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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Os dias rolavam - e no espírito de Gonçalo não se estabelecia serenidade. E sobretudo o amargurava sentir que era forçado a essa intimidade vistosa com o Cavaleiro - tanto pelo cuidado do seu nome, como pela conveniência da sua Eleição. Toda a sua altivez por vezes se revoltava: - "Que me importa a Eleição! Que valor tem uma encardida cadeira em S. Bento? Mas logo a seca Realidade o emudecia. A Eleição era a única fenda por onde ele lograria escapar do seu buraco rural; e, se rompesse com o Cavaleiro, esse vilão, vezeiro a vilanias, imediatamente, com o apoio da horda intrigante de Lisboa, improvisaria outro Candidato por Vila-Clara... Desgraçadamente ele era um desses seres vergados que dependem. E a triste dependência de onde provinha? Da pobreza - dessa escassa renda de duas quintas, abastança para um simples, mas pobreza para ele, com a sua educação, os seus gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espírito da sociabilidade.

E estes pensamentos lenta e capciosamente o empurraram a outro pensamento - à D. Ana Lucena, aos seus duzentos contos... Até que uma manhã encarou corajosamente uma possibilidade perturbadora: - casar com a D. Ana! - Por que não? Ela claramente lhe mostrara inclinação, quase consentimento... Por que não casaria com a D. Ana?

Sim! o pai carniceiro, o irmão assassino... Mas também ele, entre tantos avós até os Suevos ferozes, descortinaria algum avô carniceiro; e a ocupação dos Ramires, através dos séculos heróicos, consistira realmente em assassinar. De resto o carniceiro e o assassino, ambos mortos, sombras remotas, pertenciam a uma Lenda que se apagava. D. Ana, pelo casamento, subira da Populaça para a Burguesia. Ele não a encontrava no talho do pai, nem no valhacouto do irmão - mas na quinta da Feitosa, já Rica-dona, com procurador, com capelão, com lacaios, como uma antiga Ramires. Ah! sinceramente, toda a hesitação era pueril - desde que esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro rural, os trazia com o seu corpo, mulher tão formosa e séria. Com esse puro ouro, e o seu nome, e o seu talento, não necessitaria para dominar na Política a refalsada mão do Cavaleiro... E depois que vida nobre e completa! A sua velha Torre restituída ao esplendor sóbrio doutras eras; uma lavoura de luxo no histórico torrão de Treixedo; as viagens fecundas às terras que educam!... E a mulher que fornecia estes regalos não lhes amargava o gozo, como em tantos casamentos ricos, com a sua fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pele relentada... Não! Depois do brilho social do dia não o esperava na alcova um mostrengo - mas Vênus.

E assim, lentamente trabalhado por estas tentações, mandou uma tarde um bilhete à prima Maria, à Feitoso, pedindo - para se encontrarem, sós, nalgum passeio dos arredores, porque desejava ter com ela uma conversazinha séria e íntima..." Mas três imensos dias se arrastaram e não apareceu a almejada carta da Feitoso. Gonçalo concluiu que a prima Maria, tão esperta, farejando a natureza da conversazinha e sem uma certeza para o alegrar, retardava, se recusava. Atravessou então uma desolada semana, remoendo a melancolia duma vida que sentia oca e toda feita de incertezas. O orgulho, um pudor complicado, não lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto donde implacavelmente avistaria, por sobre o arvoredo, a cúpula do Mirante com o seu gordo Cupido: - e quase o arrepiava a idéia de beijar a irmã na face que o outro babujara! Sobre a Eleição descera um silêncio de abóbada - e outra repugnância, mais acerba, lhe vedava escrever ao Cavaleiro. João Gouveia gozava as suas férias na costa, de sapatos brancos, apanhando conchinhas na praia. E Vila-Clara não se tolerava nesse meado ardente de setembro - com o Titó no Alentejo onde o levara uma doença do velho morgado de Cidadelhe, o Manuel Duarte na quinta da mãe dirigindo as vindimas, e a Assembléia deserta e adormecida sob o inumerável sussurro das moscas...

Para se ocupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto de Arte, retomou a sua Novela.

Mas sem fervor, sem veia ágil. Agora era a sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus Cavaleiros, correndo sobre o Bastardo de Baião. Lance dificultoso - reclamando fragor, um rebrilhante colorido medieval. E ele tão mole e tão apagado!... Felizmente, no seu Poemeto, o tio Duarte recheara esse violento trecho de bem apinceladas paisagens, de interessantes rasgos de guerra.

(continua...)

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