Por Eça de Queirós (1925)
N 'essa noite, entrando no Martinho, viu com prazer um logar vago junto á mesa onde, corno de costume, Jacome Yazareno tomava o seu café. Desde a vespera, o seu desejo de o conhecer redobrara. Repellido da suirée de D. Joanna pelo mundo conservador, official, esta belecido, tendia instinetivamente, no seu despeito, a refugiar-se no mundo revolucionario, revoltado, de que Nazareno lhe apparecia como o representante. A Inava sobre tudo a democracia por certos lados humanitarios, sentimentaes, reparadores, e suppunha nos homens quo a serviam um calor de coração, uma fraternidade sensivel, que a sua natureza effeminada appetecia—e que faltava á gente secca, fieticia, sem generosidade e sem entranhas que tanto o humilhara em Santa Isabel. Além d'lsso, devorava-o am desejo
vago de se vingar da Sociedade e queria concorrer para a sua destruição provavel, alfiando-se ao Nazareno e aos seus amigos, levando-lhes as suas poesias, o seu estylo, o seu dinheiro e o seu odio.
Para facilitar o conhecimento, teve o cuidado, ao sentar-se, de cumprimentar discretamente o republicano, e como reparara que elle nunca bebia alcoolicos, não tomou a sua genebra habitual : pediu anisette. Fumando devagar o seu charuto, revolvia phrases philosophicas que lhe diria, esperando uma casualidade que os reunisse, quando um sujeito d'aspecto doente e que parecia sahido d'um hospital, se approximou devagar de Nazareno : tinha os labios naturalmente entreabertos, o nariz afilado, uma pallidez oleosa, a barba desmazelada ; parecia sahir da cama e conservava ainda na pelle, na camisa sordida, na guedelha secca, o cheiro da febre e o relento dos suores ; apoiava ao marmore da mesa duas mãos lividas, molles, pegajosas, d'unhas negras e com uma voz debil, de rouquidão asthma. tica :
— Então quando fica prompto !
Nazareno, pousando o cigarro á beira do pires,
disse :
— D'aqui a quinze dias. Foi necessario pôr papel, que a parede estava ignobil.
A sua voz que Arthur ouvia pela primeira vez, tinha um timbre energico e resoluto. O doente varreu a mesa com a palma da mão, limpou os dentes com a lingua e pe:guntou mais baixo :
—O Mathias
— Tem a nevralgia hoje.
— Lá fallei com o homem d'Alcantara.
— Então
O doente estendeu o beiço, oscillou a cabeça :
— Sim, boas idéas, chega-se, mas . . , É preciso espicaçai-o. Vou mandal-o ámanhã ao Mathias !
— O Mathias ámanhã tem a nevralgia, tem sempre dous dias de nevralgia.
— Ah ! E o Damião Quando vem
Nazareno tirou do bolso um maço de papeis e mostrou-lhe uma carta. O doente leu, sorriu, mos trando as gengivas brancas e disse :
— Cousas do Damião . . . — Derramou em redor o seu olhar morbido, tossiu com fadiga e erguendo a gola do paletot :
— Vou-me chegando que está humido . . . Apparega, Nazareno.
O republicano retomara o seu jornal, mas Arthur tinha agora um pretexto, quasi o direito de lhe fallar : amigo de Damião, quereria saber se a sua ausencia se prolongaria na provincia. Animou-se, e córando, com o chapéu na mão, a voz acanhada :
— Eu peço perdão a V. Ex.a. Não tenho o gosto de o conhecer, mas . , . ouvi, sem querer, V. Ex. a, fallar no Damião. É o meu amigo intimo . De sejava saber se se demora, se , . .
— O Damião ainda tarda um mez.
Dobrou o jornal, bebeu um gole de café e ageitando as lunetas :
— Então conhece o Damião ?
Arthur apossou-se d'u.ma cadeira, estabeleceuse á mesa. Exagerou logo as suas relações com o Damião: eram intimos já desde Coimbra, tinham sido companheiros de casa, escreviam-se sempre . . , Elle até viera a Lisboa para viver com e]le . . . Infelizmente tinha partido. — Grande rapaz, hein ?
Nazareno teve um gesto de respeito sympathico, fez :
Arthur então exaltou Damião. Já em Coimbra era o centro das Intelligeneias. Era uma das fortes cabeças do paiz. E que espirito, hein ? ! E bom coracão. Não havia melhor no partido democratico —- Repetju duas vezes : o partido democratico, para se pôr com Nazareno em communhão d'idéas. Mas o republicano escutava-o. reservado, quebrando a cinza do cigarro no pires examinava-o com insistencia, pondo nos olhares, abrigados pelas lunetas defumadas, penetrações de bisturi.
— Conhece o Mathias ? — perguntou-lhe bruscamente.
Infelizmente não, e deseiava-o bem. E o snr.
Nazareno conhecia. o Fonseca Não ? Grande rapaz ! Vivia em Castello-Braüco. Ah, havia então, em Coimbra, no tempo do Pensamento, uma grande rapaziada. E havia união . . . O que faltava em Lisboa era união e —um jornal . . . ---- E surprehendido, contente da facilidade com que as palavras lhe acudiam, desforrava-se da mudez que o dominara na soirée de D. Joanna, mostrando-se ao Nazareno sob um aspecto captivante de moço enthusiasta e generoso.
O republicano respondia apenas por monosyllabos, uns sins rosnados, affirmações de cabeça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.