Por Eça de Queirós (1878)
Estivera contando a Luísa a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos de um belo relatório; criara amigos naquela boa gente do Alentejo; estavam acabadas as soalherias, as cavalgadas pelos montados, os quartos de hospedaria; e ali estava enfim na sua casinha. E como na véspera da sua partida, soprava o fumo do cigarro, cofiando com delícias o bigode - porque tinha cortado a barba! Fora a grande admiração de Luísa, quando o viu. Ele explicara, com humilhação e melancolia, que tivera um furúnculo no queixo, com o calor...
- Mas que bem te fica! - tinha ela dito - que bem que te fica!
Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito antigos, com mandarins bojudos, de túnicas esmaltadas, suspensos majestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em casa de umas velhas miguelistas, em Mértola. Luísa dispunha-os muito decorativamente nas prateleiras guarda-louça; e em bicos de pés, com a larga cauda do seu roupão estendida por trás, a massa loura do cabelo pesado, um pouco desmanchado sobre as costas - parecia a Jorge mais esbelta, mais irresistível, e nunca a sua cinta fina lhe atraíra tanto os braços.
- A última vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, lembras-te?
- Lembro - disse Luísa sem se voltar, colocando muito delicadamente um prato.
- E é verdade - perguntou Jorge de repente - teu primo? Viste-lo? Veio ver-te?
O prato escorregou, houve um tlintlim de copos.
- Sim, veio - disse Luísa, depois de um silêncio - esteve aí umas vezes. Demorou-se pouco...
Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas colheres de prata; ergueuse enfim, voltou-se com um sorriso, vermelha, sacudindo as mãos:
- Pronto!
E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.
- Como te fica bem! - dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, de um modo ardente. Quando seatirara aos seus braços naquela madrugada, sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lho deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com humildade; era uma sensação múltipla, de uma doçura infinita, que a traspassara até às profundidades do seu ser. E passando-lhe um braço pelo pescoço, murmurava com um movimento de uma adulação quase lasciva:
- Estás contente? Sentes-te bom? Dize!
Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois daquela separação dava-lhe as admirações, os enlevos de uma paixão nova.
- É o Sr. Sebastião - veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.
Jorge deu um pulo, afastou Luísa bruscamente, atirou-se pelo corredor gritando:
- Aos meus braços! Aos meus braços, celerado!
Daí a dias, uma manhã que Jorge saíra para o ministério, Juliana entrou no quarto de Luísa, e fechando a porta devagarinho, com uma voz muito amável:
- Eu desejava falar à senhora numa coisa.
E começou a dizer - que o seu quarto em cima no sótão era pior que uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os percevejos, a falta de ar, e no inverno a umidade, matavam-na! Enfim, desejava mudar para baixo, quarto dos baús.
O quarto dos baús tinha uma janela nas traseiras; era alto e espaçoso; guardavam-se ali os oleados de Jorge, as suas malas, os paletós velhos, e veneráveis baús do tempo da avó, de couro vermelho com pregos amarelos.
- Ficava ali como no céu, minha senhora!
- E... aonde se haviam de pôr os baús?
- No meu quarto, em cima. E com um risinho: - Os baús não são gente, não sofrem...
Luísa disse um pouco embaraçada:
- Bem, eu verei; eu falarei ao Sr. Jorge.
- Conto com a senhora.
Mas apenas nessa tarde Luísa explicou a Jorge "a ambição da pobre de Cristo", ele deu um salto:
- O quê? Mudar os baús? Está doida!
Luísa então insistiu: era o sonho da pobre criatura desde que viera para casa! Enterneceu-o. Não, ele não imaginava; ninguém imaginava o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava; os ratos passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fora lá há dias, e ia tombando para o lado...
- Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias de Almeida! Muda-a, muda-adepressa, filha!... Porei os meus ricos baús no sótão.
Quando Juliana soube o favor:
- Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lho pague! Que eu não tinha saúde para vivernum cacifo daqueles.
Ultimamente queixava-se mais; andava amarela, trazia os beiços um pouco arroxeados; tinha dias de uma tristeza negra, ou de uma irritabilidade mórbida; os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos cuidados, muitos cuidados!...
Foi por isso que daí a dois dias veio pedir a Luísa, se fazia o favor de ir ao quarto dos baús. E lá, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso:
- Isto não pode ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira senão, não vale a penamudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a senhora, mas...
- Bem, bem, eu arranjarei - disse Luísa com uma voz paciente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.