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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Ah, sua brejeira! Viva! Está esse coraçãozinho aos pulos! - E disse-lhe um segredinho.

Riram muito.

- Pois eu - continuou D. Felicidade sentando-se - arranjei-te hoje a partida. Encontrei estamanhã o Conselheiro, que me disse que vinha. Encontrei-o aos Mártires! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que saí! E um bocado adiante dou com Julião; diz que também vinha!... - E com a voz desfalecida:

- Sabes? Tomava uma colherinha de doce...

Foi Luísa que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham encontrado na escada, dizendo-lhes a rir:

- Hoje sou eu o guarda-portão!

D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o espetáculo amado da pessoa de Acácio, começou, falando muito, a censurá-la por deixar assim sair no mesmo dia as duas criadas...

- E se te achares incomodada, filha; se te der alguma coisa?

Luísa riu. Não era afeta a fanicos...

Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:

- Tem continuado a sofrer dos dentes, D. Luísa?

Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia! - exclamou D. Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão perfeita.

O Conselheiro apressou-se a citar: - Em lábios de coral, pérolas finas..." E acrescentou:

- É verdade, mas a última vez que tive a honra de estar com D. Luísa, viu-se tão repentinamenteaflita com um dente, que teve de ir a correr chumbá-lo ao Vitry.

Luísa fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a Joana; ia abrir...

- É verdade - continuou o Conselheiro - tínhamos feito um delicioso passeio, quando de repenteD. Luísa empalidece, e parece que a dor era tão urgente que se precipitou para a escada do dentista, como louca...

A propósito de dores, D. Felicidade, que estava ansiosa por interessar, comover o Conselheiro, começou a história do seu pé: disse a queda, o milagre de não ter morrido, as visitas assíduas de condessas e viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom Dr. Caminha...

- Ai! Sofri muito! - suspirou, com os olhos no Conselheiro, para provocar uma palavra simpática.

Acácio, então, disse com autoridade:

- É sempre um erro, ao descer uma escada íngreme, não procurar o apoio do corrimão.

- Mas podia ter morrido! - exclamou ela. E voltando-se para Julião: - Pois não é verdade?

- Neste mundo morre-se por qualquer coisa - disse ele enterrado numa poltrona, fumandovoluptuosamente. Ele mesmo estivera naquela tarde para ser atropelado por um trem; destinara o domingo para se dar um feriado, e fizera um grande passeio pela circunvalação... - Há mais de um mês vivo no meu cubículo, como um frade beneditino na livraria do seu convento! acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza do cigarro sobre o tapete.

O Conselheiro quis saber então o assunto da tese: decerto muito momentoso!... E apenas Julião lhe disse: Sobre Fisiologia, Sr. Conselheiro", Acácio observou logo, com uma voz profunda:

- Ah! Fisiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais ao estilo ameno.

Queixou-se, também, de vergar ao peso dos seus trabalhos literários...

- Esperemos todavia, Sr. Zuzarte, que não sejam infrutíferas as nossas vigílias!

- As suas, Sr. Conselheiro, as suas! - E com interesse: - Quando nos dá o seu novo trabalho?Há sofreguidão em o ver!

- Há alguma sofreguidão - concordou o Conselheiro com seriedade. Há dias me dizia o senhorministro da Justiça (esse robustíssimo talento), há dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu livro, Acácio, estamos precisados de luz, de muita luz!" Foi assim que ele disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: "senhor ministro, não serei eu que a negue ao meu pais, quando o meu país a necessitar!"

- Muito bem, muito bem, Conselheiro!

- E - acrescentou - dir-lhes-ei aqui em família, que o nosso ministro do reino me deixou entrevernum futuro não remoto, a comenda de São Tiago!

- Já lha deviam ter dado, Conselheiro! - exclamou Julião, divertindo-se.

- Mas neste desgraçado país... Já a devia ter ao peito, Conselheiro!

- Há que tempos! - exclamou com força D. Felicidade.

- Obrigado, obrigado! - balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do seu júbilo ofereceucom uma familiaridade agradecida, a sua caixa de rapé a Julião.

- Tomarei para espirrar - disse ele.

Sentia-se naquela tarde numa disposição benévola; o trabalho e as altas esperanças que ele lhe dava tinham decerto dissipado o seu azedume; parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrara ali, naquela sala, o primo Basílio, porque apenas Luísa entrou, perguntou-lhe por ele.

- Partiu para Paris, não sabiam? Há que tempos!

D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Basílio. Tinha ido deixar bilhetes de visita a ambos - o que encantara D. Felicidade e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo! - exclamava ela. E Acácio afirmou com autoridade:

- É uma voz de barítono, digna de São Carlos.

- E muito elegante! - disse D. Felicidade.

- Um gentleman! - resumiu o Conselheiro.

(continua...)

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