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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

O Carlos, esse, apressou-se a conduzir o senhor pároco para a botica; fez preparar, com estrépito, flor de laranja e éter; gritou pela esposa, para arranjar uma cama... Queria examinar o ombro de sua senhoria: haveria intumescência?

- Obrigado, não é nada, dizia o pároco muito branco. Não é nada. Foi um raspão. Basta-me uma gota de água...

Mas a Amparo achava melhor um cálice de vinho do Porto; e correu acima a buscar-lho, tropeçando nos pequenos que se lhe despenduravam das saias, dando ais, explicando pela escada à criada que tinham querido matar o senhor pároco!

À porta da botica juntara-se gente, que embasbacava para dentro; um dos carpinteiros que trabalhavam nas obras afirmava que "fora uma facada"; e uma velha por trás debatia-se, de pescoço esticado, para ver o sangue. Enfim, a pedido do pároco, que receava escândalo, o Carlos veio majestosamente declarar que não queria motim à porta! O senhor pároco estava melhor. Fora apenas um soco, um raspão de mão... Ele respondia por sua senhoria.

E como o burro ao lado começara a ornear, o farmacêutico voltando- se indignado para o rapazito que o segurava pela arreata:

- E tu não tens vergonha, no meio dum desgosto destes, um desgosto para toda a cidade, de ficar aqui com esse animal, que não faz senão zurrar? Para longe, insolente, para longe!

Aconselhou então os dois sacerdotes a que subissem para a sala, para evitar a "curiosidade da populaça". E a boa Amparo apareceu logo com dois cálices do Porto, um para o senhor pároco, outro para o Sr. padre Silvério que se deixara cair a um canto do canapé apavorado ainda, extenuado de emoção.

- Tenho cinqüenta e cinco anos, disse ele depois de ter chupado a última gota de Porto, e é a primeira vez que me vejo num barulho!

O padre Amaro, mais sossegado agora, afetando bravura, chasqueou o padre Silvério:

- Você tomou o caso muito ao trágico, colega... E lá ser a primeira, vamos lá... Todos sabem que o colega esteve pegado com o Natário...

- Ah, sim, exclamou o Silvério, mas isso era entre sacerdotes, amigo!

Mas a Amparo, ainda muito trêmula, enchendo outro cálice ao senhor pároco, quis saber "os particulares, todos os particulares..."

- Não há particulares, minha senhora, eu vinha aqui com o colega... Vínhamos cavaqueando... O homem chegou-se a mim, e, como eu estava desprevenido, deu-me um raspão no ombro.

- Mas por quê, por quê? exclamou a boa senhora, apertando as mãos, num assombro.

O Carlos então deu a sua opinião. Ainda havia dias, ele dissera, diante da Amparozinho e de D. Josefa, a irmã do respeitável cônego Dias, que estas idéias de materialismo e ateísmo estavam levando a mocidade aos mais perniciosos excessos... E mal sabia ele então que estava profetizando!

- Vejam vossas senhorias este rapaz! Começa por esquecer todos os deveres de cristão (assim nolo afirmou D. Josefa), associa-se com bandidos, achincalha os dogmas nos botequins... Depois (sigam vossas senhorias a progressão), não contente com estes extravios, publica nos periódicos ataques abjetos contra a religião... E enfim, possuído duma vertigem de ateísmo, atira-se, diante mesmo da catedral, sobre um sacerdote exemplar (não é por vossa senhoria estar presente) e tenta assassiná-lo! Ora, pergunto eu, o que há no fundo de tudo isto? Ódio, puro ódio à religião de nossos pais!

- Infelizmente assim é, suspirou o padre Silvério.

Mas a Amparo, indiferente às causas filosóficas do delito, ardia na curiosidade de saber o que se passaria na administração, o que diria o escrevente, se o teriam posto a ferros... O Carlos prontificou-se logo a ir averiguar.

De resto, disse ele, era o seu dever, como homem de ciência, esclarecer a justiça sobre as conseqüências que podia ter trazido um murro, à força de braço, na região delicada da clavícula... (ainda que, louvado Deus, não havia fratura, nem inchaço), e sobretudo queria revelar à autoridade, para que ela tomasse as suas providências, que aquela tentativa de espancamento não provinha de vingança pessoal. Que podia ter feito o senhor pároco da Sé ao escrevente do Nunes? Provinha duma vasta conspiração de ateus e republicanos contra o sacerdócio de Cristo!

- Apoiado, apoiado! disseram os dois sacerdotes gravemente.

- E é o que eu vou provar cabalmente ao senhor administrador do concelho!

Na sua precipitação zelosa de conservador indignado, ia mesmo de chinelas e quinzena de laboratório: mas Amparo alcançou-os no corredor:

- Oh filho, a sobrecasaca, põe a sobrecasaca ao menos, que o administrador é de cerimônias!

(continua...)

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