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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Logo se verá. À noite é que se desencaixotam as relíquias... Foi o que me recomendou o patriarca de Jerusalém... Em todo o caso acenda a Titi mais quatro luzes, que até a madeirinha é santa!

Acendeu-as, submissa; colocou, com beato cuidado, o caixote sobre o altar; depôs-lhe um beijo chilreado e longo; estendeu-lhe por cima uma esplêndida toalha de rendas... Eu então, episcopalmente, tracei sobre a toalha, com dous dedos, uma bênção em cruz.

Ela esperava, com os óculos negros postos em mim, embaciados de ternura:

- E agora, filho, agora?

- Agora o jantarinho, Titi, que tenho a tripa a tinir...

A senhora Dona Patrocínio logo, apanhando as saias, correu a apressar a Vicência. Eu fui desafivelar a maleta para o meu quarto - que a Titi esteirara de novo; as cortinas de cassa tufavam, tesas de goma; um ramo de violetas perfumava a cômoda.

Longas horas nos detivemos à mesa - onde a travessa de arroz-doce ostentava as minhas iniciais, debaixo de um coração e de uma cruz, desenhadas à canela pela Titi. E, inesgotavelmente, narrei a minha santa jornada. Disse os devotos dias do Egito, passados a beijar uma por uma as pegadas que lá deixara a Santa Família na sua fuga; disse o desembarque em Jafa com o meu amigo Topsius, um sábio alemão, doutor em teologia, e a deliciosa missa que lá saboreáramos; disse as colinas de Judá cobertas de presepes onde eu, com a minha égua pela rédea, ia ajoelhar, transmitindo às imagens e às custódias os recados da tia Patrocínio... Disse Jerusalém, pedra a pedra! E a Titi, sem comer, apertando as mãos, suspirava com devotíssimo pasmo:

- Ai que santo! Ai que santo ouvir estas cousas! Jesus, até dá uns gostinhos por dentro!...

Eu sorria, humilde. E cada vez que a considerava de soslaio, ela me parecia outra Patrocínio das Neves. Os seus fundos óculos negros, que outrora reluziam tão asperamente, conservavam um contínuo embaciamento de ternura úmida. Na voz, que perdera a rispidez silvante, errava, amolecendo-a, um suspiro acariciador e fanhoso. Emagrecera; mas nos seus secos ossos parecia correr enfim um calor de medula humana! Eu pensava - "Ainda a hei de pôr como um veludo." E, sem moderação, prodigalizava as provas da minha intimidade com o céu.

Dizia: - "Uma tarde, no Monte das Oliveiras, estando a rezar, passou de repente um anjo..." Dizia: - "Tirei-me dos meus cuidados, fui ao túmulo de Nosso Senhor, abri a tampa, gritei para dentro..."

Ela pendia a cabeça, esmagada, ante estes privilégios prodigiosos, só comparáveis aos de Santo Antão ou de São Brás.

Depois enumerava as minhas tremendas rezas, os meus terríficos jejuns. Em Nazaré, ao pé da fonte onde Nossa Senhora enchia o cântaro, rezara mil ave-marias, de joelhos à chuva... No deserto, onde vivera São João, sustentara-me como ele de gafanhotos...

E a Titi, com baba no queixo:

- Ai que ternura, ai que ternura, os gafanhotinhos!... E que gosto para o nosso rico São João!... Como ele havia de ficar! E olha, filho, não te fizeram mal?

- Se até engordei, Titi! Nada, era o que eu dizia ao meu amigo alemão: "Já que a gente veio a uma pechincha destas, é aproveitar, e salvar a nossa alminha..."

Ela virava-se para a Vicência - que sorria, pasmada, no seu pouso tradicional entre as duas janelas, sob o retrato de Pio IX e o velho óculo do Comendador G. Godinho:

- Ai Vicência, que ele vem cheinho de virtude! Ai que vem mesmo atochadinho dela!

- Parece-me que Nosso Senhor Jesus Cristo não ficou descontente comigo! - murmurava eu, estendendo a colher para o doce de marmelo.

E todos os meus movimentos (até o lamber da calda) os contemplava a odiosa senhora, venerandamente, como preciosas ações de santidade.

Depois, com um suspiro:

- E outra cousa, filho... Trazes de lá algumas orações, das boas, das que te ensinassem por lá os patriarcas, os fradezinhos?...

- Trago-as de chupeta, Titi!

E numerosas, copiadas das carteiras dos santos, eficazes para todos os achaques! Tinha-as para tosses; para quando os gavetões das cômodas emperram, para vésperas de loteria...

- E terás alguma para cãibras? Que eu às vezes, de noite, filho...

- Trago uma que não falha em cãibras. Deu-ma um monge meu amigo a quem costuma aparecer o Menino Jesus...

Disse - e acendi um cigarro.

Nunca eu ousara fumar diante da Titi! Ela detestara sempre o tabaco, mais que nenhuma outra emanação do pecado. Mas agora arrastou gulosamente a sua cadeira para mim - como para um milagroso cofre, repleto dessas rezas que dominam a hostilidade das cousas, vencem toda a enfermidade, eternizam as velhas sobre a terra.

- Hás de ma dar, filho... E uma caridade que fazes!

- Oh, Titi, ora essa! - Todas! E diga, diga lá... Como vai a Titi dos seus padecimentos?

Ela deu um ai, de infinito desalento. Ia mal, ia mal... Cada dia se sentia mais fraca, como se se fosse a desfazer... Enfim, já não morria sem aquele gostinho de me ter mandado a Jerusalém visitar o Senhor; e esperava que ele lho levasse em conta, e as despesas que fizera, e o que lhe custara a separação... Mas ia mal, ia mal!

(continua...)

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