Por Eça de Queirós (1887)
Detestei aquele nosso; odiei aquele padre. Por que corria tanto mel no seu falar? Por que se privilegiava ele no sofá, roçando a sórdida joelheira da calça pelos castos cetins da Titi?
Mas o Doutor Margaride, abrindo a caixa de rapé, concordou que o método seria mais profícuo...
- Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Teodorico conta por ordem todas as maravilhas que viu!
O esgalgado Negrão, com uma escandalosa privança, correu dentro a colher um copo de água e açúcar para me lubrificar as vias. Estendi o lenço sobre o joelho. Tossi - e comecei a esboçar a soberba jornada. Disse o luxo do Málaga; Gibraltar e o seu morro encarapuçado de nuvens; a abundância das "mesas redondas", com pudins e águas gasosas...
- Tudo à grande, à francesa! - suspirou Padre Pinheiro, com um brilho de gula no olho amortecido. - Mas naturalmente, tudo muito indigesto...
- Eu lhe digo, Padre Pinheiro... Sim, tudo à grande, tudo à francesa; mas cousas saudáveis, que não esquentavam os intestinos... Belo rosbife, belo carneiro...
- Que não valiam decerto o seu franguinho de cabidela, excelentíssima senhora! - atalhou untuosamente o Negrão, junto do ombro agudo da Titi.
Execrei aquele padre! E, remexendo a água com açúcar, decidi em meu espírito que, mal eu começasse a governar ferreamente o Campo de Santana - não mais a cabidela da minha família escorregaria na goela aduladora daquele servo de Deus.
No entanto o bom Justino, repuxando o colarinho, sorria para mim, embevecido. E como passava eu as noites em Alexandria? Havia uma assembléia, onde espairecesse? Conhecia eu alguma família considerada, com quem tomasse uma chávena de chá?...
- Eu lhe digo, Justino... Conhecia. Mas, a falar verdade, tinha repugnância em freqüentar casas de turcos... Sempre é gente que não acredita senão em Mafona!... Olhe, sabe o que fazia à noite? Depois de jantar ia a uma igrejinha cá da nossa bela religião, sem estrangeirices, onde havia sempre um santíssimo de apetite... Fazia as minhas devoções; depois ia-me encontrar com o alemão, o meu amigo, o lente, numa grande praça que dizem lá os de Alexandria que é muito melhor que o Rossio... Maior e mais abrutada talvez seja. Mas não é esta lindeza do nosso Rossio, o ladrilhinho, as árvores, a estátua, o teatro... Enfim, para meu gosto, e para um regalinho de verão prefiro o Rossio... E lá o disse aos turcos!
E fica-lhe bem ter levantado assim as cousas portuguesas! observou o Doutor Margaride, contente e rufando na tabaqueira. Direi mais... É ato de patriota... Nem de outra maneira procediam os Gamas e os Albuquerques!
- Pois é verdade... Ia-me encontrar com o alemão; e então para espairecer um bocado, porque enfim uma distração sempre e necessária quando se anda a viajar, íamos tomar um café... Que lá isso, sim! Lá café fazem-no os turcos que é uma perfeição!
- Bom cafezinho, hem? - acudiu Padre Pinheiro, chegando a cadeira para mim com interesse sôfrego. - É forte, forte? Bom aroma?
Sim, Padre Pinheiro, de consolar! ... Pois tomávamos o nosso cafezinho; depois vínhamos para o hotel, e aí no quarto, com os santos evangelhos, punhamo-nos a estudar todos aqueles divinos lugares na Judéia onde tínhamos de ir rezar... E como o alemão era lente e sabia tudo, eu era instruir-me, instruir-me!... Até ele às vezes dizia: "Você, Raposo, com estas noitadas, vai daqui um chavão..." E lá isso, o que é de cousas santas e de Cristo, sei tudo... Pois senhores, assim passávamos à luz do candeeiro até às dez onze horas... Depois, chazinho, terço e cama.
- Sim senhor, noites muito bem gozadas, noites muito frutuosas! - declarou, sorrindo para a Titi, o estimável Doutor Margaride.
- Ai, isso fez-lhe muita virtude! - suspirava a horrenda senhora. - Foi como se subisse um bocadinho ao céu... Até o que ele diz cheira bem... Cheira a santo.
Modestissimamente, baixei a pálpebra lenta.
Mas Negrão, com sinuosa perfídia, notou que mais proveitoso seria, e de maior unção repassar as almas - escutar cousas de festas, de milagres, de penitências...
- Estou seguindo o meu itinerário, senhor Padre Negrão repliquei asperamente.
- Como fez Chateaubriand; como fazem todos os famosos autores! - confirmou Margaride, aprovando.
E foi com os olhos nele, como no mais douto, que eu disse a partida de Alexandria numa tarde de tormenta; o tocante momento em que uma santa irmã de caridade (que estivera já em Lisboa e que ouvira falar da virtude da Titi), me salvara das águas salgadas um embrulho em que eu trazia terra do Egito, da que pisara a Santa Família; a nossa chegada a Jafa, que, por um prodígio apenas eu subira ao tombadilho, de chapéu alto e pensando na Titi, se coroara de raios de sol...
- Magnífico! - exclamou o Doutor Margaride. - E diga, meu Teodorico... Não tinham consigo um sábio guia, que lhes fosse apontando as ruínas, lhes fosse comentando...
- Ora essa, Doutor Margaride! Tínhamos um grande latinista, o Padre Pote!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.