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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbona. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e límpido foi sufocado pôr gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado, ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas idéias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte, mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, pôr entre magras mãos, que se estendiam levantadas para estrangular as idéias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola dum macfarlane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho:

-Que querem eles? É embirração com o professor... é política?

O velho abanou a cabeça, espirrando:

-Não... É sempre assim, agora, em todos os cursos... Não querem idéias... Creio que queriam cançonetas. É o amor da porcaria e da troça.

Então, indignado, berrei:

-Silêncio, brutos!

E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me berra: -Sale Maure!3

Ergui o meu grosso punho serrano – e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue pôr toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furacão de uivos e cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples.

Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o único dia alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização – vapores de aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafo no ventre...

Finalmente abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, as minhas despedidas à Cidade:

-Pois adeuzinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas! O que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio. Adeuzinho!

Na tarde do seguinte Domingo, debruçado da janela do comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo feito de azul e sol, avistei, na plataforma da quieta estação da minha aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei aquela tribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo duma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se açodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas. Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano e jaqueta, de novo me abraçou: -E esse Paris?

-Medonho!

Abri depois os braços para o bravo Jacintinho.

-Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro?

-É a bandeira do Castelo! – declarou ele com uma bela seriedade nos seus grandes olhos.

A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara mais; com ela almoçara, com ela descera de Tormes!

Bravo! E, prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris... Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência?

-Tudo ótimo! – gritou Jacinto. – A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização.

No largo pôr trás da estação, debaixo dos eucaliptos, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro o heróico Jacintinho, um e outro servidos à estribeira, pôr um criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que me sortira na Estação de Orleães toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:

-Deita isso fora!

(continua...)

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