Por Eça de Queirós (1875)
Gustavo ergueu-se para ir esbofetear o entremetido. Mas João Eduardo sossegou-o. E o tipógrafo, sentando-se tranqüilamente, rechupou o fundo do copo.
Então, com os cotovelos sobre a mesa, a garrafa entre eles, conversaram baixo, de rosto a rosto, sobre o plano do folheto. A coisa era fácil: escrevê-lo-iam ambos. João Eduardo queria-o em forma de romance, de enredo negro, dando ao personagem do pároco os vícios e as perversidades de Calígula e de Heliogábalo . O tipógrafo porém queria um livro filosófico, de estilo e de princípios, que demolisse de uma vez para sempre o Ultramontanismo! Ele mesmo se encarregava de imprimir a obra aos serões, grátis, já se sabe. - Mas apareceu-lhes então, bruscamente, uma dificuldade.
- O papel? Como se há-de arranjar o papel?
Era uma despesa de nove ou dez mil-réis; nenhum os tinha - nem um amigo que, por dedicação aos princípios, lhos adiantasse.
- Pede-os ao Nunes por conta do teu ordenado! lembrou vivamente o tipógrafo.
João Eduardo coçou desconsoladamente a cabeça. Estava justamente pensando no Nunes e na sua indignação de devoto, de membro da junta de paróquia, amigo do chantre, apenas lesse o panfleto! E se soubesse que era o seu escrevente que o compusera, com as penas do cartório, no papel almaço do cartório... Via-o já roxo de cólera, alçando sobre o bico dos sapatos brancos a sua pessoa gordalhufa, e gritando na voz de grilo - "Fora daqui, pedreiro-livre, fora daqui!"
- Ficava eu bem arranjado, disse João Eduardo muito sério, nem mulher, nem pão!
Isto fez lembrar também a Gustavo a cólera provável do doutor Godinho, dono da tipografia. O doutor Godinho, que depois da reconciliação com a gente da Rua da Misericórdia, retomara publicamente a sua considerável posição de pilar da Igreja e esteio da Fé...
- É o diabo, pode-nos sair caro, disse ele.
- É impossível! disse o escrevente.
Então praguejaram de raiva. Perder uma ocasião daquelas para pôr a calva à mostra ao clero!
O plano do folheto, como uma coluna tombada que parece maior, afigurava-se-lhes, agora que estava derrubado, duma altura, duma importância colossal. Não era jà a demolição local dum pároco celerado, era a ruína, ao longe e ao largo, de todo o clero, dos jesuítas, do poder temporal, de outras coisas funestas... - Maldição! se não fosse o Nunes, se não fosse o Godinho, se não fossem os nove mil-réis do papel!
Aquele perpétuo obstáculo do pobre, falta de dinheiro e dependência do patrão, que até para um folheto era estorvo, revoltou-os contra a sociedade.
- Positivamente é necessário uma revolução, afirmou o tipógrafo. É necessário arrasar tudo, tudo! - E o seu largo gesto sobre a mesa indicava, num formidável nivelamento social, uma demolição de igrejas, palácios, bancos, quartéis, e prédios de Godinhos ! - Outra do tinto, tio Osório!...
Mas o tio Osório não aparecia. Gustavo martelou a mesa a toda a força com o cabo da faca. E enfim, furioso, saiu fora ao contador "para arrebentar a pança àquele vendido que fazia assim esperar um cidadão".
Encontrou-o desbarretado, radiante, conversando com o barão de Via-Clara, que, em vésperas de eleições, vinha pelas casas de pasto apertar a mão aos compadres. E ali na taberna, parecia magnífico o barão, com a sua luneta de ouro, os botins de verniz sobre o solo térreo, tossicando ao cheiro acre do azeite fervido e das emanações das borras de vinho.
Gustavo, avistando-o, recolheu discretamente ao cubículo.
- Está com o barão, disse numa surdina respeitosa.
Mas vendo João Eduardo aniquilado, com a cabeça entre os punhos, o tipógrafo exortou-o a não esmorecer. Que diabo! No fim, livrava-se de casar com uma beata...
- Não me pode vingar daquele maroto! interrompeu João Eduardo com um repelão ao prato.
- Não te aflijas, prometeu o tipógrafo com solenidade, que a vingança não vem longe!
Fez-lhe então, baixo, a confidência "das coisas que se preparavam em Lisboa". Tinham-lhe afiançado que havia um clube republicano a que até pertenciam figurões - e que era para ele uma garantia superior de triunfo. Além disso, a rapaziada do trabalho mexia-se... Ele mesmo - e murmurava quase contra a face de João Eduardo, estirado sobre a mesa - fora falado para pertencer a uma seção da Internacional, que devia organizar um espanhol de Madri; nunca vira o espanhol, que se disfarçava por causa da policia; e a coisa falhara porque o Comitê tinha falta de fundos... Mas era certo haver um homem, que possuía um talho, que prometera cem mil-réis... O exército, além disso, estava na coisa: tinha visto numa reunião um sujeito barrigudo que lhe tinham dito que era major, e que tinha cara de major... - De modo que, com todos estes elementos, a opinião dele Gustavo, era que dentro de meses, governo, rei, fidalgos, capitalistas, bispos, todos esses monstros iam pelos ares!
- E então somos nós os reizinhos, menino! Godinho, Nunes toda a cambada ferramo-la na enxovia de S. Francisco. Eu a quem me atiro é ao Godinho... Padres, derreamo-los à pancada! E o povo respira, enfim!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.