Por Eça de Queirós (1925)
—Se o snr. Falcão entende, como socialista, que ella deve ser feita pelo povo, educado por uma philosophia popular positiva . . . (procurava os adjectivos) proudhoniana, com exclusão de toda a direcção autoritaria, de toda a iniciativa de governo, então podemos divergir. Se, na questão politica, pretende impor a formula federativa em opposição á formula unitaria, de certo divergimos tambem . . .
Divergencias sempre — atalhou Gilberto.
Mathias continuou :
— Mas estamos unidos para o mesmo fim, e mais tarde, desembaraçado o Paiz das instituições do passado, poderemos agitar essas altas questões — Phrases*! — rosnou Gilberto.
Aquella irreverencia pareceu escandalisar a assistencia : olhos aücesos, irados, voltaram-se para elle ; o velho militar acariciava soturnamente o castão da bengala e as mesmas vozes repetiam : decencia ! decencia !
— O Jacobinismo — continuou Mathias— já que esta palavra agrada ao snr. Gilberto, o Jacobinismo não combate o Socialismo, prepa;la o , petiu com um gesto vivo : — prepara-o ! O Socialismo é um poder espiritual, substituido a outro poder espiritual . . .
O mystico abaixou approvativamente a cabeça. Havia em todas as physionomias um vago ar espantado, d'incomprehensão, de fadiga.
— Ora essa substituição — continuava Mathias — para ser feita sem lucta, sem choque, precisa ser levada a effeito dentro d'um regimen amigo que a favoreça, a promova e garanta a, paz social emquanto se faz a transformação espiritual,
— Pretextos para o Cesarismo—rosnou Gilberto.
O sujeito de cache-nez apertou as mãos na cabeça, murmurando com uma voz plangente ;
Ih, Jesus ! Eu não os percebo, eu não os pcrcebo !
Não pareciam «percebel-os», em geral. Os olhares que o desejo de comprehender arregalava, iam de Gilberto a Mathias, implorando clareza : em toda aquella phraseologia nebulosa, onde estava a Republica ? Porque não diziam, claramente, como se havia de destruir a casa de Bragança Porque se não distribuiam já os empregos de que os conservadores iam ser expulsos Com que regimentos se contava ? E os que se tinham reunido ao Club na esperança d'uma futura satisfação de necessidades ou d'ambigões, sentiam como que um vasto logro„ encontrando, em logar de preparativos d'acção, apgumentações doutrinarias.
Um individuo sem barba e muito amarello exprimiu a impaciencia de todos, dizendo com uma voz fina :
— Vamos ao que importa: basta de philosophias I
Mathias fitou-o com o seu olhal frio como uma punhalada :
— Sn-r, Malachias, se lhe falta o respeito pelas idéas, deve ter ao menos o respeito pelas pessoas.
— Bravo ! Apoiado !
O Malachias ergueu os braços, enterrando a caboça nos hombros ; e com uma voz fina, muito arrastada, pegajosa, que arrepiava os nervos :
— Eu, não era para offender, eu, era para di-
zer .
Arthur, então, reparou n'elle : era amarello, d'uma amarellidão baça, oleosa, com uma bocca muito larga e parecia sujo, viscoso ; sentia-se que devia exhalar um cheiro mau, Mathias, então, resumiu :
O incidente vae longo e eu julgo exprimir a opinião do Club, dizendo que nos honramos de vêr entre n.ós o snr. Falcão, e que, sejam quaes forem as divergencias d'opinião, é um orgulho adquirirmos a cooperação d'um homem de bem e d'um democrata illustre.
O mystico curvou-se até ao chão e entre apoiadog ! foi assignar o seu nome no registo.
Mas o Malachias erguera-se logo e com gestos lentos, molles, gelatinosos, começou a fallar d'um modo tortuoso, empastado : dizia que era republicano, que respeitava todo o mundo, que quantos mais membros melhor . . . —E demorava-se, passava as longas mãos lividaa e magras pela face sem barba, oscilava com a cabeça : — elle não queria pôr em duvida as convicções dos cavalheiros admittidos, mas . . . Porque emfim era necessaxio cautela
Longe d'elle insinua! cousa alguma . . Todavia e— Acabe, homem — gritaram-lhe, impacientes da voz, da hesitação molle, dos gestos frouxos.
— A questão é esta — disse por fim — estamos
ou não estamos nós aqui a conspirar contra o governo 'l Ora bem. Sim, digo eu, isto não é para offender, mas emfim Sim, digo eu . . . Quem nos diz a nós . . . Quem nos diz a nós — repetiu, espalmando os cinco dedos sobre o peito concavo : — quem nos diz a nós . . , que não ha pessoas que vêm aqui para escutar, para espiar
Jacome Nazareno deu um pulo :
— Isso é insinuar alguma cousa a respeito do meu amigo — E indicava Arthur que escutava, esearlate, immovel.
O mystico saltou, com duas passadas, para o meio da sala e com a voz tremula, agitando dous enormes braços magros :
— Cidadãos, é triste que depois de toda uma vida d'estudo e dedicação á Democracia, no dia mesmo em que me venho reunir aos camaradas para um fim de justiça, me veja apontado como um espião — eu ! —E batia com os dous punhos freneticamente no peito.
O sujo Malac,hias protestava, levando as mãos á cabeça :
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.