Por Eça de Queirós (1925)
Mas havia ainda objetos dela: junto da cama estavam as suas chinelinhas, sobre a chaise-longue o chambre branco que ela trazia essa manhã. E outras coisas tinham sido já guardadas – os frascos de cristal do toucador que eram dela, e uma Nossa Senhora de madeira, em que ela tinha devoção Ele pousou a vela sobre o toucador – e o seu rosto apareceu-lhe pálido, envelhecido, olhando para ele com um ar de ruína e de abandono.
Tomou a vela, foi à sala de visitas. Aí ficara um ar de catástrofe. A pele de raposa estava enrolada para um lado, sobre a mesa junto do sofá, ainda estava a garrafa de vinho do Porto, e à borda uma ponta apagada do charuto do outro. E diante daquela ponta do charuto, uma raiva surda invadiu-o, pareceu-lhe sentir-se esbofeteado pôr uma mão de ferro, teve o estremecimento dum insulto maior, e jurou ser de bronze, nunca mais perdoar, mandar-lhe ele mesmo as malas embora, e ver o outro morto aos seus pés, ou morrer ele também.
Então imediatamente resolveu resistir àquele estado de perturbação e inquietação. Quis que no seu espírito reinasse a ordem; que tudo na casa retomasse o seu ar regular e calmo. Ela partira, as suas malas partiriam nessa noite. Daí pôr diante era um viúvo: mas o andamento da casa continuaria, com ordem e serenamente.
Gritou logo pôr Margarida.
— Então hoje não se janta nesta casa. São estas horas, e a mesa não está posta?
A criatura olhou para ele, como espantada de que ele quisesse jantar, ou de que se tornasse a jantar naquela casa. Ia decerto dizer alguma coisa: mas ele olhoua dum modo tão firme, que ela saiu de esguelha – e daí a um momento punha a mesa, apressando-se, mostrando zelo, como se quisesse fazer-se perdoar a sua vaga cumplicidade. E pôs na mesa tudo o que continha o cesto – o empadão, o fiambre, a torta de fruta.
Godofredo no entanto fora para o seu gabinete. Agora aquela idéia que o atravessara bruscamente ao recolher do passeio, a solução que lhe parecia ser a única possível, voltava, estabelecendo-se-lhe no espírito, tornando-se agora o centro de toda a sua atividade interior. E era isto, tirarem à sorte, ele e o outro, qual deles se devia matar!
E isto não lhe parecia excessivo, nem trágico, nem despropositado: pelo contrário era a coisa racional, digna, e de mais, a única possível. E parecia-lhe que estava raciocinando muito friamente. Um duelo à espada, dois negociantes em mangas de camisa, atirando-se cutiladas gochas, vãs, até que um se feria no braço, parecia-lhe ridículo: e não era menos trocarem duas balas de pistola, falharem-se, e cada um entre os seus padrinhos voltar a meter-se na carruagem de aluguel. Não. Para uma ofensa daquelas, só a morte: uma só pistola carregada, tirada ao acaso entre dois, disparada à distância dum lenço. Mas isto não era realizável. Onde encontrariam eles testemunhas que consentissem, quisessem partilhar a responsabilidade desta tragédia? Debalde se lhes explicaria a ofensa: o adultério é uma coisa grave, para o marido, os outros consideram-no um fracasso que não pede estes excessos de sangue. Além disso, se ele fosse o morto, bem, acabava-se: mas se visse cair o outro seus pés, qual seria depois a sua existência? Teria de fugir, abandonar o seus negócios, recomeçar a fortuna, numa terra estranha. Onde? E depois a grande dificuldade permanecia: onde haveria padrinhos para isso? Seria então o escândalo, o falatório, a verdade que se saberia. Enquanto do outro modo, tudo era fácil, secreto, decente ,sem incomodar ninguém. Tiravam à sorte: aquele que pudesse, matava-se dentro dum ano. Se ele perdesse não hesitaria um momento, matar-se-ia logo. E não duvidava um momento que o Machado aceitasse!... Como poderia recusar? Desonrara-o, devia pagar com o seu sangue. E no mesmo tempo tinha um vago pressentimento que seria ele que perderia... Acabou-se, tanto melhor. Que gozos lhe poderia trazer a vida, agora, naquela casa só, sempre só, e não tendo mesmo o gosto do trabalho, desde que não tinha prazer em gastar? E não hesitou um momento mais, escreveu logo um bilhete seco ao Machado, pedindo-lhe para comparecer, no dia seguinte, Domingo, às onze horas da manhã, no escritório... Fechava a carta quando a Margarida veio dizer que estava o jantar na mesa. Pôs rapidamente o chapéu, desceu à rua, deitou a carta na caixa da mercearia, entrou na sala de jantar – quando a cozinheira e a Margarida, diante da terrina de sopa que arrefecia, pasmavam daqueles modos do senhor. A presença da Margarida incomodava-o: sentia-a cúmplice, na confidência daquela infâmia. Um momento pensara em a despedir. Mas era como soltar, através doutras casas, e pelas casas das inculcadoras aquela língua de sopeira, contando e comentando a sua desgraça. Preferiu conservá-la, aturar-lhe a presença, manter-lhe o silêncio pelo receio de ser despedida...
Tinha desdobrado o guardanapo, levantando a terrina da sopa, quando a campainha retiniu com força.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.