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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Enfim os dois padres saíram acompanhados até à porta pelo senhor administrador, que, terminados os deveres públicos, reaparecia homem de sociedade. - Então por que não tinha o amigo Silvério vindo a casa da baronesa de Via-Clara? Houvera um voltarete furibundo. O Peixoto levara dois codilhos. Tinha dito blasfêmias medonhas!... Criado de suas excelências. Estimava bem que tudo se tivesse harmonizado. Cuidado com o degrau... Às ordens de suas excelências...

Ao voltar porém ao seu gabinete dignou-se parar diante da mesa do Domingos, e retomando alguma solenidade:

- A coisa passou-se bem. É um bocado irregular, mas sensata! Bem basta já os ataques que há contra o clero nos jornais... A coisa podia fazer barulho. O rapaz era capaz de dizer que tinham sido ciúmes do padre, que queria desinquietar a rapariga, etc. É mais prudente abafar a coisa. Quanto mais que, segundo o pároco me provou, toda a influência que ele tem exercido. na Rua da Misericórdia ou onde diabo é, tem tido por fim livrar a rapariga de casar com aquele amigo, que, como se vê, é um bêbedo e uma fera!

O Carlos roía-se. Todas aquelas explicações eram dadas ao Domingos! A ele, nada! Ali ficava, esquecido no vão da janela!

Mas não! Sua excelência, de dentro do seu gabinete, chamou-o misteriosamente com o dedo.

Enfim! Precipitou-se, radiante, subitamente reconciliado com a autoridade.

- Eu estava para passar pela botica - disse-lhe o administrador baixo e sem transição, dando-lhe um papel dobrado - para que me mandasse isto a casa, hoje. É um receita do doutor Gouveia... Mas já que o amigo aqui está...

- Eu tinha vindo para me pôr à disposição da vindita...

- Isso está acabado! interrompeu vivamente sua excelência. Não se esqueça, mande-me isso antes das seis. É para tomar ainda esta noite. Adeus. Não se esqueça!

- Não faltarei, disse secamente o Carlos.

Ao entrar na botica, a sua cólera flamejava. Ou ele não se chamava Carlos, ou havia de mandar uma correspondência tremenda ao Popular!... Mas a Amparo, que lhe espreitara a volta da varanda, correu, atirando-lhe as perguntas:

- Então? Que se passou? O rapaz foi para a rua? Que disse ele? Como foi?

O Carlos fixava-a, com as pupilas chamejantes.

- Não foi culpa minha, mas triunfou o materialismo1 Eles o pagarão!

- Mas tu que disseste?

Então, vendo os olhos da Amparo e os do praticante abertos para devorar a citação do seu depoimento - o Carlos, tendo de ressalvar a dignidade de esposo e a superioridade de patrão, disse laconicamente:

- Dei a minha opinião, com firmeza!

- E ele que disse, o administrador?

Foi então que o Carlos, recordando-se, leu a receita que amarrotara na mão. A indignação emudeceu-o - vendo que era aquele todo o resultado da sua grande entrevista com a autoridade!

- Que é? perguntou sofregamente a Amparo.

O que era? e no seu furor, desdenhando o segredo profissional e o bom renome da autoridade, o Carlos exclamou:

- É um frasco de xarope de Gibert para o senhor administrador! Aí tem a receita, Sr. Augusto.

Amparo, que, com alguma prática de farmácia, conhecia os benefícios do mercúrio, fez-se tão

escarlate como as fitas flamejantes que lhe enfeitavam a cuia.

•••

Toda essa tarde se falou com excitação pela cidade da "tentativa de assassinato de que estivera para ser vitima o senhor pároco". Algumas pessoas censuravam o administrador por não ter procedido: os cavalheiros da oposição sobretudo, que viram na debilidade daquele funcionário uma prova incontestável de que o governo ia, com os seus desperdícios e as suas corrupções, levando o país a um abismo!

Mas o padre Amaro, esse, era admirado como um santo. Que piedade! que mansidão! O senhor chantre mandou-o chamar à noitinha, recebeu-o paternalmente com um "viva o meu cordeiro pascal!". E depois de escutar a história do insulto, a generosa intervenção...

- Filho, exclamou, isso é aliar a mocidade de Telêmaco à prudência de Mentor! Padre Amaro, você era digno de ser sacerdote de Minerva na cidade de Salento!

Quando Amaro entrou à noite em casa da S. Joaneira - foi como a aparição dum santo escapo às feras do Circo ou à plebe de Diocleciano! Amélia, sem disfarçar a sua exaltação, apertou-lhe ambas as mãos, muito tempo, toda trêmula, com os olhos úmidos. Deram-lhe, como nos grandes dias, a poltrona verde do cônego. A Sra. D. Maria da Assunção quis mesmo que se lhe pusesse uma almofada para ele apoiar o ombro dorido. Depois, teve de contar miudamente toda a cena, desde o momento em que, conversando com o colega Silvério (que se portara muito bem), avistara o escrevente no meio do largo, de bengalão alçado e ar de mata-mouros...

Aqueles detalhes indignavam as senhoras. O escrevente aparecia-lhes pior que Longuinhos e que Pilatos. Que malvado! O senhor pároco devia-o ter calcado aos pés! Ah! era dum santo, ter perdoado!

- Fiz o que me inspirou o coração, disse ele baixando os olhos. Lembrei-me das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: ele manda oferecer a face esquerda depois de ter sido esbofeteado na face direita...

O cônego, a isto, escarrou grosso e observou:

(continua...)

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