Por Eça de Queirós (1887)
Atirei os pés incertos para o soalho. Mergulhei na algibeira uma escova de dentes; topando nos móveis, procurei as chinelas que embrulhei num número da Nação. Sem reparo, agarrei dentre as malas um caixote com bandas de ferro; e em ponta de botins desci a escada da Titi, encolhido e rasteiro, como um cão tinhoso vexado da sua tinha.
Mal transpus o pátio, a Vicência, cumprindo as ordens sanhudas da Titi, bateu-me nas costas com o portão chapeado de ferro - desprezivelmente e para sempre!
Estava só na rua e na vida! À luz dos frios astros contei na palma o meu dinheiro. Tinha duas libras, dezoito tostões, um duro espanhol e cobres... E então descobri que a caixa, apanhada tontamente entre as malas, era a das relíquias menores. Complicado sarcasmo do destino! Para cobrir meu corpo desabrigado - nada mais tinha que tabuinhas aplainadas por São José, e cacos de barro do cântaro da Virgem! Meti no bolso o embrulho das chinelas; e, sem voltar os olhos turvos à casa de minha tia, marchei a pé, com o caixote às costas, na noite cheia de silêncio e de estrelas, para a Baixa, para o Hotel da Pomba de Ouro.
Ao outro dia, descorado e misérrimo à mesa da Pomba, remexia uma sombria sopa de grão e nabo - quando um cavalheiro, de colete de veludo negro, veio ocupar o talher fronteiro, junto de uma garrafa de água de Vidago, de uma caixa de pílulas e de um número da Nação. Na sua testa, imensa e arqueada como um frontão de capela, torciam-se duas veias grossas; e sob as ventas largas, enegrecidas de rapé, o bigode era um tufo curto de pêlos grisalhos, duros como cerdas de escova. O galego, ao servir-lhe o nabo e grão, rosnou com estima: "Ora, seja bem aparecidinho o Senhor Lino!"
Ao cozido este cavalheiro, abandonando a Nação onde percorrera miudamente os anúncios, pousou em mim os olhos amarelentos de bílis e baços, e observou que estávamos gozando desde os Reis um tempinho de apetite...
- De rosas - murmurei com reserva.
O Senhor Lino entalou mais o guardanapo para dentro do colarinho lasso:
- E Vossa Senhoria, se não é curiosidade, vem das provindas do norte?
Passei vagarosamente a mão pelos cabelos:
- Não, senhor... Venho de Jerusalém!
De assombrado o Senhor Uno perdeu a garfada de arroz. E depois de ter ruminado mudamente a sua emoção, confessou que lhe interessavam muito todos esses lugares santos porque tinha religião, graças a Deus! E tinha um emprego, graças também a Deus, na Câmara Patriarcal...
- Ah, na Câmara Patriarcal! - acudi eu. - Sim, muito respeitável... Eu conheci muito um patriarca... Conheci muito o senhor Patriarca de Jerusalém. Cavalheiro muito santo, muito catita... Até nos ficamos tratando de tu!
O Senhor Lino ofereceu-me da sua água de Vidago - e conversamos das terras da Escritura.
- Que tal Jerusalém, como lojas?...
- Como lojas?... Lojas de modas?
- Não, não! - atalhou o Senhor Lino. Quero dizer lojas de santidade, de reliquiarias, de cousinhas divinas...
- Sim... Menos mau. Há o Damiani na Via-Dolorosa que tem tudo, até ossos de mártires... Mas o melhor é cada um esquadrinhar, escavar... Eu nessas cousas trouxe maravilhas!
Uma chama de singular cobiça avivou as pupilas amareladas do Senhor Lino, da Câmara Patriarcal. E de repente, com uma decisão de inspirado:
- Andrezinho, a pinguinha de Porto... Hoje é bródio!
Quando o galego pousou a garrafa, com a sua data traçada à mão num velho rótulo de papel almaço - o Senhor Lio ofertou-me um cálice cheio.
- A sua!
- Com a ajuda do Senhor!... À sua!
Por cortesia, rilhado o queijo, convidei aquele homem que graças a Deus tinha religião, a entrar no meu quarto e admirar as fotografias de Jerusalém. Ele aceitou, com alvoroço; mas, apenas transpôs a porta, correu sem etiqueta e gulosamente ao meu leito - onde jaziam espalhadas algumas das relíquias que eu desencaixotara essa manhã.
- O cavalheiro aprecia? - indaguei, desenrolando uma vista do Monte Olivete, e pensando em lhe ofertar um rosário.
Ele revirava em silêncio, nas mãos gordas e de unhas roídas, um frasco de água do Jordão. Cheirou-o, pesou-o, chocalhou-o. Depois, muito sério, com as veias entumecidas na vastíssima fronte:
- Tem atestado?
Estendi-lhe a certidão do frade franciscano, garantindo como autêntica e sem mistura a água do rio batismal. Ele saboreou o venerando papel. E entusiasmado:
- Dou quinze tostões pelo frasquinho!
Foi, no meu intelecto de bacharel, como se uma janela se abrisse e por ela entrasse o sol! Vi inesperadamente, ao seu clarão forte, a natureza real dessas medalhas, bentinhos, águas, lascas, pedrinhas, palhas, que eu considerara até então um lixo eclesiástico esquecido pela vassoura da filosofia! As relíquias eram valores! Tinham a qualidade onipotente de valores! Dava-se um caco de barro - e recebia-se uma rodela de ouro!... E, iluminado, comecei insensivelmente a sorrir, com as mãos encostadas à mesa como um balcão de armazém:
- Quinze tostões por água pura do Jordão! Boa! Em pouca conta tem Vossa Senhoria o nosso São
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.