tal ponto minha loucura; mas
suponhamos o contrário disto; que mal tu achas em que um roceiro se case com
uma moça da cidade?
— Que mal?... Ora, escuta: devendo ir morar na roça, a moça
tem, necessariamente, de mudar de costumes e de vida; compreende, pois, quanto
atormentará o coração do pobre marido a vista dos dissabores e contrariedades
que sofrerá na solidão e monotonia campestre urna senhora amamentada no seio
dos prazeres festins da corte! ... Quanto devem entristecer os suspiros e
saudades de que será testemunha, quando a amada companheira recordar-se de sua
família, de suas amigas, do teatro, do passeio, dessa cadeia de delícias,
enfim, que, apesar dela, a ligará ainda a seu passado.
— Oh! não, não, Leopoldo, se o marido for amado. Quando se
ama deveras e se está com o objeto do amor, não se recorda, não se deseja, não
se quer mais nada!...
— Tu falas em amor, Augusto?... Ainda bem que somos ambos
estudantes da roça e posso dizer-te agora o que entendo, sem medo de ofender
suscetibilidade de cortesão algum. Pois ainda não observaste que o verdadeiro
amor não se dá muito com os ares da cidade?... Que por natureza e hábito, as
nossas roceiras são mais constantes que as cidadãs?... Olha, aqui encontramos
nas moças mais espírito, mais jovialidade, graça e prendas, porém, nelas não
acharemos nem mais beleza, nem tanta constância. Estudemos as duas vidas. A
moça da corte escreve e vive comovida sempre por sensações novas e brilhantes
por objetos que se multiplicam e se renovam a todo momento, por prazeres e
distrações que se precipitam; ainda contra a vontade, tudo a obriga a ser
volúvel: se chega à janela um instante só, que variedade de sensações! Seus
olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro, da senhora que passa para o
menino que brinca, do séqüito do casamento para o acompanhamento de enterro!
Sua alma tem que sentir ao mesmo tempo o grito de dor e a risada de prazer, os
lamentos, os brados de alegria e o ruído do povo; depois, tem o baile com sua
atmosfera de lisonjas e mentiras, onde ela se acostuma a fingir o que não
sente, a ouvir frases de amor a todas as horas, a mudar de galanteador em cada
contradança; depois, tem o teatro, onde cem óculos fitos em seu rosto parecem
estar dizendo — és bela! — E assim enchendo-a de orgulho e muitas vezes de
vaidade; finalmente, ela se faz por força e por costume tão inconstante como a
sociedade em que vive, tão mudável como a moda dos vestidos. Quereis agora ver
o que se passa com uma moça da roça?...
Ali está ela na solidão de seus campos, talvez menos alegre,
porém, certamente, mais livre; sua alma é todos os dias tocada dos mesmos
objetos: ao romper d’alva, é sempre e só a aurora que bruxoleia no horizonte;
durante o dia, são sempre os mesmos prados, os mesmos bosques e árvores; de
tarde, sempre o mesmo gado que se vem recolhendo ao curral; à noite, sempre a
mesma lua que prateia seus raios à Lisa superfície do lago! Assim, ela se
acostuma a ver e amar um único objeto; seu espírito, quando concebe uma idéia,
não a deixa mais, abraça-a, anima-a, vive eterno com ela; sua alma quando chega
a amar, é para nunca mais esquecer, é para viver e morrer por aquele que ama.
Isto é sim, Augusto; considera que é lá em nossos campos que mais brilham esses
sentimentos, que são a mesma vida e que não podem acabar senão com ela!...
— Como estás exagerado, Leopoldo! Juraria que desejas casar
com alguma moça da roça!
— Oh!... Se esse desejo me dominar, certamente que o
satisfarei com uma das muitas cachopinhas da minha terra.
Eu logo vi que em teus raciocínios e observações andava o
gênio da prevenção; escuso-me, porém, de responder-te, pois que falaste em
geral e desse modo concedes...
— Que há muitas exceções, sem dúvida.
Bom! Quando não, tu me forçarias a tomar a palavra para
defender a linda Moreninha, que tanto cativa.
Então, Augusto, teremos porventura um romance? Que romance?
— Perderás a aposta e ao completar-se o mês...
— Daqui até lá… se eu pudesse esquecê-la! ... Mas aquela
menina não é como as outras; é uma tentação... um diabinho...
— Quando, pois, começas a escrever?
— Estás tolo… respondeu Augusto, tomando por um momento seu
antigo bom humor; eu ainda pretendo nestes quinze dias mudar de amor três
vezes.
Basta porém de estudantes. Já temos ouvido bastante o nosso
Augusto e demorar-se mais tempo em seu gabinete fora querer escutar ainda as
mesmas coisas; porque o tal mocinho, que quer campar de beija-flor, parece que
caiu no visco dos olhos e graças da jovem beleza da ilha de... e está
sinceramente enamorado dela. Ora, todos sabem que os amantes têm um prazer
indizível em matraquear os ouvidos dos que os atendem com uma história muito
comprida e mil vezes repetida que, reduzindo-se à expressão mais simples, ficaria
em zero ou, quando muito, nos seguintes termos: "eu olhei e ela
olhou"; eu lhe disse "pode ser, não pode ser". Deixemos,
portanto, o senhor Augusto entregue a seus cuidados de moço, e tanto mais que
já conhecemos o estado em que se acha. Vamos agora entrar no coraçãozinho de um
ente bem amável, que não tem, como aquele, uma pessoa a quem confie suas penas,
e por isso sofre talvez mais. Faremos urna visita à nossa linda Moreninha.
Também suas modificações têm aparecido no caráter de d.
Carolina, depois dos festejos de Sant’Ana. Antes deles, era essa interessante
jovenzinha o prazer da ilha de... irreconciliável inimiga da tristeza, ela
ignorava o que era estar melancólica dez minutos e praticava o despotismo de
não consentir que alguém o estivesse; junto dela, por força ou por vontade,
tudo tinha de respirar alegria; sabia tirar partido de todas as circunstâncias
para fazer rir, e, boa, afável e carinhosa para com todos, amoldava os corações
à sua vontade; o ídolo, o delírio de quantos a praticavam, era ela a vida
daquele lugar e empunhava com suas graças o cetro do prazer. Hoje suas maneiras
são outras e, enquanto suas músicas se empoeiram, seu piano passa dias inteiros
fechado, suas bonecas não mudam de vestido, ela vagueia solitária pela praia,
perdendo seus belos olhares na vastidão do mar, ou, sentada no banco de relva
da gruta, descansa a cabeça em sua mão e pensa... Em quê?... Quais serão os
solitários pensamentos de uma menina de menos de quinze anos?... E às vezes
suspira... um suspiro?... Eis o que já é um pouco explicativo.
Assim como o grito tem o eco, a flor o aroma e a dor o
gemido, tem o amor o suspiro; ah! o amor é um demoninho que não pede para
entrar no coração da gente e, hóspede quase sempre importuno, por pior trato
que se lhe dê, não desconfia, não se despede, vai-se colocando e deixando
ficar, sem vergonha nenhuma, faz-se dono da casa alheia, toma conta de todas as
ações, leva o seu domínio muito cedo aos olhos, e às vezes dá tais saltos no
coração, que chega a ir encarapitar-se no juízo; então, adeus minhas encomendas!...
Pois muito bem, parece que a tal tentação anda fazendo
peloticas no peito da nossa cara menina; também não há moléstia de mais fácil
diagnóstico. Uma mocinha que não tem cuidados, com quem a mamãe não é
impertinente, que não sabe dizer onde lhe dói, que não quer que se chame
médico, que suspira sem ter flatos, que não vê o que olha, que acha todo o
guisado mal temperado, é porque já ama; portanto, d. Carolina ama, mas a
quem?!...
Ah! Sr. Augusto! Sr. Augusto, a culpa é toda sua, sem
dúvida. Esta bela menina, acostumada desde as faixas a exercer um poder
absoluto sobre todos os que a cercam, não pôde ouvir o estudante vangloriar-se
de não ter encontrado ainda a mulher que o cativasse deveras, sem sentir o mais
vivo desejo de reduzi-lo a obediente escravo de seus caprichos; ela pôs em ação
todo o poder de suas graças, ideou mesmo um plano de ataque, estudou a natureza
e os fracos do inimigo, observou e bateu-se; o combate foi fatal a ambos,
talvez, e no fim dele a orgulhosa guerreira apalpou o seu coração e sentiu que
nele havia penetrado um dardo; consultou a sua consciência e ouviu que ela
respondia; se venceste, também estás vencida!
Com efeito, d. Carolina ama o feliz estudante, e unia
mistura de saudades e de temor da inconstância do seu amado é provavelmente a
causa da sua tristeza; ajunta-se a isto a novidade e os cuidados de um amor
nascente e primeiro, o incômodo de um sentimento novo, inexplicável, que lhe
enchia o inocente coração e ver-se-á que ela tem suas razões para andar
melancólica.
E portanto toda a família está assaltada do mesmo mal: há na
ilha uma epidemia de mau humor que tem chegado a todos, desde a sra. d. Ana até
a última escrava. Além de quanto se acaba de expor, acresce que Filipe se
deixou ficar na cidade a semana inteira. sem querer dispensar uma só tarde para
vir visitar sua querida avó e a bonita maninha.
Eis porém, o que se chama acusação injusta. Diz o ditado que
falai no mau, aprontai o pau! Filipe estava esperando pelo dia de sábado para
aproveitar o domingo todo no seio de sua família; ei-lo aí que recebe a bênção
de sua avó e beija a fronte de sua irmã.
— Pensei, disse aquela, que não querias mais ver-nos!
— E quase que deixei a viagem para amanhã, minha boa avó.
— O ingrato ainda o diz... ouves, Carolina?... Então por
quê... Para vir na companhia de Augusto, que deve passar o dia conosco.
Estas palavras tiveram poder elétrico; d. Carolina, para
ocultar a perturbação que a agitava, correu a esconder-se em seu quarto.
Lá, bem às escondidas, ela derramou uma lágrima: doce
lágrima… era de prazer.
CAPÍTULO XX
1º. Domingo: ele marca
Augusto madrugou e muito. Quando a aurora começou a
aparecer, já ele havia vencido meia viagem e seu desejo era ir acordar na ilha
de... uma pessoa que tinha o mau costume de dormir até alto dia; por isso
instava com os remadores para que forcejassem; e enquanto seu batelão deslizava
pelas águas, rápido como uma flecha pelos ares, ele o acusava de pesado, de
vagaroso; tinha há muito descoberto a ilha de... e os objetos foram pouco a
pouco se tornando mais e mais distintos; viu a casa, viu o rochedo em que outrora
a tamóia deveria ter cantado seus amores, e sobre o qual cantara, havia oito
dias, d. Carolina a sua balada; depois distinguiu sobre esse rochedo negro um
ponto, um objeto branco, que foi crescendo, sempre crescendo, que enfim lhe
pareceu uma figura de mulher, que ostentava a alvura de seus vestidos. Depois
ele tinha desviado um pouco os olhos; quando os voltou de novo para o rochedo,
a figura branca havia desaparecido como um sonho.
Enfim o batelão abordou à ilha de...; Augusto correu à casa
de que tantas saudades sofrera; todos já se tinham levantado; ninguém dormia
ainda, d. Carolina estava vestida de branco.
— Eu lhe agradeço bem, sr: Augusto, disse a sra. d. Ana,
depois dos primeiros cumprimentos; eu lhe agradeço a sua boa visita; nós temos
passado oito dias de nojo, e foi preciso que Filipe nos trouxesse a notícia de
sua vinda, para reviver nossa antiga alegria; Carolina, por exemplo, desde
ontem à noite já tem estado sofrivelmente travessa.
— Eu, minha avó, sempre tive fama de desinquieta e
prazenteira; e se ontem me adiantei, foi porque chegou-me um companheiro para
traquinar comigo.
— Não o negues, menina; tens estado melancólica e abatida
toda esta semana; eram saudades da agradável companhia que tivemos. Que eram
saudades conheci eu pelos suspiros que soltavas; e também não vai mal nenhum em
confessá-lo.
D. Carolina voltou o rosto. Augusto arregalou os olhos e
sentiu que a ventura lhe inundava o coração.
O mesmo por lá nos sucedeu, disse Filipe, tornando a
palavra; estivemos todos carrancudos e, seja dito em amor da verdade, Augusto,
mais do que nenhum outro, gostou de nosso trato e da nossa companhia; realmente
foi ele o que mostrou sofrer maiores saudades.
— É verdade, sr. Augusto? perguntou a boa hóspeda.
— Minha senhora, a visita que vim ter o gosto de fazer é a
melhor resposta que lhe posso dar.
D. Carolina tinha os olhos em um livro de música, mas seus
ouvidos e sua atenção pendiam dos lábios de Augusto: ouvindo as últimas
palavras do estudante, ela se sorriu brandamente.
— De que estás rindo, Carolina? perguntou Filipe.
— De um engraçado pedacinho da cavatina do Fígaro no
Barbeiro de Sevilha. Então ele examinou o livro e viu que havia mentido, porque
o que tinha diante de seus olhos era uma coleção de modinhas de Laforge.
Duas horas depois serviu-se o almoço. Mas durante essas duas
horas, que se passaram muito depressa, Augusto teve de agradecer as obsequiosas
atenções da avó de Filipe, que dizia ter por ele notável predileção, e também
de reparar com esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos. Em
resultado de suas observações concluiu que d. Carolina estava bonita como
dantes, porém mais lânguida; que às vezes reparava suas indiscrições e que
outras, quando mais parecia ocupar-se com seu alegres trabalhos, olhava-o a
furto, com uma certa expressão de receio, pejo e ardor, que a embelecia ainda
mais.
Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros
objetos; finalmente teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava na mão de
d. Carolina e que, se aí não estivesse, passaria despercebido.
— Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado,
disse Augusto.
— E ir muito longe, respondeu a menina; aí o tem, observe-o
de perto, e repare que barafunda vai por aqui.
Ora, eu acho tudo o melhor possível; ao muito, poder-se-ia
dizer que este X foi marcado por mão de moça travessa.
— Quer dizer que foi pela minha? adivinhou.
— Tem uma bela prenda, minha senhora. Que é muito comum.
— E nem por isso merece menos.
— Eu não entendo assim; aprecio bem pouco o que todo o mundo
pode ter.
Quem não sabe marcar? Eu, minha senhora.
— E porque não quer.
— E porque não posso; eu não me poderia haver com uma agulha
na mão.
— Um dia de paciência lhe seria suficiente.
— Querem ver, acudiu Filipe, que minha maninha resolve
Augusto a aprender a marcar?
— Então, seria isso alguma asneira?
— Não, por certo; maninha pode mesmo dar-te algumas.
— Nada, respondeu a menina; sou muito raivosa e à primeira
linha que ele rebentasse, eu o chamaria a bolos.
— Se é uma condição que oferece, eu a aceito, minha senhora;
ensine-me com palmatória.
— Veja o que diz!...
— Repito-o.
— Pois bem, palmatória não, porque, enfim, podia doer-lhe
muito; mas, de cada vez que eu julgar necessário, dar-lhe-ei um puxão de
orelha.
— Menina! disse a sra. d. Ana.
— Mas minha avó, eu não estou pedindo a ele que venha
aprender comigo.
— Porém podes ensinar-lhe com bons modos.
— E o que pretendo fazer.
— Ele há de aproveitar muito.
— Terá os meus elogios.
— E se por acaso errar alguma vez?
— Levará um puxão de orelha.
Se me é permitido, disse Augusto, aceito as condições.
— Pois bem, respondeu d. Carolina, está o senhor matriculado
na minha aula de marcar e daqui a uma hora principiaremos a nossa lição.
E então ele não passeia comigo? perguntou Filipe.
— Depois da lição, respondeu a mestra, fazendo-se de grave;
antes não lhe dou licença.
Levantaram-se da mesa, e algum tempo foi destinado a
descansar; Filipe desafiou Augusto para uma partida de gamão e incontinente
foram travar combate na varanda. Filipe derrotou seu competidor em três jogos
consecutivos; estavam no começo do quarto, e tocou na sala uma campainha; os
dois estudantes não deram atenção a isso e continuaram; o jogo tornou-se
duvidoso, e qualquer dos dois podia dar ou levar gamão; Augusto acabava de
lançar um dois e ás, que desconcertaram seu antagonista, quando d. Carolina apareceu
e, dirigindo-se ao seu discípulo, disse com engraçada seriedade:
O senhor não ouviu tocar a campainha?
— Então isso era comigo?
— Sim, senhor, são horas de lição, e espero que para outra
vez não me seja preciso chamá-lo.
Aceito a admoestação, minha bela mestra, mas rogo-lhe o
obséquio de consentir que termine esta partida.
— Não, senhor.
— E uma mão de honra!
— Pior está essa!
Ora é boa! acudiu Filipe; então quer você...
— Não tenho a dizer-lhes o que quero, nem o que não quero;
são horas da lição, vamos.
E preciso obedecer, concluiu Augusto levantando-se.
Daí a pouco estava tudo em via de regra; Augusto, sentado em
uma banquinha aos pés de sua bela mestra, escutava, com olhos fitos no rosto
dela, as explicações necessárias. As vezes d. Carolina não podia conservar
imperturbável sua afetada gravidade e então os sorrisos da bela mestra e do
aprendiz graciosamente se trocavam; ela se mostrava mais pacífica e ele menos
atento do que haviam prometido, porque era já pela quarta vez que a bela mestra
recomeçava suas explicações e o aprendiz cada vez a entendia menos.
Filipe apareceu na sala, pronto para ir caçar, e convidou o
seu amigo para com ele partilhar do mesmo prazer. Todo o mundo adivinha que
Augusto disse que não; ele poderia responder que não queria caçar, porque
estava pescando, mas contentou-se com dizer:
— Minha bela mestra não dá licença.
— Tome cuidado no modo de pegar nessa agulha! gritou ela,
com mau modo, e sem se importar com Filipe.
— Está bem, disse este, saindo: eu não os posso aturar.
E depois acrescentou sorrindo-se:
Finque-se aí, sr. Hércules, aos pés da sua bela Onfale!
Ouviu o que ele disse? perguntou Augusto.
Já lhe tenho repetido três vezes que não é assim que se pega
na agulha. Ora, minha senhora...
— Ora, minha senhora!... Ora, minha senhora! Eu não sou sua
senhora, sou sua mestra.
Minha bela mestra!
Digo-lhe que já me vai faltando a paciência. O senhor não
atenta no que faz!... Já tem quatro vezes rebentado a linha e é a décima
segunda que lhe cai o dedal.
— Não se exaspere, minha bela mestra, eu o vou apanhar e não
cairá mais nunca.
Augusto curvou-se e ficou quase de joelhos diante de d.
Carolina; ora, o dedal estava bem junto dos pés dela e o aprendiz, ao
apanhá-lo, tocou, ninguém sabe se de propósito, com seus dedos em um daqueles
delicados pezinhos: esse contato fez mal; a menina estremeceu toda. Augusto
olhou-a admirado, os olhos de ambos se encontraram e os olhos de ambos tinham
fogo. Um momento se passou, e o sossego se restabeleceu.
— Já não posso mais! exclamou a bela mestra; rebentou o
senhor pela quinta vez a linha; não dá um ponto que preste; não há outro
remédio...
E, dizendo isto, lançou uma das mãos à orelha do aprendiz,
que de súbito deu um grito e acudiu com as suas. Ora, essas mãos se encontraram
e nesse ensejo os dedos da bela mestra foram docemente apertados pela mão do
aprendiz. Novo fogo de olhares; que aproveitável lição!
— Menina, tenha modo!... O sr. Augusto não é criança,
exclamou a sra. d. Ana, que a dez passos cosia, e que só podia ver a
exterioridade do que passava entre a bela mestra e o aprendiz.
A lição se prolongou até ao meio-dia e mais de mil vezes se
repetiu a mesma cena do encontro das mãos; d. Carolina não conseguiu puxar uma
só vez a orelha do estudante e o aprendiz não perdeu uma só ocasião de apertar
os dedos da bela mestra. Augusto se comprometeu a apresentar na primeira lição
um nome marcado pela sua mão, e tudo foi às mil maravilhas.
O resto do dia se passou como se havia passado o seu
princípio para Augusto e d. Carolina.
Eles não se chamaram mais por seus nomes próprios, o amor
lhes tinha ensinado outros, eram: "meu aprendiz", e "minha bela
mestra".
A madrugada seguinte foi triste, porque presidiu às
despedidas do aprendiz e sua bela mestra, mas ainda foi bem doce, porque ambos
meigamente se disseram:
— Até domingo!
CAPÍTULO XXI
2o. domingo: brincando com bonecas
Raiou o belo dia, que seguiu a sete outros, passados entre
sonhos, saudades e esperanças. Augusto está viajando, e já não é mais aquele
mancebo cheio de dúvidas e temores da semana passada; é um amante que acredita
ser amado e que vai, radiante de esperanças, levar à sua bela mestra a lição de
marca que lhe foi passada.
O prognóstico de d. Carolina, na gruta encantada, vai-se
verificando: Augusto está completamente esquecido da aposta que fez e do
camafeu que outrora deu à sua mulher. Um bonito rosto moreninho fez olvidar
todos esses episódios da vida do estudante. O. Carolina triunfa, e seu orgulho
de despotazinha de quantos corações conhece deveria estar altaneiro, se ela não
amasse também.
Como da primeira vez, Augusto vê o dia amanhecer-lhe no mar;
e, como na passada viagem, avista sobre o rochedo o objeto branco, que vai
crescendo mais e mais, à medida que seu batelão se aproxima, até que
distintamente conhece nele a elegante figura de uma mulher, bela por força; mas
desta vez, não como da outra, essa figura se demora sobre o rochedo, não
desaparece como um sonho, é uma bonita realidade: é d. Carolina que só desce
dele para ir receber o feliz estudante que acaba de desembarcar.
— Minha bela mestra!
— Meu aprendiz!... Já sei que traz o nome bem marcado.
Oh! Sempre precisarei que me queira puxar as orelhas.
— Não, eu não farei tal na lição de hoje.
— E se eu merecer?
— Talvez.
— Então errarei toda a lição.
Eles se sorriam, mas Filipe acaba de chegar e todos três vão
pela avenida se dirigindo à casa.
Ter a ventura de receber o braço de uma moça bonita e a quem
se ama, apreciar sobre si o doce contato de uma bem torneada mão que tantas
noites se tem sonhado beijar; roçar às vezes com o cotovelo um lugar sagrado;
voluptuoso e palpitante; sentir sob sua face o perfumado bafo que se esvaiu
dentre os lábios virginais e nacarados, cujo sorrir se considera um favor do
céu; o apanhar o leque que escapa da mão que estremeceu, tudo isso... mas para
que divagações? Que mancebo há aí, de dezesseis anos por diante, que não tenha
experimentado esses doces enleios, tão leves para a reflexão e tão graves e
apreciáveis para a imaginação de quem ama? Pois bem, Augusto os está gozando
neste momento; mas, porque só a ele é isto de grande intimidade e convém dizer
apenas o que absolutamente se faz preciso, pode-se, sem inconveniente, abreviar
toda a história de duas boas horas, dizendo-se: almoçaram e chegou a hora da
lição.
— Vamos, disse d. Carolina a Augusto, que estava já
assentado a seus pés e em sua banquinha; vamos, meu aprendiz, o senhor
comprometeu-se a trazer-me um nome marcado pela sua mão; que nome marcou?
— Entendi que devia ser o nome da minha bela mestra.
Ela não esperava outra resposta.
— Vamos, pois, ver a sua obra, continuou, e creia que estou
disposta a perdoar-lhe, como fiz na lição passada. Venha a marca.
Augusto apresentou então um finíssimo lenço aos olhos da sua
bela mestra, que teve de ler em cada ângulo dele o nome Carolina e no centro o
dístico Minha bela mestra. Tudo estava primorosamente trabalhado, e preciso é
confessar: o aprendiz havia marcado melhor do que nunca o tivera feito d.
Carolina.
Augusto esperava com ansiedade ver brilhar nos olhos de sua
bonita querida o prazer da gratidão, e fruía já de antemão o terno
agradecimento com que contava, quando viu, com espanto, que sua bela mestra ia
gradualmente corando e por fim se fez vermelha de cólera e de despeito.
Nunca a mão grosseira de um homem poderia marcar assim!...
disse ela a custo.
— Mas minha bela mestra...
— Eu quero saber quem foi! exclamou com força.
— Eu não entendo...
— Foi uma mulher! Isso não carece que me diga. Uma moça lhe
marcou este lenço para o senhor vir zombar e rir-se de mim, de minha
credulidade, de tudo!...
— Minha senhora...
— Vejam!... Já nem quer chamar-me sua mestra!... Agora só
sabe dizer "minha senhora"!...
A interessante jovem acabava de ser inesperadamente
assaltada de um acesso de ciúme. Augusto estava espantado e a sra. d. Ana,
levantando os olhos ao escutar a última exclamação de sua neta, viu-a correndo
para ela. Que é isto, menina? perguntou.
— Veja, minha querida avó: aqui está a marca que ele me
traz! Eu queria um nome muito mal leito, uma barafunda que se não entendesse, o
pano suado e feio, tudo mau, tudo péssimo, e eu me riria com ele. Sabe, porém,
o que fez? Foi para a corte tomar outra mestra, que não há de ter a minha
paciência nem o meu prazer, mas que marca melhor que eu, que é mais bonita!...
Veja, minha querida avó; ele tem outra mestra, outra bela mestra!...
E dizendo isto, ocultou o rosto no seio da extremosa senhora
e começou a soluçar.
— Que loucura é essa, menina? Que tem que ele tomasse outra
mestra? Pois por isso choras assim?
— Mas nem me quer dizer o nome dela!... Que me importa que
seja moça ou bonita? Nada tenho com isso, porém quero saber-lhe o nome, só o
nome!...
Então ela ergueu-se e, com os olhos ainda molhados, com a
voz entrecortada, mas com toda a beleza da dor e delírio do ciúme, voltou-se
para Augusto e perguntou:
— Como se chama ela?
— Juro que não sei.
— Não sabe?...
— Quis trazer um lenço bem marcado para ostentar meus
progressos e motivar alguns gracejos e mandei-o encomendar a uma senhora muito
idosa, que vive destes trabalhos.
— E verdade.
— Não lhe deram este lenço?
— Paguei-o.
— Pois eu rasgo... Pode fazê-lo.
— Ei-lo em tiras.
— Que fazes, Carolina? exclamou a sra. d. Ana, querendo, já
tarde, impedir que sua neta rasgasse o lenço.
— Fez o que cumpria, minha senhora, acudiu Augusto:
exterminou o mau gênio que acaba de fazê-la chorar.
— E que importa que eu rasgasse uni lenço, minha querida
avó? Peço-lhe licença para dar um dos meus ao sr. Augusto.
A sra. d. Ana, que começava a desconfiar da natureza dos
sentimentos da mestra e do aprendiz, julgou a propósito não dar resposta
alguma, mas nem com isso desnorteou a viva mocinha que, tirando da sua cesta de
costura um lenço recentemente por ela marcado, o ofereceu a Augusto, dizendo:
— Eu não admito uma só desculpa, não desejo ver a menor
hesitação; quero que aceite este lenço.
Augusto olhou para a sra. d. Ana, como para ler-lhe n’alma o
que ela pensava daquilo.
— Pois rejeita um presente da minha neta? perguntou a amante
avó.
A resposta de Augusto foi um beijo na prenda de amor.
— Agora, que já estamos bem, disse ele, vamos à minha lição.
— Não, não, respondeu a bela mestra, basta de marcar; não me
saí bem do magistério, chorei diante do meu aprendiz, não falemos mais nisto.
— Então fui julgado incapaz de adiantamento?
— Ao contrário, pelo trabalho que trouxe, vi que o senhor
estava adiantado demais; porém, sou eu quem tem outros cuidados.
Já tem cuidados?...
— Quem é que deles não carece?… O pai de família tem os
filhos, o senhor os seus livros e eu, que sou criança, tenho as minhas bonecas.
Quer vê-las?
Com o maior prazer.
Um momento depois a sala estava invadida por uma enorme
quantidade de bonecas, cada uma das quais tinha seus parentes, seus vestidos,
jóias e um número extraordinário de bugiarias, como qualquer moça da moda as
tem no seu toucador.
Ora, o tal bichinho chamado amor é capaz de amoldar seus
escolhidos a todas as circunstâncias e de obrigá-los a fazer quanta parvoíce há
neste mundo. O amor faz o velho criança, o sábio doido, o rei humilde cativo;
faz mesmo às vezes, com que o feio pareça bonito e o grão de areia um gigante.
O amor seria capaz de obrigar a um coxo a brincar o tempo-será, a um surdo o
companheiro e a um cego o procura quem
te deu. O amor foi inventor das cabeleiras, dos dentes postiços que... mas,
alto lá! Que isto é bulir com muita gente; enfim, o amor está fazendo um
estudante do quinto ano de medicina passar um dia inteiro brincando com
bonecas.
Com efeito, Augusto já sabe de cor e salteados todos os
nomes dos membros daquela família, conhece os diversos graus de parentesco que
existem entre eles, acalenta as bonecas pequenas, despe umas e veste outras,
conversa com todas, examina o guarda-roupa, batiza, casa, em uma palavra,
dobra-se aos prazeres de sua bela mestra, como uma varinha ao vento.
No entanto a sra. d. Ana os observa cuidadosa; tem
simpatizado muito com Augusto, mas nem por isso quer entregar todo o futuro do
objeto que mais ama no mundo, ao só abrigo do nobre caráter e sérias qualidades
que tem reconhecido no mancebo.
Como de costume, a tarde teve de ser empregada em passeios a
borda do mar e pelo jardim. O maior inimigo do amor é a civilidade, Augusto o
sentiu, tendo de oferecer o braço à sra. d. Ana, mas esta lhe fez cair a sopa
no mel, rogando-lhe que o reservasse para sua neta.
Filipe acompanhava sua avó e na viva conversação que
entretinham, o nome de Augusto foi mil vezes pronunciado.
Uma vez Augusto e Carolina, que iam adiante, ficaram
distantes do par que os seguia.
A mão da bela Moreninha tremia convulsamente no braço de
Augusto e este apertava às vezes contra seu peito, como involuntariamente, essa
delicada mão; alguns suspiros vinham também pertubá-los mais e havia dez
minutos eles se não tinham dito uma palavra.
Em uma das ruas do jardim duas rolinhas mariscavam; mas ao
sentirem passos, voaram e pousando não longe, em um arbusto, começaram a
beijar-se com ternura; e esta cena se passava aos olhos de Augusto e
Carolina!...
Igual pensamento, talvez, brilhou cm ambas aquelas almas,
porque os olhares da menina e do moço se encontraram ao mesmo tempo e os olhos
da virgem modestamente se abaixaram e cm suas faces se acendeu um fogo, que era
o do pejo. E o mancebo, apontando para ambos, disse:
— Eles se amam!
E a menina murmurou apenas:
— São felizes!
— Pois a credita que em amor possa haver felicidades?
— Às vezes.
— Acaso já tem a senhora amado?
— Eu?!... E o senhor?
— Comecei a amar há poucos dias.
A virgem guardou silêncio e o mancebo, depois de alguns
instantes, perguntou tremendo:
— E a senhora já ama também?
Novo silêncio; ela pareceu não ouvir, mas suspirou. Ele
falou menos baixo:
— Já ama também?...
Ela baixou ainda mais os olhos e com voz quase extinta
disse:
— Não sei... talvez.
— E a quem?...
— Eu não perguntei a quem o senhor amava.
Quer que lho diga?... Eu não pergunto.
— Posso eu fazê-lo?
— Não... não lho impeço. É a senhora.
D. Carolina fez-se cor-de-rosa e só depois de alguns
instantes pôde perguntar, forcejando um sorriso:
— Por quantos dias?
— Oh! Para sempre, respondeu Augusto, apertando-lhe
vivamente o braço.
Depois ainda continuou:
— E a senhora não me revela o nome feliz?...
— Eu não... não posso...
— Mas por que não pode?
— Por que não devo.
— E nunca o dirá?!
— Talvez um dia.
— E quando?...
— Quando estiver certa que ele não me ilude.
— Então... ele é volúvel?...
— Ostenta sê-lo...
— Oh!... Pelo céu! ... Acabe de matar-me! ... Basta o nome
pronunciado bem em segredo, bem no meu ouvido, para que ninguém o possa ouvir,
nem a brisa o leve… pelo céu...
— Senhor!...
— Um só nome lhe peço!...
— É impossível! ... Eu não posso...
Se eu perguntasse?... Oh!... Não!...
— Serei eu?...
A virgem tremeu toda e não pôde responder. Augusto lhe
perguntou ainda, com fogo e ternura:
— Serei eu?...
A interessante Moreninha quis falar... não pôde mas, sem o
pensar, levou o braço do mancebo até o peito e lhe fez sentir como o seu
coração palpitava.
— Serei eu?... perguntou uma terceira vez Augusto. com
requintada ternura.
A jovenzinha murmurou uma palavra que pareceu mais um gemido
do que uma resposta, porém que fez transbordar a glória e o entusiasmo da alma
do seu amante; ela tinha dito somente:
— Talvez.
CAPÍTULO XXII
Mau tempo
Tristes dias tem-se arrastado. Augusto está desesperado.
Voltando da ilha de... depois daquele belo dia da declaração de amor achou na
corte seu pai e em poucos momentos teve de concluir, na severidade com que era
tratado, que já alguém o havia prevenido das suas loucuras e dos muitos pontos
que ultimamente tinha dado nas aulas. A mais bem merecida repreensão, e um
discurso cheio de conselhos e admoestações, veio por fim dar-lhe a certeza de
que o seu bom velho estava ciente de tudo.
Para coroar a obra, contra o costume do maior número dos
nossos agricultores que, quando vêm à cidade, estão no caso do fogo viste,
lingüiça? e ainda não puseram os pés no largo do Paço já têm os olhos na praia
Grande (que por estes bons cinqüenta anos há de continuar a ser praia Grande,
apesar de a terem crismado Niterói), o pai de Augusto não falava em voltar para
a roça; e a julgar-se pelo sossego e vagar com que tratava os menos importantes
negócios. parecia haver esquecido a moagem e a safra.
Chegou o sábado. O nosso Augusto, depois de muitos rodeios e
cerimônias, pediu finalmente licença para ir passar o dia de domingo na ilha
de... e obteve em resposta um não redondo; jurou que tinha dado sua palavra de
honra de lá se achar nesse dia e o pai. para que o filho não cumprisse a
palavra, nem faltasse à honra, julgou muito conveniente trancá-lo em seu
quarto.
Mania antiga é essa de querer triunfar das paixões com
fortes meios; erro palmar, principalmente no caso em que se acha o nosso
estudante; amor é um menino doidinho e malcriado que. quando alguém intenta
refreá-lo, chora, escarapela, esperneia. escabuja. morde, belisca, e incomoda
mais que solto e livre; prudente é facilitar-lhe o que deseja, para que ele
disso se desgote; soltá-lo no prado, para que não corra; limpar-lhe o caminho.
para que não passe; acabar com as dificuldades e oposições, para que ele durma
e muitas vezes morra. O amor é um anzol que, quando se engole. agadanha-se logo
no coração da gente, donde, se não é com jeito, o maldito rasga, esburaca e se
aprofunda. Portanto, muita indústria deve ter quem o quer pôr na rua, e para
consegui-lo convém ir despedindo-o com bons modos, parlamentares oferecimentos
e nunca bater-lhe com a porta na cara. Porém os homens, mal passam de certa
idade, só se lembram do seu tempo para gritar contra o atual e esquecem
completamente os ardores da mocidade. O resultado disso é o mesmo que tirara o
pai de Augusto da energia e violência com que procura apagar a paixão do filho.
Já era tarde. Augusto amava deveras, e pela primeira vez cm
sua vida; e o amor, mais forte que seu espírito, exercia nele um poder absoluto
e invencível. Ora, não há idéias mais livres que as do preso; e, pois, o nosso
encarcerado estudante soltou as velas da barquinha de sua alma, que voou,
atrevida, por esse mar imenso da imaginação; então começou a criar mil sublimes
quadros e em todos eles lá aparecia a encantadora Moreninha, toda cheia de
encantos e graças. Viu-a, com seu
vestido branco, esperando-o em cima do rochedo, viu-a
chorar, por ver que ele não chegava, e suas lágrimas queimavam-lhe o coração.
Ouviu-a acusá-lo de inconstante e ingrato, daí a pouco pareceu-lhe que ela
soluçava; escutou um grito de dor semelhante a esse que soltara no primeiro dia
que ele tinha passado na ilha! Aqui, foi o nosso estudante às nuvens; saltou
exasperado fora do leito em que se achava deitado, passou a largos passos por
seu quarto, acusou a crueldade dos pais, experimentou se podia’ arrombar a
porta, fez mil planos de fuga, esbravejou, escabelou-se e, como nada disso lhe
valesse, atirou com todos os seus livros para baixo da cama e deitou-se de
novo, jurando que não havia de estudar dois meses. Carrancudo e teimoso, mandou
voltar o almoço, o jantar e a ceia que lhe trouxeram, sem tocar num só prato; e
sentindo que seu pai abria a porta do quarto, sem dúvida para vir consolá-lo e
dar-lhe salutares conselhos, voltou o rosto para a parede e principiou a roncar
como um endemoninhado.
— Já dormes, Augusto? perguntou o bom pai, abrindo as
cortinas do leito.
A única resposta que obteve foi um ronco que mais
assemelhou-se a um trovão.
O experimentado velho fingiu ter-se deixado enganar, e
retirando-se, trancou a porta ao pobre estudante.
Uma noite de amargor foi, então, a que se passou para este;
na solidão e silêncio das trevas, a alma do homem que padece é, mais que nunca,
toda de sua dor; concentra-se, mergulha-se inteira em seu sofrimento, não
concebe; não pensa, não vela e não se exalta senão por ela. Isto aconteceu a
Augusto, de modo que, ao abrir-se na manhã seguinte a porta do quarto, o pai
veio encontrá-lo ainda acordado, com os olhos em fogo e o rosto mais
enrubescido que de ordinário.
Augusto quis dar dois passos e foi preciso que os braços
paternais o sustivessem para livrá-lo de cair.
— Que fizeste, louco? perguntou o pai, cuidadoso.
— Nada, meu pai; passei uma noite em claro, mas… eu não
sofro nada.
Oh! ele queria dizer que sofria muito!
Imediatamente foi-se chamar um médico que, contra o costume
da classe, fez-se esperar pouco.
Augusto sujeitou-se com brandura ao exame necessário e
quando o médico lhe perguntou:
— O que sente?
Ele respondeu com toda fria segurança do homem determinado:
— Eu amo.
— E mais nada?
— Oh! Sr. doutor, julga isso pouco?
E além destas palavras não quis pronunciar mais uma única
sobre o seu estado. E, contudo, ele estava em violenta exacerbação. O médico
deu por terminada a sua visita. Algumas aplicações se fizeram e um dos colegas
de Augusto, que o tinha vindo procurar, fez-lhe o que chamou uma bela sangria
de braços.
A enfermidade de Augusto não cedeu, porém, com tanta
facilidade como a princípio supôs o médico, e três dias se passaram sem
conseguir-se a mais insignificante melhora; uma mudança apenas se operou: a
exacerbação foi seguida de um abatimento e prostração de força notável; sua
paixão, que também se desenhava no ardor dos olhares, na viveza das expressões
e na audácia dos pensamentos, tomou outro tipo: Augusto tornou-se pálido,
sombrio e melancólico; horas inteiras se passavam sem que uma só palavra fosse
apenas murmurada por seus lábios, prolongadas insônias eram marcadas minuto a
minuto por dolorosos gemidos; e seus olhos, amortecidos, como que obsequiavam a
luz quando por acaso se entreabriam.
Na visita do quarto dia o médico disse ao pai de Augusto:
— Não vamos bem...
Uma idéia terrível apareceu então no pensamento do sensível
velho: a possibilidade de morrer seu filho, a flor de suas esperanças, e tal
idéia derramou em seu coração todo esse fel, cujo amargor só pode sentir a alma
de um pai; entrou apressado e trêmulo no quarto do enfermo, e vendo-o prostrado
no leito, como insensível, como meio morto, exclamou com lágrimas nos olhos:
— Oh! Meu filho!... Meu filho!... Por que me queres matar?
Um brando favônio de vida passeou pelo rosto de Augusto;
seus olhos se abriram, um leve sorriso de gratidão lhe alisou os lábios, também
duas lágrimas ficaram penduradas em suas pálpebras e ele, tomando e beijando a
mão paterna, murmurou com voz sumida e terna:
— Meu pai... tão bom!...
Doces frases que retumbaram com mais doçura ainda no coração
do velho.
— Querido louco! ... disse ele: tu me obrigas a fazer
loucuras!
E saiu do quarto e logo depois de casa, mas, voltando
passadas algumas horas, entrou de novo na câmara do doente; fez retirar todas
as pessoas que aí se achavam e, ficando só com ele, deu-lhe provavelmente algum
elixir tão admirável, que as melhoras começaram a parecer como por
encantamento, no mesmo instante. Que milagre não será capaz de fazer o amor dos
pais?...
Novidades do mesmo gênero perturbavam a paz e os prazeres da
ilha de... D. Carolina também padecia. Os nossos amantes acabavam de chegar ao
sentimental, e com seu sentimentalismo estavam azedando a vida dos que lhes
queriam bem. Os namoradores são semelhantes às crianças: primeiro divertem-nos
com suas momices, depois incomodam-nos choramingando.
A bela Moreninha tinha visto romper a aurora do domingo, no
rochedo da gruta, e tendo, debalde, esperado o seu estudante até alto dia,
voltou para casa arrufada. No almoço não houve prato que não acusasse de mal
temperado: faltavalhe o tempero do amor; o chá não se podia tomar, o dia estava
frio de enregelar, toda a gente de sua casa a olhava com maus olhos, e seu
próprio irmão tinha um deleite imperdoável: era estudante, pertencia a uma
classe cujos membros eram, sem exceção, sem exceção nenhuma (bradava ela
lindamente enraivecida), falsos, maus, mentirosos e até... feios. A tarde
sentiu-se incomodada. Retirou-se, não ceou e não dormiu.
Tudo neste mundo é mais ou menos compensado, e o amor mio
podia deixar de fazer parte da regra. Ele, que de um nadazinho tira motivos
para o prazer de dias inteiros, que de uma flor já murcha engendra o mais vivo
contentamento, que por um só cabelo faz escarcéus tais, que nem mesmo a sorte
grande os causaria, que por uma cartinha de cinco linhas põe os lábios de um
pobre amante em inflamação aguda com o estalar de tantos beijos, se não
produzisse também agastados arrufos, às vezes algumas cólicas, outras amargores
de boca, palpitações, ataques de hipocondria, pruído de canelas etc., seria tão
completa a felicidade cá embaixo, que a terra chegaria a lembrar-se de ser
competidora do céu.
Um exemplo dessa regra está sendo a nossa cara menina.
Coitadinha! Vai passando uma semana de ciúmes e amarguras; acordando-se ao
primeiro trinar do canário, ela busca o rochedo, e com os olhos embebidos no
mar, canta muitas vezes a balada de Ahy, repetindo com fogo a estrofe que tanto
lhe condiz, por principiar assim:
"Eu tenho quinze anos
E sou morena e linda".
E quando o sol começa a fazer-se quente, deixa o rochedo,
para passar o dia inteiro no fundo do seu gabinete, ou ao lado de sua boa avó,
que mal pode consolála, porque, conhecendo já a causa da tristeza da querida
neta, teme vê-la fugir vermelha de pejo, se não fingir com finura ignorar o
estado de seu coração.
O dia de sexta-feira trouxe ainda algumas novidades à ilha
de... A sra. d. Ana recebeu cartas que a tornaram talvez menos triste, mas, sem
dúvida, muito pensativa. A presença da linda neta parecia alentar mais essas
reflexões, que se prolongaram até à tarde do dia seguinte, em que um velho e
particular amigo de sua família veio da corte visitá-la e com a respeitável
senhora ficou duas horas conferenciando a sós.
Esse homem despediu-se, enfim, da sra. d. Ana, deixando-a
cheia de prazer; e no momento em que saltava dentro do seu batei, vendo a
interessante Moreninha que tristemente passeava à borda do mar, saudou-a com
esta simples palavra, apontando para o céu:
— Esperança!
D. Carolina levantou a cabeça e viu que já o batel cortava
as ondas mas, como para corresponder a tão animador cumprimento, ela por sua
vez, apontou também para o céu, e pondo a outra não no lugar do coração disse:
— Esperarei.
CAPÍTULO XXIII
A esmeralda e o camafeu
D. Carolina passou uma noite cheia de pena e de cuidados,
porém já menos ciumenta e despeitada; a boa avó livrou-a desses tormentos. Na
hora do chá, fazendo com habilidade e destreza cair a conversação sobre o
estudante amado, dizendo:
— Aquele interessante moço, Carolina, parece pagar-nos bem a
amizade que lhe temos, não entendes assim?...
— Minha avó… eu não sei.
— Dize sempre, pensarás acaso de maneira diversa?...
A menina hesitou um instante e depois respondeu:
— Se ele pagasse bem, teria vindo domingo.
— Eis uma injustiça, Carolina. Desde sábado à noite que
Augusto está na cama, prostrado por uma enfermidade cruel.
— Doente?! exclamou a linda Moreninha, extremamente
comovida. Doente?...
Em perigo?...
— Graças a Deus, há dois dias ficou livre dele; hoje já pôde
chegar à janela, assim me mandou dizer Filipe.
— Oh! Pobre moço!... Se não fosse isso, teria vindo
ver-nos!...
E, pois, todos os antigos sentimentos de ciúme e temor da
inconstância do amante se trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua
moléstia.
No dia seguinte, ao amanhecer, a amorosa menina despertou, e
buscando o toucador, há uma semana esquecido, dividiu seus cabelos nas duas
costumadas belas tranças, que tanto gostava de fazer ondear pelas espáduas,
vestiu o estimado vestido branco e correu para o rochedo.
— Eu me alinhei, pensava ela, porque enfim... hoje é domingo
e talvez… como ontem já pôde chegar à janela, talvez consiga com algum esforço
vir ver-me.
E quando o sol começou a refletir seus raios sobre o liso
espelho do mar, ela principiou também a cantar sua balada:
"Eu tenho quinze anos
E sou morena e linda ."
Mas, como por encantamento, no instante mesmo em que ela
dizia no seu canto:
"Lá vem sua piroga Cortando leve os mares".
um lindo batelão apareceu ao longe, voando com asa
intumescida para a ilha.
Com força e comoção desusadas bateu o coração de d.
Carolina, que calouse para só empregar no batel que vinha atentas vistas,
cheias de amor e de esperança. Ah! Era o batel suspirado.
Quando o ligeiro barquinho se aproximou suficientemente, a
bela Moreninha distinguiu dentro dele Augusto, sentado junto a um respeitável
ancião, a quem não pôde conhecer; então, ela, vendo que chegavam à praia,
fingiu não tê-los sentido e continuou sua balada:
"Enfim abica à praia
Enfim salta apressado..."
Augusto, com efeito, saltava nesse momento fora do batel, e
depois deu a mão a seu pai para ajudá-lo a desembarcar; d. Carolina, que ainda
não mostrava dar fé deles, prosseguiu seu canto até que quando dizia:
"Quando há de ele correr Somente pra me ver...
sentiu que Augusto corria para ela. Prazer imenso inundava a
alma da menina, para que possa ser descrito; como todos prevêem, a balada foi
nessa estrofe interrompida e d. Carolina, aceitando o braço do estudante,
desceu do rochedo e foi cumprimentar o pai dele.
Ambos os amantes compreenderam o que queria dizer a palidez
de seus semblantes e os vestígios de um padecer de oito dias guardaram silêncio
e não tiveram uma palavra para pronunciar; tiveram só olhares para trocar e
suspiros a verter. E para que mais?... A sra. d. Ana recebeu com sua costumada
afabilidade o pai de
Augusto e abraçou a este com ternura. Ao servir-se o almoço,
ela lhe perguntou:
— Por que não veio o meu neto?
— Ficou para vir mais tarde, com os nossos dois amigos
Leopoldo e Fabrício.
— Eu o espero.
— Então teremos um excelente dia.
Uma hora depois o pai de Augusto e a sra. d. Ana
conferenciavam a sós, e os dois namorados achavam-se, defronte um do outro, no
vão de uma janela.
E eles continuavam no silêncio, mas olhavam-se com fogo.
Augusto parecia querer comunicar alguma coisa bem
extraordinária à sua interessante amada, porém sempre estremecia ao entreabrir
os lábios.
E d. Carolina, cônscia já de sua fraqueza, e como
lembrando-se dos pesares que tinha sofrido, não sabia mais servir-se de seus
sorrisos com a malícia do tempo da liberdade e mostrava-se esquecida de seu
viver de alegrias e travessuras.
Alguma grande resolução obrigava o moço a estar silencioso,
como tremendo pelo êxito dela...
No fim de muito tempo eles haviam conseguido dizer-se:
— O mar está bem manso.
— O dia está sereno.
Felizmente para eles a sra. d. Ana convidou-os a entrar no
gabinete. Augusto para aí se dirigiu tremendo, d. Carolina curiosa. Quando eles
se sentaram, o ancião falou:
— Augusto, eu acabo de obter desta respeitável senhora a
honra de te julgar digno de pretenderes a mão de sua linda neta, e agora resta
que alcances o sim da interessante pessoa que amas. Fala.
Tanto d. Carolina como o pobre estudante ficaram cor de
nácar; houve bons cinco minutos de silêncio e o pai de Augusto instou para que
ele falasse, e o bom do rapaz não fez mais do que olhar para a moça, com
ternura, abrir a boca e fechá-la de novo, sem dizer palavra.
A sra. d. Ana tomou, então, a palavra e disse sorrindo-se:
— Enfim, é necessário que os ajudemos. Carolina, o sr.
Augusto te ama e te quer para sua esposa; tu que dizes?...
Nem palavra.
Foi preciso que se repetisse pela terceira vez a pergunta,
para que a menina, sem levantar a cabeça, murmurasse apenas:
— Minha avó… eu não sei.
— Pois creio que ninguém melhor que tu o poderá saber.
Desejas que eu responda em teu nome?...
A bela Moreninha pensou um momento... não pôde vencer-se,
sorriu-se como se sorria dantes, e erguendo a cabeça disse:
— Eu rogo que daqui a meia hora se vá receber a minha
resposta na gruta do jardim.
— Quererás consultar a fonte? Pois bem, iremos.
D. Carolina saiu com ar meio acanhado e meio maligno.
Passados alguns instantes a sra.. d. Ana, como quem estava
certa do resultado da meia hora de reflexão, e já por tal podia gracejar com os
noivos, disse a Augusto:
— O sr. não quer refletir também no jardim?
— O estudante não esperou segundo conselho e para logo
dirigiu-se à gruta.
D. Carolina estava sentada no banco de relva, e seu rosto,
sem poder ocultar a comoção e o pelo que lhe produzia o objeto de que se
tratava, tinha, contudo, retomado o antigo verniz do prazer e malícia. Vendo
entrar o moço, disse:
— Eu creio que ainda se não passou meia hora.
— Ah! Podia eu esperar tanto tempo?...
— Acaso veio perguntar-me alguma coisa?...
— Não, minha senhora, eu só venho ouvir a minha sentença.
— Então... pede-me para sua esposa. A senhora o ouviu há
pouco.
— Pois bem, sr. Augusto, veja como verificou—se o
prognóstico que fiz do seu futuro! Não se lembra que aqui mesmo lhe disse que
não longe estava o dia em que o sr. havia de esquecer sua mulher?
— Mas eu nunca fui casado... murmurou o estudante.
— Oh! Isso é uma recomendação contra a sua constância! E
quem tem a culpa de tudo, senhora?
— Muito a tempo ainda me lança em rosto a parte que tenho na
sua infidelidade; pois, eu emendarei a mão agora. O senhor há de cumprir a
palavra que deu há sete anos!
Augusto recuou dois passos.
— O senhor é um moço honrado, continuou a cruel Moreninha,
e, portanto, cumprirá a palavra que deu, e só casará com sua desposada antiga.
— Oh!... Agora já é impossível!
— Ela deve ser uma bonita moça! ... Teria razão de
queixar-se contra mim, se eu roubasse um coração que lhe pertence… até por
direito de antiguidade; ora, eu, apesar de ser travessa, não sou má, e,
portanto, o senhor só será esposo dessa menina.
— Jamais!
— Juro-lhe que há de sê-lo.
— E quem me poderá obrigar?
— Eu, pedindo.
— A senhora?
— E a honra, mandando.
— Para que, pois, animou o amor que pela senhora sinto?...
— Para satisfazer a minha vaidade de moça, somente para
isso. Eu o ouvi gabar-se de que nenhuma mulher seria capaz de conservá-lo em
amoroso enleio por mais de três dias, e desejei vingar a injúria feita ao meu
sexo. Trabalhei, confesso que trabalhei para prendê-lo; fiz talvez mais do que
devia, só para ter a glória de perguntar-lhe uma vez, como agora o faço:
"Então, senhor, quem venceu: o homem ou a mulher9
— Foi a beleza.
— Porém já passou o tempo do galanteio, e eu devo
lembrar-lhe o dever que com a paixão esquece. Escute: de idade de treze anos o
senhor amou uma linda e travessa menina, que contava apenas sete.
— Já a senhora em outra ocasião me disse isso mesmo.
— Junto ao leito de um moribundo jurou que havia de amá-la
para sempre.
— Foi um juramento de criança.
— Embora, foi um juramento; trocou com ela aí mesmo prendas
de amor, e quando a menina lhe apresentar a que recebeu e lhe pedir a que
ofereceu e o senhor o aceitou?...
— Ah! Senhora...
— Quando o velho moribundo, dando-lhe o breve de cor branca
disse: tomai este breve, cuja cor exprime a candura da alma daquela menina; ele
contém vosso camafeu; se tendes bastante força para ser constante e amar para
sempre aquele belo anjo, dai-lho, para que ela o guarde com desvelo. Por que
deu o senhor o breve à menina?...
— Porque eu era um louco, uma criança!...
— E nem ao menos se lembra de que o velho disse com voz
inspirada: "Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!... Lá no futuro
vós o sentíreis?" Não tem o senhor esperança de ver realizar-se essa bela
profecia? Não se lembra de ouvi-la? Pois ela soou bem docemente no meu coração
quando, às escondidas, a escutei repetida nesta gruta por seus lábios.
— Oh! Mas porque Deus não me prendeu a essa menina nos laços
indissolúveis, antes que eu visse o lindo anjo desta ilha?
— E como, senhor, posso eu acreditar nos seus protestos de
ternura e constância, se já o vejo faltar à fé de outra?…Senhor! Senhor! O que
foi que prometeu há sete anos passados?...
— Então eu não pensava no que fazia. E agora pensa no que
quer fazer?
— Penso que sou um desgraçado, um louco!... Penso que é uma
barbaridade inqualificável que, enquanto eu padeço, sofro mil torturas, deixe a
senhora brincar nos seus lábios o sorriso com que costuma encantar para matar;
penso...
— Acabe!
— Penso que devo fugir para sempre desta ilha fatal, deixar
aquela cidade detestável, abandonar esta terra de minha pátria, onde não posso
ser outra vez feliz!... Penso que a lembrança do meu passado faz a minha
desgraça, que o presente me enlouquece e me mata, que o futuro... Oh! Já não
haverá futuro para mim! Adeus, senhora! — Então, parte?…
— E para sempre.
D. Carolina deixou cair uma lágrima e falou ainda, mas já
com voz fraca e trêmula:
— Sim, deve partir... vá... Talvez encontre aquela a quem
jurou amor eterno...
Ah! Senhor! Nunca lhe seja perjuro.
— Se eu a encontrasse!
— Então?... Que faria?...
— Atirar-me-ia a seus pés, abraçar-me-ia com eles e lhe
diria:
"Perdoai-me, perdoai-me, senhora, eu já não posso ser
vosso esposo! Tomai a prenda que me deste..."
E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve, que
convulsivamente apertou na mão.
— O breve verde!…, exclamou d. Carolina, o breve que contém
a esmeralda!
— Eu lhe diria, continuou Augusto: "Recebei este breve
que já não devo conservar, porque eu amo outra que não sois vós, que é mais
bela e mais cruel do que vós!..."
A cena estava se tornando patética; ambos choravam e só
passados alguns instantes, a inexplicável Moreninha pôde falar e responder ao
triste estudante.
— Oh! Pois bem, disse; vá ter com sua antiga desposada,
repita-lhe o que acaba de dizer, e se ela ceder, se perdoar, volte que eu serei
sua... esposa.
— Sim... eu corro... Mas meu Deus, onde poderei achar essa
moça a quem não tornei a ver, nem poderei conhecer?... Onde, meu Deus?...
Onde?...
E tornou a deixar correr o pranto por um momento suspenso.
— Espere, tornou d. Carolina, escute, senhor. Houve um dia,
quando minha mãe era viva, em que eu também socorri um velho moribundo. Como o
senhor e sua camarada, matei a fome de sua família e cobri a nudez de seus
filhos; em sinal de reconhecimento também este velho me fez um presente; deu-me
uma relíquia milagrosa que, asseverou-me ele, tem o poder uma vez, na vida de
quem a possui, de dar o que se deseja. Eu cosi essa relíquia dentro de um
breve; ainda não lhe pedi coisa alguma, mas trago-a sempre comigo; eu lha
cedo... tome o breve, descosa-a, tire a relíquia e à mercê dela talvez encontre
sua antiga amada. Obtenha o seu perdão e me terá por esposa.
— Isto tudo me parece um sonho, respondeu Augusto, porém,
dê-me, dê-me esse breve!
A menina, com efeito, entregou o breve ao estudante, que
começou a descosê-lo precipitadamente. Aquela relíquia, que se dizia milagrosa,
era sua última esperança; e, semelhante ao náufrago que no derradeiro extremo
se agarra à mais leve tábua, ele se abraçava com ela. Sé faltava a derradeira
capa do breve.., ei-la que cede e se descose alta uma pedra... e Augusto,
entusiasmado e como delirante, cai aos pés de d. Carolina, exclamando:
— O meu camafeu!…O meu camafeu!...
A senhora d. Ana e o pai de Augusto entraram nesse instante
na gruta e encontraram o feliz e fervoroso amante de joelhos e a dar mil beijos
nos pés da linda menina, que também por sua parte chorava de prazer.
— Que loucura é esta? perguntou a senhora d. Ana.
— Achei minha mulher!... bradava Augusto; encontrei minha
mulher! … Encontrei minha mulher!
— Que quer dizer isto, Carolina?...
— Ah! Minha boa avó!… respondeu a travessa Moreninha
ingenuamente; nós éramos conhecidos antigos.
Epílogo
A chegada de Filipe, Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais
viveza ao prazer que reinava na gruta. O projeto de casamento de Augusto e d.
Carolina não podia ser um mistério para eles, tendo sido, como foi, elaborado
por Filipe. de acordo com o pai do noivo, que fizera a proposta, e com o velho
amigo, que ainda no dia antecedente viera concluir os ajustes com a senhora d.
Ana e portanto, o tempo que se gastaria em explicações passou-se em abraços.
— Muito bem! Muito bem! disse por fim Filipe; quem pôs o
fogo ao pé da pólvora fui eu, eu que obriguei Augusto a vir passar o dia de
Sant’Ana conosco.
— Então estás arrependido?...
— Não, por certo, apesar de me roubares minha irmã.
Finalmente para este tesouro sempre teria de haver uni ladrão: ainda bem que
foste tu que o ganhaste.
— Mas, meu maninho, ele perdeu ganhando...
— Como?...
Estamos no dia 20 de agosto: um mês!
— E verdade! Um mês!... exclamou Filipe.
— Um mês! ... gritaram Fabrício e Leopoldo.
— Eu não entendo isto, disse a senhora d. Ana.
Minha boa avó, acudiu a noiva, isto quer dizer que,
finalmente, está presa a borboleta.
— Minha boa avó, exclamou Filipe, isto quer dizer que
Augusto deve-me um romance.
— Já está pronto, respondeu o noivo.
— Como se intitula?
A Moreninha.
FIM
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.