Por Eça de Queirós (1888)
O criado trouxe o cognac. Então Carlos, preparando vagarosamente o seu refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez, quasi córando, fez, atravez de grandes silencios,
perguntas sobre os Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisição preciosa. A senhora era muito madrugadora, dizia o criado: ás sete horas tinha tomado banho, estava vestida, e sahia só. O sr. Castro Gomes, que dormia n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, á noite, ficava uma eternidade á meza, fumando cigarettes e molhando os beiços em copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o dominó. A senhora tinha montões de flôres no quarto; e tencionavam ficar até domingo, mas fôra ella que apressára a partida...
- Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a partida?...
- Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V. ex.ª toma mais cognac?
Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terraço. A tarde descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle tel-ahia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terraço, vendo tambem cahir a tarde - se ella não estivesse impaciente por tornar a vêr a filha, algum bébésinho loiro que ficára só com a ama. Assim, a brilhante deusa era tambem uma boa mamã; e isto dava-lhe um encanto mais profundo, era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento humano nas suas bellas fórmas de marmore.
Agora, já ella estava em Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu peignoir, com o cabello enrolado á pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bébé nos seus explendidos braços de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a assim adoravel, todo o seu
coração fugia para ella... Ah! poder ter o direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto, sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bébé. E, pouco a pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente, levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia, escondida n'um ninho de flôres e de sol, longe, n'algum canto da Italia...
E, toda a sorte de idéas d'amor, de devoção absoluta, de sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente - emquanto os seus olhos se esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa côr d'ouro pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida do sol, que mergulhava lentamente no mar...
- Oh Carlos, tu estás ahi?
Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle. Carlos appareceu á varanda do terraço.
- Que diabo estás tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando alegremente o seu panamá. Nós lá estivemos á espera, no covil real... Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te á cadeia!
E o poeta riu largamente da sua pilheria - emquanto Cruges, ao lado, de mãos atraz das costas, e a face erguida para o terraço, bocejava desconsoladamente.
- Vim refrescar, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava com sêde.
Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terraço - depois de ter gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima meia da fina.
- Viste o Paço, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle appareceu, arrastando os passos. Então, parece-me que o que nos resta a fazer é jantar, e abalar...
Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado d'aquelle vasto casarão historico, da voz monotona do cicerone mostrando a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha,
«melhores que as de Mafra,» o tira-botas de S. A.; e trazia de lá uma pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas residencias reaes.
E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, começava a entristecel-o.
Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo torpe do Palma e das damas, mandar vir á porta o break, e partir depois ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a Lisboa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.