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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Mas daqui até lá! suspirou João Eduardo, que pensava com amargura que, quando a revolução viesse já seria tarde para recuperar a Ameliazinha...

O tio Osório então apareceu com a garrafa.

- Ora até que enfim, seu fidalgo! disse o tipógrafo a trasbordar de sarcasmo.

- Não se pertence à classe, mas é-se tratado por ela com consideração, replicou logo o tio Osório, que a satisfação fazia parecer mais pançudo. - Por causa de meia dúzia de votos!

- Dezoito na freguesia, e esperanças de dezenove. E que se há-de servir mais aos cavalheiros? Nada mais?... Pois é pena. Então é beber-lhe, é beber-lhe!

E correu a cortina, deixando os dois amigos em frente da garrafa cheia, aspirarem a uma Revolução que lhes permitisse - a um reaver a menina Amélia, a outro espancar o patrão Godinho.

Eram quase cinco horas quando saíram enfim do cubículo. O tio Osório, que se interessava por eles por serem rapazes de instrução, notou logo, examinando-os do canto do balcão onde saboreava o seu Popular, que vinham tocaditos. João Eduardo, sobretudo, de chapéu carregado e beiço trombudo: "pessoa de mau vinho", pensou o tio Osório, que o conhecia pouco. Mas o Sr. Gustavo, como sempre, depois dos três litros, resplandecia de júbilo. Grande rapaz! Era ele que pagava a conta; e gingando para o balcão, batendo de alto com as suas duas placas:

- Encafua mais essas na burra, Osório pipa!

- O que é pena é que sejam só duas, Sr. Gustavo.

- Ah bandido! imaginas que o suor do povo, o dinheiro do trabalho é para encher a pança dos Filistinos? Mas não as perdes! Que no dia do ajuste de contas quem há-de ter a honra de te furar esse bandulho há-de ser cá o Bibi... E o Bibi sou eu... Eu é que sou o Bibi! Não é verdade, João, quem é o Bibi?

João Eduardo não escutava; muito carrancudo, olhava com desconfiança um borracho, que na mesa do fundo, diante do seu litro vazio, com o queixo na palma da mão e o cachimbo nos dentes, embasbacara, maravilhado, para os dois amigos.

O tipógrafo puxou-o para o balcão:

- Diz aqui ao tio Osório quem é o Bibi! Quem é o Bibi?... Olhe para isto, tio Osório! Rapaz de talento, e dos bons! Veja-me isto! Com duas penadas dá cabo do Ultramontanismo! É cá dos meus! Também entre nós é para a vida e para a morte. Deixa lá a conta, Osório barrigudo, ouve o que te digo! Este é dos bons... E se ele aqui voltar e quiser dois litros a crédito, é dar-lhos... Cá o Bibi responde por tudo.

- Temos pois, começou o tio Osório, iscas a dois, salada a dois...

Mas o borracho arrancara-se com esforço ao seu banco: de cachimbo espetado, arrotando forte, veio plantar-se diante do tipógrafo, e, tremeleando nas pernas, estendeu-lhe a mão aberta.

Gustavo considerou-o de alto, com nojo:

- Que quer você? Aposto que foi você que berrou há pouco: Viva Pio Nono! Seu vendido... Tire para lá a pata!

O borracho, repelido, grunhiu; e, embicando contra João Eduardo, ofereceu-lhe a mão espalmada.

- Arrede para lá, seu animal! disse-lhe o escrevente desabrido.

- Tudo amizade... Tudo amizade... resmungava o borracho.

E não se arredava, com os cinco dedos muito espetados, despedindo um hálito fétido.

João Eduardo, furioso, atirou-o de repelão contra o contador.

- Brincadeiras de mãos, não! exclamou logo severamente o tio Osório. Brutalidades, não!

- Que se não metesse comigo, rosnou o escrevente. E a você faço- lhe o mesmo...

- Quem não tem decência vai para a rua, disse muito grave o tio Osório.

- Quem vai para a rua, quem vai para a rua? rugiu o escrevente, empinando-se, de punho fechado. Repita lá isso de ir para a rua! Com quem está você a falar?

O tio Osório não replicava, apoiado sobre as mãos ao balcão, patenteando os seus enormes braços que lhe faziam o estabelecimento respeitado.

Mas Gustavo, com autoridade, pôs-se entre os dois, e declarou que era necessário ser-se cavalheiro! Questões e más palavras, não! Podia-se chalacear e troçar os amigos, mas como cavalheiros!

E ali só havia cavalheiros.

Arrastou para um canto o escrevente, que resmungava muito ressentido.

- Oh, João! oh, João! dizia-lhe com grandes gestos, isso não é dum homem ilustrado!

Que diabo! Era necessário ter-se boas maneiras! Com repentes, com vinho desordeiro, não havia pândega, nem sociedade, nem fraternidade!

Voltou ao tio Osório, falando-lhe sobre o ombro, excitado:

- Eu respondo por ele, Osório! É um cavalheiro! Mas tem tido desgostos, e não está acostumado a um litro de mais. É o que é! Mas é dos bons... Você desculpe, tio Osório. Que eu respondo por ele...

(continua...)

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