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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Já pelos pátios, em torno da Alcáçova, corria um precipitado fragor de armas. Aos ásperos comandos dos almocadéns as filas de besteiros, de arqueiros, de fundibulários rolavam dos adarves dos muros para cerrar as quadrilhas. Rapidamente, os cavalariços da carga amarravam sobre o dorso das mulas os caixotes do almazém, os alforjes da trebalha. Pelas portas baixas da cozinha, peões e sergentes, antes de largar, bebiam à pressa uma conca de cerveja. E no campo das barreiras os Cavaleiros, chapeados de ferro, carregadamente se içavam, com a ajuda dos donzéis, para as altas selas dos ginetes - logo ladeados pelos seus infanções e acostados, que aprumavam a lança sobre o coxote assobiando aos lebréus.

Enfim o Alferes, Afonso Gomes, sacou da funda e desfraldou o pendão num embalanço largo em que as asas do Açor negrejaram, abertas, como soltando o vôo enfurecido. O grito agudo do Adail ressoara por toda a cerca - ala! ala! De cima de um marco de pedra, junto ao postigo da barbacã, Frei Múncio estendia as magras mãos ainda trêmulas, abençoava a hoste. Então Tructesindo, sobre o seu murzelo, recebeu do velho Ordonho a espada, de que tão terrivelmente se apartara. E, estendendo a reluzente folha para as torres da sua Honra como para um altar, bradou:

- Muros de Santa Irenéia, não vos torne eu a ver, se em três dias, de sol a sol, ainda restarsangue maldito nas veias do traidor de Baião!

E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao pendão solto - enquanto, na torre de Almenara, sob o parado esplendor da sesta de agosto, o sino grande começava a tanger a finados.

Quando Gonçalo à tarde, enterrado na poltrona à varanda, releu este Capítulo de sangue e furor sobre que se esfalfara durante a semana, pensou "que o lance impressionaria".

Sentiu então o apetite de recolher sem demora os louvores merecidos - e de mostrar a Gracinha e ao Padre Soeiro os três Capítulos completos antes de remeter o manuscrito para os Anais. E mesmo lhe convinha - porque a erudição arqueológica do Padre Soeiro forneceria talvez algum traço novo, bem Afonsino, que mais avivasse aquela ressurreição da Honra de Santa Irenéia e dos seus senhores formidáveis. Imediatamente resolveu partir de manhã para Oliveira com o seu trabalho - que, depois de esmiuçado pelo Padre Soeiro, confiaria ao procurador de D. Arminda Vilegas para ele o copiar naquela sua formosa letra, tão celebrada em todo o Distrito e apenas igualada (nas maiúsculas) pela do Escrivão da Câmara Eclesiástica.

Sacudia já da poeira uma antiga pasta de marroquim para transportar a Obra amada - quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de vime que uma toalha de rendas cobria.

- Um presente.

- Um presente... De quem?

- Da Feitosa, das senhoras.

- Bravo!

- E com uma carta, que vem pregada na toalha.

Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o sobrescrito! Mas, apesar de lacrado com um pomposo selo de Armas, apenas continha linhas a lápis num bilhete de visita da prima Maria Mendonça:

- "Ontem ao jantar contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêssegos sobretudo aboborados emvinho, e a Anica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho de pêssegos da Feitosa, que como sabe são falados em todo o Portugal... Mil saudades".

- Gonçalo imaginou logo no fundo da cesta, debaixo dos pêssegos, docemente escondida, umacartinha da D. Ana!

- Bem! São pêssegos... Deixa ai sobre uma cadeira...

- Era melhor que os levasse já para a copa, Sr. Dr., para os arrumar na prateleira...

- Deixa sobre a cadeira!

Apenas o Bento cerrara a porta, estendeu no chão a toalha, entornou cuidadosamente por cima os pêssegos formosos que perfumavam a Livraria. No fundo da cesta encontrou apenas folhas de palra. Levemente desconsolado, cheirou um pêssego. Depois considerou que os pêssegos, arranjados por ela, com parra que ela apanhara na latada, sob toalha que ela escolhera no armário, formavam na sua mudez cheirosa um recadinho sentimental. Ainda agachado na esteira, comeu o pêssego: - e recolocou os outros na cesta para os levar a Gracinha.

Mas, ao outro dia, às duas horas, já com a parelha do Torto engatada à caleche, já com as luvas calçadas para a jornada de Oliveira, recebeu uma inesperada visita a visita do Sr. Visconde de Rio-Manso. Descalçando as luvas o Fidalgo pensava: - "O Rio-Manso! Que me quererá esse casmurro?" - Na sala, pousado à beira do canapé de veludo verde e esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de Vila-Clara e diante do portão da Torre vencera o seu teimoso acanhamento para apresentar os seus respeitos ao Sr. Gonçalo Ramires. E não só para esse gostoso dever - mas também (como soubera que S. Exa. se propunha Deputado pelo Circulo) para lhe oferecer na freguesia de Canta-Pedra o seu préstimo e os seus votos...

(continua...)

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