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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— Meus senhores — continuou voltando-se para nós o mas carado -, damos-lhe a nossapalavra de honra que somos com pletamente estranhos a este sucesso. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Ima ginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quiserem. Imaginem que estão aqui pelaviolência, pela corrupção, pela astúcia, ou pela força da lei... como entenderem! o fac to é que ficam até amanhã. O seu quarto — disse-me — é naquela alcova, e o seu — apontou paraF... — lá dentro. Eu fico consigo, doutor, neste sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Amanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte à polícia ou escrever para os jornais.

Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquilida de. Não respondemos. Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. Numadas voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto de uma poltrona, uma coisa branca semelhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objectocaído. Era efectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com gran de delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e umacoroa.

Neste momento deram nove horas. Um dos mascarados excla mou, dirigindo-se a F... — Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é neces sário vendar-lhe os olhos.F... tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu ele mesmo os olhos, e saíram.Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz simpática e atraente.

Perguntou-me se queria jantar. Conquanto lhe respondesse negativamente, ele abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo deágua. Ele comeu.

Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quase em amizade. Eu sounaturalmente expansivo, o silêncio pesava-me. Ele era instruído, tinha viajado e tinha lido. De repente, pouco depois da uma da noite, sentimos na esca da um andar leve e cauteloso, e logo alguém tocar na porta do quar to onde estávamos, O mascara do tinha aoentrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobressaltados, O cadá ver achava-se coberto, O mascarado apagou as luzes.

Eu estava aterrado, O silêncio era profundo; ouvia-se apenas o ruído da chave que apessoa que estava fora às escuras procurava introduzir na fechadura.

Nós, imóveis, não respirávamos.Finalmente a porta abriu-se, alguém entrou, fechou-a, acen deu um fósforo, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, imóvel, com os braços estendidos.

Amanhã, mais sossegado e claro de recordações, direi o que se seguiu. P. S. — Uma circunstância que pode esclarecer sobre a rua e o sítio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocan do guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia-noite, O que cantava dizia esta quadra:

«Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um coração ofendido...»

Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notável esclarecimento dizendo em que rua passavam, e de fronte de quecasa, quando cantaram aquelas rimas populares.

V

Hoje, mais sossegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade,reconstruindo-o do modo mais nítido, nos diálogos e nos olhares, o que se seguiu à entrada imprevista daquela pessoa no quarto onde estava o morto. O homem tinha ficado estendidono chão, sem sentidos: molhámos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de toilette. Voltoua si, e, ainda trémulo e pálido, o seu primeiro movimento instintivo foi correr para a janela!

O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violência para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:

— Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, va ro- lhe o coração!- Vá, vá — disse eu. — Breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui?

Ele não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, re petia maquinalmente: — Está perdido tudo! Está tudo perdido!- Fale — disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço. — Que veio fazer aqui? Que é isto? Como soube?...A sua agitação era extrema: luziamlhe os olhos entre o cetim negro da máscara.

— Que veio fazer aqui? — repetiu agarrando-o pelos ombros e sacudindo-o como um vime. — Escute... — disse o homem convulsivamente. — Vinha sa ber... disseram-me... Não sei.

Parece que já cá estava a polida... queria saber a verdade, indagar quem o tinhaassassinado... vinha tomar informações...

(continua...)

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