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#Anedotas#Literatura Brasileira

O capitão Mendonça

Por Machado de Assis (1870)

Machado de Assis (1839–1908), mestre do Realismo brasileiro, publicou o conto “O capitão Mendonça” no periódico Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, em 1870. A narrativa mistura humor, fantasia científica e ironia para acompanhar o encontro de um jovem com um excêntrico químico que afirma poder criar vida e produzir gênios. O texto satiriza o cientificismo e explora os limites entre razão, sonho e imaginação.

I

Estando um pouco arrufado com a dama dos meus pensamentos, achei-me eu uma noite sem destino nem vontade de preencher o tempo alegremente, como convém em tais situações. Não queria ir para casa porque seria entrar em luta com a solidão e a reflexão, duas senhoras que se encarregam de pôr termo a todos os arrufos amorosos. Havia espetáculo no Teatro de S. Pedro. Não quis saber que peça se representava; entrei, comprei uma cadeira e fui tomar conta dela, justamente quando se levantava o pano para começar o primeiro ato. O ato prometia; começava por um homicídio e acabava por um juramento. Havia uma menina, que não conhecia pai nem mãe, e era arrebatada por um embuçado que eu suspeitei ser a mãe ou o pai da menina. Falava-se vagamente de um marquês incógnito, e aparecia a orelha de um segundo e próximo assassinato na pessoa de uma condessa velha. O ato acabou com muitas palmas.

Apenas caiu o pano houve a balbúrdia do costume; os espectadores marcavam as cadeiras e saíam para tomar ar. Eu, que felizmente estava em lugar onde não podia ser incomodado, estendi as pernas e entrei a olhar para o pano da boca, no qual, sem esforço da minha parte, apareceu a minha arrufada senhora com os punhos fechados e ameaçando-me com olhos furiosos.

— Que lhe parece a peça, sr. Amaral?

Voltei-me para o lado de onde ouvira proferir o meu nome. Estava à minha esquerda um sujeito, já velho, vestido com uma sobrecasaca militar, e sorrindo amavelmente para mim.

— Admira-se de lhe saber o nome? perguntou o sujeito.

— Com efeito, respondi eu; não me lembro de o ter visto...

— A mim nunca me viu; cheguei ontem do Rio Grande do Sul. Também eu nunca o tinha visto, e no entanto conheci-o logo.

— Adivinho, respondi; dizem-me que me pareço muito com meu pai. Conheceu-o, não?

— Pudera! fomos companheiros d’armas de meu pai, faziam com que a companhia dele fosse naquele momento mais aceitável que a de outro qualquer.

Além destas razões todas, a vida que eu levava era tão monótona que a diversão do capitão Mendonça devia encher uma boa página com matéria nova. Digo a diversão do capitão Mendonça, porque o meu companheiro tinha não sei que no gesto e nos olhos que me parecia excêntrico e original. Encontrar um original ao meio de tantas cópias de que anda farta a vida humana, não é uma fortuna?

Acompanhei, portanto, o meu capitão, que continuou a falar durante o caminho todo, arrancando-me apenas de longe em longe um monossílabo.

No fim de algum tempo paramos defronte de uma casa velha e escura.

— Vamos entrar, disse Mendonça.

— Que rua é esta? perguntei eu.

— Pois não sabe? Oh! como anda com a cabeça a juros! Esta é a Rua da Guarda Velha.

— Ah!

O velho bateu três pancadas; daí a alguns segundos rangia a porta nos gonzos e nós entrávamos num corredor escuro e úmido.

— Então não trouxeste luz? perguntou Mendonça a alguém que eu não via.

— Vim com pressa.

— Bem; fecha a porta. Dê cá a mão, sr. Amaral; esta entrada é um pouco esquisita, mas

lá em cima estaremos melhor.

Dei-lhe a mão.

— Está trêmula, observou o capitão Mendonça.

Eu tremia, com efeito; pela primeira vez surgiu-me no espírito a suspeita de que o pretendido amigo de meu pai não fosse mais que um ladrão, e aquilo uma ratoeira armada aos néscios.

Mas era tarde para retroceder; qualquer demonstração de medo seria pior. Por isso, respondi alegremente:

— Se lhe parecer que não há de tremer quem entre por um corredor como este, o qual, haja de perdoar, parece o corredor do inferno.

— Quase acertou, disse o capitão, guiando-me pela escada acima.

— Quase?

— Sim; não é o inferno, mas é o purgatório.

Estremeci ao ouvir estas últimas palavras; todo o meu sangue precipitou-se para o coração, que começou a bater apressado. A singularidade da figura do capitão, a singularidade da casa, tudo se acumulava para encher-me de terror. Felizmente chegamos acima e entramos para uma sala iluminada a gás, e mobiliada como todas as casas deste mundo.

Para gracejar e conservar toda a independência do meu espírito, disse sorrindo:

— Está feito, o purgatório tem boa cara; em vez de caldeiras tem sofás.

— Meu rico senhor, respondeu o capitão, olhando fixamente para mim, coisa que pela primeira vez acontecia, porque o seu olhar era sempre vesgo; meu rico senhor, se pensa que desse modo arranca o meu segredo está muito enganado. Convidei-o para cear; contente-se com isto.

Não respondi; as palavras do capitão desvaneceram as minhas suspeitas acerca da intenção com que ele ali me trouxera, mas criaram outras impressões; suspeitei que o capitão estivesse doido; e o menor incidente confirmava-me a suspeita.

(continua...)

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