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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Isto fazia necessariamente que parte da população «tiritasse de frio e rabeasse de fome». Era certamente lamentável, e ele, com o seu grande e vasto coração que palpitava a todo o sofrimento, lamentava-o. Mas a essa classe devia ser dada a esmola com método e discernimento: e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava muito a caridade privada, sentimental, toda de espontaneidade. A caridade devia ser disciplinada, e, por amor dos desprotegidos, regulamentada: por isso queria o Asilo, o Recolhimento dos Desvalidos, onde os pobres, tendo provado com bons documentos a sua miséria, tendo apresentado bons atestados de moralidade, recebessem do Estado, sob a superintendência de homens práticos e despidos de vãs piedades, um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome. O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade, e não ser admitido a vir perturbar com a expressão da sua face magra e com a narração exagerada das suas necessidades, as ruas da cidade. «Isole-se o pobre!» dizia ele um dia na Câmara dos Deputados, sintetizando o seu magnífico projecto para a criação dos Recolhimentos do Trabalho. O Estado forneceria grandes casarões, com celas providas de uma enxerga, onde.13 seriam acolhidos os miseráveis. Para conseguir a admissão, deveriam provar serem de maior idade, haverem cumprido os seus deveres religiosos, não terem sido condenados pelos tribunais (isto para evitar que operários de ideias subversivas que, pela greve e pelo deboche, tramam a destruição do Estado, viessem, em dia de miséria, pedir a esse mesmo Estado que os recolhesse). Deveriam ainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca terem vivido amancebados nem possuírem o hábito de praguejar e blasfemar. Reconhecidas estas qualidades elevadas com documentos dos párocos, dos regedores, etc., seria dada a cada miserável uma cela e uma ração de caldo igual à que têm os presos.

Mas, dir-se-á, o Estado, então sustenta-os de graça? Não, – poderia exclamar triunfantemente o Conde, mostrando as páginas admiráveis do seu regulamento, em que se estabelecia, com um profundo sentimento dos deveres do cidadão para com a cidade, que todo o pobre admitido seria forçado a uma considerável soma de trabalho, segundo as suas aptidões. O mais útil parágrafo, a meu ver, é aquele que determina que grupos de pobres sejam forçados a calçar as ruas, colocar as canalizações de gás, trabalhar em monumentos públicos, etc. Tais serviços, todos em favor da Câmara Municipal, obrigá-la- iam a concorrer para a despesa desta instituição, aliviando assim o Estado de uma grande parte dos gastos.

Uma vez admitidos, os recolhidos perderiam o direito de sair – a não ser que provassem que iriam dali ser empregados, de tal sorte que não lhes fosse possível recair nos acasos da miséria.

Em nenhuma legislação humana conheço instituição tão justa, tão eficaz, tão profundamente cristã, tão beneficamente social. E mesmo muito preferível ao Work-House inglês: ali, o pobre conserva uma soma de independência que lhe faz supor a existência de uma soma de direitos: considera-se ainda um cidadão, tem pretensões ao respeito, à igualdade, à consideração: desobedece, revolta-se, foge do Work-House, recai no deboche, na fome, na desordem, no vício. Aqui, não: o pobre fica prisioneiro da caridade! Perde o direito de ter fome. E as classes dirigentes, tendo a certeza de que os seus pobres lá estão, bem aferrolhados, com uma razoável enxerga e um caldo diário, podem dormir descansadas, sem receio de perturbações da ordem ou de revoltas do pauperismo.

Infelizmente este projecto tão perfeito, de que todos os jornais sérios falaram com palavras de comovida admiração, nunca conseguiu passar nas Câmaras. Motivos mesquinhamente governamentais impediram uma tão bela instituição de resolver o grande problema da miséria, pois é com estas sábias medidas que ela se arranca do seio da sociedade, e não com as vossas reformas hipócritas, sofistas da revolução social!

Foi esta instintiva repulsão pela pobreza, pelas maneiras rudes, pelas instalações incómodas, que impediu Alípio, desde que gozava na Quinta dos Miguéis as vantagens da educação e os regalos da riqueza, de visitar amiúde a casa modesta de seus pais. li porém uma calúnia dizerse – como o disseram certos panfletos indecorosos – que o Conde, já rico, já ministro, renegara a sua família.

É para mim uma honra, vir hoje, perante Portugal, explicar, destruir esse erro voluntário e hostil.

(continua...)

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