Por Eça de Queirós (1888)
Villaça considerou-o um momento, com malicia.
- Quer v. ex.ª dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que receber assim perto de quinhentas libras? São gostos, meu senhor, são gostos... Elle é bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas dous contos de réis, são dous contos de réis... Olhe
que sempre valem um folhetim. Emfim, o negocio é este. Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braços cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villaça trazia (um macacão de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde de Torral e de porcos... Quando Villaça lhe apresentou os papeis, assignou-os com um ar moribundo.
- Então não fica para almoçar, Villaça? disse elle, vendo o procurador metter o seu rolo de papeis debaixo do braço.
- Muito agradecido a v. exa. Tenho de me encontrar com o nosso amigo Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem lá uma pertenção... Quer a commenda da Conceição... Mas este governo está desgostoso com elle.
- Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo não está contente com o Eusebiosinho?
- Não se portou bem nas eleições. Ainda ha dias, o ministro do reino me dizia, em confidencia: «O Eusebio é rapaz de merecimento, mas atravessado...» V. Ex.ª n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em Cintra.
- Sim, lá estava a fazer jus á commenda da Conceição.
Quando Villaça saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coçando a barba, desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareceu Affonso da Maia, ainda de chapéo, á volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma carta na mão, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio misturada ao seu correio. Além d'isso, esperava encontrar ali o Villaça.
- Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o Eusebiosinho - disse Carlos, abrindo a carta.
E teve uma surpreza, vendo no papel - que cheirava a verbena como a condessa de Gouvarinho - um convite do conde para jantar no sabbado seguinte, feito em termos de sympathia tão escolhidos que eram quasi poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos atomos em gancho de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avô que era um par do reino que o convidava a jantar, citando Descartes...
- São capazes de tudo, murmurou o velho.
E dando um olhar risonho aos manuscriptos espalhados sobre a banca:
- Então, aqui, trabalha-se, hein?
Carlos encolheu os hombros:
- Se é que se póde chamar a isto tabalhar... Olhe ahi para o chão. Veja esses destroços... Em quanto se trata de tomar notas, colligir documentos, reunir materiaes, bem, lá vou indo. Mas quando se trata de pôr as idéas, a observação, n'uma fórma de gosto e de symetria, dar-lhe côr, dar-lhe relevo, então... Então foi-se! - Preoccupação peninsular, filho, disse Affonso, sentando-se ao pé da mesa, com o seu chapéo desabado na mão. Desembaraça-te d'ella. É o que eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca póde ser homem de idéas, por causa da paixão da fórma. A sua mania é fazer bellas phrases, vêr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fôr necessario falsear a idéa, deixal-a incompleta, exageral-a, para a phrase ganhar em belleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela agoa abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase. - Questão de temperamento, disse Carlos. Ha sêres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um systema... Eu sou d'esses monstros.
- Diabo! então és um rhetorico...
- Quem o não é? E resta saber por fim se o estylo não é uma disciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o esforço para completar bem a cadencia de uma phrase, não poderá trazer desenvolvimentos novos e inesperados de uma idéa... Viva a bella phrase!
- O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando começava justamente a tocar a sineta do almoço.
- Fallae na phrase... - disse Affonso, rindo.
- Hein? Que phrase? O que?... - exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como está v. ex.ª? Dize-me cá, Carlos, tu é que me podes tirar d'uma atrapalhação... Tu terás por acaso uma espada que me sirva? E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, já impaciente:
- Sim, homem, uma espada! Não é para me batter, estou em paz com toda a humanidade... É para esta noute, para o fato de mascara.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.