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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Ela mesmo lha ajudou a enfiar, enquanto o Carlos, com a imaginação trabalhando viva (aquela desgraçada imaginação que, como ele dizia, até às vezes lhe dava dores de cabeça), ia preparando o seu depoimento, que faria ruído na cidade. Falaria de pé. Na saleta da administração seria um aparato judicial; à sua mesa, o senhor administrador, grave como a personificação da Ordem; em redor os amanuenses, ativos sobre o seu papel selado; e o réu, defronte, na atitude tradicional dos criminosos políticos, os braços cruzados sobre o peito, a fronte alta desafiando a morte. Ele, Carlos, então, entraria e diria: "Senhor administrador, aqui venho espontaneamente pôr-me ao serviço da vindita social!"

- Hei-de-lhes mostrar, com uma lógica de ferro, que é tudo resultado duma conspiração do racionalismo . Podes estar certa, Amparozinho, é uma conspiração do racionalismo! disse, puxando, com um gemido de esforço, as presilhas dos botins de cano.

- E repara se ele fala da pequena, da S. Joaneira...

- Hei-de tomar notas. Mas não se trata da S. Joaneira. Isto é um processo político!

Atravessou o largo majestosamente, certo que os vizinhos, pelas portas, murmuravam: Lá vai o Carlos depor... Ia depor, sim, mas não sobre o murro no ombro de sua senhoria. Que importava o murro? O grave era o que estava por trás do murro - uma conspiração contra a Ordem, a Igreja, a Carta e a Propriedade! É o que ele provaria de alto ao senhor administrador. Este murro, ilustríssimo senhor, é o primeiro excesso duma grande revolução social!

E empurrando o batente de baeta que dava acesso para a administração do concelho de Leiria, ficou um momento com a mão no ferrolho, enchendo o vão da porta da pompa da sua pessoa. Não, não havia o aparato judicial que ele concebera. O réu lá estava, sim, o pobre João Eduardo, mas sentado à beira do banco, com as orelhas em brasa, olhando estupidamente o soalho. Artur Couceiro, embaraçado com a presença daquele íntimo dos serões da S. Joaneira, ali no assento dos presos, para o não olhar fixara o nariz sobre o imenso copiador de ofícios, onde desdobrara o Popular da véspera. O amanuense Pires, de sobrancelhas muito erguidas e muito sérias, embebia-se na ponta da pena de pato que aparava sobre a unha. O escrivão Domingos, esse sim, vibrava de atividade! O seu lápis rascunhava com furor; o processo estava-se decerto apressando; era tempo de trazer a sua idéia... E o Carlos então adiantando-se:

- Meus senhores! O senhor administrador?

Justamente, a voz de sua excelência chamou de dentro do seu gabinete:

- Ó Sr. Domingos?

O escrivão perfilou-se, puxando os óculos para a testa.

- Senhor administrador!

- O senhor tem fósforos?

O Domingos procurou ansiosamente pela algibeira, na gaveta, entre os papéis...

- Algum dos senhores tem fósforos?

Houve um rebuscar de mãos sobre a mesa... Não, não havia fósforos.

- Ó Sr. Carlos, o senhor tem fósforos?

- Não tenho, Sr. Domingos. Sinto.

O senhor administrador apareceu então, ajeitando as suas lunetas de tartaruga:

- Ninguém tem fósforos, hem? É extraordinário que não haja aqui nunca fósforos! Uma repartição destas sem um fósforo... Que fazem os senhores aos fósforos? Mande buscar por uma vez meia dúzia de caixas!

Os empregados olhavam-se consternados dessa falta flagrante no material do serviço administrativo. E o Carlos, apoderando-se logo da presença e da atenção de sua excelência:

- Senhor administrador, eu aqui venho... Aqui venho solicito e espontâneo, por assim dizer...

- Diga-me uma coisa, Sr. Carlos, interrompeu a autoridade. O pároco e o outro ainda estão lá na botica?

- O senhor pároco e o Sr. padre Silvério ficaram com minha esposa a repousar da comoção que... - Tem a bondade de lhes dizer que são cá precisos...

- Eu estou à disposição da lei.

- Que venham quanto antes... São cinco horas e meia, queremo-nos ir embora! Vejam que maçada tem sido esta aqui, todo o dia! A repartição fecha-se às três!

E sua excelência, rodando, sobre os tacões, foi debruçar-se à sacada do seu gabinete - àquela sacada de onde ele diariamente, das onze às três, retorcendo o bigode louro e entesando o plastrão azul, depravava a mulher do Teles.

O Carlos abria já o batente verde, quanto um pst do Domingos o deteve.

- Ó amigo Carlos .- e o sorrisinho do escrivão tinha uma suplicação tocante - desculpe, hem?

Mas... Traz-me de lá uma caixita de fósforos?

Neste momento à porta aparecia o padre Amaro; e por trás a massa enorme do Silvério.

- Eu desejava falar ao senhor administrador em particular, disse Amaro.

Todos os empregados se ergueram; João Eduardo também, branco como a cal do muro. O pároco, com as sua passadas sutis de eclesiástico, atravessou a repartição, seguido do bom Silvério que ao passar diante do escrevente descreveu de esguelha um semicírculo cauteloso, com terror ao réu; o senhor administrador acudira a receber suas senhorias; e a porta do gabinete fechou-se discretamente.

- Temos composição, rosnou o experiente Domingos, piscando o olho aos colegas.

(continua...)

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