Por Eça de Queirós (1925)
Arthur offereceu-lhe uma alguma cousa ; Nazareno recusou tudo, mesmo um charuto. Havia em toda a sua pessoa um retrahimento, uma congelação que desanimava Arthur e lhe esbatia a verbosidade como a humidade extingue uma fogueira : teve d'accender outro charuto para occupar uma pausa. Mas Nazareno disse-lhe então :
— O senhor vive em Lisboa
Infelizmente não. Contou eom sinceridade o que o trouxera á Capital : a publicação d'urn livro de versos, a representação d'um drama, o desejo d'um meio intelligente, litterario e o horror á provincia . . .
—E que tal se pensa ua provincia Boas idéas democraticas
Arthur riu. Qual ! Estava-se tão atrazado como I no tempo dos frades. Uma collecção de pequenos burguezes, imbecis, rotineiros, cacheticos ; meia duzia de ricaços que seduzem as raparigas e fazem eleições Citou exemplos d'Oliveira d'Azemeis, não duvidando, para lisongear o republicano e ter graça, fazer a caricatura da estupidez do Carneiro, dos vicios do Rabecaz, da devoção das tias E o pobre povo . . .
— Reza e paga — disse sombriamente Nazareno. Atirou o cigarro para o fundo da chavena, carregou na copa do chapéu com a mão espalmada e ergueu-se dizendo que para conversarem era melhor irem para fóra. Havia alli gente que escutava e nem toda a gente devia ouvir. E já á porta acrescentou, aprumando a estatura :
— Que eu para os espiões tenho em casa uma, bengala soffrivel,
Caminharam calados até ao Rocio. A noite tinha um vago ar lugubre : nuvens escuras cobriam e descobriam uma lua fria d'inverno, de tons lividos.
— Peço perdão disse Nazareno ; — a quem tenho a honra ?
— Arthur Corvello.
E para dar ao republicano uma impressão favoravel, propoz que fossem conversar para o Hotel Universal : tinha lá um quarto confortavel . . .
Porém Nazareno, com o tom hirto d'um devoto que allude a uma orgia —- respondeu quo não frequentava esses covis de conservadores Todo 0 luxo, com effeito, o irritava ; sem inveja, mas sobrio e simples, condemnava-o como funesto á democracia.
Arthur, receando que a elegancia da sua installacão o fizesse duvidar da sinceridade do seu liberalismo, apressou-se habilmente a denegrir o luxo — explicando que o que lhe convinha era viver n'um quartito modesto, que, no Universal, a frequentação dos conservadores e brasileiros o irritava, que fôra para lá mal informado, pondo nas suas explicações uma humildade e um fervor que todavia não acalmavam Nazareno.
— Não s'encontram n'esses sitios senão ladrões e devassos — disse elle.
Foi logo a opinião d'Arthur, e, satisfazendo o seu odio da vespera ao mesmo tempo que agradava a Nazareno, citou o Meirinho como a personificação d'aquella « corja da sociedade » : pintou-o como um idiota, occupado de cãezinhos de marquezas, intrujão, pedi.ndo dinheiro aqui e além, vendendo por preços de ladrão, fatos feitos que eximia aos direitos, inventando detalhes — para mostrar a sua veree d'artista e a sua indignação de justo,
— Todos os mesmos, todos os mesmos—- rosnava Nazareno.
Uma mulher coberta de luto adiantou-se para elles, pedindo esmola, com um murmurio plangente. Arthur, para mostrar o seu humanitarismo, apressou-se a dar-lhe uma moeda de prata, dizendo : pobre creatura, por esto frio ».
— O povo não precisa de caridade, precisa de justiça— disse dogmaticamente Nazareno.
Arthur, um pouco surprehendido da fórma litteraria do principio, objectou todavia que emquanto não vinha a justiça . . .
— É mau — interrompeu o republicano— acos tumar o povo a contar com a caridade. Elle sabe os seus direitos : que os realise !
Arthur sentia confusamente acudirem-lhe mui tas respostas, todas justas ; mas, por timidez, calou se, murmurando : talvez, talvez
O republicano começava a desagradar-lhe. As suas naturezas — uma toda de impressões, a outra toda de raciocinio discordavam, e havia entre elles como alguma cousa de frio, d'hostil, que os se parava. Mas o que mais descontentava Arthur era não vêr no republicano aquella bondade quente e evangelica, que era para elle o attributo melhor da democracia.
— Sobro que é o seu livro de versos — perguntou-lhe o outro.
Para dar uma idéa das tendencias do seu livro, fallou então na Ode á Li±erdade, na satyra Sociedade. Era um livro democratico A poesia moderna, como dizia o Damião, devia ser revolucionaria. Mas Nazareno detestava a poesia: a sua fórma
luxuosa. totalmente idealista, servia apenas para amollecer as virilidades. Nunca lia poetas.
Arthur, offendido, exclamou :
— Mas Alfred de Musset, Garrett
— Pulhas ! — disse dogmaticamente o republicano. — Musset era um libertino, um bebedo, um bohemio, que nunca comprehendeu o seu tempo e que o que soube celebrar foi a luxuria ! E Garrett, um janota ! Usava espartilhos e em pleno seculo XIX vem-nos fallar de romances de cavallaria e d 'outras pieguices gothicas . . . Um vendido !
Arthur sentia-se indignado. E que tinha a dizer de Lamartine
— Um erotlco !
— Ora essa ! Mas em 48 . . .
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.