Por Eça de Queirós (1900)
E, entregando a sua pesada lança de faia a um donzel, enfiou pela escada soturna da Torre albarrã. Em cima, no eirado, sussurrando um chuta! chuta! à fila de besteiros que guarnecia as ameias, atenta e com a besta encurvada - penetrou no miradouro, espiou pela seteira. O arauto de Baião galopara para o Cruzeiro, que uma selva movediça de lanças rodeava coriscando. E curto recado lançou - porque logo, no seu fouveiro acobertado por uma rede de malha acairelada de ouro, Lopo de Baião despegou do denso troço de Cavaleiros com a viseira erguida, sem lança ou ascuma de monte, e ociosas sobre o arção da sela mourisca as mãos onde se enrodilhavam as bridas de couro escarlate. Depois, a um toque arrastado de buzina, avançou para as barbacãs da Honra, vagarosamente, como se acompanhasse um saimento. Não movera o seu pendão amarelo e negro. Apenas seis infanções o escoltavam, também sem lança ou broquei, com sobrevestes de pano roxo sobre os saios de malha. Atrás quatro alentados besteiros carregavam aos ombros umas andas, toscamente armadas com troncos de árvores, onde um homem jazia estirado, como morto, coberto, contra o calor e os moscardos, por leves folhagens de acácia. E um monge seguia numa mula branca, segurando misturadamente com as rédeas um crucifixo de ferro, sobre que pendia a orla do seu capuz e uma ponta de barba negra.
Da seteira, mesmo sem descortinar por entre a camada de ramagens a face do homem estendido nas andas, o Sabedor adivinhou Lourenço Ramires, o doce afilhado que tanto amara, que tão bem ensinara a terçar lanças e a treinar falcões. E cerrando os punhos, gritando surdamente "Bem prestos! Besteiros, bem prestos!" - desceu a escura escadaria, tão arremessado pela cólera e pela mágoa que o seu elmo cavamente bateu contra o arco da porta, onde o esperava Tructesindo com os Cavaleiros parentes.
- Senhor primo! - bradou. - Vosso filho Lourenço está diante das barreiras da Honra deitadosobre umas andas!
Com um rosnar de espanto, um atropelo dos sapatos de ferro sobre as lajes sonoras, todos seguiram pela poterna da albarrã o Rico-homem - até o escadão de madeira que se empurrava contra a quadrela das barbacãs. E, quando o enorme velho surgiu no eirado, um silêncio pesou, tão ansioso, que se sentia para além do vergel o chiar triste e lento da nora e o latir dos mastins.
No terreiro, em frente à cancela gateada, o Bastardo esperava, imóvel sobre o seu ginete, com a formosa face bem levantada, a face de Choro-Sol, onde as barbas aneladas, caindo nas solhas do arnês, rebrilhavam como ouro novo. Vergando o capelo de ouropel, saudou Tructesindo com gravidade e preito. Depois alçou a mão, que descalçara do guante. E num considerado e sereno falar:
- Senhor Tructesindo Ramires, nestas andas vos trago vosso filho Lourenço, que em lide leal, novale de Canta-Pedra, colhi prisioneiro e me pertence pelo foro dos Ricos-homens de Espanha. E de Canta-Pedra caminhei com ele para vos pedir que entre nós findem estes homizios e estas feias brigas que malbaratam sangue de bons Cristãos... Senhor Tructesindo Ramires, como vós venho de Reis. De D. Afonso de Portugal recebi a pranchada de Cavaleiro. Toda a nobre raça de Baião se honra em mim... Consenti em me dar a mão de vossa filha D. Violante, que eu quero e que me quer, e mandai erguer a levadiça para que Lourenço ferido entre no seu solar e eu vos beije a mão de pai.
Das andas, que estremeceram sobre os ombros dos besteiros, um desesperado brado partiu:
- Não, meu pai!
E hirto na borda do eirado, sem descruzar os braços, o velho Tructesindo retomou o brado - que por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante e mais cavo:
- Meu filho, antes de mim, te respondeu, vilão!
Como se uma pontoada de lança lhe topasse o peito, o Bastardo vacilou na alta sela; e, colhido pelo repuxão das rédeas, o seu fouveiro recuou alteando a testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repulou contra a cancela. E Lopo de Baião, erguido sobre os estribos, gritava com ânsia, com furor:
- Sr. Tructesindo Ramires, não me tenteis!...
- Arreda, vilão e filho de viloa, arreda! - clamou soberbamente o velho, sem desprender osbraços de sobre o levantado peito, na sua rija imobilidade e teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo ferro.
Então o Bastardo, arrojando o guante contra o muro da barbacã, rugiu, chamejante e rouco:
- Pois pelo sangue de Cristo e pela alma de todos os meus te juro, que se me não dás nesteinstante essa mulher que eu quero e que me quer, sem filho ficas, que por minhas mãos, diante de ti e nem que todo o Céu acuda, lhe acabo o resto da vida!
Já na mão lhe lampejava um punhal. Mas num ímpeto de sublime orgulho, um ímpeto sobrehumano, em que cresceu como outra escura torre entre as torres da Honra, Tructesindo arrancara a espada:
- Com esta, covarde! com esta! Para que seja puro, não vil como o teu, o ferro que atravessar ocoração de meu filho!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.