Por Eça de Queirós (1925)
Os Matas absorveram-me . .. • Sente-se no tom carta, apezar das vagas promessas, que a Capital está condemnada. Cansaço do assumpto ? Aborrecimento pelas discussões com o editor que o livro suscitára Quem o poderá dizer ? Trabalhara n'ella durante mais de dois annos, escrevera-a, recopiara-a, refundira-a em parte, emendara-lhe pelo menos metade dos capitulos ; depois, outros trabalhos intervieram, c outros estudos, outros livros o chamaram. t Isto estava na natureza do artista, e a historia devia repetir-se, como sempre se repete a historia : annos depois, a proposito de S. Frei Gil* que elle deixara estendido na relva, á beira d'um rio daro•, meu Pae dizia a Silva Pinto : continuara ene jámafs a sua Jornada para Toledo ? Não sei. Outros esc tudos, outros livros me teem chamado — e até outros santos que me reteem pela sua santidade mais dôce e mais simples. E assim o manuscripto do S. Frei GII, esquecido, ia fazer com. panhia ao esquecido manuscripto da Capital.
Com effeito, passam-se mezes, annos até, sem nada sabermos do romance. A correspondencia com o editor parece ter cessado — ou desappareceu — até que, a {6 de Março de 83, perante as reclamações de Chardron, meu Pae limita-se a responder friamente : cv. Ex.a tem razão em tudo o que diz a c respeito do seu direito d'editar a Capital. Esse direito adqui riu-o de facto, tendo começado a impressão d'uma especie de novella que tinha esse titulo e que originou o romance
Comtudo, é intenção minha que, querendo Deus, seja ainda c V. Ex. a , que edite A Capital. Tudo está em nos entenderC mos . . . .D
Entenderam-se ? Sobre A Capital, certamente que não, -pois que não tornamos mais a ouvir fallar no livro. Comtudo nao se separam ; faltam porém no archivo da Casa Chardron as cartas que poderiam dizer a que accordo definitivo chegaram o auctor e o editor. Sabe,se apenas que em 85, dous annos depois, Ernesto Chardron adquire Os Maias, vindo a falecer d'ahf a pouco. Succedem-lhe na casa Editora os Srs. Lugan 9 Genelioux : trocam-se cartas, renovam-se contractos, mas da Capital nunca mais ee falla. Depois, publica-se o Mandarim, imprimem-se Os Maias, lança-se a Revista de Portugal, apparecem as primeiras cartas de Fradique.
Estavarn• definitivamente postos de parte todos estes trabalhos de mocidade: A Tragedia da Rua das Flores, A Capital, O Alves, o Conde d'Abranhos; e todo esse mundo que um mo. mento vivera tão intensamente no espirito do artista, mergulha melancolicamente no esquecimento, e começa o seu longo somno de quarenta annos, no fundo d'uma gaveta, sob a capa de poeira dos manuscriptos desprezados.
Encontrados os manuscriptos, decifrados, conhecida a sua historiai era grande ainda a minha hesitação.
Seria legitima a publicação d'esses originaes que meu Pae deixara na gaveta da sua mesa de trabalho, que a sua penna núo retocara, que, na sua necessidade de perfeição, de certo consideraria como pastelões informes, elle que, escre vendo a Oliveira Martins, chamava aos Maias € um cartapacio extenso e sobrecarregado % e fallava da Reliquia a Luiz de Magalhães como d'um livreco defeituoso?
E, por outro lado, podiamos guardar para nós, egoistamente, a descobcrta maravilhosa, todo esse mundo 'que nos fôra desvendado, creado por meu Pae corn o seu sentimento da realidade, a sua arte de composição, a sua visão dos homens e das cousas, o seu espirito critico, a sua ironia, a sua origina[idade ?
E seria razoavel sepultar no fundo d'uma gaveta todos esses pedaços de vida palpitante, pela simples razão de serem apenas primeiras fórmas, escriptas ao correr da penna, sem preocupações de estylo, sem a absoluta perfeição de fórma da ou do Mandarim ?
Eu creio que a obra d'arte nho está exclusivamente na fórma, e que, pelo contrario, o seu maior valor reside na solidez da estructura d'um romance, na originalidade do assumpto, na agudeza da observação, na segurança da psychologia.
O facto mesmo de A Capital e A Tragedia da Rua das Flores terem sido mais tarde condensados nos dois volumes dos Maias, não me parece ainda razão sufficiente para condemnar aquelles dois romances a não verem a luz do sol, da critica e da publicidade. E se, na Tragedia da nua das Flo• res, o episodio sentimental em torno do qual gira toda a acção tem parentesco com o drama de Maria Eduarda e de Carlos da Maia, se, na Capital, ha tambem uma critica de Lisboa e das suas sociedades, os meios sociaes que estes livros descrevem, os caracteres novos que apresentam, a fórma diversa porque o mesmo assumpto foi tratado, afastam toda a idéa de rep€tição. Os Maias não são assim reeditados sob outras fórmas e outros titulos, mas, pelo contrario, completados com novos elementos, augmentada a galeria dos seus personagens, ficando nós conhecendo mais completamente tudo quanto a meu Pae suggeriu a Lisboa dos ultimos annos do seculo XIX.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.