Por Eça de Queirós (1887)
João Batista... Quinze tostões! Chega a ser impiedade!... Vossa Senhoria imagina que a água do Jordão é como a água do Arsenal? Ora essa!... Três mil-réis recusei eu a um padre de Santa Justa, esta manhã, aí, ao pé dessa cama...
Ele fez saltar o frasco na palma gorda, considerou, calculou:
- Dou quatro mil-réis.
Vá lá, por sermos companheiros na Pomba!
E quando o Senhor Lino saiu do meu quarto, com o frasco do Jordão embrulhado na Nação, eu,
Teodorico Raposo, achava-me fatalmente, providencialmente, estabelecido vendilhão de relíquias!
Delas comi; delas fumei; delas amei, durante dous meses, quieto e aprazido na Pomba de Ouro. Quase sempre o Senhor Lino surdia de manhã no meu quarto, de chinelos, escolhia um caco do cântaro da Virgem ou uma palhinha do presépio, empacotava na Nação, largava a pecúnia e abalava assobiando o De Profundis. E evidentemente o digno homem revendia as minhas preciosidades com gordo provento - porque bem depressa, sobre o seu colete de veludo preto, rebrilhou uma corrente de ouro.
No entanto, muito hábil e fino, eu não tentara (nem com súplicas, nem com explicações, nem com patrocínios) amansar as beatas iras da Titi e repenetrar na sua estima. Contentava-me em ir à Igreja de Santana, todo de negro, com um ripanço. Não encontrava a Titi, que tinha agora de manhã no oratório missa do torpíssimo Negrão. Mas lá me prostrava, batendo contritamente no peito suspirando para o sacrário - certo que, pelo Melchior, sacristão, as novas da minha devoção inalterável chegariam à hedionda senhora.
Muito manhoso, também não procurara os amigos da Titi - que deviam prudentemente partilhar as paixões da sua alma para lograrem os favores do seu testamento; assim poupava embaraços angustiosos a esses beneméritos da Magistratura e da Igreja. Sempre que encontrava Padre Pinheiro ou Doutor Margaride, cruzava as mãos dentro das mangas, baixava os olhos, evidencianlo humildade e compunção. E este retraimento era decerto grato aos amigos, porque uma noite, topando o Justino perto da casa da Benta Bexigosa, o digno homem segredou junto da minha barba, depois de se ter assegurado da solidão da rua.
- Ande-me assim, amiguinho!... Tudo se há de arranjar... Que ela por ora está uma fera... Oh diabo aí vem gente!
E abalou.
No entanto, por intermédio do Lino, eu vendilhava relíquias. Bem depressa, porém recordado dos compêndios de Economia Política, refleti, que os meus proventos engordariam se, eliminando o Lino, eu mesmo me dirigisse ousadamente ao consumidor pio.
Escrevi então a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Graça, cartas com listas e preços de relíquias. Mandei propostas de ossos de mártires a igrejas de província. Paguei copinhos de aguardente a sacristães, para que eles segredassem a velhas com achaques –“Para cousas de santidade não há como o senhor Doutor Raposo que vem fresquinho de Jerusalém!...” E bafejoume a sorte. A minha especialidade foi a água do Jordão, em frascos de zinco, lacrados e carimbados com um coração em chamas; vendi desta água para batizados, para comidas, para banhos; e durante um momento houve um outro Jordão, mais caudaloso e límpido que o da Palestina, correndo por Lisboa, com a sua nascente num quarto da Pomba de Ouro. Imaginativo, introduzi novidades rendosas e poéticas; lancei no comércio com eficácia "o pedacinho da bilha com que Nossa Senhora ia à fonte"; fui eu que acreditei na piedade nacional "uma das ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Família". Agora quando o Lino de chinelos batia à porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas do presépio alternavam com as palhas de tabuinhas de São José, eu entreabria uma fenda avara e ciciava:
- Foi-se... Esgotadinho!... Só para a semana... Vem-me aí um caixotinho da Terra Santa...
As veias frontais do capacíssimo homem inchavam, numa indignação de intermediário espoliado.
Todas as minhas relíquias eram acolhidas com o mais forte fervor - porque provinham "do Raposo, fresquinho de Jerusalém". Os outros reliquistas não tinham esta esplêndida garantia de uma jornada à Terra Santa. Só eu, Raposo, percorrera esse vastíssimo depósito de sanidade. Só eu de resto sabia lançar na folha sebácea de papel que autenticava a relíquia - a firma floreada do senhor Patriarca de Jerusalém.
Mas bem cedo reconheci que esta profusão de reliquilharia saturara a devoção do meu pais! Atochado, empanturrado de relíquias, este católico Portugal já não tinha capacidade - nem para receber um desses raminhos secos de flores de Nazaré, que eu cedia a cinco tostões!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.