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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia embaraçadamente o bigode. E o Visconde de RioManso não estranhava aquele pasmo porque decerto o Sr. Gonçalo Ramires o conhecera sempre como ferrenho Regenerador... Mas então! Ele pertencia à geração, agora bem rareada, que antepunha aos deveres da Política os deveres da gratidão: - e além da simpatia que lhe merecia o Sr. Gonçalo Ramires (pelo que constava em todo o Distrito do seu talento, da sua afabilidade, da sua caridade) também conservava para com S. Exa. uma divida de gratidão, ainda aberta, não por indiferença, mas por timidez...

- V. Exa. não adivinha, Sr. Gonçalo Mendes Ramires?... Não se lembra?

- Não, realmente, Sr. Visconde, não me...

Pois uma tarde o Sr. Gonçalo Mendes Ramires passava a cavalo pela quinta da Varandinha, quando a sua neta, brincando no terraço (aquele terraço gradeado donde se curva uma magnólia), deixou escapar uma péla para a estrada. O Sr. Gonçalo Mendes Ramires, rindo, apeou imediatamente, apanhou a péla, e, para a restituir à menina debruçada da grade, abeirou a égua do muro depois de montar - e com que ligeireza e garbo!...

- V. Exa. não se lembrava?

- Sim, sim, agora...

Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pousava um jarro cheio de cravos. O Sr. Gonçalo Mendes, depois de gracejar com a menina (que, louvado Deus, não era acanhada!) pediu um cravo, que ela escolheu - e que lhe deu, toda séria, como uma senhora. E ele, que observara da janela do seu quarto, pensava: - "Ora aí está! Este Fidalgo da Torre, um tão grande Fidalgo, que amável!" - Oh S. Exa. não tinha que rir e corar... A gentileza fora grande - e a ele, avô, parecera imensa! Mas não ficara somente na péla apanhada...

- O Sr. Gonçalo Mendes Ramires não se recorda?...

- Sim, Sr. Visconde. com efeito, agora...

Pois, logo no outro dia, o Sr. Gonçalo Mendes Ramires mandara da Torre um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e numa linha este gracejo: - "Em agradecimento dum cravo, rosas à Sra. D. Rosa".

Gonçalo quase pulou na cadeira, divertido:

- Sim, sim, Sr. Visconde, perfeitamente!,,, Agora me recordo!

Pois desde essa tarde ele sempre almejara por uma oportunidade de mostrar ao Sr, Gonçalo Mendes Ramires o seu reconhecimento, a sua simpatia, Mas quê! era tímido, vivia muito retirado,,, Nessa manhã, porém, em Vila-Clara, soubera pelo Gouveia que S, Exa. se apresentava Deputado pelo Círculo, Apesar de ser eleição tão segura, já pela influência do Sr, Ramires, já pela influência do Governo, logo pensara: - "Bem, aí está a ocasião!" E agora oferecia a S. Exa., na freguesia de Canta-Pedra, o seu préstimo e os seus votos.

Gonçalo murmurou, enternecido:

- Realmente, Sr. Visconde, nada me podia sensibilizar mais do que uma oferta tão espontânea,tão...

- Sou eu que me sensibilizo por V. Exa. aceitar. E agora não falemos mais nesse meu pobrepréstimo e nesses meus pobres votos... Pois V. Ex. tem aqui uma venerável vivenda.

E como o Visconde aludia ao desejo, já nele antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais velha que Portugal - ambos desceram ao pomar. O Visconde, com o guarda-sol ao ombro, pasmou em silêncio para a torre: reconheceu (apesar de liberal) o prestigio que resulta duma tão alta linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois, sabendo que o Pereira da Riosa arrendara a quinta, invejou ao Sr. Ramires tão cuidadoso e honrado rendeiro... - Diante do portão, o char-à-bancs do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e nédias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, suplicou ao Sr. Visconde que beijasse por ele a mãozinha da Sra D. Rosa. Comovido, o Visconde confessou uma ousadia, uma esperança - e era que S. Exa. um dia, à sua escolha, parasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta, para conhecer mais intimamente a menina da péla e do cravo...

- Mas com imensa honra!.. E desde já me proponho a ensinar à Sra. D. Rosa. se ela o não sabe, o jogo da péla à antiga portuguesa.

O Sr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mão sobre o coração.

Gonçalo, trepando as escadas, murmurava: - "Oh senhores, que simpático homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora vejam como as vezes, por uma pequenina atenção, se ganha um amigo! Com certeza, para a semana vou a Canta-Pedra jantar"... Homem encantador!'

E foi num ditoso estado de alma que acomodou na caleche a pasta de marroquim com o manuscrito, o cesto sentimental dos pêssegos da D. Ana - e acendeu um charuto, e saltou á almofada, e tomou as rédeas para lançar, num trote alegre até Oliveira, a parelha branca do Russo.

No largo de El-Rei, antes de apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta notícias dos senhores. Os senhores todos muito bem, graças a Deus... O Sr. José Barrolo partira de manhã a cavalo para a quinta do Sr Barão das Marges, só recolhia á noite...

- E o Sr Padre Soeiro?

- O Sr. Padre Soeiro, creio que está para casa da Sra. D. Arminda...

- E a Sra. D. Graça?

(continua...)

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