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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Nós, senhores e amigos, só nos resta também pernoitar. Voltemos aos Três-Caminhos. E de lá, em boa avença, ao arraial do Sr. D. Pedro de Castro, a pedir agasalho.. A par de tamanho senhor encontraremos mais fartamente que nos nossos alforjes o que todos, cristãos e brutos, vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos três golpes rijos...

Todos bradaram com alvoroço: - 'Bem traçado! bem traçado"... - E de novo, pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pesadamente para os Três-Caminhos - onde já dois corvos se encarniçavam sobre o corpo do pastorinho morto.

Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeço alto, alvejaram as tendas do arraial, ao clarão das fogueiras que por todo ele fumegavam. O Adail de Santa Irenéia arrancou da buzina três sons lentos anunciando Filho-de-Algo. Logo de dentro da estacada outras buzinas soaram, claras e acolhedoras. Então o Adail galopou até o valado, a anunciar às atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos de almenara, a mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parara no córrego escuro, que o pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento. Dois Cavaleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do outeiro - bradando que o Sr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor de Santa Irenéia e muito se prazia para todo seu regalo e serviço! Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel de Samora e Mendo de Briteiros e outros parentes do solar, todos sem lança ou broquel, descalçados os guantes, galgaram o cabeço até a estacada, cujas cancelas se escancararam, mostrando, na claridade incerta dos fogaréus sombrios, magotes de peões - onde, por entre os bacinetes de ferro, surgiam toucas amarelas de mancebas e gorros enguizalhados de jograis. Apenas o velho assomou aos barrotes dois infanções, sacudindo a espada, bradaram:

- Honra! honra! aos Ricos-homens de Portugal!

As trompas misturavam o clangor ríspido aos rufos lassos dos tambores. E por entre a turba, que caladamente recuara em alas lentas, avançou, precedido por quatro Cavaleiros que erguiam archotes acesos, o velho D. Pedro de Castro, o Castelão, o homem das longas guerras e dos vastos senhorios. Um corselete de anta com lavores de prata cingia o seu peito já curvado, como consumido por tamanhas fadigas de pelejar e tamanhas cobiças de reinar. Sem elmo, sem armas, apoiava a mão cabeluda de rijas veias a um bastão de marfim. E os olhos encovados faiscavam, com afável curiosidade, na requeimada magreza da face, de nariz mais recurvo que o bico de um falcão, repuxada a um lado por um fundo gilvaz que se sumia na barba crespa, aguda e quase branca.

Diante do senhor de Santa Irenéia alargou vagarosamente os braços. E com um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de rapina:

- Viva Deus! Grande é a noite que vos traz, primo e amigo! Que não a esperava eu de tantahonra, nem sequer de tanto gosto!...

Ao rematar este duro Capítulo, depois de três manhãs de trabalho, Gonçalo arrojou a pena com um suspiro de cansaço. Ah! já lhe entrava a fartura dessa interminável Novela, desenrolada como um novelo solto - sem que ele lhe pudesse encurtar os fios, tão cerradamente os emaranhara no seu denso Poema o tio Duarte que ele seguia gemendo! E depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses Sabedores eram realmente varões Afonsinos, de sólida substância histórica?... Talvez apenas ocos títeres, mal engonçados em erradas armaduras, povoando inverídicos arraiais e castelos, sem um gesto ou dizer que datassem das velhas idades!

E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser coragem para retomar aquela sôfrega correria dos de Santa Irenéia sobre o bando escapadiço de Baião. De resto já remetera três Capítulos da Novela - já calmara as ânsias do Castanheiro. Mas a ociosidade mais lhe pesou nessa semana, arrastada pelos canapés ou por entre os buxos do jardim, fumando e tristemente sentindo que a Vida lhe fugia em fumo. Para o enervar acrescia um aborrecimento de dinheiro - uma letra de seiscentos mil réis, do derradeiro ano de Coimbra, sempre reformada, sempre avolumada, e que agora o emprestador, um certo Leite, de Oliveira, reclamava com dureza. O seu alfaiate de Lisboa também o importunava com uma conta pavorosa, atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solidão da Torre. Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A Eleição encalhada como uma barca no lodo. A irmã decerto com o outro no Mirante. Até a prima Maria, desatendendo ingratamente o seu tímido pedido de uma "conversazinha". E ele no seu quente casarão, sem energia, imobilizado numa inércia crescente, como se cordas o travassem, cada dia mais apertadas - e de homem se volvesse em fardo.

(continua...)

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