Por Eça de Queirós (1900)
Abalou através das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou abafadamente pela escadaria de pedra, varou o portão numa carreira, espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No largo parou, diante da grade do relógio do sol. Mas o sussurro do Mirante errava por todo o largo como um vento enroscado, raspando as lajes, batendo as barbas dos Santos sobre o portal da Igreja de S. Mateus, redemoinhando nos telhados musgosos da Cordoaria...- "Não, não, que loucura! Sim, sim! meu amor!" Então Gonçalo sentiu a ansiedade desesperada de escapar para longe, para imensamente longe do largo, do Palacete, da cidade, de toda aquela vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?... Pensou na alquilaria do Maciel, a mais retirada, para além das últimas casas, na estrada do Seminário. E cosido com os muros baixos dessas ruas pobres, correu, mandou engatar uma caleche fechada.
Enquanto esperava à porta, num banco, passou pela estrada uma lenta carroça com móveis, panelas de cozinha, um grande colchão onde se alastrava uma nódoa. Bruscamente Gonçalo recordou o divan que guarnecia o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho, com molas lassas que rangiam. E de repente o murmúrio recomeçou, cresceu, rolando com fragor de trovão por sobre os casebres vizinhos, por sobre a cerca do Seminário, por sobre
Oliveira espantada: - "Não, não, que loucura! Sim, sim, meu amor!"
Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para a cavalariça escura:
- Então, que inferno! não acaba, essa carruagem?
- Já a largar, meu Fidalgo.
No relógio da Piedade sete horas batiam - quando ele se atirou para a caleche, e fechou os stores perros, e se enterrou no fundo, bem sumido, esmagado, com a sensação que o Mundo tremera, e as mais fortes almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando dentro um montão ignorado de lixo e de saias sujas.
IX
À porta da cozinha, sacudindo um sobrescrito já amarrotado, Gonçalo ralhava com a Rosa cozinheira:
- Oh Rosa! pois tanto lhe recomendei que não escrevesse à mana Graça?... Que teimosa! Então não arranjávamos a pequena, sem essas lamúrias para Oliveira? Graças a Deus, a Torre é larga bastante para mais uma criancinha!
É que morrera a Críspola - a desgraçada viúva, vizinha da Torre, que com um rancho miúdo de dois pequenos, três raparigas, definhava no catre desde a Páscoa. E agora Gonçalo, que mantivera o casebre em fartura, andava acomodando as pobres crianças - já por cuidado dele muito asseadamente vestidas de luto. A rapariga mais velha (também Críspola), sempre encafuada na cozinha da Torre, passava regularmente a "ajudante da Rosa", com soldada. Um dos rapazes, de doze anos, espigado e esperto, também Gonçalo o empregava na Torre como andarilho, para os recados, com fardeta de botões amarelos. O outro, mole e ranhoso, mas com o jeito e o amor de carpinteirar, já Gonçalo, sob o patrocínio da tia Louredo, o colocara em Lisboa, na Oficina de S. José. Duma das outras raparigas se encarregava a mãe de Manuel Duarte, amorável senhora que habitava uma quinta formosa junto a Treixedo, e adorava Gonçalo de quem se considerava "vassala". Mas para a mais novinha e a mais fraquinha não se arranjava amparo sólido. A Rosa lembrara então - "que certamente a Sra. D. Maria da Graça recolheria a criaturinha..." Gonçalo rosnara com secura: - "Oh! por uma côdea mais de pão não se necessita incomodar a cidade de Oliveira!" Rosa, porém, enlevada na obra, desejando para pequerrucha tão franzina e loira o agasalho duma senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada letra do Bento, uma verbosa carta com o pedido, e toda a história lamentosa da Críspola, e louvores devotos à caridade do Sr. Doutor. E era a resposta de Gracinha, demorada mas enternecida, com a recomendação "de lhe mandarem logo a pobre criança" - que impacientava o Fidalgo.
Porque, desde a tarde abominável do Mirante, estranhamente se apoderara dele uma repugnância quase pudica em comunicar com os Cunhais! Era como se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes cor-de-rosa empestassem o jardim, o Palacete, o largo d'El-Rei, toda a cidade de Oliveira, e ele agora, por asseio moral, recuasse ante essa região empestada onde o seu coração e o seu orgulho sufocavam... Logo depois da sua fuga recebera do bom Barrolo uma carta espantada: - "Que telha foi essa? Por que não esperaste? Eu, quando voltei à noite da quinta do Marges, até fiquei com cuidado. E não imaginas como a Gracinha anda nervosa! Soubemos da partida, por acaso, por um cocheiro do Maciel. Já hoje comemos os pêssegos, mas não compreendemos!...
Gonçalo respondeu secamente num bilhete: "Negócios". Depois recordou que deixara na gaveta do seu quarto o manuscrito da Novela; e mandou um moço da quinta, de madrugada, com um recado quase secreto ao Padre Soeira, "para que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada, sem contar aos senhores..." Entre a Torre e os Cunhais só desejava separação e silêncio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.