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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Mas D. Felicidade não podia sofrer a Juliana: achava-lhe cara de Judas, tinha ar de ser capaz de tudo...

Luísa defendeu-a; era muito serviçal, muito boa engomadeira, muito honesta...

- E anda-te pela rua até às onze da noite!... Credo! Fosse comigo!

- E creio - observou o Conselheiro - que tem uma doença mortal. Não é verdade, Sr. Zuzarte?

- Mortal. Um aneurisma - respondeu Julião, sem levantar os olhos.

- Ainda para mais! - exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz: - Tu o que deves fazer édescartar-te dela! Uma criada com uma doença dessas! Que até lhe pode arrebentar a vir dar um copo de água à gente. Cruzes!

O Conselheiro apoiava:

- E às vezes, que embaraços com a autoridade!

Julião fechou o Dante, e disse:

- Eu, tem-me esquecido de avisar o Jorge; mas um dia a criatura cai-lhes redonda no chão. - Esorveu um gole de chá.

Luísa estava aflita. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava para a torturar... Pôs-se a dizer que era tão difícil arranjar criadas...

Lá isso era, concordaram.

Falaram de criados, das suas exigências. Estavam cada vez mais atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que imoralidade!...

- Muitas vezes é culpa das amas - disse D. Felicidade. - Fazem das criadas confidentes, e isto,em elas apanhando um segredo, tornam-se as donas da casa...

As mãos trêmulas de Luísa faziam-lhe tilintar a chávena. Disse, com uma vota afetadamente risonha:

- E o Conselheiro, que tal de criados?

Acácio tossiu:

- Bem. Tenho uma pessoa respeitável, com bom paladar, muito escrupulosa em contas...

- E que não é feia - acudiu Julião. - Assim me pareceu uma vez que fui à Rua do Ferregial...

Uma vermelhidão espalhara-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade fitava-o ansiosamente, com a pupila chamejante. Acácio, então, disse com severidade:

- Nunca reparo para a fisionomia dos subalternos, Sr. Zuzarte.

Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente:

- Foi um grande erro abolir a escravatura!...

- E o princípio da liberdade? - acudiu logo o Conselheiro. - E o Princípio da liberdade? Que ospretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a liberdade é um bem maior.

Alargou-se então em considerações: fulminou os horrores do tráfico, lançou suspeitas sobre a filantropia dos ingleses, foi severo com os plantadores da Nova Orleans, contou o caso da Charles et Georges: dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo.

D. Felicidade fora-se sentar ao pé de Luísa e muito inquieta, falando-lhe ao ouvido:

- Tu conheces a criada do Conselheiro?

- Não.

- Será bonita?

Luísa encolheu os ombros.

- Não sei que me diz o coração, Luísa! Estou a abafar!

E enquanto Acácio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia murmurando a Luísa as queixas da sua paixão.

Que alívio para Luísa quando eles saíram! O que ela sofrera, lá por dentro, toda aquela noite! Que maçadores, que idiotas! - E a outra sem vir! Oh, que vida a sua!

Foi à cozinha dizer a Joana:

- Espere pela Juliana, tenha paciência. Que ela não pode tardar; aquilo a mulher achou-se pior!

Mas já passava de meia-noite, já Luísa estava deitada, quando a campainha tocou de leve; depois mais forte; enfim, com impaciência.

A rapariga adormeceu, pensou Luísa. Saltou da cama, subiu descalça à cozinha. Joana, estirada para cima da mesa, ressonava ao pé do candeeiro de petróleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fê-la pôr de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu daí a pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação:

- Já está tudo acomodado, hem? Pois eu estive no teatro. Muito bonito! Do melhor, Sra. Joana, do melhor!

Luísa adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto agitou-a. - Estava num teatro imenso, dourado como uma igreja. Era uma gala: jóias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço, imóvel numa atitude rígida e hierática, sustentava na mão a esfera armilar, e o seu manto de veludo escuro, constelado de pedrarias como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas de escultura, fazendo tropeçar a multidão dos cortesãos vestidos como valetes de paus.

Ela estava no palco; era atriz; debutava no drama de Ernestinho; e toda nervosa via diante de si na vasta platéia sussurrante, fileiras de olhos negros e acesos, cravados nela com furor; no meio a calva do Conselheiro, de uma redondeza nevada e nobre, sobressaia, rodeada como uma flor de um vôo amoroso de abelhas. No palco oscilava a vasta decoração de uma floresta; ela notava sobretudo, à esquerda, um carvalho secular, de uma arrogância heróica -cujo tronco tinha vaga configuração de uma fisionomia, e se parecia com Sebastião.

(continua...)

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