Por Gregório de Matos (1969)
Estes textos compõem a lírica satírica de Gregório de Matos, produzida na Bahia seiscentista (século XVII). O autor retrata, com ironia e erotismo, seus desencontros amorosos e as tensões sociais envolvendo "Betica", uma meretriz da época. Os versos expõem a boemia, o jogo de interesses financeiros e a vida cotidiana soteropolitana, marcada por invejas e rivalidades amorosas.
Vista do Poeta em certa manhã à sua janella.
Manuel Pereira Rabelo, licenciado
Uma confusão das bocas
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta
FOY ESTA DAMA VISTA DO POETA EM CERTA MANHÃ A SUA JANELLA, E ELLE LHE DÀ OS BONS DIAS COM ESTE GRACIOSSISSIMO ROMANCE.
Ontem ao romper da Aurora,
começando o amanhecer,
vi desta parte do ocaso
dois sóis, a quem quero bem.
Que fazendo oposições
com brilhantes rosicler,
ao sol, que de envergonhado
se começava a esconder.
Eclipsados vi seus raios,
mas quem suas luzes vê,
nas admirações se pasma,
nas invejas perde o pé.
Que a beleza singular,
que ostentam seus olhos, sei,
que o sol não quer competi-la,
porque a saiba engrandecer.
Cegam os seus resplandores,
e de tal sorte me tem,
que não como ao sol me escondo,
porém morro por te ver.
Como cega barboleta
ao fogo da minha fé
se queima a desconfiança
de nunca te merecer.
Valha-te Deus por Betica,
não sei dizer-te, meu bem,
como vivo enamorado,
como estou, não sei dizer.
Porque entre o doce de amar-te,
e o amargo de te não ver,
hei de viver da esperança
ou da saudade morrer.
Tua rara formosura,
eu a não sei comprender,
porque um não és tens de humana,
e um quase divina és.
E já que nesta cegueira
tua beleza me tem,
ou me corresponde amante,
ou me acaba de uma vez.
Porque tão confuso vivo,
tão triste me chego a ver,
tão temeroso me atrevo,
que é um abismo cruel.
Tal abismo o peito sente:
ora permite, meu bem,
diminuir os incêndios,
acabe-se o padecer.
Toma o astuto Piloto
o sol, só para saber,
se se acha na boa altura,
mas sem carta nada fez.
E pois no mar de meus olhos
perigos receia a fé,
manda-me, por não perder-te,
uma carta desta vez.
Dá-me velas à esperança,
com elas marearei,
já que o fogo da vontade
sempre está firme a teus pés.
PASSOU O POETA PELA PORTA DESTA DAMA, ARRIBANDO DE FORA POR CAUSA DA CHUVA, COM HUM CASACÃO, E HUA CARAPUÇA. E ELLA LHE DICE, QUE SE FORA POETA, COMO ELLE, O HAVIA DE SATYRIZAR PELO DESCOCO: AO QUE ELLE FEZ ESTAS DÉCIMAS.
1 Que não vos enganais, digo,
Betica, e antes cuidai,
que uma sátira a meu Pai
farei, se bulir comigo:
fá-la-ei ao mor amigo,
quando aleivoso me toe,
e porque melhor vos soe,
se vos pus em tanta calma,
sendo meu ídolo d'alma,
a quem quereis, que perdoe?
2 E se mal vos pareceu,
que eu fosse por esse posto
tão despido, e descomposto,
sem ter respeito a esse céu,
bem sabeis vós, que choveu,
e eu vinha de me embarcar:
porém entoldou-se o ar,
e para casa arribei,
com que se desagradei,
quero-me satirizar.
3 Betica, eu sou um magano,
um patife, um mariola,
um sátiro, um salvajola,
e mais doudo que um galhano:
de pois de ser vosso mano,
em tempo, que eu era honrado,
fui muito desaforado
em ir pela vossa rua
com barrete de falua,
e o pá de gato pingado.
4 Sou um sujo, e um patola,
de mau ser, má propensão,
porque se gasto o tostão,
é só com negras de Angola:
um sátiro salvajola,
a quem a universidade
não melhorou qualidade,
nem juízo melhorou,
e se acaso lá estudou,
foi loucura, e asnidade.
5 Sou um tonto, e um cabaça,
pois fui qual bruto indigesto,
onde os mais compõem o gesto
por cair na vossa graça:
e se então fugi da praça,
onde estão homens de porte,
bem é, que a praça me corte,
pois atento à vossa fé
devia de entender, que
onde vós estais, é corte.
6 Se da sátira entenderes,
que pouco pesada vai,
vós, Betica, a acrescentai,
chamando-me, o que quiseres:
quantos nomes me puseres,
todos me viram frisando,
e se enfim acrescentando
não vos parecer bastante,
mudai-os de instante a instante,
pondo-me uns, e outros tirando.
INDO O POETA, E GONÇALLO RAVASCO A CASA DE BETICA E QUERENDO TRATAR COM ELLA LHE PEDIO HUA GALA DE ANTEMÃO.
Fui, Betica, à vossa casauma noite de luar
(continua...)
MATOS, Gregório de. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1969.