Por Machado de Assis (1881)
Machado de Assis (1839–1908), um dos maiores autores do Realismo brasileiro, publicou o conto “O caso da viúva” originalmente no Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, em 1881. A narrativa examina os conflitos entre amor, conveniência social e dever familiar, acompanhando a jovem viúva Maria Luísa e as reviravoltas sentimentais que cercam seu destino, em tom irônico e crítico das ilusões românticas.
I
Este conto deve ser lido especialmente pelas viúvas de vinte e quatro a vinte e seis anos. Não teria mais nem menos a viúva Camargo, D. Maria Luísa, quando se deu o caso que me proponho contar nestas páginas, um caso “ posto que menos sangrento que o de D. Inês. Vinte e seis anos; não teria mais, nem tanto; era ainda formosa como aos dezessete, com o acréscimo das roupas pretas que lhe davam grande realce. Era alva como leite, um pouco descolorida, olhos castanhos e preguiçosos, testa larga, e talhe direito. Confesso que essas indicações são mui gerais e vagas; mas conservo-as por isso mesmo, não querendo acentuar nada neste caso, tão verdadeiro como a vida e a morte. Direi somente que Maria Luísa, nasceu com um sinalzinho cor-de-rosa, junto à boca, do lado esquerdo (única particularidade notada), e que foi esse sinal a causa de seus primeiros amores, aos dezoito anos.
— Que é que tem aquela moça ao pé da boca? perguntava o estudante Rochinha a uma de suas primas, em certa noite de baile.
— Um sinal.
— Postiço?
— Não, de nascença.
— Feia coisa! murmurou o Rochinha.
— Mas a dona não é feia, ponderou a prima, é até bem bonita...
— Pode ser, mas o sinal é hediondo.
A prima, casada de fresco, olhou para o Rochinha com algum desdém, e disse-lhe que não desprezasse o sinal, porque talvez fosse ele a isca com que ela o pescasse, mais tarde ou mais cedo. O Rochinha levantou os ombros e falou de outro assunto; mas a prima era inexorável; ergueu-se, pediu-lhe o braço, levou-o até o lugar em que estava Maria Luísa, a quem o apresentou. Conversaram os três; tocou-se uma quadrilha, o Rochinha e Maria Luísa dançaram, depois conversaram alegremente.
— Que tal o sinal? perguntou-lhe a prima, à porta da rua no fim do baile, enquanto o marido acendia um charuto e esperava a carruagem.
— Não é feio, respondeu o Rochinha; dá-lhe até certa graça; mas daí à isca vai uma grande distância.
— A distância de uma semana, tornou a prima rindo. E sem aceitar-lhe a mão entrou na carruagem.
Ficou o Rochinha à porta, um pouco pensativo, não se sabe se pelo sinal de Maria Luísa, se pela ponta do pé da prima, que ele chegou a ver, quando ela entrou na carruagem. Também não se sabe se ele viu a ponta do pé sem querer, ou se buscou vê-la. Ambas as hipóteses são admissíveis aos dezenove anos de um rapaz acadêmico. O Rochinha estudava direito em S. Paulo, e devia formar-se no ano seguinte; estava portanto nos últimos meses da liberdade escolástica; e fio que a leitora lhe perdoará qualquer intenção, se intenção houve naquela vista fugitiva. Mas, qualquer que fosse o motivo secreto, a verdade é que ele não ficou pensativo mais de dois minutos, acendeu um charuto e guiou para casa.
Esquecia-me dizer que a cena contada nos períodos anteriores passou-se na noite de 19 de janeiro de 1871, em uma casa do bairro do Andaraí. No dia seguinte, dia de S.
Sebastião, foi o Rochinha jantar com a prima; eram anos do marido desta. Achou lá Maria Luísa e o pai. Jantou-se, cantou-se, conversou-se até meia noite, hora em que o Rochinha, esquecendo-se do sinalzinho da moça, achou que ela estava muito mais bonita do que lhe parecia no fim da noite passada.
— Um sinal que passa tão depressa de fealdade a beleza, observou o marido da prima, pode-se dizer que é o sinal do teu cativeiro.
O Rochinha aplaudiu este ruim trocadilho, sem entusiasmo, antes com certa hesitação. A prima, que estava presente, não lhe disse nada, mas sorriu para si mesma. Era pouco mais velha que Maria Luísa, tinha sido sua companheira de colégio, quisera vê-la bem casada, e o Rochinha reunia algumas qualidades de um marido possível. Mas não foram só essas qualidades que a levaram a prendê-lo a Maria Luísa, e sim também a circunstância de que ele herdaria do pai algumas propriedades. Parecia-lhe que um bom marido é um excelente achado, mas que um bom marido não pobre era um achado excelentíssimo. Assim só se falava ao primo no sinal de Maria Luísa, como falava a Maria Luísa na elegância do primo.
— Não duvido, dizia esta daí a dias; é elegante, mas parece-me assim...
— Assim como?
— Um pouco...
— Acaba.
— Um pouco estróina.
— Que tolice! é alegre, risonho, gosta de palestrar, mas é um bom rapaz e, quando precisa, sabe ser sério. Tem só um defeito.
— Qual? perguntou Maria Luísa, com curiosidade.
— Gosta de sinais cor de rosa ao canto da boca.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caso da viúva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1881.