Por Eça de Queirós (1875)
João Eduardo fazia-se escarlate de indignação. Mesmo nos tempos da sua felicidade, quando tinha Amélia certa, aquela acusação (que o tipógrafo fazia só para questionar, para palrar) tê-lo-ia escandalizado. Mas hoje! Justamente quando ele perdera Amélia por ter dito de alto, num jornal, o seu horror a beatos! Hoje que se achava ali, com o coração partido, roubado de toda a alegria, exatamente pelas suas opiniões liberais!...
- Isso dito a mim tem graça! disse com uma amargura sombria.
O tipógrafo galhofou:
- Homem, não me constou ainda que fosses um mártir da liberdade!
- Por quem és não apoquentes, Gustavo, disse o escrevente muito chocado. Tu não sabes o que se tem passado. Se soubesses não me dizias isso!
Contou-lhe então a história do Comunicado - calando todavia que o escrevera num fogo de ciúmes, e apresentando-o como uma pura afirmação de princípios... E que notasse esta circunstância, ia então casar com uma rapariga devota, numa casa que era mais freqüentada por padres que a sacristia da
Sé...
- E assinaste? perguntou Gustavo, espantado da revelação.
- O doutor Godinho não quis, disse o escrevente corando um pouco.
- E deste-lhes uma desanda, hem?
- A todos, de rachar!
O tipógrafo, entusiasmado, berrou por "outra de tinto"!
Encheu os copos com transporte, bebeu uma grande saúde a João Eduardo.
- Caramba, quero ver isso! Quero mandá-lo à rapaziada em Lisboa!... E que efeito fez? - Um escândalo, mestre.
- E os padrecas?
- Em brasa!
- Mas como souberam que eras tu?
João Eduardo encolheu os ombros. O Agostinho não o dissera. Desconfiava da mulher do Godinho, que o sabia pelo marido, e que o fora meter no bico do padre Silvério, seu confessor, o padre Silvério da Rua das Teresas...
- Um gordo, que parece hidrópico?
- Sim.
- Que besta! rugiu o tipógrafo com rancor.
Olhava agora João Eduardo com respeito, aquele João Eduardo que se lhe revelara inesperadamente um paladino do livre pensamento.
- Bebe, amigo, bebe! dizia-lhe, enchendo-lhe o copo com afeto, como se aquele esforço heróico de liberalismo necessitasse ainda, depois de tantos dias, reconfortos excepcionais.
E que se tinha passado? Que tinha dito a gente da Rua da Misericórdia?
Tanto interesse comoveu João Eduardo: e dum fôlego fez a sua confidência. Mostrou-lhe mesmo a carta de Amélia que ela decerto, coitada, fora levada a escrever num terror do Inferno, sob a pressão dos padres furiosos...
- E aqui tens a vítima que eu sou, Gustavo!
Era-o com efeito; e o tipógrafo considerava-o com uma admiração crescente. Já não era o Pacatinho, o escrevente do Nunes, o chichisbéu da Rua da Misericórdia - era uma vítima das perseguições religiosas. Era a primeira que o tipógrafo via; e, apesar de não lhe aparecer na atitude tradicional das estampas de propaganda, amarrado a um poste de fogueira ou fugindo com a família espavorida a soldados que galopam da sombra do último plano, achava-o interessante. Invejava-lhe secretamente aquela honra social. Que chique que lhe daria a ele entre a rapaziada de Alcântara! Famosa pechincha, ser uma vítima da reação, sem perder o conforto das iscas do tio Osório e os salários inteiros ao sábado! - Mas sobretudo o procedimento dos padres enfurecia-o! Para se vingarem dum liberal, intrigarem-no, tirarem-lhe a noiva! - Oh, que canalha!... E esquecendo os seus sarcasmos ao Casamento e à Família, trovejou de alto contra o clero, que é quem sempre destrói essa instituição social, perfeita, de origem divina!
- Isso precisa uma vingança medonha, menino! É necessário arrasá-los! Uma vingança? João Eduardo desejava-a, vorazmente! Mas qual?
- Qual? Contar tudo no Distrito, num artigo tremendo!
João Eduardo citou-lhe as palavras do doutor Godinho: dali por diante o Distrito estava fechado aos senhores livres-pensadores!
- Cavalgadura! rugiu o tipógrafo.
Mas tinha uma idéia, caramba! Publicar um folheto! Um folheto de vinte páginas, o que se chama no Brasil uma mofina, mas num estilo floreado (ele se encarregava disso), caindo sobre o clero com um desabamento de verdades mortais!
João Eduardo entusiasmou-se. E diante daquela simpatia ativa de Gustavo, vendo nele um irmão, soltou as últimas confidências, as mais dolorosas. O que havia no fundo da intriga era a paixão do padre Amaro pela pequena, e era para se apoderar dela que o escorraçava a ele... O inimigo, o malvado, o carrasco - era o pároco!
O tipógrafo apertou as mãos na cabeça: semelhante caso (que todavia era para ele trivial, nas locais que compunha) sucedido a um amigo seu que estava ali bebendo com ele, a um democrata, parecialhe monstruoso, alguma coisa semelhante aos furores de Tibério na velhice, violando, em banhos perfumados, as carnes delicadas de mancebos patrícios.
Não queria acreditar. João Eduardo acumulou as provas. E então Gustavo, que tinha molhado vastamente de tinto as iscas de fígado, ergueu os punhos fechados, e com a face intumescida, dente rilhado, berrou em rouco:
- Abaixo a religião!
Do outro lado do tabique uma voz trocista grasnou em réplica:
- Viva Pio Nono!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.