Por Eça de Queirós (1900)
- A Sra. D. Graça desceu há um bocadinho grande para o Mirante, de chapéu... Naturalmente iaà Igreja das Mônicas.
- Bem. Leva esse cesto de pêssegos e dize ao Joaquim da Copa que os ponha na mesa, assimmesmo no cesto, com as folhas... E que me subam ao quarto água quente.
O relógio da parede, na sala de espera, gemia preguiçosamente as cinco horas. O palacete repousava num claro silêncio. E, depois da poeira e dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo a frescura do seu quarto com as quatro janelas abertas sobre o jardim regado e sobre a cerca das Mônicas. Cuidadosamente, guardou logo numa gaveta da cômoda a pasta preciosa de marroquim. Uma criada de olhos repolhudos entrara com o jarrão d'água quente: - e o Fidalgo, como sempre, chasqueou a moça sobre os lindos sargentos de Cavalaria, cujo quartel tentador dominava o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando todo o dia com paixão. Depois ainda se demorou, mudando o fato empoeirado, assobiando vagamente, encostado à varanda sobre a calada rua das Tecedeiras. O sino das Mônicas lançou um lindo repique... E Gonçalo, enfastiado da sua solidão, decidiu descer pelo terraço do jardim, e surpreender Gracinha nas suas devoções, na Igrejinha.
Embaixo, no corredor, cruzou o Joaquim da Copa:
- Então o Sr. Barrolo hoje não janta?
- O Sr. Barrolo foi jantar com o Sr. Barão das Marges, na quinta... São os anos da menina.Naturalmente só recolhe à noite.
Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, compondo para o casaco um ramo de flores ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo da porta com que o Barrolo a enriquecera, uma porta envidraçada, arqueada em ferradura, com um monograma de cores rutilantes; e meteu pela rua que conduzia ao repuxo, coberta de silêncio e penumbra pela rama enlaçada dos seus altos loureiros. Adiante, circundado de bancos de pedra, de árvores de aroma e flor, cantava dormentemente o fino repuxo num tanque redondo, de borda larga, onde se espaçavam grossos vasos de louça branca com o brasão ramalhudo dos Sás. Certamente na véspera ou de manhã se lavara o tanque, porque na água muito transparente, sobre as lajes muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos rosados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhando e agitando a bengala. E daquela borda do tanque já ele avistava ao fundo de outra rua, debruada de dálias abertas, o Mirante - uma construção do século XVIII, simulando um Templozinho grego, cor de rosa desbotado, com um gordo Cupido sobre a cúpula, e janelinhas de rocalha entre o meio-relevo das colunas caneladas por onde trepavam jasmineiros.
Gonçalo arrancou, como costumava, folhas dum ramo de lúcia-lima para esmagar e perfumar as mãos; e continuou para o Mirante, vagarosamente, por entre as dálias apinhadas. Na aléia, novamente ensaibrada, os sapatos finos de verniz que calçara pousavam sem rumor no saibro mole. E assim, num silêncio de sombra indolente, se acercou do Mirante - e duma das janelinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a persiana de tabuinhas verdes. Rente dessa janela era a escada de pedra, que, do elevado e comprido terraço sobre que se estendia o jardim, comunicava com a encovada rua das Tecedeiras, quase em frente à Capela das Mônicas. E Gonçalo, sem pressa, descia - quando, através da persiana rala, sentiu dentro do Mirante um sussurro, um cochichar perturbado. Sorrindo, pensou que alguma das criadas da casa se refugiara nesse Templozinho de Amor com um dos sargentos terríveis de Cavalaria,,, Mas, não! impossível! Pois se, momentos antes, Gracinha roçara aquela janela e pisara aquela escada, no seu caminho para as Mônicas! E então outra idéia o varou como uma espada - e tão dolorosa que recuou com terror da beira do Mirante donde ela perversamente o assaltara. Já porém uma desesperada curiosidade o agarrara, o empurrava - e colou a face à persiana com a cautela de um espião. O Mirante recaíra em silêncio - Gonçalo temia que o traíssem as pancadas do seu coração... Santo Deus! De novo o murmúrio recomeçara, mais apressado, mais turbado. Alguém suplicava, balbuciava: - "Não, não, que loucura!" - Alguém urgia, impaciente e ardente: - "Sim, meu amor! sim, meu amor!" E a ambos os reconheceu - tão claramente como se a persiana se erguesse e por ela entrasse toda a vasta claridade do jardim. Era Gracinha! Era o Cavaleiro!
Colhido por uma imensa vergonha, no atarantado pavor de que o surpreendessem junto do Mirante e da torpeza escondida - enfiou pela rua das dálias, encolhido, com os sapatos leves no saibro mole, costeou o repuxo por sob a ramaria dos arbustos, remergulhou na escuridão dos loureiros, deslizou sorrateiramente por trás da estufa - penetrou no sossego do Palacete. Mas o murmúrio do Mirante ainda o envolvia, mais desfalecido, mais rendido - "Não, não, que loucura!... Sim, sim, meu amor!..."
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.