Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Nunca ninguém lá subiu, nunca ninguém de lá desceu; que mistério há ali? Desde o começo do mundo aquele país aéreo está intacto, inexplorado, virgem. É decerto habitado: provam-no as arvores, os pássaros, a água doce que cai em cascatas pelo lado do monte: a largura em cima é de duas léguas.

Que espécie de homens habitam ali? Que raça? Que língua falam? Desde Adão, segundo a Bíblia, ou desde o primeiro macaco, segundo Darwin – habita ali uma tribo, uma nação.

Que civilização tem? Que estranhos animais se encontrarão ainda lá? Que estranhas árvores? Os jornais ingleses pedem, à uma, que se organize uma exploração, com balões, para subir lá e ver! Confesso que é tentador: quantas maravilhas a ciência poderá ali encontrar! É bem possível que lá vivam muitas das raças animais que no resto do globo desapareceram.

E que sensação a do explorador que, ao descer da barquinha do balão, ao aportar àquele mundo aéreo – visse um ser felpudo, um imenso macaco humano, fazendo pastar tranquilamente um rebanho de mastodontes?

III

Londres, 30 de Maio de 1877

Um jornal satírico de Londres, o Fun, publicava há dias o seguinte anúncio:

DEZ LIBRAS DE RECOMPENSA!!

aos exércitos russo e turco, oferecidas pelos correspondentes dos jornais e repórteres, se os ditos exércitos se comprometerem ao seguinte: travar uma batalha digna de um telegrama.

A monotonia da guerra, com efeito, faz a infelicidade dos correspondentes: eu mesmo estive demorando uns dias esta carta na esperança que os Russos ou Turcos, na Ásia ou no Danúbio, me oferecessem caritativamente algum episódio comovente ou algum feito decisivo. Mas nada!

Os Russos continuam a remeter para o Danúbio uma corrente copiosa e infindável de regimentos: Mas, à parte alguns duelos matinais de artilharia entre as duas margens, a campanha europeia do Danúbio – é como um livro de que apenas se escreveu o título. As pessoas ávidas de emoções e que desejam ter os nervos numa sobre-excitação interessante estão descontentes: a guerra apresenta a sensaboria de uma parada; algumas, mais desconfiadas, receiam um logro e que os diplomatas comecem a tratar da paz antes de os generais terem travado a guerra.

Não se perde por esperar, porém, e eu penso que, antes de pouco, a Turquia oferecerá amplamente motivos de sensações. A situação dos Turcos, com efeito, apresenta-se precária. Na Ásia, no Danúbio, em Constantinopla, por todo o império, aparecem, como as primeiras nódoas num corpo que gangrena, os primeiros indícios da catástrofe.

Na Ásia Menor os Russos prosperam. A tomada de Ardahan compromete consideravelmente a situação dos Turcos. A guarnição de Ardahan era de oito mil homens e parece que a resistência foi débil e ligeiramente covarde. Os Russos, senhores de Ardahan, podem fazer marchar com segurança uma outra coluna de exército sobre Erzerum. Os Turcos aí não podem oferecer uma defesa valiosa; diz-se mesmo que já abandonaram Erzerum e formaram mais para oeste um campo entrincheirado; se assim é, tomada a fortaleza de Kars e ocupada Erzerum, a Arménia está nas mãos dos Russos, e a campanha da Ásia Menor findou. Alguns telegramas de Constantinopla dizem, é verdade, que os Turcos retomaram Ardahan; mas esta notícia foi mandada para Constantinopla por chefes turcos, que dizem tê-la recebido do kamaikan de Daghestan, que declara tê-la recebido do kamaikan de uma outra tribo, que afirma tê-la ouvido dizer a um circassiano! E aqui está o sistema de informações do Ministério da Guerra em Constantinopla! Parece de uma ópera cómica, com música de Offenbach! O movimento de insurreição no Cáucaso com que os Turcos tanto contavam, abortou miseravelmente: algumas tribos circassianas, com efeito, levantaram-se mas sem organização, sem táctica, e em número muito diminuto para embaraçarem seriamente os Russos; o movimento foi facilmente dominado; diz-se que os Russos fizeram nos primeiros dias uma repressão sanguinária e feroz das tribos rebeldes: para assustar as populações faziam passar os revoltosos feitos prisioneiros, através das aldeias, carregados de grilhões, espicaçados pelas lanças dos cossacos e conduzidos como animais ferozes.

A tomada de Sokum Kale pelos turcos, que eles tanto cantaram, é, no fim de tudo, um feito insignificante, inútil e, por assim dizer, platónico. Sokum é uma pequena aldeia marítima, com casebres de pau, deliciosa como situação pitoresca, entre as suas colinas e os seus bosques de laranjeiras, mas inteiramente destituída de qualquer importância estratégica. Nas províncias do Sul da Ásia Menor, as tribos beduínas, inimigas do Turco, começam a mostrar uma agitação inquietadora; têm aparecido em força junto de Jerusalém e em todo o vale do Jordão; os governadores locais pedem reforços para Constantinopla; uma insurreição beduína seria, neste momento; mais uma complicação infeliz, na lista terrível das complicações infelizes da Turquia.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →