Por Machado de Assis (1859)
Machado de Assis (1839–1908), maior nome do Realismo brasileiro, explora neste conto temas como interesse, casamento por conveniência e conflito entre amor e ambição. A narrativa acompanha disputas familiares e morais em torno de uma jovem viúva, revelando ironia e crítica social típicas do autor. A data e o local da publicação original não puderam ser precisamente determinados.
CAPÍTULO I
Conheceis Antônio Alves das Antas? É um homem de cinqüenta anos, viúvo, senhor de uma fortuna de oitenta contos, e pai de um filho de vinte e dois anos e cerca de trinta vícios e defeitos.
Tendo liqüidado os seus negócios em 1855, Alves recolheu-se à vida privada, sem todavia deixar de ir uma ou outra vez furtivamente à praça do comércio, onde fazia alguns negócios seguros que lhe aumentavam a renda da fortuna.
Se um Rothschild ou um Westminster lesse estas linhas perguntar-me-ia se eu chamo fortuna a uns oitenta contos, que, na opinião daqueles dois nababos, nem chegam para a cova de um dente.
Dispenso-me de dar resposta a essa pergunta provável; mas acrescentarei, por amor da fidelidade histórica, que Antônio Alves das Antas também pensava como pensaria Westminster, e era por isso que meditava uma grande e famosa operação econômica, que seria a coroa da sua vida.
A operação era casar o filho.
Resultava-lhe daí nada menos de quinhentos contos em boa moeda e excelentes prédios.
Conhecendo o caráter do rapaz, que era tíbio e sem iniciativa, o pai tencionava sacrificar os últimos anos da sua vida, tomando a direção da fortuna para aumentá-la e multiplicá-la, e estava tão certo nos seus cálculos, que contava ficar ele próprio, no fim de cinco anos, com uma conta redonda de duzentos contos.
Ninguém conhecia, nem esse projeto, nem os meios de que ele dispunha para produzir a operação comercial.
Se já sabemos a fortuna que o filho trazia para casa, é porque conhecemos a noiva. A noiva era uma viuvinha de vinte e três anos, bela como todas as viúvas dessa idade que não são feias, inteligente, amável, perfeitamente educada, e largamente instruída.
Chamava-se Helena, e era neta de um coronel reformado, homem de coração e de brios, que adorava a neta, e era um servo dos seus menores desejos. Alves tratou de instruir o filho no que dizia respeito às pretensões dele, dizendo-lhe apenas que era um prazer para um pai ver casar-se o filho com uma moça estimável e rica. Luís ouvia as prédicas do pai, e procurava conscienciosamente realizar aquele projeto; mas na época em que começa esta narração ainda o rapaz não havia dado um passo útil, e as coisas estavam no mesmo pé que ao princípio.
Uma manhã de abril de 1859, achava-se o pai no gabinete revendo uns papéis que ninguém suporá serem romances nem poemas, quando lhe entrou repentinamente o filho alvoroçado e alegre.
— Alvíssaras, meu pai, alvíssaras!
— Que temos? disse Alves voltando-se para o rapaz.
— Vai ter uma visita; adivinhe!
— O coronel Veloso, disse o pai sorrindo.
— E a neta. Encontrei-os há meia hora. Vêem repreendê-lo. D. Helena chegou mesmo a dizer... perdão, meu pai, chegou a dizer que lhe puxaria as orelhas.
— Por quê?
— Acho que tem razão. Meu pai não vai lá há tantos dias.
— Há três dias apenas; mas bem sabes que tenho que fazer. Além de que, não sou eu o candidato ao coração dela: és tu.
Luís arrancou do peito um profundo suspiro, e disse atirando-se a uma cadeira:
— Sou eu!
Alves franziu a testa.
— Por que suspiras?
— Não sei, respondeu Luís.
— Abre-te comigo, meu rapaz. O acaso levou-me um dia a falar contigo deste assunto. Nestas ocasiões desaparece o pai, fica apenas o amigo. Que aconteceu?
Luís hesitou; mas instado pelo pai, disse estas palavras sem ousar encarar o autor dos seus dias:
— Eu creio que D. Helena não quer casar-se.
— Sim? disse Alves.
— É verdade.
— Mas é um bom casamento, disse o pai firmando bem as palavras.
— Não contesto; é um casamento magnífico: bela, espirituosa, elegante...
— E rica como uma Califórnia...
— Mas indiferente como...
— Como tu! disse Alves.
Luís estremeceu e olhou para o pai.
Alves continuou tomando calor:
— Como tu, repito. Tens um grande defeito, meu rapaz, que é o defeito da mocidade de hoje. No meu tempo cada moço começava a sua carreira convencido de que a perseverança era a virtude máxima, a qualidade suprema, o grande traço das organizações superiores. A que deves tu os regalos da vida, senão a esta virtude que nunca me desamparou? Quando alguma crise perturbava a minha vida e fazia estorvo ao resultado dos meus negócios, cuidas que eu me resignava à desgraça? Nunca! O exemplo de Jó não me seduzia: o velho filósofo gastou mais tempo em lamentar-se do que eu gastaria em readquirir uma nova fortuna. Os rapazes de hoje são da escola do filósofo. Não foram esses os conselhos que te dei.
Depois desta preleção sobre a virtude da perseverança, Alves olhou fixamente para Luís pedindo com o olhar uma resposta ao discurso que acabava de pronunciar, e que eu, por amor da brevidade, resumi.
O filho respondeu:
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quinhentos contos. Theatro e Salão, Rio de Janeiro, v. 1. 1859.