Por Eça de Queirós (1887)
- Olha, filho, até estou a tremer... E é destes gostinhos todos! Saiu. Eu fiquei coçando o queixo. Sim ainda havia uma circunstância que me escorraçaria do testamento da Titi! Seria aparecer diante dela, material e tangível, uma evidência das minhas relaxações... Mas como surgiria ela jamais neste lógico universo? Todas as passadas fragilidades da minha carne eram como os fumos esparsos de uma fogueira apagada, que nenhum esforço pode novamente condensar. E o meu derradeiro pecado - saboreado tão longe, no velho Egito, como chegaria jamais à notícia da Titi? Nenhuma combinação humana lograria trazer, ao Campo de Santana, as duas únicas testemunhas dele - uma luveira ocupada agora a encostar as papoulas do seu chapéu aos granitos de Ramsés, em Tebas, e um doutor encafuado numa rua escolástica, à sombra de uma vetusta universidade da Alemanha, escarafunchando o cisco histórico dos Herodes... E, a não ser essa flor de deboche e essa coluna de ciência, ninguém mais na terra conhecia os meus culpados delírios, na cidade amorosa dos Lágidas.
Demais, o terrível documento da minha junção com a sórdida Mary; a camisa de dormir aromatizada de violeta lá cobria agora em Sião uma lânguida cinta de circassiana ou os seios cor de bronze de unia núbia de Cóscoro; a comprometedora oferta "ao meu portuguesinho valente" fora despregada, queimada no braseiro; já as rendas se iriam esgarçando no serviço forte do amor; e rota, suja, gasta, ela bem depressa seria arremessada ao lixo secular de Jerusalém! Sim, nada se poderia interpor, entre a minha justa sofreguidão e a bolsa verde da Titi. Nada, a não ser a carne mesma da velha, a sua carcaça rangente, habitada por uma teimosa chama vital, que se não quisesse extinguir!... Oh fado horrível! Se a Titi obstinada, renitente, vivesse ainda quando abrissem os cravos do outro ano! E então não me contive. Atirei a alma para as alturas, gritei desesperadamente, em toda a ânsia do meu desejo:
- Oh Santa Virgem Maria, faze que ela rebente depressa!
Nesse momento soou a grossa sineta do pátio. E foi-me grato reconhecer, depois da longa separação, as duas badaladas curtas e tímidas do nosso modesto Justino; mais grato ainda sentir, logo após, o repique majestoso do Doutor Margaride. Imediatamente a Titi escancarou a porta do meu quarto, numa penosa atarantação:
- Teodorico, filho, ouve! Tem-me estado a lembrar... Parece-me que para destapar a relíquia é melhor esperar até que se vão logo embora o Justino e o Margaride! Ai, eu sou muito amiga deles, são pessoas de muita virtude... Mas acho que para uma cerimônia destas é melhor que estejam só pessoas de igreja...
Ela, pela sua devoção, considerava-se pessoa de igreja. Eu, pela minha jornada, era quase pessoa do céu.
- Não, Titi... O Patriarca de Jerusalém recomendou-me que fosse diante de todos os amigos da casa, na capela, com velas... E mais eficaz... E olhe, diga à Vicência que me venha buscar as botas para limpar.
- Ai eu lhas dou!... São estas? Estão sujinhas, estão! Já cá te vêm, filho, já cá te vêm!
E a senhora Dona Patrocínio das Neves agarrou as botas! E a senhora Dona Patrocínio das Neves levou as botas!
Ah, estava mudada, estava bem mudada!... E ao espelho cravando no cetim da gravata uma cruz de coral de Malta, eu pensava que desde esse dia ia reinar ali, no Campo de Santana, de cima da minha santidade, e que para apressar a obra lenta da morte - talvez viesse a espancar aquela velha.
Foi-me doce, ao penetrar na sala, encontrar os diletos amigos, com casacos sérios, de pé, alargando para mim os braços extremosos. A Titi pousava no sofá, tesa, desvanecida, com cetins de festa e com jóias. E ao lado, um padre muito magro vergava a espinha com os dedos enclavinhados no peito - mostrando numa face chupada dentes afiados e famintos. Era o Negrão. Dei-lhe dous dedos, secamente:
- Estimo vê-lo por cá...
- Grandíssima honra para este seu servo! - ciciou ele, puxando os meus dedos para o coração.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o abajur do candeeiro - para que a luz me banhasse, e se pudesse ver, na madureza do meu semblante, a eficácia da minha peregrinação.
Padre Pinheiro decidiu, com um sorriso de doente:
- Mais magro!
Justino hesitou, fez estalar os dedos:
- Mais queimado!
E o Margaride, carinhosamente:
- Mais homem!
O onduloso Padre Negrão revirou-se, arqueado para a Titi como para um sacramento entre os seus molhos de luzes:
- E com um todo de inspirar respeito! Inteiramente digno de ser o sobrinho da virtuosíssima Dona Patrocínio!...
No entanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: "E a saudinha?" "Então, Jerusalém?" "Que tal as comidas?
Mas a Titi bateu com o leque no joelho, num receio que tão familiar alvoroço importunasse São Teodorico. E o Negrão acudiu, com um zelo melífluo:
- Método, meus senhores, método!... Assim todos à uma não se goza... É melhor deixarmos falar o nosso interessante Teodorico!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.