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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Logo na ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a decrépita ponte cujos rotos barrotes e tabuões carcomidos entulhavam no fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acauteladamente a desmantelara para deter a cavalgada vingadora. Então a pesada hoste de Santa Irenéia avançou pela esguia ourela, ladeando os renques de choupos em demanda do vau do Espigal... Mas que tardança! Quando as derradeiras mulas de carga choutaram na terra de além-ribeira já a tarde se adoçava, e nas poças d'água, entre as poldras, o brilho esmorecia, umas ainda de ouro pálido, outras apenas rosadas. Imediatamente Dom Garcia Viegas, o Sobedor, aconselhou que a mesnada se dividisse: - a peonagem e a carga avançando para Montemor, esgueirada e calada, para esquivar recontros; os senhores de lança e os besteiros de cavalo arrancando em dura carreira para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do Sabedor; e a cavalgada, aligeirada das filas tardas de arqueiros e fundibulários, largou, soltas as rédeas, através de terras ermas, depois por entre barrocais, até aos Três-Caminhos, desolada chã onde se ergue solitariamente aquele carvalho velhíssimo que outrora, antes de exorcizado por S. Froalengo, abrigava no sábado mais negro de janeiro, ao clarão de archotes enxofrados a Grande Ronda de todas as bruxas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada; e, alçado nos estribos, farejava as três sendas que se trifurcam e se encovam entre ásperos, lôbregos cerros de bravio e de tojo. Passara aí o Bastardo malvado?... Ah! por certo passara e toda a sua maldade - porque no respaldo duma fraga, junto a três cabras magras retouçando o mato, jazia, com os braços abertos, um pobre pastorinho morto, varado por uma frecha! Para que o triste cabreiro não soprasse novas da gente de Baião - uma bruta seta lhe atravessara o peito escamado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual das sendas se embrenhara o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento suão que rolava de entremontes, não apareciam pegadas revoltas de tropel fugindo. E, em tal solidão, nem choça ou palhoça donde vilão ou velha alapada espreitassem à levada do bando... Então, ao mando do Alferes Afonso Gomes, três almograves despediram pelos três caminhos à descoberta enquanto os Cavaleiros, sem desmontar, desafivelavam os morriões para limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou abeiravam os ginetes dum sumido fio d'água que à orla da chã se arrastava entre ralo caniçal. Tructesindo não se arredou de sob a ramaria do carvalho de S. Froalengo, imóvel sobre o murzelo imóvel, todo cerrado no ferro da sua negra armadura, as mãos juntas sobre a sela e o elmo pesadamente inclinado como em mágoa e oração. E ao lado, com as coleiras eriçadas de pregos, as sangrentas línguas penduradas, arquejavam, estirados, os seu dois mastins.

Já no entanto a espera se alongava, inquieta, enfadonha quando o almograve que metera pela senda de Nascente reapareceu num rolo de poeira, atirando logo o alarde de longe, com a escuma alta. A hora escassa de carreira avistara num cabeço uma hoste acampada, em arraial seguro, rodeado de estaca e vala!...

- Que pendão?

- As treze arruelas.

- Deus louvado! - gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando. - E D. Pedro de Castro,o Castelão, que entrou com os Leoneses e vem pelas senhoras Infantas!

Por esse caminho pois não se atrevera o Bastardo!... Mas já pela senda de Poente recolhia outro almograve contando que entre cerros, num pinhal, topara um bando de bufarinheiros genoveses, retardados desde alva, porque um deles esmorecera com mal de febres. E então?... - Então, pela borda do pinheiral apenas passara em todo o dia (no jurar dos genoveses) uma companhia de truões voltando da feira de Grajelos. Só restava pois o trilho do meio, pedregoso e esbarrancado como o leito enxuto de uma torrente. E por ele, a um brado de Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já o crepúsculo tristíssimo descia - e sempre o caminho se estirava, agreste, soturno, infindável, entre os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um muro, uma sebe, rasto de rês ou homem. Ao longe, mais ao longe, enfim, enxergaram a campina árida, coberta de solidão e penumbra, dilatada na sua mudez até a um céu remoto, onde já se apagava uma derradeira tira de poente cor de cobre e cor de sangue. Então Tructesindo deteve a abalada, rente de espinheiros que se torciam nas lufadas mais rijas do suão:

- Por Deus, senhores, que corremos em pressa vã e sem esperança!... Que pensais, GarciaViegas?

Todo o bando se apinhara; e uma fumarada subia dos ginetes arquejantes sob as coberturas de malha. O Sabedor estendeu o braço:

- Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou de escapada essa campina além, e meteu a ValeMurtinho para pernoitar na Honra de Agredel, que é bem afortalezada e parenta de Baião...

- E nós, pois, D. Garcia?

(continua...)

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