Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Os negros remaram. Eu levava, pousado sobre os joelhos, o caixote da suprema relíquia. Mas quando o meu bote, à vela, fendia a água azul - passou rente de outro bote lento, levado a remos para o lado do palácio que dormia entre palmeiras. E num relance vi o hábito negro, o capuz descido... Um largo, sequioso olhar, pela vez derradeira, procurou as minhas barbas. De pé, ainda gritei: "Oh filhinha, oh magana!" Mas já o vento me levara. Ela, no seu bote, sumia a face contrita - e sobre o delicado peito que ousara arfar, decerto a cruz pesou mais forte, ciumenta e de ferro!

Fiquei mono... Quem sabe? Era aquele, talvez, em toda a vasta terra, o único coração em que o meu poderia repousar, como num asilo seguro... Mas quê! Ela era só monja, eu só sobrinho. Ela ia para o seu deus; eu ia para a minha tia. E quando nestas águas os nossos peitos se cruzavam, e sentindo a sua concordância, batiam mudamente um para o outro - o meu barco corria com vela alegre para Ocidente, e o barco que a levava, lento e negro, ia a remos para Oriente... Desencontro contínuo das almas congêneres - neste inundo de eterno esforço e de eterna imperfeição!

V

Duas semanas depois, rolando na tipóia do Pingalho pelo Campo de Santana, com a portinhola entreaberta e a bota estendida para o estribo, avistei entre as árvores sem folhas o portão negro da casa da Titi! E, dentro desse duro calhambeque, eu resplandecia mais que um gordo César, coroado de folhagens de ouro, sobre o seu vasto carro, voltando de domar povos e deuses.

Era decerto em mim o deleite de rever, sob aquele céu de janeiro, tão azul e tão fino, a minha Lisboa, com as suas quietas ruas cor de caliça suja, e aqui e além as tabuinhas verdes descidas nas janelas, como pálpebras pesadas de langor e de sono. Mas era, sobretudo, a certeza da gloriosa mudança, que se fizera na minha fortuna doméstica e na minha influência social.

Até aí, que fora eu em casa da senhora Dona Patrocínio? O menino Teodorico que, apesar da sua carta de doutor e das suas barbas de Raposão, não podia mandar selar a égua para ir espontar o cabelo à Baixa, sem implorar licença à Titi... E agora? O nosso Doutor Teodorico, que ganhara, no contato santo com os lugares do Evangelho, uma autoridade quase pontifical! Que fora eu até aí, no Chiado, entre os meus concidadãos? O Raposito, que tinha um cavalo. E agora? O grande Raposo, que peregrinara poeticamente na Terra Santa, como Chateaubriand, e que, pelas remotas estalagens em que pousara, pelas roliças circassianas que beijocara, podia parolar com superioridade na Sociedade de Geografia ou em asa da Benta Bexigosa...

O Pingalho estacou as pilecas. Saltei, com o caixote da relíquia estreitado ao coração... E, ao fundo do pátio triste, lajeado de pedrinha, vi a senhora Dona Patrocínio das Neves, vestida de sedas negras, toucada de rendas negras, arreganhando no carão lívido, sob os óculos defumados, as dentuças risonhas para mim!

- Oh, Titi!

- Oh, menino!

Larguei o caixote santo, caí no seu peito seco; e o cheirinho que vinha dela a rapé, a capela e a formiga, era como a alma esparsa das ousas domésticas que me envolvia, para me fazer reentrar na piedosa rotina do lar.

- Ai filho, que queimadinho que vens!...

- Titi, trago-lhe muitas saudades do Senhor...

- Dá-mas todas; dá-mas todas!...

E retendo-me, cingido à dura tábua do seu peito, roçou os beiços frios pelas minhas barbas - tão respeitosamente como se fossem as barbas de pau da imagem de São Teodorico.

Ao lado, a Vicência limpava o olho com a ponta do avental novo. O Pingalho descarregara a minha mala de couro. Então, erguendo o precioso caixote de pinho de Flandres benzido, murmurei, com uma modéstia cheia de unção:

- Aqui está ela, Titi, aqui está ela! Aqui a tem, aí lha dou, a sua divina relíquia, que pertenceu ao Senhor!

As emaciadas, lívidas mãos da hedionda senhora, tremeram ao tocar aquelas tábuas que continham o princípio miraculoso da sua saúde e o amparo das suas aflições. Muda, tesa, estreitando sofregamente o caixote, galgou os degraus de pedra, atravessou a sala de Nossa Senhora das Sete-Dores, enfiou para o oratório. Eu atrás, magnífico, de capacete, ia rosnando: "ora vivam! ora vivam!" – à cozinheira, à desdentada Eusébia, que se curvavam no corredor como à passagem do Santíssimo.

Depois, no oratório, diante do altar juncado de camélias brancas, fui perfeito. Não ajoelhei, não me persignei; de longe com dous dedos, fiz ao Jesus de ouro, pregado na sua cruz, um aceno familiar - e atirei-lhe um olhar, muito risonho e muito fino, como a um velho amigo com quem se tem velhos segredos. A Titi surpreendeu esta intimidade com o Senhor; e quando se rojou sobre o tapete (deixando-me a almofada de veludo verde), foi tanto para o seu Salvador como para o seu sobrinho, que levantou as mãos adorabundas.

Findos os padre-nossos de graças pelo meu regresso, ela, ainda prostrada, lembrou com humildade:

- Filho, seria bom que eu soubesse que relíquia é, para as velas, para o respeito...

Acudi, sacudindo os joelhos:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8788899091...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →