Por Eça de Queirós (1878)
Julião, calado, bamboleava a perna. Agora, àqueles elogios, o seu despeito renascia; lembrava a secura cortante de Luísa, naquela manhã, as poses do outro. Não resistiu a dizer:
- Um pouco sobrecarregado nas jóias e nos bordados das meias. De resto é moda no Brasil,creio...
Luísa corou; teve-lhe ódio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de Basílio.
D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um século; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saúde, só vê-la.
- É uma grande alma - disse com ênfase o Conselheiro. - Todavia censurava-o um pouco pornão se ocupar, não se tornar útil ao seu país. - Porque enfim - declarou - o piano é uma bonita habilidade, mas não dá uma posição na sociedade. - Citou então Ernestinho, que, posto que dando-se à arte dramática, era todavia (e a sua voz tornou-se grave), segundo todas as informações, um excelente empregado aduaneiro...
Que fazia ele, Ernestinho? - perguntaram.
Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a Honra e paixão ia daí a duas semanas; já se estavam a imprimir os cartazes, e na Rua dos Condes já lhe não chamavam senão o Dumas filho português! E o pobre rapaz crê-se realmente um Dumas filho!
- Não conheço esse autor - disse com gravidade o Conselheiro - posto que me pareça, pelonome, ser filho do escritor que se tornou famoso pelos Três mosqueteiros e outras obras de imaginação!... Mas, de resto, o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe parece, D. Luísa?
- Sim - disse ela com um sorriso vago.
Parecia preocupada. Fora já duas vezes ao relógio do quarto ver as horas; quase dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá? Ela mesma foi pôr as chávenas no tabuleiro, armar o paliteiro. Quando voltou à sala notou um silêncio enfastiado... - Queriam que fosse tocar? perguntou.
Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante, ilustrado por G. Doré, que ele folheava com o volume sobre os joelhos, exclamou, de repente:
- Ai que bonito! Que é? Muito bonito! Viste, Luísa? Luísa aproximou-se.
- É um caso de amor infeliz, senhora D. Felicidade - disse Julião. - É a história triste de Paulo eFrancesca de Rimini. - E explicando o desenho: - Aquela senhora sentada é Francesca; este moço de guedelha, ajoelhado aos pés dela, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter de o dizer, seu amante. E aquele barbaças que lá ao fundo levanta o reposteiro e saca da espada, é o marido. que vem, e zás! - E fez o gesto de enterrar o ferro.
- Safa! - fez D. Felicidade, arrepiada. - E aquele livro caído o que é? Estavam a ler?...
Julião disse discretamente:
- Sim... Tinham começado por ler, mas depois... Quel giorno più non vi leggemmo avante, o que quer dizer: - "E nós não lemos mais em todo o dia!"
- Puseram-se a derriçar - disse D. Felicidade com um sorriso.
- Pior, minha rica senhora, pior! Porque segundo a mesma confissão de Francesca, este moço,o da guedelha, o cunhado, La boca me bacciò tutto tremante, o que significa: - "A boca me beijou tremendo todo..."
- Ah! - fez D. Felicidade, com um olhar rápido para o Conselheiro.
- É uma novela?
- É o Dante, D. Felicidade - acudiu com severidade o Conselheiro -, um poema épicoclassificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso Camões! Mas rival do famoso Mílton!
- Que nessas histórias estrangeiras os maridos matam sempre as mulheres! - exclamou ela. Evoltando-se para o Conselheiro: - Pois não é verdade?
- Sim, D. Felicidade, repetem-se lá fora com freqüência essas tragédias domésticas. Odesenfreamento das paixões é maior. Mas entre nós, digamo-lo com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas, graças a Deus, não conheço senão esposas modelos. - E com um sorriso cortesão: - De que é decerto a flor a dona da casa.
D. Felicidade revirou os olhos para Luísa que estava encostada à cadeira dela, e batendo-lhe no braço:
- Isto é uma jóia! - disse com amor.
- E de resto - acudiu o Conselheiro - o nosso Jorge merece-o. Porque, como diz o poeta:
Seu coração é nobre, e a fronte altiva Revela-lhe da alma a pura essência.
Aquela conversação impacientava Luísa. Ia sentar-se ao piano, quando D. Felicidade exclamou: - Dize cá, então não se toma hoje chá nesta casa?
Luísa foi outra vez à cozinha. Disse a Joana que viesse ela mesma com o chá. - E daí a pouco Joana, de avental branco, vermelha, muito atarantada, entrou com o tabuleiro.
- E a Juliana? - perguntou logo D. Felicidade.
- Saiu, coitada - explicou, Luísa -, tem andado doente...
- E anda-te então por fora até estas horas?... Boa! Até desacredita uma casa...
O Conselheiro também achava imprudente:
- Porque enfim as tentações são grandes numa capital, minha senhora!
Julião exclamou, rindo:
- Não, se aquela é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos meus contemporâneos.
- Oh, Sr. Zuzarte! - acudiu o Conselheiro, quase severamente - referia-me a outras tentações: entrar, por exemplo, numa loja de bebidas, apetecer-lhe ir ao circo e desleixar os seus deveres...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.