Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Publicado postumamente em 1909, À Margem da História reúne ensaios e reportagens de Euclides da Cunha sobre a região amazônica e seus habitantes. A obra aborda temas como a exploração da borracha, as condições de vida dos trabalhadores e os desafios enfrentados nas fronteiras brasileiras, revelando aspectos pouco conhecidos do país e refletindo sobre questões sociais, econômicas e territoriais do início do século XX.

Introdução

Foi Coelho Neto, grande amigo de Euclides, que o induziu a editar seus livros na Editora Lello, de Portugal. O êxito editorial do autor de Livro de Prata (pelo assunto e pelo estilo) o animou a aconselhar seu colega da Academia à prestigiosa casa do Pôrto.

A morte inesperada de Euclides, porém, as naturais dificuldades para os necessários contatos com editores e a falta de afinidade dos portugueses com a temática euclidiana fizeram com que as seguintes edições de Contrastes e Confrontos e À Margem da História se espaçassem cada vez mais e não tivessem a indispensável assistência direta do Autor, ou de revisores afeitos à matéria.

À Margem da História (obra póstuma que só saiu um mês após a morte do escritor) vem em sua 1ª edição - provavelmente pela falta de uma revisão final de Euclides — eivada de erros e descuidos. Graças ao zelo de seus editores, as edições seguintes se apresentam mais corretas e melhor revistas.

Sendo crescente entre nós o interesse pela obra euclidiana e dada a importância dos livros para a perfeita compreensão da problemática do Autor, impunha-se fossem eles editados entre nós, na nossa ortografia e sob nosso cuidados revisarias.

Graças aos entendimentos da Editora Lello Brasileira, de São Paulo, conseguindo autorização da Editora Lello, do Pôrto, e com o estabelecimento de textos feito pelo Sr. Dermal Monfré, temos agora (como iniciativa da editora nacional em comemoração ao Ano Euclidiano) os dois livros editados no Brasil.

À Margem da História compõe-se de quatro partes: Na Amazônia, Terra Sem História (7 capítulos, sobre essa região), Vários Estudos (3 capítulos, assuntos americanos), Da Independência à República (ensaio histórico) e Estrelas Indecifráveis (crônica).

O livro apresenta, bem nítidas, quatro constantes da personalidade cultural de Euclides: o cultor da língua e verdadeiro esteta da linguagem, o ensaísta e o humanista brasileiro.

Não há preciosismo no falar euclidiano; há, sim, o rigorismo da palavra exata. Seu vocabulário riquíssimo, técnico e profissional quando necessário, era-lhe o instrumento próprio para captar todas as sutilezas da realidade e expor o logicismo de seu raciocínio de investigador e a lucidez do intérprete.

Nas palavras densas, carregadas de emoções e evocações, dispostas numa estruturação sintática de ritmo veemente, que se torna frêmito de vida e poesia, temos a própria autenticidade de Euclides, numa linguagem que é bem tropicalmente brasileira, no transbordamento fenomenológico de formas, sons, calor e luz. Se n’Os Sertões ele foi mais improvisado e por isso mais grandiloqüente e espetacular, agora ei-lo mais equilíbrio e maturidade. O capítulo Judas Ahsverus (que nasceu inteiriço como um bloco de beleza) continua sendo uma das melhores páginas da língua portuguesa.

O espírito científico de Euclides, sempre estudando e sumariando os assuntos (formado na juventude conforme o espírito da época), dado a hipóteses e prefigurações muitas vezes discutíveis, extravasa-se na insopitável vocação ao ensaísmo, exigindo-lhe conhecimentos e pesquisas, para que se torne mais lúcido, mais penetrante, melhor intérprete. Por isso achamos que há necessidade de uma iniciação cultural para se sentir e compreender Euclides. Não estranhamos ser ele um escritor pouco popular. Sua irrefreável tendência à interpretação fisiológica dos fenômenos naturais mostra-se através de uma vibração romântica e idealística, fazendo surgir, dos algarismos e teorias, sua figura inigualável de artista.

Euclides é inesgotável. Por mais que se queira defini-lo e caracterizá-lo, ainda se descobrem novas veredas e magníficas perspectivas que escaparam à delimitação...

Seu tema central é a pátria e a gente brasileira. N’Os Sertões o objetivo último é o homem; n'Amazonia, o tema principal é a terra.

Seu nacionalismo mais se prende à preocupação do bem comum e da denúncia das estruturas desequilibradas de nossa sociedade. Já de algum tempo era sua intenção escrever um "segundo livro vingador". Deveria referir-se à Amazônia, acusando os descasos pela terra e o desprezo pelo homem.

Deveria chamar-se Paraíso Perdido.

Não o completou, porém, e alguns de seus capítulos constituem a Terra Sem História, que abre este volume.

São, no entender de alguns euclidianos, as mais expressivas e belas páginas de Euclides.

Quando, em 1904, escreveu a José Veríssimo sobre sua ida ao Acre (como Chefe da Comissão de Reconhecimento das Nascentes do Rio Purus) confessa o intento: "Aquelas paragens, hoje, depois dos últimos movimentos diplomáticos, estão como o Amazonas antes de Tavares Bastos; se eu não tenho a visão admirável deste, tenho o seu mesmo anelo de revelar os prodígios da nossa terra".

Seu desejo era mostrar os aspectos físicos e as riquezas essenciais da exuberante região.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →